1 de outubro de 2003

Pobreza mundial, pauperização e acumulação de capital

Samir Amin

Monthly Review


Tradução / Um discurso sobre a pobreza e a necessidade de reduzir a sua magnitude, se não mesmo erradicá-la, ficou na moda hoje em dia. É um discurso da caridade, no estilo século XIX, que não procura entender os mecanismos sociais e econômicos que geram a pobreza, embora os meios científicos e tecnológicos para erradicá-la estejam já disponíveis.

O capitalismo e nova questão agrária

Todas as sociedades antes dos tempos modernos (capitalista) foram sociedades camponesas. Sua produção era regrada por vários sistemas e lógicas específicos — mas não aqueles que regem o capitalismo numa sociedade de mercado, como a maximização do retorno sobre o capital.

A moderna agricultura capitalista — abrangendo tanto as fazendas familiares em grande escala como as corporações do agribusiness, igualmente ricas — está agora empenhada num ataque maciço à produção camponesa do terceiro mundo. O sinal verde para isto foi dado na sessão de Novembro de 2001 da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Doha, Qatar. Há muitas vítimas deste ataque — e a maior parte são camponeses do terceiro mundo, que ainda constituem mais da metade da humanidade.

A agricultura capitalista governada pelo princípio do retorno sobre o capital, que se localiza quase exclusivamente na América do Norte, Europa, Austrália e no cone sul da América Latina, emprega apenas umas poucas dezenas de milhões de agricultores que já não são camponeses. Devido ao grau de mecanização e às extensas dimensões das fazendas administradas por um proprietário, a sua produtividade geralmente varia entre 1 a 2 milhões de quilogramas de cereais por agricultor.

Em agudo contraste, três mil milhões de agricultores estão dedicados à agricultura camponesa. As suas terras podem ser agrupadas em dois sectores distintos, com escalas de produção, características económicas e sociais, e níveis de eficiência muito diferentes. Um sector, capaz de beneficiar da revolução verde, obteve fertilizantes, pesticidas, sementes melhoradas e algum grau de mecanização. A produtividade destes camponeses varia entre 10 mil e 50 mil quilogramas de cereais por ano. Contudo, estima-se que a produtividade anual dos camponeses excluídos das novas tecnologias esteja em torno dos 1000 quilogramas por agricultor.

O rácio da produtividade entre o mais avançado segmento capitalista da agricultura mundial e o mais pobre, que estava em torno de 10 para 1 antes de 1940, está agora a aproximar-se dos 2000 para 1! Isto significa que a produtividade progrediu muito mais desigualmente na área da agricultura e da produção alimentar do que em quaisquer outras áreas. Esta evolução conduziu simultaneamente à redução dos preços relativos dos produtos alimentares (em relação a outros produtos industriais e de serviços) a um quinto do que era há cinquenta anos atrás. A nova questão agrária resulta deste desenvolvimento desigual.

A modernização sempre combinou dimensões construtivas, nomeadamente a acumulação de capital e o aumento da produtividade, com aspectos destrutivos — reduzir o trabalho ao estado de uma mercadoria vendida no mercado, muitas vezes destruindo a base ecológica natural para a reprodução da vida e a produção, e polarizando a distribuição da riqueza a um nível global. A modernização sempre integrou simultaneamente alguns, pois mercados em expansão criam empregos, e excluiu outros, que não foram integrados na nova força de trabalho depois de terem perdido as suas posições nos sistemas anteriores. Na sua fase de ascensão, a expansão capitalista global integrou muitos juntamente com os seus processos de exclusão. Mas agora, nas sociedades camponesas do terceiro mundo, está a excluir um número maciço de pessoas e a incluir relativamente poucas.

A questão levantada aqui é precisamente se esta tendência continuará a operar em relação aos três mil milhões de seres humanos que ainda produzem e vivem em sociedades camponesas na Ásia, África e América Latina.

Na verdade, o que aconteceria se a agricultura e a produção alimentar fossem tratadas como qualquer outra forma de produção submetida às regras da competição num mercado aberto e desregulamentado, como foi em princípio decidido em Novembro de 2001 na reunião da OMC em Doha? Será que tais princípios estimulariam a aceleração da produção?

Alguém poderia imaginar que a comida trazida ao mercado pelos três milhões de camponeses de hoje, depois de assegurarem a sua própria subsistência, seria ao invés disso produzida por vinte milhões de novos agricultores modernos. As condições para o êxito de uma tal alternativa incluiriam: 1) a transferência de importantes parcelas de terra boa para os novos agricultores capitalista (e estas terras teriam de ser arrancadas das mãos das actuais populações camponesas); 2) capital (para comprar bens e equipamento); e 3) acesso ao mercados consumidores. Tais agricultores na verdade competiriam com êxito com os milhares de milhões de camponeses do presente. Mas o que sucederia àqueles milhares de milhões de pessoas?

Nestas circunstâncias, concordar com o princípio geral da competição para produtos agrícolas e alimentos, impostos pela OMC, significa aceitar a eliminação de milhares de milhões de produtores não competitivos dentro do curto tempo histórico de umas poucas décadas. O que transformará estes milhares de milhões de seres humanos, a maioria dos quais já são os pobres entre os pobres, que alimentam-se a si próprios com grandes dificuldades. Num espaço de tempo de cinquenta anos, o desenvolvimento industrial, mesmo na fantástica hipótese de uma taxa de crescimento contínua de 7 por cento ao ano, não poderia absorver nem um terço desta reserva.

O maior argumento apresentado a fim de legitimar a doutrina da competição da OMC é que tal desenvolvimento aconteceu no século XIX e no XX tanto na Europa como nos Estados Unidos, onde produziu uma sociedade urbano-industrial e pós-industrial moderna, rica, com agricultura moderna capaz de alimentar a nação e até exportar alimentos. Por que não deveria este padrão ser repetido nos actuais países do terceiro mundo?

Este argumento deixa de considerar os dois principais factores que tornam quase impossível a reprodução deste padrão no terceiro mundo. O primeiro é que o modelo europeu desenvolveu-se ao longo de um século e meio juntamente com tecnologias trabalho-intensivas. As tecnologias modernas utilizam muito menos trabalho e os recém-chegados do terceiro mundo têm de adoptá-las para a suas exportações industriais serem competitivas nos mercados globais. O segundo é que, durante aquela longa transição, a Europa beneficiou da migração maciça para as Américas do seu excedente populacional.

A alegação de que o capitalismo realmente resolveu a questão agrária nos seus centros desenvolvidos sempre foi aceite por amplos sectores da esquerda, sendo um exemplo o famoso livro de Karl Kautsky, A questão agrária , escrito antes da Primeira Guerra Mundial. A ideologia soviética herdou tal visão e, com base na mesma, empreendeu a modernização durante a colectivização stalinista, com fracos resultados. Aquilo que sempre foi passado por alto é o facto de que o capitalismo, enquanto resolvia a questão nos seus centros, fazia isto gerando uma gigantesca questão agrária nas periferias, a qual só pode resolver através do genocídio de metade da espécie humana. Dentro da tradição marxista, apenas o maoismo entendeu a magnitude do desafio. Portanto, aqueles que acusaram o maoismo de ser um "desvio camponês" mostram por esta simples crítica que lhes falta a capacidade analítica para compreenderem o capitalismo imperialista, o qual eles reduzem a um discurso abstracto sobre o capitalismo em geral.

A modernização através da liberalização do mercado capitalista, como sugerido pela OMC e pelos seus apoiantes, alinha lado a lado, sem sequer efectuar a necessária unificação, as duas componentes: a produção alimentar a uma escala global através de modernos agricultores competitivos baseados sobretudo no norte e no futuro possivelmente também em alguns bolsões do sul, e a marginalização, exclusão, e o avanço do empobrecimento da maioria dos três mil milhões de camponeses do actual terceiro mundo e finalmente seu isolamento em alguma espécie de reservas. Combina portanto um discurso pro-modernização e dominado pela eficiência com um conjunto de políticas ecológicas-culturais-de contenção que permitam às vítimas sobreviverem num estado de empobrecimento material (incluindo o aspecto ecológico). Estas duas componentes podem portanto complementar-se uma à outra, ao invés de entrarem em conflito.

Poderemos nós imaginar outras alternativas, e têm elas sido debatidas amplamente? Alternativas nas quais a agricultura camponesa fosse mantida durante o futuro visível do século XXI, mas que simultaneamente entrasse num processo de contínuo progresso tecnológico e social? Por este caminho, as mudanças poderiam verificar-se a uma taxa que permitiria uma progressiva transferência dos camponeses para empregos não-rurais e não-agrícolas.

Tal conjunto estratégico de objectivos envolve complexas políticas mistas a níveis nacional, regional e locais.

Ao nível nacional implica macro políticas que protejam a produção alimentar do campesinato da competição desigual dos agricultores modernizados e das corporações do agrobusiness — locais e internacionais. Isto ajudará a garantir preços internos dos alimentos aceitáveis — desligados dos preços dos mercados internacionais, os quais além disso são enviesados pelos subsídios agrícolas do norte rico.

Tais objectivos políticos também questionam os padrões de desenvolvimento industrial e urbano, os quais deveriam ser menos baseados em prioridades orientadas para a exportação (exemplo: mantendo salários baixos, o que implica preços baixo para alimentos) e mais direccionados para a expansão do mercado interno socialmente equilibrado.

Isto envolve, em simultâneo, um padrão global de políticas a fim de assegurar a segurança alimentar nacional — uma condição indispensável para um país ser um membro activo da comunidade global, desfrutando a indispensável margem de autonomia e capacidade negocial.

A níveis regional e global implica acordos internacionais e políticas que se afastem dos princípios doutrinários liberais que regem a OMC — substituindo-os com soluções imaginativas e específicas para diferentes áreas, levando em consideração as questões específicas e as condições históricas e sociais concretas.

A nova questão trabalhista

A população urbana do planeta actualmente representa cerca da metade da humanidade, pelo menos três mil milhões de indivíduos, com camponeses formando uma porcentagem estatisticamente não insignificante da outra metade. Os dados acerca desta população permitem-nos distinguir entre aquilo que podemos denominar classes médias e as classes populares.

Na etapa contemporânea da evolução capitalista, as classes dominantes — proprietários formais dos principais meios de produção e administradores superiores associados ao seu desempenho — representam apenas uma minúscula fracção da população global embora a fatia que retiram do rendimento disponível das suas sociedades seja significativo. A isto acrescentamos as classes médias no antigo sentido da expressão — rentistas não-assalariados, proprietários de pequenas empresas e administradores médios, os quais não estão necessariamente em declínio.

A grande massa de trabalhadores nos segmentos de produção modernos consiste de assalariados que agora representam mais de quatro quintos da população urbana dos centros desenvolvidos. Esta massa está dividida em pelo menos duas categorias, cuja fronteira é visível não só para o observador externo como está realmente viva na consciência dos indivíduos afectados.

Há aqueles que podem ser etiquetados como classes populares estabilizadas no sentido de que estão realmente seguros nos seus empregos, graças entre outras coisas a qualificações profissionais que lhes dão poder negocial junto aos empregadores e, portanto, estão frequentemente organizados, pelo menos em alguns países, em sindicatos poderosos. Em todos os casos esta massa traz consigo um peso político que reforça sua capacidade negocial.

Outros constituem as classes populares precárias que incluem trabalhadores enfraquecidos pela sua baixa capacidade negocial (em resultado dos seus baixos níveis de qualificação, seu status como não-cidadãos, ou sua raça ou o seu género) bem como não-assalariados (aqueles formalmente desempregados e os pobres com empregos no sector informal). Podemos etiquetar esta segunda categoria das classes populares como "precários", ao invés de "não-integrados" ou "marginalizados", porque estes trabalhadores estão perfeitamente integrados na lógica sistémica que comanda a acumulação de capital.

Da informação disponível para países desenvolvidos e certos países do sul (dos quais extrapolámos dados) obtemos as proporções relativas que cada uma das categorias acima definidas representa na população urbana do planeta.


Embora os centros representam apenas 18 por cento da população do planeta, uma vez que a sua população é urbana em 90 por cento, eles constituem o lar para um terço da população urbana mundial (ver tabela 1).

As classes populares representam três quartos da população urbana mundial, ao passo que a subcategoria dos precários representa dois terços das classes populares a uma escala mundial. (Cerca de 40 por cento das classes populares nos centros e 80 por cento nas periferias estão na subcategoria precários). Por outras palavras, as classes populares precárias representam a metade (pelo menos) da população urbana mundial e muito mais do que isto nas periferias.

Um olhar à composição das classes populares urbanas há meio século, logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, mostra que as proporções que caracterizavam a estrutura das classes populares eram muitos diferentes daquelas que vieram a ser.

Naquela época, a parte do terceiro mundo não excedia a metade da população urbana global (então da ordem de mil milhões de indivíduos) contra os dois terços de hoje. Megacidades, como aquelas que hoje conhecemos em praticamente todos os países do Sul, ainda não existiam. Havia apenas umas poucas grandes cidades, nomeadamente na China, na Índia e na América Latina.

Nos centros, as classes populares beneficiaram, durante o período do pós-guerra, de uma situação excepcional baseada nos compromissos históricos impostos ao capital pelas classes trabalhadoras. Este compromisso permitiu a estabilização da maioria dos trabalhadores nos moldes de uma organização do trabalho conhecida como o sistema da fábrica "fordista". Nas periferias, a proporção dos precários — que era, como sempre, maior do que nos centros — não excedia a metade das classes populares urbanas (contra mais de 70 por cento hoje). A outra metade ainda consistia, em parte, em assalariados estabilizados nos moldes da nova economia colonial e da sociedade modernizada e, em parte, nos antigos moldes das indústrias artesanais.

