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1 de agosto de 2025

Netanyahu está escolhendo matar Gaza de fome

Para acabar com a fome — e evitar o colapso social — em Gaza, Israel deve permitir que os profissionais de ajuda humanitária façam seu trabalho.

Alex de Waal
Alex de Waal é especialista em fome e resposta humanitária.


Matt Rota

A angústia persistente do tipo de fome que se instalou em Gaza perdura na memória pessoal e coletiva há gerações. A fome também perdura no corpo, especialmente nos jovens. Para crianças que sobrevivem à desnutrição aguda, os danos físicos e cognitivos resultantes podem durar a vida toda.

Aqueles de nós que estudam a fome há muitas décadas reconhecem os terríveis sinais de quando o colapso social é iminente — quando os laços que unem uma comunidade estão se esgarçando e a ordem está se rompendo. É um momento em que as taxas de mortalidade crescem exponencialmente e, a partir do qual, o tecido da sociedade se torna muito mais difícil de reparar. Essa desintegração pressagia caos e conflito, delinquência e uma desesperança feroz que pode gerar novos ataques terroristas. Gaza parece estar entrando nessa zona agora.

É uma calamidade previsível, e prevista. A fome leva tempo; as autoridades não podem matar uma população de fome por acidente. Desde março de 2024, organismos internacionais têm alertado repetidamente que Gaza está à beira da fome. Esta semana, um grupo apoiado pela ONU emitiu mais um alerta de que "o pior cenário de fome está se concretizando". Especialistas em segurança alimentar não tiveram acesso aos dados necessários para fazer um julgamento final sobre se as condições em Gaza constituem oficialmente uma situação de fome. Neste momento, a distinção é irrelevante.

Profissionais experientes em ajuda humanitária ainda podem resgatar Gaza da beira do abismo — se tiverem a oportunidade. Durante meses, Israel restringiu o fluxo de ajuda para Gaza, alimentando uma crise de fome que se agrava a cada dia. Os estoques de alimentos já estavam extremamente baixos em março, quando Israel impôs um bloqueio ao enclave, citando alegações não verificadas de que o Hamas vinha roubando alimentos da ONU sistematicamente.

Quando Israel aliviou parcialmente as restrições em maio, começou a operar um novo sistema de distribuição de ajuda, apoiado por Israel e pelos EUA, administrado por um grupo privado chamado Fundação Humanitária de Gaza, substituindo em grande parte as agências de ajuda tradicionais. Este sistema ignorou tão completamente as condições locais que levanta a questão de se Israel estaria intencionalmente planejando a fome na Faixa de Gaza.

A ajuda fornecida pela GHF é inadequada sob vários aspectos. As caixas de ração do grupo, segundo nutricionistas, são desequilibradas e carecem de nutrientes essenciais para populações famintas, especialmente crianças. Uma criança desnutrida precisa de alimentos especializados, como Plumpy'Nut, uma fórmula terapêutica à base de amendoim — não macarrão ou lentilhas, que a GHF oferece. Os mais gravemente desnutridos precisam de cuidados intensivos em um hospital. Para preparar os alimentos incluídos nas caixas de ração, as pessoas também precisam frequentemente de combustível e água limpa, ambos escassos em Gaza.

Mesmo que a GHF estivesse fornecendo ajuda adequada em Gaza, isso não garante que ela chegaria às pessoas que mais precisam. O grupo substituiu os cerca de 400 centros de distribuição de ajuda anteriormente administrados pela ONU e suas afiliadas por apenas quatro postos de abastecimento, distantes de onde a maioria das pessoas mora atualmente e abertos apenas por um curto período e com aviso prévio curto. Para ter acesso a esses locais de distribuição de rações, as pessoas tinham que permanecer em zonas militares, prontas para entrar correndo assim que abrissem. Multidões acabaram sendo afuniladas em postos militares israelenses — e dezenas foram mortas em dias em que soldados israelenses ou contratados militares privados abriram fogo ou em meio a uma debandada.

Os recentes lançamentos aéreos pouco fizeram para aliviar a situação em terra: as quantidades de ajuda são muito pequenas e não há mecanismo para garantir que cheguem às populações mais vulneráveis de Gaza. Já vimos suprimentos lançados por via aérea pousarem em zonas de combate perigosas.

O governo israelense alega que esse sistema é necessário para evitar que a ajuda caia nas mãos do Hamas. Não há casos verificados de saques em larga escala de comboios de ajuda humanitária pelo Hamas. E, em maio, a ONU desenvolveu uma proposta que estabeleceria salvaguardas para a distribuição de ajuda, incluindo o uso de caminhões lacrados com carga identificada por QR Code, monitores da ONU em todos os pontos de travessia, caminhões rastreados por GPS em rotas previamente liberadas e auditorias regulares dos beneficiários da ajuda.