A principal transformação social que caracteriza a segunda metade do século XX pode ser resumida numa única estatística: a proporção das classes populares precárias ascende de menos de um quarto para mais da metade da população urbana global, e este fenómeno de pauperização reapareceu numa escala significativa nos próprios centros desenvolvidos. Esta população urbana desestabilizada aumentou em meio século de 250 milhões para mais de 1500 milhões de indivíduos, registando uma taxa de crescimento que ultrapassa aquela que caracteriza a expansão económica, o crescimento da população ou o próprio processo de urbanização.

Pauperização — não há palavra melhor para designar a tendência evolutiva durante a segunda metade do século XX.

O facto em si mesmo geralmente é reconhecido e reafirmado na nova linguagem dominante: "redução da pobreza" tornou-se um tema recorrente entre os objectivos que as políticas governamentais dizem executar. Mas a pobreza em questão é apresentada só como um facto medido empiricamente, tanto de forma muito grosseira através da distribuição do rendimento (linhas de pobreza) ou de uma forma um pouco menos grosseira através de índices compostos (tais como os índices de desenvolvimento humano propostos pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), sem nem mesmo levantar a questão das lógicas e dos mecanismos que geram esta pobreza.

A nossa apresentação destes mesmos factos vai mais além porque permite-nos precisamente começar a explicar o fenómeno e a sua evolução. Estratos médios, estratos populares estabilizados e estratos populares precários estão todos integrados dentro do mesmo sistema de produção social, mas eles preenchem diferentes funções no mesmo. Alguns na verdade estão excluídos dos benefícios da prosperidade. Os excluídos são também uma parte do sistema e não estão marginalizados no sentido de não estarem integrados — funcionalmente — dentro do sistema.

A pauperização é um fenómeno moderno que não é inteiramente redutível à falta de rendimento suficiente para sobreviver. É realmente a modernização da pobreza e tem efeitos devastadores em todas as dimensões da vida social. Os emigrantes das zonas rurais estavam relativamente bem integrados dentro das classes populares estabilizadas durante a idade de ouro (1945-1975) — eles tendiam a tornar-se trabalhadores fabris. Agora aqueles que chegaram recentemente e os seus filhos estão situados nas margens dos sistemas produtivos, criando condições favoráveis para a substituição de solidariedades de comunidade por consciência de classe. Enquanto isso, as mulheres são ainda mais vitimizadas pela precariedade económica do que os homens, resultando na deterioração das suas condições materiais e sociais. E se os movimentos feministas sem dúvida conseguiram avanços importantes no âmbito das ideias e do comportamento, os beneficiários destes ganhos são quase exclusivamente mulheres das classes médias, certamente não aquelas da pauperizadas classes populares. Quanto à democracia, a sua credibilidade — e portanto a sua legitimidade — é solapada pela sua incapacidade para reduzir a degradação das condições de uma fracção cada vez maior das classes populares.

A pauperização é um fenómeno inseparável da polarização a uma escala mundial — um resultado inerente da expansão do capitalismo realmente existente, que por esta razão devemos chamar imperialista por natureza.

A pauperização nas classes populares urbanas está estreitamente ligada aos desenvolvimentos que vitimizam as sociedades camponesas do terceiro mundo. A submissão destas sociedades às exigências de expansão do mercado capitalista sustenta novas formas de polarização social que excluem uma proporção cada vez maior de agricultores do acesso à utilização da terra. Estes camponeses que ficaram empobrecidos ou sem terra alimentam — ainda mais do que o crescimento populacional — a migração para os bairros de lata. Apesar disso, todos estes fenómenos estão destinados a piorar enquanto os dogmas liberais não forem desafiados, e nenhuma política correctiva dentro desta estrutura liberal possa controlar a sua difusão.

A pauperização põe em questão tanto a teoria económica como as estratégias das lutas sociais.

A vulgar teoria económica convencional evita as questões reais que são colocadas pela expansão do capitalismo. Isto acontece porque ela substitui uma análise do capitalismo realmente existente por uma teoria de uma capitalismo imaginário, concebido como uma extensão simples e contínua das relações de troca (o mercado), apesar de o sistema funcionar e reproduzir-se na base da produção capitalista e das relações de troca (não simplesmente relações de mercado). Esta substituição é facilmente emparelhada com uma noção a priori, que não é confirmada nem pela história nem por argumentos racionais, de que o mercado é auto-regulador e produz um óptimo social. A pobreza assim só pode ser explicada por causas que se decreta serem externas à lógica económica, tal como o crescimento populacional ou erros políticos. A relação da pobreza com o próprio processo de acumulação é afastada pela teoria económica convencional. O resultante vírus liberal, que polui o pensamento social contemporâneo e aniquila a capacidade de entender o mundo, para não falar transformá-lo, penetrou profundamente as várias esquerdas constituídas desde a Segunda Guerra Mundial. Os movimentos actualmente envolvidos em lutas sociais por "um outro mundo" e uma globalização alternativa só serão capazes de produzir avanços sociais significativos se se livrarem deste vírus a fim de construir um debate teórico autêntico. Enquanto não se livrarem deste vírus, os movimentos sociais, mesmo os mais bem intencionados, permanecerão presos nas algemas do pensamento convencional e portanto prisioneiros de propostas correctivas ineficazes — aquelas que são alimentadas pela retórica referente à redução da pobreza.

A análise esboçada acima deveria contribuir para a abertura deste debate. Isto porque ele restabelece a pertinência da ligação entre acumulação de capital por um lado e o fenómeno da pauperização social por outro. Cento e cinquenta anos atrás Marx iniciou uma análise dos mecanismos por trás desta ligação, a qual a duras penas foi prosseguida desde então — e de maneira nenhuma a uma escala global.

[*] Samir Amin é director do Fórum do Terceiro Mundo, em Dakar, Senegal. Seus livros recentes incluem Specters of Capitalism: A Critique of Current Intellectual Fashions (Monthly Review, 1998), e Obsolescent Capitalism: Contemporary Politics and Global Disorder , a publicar pela Zed Books.

15 de agosto de 2003

Os parâmetros da resistência

Este artigo mapeia os contornos da resistência contemporânea — questionando como as forças dominantes definem os limites da ação transformadora e como os movimentos populares se organizam para romper tais fronteiras.

Amiya Kumar Bagchi

Monthly Review

Monthly Review Vol. 55 (2003–2004), No. 03 (July-August 2003)

Tradução / Como o imperialismo está fora de controle, e como as manifestações das suas perversidades penetram todos os poros da existência humana em toda a parte, a resistência contra ele também tem emergido de todas as células da organização social e política, assumindo formas muito diversas que desafiam uma classificação fácil. As formas de protesto tem-se multiplicado, assim o problema de escolher uma estratégia política adequada tornou-se muito mais difícil. Deve a resistência ser montada apenas globalmente? Devemos nós combater só as finanças licenciosas e a gula das corporações transnacionais dedicadas à pilhagem e deixar tudo o mais para ser resolvido depois de o combate global ter sido vencido? Ou vamos nós combater toda a pequena tirania por toda a parte — a corrupção de responsáveis municipais, a arrogância de patrões partidários que procuraram controlar a democracia local, e a insensibilidade das autoridades dos hospitais públicos? E iremos tratar como inimigos toda formação política que proporciona assistência e conforto a tais pequenos tiranos e burocratas pretensiosos?

Em grande parte do terceiro mundo, incluindo o subcontinente da Ásia do Sul, parece delinear-se uma linha que divide as lutas anti-sistêmicas ou anti-imperialistas em dois grupos. Num lado há os que acreditam na necessidade de fortalecer-se para lutar contra o capital global transnacional e combater para reverter as políticas que lhe permitiram subverter e controlar todos os principais governos. Os adeptos desta visão pensam que estratégias a longo prazo para tomar o poder do Estado têm de ser prosseguidas em direção a este objetivo. No outro lado, há outros que estão convencidos de que o combate contra tiranias que estão mutilando as vidas do povo têm de ser efetuado aqui e agora.

De fato, os ativistas políticos, se este é o nome que podemos dar ao primeiro grupo, têm de tratar com questões locais — e eles têm de provar sua sinceridade e competência no trato das mesmas. Tais compromissos construtivos são necessários, em acrescento à sua ideologia, para que possam construir sua base de apoio e fortalecer a resistência popular contra a opressão do capital e do aparelho de Estado. Entre os resistentes morais, para dar um nome ao outro grupo, também há alguns que não são relutantes em procurar a ajuda do aparelho de Estado a fim de consertar as injustiças que combatem. Mas há alguns resistentes morais que pensam que o Estado, como tal, é uma instituição perversa e o seu abraço deve ser evitado a todo custo.

Esta divisão, contudo, confunde-se nas margens. Muitas vezes tem sido difícil aos movimentos de resistência unificar os ativistas políticos e os resistentes morais. A divisão costuma ser descrita como sendo entre aqueles movimentos cujas ideologias focam o controle do poder do Estado e aquelas que muitas vezes procuram remediar males sem se incomodar com quem controla o Estado. Em geral, os chamados acadêmicos neutros têm preferido os resistentes morais àqueles que encaram como à procura do poder. A separação também tem sido descrita como um divisor de águas entre a visão de resistência dos comunistas ou socialistas e a visão foucauldiana, com o seu foco na natureza celular das estruturas opressivas e no seu surgimento inevitável sob qualquer Estado, por mais benignamente que possa tentar operar.

Nunca fui capaz de aceitar esta dicotomia como uma representação válida da resistência de hoje ao capitalismo imperialista, isto é, o capitalismo real dos séculos XX e XXI. O combate contra o imperialismo deve abarcar todos os aspectos da vida incluindo as formas de ideologia, o aparelho de Estado, e também a assim chamada sociedade civil. Tal combate tem de ser efetuado através da união de todas as formações anti-imperialistas genuínas. A imensa diversidade da existência humana, e os muitos diferentes meios de opressão que pesam sobre a sua existência, devem fazer parte da nossa compreensão dos motivos porque diferentes formas de resistência levantar-se-ão em diferentes contextos.

Divisões entre as forças anti-imperialistas, causadas em parte pela falta de uma tal apreciação, ajudaram a sustentar e apoiar o imperialismo ao longo da sua história. O maior dano ao movimento socialista internacional no século XX foi causado pela conflito sino-soviético de 1960. Uma das causas principais do conflito foi a falha da liderança soviética em apreciar que o socialismo pode desenvolver-se ao longo de diferentes caminhos em diferentes condições históricas. O congelamento da ditadura do proletariado em ditadura da burocracia do partido também tornou o socialismo realmente existente impenetrável às exigências específicas de povos com diferentes histórias e diferentes trajectórias. O combate com forças capitalistas-imperialistas exauriu o regime soviético e deu oportunidade às forças imperialistas de incitar nacionalidades e grupos étnicos contra os grupos apoiados pelo bloco soviético. Esta história deixou muitos movimentos anti-sistémicos genuínos suspeitosos de todas as formações que apoiem qualquer partido detendo poder ainda que de uma forma subordinada.

Por outro lado, a natureza esmagadora da investida do imperialismo em sua última encarnação convenceu muita gente nos movimentos sociais de que não basta combater tiranias e opressão local. Ao invés disso, é necessário procurar aliados que estejam preparados para combater o sistema em todas as suas ramificações atacando a raiz principal do imperialismo. O movimento ecológico na Índia, por exemplo, que principiou como um protesto contra o abate indiscriminado de árvores por comerciantes de madeira, pondo em perigo os meios de vida e os recursos de água das pessoas, em particular das mulheres, foi então assumido por todos os grupos de esquerda que resistiam à devastação do ambiente provocada pela caça ao lucro feita pelo capital. Os movimentos ecológicos estiveram presentes em força no recente Fórum Social Asiático realizado em Hyderabad, Índia.

Um dos legados infelizes do socialismo realmente existente, e dos partidos políticos a ele associados, foi uma fascinação com grandes fábricas, grandes barragens e grandes projectos em geral. Simbolizavam, para eles e para muitos nacionalistas não-comunistas, o ímpeto de todos os povos oprimidos rumo à industrialização e a sua procura da libertação de uma pobreza degradante. Jawaharlal Nehru, o primeiro-ministro da Índia independente, que partilhou alguns dos valores do movimento socialista global, denominou estas barragens e fábricas como os templos da Índia moderna. Contudo, muitas das fábricas e barragens estavam localizadas em sítios que haviam proporcionado abrigo e condições de vida para camponeses e utilizadores da floresta da Índia interior; tais pessoas foram deslocadas e receberam poucos benefícios dos projectos que destruíram os seus lares. Vários grupos deram voz ao descontentamento e desespero dos deslocados, mas havia uma tendência entre os movimentos comunistas organizados para encarar tais protestos com suspeição. Contudo, quando o Vale do Silêncio em Kerala, um dos mais ricos habitats de flora e fauna subtropical do mundo, foi ameaçado por um projecto de energia hidroeléctrica, o movimento para protegê-lo foi liderado pelo Kerala Sahitya Shastra Parishad. Este era uma frente, organizada principalmente por activistas comunistas, que procura difundir a literacia e elevar o conhecimento da ciência e dos cuidados de saúde entre pessoas comuns. Devido aos protestos, o projecto para produzir hidro-electricidade foi abandonado pelo governo e o Vale do Silêncio foi salvo.

O movimento contra grandes barragens chegou a um ponto crítico, atraindo atenção global, com o movimento contra a construção de uma barragem sobre o Rio Narmada, na Índia ocidental. O movimento ficou conhecido como Narmada Bachao Andolan (Salve o Narmada). Contudo, apesar de um movimento de protesto que perdurou mais de uma década, foi construída uma grande barragem sobre o Narmada. A obra já deslocou milhares de camponeses adivasis (ou seja, povos indígenas) e não-adivasis da área represada do rio. O projecto gigantesco é economicamente enfermiço e pode deixar de alcançar a sua lógica política: proporcionar água aos fazendeiros ricos de Gujarat. Os líderes principais do movimento de protesto, Medha Patekar e Baba Amte, construíram em torno disto a National Alliance for People's Movements (NAPM). A princípio havia suspeitas mútuas entre o a NAPM e os partidos da esquerda organizada, mas felizmente, face ao inimigo comum da globalização desenfreada dos ricos, pelos ricos e para os ricos, eles estão agora ombro a ombro contra a OMC e os programas de ajustamento estrutural e de privatização do governo central da Índia. Movimentos semelhantes foram montados contra a privatização da Bharat Aluminium Company (BALCO), localizada no território adivasi no actual Chhattisgarh na Índia central. Aquela terra foi tomada pelo governo sob o explícito entendimento de que seria utilizada só para finalidades públicas. A venda da companhia para uma empresa privada na lista negra a um preço absurdamente baixo e a colocação em perigo dos empregos dos trabalhadores conduziu a um protesto conjunto dos residentes adivasis e dos trabalhadores das companhia afectada. Os protestatários levaram a sua reclamação até ao Supremo Tribunal. Este, contudo, considerou como válida a avaliação da BALCO feita pela firma indicada pelo governo e assim encerrou o processo. Os julgamentos com viézes de classe são tão comuns na Índia como nos Estados Unidos, no fim das contas. Mais uma vez a influência ubíqua dos valores capitalistas ficou demonstrada. Entretanto, nem a Narmada Bachao Andolan nem os protestos contra a privatização da BALCO desapareceram da memória do povo e eles continuam a figurar regularmente no repertório dos movimentos ecológicos e dos movimentos orquestrados pelos partidos de esquerda. Os movimentos foucaldianos e os partidos políticos marxistas podem andar juntos apesar de tudo.

A Ásia do Sul, juntamente com a Ásia Ocidental e vários países do Leste e Sudeste Asiático, continuam a ser bastiões do chauvinismo machista. Uma característica importante dos fundamentalismos étnicos e religiosos é a sua tendência para reverenciar as mulheres como ícones e oprimi-las como seres humanos. Um dos mais esperançosos sinais de abertura da consciência popular para os seus direitos como seres humanos na Ásia do Sul durante as últimas décadas do século XX foi o crescimento do movimento das mulheres contra a opressão de género, classe e estado, e a exploração com base no isolamento da mulher dentro de casa. O movimento feminino tem estado activo na exigência de medidas estritas contra a violência doméstica, contra a enorme incidência de feticídio (homicídio de fetos) feminino executada com a ajuda da moderna tecnologia reprodutiva, e contra os assassínios de mulheres por dotes na busca de esposas mais lucrativas. As mulheres também têm protestado contra a utilização de muitas tecnologias de controle de nascimento que põem em perigo a saúde da mulher mas são lucrativas para companhias transnacionais e agências de ajuda com elas coniventes. O movimento exigiu que fossem reservados postos para mulheres em governos locais, em assembleias de estado e no parlamento central.

Em Gujarat, talvez o mais desenvolvido estado capitalista da Índia, desde Fevereiro de 2002 o Hindutva fascista utilizou o aparelho de Estado para orquestrar um genocídio de muçulmanos. Estas forças fascistas perpetraram brutalidades inéditas contra homens, mulheres e crianças (inclusive aquelas ainda no útero). Foram organizados protestos contra aquele genocídio por toda a Índia; organizações de mulheres e organizações dirigidas por mulheres difundiram as actividades de protesto a nível nacional, regional e internacional. É sabido que o fascismo na Índia, tal como na Bósnia e no Kosovo, utiliza os corpos da mulheres como sinalizadores da "honra" etnizada e como altos de ataques sobre o território inimigo. Na Índia, mesmo que a maior parte das formações políticas de esquerda ainda sejam dominadas pelos homens, elas tiveram de reconhecer a luta pela igualdade de direitos das mulheres como uma parte integral da luta do povo pela igualdade de justiça.

Por todo o terceiro mundo, as pessoas estão a combater pelos seus direitos sobre a água, terra, florestas e meios de vida, e as organizações locais muitas vezes nasceram da sua necessidade de levarem adiante o combate. Em Cochabamba, na Bolívia, os trabalhadores venceram um famoso combate para impedir uma corporação transnacional de usurpar todos os direitos dos residentes locais à água — água para irrigação, água para saneamento e água para beber. Na Índia, pescadores ganharam o direito de pescar no Ganges contra os que tentavam monopolizar as instalações pesqueiras naquele rio. Em lutas disseminadas por toda a Índia, muitos grupos locais exigiram e obtiveram o direito de se governarem na maior parte das áreas da vida. Na Índia, uma estrutura de governação local tem estado em operação parcial através de um sistema de corporações municipais e aldeias panchayat. Mas na maior parte dos estado, com excepção de Kerala, Tripura e Bengala Ocidental em que partidos de esquerda têm continuamente ou intermitentemente constituído o governo, as eleições para os panchayats e outras estruturas locais de autogovernação foram realizadas muito irregularmente. Na verdade, em alguns estado elas nunca foram feitas, sendo as estruturas administradas por pessoas nomeadas pelos governos dos estados. A 73ª e 74ª emendas à Constituição indiana determinaram eleições para aquelas estruturas e dotaram-nas com extensos poderes de administração local, incluindo o planeamento e a implementação de projectos de desenvolvimento. Em Kerala, Tripura e Bengala Ocidental estas estruturas deram um novo sentimento de autogoverno aos povos locais.

Contudo, assim como a maior parte dos Estados do terceiro mundo foram tornados impotentes pois ataram-nos à prisão da dívida, ao ajustamento estrutural e aos programas de privatização, também estas estruturas locais estão a ser penetradas pelas forças do imperialismo. A arquitectura da dominação financeira pelo grande capital erigida pelas corporações transnacionais, FMI, Banco Mundial, OMC e potência do G7 muitas vezes permanece invisível para o grosso dos trabalhadores, até que sejam atingidos pelas bombas de quilotoneladas dos bombardeiros furtivos e suas vidas sejam totalmente destruídas. Há uma ilusão entre alguns activistas de que o desmonte do Estado nacional é sempre uma coisa boa. Mas nos países pobres, em última análise, é apenas o Estado que pode proporcionar educação primária universal, cuidados básicos de saúde, saneamento básico, segurança alimentar para os pobres e protecção à propriedade dos recursos comuns. Conseguir que o Estado proporcione estas coisas faz parte da luta democráticas em todo o mundo.

Esta função de proporcionar serviços públicos exige que o Estado tenha recursos financeiros e administrativos adequados. A maior parte das nações-Estado foi privada de qualquer autoridade financeira devido ao seu endividamento. Os seus poderes de recuperação foram destruído porque criar empresas estatais, interferir em mercados ou lançar impostos sobre os ricos são acções consideradas, pelo capital global e os seus cúmplices, para além dos limites da sua autoridade legítima. Em países nos quais os Estados ainda têm recursos financeiros adequados para atender os serviços públicos necessários, as autoridades monetárias e fiscais tratam tais empreendimentos como desperdício criminoso, de modo que as estruturas locais são cada vez mais privadas dos fundos necessários para cuidar das necessidades humanas básicas das pessoas sob sua jurisdição. Com o crescimento dos fardos da dívida e o esgotamento das receitas disponíveis, eles têm então de voltar-se para agências de ajuda como o Banco Mundial e as suas muitas satrápias, a Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA ou Departamento para Desenvolvimento Internacional britânico para o financiamento de projectos. Ao empreenderem tais projectos acabam inevitavelmente por ficar enredados nas suas condicionalidades e então muitas autoridades políticas orientadas para a esquerda começam inevitavelmente a actuar como simples agentes de corporações transnacionais. A proliferação de ONGs financiadas pelo estrangeiro também precipita este desenvolvimento.

Portanto, a resistência contra as forças do capital global e do imperialismo precisa ser tanto a nível local como global. O povo deve agitar-se contra as actividades das transnacionais e do grande capital interno, contra o fortalecimento da repressão e da deliberada exacerbação de conflitos armados regionais em nome da defesa, e contra as operações de organizações antidemocráticas como o FMI, Banco Mundial e OMC. Ao mesmo tempo, os trabalhadores anti-imperialistas deve lutar por estabelecer o direito dos pescadores a pescarem em rios e águas costeiras, dos adivasis a utilizarem a água, as plantas e os recursos animais das suas localidades, dos habitantes das cidades a disporem de água e ar limpos, e das crianças a desenvolverem-se como cidadãos capazes.

O genocídio patrocinado pelo Estado em Gujarat e a criminosa agressão não provocada contra o Iraque pelas forças americanas e britânicas demonstraram que o capital não hesitará em utilizar todo o arsenal do fascismo para atingir os seus fins e que levantar o slogan dos "mercados livres" não é melhor do que chamar a agressão contra o povo do Iraque "Operação Liberdade Iraquiana". Estes ataques do capitalismo tornado fascista também demonstraram que a batalha, como sempre, é pelas mentes de homens e mulheres, bem como pelo controle dos meios de coerção. Bush e Blair usaram a falta de coordenação entre os governos da Ásia Ocidental e da África do Norte para montar a sua guerra. Em Gujarat, o enfraquecimento das lutas dos trabalhadores nas cidades e locais de trabalho deu uma oportunidade às formações Hindutva de recrutar os trabalhadores mais pobre e em pior situação económica para a sua campanha de extermínio dos muçulmanos. Não só os erros cometidos há mais de mil anos por um invasor que professava fé no Islão foram invocados pelas forças Hindutva. Também os eventos reais naquele antigo feudo foram adornados, manipulados e falsificados a fim de envenenar as cabeças dos adivasis assim como daqueles da casta hindus e dalitas. Analogamente, na publicidade aos actos criminosos dos governos americano e britânico no Afeganistão e no Iraque havia ecos da cruzadas dos cristãos contra os muçulmanos e o agitar de todos os muçulmanos como terroristas.

Na Índia, felizmente, embora alguns dos media estabelecidos tenham papagaiado a propaganda de Bush-Blair e as mentiras do Hindutva, houve outros grandes canais que tentaram retractar a realidade camuflada por aquela propaganda. Juntamente com a cacofonia dos media, protestos contra o genocídio de Gujarat e a carnificina no Afeganistão e no Iraque retumbaram na maior parte das cidades e regiões da Índia e também de outros países da Ásia do Sul. Mais pessoas do que nunca estão conscientes de que a liberdade está a ser posta em perigo pelas forças fascistas nos Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha e pelos seus apoiantes em velhos países imperialistas como Portugal e Espanha, assim como por aquelas a operarem na própria Índia, e de que temos de trabalhar duramente para impedir a vitória destas forças e preservar a dignidade dos seres humanos como criaturas com a capacidade de raciocinar e escolher. A resistência vive! Como dizemos na Índia, Inqilab Zindabad!

Nota

* Aqui, examino a possibilidade de lutas anti-imperialistas a partir da perspectiva dos povos do Terceiro Mundo. No entanto, na era do imperialismo, todas as lutas locais têm uma dimensão internacional. A recuperação da dignidade do trabalho como parte da liberdade humana pelos trabalhadores do Primeiro Mundo também é parte integrante dessa luta. A solidariedade com movimentos anti-imperialistas genuínos em todo o mundo é absolutamente essencial.

Amiya Kumar Bagchi é diretor do Instituto de Estudos de Desenvolvimento de Calcutá e autor de Capital and Labour Redefined (Anthem Press, 2002) e The Political Economy of Underdevelopment (Cambridge University Press, 1982).

Este texto é uma singela homenagem ao trabalho realizado pelo grupo da Monthly Review, liderado por Paul Sweezy, Leo Huberman, Harry Magdoff, Harry Braverman e todos os seus colegas, para nos alertar, ao longo do último meio século, sobre os perigos representados pelo capital desenfreado à liberdade em todas as regiões do mundo. Namastê, sentinelas da liberdade da Monthly Review.

17 de julho de 2003

O alívio do homem branco

Norman Mailer

The New York Review of Books

July 17, 2003


Calem-se raios e trovões, comoções e espantos. O pó, as cinzas, a névoa, o fogo, fumaça, areia, sangue e uma boa parte dos resíduos passam agora aos bastidores. O palco, no entanto, continua ocupado. A pergunta formulada quando se levantou o pano não foi respondida. Por que fomos à guerra? Se não encontrarem armas de destruição maciça, a pergunta irá converter-se num grito.

Ou, se descobrirem algumas armas no Iraque, é provável que haja ainda mais, transferidas para novos esconderijos para além da fronteira iraquiana. Se ocorrerem horrendos acontecimentos, podemos contar com uma reação previsível: "Bons, honestos, inocentes estadunidenses morreram hoje devido aos malvados terroristas do al-Qaeda". Sim, escutaremos a voz do presidente até antes de pronunciar essas palavras. (Aqueles de nós a quem George W. Bush não agrada poderiam reconhecer que viver com ele no Salão Oval é como estar casado com alguém que diz sempre exatamente aquilo que se sabe que ele ou ela vão dizer, o que ajuda a compreender porque mais da metade dos EUA atualmente parece adorá-lo.)