O que estamos vendo hoje em Gaza — pessoas desesperadas sendo roubadas de alimentos por gângsteres e membros do Hamas, com rações sendo vendidas no mercado negro — é um resultado previsível do próprio arranjo israelense. Quando a ordem social se rompe em uma crise de fome, os últimos a morrer de fome são aqueles que portam armas.

É imperdoável que tenhamos chegado até aqui. Existem outras crises de fome no mundo comparáveis em intensidade e horror. A fome em massa se alastra dentro e ao redor da cidade sudanesa de El Fasher, onde o Exército sudanês e seus aliados defendem um cerco e o ataque das Forças de Apoio Rápido paramilitares. Ambos os lados estão travando uma guerra de fome, roubando alimentos de civis e bloqueando a ajuda. Se as partes em conflito concordassem com um cessar-fogo neste instante, dadas as estradas perigosas e a operação de ajuda subfinanciada, levaria semanas ou meses até que socorro suficiente chegasse aos famintos.

Em Gaza, por outro lado, a ONU e outras organizações humanitárias experientes estão prontas com os recursos, as habilidades e o plano comprovado para fornecer ajuda humanitária essencial. Se o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, decidisse esta noite que todas as crianças palestinas em Gaza deveriam tomar café da manhã amanhã, isso poderia, sem dúvida, ser feito. As medidas mais recentes de Israel — lançamentos aéreos e pausas diárias nas operações para permitir a entrada de mais ajuda — estão muito aquém de todo o espectro de assistência emergencial de que os palestinos em Gaza precisam.

Para acabar com a fome em Gaza, Israel deve permitir que os profissionais de ajuda humanitária façam seu trabalho. Deve facilitar a movimentação dos comboios de ajuda da ONU sem verificações e atrasos onerosos. Deve ajudar a estabelecer as medidas de monitoramento necessárias para garantir que a ajuda chegue àqueles que mais precisam. Deve auxiliar os hospitais de Gaza na instalação de unidades de terapia intensiva para as muitas crianças desnutridas à beira da morte.

Israel e a comunidade internacional têm uma janela de oportunidade para levar ajuda vital a milhões de pessoas. Não podemos esperar até que seja hora de contar os túmulos das crianças que pereceram, declarar que houve fome — ou, na verdade, um genocídio — e dizer, simplesmente: "Nunca mais".

Alex de Waal é diretor executivo da Fundação para a Paz Mundial na Universidade Tufts e autor de livros como "Mass Starvation: The History and Future of Famine".

4 de setembro de 2024

Lembrando Andreas Eshete

Revolucionário, filósofo e patriota devoto, ele estava entre os principais intelectuais públicos da Etiópia.

Ephraim Isaac, Joshua Cohen, Abdul Mohammed, Mulugeta Gebrehiwot, Alex de Waal, Solomon Dersso



Andreas Eshete, que morreu na semana passada aos setenta e nove anos, foi uma das maiores mentes da melhor geração de pensadores da Etiópia. Filho do movimento revolucionário, ele foi um filósofo político reflexivo, professor inspirador, observador sensível, inquiridor curioso, amigo generoso e patriota devotado — um patriota que entendeu que a crítica engajada era o sinal mais profundo de devoção patriótica.

Talvez o mais impressionante seja que Andreas combinou a nobreza da vocação com um espírito brincalhão e senso de humor. Ele era tão charmoso quanto bom. A personificação de cinquenta anos do movimento progressista na Etiópia, Andreas estava constantemente buscando novas fontes de nutrição intelectual. Sua perda nos priva de uma das fontes desse espírito, em um momento em que o país tanto precisa dele.


Andreas era um aluno estrela do ensino médio na Etiópia, auxiliado por Richard Pankhurst a ganhar uma bolsa para estudar no Williams College. Lá, ele encontrou um mentor e amigo para toda a vida, Ephraim Isaac, o estudioso pioneiro da Etiópia em línguas semíticas e filosofia.

Mudando-se para o departamento de filosofia de Yale para seu doutorado, Andreas concluiu sua tese de doutorado, "A estrutura social da liberdade", em 1970. Nisso, já podemos ler seu projeto de vida de reconciliar as tradições liberal e socialista, uma tensão criativa que ele expressou em seu foco filosófico na fraternidade — o elemento negligenciado na tríade revolucionária — e sua contraparte ativista, a solidariedade. Depois de Yale, Andreas lecionou na Brown University, UCLA, UC Berkeley, University of Pennsylvania e Haverford College; ele é lembrado com carinho por alunos e colegas.

Morando nos Estados Unidos, Andreas abraçou seu novo lar com toda sua diversidade e contradições. De Williamstown e New Haven a Los Angeles e Filadélfia, ele experimentou tanto o racismo quanto uma luta vibrante pelos direitos civis. Ele se juntou a marchas e programas de registro de eleitores e mais tarde falou sobre o quanto aprendeu com a coragem e a criatividade dos líderes do movimento pelos direitos civis. Como ele disse, "Embora não tivessem poder econômico para falar ou poder político, ainda assim eles montaram esse enorme movimento que abalou o país e o abalou até as raízes e funcionou. Não é mais o mesmo país." Foi esse movimento e seus descendentes — "o movimento antiguerra, o movimento das mulheres, o movimento gay" — "que tornam os Estados Unidos uma sociedade atraente".