A pergunta chave continua a ser: por que fomos à guerra? Não foi respondida. A multidão de respostas já produziu uma salada cognitiva. Mas neste momento o ingrediente isolado mais doloroso é, naturalmente, o descobrimento das fossas de cadáveres. Livrámos o mundo de um monstro que assassinou quantidades incalculáveis, mega-quantidades, de vítimas. Ninguém sublinha que muitos dos cadáveres eram de xiitas do sul do Iraque que foram dizimados repetidamente durante os últimos doze anos por se terem atrevido a rebelar-se contra Saddam no período que se seguiu à Guerra do Golfo. Naturalmente, fomos nós que os estimulámos a levantarem-se e a seguir não os ajudámos. Por que? Pode ter havido uma discussão na primeira administração Bush em que terminaram por vencer aqueles que consideram que uma vitória xiita sobre Saddam podia gerar uma multidão de imãs iraquianos que poderiam fazer causa comum com os ayatolas iranianos. Xiitas a unirem-se com xiitas! Hoje em dia, do ponto de vista dos restantes xiitas iraquianos, seria difícil para nós provar-lhes que não foram vítimas de uma traição. Assim, podem contemplar as tumbas que estamos tão felizes de termos libertado como se fossem vozes sepulcrais a exigirem que compartilhemos a culpa. O que, naturalmente, é algo que não faremos.

Sim, nossa culpa por grande parte desses cadáveres continua a ser um imenso texto anexo e Saddam esteve a criar fossas comuns durante todos os anos 70 e 80. Matou comunistas em massa nos anos 70, o que não nos incomodou em nada. A seguir massacrou dezenas de milhares de iraquianos durante a guerra com o Irão – quando o apoiávamos. Inumeráveis fossas comuns que estão a ser descobertas procedem desse período. Os verdadeiros assassinos, é claro, nunca olham para trás.

A administração, contudo, preocupou-se só acerca da aceleração da guerra. Apressaram-se a encontrar razões justificativas. Os iraquianos constituíam uma ameaça nuclear, estavam carregados de armas de destruição maciça, trabalhavam em estreita ligação com al-Queda, haviam sido até os génios malvados por trás do 11 de Setembro. As razões oferecidas ao público estadunidense resultaram ser superficiais, não-verificáveis e em função da realpolitik da nossa necessidade de dominar o Médio Oriente por muitas razões, além de Israel e Palestina. Tivemos que fazer engolir a guerra através de fraudes.

A enormidade da falsificação poderia ser melhor interpretada como um reflexo do imenso prejuízo que o 11 de Setembro causou à moral dos EUA, particularmente aos seu núcleo – a corporação. Toda a gente da organização: superiores e inferiores, gerentes, chefes de divisão, secretárias, vendedores, contadores, especialistas de marketing, toda a colecção de estadunidenses escriturários de empresas, além de todos os que tinham parentes, amigos ou colegas de escola que trabalhavam nas Torres Gémeas – a comoção afectou os fundamentos da psique estadunidense. E a classe trabalhadora dos EUA identificou-se com os que morreram a combater o incêndio: os bombeiros e os polícias, todos instantaneamente enobrecidos.

Foi um filão de ouro político para Bush na medida em que conseguiu dar aos milhões – ou melhor, às dezenas de milhões –, que se identificavam directamente com os incinerados nas Torres Gémeas, um sentido adequado de vingança. Quando Osama bin Laden não pode ser capturado pelas tropas que enviámos ao Afeganistão, Bush foi devolvido aos problemas internos existentes que não pareciam poder ser solucionados facilmente. A economia afundava-se, o mercado estava de rastos e alguns bastiões clássicos da fé estadunidense (integridade empresarial, o FBI e a Igreja Católica, para mencionar apenas três) haviam sofrido uma perda de prestígio atroz. O aumento do desemprego afundava a moral da nação. Uma vez que é concebível que a nossa administração não estivesse disposta a solucionar nenhum dos sérios problemas que a confrontavam se a solução não produzisse um enriquecimento dos de cima, era natural que a administração se sentisse motivada a lançar-se em empreendimentos mais importantes: acometer-se a uma guerra imperial! Poderíamos dizer que nos lançámos à guerra porque necessitávamos desesperadamente de uma guerra com êxito como uma espécie de rejuvenescimento psíquico. Podia-se utilizar qualquer desculpa de peso – a ameaça nuclear, os ninhos de terroristas, as armas de destruição maciça – pois no final das contas podíamos acabar por utilizar a desculpa de que estávamos a libertar os iraquianos. Quem poderia contestá-lo? Impossível. Só restava perguntar: Qual será o custo para a nossa democracia?

Deixemos estabelecido que a administração sabia algo que muitos de nós não sabíamos – sabia que tínhamos forças armadas muito boas, talvez até extraordinariamente boas, ainda essencialmente não tenham sido postas à prova, militares especializados, disciplinados, bem motivados, concentrados nas suas carreiras e dirigidos por uma equipa de oficiais que era inteligente, eloquente e consideravelmente menos corrupta do que qualquer outro corpo do poder nos EUA.

Numa situação extrema, como não iria utilizá-los a Casa Branca? Levantariam a moral de um elemento essencial da vida dos EUA: essas dezenas de milhões de estadunidenses que haviam sido feridos espiritualmente pelo 11 de Setembro. Também poderiam servir um grupo ainda maior, que fora cerca de 50 por cento da população e que continuava a ser fundamental para a base política do presidente. Esse grupo fora realmente afectado. Quanto ao seu ego colectivo, o bom estadunidense médio, homem e branco, havia vivido muito pouco que reerguesse sua moral após a deterioração do mercado de trabalho, nada, na realidade, a menos que fosse membro das forças armadas. Nesta, a situação era evidentemente diversa. As forças armadas haviam-se convertido no equivalente paradigmático de um grande jovem atleta que desejavam por à prova sua autêntica dimensão. Será que haveria por aí, nos quintos dos infernos, um sujeito feito sob medida e que se nome fosse Iraque? O Iraque tinha a reputação de duro, mas não lhe restava muito conteúdo. Um adversário ideal. Uma guerra do deserto está feito sob medida para uma força aérea cuja condição é comparável em sua perfeição a um modelo de moto de primeira linha sobre uma passarela. Sim, libertaríamos os iraquianos.

Assim, lançámo-nos contra todos os obstáculos – o primeiro era a ONU. Sem sequer olhar de lado, desavergonhadamente, orgulhosamente, eufóricos, pelo menos a metade dos nossos EUA prodigiosamente divididos estava impaciente para que começasse a nova guerra. Compreendemos que o nosso entretenimento na televisão ia ser tremendo. E foi. Estéril mas tremendo – o que, depois de tudo, é exactamente o que se supõe que seja uma boa televisão em cadeia e por cabo.

E houve outros factores para utilizar nossa perícia militar, menores mas importantes: esses motivos voltam-nos a conduzir ao contínuo mal estar do macho branco estadunidense. Esteve a sofrer uma sova diária durante os últimos 30 anos. Para melhor ou para o pior, o movimento feminino conseguiu êxitos transcendentais e o velho ego do macho branco perdeu seu brilho. Até o consolo de animar sua equipe diante da televisão havia sido perdido. Para muitos, agora dava muito menos prazer do que antes assistir aos desportes, uma perda chave e declarável. As grandes estrelas brancas de antigamente haviam desaparecido na sua maior parte, desaparecido do futebol americano, da bola-ao-cesto, do boxe e semi-desaparecido do beisebol. O génio negro prevalecia agora em todos esses desportes (e os latinos impunham-se depressa, até os asiáticos começavam a impressionar). Para nós homens brancos deixavam-nos agora a metade do ténis (pelo menos sua metade masculina) e também poderia mencionar o hóquei sobre o gelo, o esqui, o futebol, o golfe (com a notável excepção do Tiger), bem como o lacrosse, o atletismo, a natação e a Federação Mundial de Luta – resíduos daquilo que era uma grande e gloriosa aglutinação atlética branca.

É claro que havia entusiastas do desporto que adoravam as estrelas das suas equipes favoritas sem considerarem a sua raça. Por vezes até gostavam mais dos atletas negros. Esses machos brancos tendiam a ser liberais. Não serviam para Bush. Ele tinha que se preocupar com o seu eleitorado mais imediato. Se possuía uma força oculta, era o seu conhecimento das coisas íntimas que mais preocupavam os machos brancos estadunidenses — precisamente os assuntos que nem sempre estavam dispostos a admitir para si próprios. O primeiro foi de que as pessoas na onda do desporto podem ficar afeiçoados à vitória. O desporto, a ética corporativa (a publicidade) e a bandeira dos EUA converteram-se num triunvirato da luta-pela-vitória que desenvolveu muitas conexões psíquicas com os militares.

Apesar de tudo, a guerra foi a extrapolação mais dramática e mais séria do desporto. O conceito da vitória pode ser visto por alguns como a espécie mais nobre de lucros em união com o patriotismo. Assim, Bush sabia que uma grande vitória era um caminho fácil que daria resultado no caso do macho branco estadunidense. Se os negros e os latinos nas fileiras recrutadas eram representativos da sua proporção na população, ainda não constituíam uma maioria e as caras do corpo de oficiais (como as vemos na televisão) sugerem que a porcentagem de brancos aumenta à medida que se eleva a patente. Além disso tínhamos comandos em demolição de tanques, super-Marines e a melhor força aérea que já existiu. Se não podíamos encontrar machismo em qualquer outra parte, certamente podíamos contar com a inter-relação entre combate e tecnologia. Permitam-me que lance a ofensiva sugestão de que pode ter sido uma das razões encobertas mas reais porque desejávamos a guerra. Sabíamos que provavelmente seria algo que nos faria ficar bem.

Enquanto isso, contudo, dentre todos os rápidos acontecimentos dos últimos meses, nossos militares sofreram uma metamorfose. Certamente foi uma transformação do diabo. Passámos, seja como for, da condição de um atleta potencialmente grande a servir como médico interno ao qual se exigia que operasse em alta velocidade para a de um paciente terrivelmente doente cheio de frustração, indignação e violência. Agora, durante o mês passado, inclusive enquanto estão o paciente, apresenta-se uma nova e inquietante pergunta: Foi desenvolvido algum remédio novo para tratar aquilo que parece ser uma série de infecções? Sabemos realmente como tratar supurações arroxeadas? Ou seria melhor continuar a confiar na nossa imensa sorte estadunidense, nossa fé na nossa sorte de pode fazer tudo, divinamente protegidos? Somos, por hábito, belicosos. Se essas supurações forem incontroláveis, ou demasiado custosas quanto a tempo, não poderíamos deixá-las para trás? Poderíamos passar ao próximo destino. A Síria, poderíamos declarar com a nossa melhor voz de John Wayne: Vocês podem correr, mas não podem esconder-se. A Arábia Saudita: Vocês, depósito de graxa, necessitam-nos mais do que nunca? E ao Irão: Cuidado, estamos a vê-los. Vocês dariam uma verdadeira merenda. Pois quando combatemos sentimo-nos bem, estamos prontos para lançar-nos e já verão como é. Já tomámos o gosto. Claro, há um cabaz cheio de milhares de milhões à espera no Médio Oriente, enquanto pudermos escapar dos biliões de dívidas que nos esperam em casa.

Digamos de forma bem clara: os motivos que orientam os principais actos históricos de uma nação provavelmente não se elevam mais alto do que o entendimento espiritual da sua liderança. Ainda que George W. não saiba tanto quanto como acredita saber sobre as disposições da bendição divina, continua da mesma forma a conduzir-nos a alta velocidade — um homem ao volante cuja vaidade mais legítima será provavelmente que sabe como converter a propriedade parcial de uma equipe de beisebol da liga nacional numa vitória na eleição para governador do Texas. E poderemos chegar a esquecê-lo algum dia? — foi catapultado, mediante astúcias legais e fraudes, a um pedestal — agora um tanto maculado, mas ainda todo-poderoso: Viva o Chefe!

Não, não ascenderemos mais alto que o entendimento espiritual dos nossos dirigentes. E agora que o ardor da vitória começou a arrefecer, alguns verão que tinha falhas. Porque somos vítimas uma vez mais de todas essas ciências da publicidade que dependente da falsidade e da manipulação. Fomos iludidos sobre os verdadeiros motivos para esta guerra, puxados e empurrados por alguns dos melhores especialistas na arte de enganar a fim de que acreditássemos que vencemos uma luta nobre e necessária. Quando, na realidade, o adversário era um imbecil esvaziado cujas monstruosidades degeneravam para a senilidade.

Talvez não fosse tão velho. Talvez Saddam tenha tomado a decisão de passar à clandestinidade com toda a riqueza que havia subtraído e financiar a al-Qaeda ou algum apêndice em algum tipo de cooperação com Osama bin Laden — uma nova equipe clandestina, os Gémeos Terroristas Incompatíveis. É uma hipótese tão insana como o mundo no qual começamos a viver.

A democracia, mais que qualquer outro sistema político, depende de um vislumbre de honradez. Em última instância está em grande parte à mercê de um líder nunca se pôs a si próprio numa situação embaraçosa. O que dizer de alguém que passou dois anos na Força Aérea da Guarda Nacional (para não ter que ir ao Vietname) e que actuou como muitos outros filhotes do papá, mimados e ricos — sem se darem ao incómodo de se apresentarem para cumprir o dever no seu segundo ano de serviço? A maioria de nos tem episódios de juventude podem dar vergonha quando pensamos neles. É um sinal de amadurecimento não tentarmos aproveitar nossas falhas e vícios de juventude e sim fazermos o possível por aprender com eles. Bush, contudo, tratou de converter sua declaração do fim da campanha iraquiana num impressionante desfile de fantasias. Escolheu para cenário a cobertura do porta-aviões Abraham Lincoln, chegando num Viking jet S-3B que fez uma aterragem dramática com o tail hook baixado. O porta-aviões estava bem dentro do raio de acção de um helicóptero a partir de San Diego, mas G.W. não teria podido exibir-se em roupagens de voo e portanto não teria podido demonstrar como ficava bem no uniforme que não havia honrado. Jack Kennedy, um herói da guerra, sempre andava em traje civil quando era comandante em chefe. O mesmo fazia o general Eisenhower. George W. Bush, que teria podido, se estivesse só no mundo, ser um modelo masculino de classe mundial (uma vez que nunca sai mal numa foto) tratou de por o capacete de aviador e brilhar no traje de voo. Ali esteve para a sua sessão fotográfica, vendo-se como mais outro tipo sensacional entre tipos sensacionais. Esperemos que a nossa democracia sobreviva a esse bombardeio de sujidade no seu próprio ninho.

Norman Mailer (1923-2007) nasceu em Long Branch, Nova Jersey, e cresceu no Brooklyn, Nova York. Em 1955 ele foi cofundador do The Village Voice. Ele é autor de mais de trinta livros, incluindo The Naked and the Dead; The Armies of the Night, pelo qual ganhou o National Book Award e o Prêmio Pulitzer; The Executioner's Song, pelo qual ganhou seu segundo Prêmio Pulitzer; Harlot's Ghost; Oswald's Tale; The Gospel According to the Son; e The Castle in the Forest.

19 de junho de 2003

Um roteiro para onde?

No início de maio, em sua visita a Israel e aos Territórios Ocupados, Colin Powell se encontrou com Mahmoud Abbas, o novo primeiro-ministro palestino, e separadamente com um pequeno grupo da sociedade civil...

Edward Said


Vol. 25 No. 12 · 19 June 2003

No início de maio, em sua visita a Israel e aos Territórios Ocupados, Colin Powell se encontrou com Mahmoud Abbas, o novo Primeiro-Ministro Palestino, e separadamente com um pequeno grupo de ativistas da sociedade civil, incluindo Hanan Ashrawi e Mostapha Barghuti. De acordo com Barghuti, Powell expressou surpresa e leve consternação com os mapas computadorizados dos assentamentos, o muro de oito metros de altura e as dezenas de postos de controle do Exército israelense que tornaram a vida tão difícil e o futuro tão sombrio para os palestinos. A visão de Powell sobre a realidade palestina é, para dizer o mínimo, defeituosa, apesar de sua posição augusta, mas ele pediu materiais para levar consigo e, mais importante, ele assegurou aos palestinos que o mesmo esforço feito por Bush no Iraque estava agora indo para a implementação do "mapa do caminho". O mesmo ponto foi levantado nos últimos dias de maio pelo próprio Bush no curso de entrevistas que ele deu à mídia árabe, embora, como de costume, ele tenha enfatizado generalidades em vez de algo específico. Ele se encontrou com os líderes palestinos e israelenses na Jordânia, depois de ver os principais governantes árabes, excluindo Bashar al-Assad da Síria, é claro. Tudo isso é parte do que agora parece um grande avanço americano. Que Ariel Sharon tenha aceitado o roteiro (embora com reservas suficientes para minar essa aceitação) parece ser um bom presságio para um estado palestino viável.

A visão de Bush (a palavra dá uma nota estranha e sonhadora no que se pretende ser um plano de paz definitivo e pragmático) deve ser realizada pela reestruturação da Autoridade Palestina, a eliminação de toda violência e incitação contra israelenses e a instalação de um governo que atenda às exigências de Israel e do chamado Quarteto (EUA, ONU, UE e Rússia) responsável pelo plano. Israel, por sua vez, se compromete a melhorar a situação humanitária, aliviando as restrições e suspendendo os toques de recolher, embora onde e quando não sejam especificados. A Fase Um também deve ver o desmantelamento de 60 assentamentos no topo das colinas (os chamados "assentamentos de postos avançados ilegais" estabelecidos desde que Sharon chegou ao poder em março de 2001), embora nada seja dito sobre a remoção dos outros, que respondem por cerca de 200.000 colonos na Cisjordânia e Gaza, para não falar dos mais 200.000 em Jerusalém Oriental anexada. A Fase Dois, descrita como uma transição, é focada estranhamente na "opção de criar um estado palestino independente com fronteiras provisórias e atributos de soberania" - nenhum é especificado - e deve culminar em uma conferência internacional para aprovar e então "criar" um estado palestino, mais uma vez com "fronteiras provisórias". A Fase Três é acabar com o conflito completamente, também por meio de uma conferência internacional cujo trabalho será resolver as questões mais espinhosas de todas: refugiados, assentamentos, Jerusalém, fronteiras. O papel de Israel em tudo isso é cooperar: o ônus real é colocado sobre os palestinos, que devem continuar apresentando os bens enquanto a ocupação militar permanece mais ou menos em vigor, embora aliviada nas principais áreas invadidas durante a primavera de 2002. Nenhum elemento de monitoramento é previsto, e a simetria enganosa da estrutura do plano deixa Israel muito responsável pelo que - se alguma coisa - acontecerá a seguir. Quanto aos direitos humanos palestinos, atualmente não tanto ignorados quanto suprimidos, nenhuma retificação específica está incluída no plano: aparentemente, cabe a Israel decidir se continua como antes ou não.

Pela primeira vez, todos os comentaristas habituais dizem que Bush está oferecendo esperança real para um acordo no Oriente Médio. Vazamentos calculados da Casa Branca sugeriram uma lista de possíveis sanções contra Israel se Sharon for muito intransigente, mas isso foi rapidamente negado e logo parou de ser mencionado. Um consenso emergente da mídia apresenta o conteúdo do documento — muitos deles familiares de planos de paz anteriores — como resultado da confiança recém-descoberta de Bush após seu triunfo no Iraque. Como na maioria das discussões sobre o conflito palestino-israelense, clichês manipulados e suposições absurdas, em vez das realidades do poder e da história vivida, moldam o fluxo do discurso. Céticos e críticos são descartados como antiamericanos, enquanto uma parcela considerável da liderança judaica organizada denunciou o roteiro como exigindo muitas concessões israelenses. Mas a imprensa estabelecida continua nos lembrando que Sharon falou de uma "ocupação", que ele nunca admitiu até agora, e na verdade anunciou sua intenção de acabar com o governo israelense sobre 3,5 milhões de palestinos. Mas ele está ciente do que propõe acabar? O comentarista do Haaretz, Gideon Levy, escreveu em 1º de junho que, em comum com a maioria dos israelenses, Sharon não sabe de nada

sobre a vida sob toque de recolher em comunidades sitiadas há anos. O que ele sabe sobre a humilhação dos postos de controle, ou sobre pessoas sendo forçadas a viajar por estradas de cascalho e lama, arriscando suas vidas, para levar uma mulher em trabalho de parto ao hospital? Sobre a vida à beira da fome? Sobre uma casa demolida? Sobre crianças que veem seus pais espancados e humilhados no meio da noite?

Outra omissão assustadora do roteiro é o gigantesco "muro de separação" que está sendo construído na Cisjordânia por Israel: 347 quilômetros de concreto de norte a sul, dos quais 120 já foram erguidos. Ele tem oito metros de altura e dois metros de espessura; seu custo é estimado em US$ 1,6 milhão por quilômetro. O muro não divide Israel simplesmente de um suposto estado palestino com base nas fronteiras de 1967: ele realmente ocupa novos trechos de terra palestina, às vezes cinco ou seis quilômetros de cada vez. Ele é cercado por trincheiras, fios elétricos e fossos; há torres de vigia em intervalos regulares. Quase uma década após o fim do apartheid sul-africano, esse muro racista medonho está sendo erguido sem que a maioria dos israelenses ou seus aliados americanos o escutem, gostem ou não, que vão pagar pela maior parte dele. Os 40.000 habitantes palestinos da cidade de Qalqilya vivem de um lado do muro, a terra que cultivam e da qual realmente vivem fica do outro. Estima-se que quando o muro estiver concluído — presumivelmente enquanto os EUA, Israel e os palestinos discutem sobre o procedimento por meses a fio — quase 300.000 palestinos serão separados de suas terras. O roteiro não fala sobre isso, assim como sobre a recente aprovação de Sharon de um muro no lado leste da Cisjordânia, que, se construído, reduzirá a quantidade de território palestino disponível para o estado dos sonhos de Bush para cerca de 40 por cento da área. É isso que Sharon tinha em mente o tempo todo.

Uma premissa não declarada fundamenta a aceitação fortemente modificada do plano por Israel e o evidente comprometimento dos EUA com ele: o sucesso relativo da resistência palestina. Isso é verdade, quer se lamentem ou não alguns de seus métodos, seu custo exorbitante e o alto preço que isso causou a mais uma geração de palestinos que se recusaram a desistir diante da esmagadora superioridade do poder israelense-americano. Todos os tipos de razões foram dadas para o surgimento do roteiro: que 56 por cento dos israelenses o apoiam, que Sharon finalmente se curvou à realidade internacional, que Bush precisa de cobertura árabe-israelense para suas aventuras militares em outros lugares, que os palestinos finalmente caíram em si e trouxeram Abu Mazen (o nome de guerra muito mais familiar de Abbas, por assim dizer), e assim por diante. Parte disso é verdade, mas ainda afirmo que, se não fosse pela recusa obstinada dos palestinos em aceitar que são "um povo derrotado", como o Chefe do Estado-Maior israelense os descreveu recentemente, não haveria plano de paz. No entanto, qualquer um que acredite que o roteiro oferece algo parecido com um acordo, ou que ele aborda as questões básicas, está errado. Como grande parte do discurso de paz predominante, ele coloca a necessidade de contenção, renúncia e sacrifício diretamente sobre os ombros palestinos, negando assim a densidade e a pura gravidade da história palestina. Ler o roteiro é confrontar um documento não situado, alheio ao seu tempo e lugar.

O roteiro, na verdade, não é um plano para a paz, mas sim um plano para a pacificação: trata-se de pôr fim à Palestina como um problema. Daí a repetição do termo "desempenho" na prosa de madeira do documento — em outras palavras, a maneira como se espera que os palestinos se comportem. Sem violência, sem protestos, mais democracia, melhores líderes e instituições — tudo isso com base na noção de que o problema subjacente tem sido a ferocidade da resistência palestina, e não a ocupação que lhe deu origem. Nada comparável é esperado de Israel, exceto que os pequenos assentamentos dos quais falei anteriormente, conhecidos como "postos avançados ilegais" (uma classificação inteiramente nova que sugere que algumas implantações israelenses em terras palestinas são legais), devem ser abandonados e, sim, os principais assentamentos "congelados", mas certamente não removidos ou desmantelados. Nenhuma palavra é dita sobre o que, desde 1948, e novamente desde 1967, os palestinos têm sofrido nas mãos de Israel e dos EUA. Nada sobre o des-desenvolvimento da economia palestina. As demolições de casas, o arrancamento de árvores, os prisioneiros (pelo menos 5.000 deles), a política de assassinatos seletivos, os fechamentos desde 1993, a ruína total da infraestrutura, o número incrível de mortes e mutilações - tudo isso e muito mais passa sem uma palavra.

A agressão truculenta e o unilateralismo obstinado das equipes americana e israelense já são bem conhecidos. A equipe palestina inspira pouca confiança, composta como é de coortes recicladas e envelhecidas de Arafat. De fato, o roteiro parece ter dado a Yasser Arafat outra vida, apesar de todos os esforços estudados de Powell e seus assistentes para evitar visitá-lo. Apesar da política israelense estúpida de tentar humilhá-lo ao prendê-lo em um complexo gravemente bombardeado, ele ainda está no controle das coisas. Ele continua sendo o presidente eleito da Palestina, ele tem os cordões da bolsa palestina em suas mãos (a bolsa está longe de estourar) e, quanto ao seu status, ninguém da atual equipe de "reforma" pode igualar o velho em carisma e poder.

Veja Abu Mazen. Eu o conheci em março de 1977, na minha primeira reunião do Conselho Nacional no Cairo. Ele fez de longe o discurso mais longo, na maneira didática que ele deve ter aperfeiçoado como professor de escola secundária no Catar, e explicou aos parlamentares palestinos reunidos as diferenças entre o sionismo e os dissidentes sionistas. Foi uma intervenção notável, já que a maioria dos palestinos naquela época não tinha noção real de que Israel era composto não apenas de sionistas fundamentalistas que eram anátemas para todos os árabes, mas também de vários tipos de pacifistas e ativistas. Em retrospecto, o discurso de Abu Mazen lançou a campanha da OLP de reuniões, a maioria delas secretas, entre palestinos e israelenses: esses longos diálogos na Europa sobre a paz tiveram um efeito considerável em suas respectivas sociedades na formação dos círculos eleitorais que tornaram Oslo possível.

No entanto, ninguém duvidou que Arafat havia autorizado o discurso de Abu Mazen e a campanha subsequente, que custou a vida de homens corajosos como Issam Sartawi e Said Hammami. E enquanto os participantes palestinos emergiram do centro da política palestina (ou seja, Fatah), os israelenses vieram de um pequeno grupo marginalizado de odiados apoiadores da paz, cuja coragem era louvável por esse mesmo motivo. Durante os anos da OLP em Beirute, entre 1971 e 1982, Abu Mazen ficou estacionado em Damasco, mas depois se juntou ao exilado Arafat e sua equipe em Túnis pela próxima década ou mais. Eu o vi lá várias vezes e fiquei impressionado com seu escritório bem organizado, sua maneira burocrática silenciosa e seu interesse evidente na Europa e nos Estados Unidos como arenas onde os palestinos poderiam fazer um trabalho útil promovendo a paz. Após a conferência de Madri em 1991, ele teria reunido funcionários da OLP e intelectuais independentes na Europa e os formado em equipes para preparar arquivos de negociação sobre assuntos como água, refugiados, demografia e fronteiras antes do que se tornariam as reuniões secretas de Oslo, embora, até onde sei, nenhum dos arquivos tenha sido usado, nenhum dos especialistas palestinos tenha se envolvido diretamente nas negociações e nenhum dos resultados dessa pesquisa tenha influenciado os documentos finais que surgiram.