Em aulas com radicais afro-americanos como os Panteras Negras, que adoravam Haile Selassie sem crítica, Andreas teve que explicar por que ele e seus companheiros revolucionários etíopes estavam dedicados à derrubada do imperador. E, apesar do terrível derramamento de sangue do Dergue, ele sempre insistiu que derrubar a autocracia e esvaziar os mitos que legitimavam o império feudal eram grandes triunfos da revolução etíope. Profundamente influenciado pelo espírito revolucionário dos anos 1960, Andreas subordinou seu próprio bem-estar à luta — negligenciando sua saúde e desconsiderando os conselhos de seu médico ao longo de sua vida.

Como muitos, Andreas ultrapassou seu status oficial e — até ser beneficiário do projeto de lei de anistia de Ronald Reagan — dançou nas margens do aparato de imigração. Ele percebeu que vários nigerianos trabalhavam para os serviços de imigração, fez amizade com eles e descobriu que eles próprios eram indocumentados. Eles decidiram que a posição mais segura e estratégica era perto de onde as decisões cruciais estavam sendo tomadas. Caracteristicamente, Andreas transformou essa observação em uma percepção mais ampla — talvez um preceito orientador. Ele queria estar perto de onde o poder era exercido, na sala onde ele acontece. Mas ele combinou essa proximidade com o poder com um senso de fraternidade que o ligava aos humildes e impotentes. Ele buscava influenciar aqueles no poder, não exercê-lo ele mesmo.

Como um intelectual rive gauche parisiense, Andreas estava invariavelmente bem vestido de preto, cigarro na mão, pronto para se envolver na questão do dia com uma mistura de inteligência e percepção. Você pode ver essa mistura em seus ensaios acadêmicos, ao mesmo tempo lindamente escritos e argumentados de forma incisiva. Ele escreveu sobre as virtudes do caráter (coragem, temperança, generosidade), extraindo suas conexões com o valor da liberdade como autodomínio. E ele explorou a fraternidade como um ideal cívico, conectando-a tanto a vínculos nacionalistas quanto ao valor da liberdade: “laços fraternos, ao contrário de outros vínculos familiares”, ele disse, “surgem de fins compartilhados que são perseguidos por indivíduos que livremente reconhecem sua união”. Publicados há mais de quarenta anos, esses artigos são lidos com o mesmo frescor e relevância que possuíam quando apareceram pela primeira vez. Eles cristalizam os esforços de Andreas para encontrar um lugar dentro do pensamento liberal, com suas convicções abstratas e orientadoras sobre liberdade e igualdade, para preocupações mais concretas sobre caráter e vínculo comunitário que confundiam formas menos mundanas de liberalismo.

Aqueles que não o conheceram pessoalmente acharão sua entrevista de 2009 com Dagmawi Woubshet particularmente instrutiva: é abrangente, reflexiva e profundamente humana. Entre muitas outras coisas, Andreas reflete sobre literatura e filosofia como espíritos afins, ambos orientados para o valor de toda a vida humana e para a importância de imaginar novas possibilidades além das circunstâncias e do contexto.

Em 1991, após a derrubada do Dergue, Andreas retornou à Etiópia. Ele encontrou os líderes da EPRDF — notavelmente Meles Zenawi — intelectualmente envolventes e dedicou suas energias a tentar ajudar a elaborar uma constituição democrática para uma "nação de nações". Partindo da linguagem marxista que via a fórmula como "nações, nacionalidades e povos", Andreas imaginou a nova constituição como um experimento no que ele chamou de "federalismo étnico". Quando a nova constituição foi apresentada à assembleia constituinte para discussão e ratificação, Andreas estava presente na câmara e no refeitório em cada um dos trinta e cinco dias de debate vigoroso, distribuindo artigos de opinião escritos por ele e por advogados constitucionais conhecidos internacionalmente sobre questões-chave. Ele discutiu com os membros eleitos da assembleia sobre princípios e histórias e como melhor conciliar as demandas do momento político muito difícil com esperanças ambiciosas para o futuro do país. Sempre um patriota devoto e filósofo de mente independente, Andreas forneceu a defesa mais convincente — e a crítica mais feroz — da constituição federal e seus princípios.

Neste esforço, Andreas trabalhou em estreita colaboração com outro eminente retornado, o diplomata Kifle Wodajo, que presidiu a Comissão Constitucional. Os dois homens desenvolveram uma amizade que durou até a morte prematura de Ato Kifle em 2004, logo após ambos terem discursado em uma reunião para comemorar o décimo aniversário do genocídio em Ruanda. Após a eclosão da guerra de 1998 com a Eritreia, chocados com as expulsões sumárias de eritreus — a maioria deles cidadãos etíopes, muitos dos quais nunca viveram na Eritreia — os dois fizeram protestos privados apaixonados aos líderes da EPRDF.