Em Oslo, os israelenses colocaram em campo uma série de especialistas apoiados por mapas, documentos, estatísticas e pelo menos 17 rascunhos anteriores do que os palestinos acabariam assinando, enquanto os palestinos infelizmente restringiram seus negociadores a três homens da OLP, nenhum dos quais sabia inglês ou tinha experiência em direito internacional (ou qualquer outro tipo de direito). A ideia de Arafat parece ter sido que ele estava colocando em campo uma equipe principalmente para se manter no processo, especialmente após sua saída de Beirute e sua decisão desastrosa de ficar do lado do Iraque durante a Guerra do Golfo de 1991. Se ele tinha outros objetivos em mente, então ele não se preparou para eles efetivamente, como sempre foi seu estilo. Nas memórias de Abu Mazen, Through Secret Channels: The Road to Oslo (1995), e em outros relatos anedóticos das discussões de Oslo, o subordinado de Arafat é creditado como o "arquiteto" dos Acordos, embora ele nunca tenha saído de Túnis; Abu Mazen chega a dizer que levou um ano após as cerimônias de Washington (onde ele apareceu ao lado de Arafat, Rabin, Peres e Clinton) para convencer Arafat de que ele não tinha um estado de Oslo. No entanto, a maioria dos relatos das negociações de paz enfatiza o fato de que Arafat estava puxando todos os cordões. Não é de se admirar, então, que as negociações de Oslo tenham piorado bastante a situação geral dos palestinos. (A equipe americana liderada por Dennis Ross, um ex-funcionário do lobby israelense — um trabalho para o qual ele agora retornou — apoiou rotineiramente a posição israelense que, após uma década inteira de negociação, consistia em devolver 18 por cento dos Territórios Ocupados aos palestinos em termos altamente desfavoráveis, com as IDF encarregadas da segurança, fronteiras e água. Naturalmente, o número de assentamentos mais que dobrou desde então.)

Desde o retorno da OLP aos Territórios Ocupados em 1994, Abu Mazen permaneceu como uma figura de segunda categoria, conhecido universalmente por sua "flexibilidade" em relação a Israel, sua subserviência a Arafat e sua falta de uma base política organizada, embora seja um dos fundadores do Fatah e um membro de longa data e secretário-geral de seu Comitê Central. Até onde sei, ele nunca foi eleito para nada, e certamente não para o Conselho Legislativo Palestino. A OLP e a Autoridade Palestina sob Arafat são tudo menos transparentes. Pouco se sabe sobre a maneira como as decisões foram tomadas, ou como o dinheiro é gasto, onde ele está e quem além de Arafat tem alguma palavra a dizer sobre o assunto. Todos concordam, no entanto, que Arafat, um microgerenciador diabólico e maníaco por controle, continua sendo a figura central em todos os aspectos significativos. É por isso que a elevação de Abu Mazen ao status de primeiro-ministro reformador, que tanto agrada os americanos e israelenses, é vista pela maioria dos palestinos como, bem, uma espécie de piada, a maneira do velho de se manter no poder inventando um novo truque. Abu Mazen é visto geralmente como incolor, moderadamente corrupto e sem nenhuma ideia clara própria, exceto que ele quer agradar o homem branco.

Como Arafat, Abu Mazen nunca viveu em nenhum outro lugar exceto no Golfo, Síria e Líbano, Tunísia e agora na Palestina ocupada; ele não conhece nenhuma outra língua além do árabe, e não é um grande orador ou presença pública. Em contraste, Mohammed Dahlan — a outra figura muito anunciada em quem os israelenses e americanos depositam grande esperança — é mais jovem, mais inteligente e bastante implacável. Durante os oito anos em que ele comandou uma das 14 ou 15 organizações de segurança de Arafat, Gaza era conhecida como Dahlanistão. Ele renunciou no ano passado, apenas para ser recrutado novamente para o cargo de "chefe de segurança unificado" pelos europeus, americanos e israelenses, embora ele também sempre tenha sido um dos homens de Arafat. Agora, espera-se que ele reprima o Hamas e a Jihad Islâmica: uma das reiteradas demandas israelenses por trás da qual está a esperança de que haverá algo parecido com uma guerra civil palestina, um brilho nos olhos dos militares israelenses.

Em todo caso, parece-me claro que, não importa quão assiduamente e flexivelmente Abu Mazen "atue", ele será limitado por três fatores. Um, é claro, é o próprio Arafat, que ainda controla o Fatah. Outro é Sharon (que presumivelmente terá os EUA por trás dele o tempo todo). Em uma lista de 14 "comentários" sobre o roteiro publicado no Haaretz em 27 de maio, Sharon sinalizou os limites muito estreitos para qualquer coisa que possa ser interpretada como flexibilidade por parte de Israel. O terceiro é Bush e sua comitiva; a julgar por seu manejo do Afeganistão e do Iraque do pós-guerra, eles não têm estômago nem competência para a construção de nações. A base cristã de direita de Bush no Sul já protestou ruidosamente contra a pressão sobre Israel, e o poderoso lobby pró-Israel americano, com seu dócil adjunto, o Congresso dos EUA, já entrou em ação contra qualquer indício de coerção contra Israel, embora seja crucial agora que uma fase final começou.

Pode parecer quixotesco para mim dizer que, mesmo que as perspectivas imediatas sejam sombrias de uma perspectiva palestina, elas não são todas sombrias. Volto à teimosia que mencionei e ao fato de que a sociedade palestina — devastada, quase arruinada, desolada de tantas maneiras — é, como o tordo de Hardy em sua pluma enfeitada pela explosão, ainda capaz de lançar sua alma sobre a crescente escuridão. Nenhuma outra sociedade árabe é tão turbulenta e saudavelmente indisciplinada, e nenhuma é mais cheia de iniciativas cívicas e sociais e instituições funcionais (incluindo um conservatório musical milagrosamente vital). Embora sejam em sua maioria desorganizados e, em alguns casos, levem vidas miseráveis ​​de exílio e apatridia, os palestinos da diáspora ainda estão energicamente engajados pelos problemas de seu destino coletivo, e todos aqueles que conheço estão sempre tentando, de alguma forma, promover a causa. Apenas uma fração minúscula dessa energia chegou à Autoridade Palestina, que, exceto pela figura altamente ambivalente de Arafat, permaneceu estranhamente marginal ao destino comum. De acordo com pesquisas recentes, o Fatah e o Hamas juntos têm o apoio de aproximadamente 45% do eleitorado palestino, com os 55% restantes desenvolvendo formações políticas bem diferentes e muito mais esperançosas.

Uma em particular me pareceu significativa (e eu me apeguei a ela) na medida em que agora fornece a única formação de base genuína que se afasta tanto dos partidos religiosos e suas políticas fundamentalmente sectárias, quanto do nacionalismo tradicional oferecido pelos antigos (e não jovens) ativistas do Fatah de Arafat. Chama-se Iniciativa Política Nacional (NPI) e sua figura principal é Mostapha Barghuti, um médico formado em Moscou, cujo trabalho principal tem sido como diretor do impressionante Village Medical Relief Committee, que levou assistência médica a mais de 100.000 palestinos rurais. Um antigo defensor do Partido Comunista, Barghuti é um organizador de fala mansa que superou centenas de obstáculos físicos que impedem o movimento palestino ou viagens ao exterior para reunir quase todos os indivíduos e organizações independentes de destaque em um programa político que promete reforma social, bem como libertação entre linhas doutrinárias. Barghuti construiu um movimento de solidariedade invejavelmente bem administrado que pratica o pluralismo e a coexistência que prega. O NPI não desiste da militarização sem direção da intifada. Ele oferece programas de treinamento para desempregados e serviços sociais para os destituídos, alegando que eles respondem às circunstâncias atuais e à pressão israelense. Acima de tudo, o NPI, que está prestes a se tornar um partido político reconhecido, busca mobilizar a sociedade palestina em casa e no exílio para eleições livres – eleições autênticas que representarão os interesses palestinos, em vez dos israelenses ou dos EUA. Esse senso de autenticidade é o que parece tão ausente no caminho aberto para Abu Mazen.

A visão aqui não é um estado provisório fabricado em 40 por cento da terra, com os refugiados abandonados e Jerusalém mantida por Israel, mas um território soberano libertado da ocupação militar por ação em massa envolvendo árabes e judeus sempre que possível. Como o NPI é um autêntico movimento palestino, a reforma e a democracia se tornaram parte de sua prática cotidiana. Reuniões organizacionais já foram realizadas, com muitas outras planejadas no exterior e na Palestina, apesar das terríveis restrições de viagem. É um certo consolo pensar que, enquanto negociações e discussões formais continuam, existe uma série de alternativas informais e não cooptadas, das quais o NPI e uma crescente campanha de solidariedade internacional são agora os principais componentes.

1 de junho de 2003

A cidade do futuro

Após a dilapidação do modernismo urbano, que tipos de cidade e que formas de arquitetura nos aguardam? O autor de The Seeds of Time considera suas flores na obra vertiginosa de Rem Koolhaas, os mega-desenvolvimentos do Delta do Rio das Pérolas e a conceituação de "Junkspace". Retornando à história com um aríete do pós-moderno?

Fredric Jameson 


NLR 21 • May/June 2003

Tradução / O Project on the City (“Projeto sobre a Cidade”)reúne pesquisas de um seminário de  graduação  ainda  em  andamento,  dirigido  por  Rem  Koolhaas,  na Harvard School of Design; seus primeiros dois volumes — Great Leap Foward (“O Grande Salto à Frente), uma análise do desenvolvimento do delta do Rio das Pérolas, entre Hong Kong e Macau, e Guide to Shopping (“Guia do Shopping”) — acabaram de sair em suntuosas edições da Taschen2. Esses extraordinários volumes são totalmente diferentes de tudo o que se pode encontrar na mídia impressa; eles não são livros de fotografia ou textos ilustrados, estão em  movimento  como  um  CD-ROM,  suas  estatísticas  são visualmente  bonitas  e  suas imagens, até certo ponto, legíveis.

Embora a arquitetura seja uma das poucas artes em que ainda existem os grandes auteurs —  e  embora  Koolhaas  certamente  seja  um  deles  —  o  seminário  que  produziu seus  primeiros  resultados  nesses  dois  volumes  não  é  dedicado  à  arquitetura,  mas  sim,  à exploração  da  cidade  nos  dias  de  hoje,  em  todas  as suas  não-teorizadas  diferenças  em relação à estrutura urbana clássica que existiu ao menos até a Segunda Guerra Mundial. Desde  seus  primórdios,  nos  séculos  XVIII  e  XIX,  a  arquitetura  moderna  tem  estado intimamente ligada às questões do urbanismo: a síntese modernista de Siegfried Giedion, Space,  Time  and  Architeture,   por   exemplo,   mesmo   sendo,   essencialmente,   uma celebração de Le Corbusier, começa com a reestruturação barroca de Roma por Sixtus V e  termina  com  o  Rockfeller  Center  e  as  avenidas  de Robert  Moses.  E,  obviamente,  Le Corbusier  foi,  com  as Radiant  Cities, Chandigarh e  o  plano  para  Argel,  tanto  um arquiteto quanto um “planejador urbano”. Mas ainda que o Project testemunhe a favor do compromisso de Koolhaas com a questão da cidade, ele não é um urbanista em nenhum sentido  disciplinar;  tampouco  pode  a  palavra  ser  usada  para  descrever  esses  livros,  que igualmente escapam a outras categorias disciplinares (tais como sociologia ou economia), mas estão mais próximos dos estudos culturais, pode-se dizer.

O  fato  é  que  o  urbanismo  tradicional  —  talvez  seja melhor  dizer  modernista  — chegou a um beco sem saída. Discussões a respeito dos padrões americanos de trânsito ou da divisão  em  zonas  —  e  até  mesmo  debates  políticos  sobre  os  “sem-teto”,  a  gentrificação3(“enobrecimento  urbano”)  e  a  real  política  de  impostos  do  Estado  —  perdem-se  na insignificância  quando  se  considera  a  imensa  expansão  daquilo  que  costumávamos chamar de cidades no Terceiro Mundo: “Em 2025, nos diz Koolhaas num outro volume coletivo,

o número de habitantes de cidade poderá chegar a cinco bilhões de indivíduos...das  trinta  e  cinco  megalópoles  previstas  para  2015, vinte  sete  estarão  localizadas  nos  países  menos  desenvolvidos, incluindo dezenove na Ásia... Tóquio vai ser a única cidade rica a figurar na lista das dez maiores cidades.

Não se trata de um problema a ser resolvido, mas de uma nova realidade a ser explorada: e esta, suponho eu, é a missão do Project on the City, dois volumes complementares de projetos que estão bem distantes: um em Lagos, na Nigéria, e o outro na cidade Romana clássica, como protótipo.