Andreas abraçou a controvérsia e entendeu que havia muito a aprender com a discordância. Mas ele não conseguia tolerar charlatões — os mentirosos que, como argumentou o filósofo Harry Frankfurt, sujam a discussão pública por causa de sua indiferença aos valores da verdade e da falsidade. Andreas desprezava o pensamento preguiçoso e a propaganda vazia. Ele podia ficar com raiva rapidamente, especialmente com o pseudointelectualismo, e lamentava o declínio na qualidade do debate político da Etiópia.

Os alunos da Universidade de Addis Ababa lembram-se do curso de Andreas "Teoria do Estado e do Direito", que transformou a maneira como muitos estudantes de direito pensavam sobre questões fundamentais de governo, estado, direito e sociedade. Suas palestras eram eloquentes e, em todos os espectros políticos e sociais, seus antigos alunos mantiveram uma conexão e amizade com ele por toda a vida.

As habilidades de Andreas como administrador nunca atingiram os mesmos patamares de sua perspicácia acadêmica, mas ele assumiu a liderança ao imaginar como a Addis Ababa University deveria se adaptar para o novo século. Ele serviu como presidente por nove anos, e várias de suas ideias se concretizaram. Ele deixou um legado com a expansão dos programas de pós-graduação, incluindo o novo Kifle Wodajo Center for Human Rights, o Center for Federal Studies e o Institute for Peace and Security Studies e seu principal Tana Forum. Ele também é lembrado por expandir as instalações para acomodar alunos deficientes e cegos. As campanhas da Etiópia para o retorno de tesouros saqueados, como o obelisco de Axum (de Roma) e manuscritos e artefatos históricos (de Londres), devem muito à paixão e eloquência de Andreas.


Andreas foi um revolucionário, mas nunca doutrinário. Em uma palestra de 2013 chamada “O que é Zemenawinet?”, ele creditou o movimento estudantil etíope como a “parteira da modernidade” — mas continuou destacando uma notável variedade de artistas que “se afastaram do elevado e do representativo para olhar novamente para o cotidiano, o ordinário e o marginalizado”.

Em seus escritos acadêmicos e em sua vida cotidiana, Andreas compartilhava o olhar do artista para "um mundo em um grão de areia e um paraíso em uma flor silvestre". Ele apreciava a maneira como as virtudes de caráter que ele prezava, mas eram tão negligenciadas na filosofia política, eram trazidas à vida na literatura. Ele amava Adis Abeba: a cidade que cresceu organicamente em torno das vilas feudais no topo das colinas, com suas vielas sinuosas de paralelepípedos e o ocasional banco modernista inspirado em Corbusier ou prédio de escritórios. Esta, ele disse, era uma cidade cujo capital social superava em muito seu desenvolvimento material.

Enquanto os prefeitos das cidades ocidentais tentavam restaurar bairros mistos e reconstruir comunidades urbanas, ele lamentava a maneira como o Plano Diretor de Adis Abeba de 2014 demoliu áreas históricas preciosas para abrir caminho para escritórios e blocos de apartamentos anônimos. Ele fotografou bairros antigos antes que fossem demolidos. Participando de uma conferência de estudiosos do genocídio em Siena, Itália, para apresentar um artigo sobre o memorial às vítimas de atrocidades de direitos humanos no local da prisão de Alem Bekagn (hoje sede da União Africana), Andreas reservou um tempo para passear pelas igrejas da cidade. Ele e seus companheiros viram a relíquia de Santa Catarina, consistindo em seu dedo médio perfeitamente preservado, e fizeram disso um motivo lúdico para a visita.

Como de costume, Andreas zombou de seus próprios problemas de saúde, nunca permitindo que limitações físicas diminuíssem de forma alguma sua paixão pela vida ou a vida de sua mente. Seus olhos estavam alertas para a inspiração da monotonia. Viajando de carro de Lagos para Abeokuta, Nigéria, passando por uma exposição de caixões decorados na beira da estrada do tipo elaborado preferido na África Ocidental, ele pediu ao motorista que parasse. Um caixão que ele viu estava adornado com as palavras "Do pó ao pó". Andreas apontou e disse: "Agora encontrei o que deveria estar escrito na minha lápide".

Ephraim Isaac é diretor do Institute of Semic Studies.

Joshua Cohen é coeditor da Boston Review, membro do corpo docente da Apple University e Distinguished Senior Fellow em direito, filosofia e ciência política na University of California, Berkeley. Seus livros incluem Rousseau: A Free Community of Equals e The Arc of the Moral Universe and Other Papers.

Abdul Mohammed é um ex-membro sênior da União Africana e da ONU.

Mulugeta Gebrehiwot é pesquisadora associada da World Peace Foundation na Tufts University.

Alex de Waal é diretor executivo da World Peace Foundation na Tufts University. Seus livros incluem Mass Starvation, The Real Politics of the Horn of Africa e Famine Crimes.

Solomon Dersso é diretor executivo da Amani Africa.

9 de maio de 2023

A revolução que ninguém queria

Alex de Waal escreve sobre o Sudão
Vol. 45 No. 10 · 18 May 2023

Tradução / A capital do Sudão, Cartum, está sendo destruída em uma luta mortal entre dois generais corruptos e brutais. Esta é uma guerra anunciada; permitir que acontecesse foi um fracasso da diplomacia internacional. Mas se examinarmos os duzentos anos de história da cidade, o conflito não dever ser visto como uma surpresa. Cartum foi fundada como um posto de comando construído para fins de saque imperial — e todos os regimes subsequentes continuaram esta prática. Em circunstâncias normais, o Sudão é governado por uma casta de comerciantes e generais que saqueiam as pessoas de pele mais escura das terras altas e levam sua riqueza para Cartum, uma cidade relativamente opulenta e um paraíso de tranquilidade. Mas a lógica da cleptocracia é inexorável: quando o cartel vai à falência, os mafiosos disputam. Vimos isso na Libéria e na Somália trinta anos atrás. O saque do Estado sudanês hoje é dez vezes maior.

Cartum foi fundada em 1821 na junção dos dois Nilos — o Nilo Branco, que nasce na África Equatorial, e o Nilo Azul, de fluxo rápido, que provoca inundações sazonais das terras altas da Etiópia. No ponto onde os rios convergem, bem em frente ao moderno prédio do Parlamento, e por alguns quilômetros rio abaixo, as águas marrom-claras e azuis correm uma paralela à outra, sem se misturarem. O local foi escolhido por Ismail Kamil "Pasha", filho de Muhammad Ali, quediva [príncipe] do Egito, que despachou um exército para conquistar o que hoje é o Sudão. Ele também autorizou um bando multinacional de bandoleiros a vagar por onde quisessem, desde que o Cairo compartilhasse os lucros. Durante seis décadas, Cartum foi um posto avançado do voraz capitalismo de fronteira do século XIX : um entreposto comercial e de escravos para a devastação do Vale do Alto Nilo.

As presas de elefante eram procuradas para as teclas de piano, e os próprios elefantes eram exportados – entre eles Jumbo, que foi enviado para o Zoológico de Londres e depois vendido para o circo de Barnum e Bailey nos Estados Unidos. Os mercadores e saqueadores de Cartum faziam incursões em busca de escravos, ou dividiam para reinar entre as tribos das florestas e pântanos do sul, comprando cativos para suas próprias plantações ao longo do rio ou para serem vendidos ao Egito. Até hoje, os sudaneses têm um léxico de cor de pele, de vermelho e marrom, passando por verde e amarelo e até "azul" — o povo mais escuro do sul, ainda chamado rotineiramente de abid, que significa "escravos". Os sudaneses do sul foram retratados como primitivos sem contato pelos antropólogos da era colonial, mas foram arrastados para a ordem capitalista imperial. O principal senhor da guerra era Zubeir Rahma, um comerciante e traficante de escravos do norte do Sudão, que estabeleceu uma série de fortes no sul do país e depois liderou seu exército particular contra o vasto sultanato ocidental de Darfur em 1874. Sua ambição de se tornar governante do que era então o domínio mais rico na orla do Saara foi frustrado quando o quediva, alarmado com sua ascensão à proeminência, o deteve no Cairo.

Cartum foi arrasada pela última vez em 1885. O exército do líder milenar sudanês, Mohamed Ahmed “al Mahdi”, invadiu o quartel de tropas egípcias sitiadas, comandadas pelo general Gordon, massacrou os moradores famintos e saqueou a cidade. Mahdi, que nasceu em uma família de construtores de barcos no Nilo, estabeleceu uma nova capital em Omdurman, na margem oposta do rio. Agora é a cidade gêmea de Cartum. Seu lugar-tenente, Khalifa Abdullahi al-Taaishi, que veio de uma tribo nômade em Darfur, mobilizou os exércitos de massa da causa Mahdista, com seu uniforme de túnicas remendadas, usado por mendigos errantes. Ele emergiu da turbulência e do derramamento de sangue que se seguiram ao colapso do sultanato em Darfur. Quando Mahdi morreu alguns meses depois, o khalifa — a palavra significa "sucessor" — assumiu o comando. Os treze anos seguintes, de despotismo darfuriano governado a partir de Omdurman pelos homens armados do khalifa, até hoje são lembrados pelos povos do Nilo.