O  primeiro  volume  do Project, Great  Leap  Forward,  interpreta  o  prodigioso “boom” da  construção  na  China  atual  —  quase  nove  mil  prédios  de  grande  altura construídos em Xangai desde 1992 — não tanto em termos de uma virada ou retorno ao capitalismo, mas, sim, nos termos da estratégia de Deng Xiaoping de usar o capitalismo para   construir   uma   sociedade   radicalmente   diferente: infravermelha ao   invés   de vermelha: 

A  ocultação  dos  ideais  comunistas,  vermelhos...  para  salvar  a Utopia  em  um  momento  na  qual  ela  estava  sendo  contestada  de todos  os  lados,  quando  o  mundo  ficava  acumulando  provas  de seus  estragos  e  misérias...  IFRAVERMELHO©,  a  ideologia  da reforma,  é  uma  campanha  para  evitar  o  fracasso  da  Utopia,  um projeto  para  esconder  ideais  do  século  dezenove  no interior  das realidades do século vinte e um.

Aqueles que acreditam que o mercado é uma realidade, ancorada na Natureza e no Ser,  terão  dificuldade  em  apreender  tal  proposição,  que  de  sua  perspectiva  vai  ser dissipada  por  uma  imediata  conversão  ao  capitalismo  ou  pelo  colapso  econômico.  Mas consideremos a perspectiva arquitetônica: testemunhamos milhares e milhares de prédios construídos, ou sendo construídos, que não possuem arrendatários, que jamais poderiam ser pagos sob condições capitalistas e cuja própria existência não pode ser justificada por padrão algum de mercado. Seguimos aqui os princípios das comunidades de habitação da área  do  delta  do  Rio  das  Pérolas,  que  estão  sendo  projetadas  para  um  futuro  bastante distinto  daqueles  pesquisados  pelos  especuladores  ocidentais,  bancos  e  instituições  de financiamento  do  mundo  capitalista.      De  fato,  as  quatro  comunidades  exploradas  aqui são  algo  como  quatro  projeções  utópicas  diferentes:  Shenzhen,  um  tipo  de  substituta  ou duplicata de Hong Kong; Dongguan, uma cidade do prazer; Zhuhai, um paraíso do golf; e o  antigo  centro,  Guangzhou,  um  estranho  tipo  de  palimpsesto,  no  qual  o  novo  está sobreposto num centro econômico tradicional já existente. Trata-se de um extraordinário relato de uma viagem ao futuro, que nos dá uma percepção muito mais concreta da China de hoje e de amanhã do que a maioria dos livros de viagem (e muitas excursões reais).

PROTEUS VAI AO SHOPPING 

O Guide to Shopping é algo de todo diferente, tanto em estilo quanto em intenção. O consumo, sejamos claros, é um tema candente, mas esse não é um estudo convencional sobre ele. Na verdade, a questão a respeito do que é esse livro — um extraordinário livro de fotografias; uma coleção de ensaios sobre vários tópicos urbanistas e comerciais; uma amostra  do  espaço  global  da  Europa  a  Singapura,  da Disney  World  a  Las  Vegas;  um estudo  sobre  o  próprio  shopping-center,  dos  seus  primeiros  ideólogos  até  suas  formas mais  contemporâneas  —  corresponde  à  ambigüidade  mais  geral  de  seu  objeto.  Mesmo que  permaneçamos  com  a  caracterização  inicial  daquele  objeto  como  “shopping”,  que tipo  de  caracterização  é  essa?  Trata-se  de  uma  caracterização  física,  envolvendo  os objetos a ser vendidos? Ela é psicológica, envolvendo o desejo de comprar os objetos em questão? Ou arquitetônica, tendo a ver com a originalidade espacial daquelas galerias — que,  notoriamente,  encontram  seus  ancestrais,  no  século  XIX,  nas  passagens  de  Walter Benjamin;  caso  contrário,  como  sugerem  alguns  dos  gráficos  de  tempo  nesse  livro, em 7.000  A.C.  na  “cidade  de  Catal  Hoyuk,  fundada  para trocas  comerciais”,  ou  talvez  na “invenção” da venda no  varejo na  Lídia5, no século VII A.C.? Ou estamos falando aqui da globalização do consumo (consumismo)? Ou das novas rotas comerciais e das redes de produção e distribuição envolvidas em tal globalização? (Ou dos homens de negócio que as  organizam?)  Mas  e  as  novas  tecnologias  desenvolvidas  para  o  comércio  desde  Catal Hoyuk?  O  prodigioso  aumento  em  tamanho  das  companhias  de  marketing  e  dos conglomerados, alguns deles maiores do que muitos países estrangeiros? O que dizer do shopping e da forma da cidade contemporânea — se é que existe uma? Não por acaso, o projeto coletivo de Koolhaas teve seu nome mudado de “Project for what used to be the city”  (Projeto  para  o  que  costumava  ser  a  cidade)  para o  mais  simples  e  mais  otimista Project on the City. Ao que podemos acrescentar a seguinte questão: está emergindo um novo tipo de espaço — espaço de controle, junkspace? E o que tudo isso implica para a psyque e  a  própria  realidade  humana?  (o  primeiro  teórico  da  publicidade,  Edward Bernays, era sobrinho de Freud). O que isso implica para o futuro e para a Utopia?

Provavelmente  estou  esquecendo  algumas  das  outras  modulações  desse  tema proteano;  mas  vai  ficar  claro  que  ele  mobiliza,  ao lado  das  óbvias  (obviamente antecipadas)  áreas  da  arquitetura  e  do  urbanismo,  disciplinas  tão  heterogêneas  quanto  a psicanálise e a geografia, história e negócios, economia e engenharia, biografia, ecologia, feminismo,  estudos  de  área,  análise  ideológica,  estudos  clássicos,  decisões  jurídicas, teoria  da  crise,  etc.  Talvez  esse  imenso  tipo  de  extensão  disciplinar  não  seja  mais  tão atordoante numa era pós-moderna, em que a lei do ser é a “des-diferenciação”, e na qual estamos  interessados  ao  máximo  em  como  as  coisas  sobrepõe-se  umas  as  outras  e necessariamente escorrem através das fronteiras disciplinares. Ou, se preferirem, no pós-moderno  a  distinção  entre  as  antigas  e  especializadas  disciplinas  está  constitutivamente apagada e, agora, elas retornam umas as outras nos mais interessantes estudos — do Mil Platôs, de Deleuze e Guatarri ao Power Broker, de Caro; do Império ao Rembrant`s Eyes; das Passagens de Benjamin ao Geschichte und Eigensinn, de Negt e Kluge; sem falar em S, M, L, XL ou  mesmo Space, Time and Arquiteture.  Aqui  a  teoria  é  majoritariamente renegada (embora Baudrillard seja mencionado uma vez, se não me engano), mas não se deve deixar que isso nos leve a pensar que se trata de um trabalho de jornalismo cultural não-teórico, menos ainda de um livro de fotografias de mesa de café. Como pode também sugerir  a  enumeração  acima,  é  um  volume  coletivo;  mas  não  no  sentido  em  que  os experts das várias disciplinas a pouco mencionadas são, de algum modo, reunidos e suas contribuições examinadas em seqüência. Isso torna embaraçoso para um crítico destacar nomes  específicos,  embora  Sze  Tsung  Leong  escreva  a  maior  parte  dos  capítulos  ─  e também  os  mais  reflexivos  filosoficamente  ─,  com  Chuihua  Judy  Chung  seguindo  de perto  nas  discussões  mais  concretas.  Quanto  a  Koolhaas,  seu  papel  parece  ter  sido essencialmente  organizacional  (quer  dizer,  como  algumas  versões  do  divino,  em  lugar nenhum e em todos os lugares ao mesmo tempo), salvo uma impressionante aparição em seu próprio nome, que discutiremos no momento oportuno.

DEPOIS DA GALERIA COMERCIAL

Tentarei  trazer  a  teoria  de  volta  a  tudo  isso,  mas primeiro  seria  melhor  explorar algo  no  detalhe  das  bases  ou  do stratum do  livro,  cujo  índice  alfabético  de  conteúdos  é bastante enganoso a esse respeito, sendo, deste modo, em si mesmo, um verdadeiro tour de force6.  Porque  algumas  antecipações  sobre  o  shopping  são o  caminho  aqui:  elas  vão retornar, muito mais desenvolvidas, mais adiante, em contextos variados. Pois é como se o  shopping-center  fosse  o  fundamento  espacial  e  arquitetônico  no  interior  desse  imenso tópico. Poucas formas têm sido tão distintivamente novas, tão distintivamente americanas e tardo-capitalistas quanto essa inovação, cujo surgimento pode ser datado de 1956; cuja relação  com  o  bem  conhecido  declínio  do  crescimento  do  subúrbio  dentro  da  cidade  é palpável, ainda que variável; cuja genealogia abre agora uma pré-história física e espacial do shopping de uma maneira que antes seria inconcebível; e cuja proliferação por todo o mundo   pode   servir   como   um   mapa   epidemiológico   da   Americanização,   ou   pós-modernização,  ou  globalização.  O  shopping,  portanto,  concentra  a  investigação  e  serve como a moldura da espantosa ampliação de tudo isso mais tarde. Enquanto isso, páginas de  cronologia,  sistemas  de  referência  cruzada  codificados  por  cor  e  incontáveis  indexes temáticos  já  nos  treinam  na  forma  rizomática  daquela  ampliação;  ao  passo  que  um primeiro  conjunto  de  comparações  entre  as  áreas  de venda  no  mundo  inteiro,  entre  os PIBs  nacionais  e  as  receitas  de  venda  das  maiores  corporações,  nos  ajuda  a  começar  a mapear  o  processo  em  nossas  mentes  e  formar  uma  fotografia,  não  somente  das hierarquias  relativas  da  globalização,  mas,  também,  de  uma  visão  do  shopping  que,  me arrisco  a  dizer,  vai  se  transformar  em  breve  não  apenas  numa  questão  política,  mas também metafísica.

Simultaneamente,  no  entanto,  somos  parados  abruptamente  e  uma  diferença fundamental entre esse livro e a proliferação de novos e excelentes volumes de estudos-culturais sobre shopping-center, galerias, consumismo, e coisas parecidas, torna-se clara. Antes mesmo de abordarmos a própria coisa, nos deparamos com a galeria comercial em crise, perdendo dinheiro, arrendatários e prestes a ser substituída... Pelo o quê? Benjamin tirou sua foto instantânea da galeria do século dezenove no momento de sua decadência —  e  deste  modo  desenvolveu  toda  uma  teoria  da  história,  segundo  a  qual  é  possível compreender melhor o presente do ponto de vista de um passado imediato cujas modas já estavam ligeiramente ultrapassadas. A crise nos permite notar que aqui não temos apenas que lidar com a arqueologia ou a pré-história do shopping, nem mesmo seu presente, mas, sim, com seu futuro. Entretanto, seja qual for o destino da  galeria enquanto tal, “‘existe muito  lixo  lá’.  Muitas  galerias  velhas  e  cavernosas  são  dinossauros  que  não  podem competir  com  a  conveniência  dos  atacadistas  de  valor  aumentado  em  poderosos  centros ou faixas” — aos quais se deve acrescentar agora, sem dúvida, o eBay7.

Em primeiro lugar, alguma coisa  evidentemente  aconteceu com os pré-requisitos para  a  existência  da  galeria.  Mas  quais  eram  esses pré-requisitos?  Como na  causalidade aristotélica, eles aparecem numa variedade de formas e modelos: as pré-condições físicas ou de engenharia nos são apresentadas a um só tempo, na primeiríssima letra desse ABC do shopping: qual seja, o ar-condicionado — ao qual logo retornaremos num lugar mais apropriado.  Quanto  à  pré-história,  certamente  temos  sido  expostos,  em  anos  recentes,  a uma  hoste  de  interessantes  formas  antecedentes,  geralmente  retornando-se  até  mesmo  a Catal  Hoyuk.  Mais  notadamente  a  própria  galeria,  que  se  desenvolve  essencialmente  no início  do  século  XIX  e  se  depara  com  sua  crise  nas décadas  de  1850  e  60  —  no  exato momento em que a próxima forma entre em cena: a moderna loja de departamentos, cujo surgimento  Zola  imortalizou  em Au bonheur dês dames (Ladies’s Delight é  uma  versão em ficção de nomes verdadeiros como Au printemps e La Samaritane, que também foram exaustivamente  estudadas  nos  últimos  anos,  tanto  por  conta  de  suas  implicações urbanísticas  quanto  comerciais:  ao  menos  por  uma  razão,  elas  são  mais  ou  menos contemporâneas  da  imensa  transformação  de  Paris  por  Haussmamm8).  Quanto  a  nossa forma — entrando em seu período de decadência? — chegaremos a ela em um momento; na verdade, vamos inclusive lhe dar nomes e faces. Como um romance ou um poema, ela realmente  tem  um  autor  ou  inventor,  embora  o  inventor  de  todo  um  gênero  seja  um paralelo mais apropriado; algo que não se encontra com freqüência.

TECNOLOGIAS DELIRANTES 

Primeiro,  saltemos  à  frente  para  avaliar  o  propósito  e  as  transformações  dessa forma proteana — em aeroportos, por exemplo, que agora, pelo menos os novos, também se  tornaram  shopping-centers;  em  museus  e,  finalmente,  na  própria  cidade.  O  velho centro   da   cidade   —   devastado   pelos   subúrbios,   pelos   novos   supermercados   e posteriormente  pelos  próprios  shoppings  —  procura  agora,  com  a  pós-modernidade  e  o “enobrecimento   urbano”,   compensar   a   perda:   não   somente   construindo   enormes shoppings em sua própria área, mas transformando-se, a seu modo, num shopping virtual. De fato, algo fundamental começa a acontecer a ele (como assinalado em um volume do Project on the city):

Em 1994, o shopping oficialmente substituiu as funções cívicas do tradicional  centro  da  cidade.  Na  Suprema  Corte  de  Nova  Jersey, num  caso  envolvendo  a  distribuição  de  panfletos  políticos  em shopping-centers,   a   corte   declarou   que   “os   shopping-centers substituíram  os  parques  e  praças  que  “tradicionalmente  eram  a casa  do  livre  discurso”,  se  colocando  ao  lado  dos  manifestantes “que argumentavam que o shopping constitui a Rua Principal dos tempos modernos.