Mas em 1898, as metralhadoras Gatling do general Kitchener massacraram as forças mahdistas na planície de Karari, perto de Omdurman. Kitchener ordenou que uma nova cidade fosse construída sobre as ruínas de Cartum. Seu plano se assemelha a uma bandeira do Reino Unido, com avenidas paralelas à margem do Nilo Azul. Entre os grandes edifícios com colunatas havia um palácio em estilo otomano, um ministério das Finanças onde os secretários coloniais arrecadavam receitas com impostos e exportações de algodão — a escravidão não era mais uma opção — e o Gordon Memorial College, uma escola para meninos. Um pioneiro liberal chamado Babiker Badri montou a primeira escola para meninas em 1907. Mais abaixo na orla havia quartéis para o exército britânico, mais tarde usados ​​como dormitórios para a Universidade de Cartum, os grafites de soldados coloniais saudosos ainda legíveis na alvenaria. O QG do exército sudanês mudou-se para uma fileira faraônico de blocos de torres com janelas escuras, ao lado do aeroporto. Hoje tudo isso é uma zona de batalha.

Cartum foi por muito tempo uma cidade acolhedora e cortês, na qual os membros do establishment se socializam em casamentos e festivais, deixando de lado as ferozes diferenças políticas. Suas milícias podem estar cometendo atrocidades em aldeias remotas, mas assassinato e descortesia entre as elites estavam fora do permitido. Os sudaneses chamam essas pessoas de "a comunidade do Estado": mais ou menos o enclave educado e de renda média de Cartum e seus arredores. Ao longo de 65 anos de independência, os ditadores militares alternados e os regimes parlamentares discordaram na maioria das coisas, exceto em manter sua cidade como uma ilha de civilidade e a imagem de um Estado-nação que esperavam criar. O primeiro governo independente mudou os nomes das ruas de Cartum. Paralelamente à Avenida da República, uma rua estreita liga o quartel-general do exército ao mercado central e ao Hotel Acropole, o preferido dos visitantes arqueólogos e trabalhadores humanitários. Alheios ou indiferentes à mensagem que isso transmitia aos que estavam além dos limites da cidade, eles a chamavam de Rua Zubeir Pasha, em homenagem ao comerciante de escravos Zubeir Rahma.

Cartum responde por mais da metade da economia do Sudão. A um dia de carro da cidade fica o modestamente próspero "país em miniatura": o único ponto, segundo o ex-ministro islâmico das Finanças, Abdel Rahim Hamdi, no qual vale a pena investir. O resto do país é um deserto social e econômico, devastado pelos herdeiros de Zubeir. Na década de 1970, a marxista sudanesa Fatima Babiker Mahmoud explicou como a classe mercantil do país colheu imensos lucros nas províncias e os meteu em Cartum. Para onde o capital se move, as pessoas o seguem. A cidade já havia triplicado de tamanho em vinte anos, para uma população de cerca de um milhão, quando Fatima publicou The Sudanese Bourgeoisie: Vanguard of Development? em 1984. A população da grande Cartum é agora de cerca de sete milhões.

As Forças Armadas Sudanesas (SAF) — o exército do governo, que agora luta por sua sobrevivência contra as Forças de Apoio Rápido (RSF) paramilitares — são também o país em miniatura. O colégio militar colonial foi construído perto de Karari, local da última resistência dos mahdistas contra os britânicos: há um monumento aos 22 lanceiros que morreram na última carga de cavalaria do exército britânico, mas nenhum para os 11.000 mahdistas abatidos por tiro de metralhadora. Karari é agora o local da base aérea de Wadi Sayidna, de onde os estrangeiros foram transportados de avião para a segurança. O principal aeroporto, no centro da cidade, tornou-se uma zona de batalha. O exército colonial incluía um corpo de camelos, o batalhão Equatoria, criado a partir de etnias do sul e batizado com o nome da região — na tradição da escravidão militar —, bem como um quadro de oficiais selecionados a partir elite social das cidades ao longo do Nilo.

Na independência, os descendentes desses oficiais viam-se como os guardiões da nação. Os líderes dos golpes do Sudão — três bem-sucedidos e treze fracassados ​​nos primeiros vinte anos de independência — incluíram conservadores, nasseristas, comunistas e islâmicos. Em algumas ocasiões em que suboficiais das periferias tentaram tomar o poder, suas tentativas foram denunciadas como “racistas” por seus superiores de pele mais clara. Várias tentativas de golpe chegaram perto de desencadear uma guerra civil na capital. Quando os islâmicos tomaram o poder em um golpe sem derramamento de sangue em 1989, eles desconfiaram da política do exército, bem como de seu esprit de corps de bebedores contumazes, e criaram as Forças de Defesa Popular como contrapeso. Dez anos depois, em 1999, o movimento islâmico se dividiu, levantando temores de confrontos armados em Cartum, mas em vez disso as disputas de poder intra-islâmicas deslocaram-se para Darfur.

Cartum travou guerras no sul do país entre 1955 e 1972 e novamente entre 1983 e 2004; esses conflitos também permitiram a extorsão por oficiais do exército e comerciantes. As guerras finalmente terminaram com um acordo de paz em 2005, após o qual o Sudão do Sul optou pela secessão, num plebiscito há doze anos. Com ele se foi a maior parte dos campos petrolíferos e a receita em que os comerciantes de Cartum se tornaram viciados. A essa altura, Darfur também havia se rebelado, após décadas de negligência durante as quais foi explorado por Cartum como uma espécie de bantustão para mão-de-obra migrante barata. Os generais de Cartum patrocinaram uma contrainsurgência barata, reunindo as tribos árabes no oeste e autorizando-as a repetir em Darfur a pilhagem, o estupro e a fome que haviam sido usados ​​contra o sul. Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como "Hemedti", ou “pequeno Mohamed” por seu comportamento juvenil, estava entre os mais capazes dos comandantes juniores desta milícia, denominada Janjaweed. Sua ousadia no campo de batalha, seu relacionamento familiar com suas tropas e sua perspicácia nos negócios chamaram a atenção do presidente Bashir.

Mas Hemedti não foi conquistado de forma barata. Em 2008, irritado com a maneira como ele e seus homens foram usados ​​para o trabalho sujo em Darfur e depois deixados de lado com meses de salários não pagos, ele se retirou para o mato e jurou lutar contra Bashir "até o dia do Juízo". Ele tomou emprestada sua retórica dos rebeldes de Darfur, contra os quais vinha lutando, e de ex-milícias descontentes que se autodenominavam "os soldados esquecidos". Alguns meses depois, Cartum ofereceu-lhe um acordo — dinheiro, promoção, empregos para seus parentes — e ele voltou ao redil. Dinheiro e tiroteios são moedas intercambiáveis ​​no mercado político do Sudão, e Hemedti negocia com ambos. Em 2013, seis anos antes de ser derrubado, Bashir rejeitou as objeções de seu chefe de gabinete do exército e formalizou o papel do Janjaweed como a milícia paramilitar oficial do Estado, a ser conhecida como Forças de Apoio Rápido (RFS, na sigla em inglẽs). Ele concedeu o posto de general a Hemedti – cujo único treinamento havia sido o campo de batalha — e deu-lhe uma linha direta com o gabinete presidencial. À medida que os protestos de rua aumentavam em dezembro de 2018 e o regime de Bashir começava a balançar, ele convocou as unidades de Hemedti para a capital como sua força de proteção pessoal. Deveria ter avaliado melhor.

A RSF é agora uma empresa mercenária transnacional privada que alugou seus serviços aos monarcas do Golfo para lutar no Iêmen e tem negócios com o Grupo Wagner e com Khalifa Haftar, comandante do Exército Nacional da Líbia. É uma operação de mineração e comércio de ouro e o exército do império comercial em constante expansão de Hemedti. Se nos próximos meses Hemedti e o RSF prevalecerem na batalha por Cartum, o Estado sudanês se tornará uma subsidiária desta empresa transnacional. Hemedti não é da bem-educada "comunidade do Estado" de Cartum. E não devemos ser enganados por sua identidade como um "árabe" - há uma vasta divisão social entre as elites metropolitanas sudanesas, cujo arabismo mira o Egito, e as comunidades beduínas do Saara. Ele e seus homens são temidos e ridicularizados como bandidos analfabetos e mal-falantes. É verdade que os principais comandantes do RSF são do próprio clã árabe Mahariya de Hemedti, mas os soldados rasos são de várias tribos, unidos em sua convicção de que foram privados dos espólios do Estado. Como os sudaneses do sul, que votaram pela secessão, eles são súditos enfurecidos do império sudanês.

Há quatro anos, as ruas de Cartum foram palco de uma revolução cívica não violenta. Foi um intervalo extraordinário: a política sudanesa normal foi suspensa; um acampamento de cidadãos livres cresceu em torno do quartel-general do exército — a cidadela de seus opressores. Pintaram-se murais de libertação nas paredes e cantaram-se louvores a jovens oficiais do exército que romperam fileiras e ficaram com o povo. Esses ativistas não tinham nem as habilidades nem a capacidade de articulação política necessárias para levar sua revolução até o fim. Os doadores estrangeiros, que achavam mais fácil lidar com homens uniformizados e não percebiam a urgência de suspender as sanções, aliviar a dívida e socorrer a economia em colapso, não os favoreciam. Ao mesmo tempo, uma revolução paralela se desenvolvia: uma invasão furtiva de paramilitares provinciais. Por muitos anos, uma sucessão de radicais armados de todos os cantos do Sudão esperou libertar o país de sua história imperial. O mais proeminente foi John Garang, soldado dissidente, fundador e líder do Movimento de Libertação do Povo do Sudão. Após a morte de Garang em 2005, não havia ninguém de sua estatura para defender que um novo Sudão, transformado para beneficiar os historicamente oprimidos, era essencial. Hemedti entrou neste vazio revolucionário ao trazer as queixas de Darfur para Cartum e seu toque populista a um palco maior. O establishment foi incapaz de resistir porque havia se tornado muito corrupto.


Há um fio que possamos traçar até a era pós-independência, para chegar a uma explicação sobre o que está acontecendo em Cartum agora? Não há dúvida de que os sucessivos experimentos da modernidade foram sufocados pelo capitalismo de compadrio, informações privilegiadas, vantagens para os bem relacionados, um emaranhado de tráfico ilícito e artifícios contra anos de sanções, impostas por insistência de Washington.

Durante a década de 1970 - a "década do desenvolvimento" do Sudão — o Banco Mundial e os fundos de investimento árabes despejaram dinheiro no país, mas quando os pagamentos da dívida venceram, o ministro das Finanças descobriu que não havia uma conta central do que havia sido emprestado — de quem, para quê, ou o que acontecera com o dinheiro. Na década de 1990, o governo de Bashir imaginou um caminho para a modernidade islâmica, mas não conseguiu tomar empréstimos nos mercados internacionais e, em vez disso, começou a exportar petróleo. Essa sorte inesperada também não é contabilizada, mas a trama pode ser lida nas reluzentes torres de escritórios de corporações islâmicas conectadas à segurança — o que os sudaneses chamam de "Estado profundo", embora não haja nada de discreto nelas.

O regime de Bashir construiu vastas barragens no Nilo, inundando aldeias milenares e gerando pouca eletricidade. Sua principal função era facilitar propinas para o partido no poder, que colocou milhões de sudaneses na folha de pagamento do Estado, sem pensar no descontentamento que se seguiria quando o Sudão do Sul optasse pela independência e a torneira do petróleo fosse fechada.

As terras agrícolas eram baratas, os trabalhadores ainda mais baratos, especialmente onde as aldeias haviam sido demolidas para fazendas comerciais ou incendiadas por milicianos. As árvores foram derrubadas, o solo cultivado por trabalhadores que recebiam uma ninharia para trabalhar na terra que havia sido sua. Grande parte da cultura principal, o sorgo, é agora exportada para alimentação animal. Durante anos, o Sudão contou com uma exploração cada vez mais implacável da terra e da mão-de-obra, bem como da importação de combustível e maquinaria. Grande parte de sua escassa moeda estrangeira é usada para importar trigo para pessoas abastadas nas cidades — até recentemente, o produto era fortemente subsidiado. Esta é uma das economias alimentares mais disfuncionais do mundo, agora à beira do colapso.

Habilidades políticas excepcionais eram necessárias para manter os chefes islâmicos da segurança e do exército, voláteis e rivais, sob controle. Bashir era famoso por saber de cor quem era quem de entre os oficiais do exército, os chefes tribais e os operadores do partido e seus familiares. Administrou tudo isso por quase trinta anos. A cabala que o derrubou não confiava em seu sucessor mais capaz — o chefe da segurança, Salah Abdallah Gosh – e montou um instável sistema de duas cabeças. Hemedti, o principal partidário do patricídio, era visto como uma figura muito polarizadora para assumir o cargo principal. Por isso, foi nomeado vice de um obscuro oficial do exército, Abdel Fattah al-Burhan, escolhido para liderar a coalizão militar e servir como presidente do Conselho de Soberania, ou presidente de fato.

As deficiências de al-Burhan não se limitam ao sua maneira desajeitada de falar em público. Ao contrário de Hemedti, ou antes dele Bashir, não tem sua própria fonte de dinheiro para lubrificar acordos políticos e foi forçado a pechinchar com os capitalistas militares e comparsas da velha guarda em decisões importantes. Mas a falha fatal no complexo militar-comercial de Cartum é que os cleptocratas terceirizaram sua luta. O exército é principalmente uma máquina para enganar o público e fazer desfiles impressionantes de tanques e aeronaves, enquanto o combate real é travado por milícias alugadas dirigindo SUVs Landcruiser personalizados. Hemedti entendeu isso melhor do que os graduados da academia militar, que semearam o vento em Darfur e agora estão colhendo o turbilhão na batalha por Cartum.

Aqueles entre nós que viveram e trabalharam no Sudão por décadas foram inspirados pelo levante civil e passaram a confiar em seus defensores sem liderança central, muitos deles mulheres. Muitas vezes mordi os lábios, por não querer diminuir o otimismo dos ativistas pela democracia. O pior já aconteceu. Hemedti tomou como reféns as famílias dos membros do SAF e poucos duvidam que ele teria qualquer escrúpulo em assassiná-las. Generais das SAF e islâmicos da velha guarda ameaçam abertamente matar Hemedti e aqueles que teriam colaborado com ele. Os combatentes de Hemedti saqueiam casas e lojas, enquanto os caças a jato de al-Burhan os bombardeiam do ar. Agora que a maioria dos estrangeiros deixou o país, suprimentos e reforços para ambas as partes estão chegando; a batalha está fadada a aumentar. Esta é a revolução que ninguém queria.

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