Mas  se  “esse  retorno  do  shopping  à  cidade  não  foi nada  menos  do  que triunfante,” os autores se vêem obrigados a acrescentar: “para serem salvos, os centros da cidade tiveram que receber o beijo da morte do subúrbio.” 

Agora, voltando aos pré-requisitos: poderia o próprio código de barra — o Código de Produto Universal — ser um deles? Analisando suas funções, começamos a ver como as estatísticas que ele imediatamente fornece ao vendedor transformam inteiramente toda a  estrutura  de  cadastro,  reabastecimento,  marketing  e  coisas  do  tipo.  Os  nomes  das marcas podem perfeitamente ser mais uma conseqüência cultural desse tipo de shopping do  que  um  pré-requisito,  pois  suas  áreas,  as  butiques  mais  destacadas,  indicam  “os sagrados  recintos  da  última  religião  global  —  o  consumismo  capitalista.”  Eles  também evidenciam  um  novo  tipo  de  dinâmica,  ela  mesma  consumida  sob  a  “co-opetição9”,  o logotipo de Singapura, que celebra a maré que eleva os navios de todos, incluindo os dos competidores. 

Mas com isso embarcamos numa turnê mundo afora, ou melhor, na turnê mundial do shopping, na medida em que ela alcança um ponto após o outro e é transformada pela cultura  local.  Singapura  é  uma  antiga  paixão  de  Koolhaas  (ver S, M, L, XL),  mas  sua dinâmica   continua   sendo   uma   extraordinária   lição   prática   —   não   apenas   de desenvolvimento,  mas  também  sobre  o  modo  pelo  qual uma  cidade-estado  se  ajusta primeiro à região e posteriormente ao próprio mundo. O Palácio de Cristal uma vez mais nos leva de volta às origens (e à assinatura de um indivíduo, Joseph Paxton10). A Depato, a  loja  de  departamentos  japonesa,  nos  lança  pelo  menos  numa  extraordinária  mutação cultural,  intimamente  ligada  à  lógica  do  crescimento  de  Tóquio  ao  longo  das  inúmeras estradas de ferro privadas que partem da terceira maior cidade do mundo. E finalmente: o próprio Disney, uma vez que nenhum estudo de qualquer das inovações nessa área pode estar completo sem um reconhecimento abrangente de tudo o que foi inventado por Walt: todos os tipos de coisa, de um novo urbanismo a um novo tipo de shopping, um novo tipo de globalização, um novo tipo de indústria do entretenimento e até mesmo um novo tipo de  Utopia.  De  fato,  talvez  Disney  e  a  “Disneyficação”  sejam  melhores  estudados  nesse novo  contexto,  comparatista    e  globalizado,  do  que um  esporte  ou  um singleton¹¹tipicamente americano.

Mas  e  quanto  ao  próprio  shopping,  seu  espaço,  por exemplo?  Existe  uma psicologia do espaço no shopping — a emenda, o corredor, o molde — assim como existe uma  ecologia  da  coisa.  E  aqui  os  pré-requisitos  retornam  fluindo  com  força  total:  não somente   o   ar-condicionado,   com   sua   interessantíssima   história   (mais   inventores fanfarrões  e  sonhadores  criativos  e  obsessivos),  mas  também  a  escada  rolante  —  o elevador  havia  sido  um  operador  crucial  no  primeiro  livro  de  Koolhaas, Nova  York Delirante¹²,   sobre   a   paisagem   do   arranha-céu   —   com   suas   importantíssimas conseqüências para o espaço do shopping e suas possibilidades de construção; toda essa rica  seção  ocupa  umas  trinta  páginas.  E  também,  em algum  momento  mais  tarde,  a clarabóia e o sistema hidráulico contra incêndio; sem falar no modo pelo qual esse novo espaço  pode  manter  escondido  seu  sistema  de  serviços  —  poderíamos  mencionar  até mesmo as “tecnologias” precursoras: o guichê, as vitrines, o espelho e o manequim. 

Mas  permitamo-nos  entrar  nas  ideologias  da  questão,  pois,  aqui,  finalmente  nos elevamos  do  corpo  à  alma:  a  pobre  Jane  Jacobs1³,  por  exemplo,  é  vista  como  algo semelhante  à  astúcia  hegeliana  da  história,  com  toda  a  justiça,  por  defender  os  aspectos fundamentais  de  uma  verdadeira  experiência  da  cidade  contra  os  vários  modernismos urbanísticos  e  arquitetônicos,  enumerando,  dessa  forma,  “os  ingredientes  através  dos quais o shopping pôde substituir a urbanidade e criar uma “luz da cidade” que tornou-se o modelo  para  a  ressurreição  dos  degradados  centros  da  cidade  da  América.”  Isso  parece um pouco duro, mas o certo é que Jacobs — acusada por muitos arquitetos e urbanistas de  acionar  a  revolução  pós-moderna  em  seu  campo  —  não  é  anticapitalista  e  apóia  de forma bastante considerável os (pequenos) negócios.

Mas  com  Victor  Gruen¹4  estamos  nas  origens  (não  podemos  mais  chamá-la  de “grau zero”; e o gênio Harold-Bloomiano?). Pois o shopping foi sua invenção original, e é certo que a nossa experiência contemporânea do espaço ou não-espaço americano é, em alguma  medida,  “desalienada”  ao  descobrirmos  que  foram  as  idéias  de  alguém  que geraram  tudo  isso,  e  que  não  se  trata  apenas  de  um estranho  acúmulo  de  acidentes históricos de mercado, mas do resultado da produção humana. Para começo de conversa, enfatizar a façanha de Gruen, entretanto, é também, e a um só tempo, salientar a reação canônica  e  recordar,  voluntariamente  ou  não,  que  poucos  dos  grandes  modernistas chegaram  a  planejar  tais  coisas,  que  dirá  teorizá-las  (por  outro  lado  elas  se  tornaram matéria-prima  dos  pós-modernistas).  É  também  motivar  uma  reflexão  sobre  o auteurcontemporâneo, que é o pomposo equivalente da cultura de massa de todos esses projetos estéticos superiores e, com toda a justiça, um verdadeiro fenômeno: Jon Jerde, construtor do  Horton  Palace  em  San  Diego  e  muitos  outros.  Como  em  todos  os  outros  ramos  da cultura contemporânea, a separação entre grande arte e cultura de massa também aqui se torna inevitável. 

Mas  exatamente  quando  estamos  prestes  a  refletir  um  pouco  sobre  disso,  e avançar  na  direção  de  outros  fenômenos  globais  relacionados  —  o  Grupo  Lippo  na Indonésia;  um  retorno  à  velha  noção  de  Venturi-Scott-Brown  em Learning from Las Vegas e uma rica entrevista com os autores; também o feminismo (mulheres e shoppings constituem um velho e ofensivo tópico); paisagens artificiais; a relação de tudo isso com a  psicologia  e  a  psicanálise;  a  resistência  européia  ao  shopping  e  suas  conseqüências americanizantes; e muitos outros temas interessantes levantados pela segunda metade do alfabeto — inesperadamente nos deparamos com um buraco negro,  gerando prodigiosas energias em todas as direções.  

ABAIXO O VÍRUS DO JUNKSPACE 

Junkspace   (“Espaço-lixo”),   a   contribuição   de   Rem   Koolhaas,   é   um   texto extraordinário,  que  tanto  é  um  artefato  pós-moderno  característico  quanto  uma  estética totalmente  nova,  talvez,  se  não  toda  uma  nova  visão  da  história.  À  luz  desse  texto concatenado,  precisamos  fazer  uma  pausa  e  repensar o  projeto  inteiro.  Mas  primeiro temos que examinar o próprio texto, cuja combinação de repulsa e euforia é única para o pós-moderno  e  instrutiva  sob  vários  aspectos.  Sabíamos  que  Koolhaas  era  um  escritor interessante   —   nisso,   comparável   a   um   bom   número   de   destacados   arquitetos contemporâneos; seus livros, em particular Nova York Delirante e S, M, L, XL, combinam inovação  formal  com  sentenças  incisivas  e  posições caracteristicamente  provocativas. Mas nem um único texto desses livros nos preparou para essa performance ininterrupta e continuada do espaço construído, não apenas da cidade contemporânea, mas de todo um  universo  no  ponto  de  fusão  num  tipo  de  magma  indeterminado  e  de  incontáveis utilidades. 

Isso  vai  muito  além  das  querelantes  reclamações  da crítica  cultural  acerca  da estandardização   (ou   americanização).   Ela   começa   com   o   lixo   (junk)   como   o remanescente   clássico   (o   que   permanece   depois   da   dialética   ou   depois   da   cura psicanalítica):  se  o  lixo-espacial  (space-junk)  é  o  escombro  humano  que  desarruma  o universo, o “espaço-lixo” (junk-space) é o resíduo que a humanidade deixa no universo.” Muito rapidamente, no entanto, o junkspace torna-se um vírus que se espalha e prolifera por todo o macrocosmo: 

restos  geométricos  angulares  invadindo  imensidões  estreladas;  o espaço real editado para uma suave transmissão no espaço virtual, o engonço  crucial  num  infernal  circuito  de  realimentação...a  vastidão do junkspace estendeu-se às beiradas do Big Bang. 

Mas isto, por si mesmo, seria pouco mais do que Baudrillard ou teoria da televisão — a crítica da virtualidade como uma promessa (como a crítica de passagem do “fluxo” deleuziano):ao  invés  disso,  o  propósito  do  exercício  é  encontrar  sinônimos,  centenas  e centenas de sinônimos teóricos, martelados uns sobre os outros e derretidos juntos numa colossal e aterrorizante visão, com cada uma das “teorias” do “pós-moderno” (ou a época atual)  tornando-se  metafóricas  umas  para  as  outras numa  única  e  ofuscante  olhadela  na parte de baixo: 

O  “espaço-lixo”  expõe  o  que  as  gerações  passadas  mantiveram encoberto:   estruturas   emergem   como   molas   de   um   colchão, escadas  de  saída  balançam  num  trapézio  didático,  sondas  são arremessadas no espaço para fornecer trabalhosamente aquilo que é  de  fato  onipresente,  ar  livre,  acres  de  vidro  pendurados  por cabos aracnídeos, peles tensamente esticadas cercadas por flácidos não-eventos. 

Como  tendência,  o  “espaço-lixo”  já  existe  há  algum tempo,  não-reconhecido  no começo; como um vírus não detectado, novamente: 

Primeiramente   os   arquitetos   pensaram   no   “espaço-lixo”   e   o denominaram   Megaestrutura,   a   solução   final   para   seu   enorme impasse. Como múltiplas Babéis, as imensas estruturas durariam por  toda a eternidade, irrompendo inúmeros subsistemas provisórios que iriam  se  modificar  com  o  tempo,  fora de  seu  controle.  No “espaço-lixo”,  as  mesas  estão  viradas:  não  mais  do  que  subsistemas,  sem superestrutura, partículas órfãs à procura de uma base ou modelo. 

Seria  simples  demais  dizer  que  aqui  espaço  e  arquitetura  são  metáforas  para qualquer outra coisa, mas isso não é mais teoria da arquitetura, tampouco se trata de um romance cujo ponto de vista é o do arquiteto. Antes, é a nova linguagem do espaço que está falando através dessas frases que se perpetuam produzindo réplicas de si mesmas, o próprio  espaço  tornando-se  o  código  dominante  ou  linguagem  hegemônica  desse  novo momento  da  História  —  o  último?  —  cuja  matéria-prima,  em  sua  decomposição,  o condena à extinção: 

Envelhecer  no  “Espaço-lixo”  é  algo  inexistente  ou  catastrófico;  por vezes  um  “Espaço-lixo”  inteiro  ─  uma  loja  de  departamentos,  um clube noturno, um apartamento de solteiro ─ se transforma, da noite para  o  dia  e  sem  aviso,  numa  favela:  o  consumo  de  eletricidade diminui imperceptivelmente, letras caem das placas, aparelhos de ar-condicionado    começam    a    pingar,    aparecem    rachaduras de terremotos   que,   do   contrário,   não   seriam   registrados;   partes apodrecidas  não  são  mais  viáveis,  mas  permanecem  unidas  à  carne do corpo principal através de passagens gangrenosas. 

Essas alarmantes “deteriorações de tipo Alzheimer” são realizações dos momentos de  pesadelo  em  Philip  K.  Dick,  quando  a  realidade  começa  a  curvar-se  como  numa alucinação por droga e sofrer vertiginosas transmutações, revelando os mundos privados nos quais estamos aprisionados para além do tempo. Mas esses momentos não são mais aterrorizantes;  agora  eles  são,  de  fato,  bem  estimulantes,  e  é  precisamente  essa  nova euforia que permanece por ser explicada. 

O IMPÉRIO DA MANCHA

Sejamos  claros,  Koolhaas  reivindica  nada  menos  do  que  a  renovação  perpétua, não apenas a demolição do velho, mas também a reciclagem perpétua a qual foi reduzida a uma vez nobre (e até mesmo megalomaníaca) vocação de Mestre Construtor: “Qualquer coisa esticada — limusines, partes do corpo, aviões — tem seu conceito original ultrajado e  se  transforma  em  ‘espaço-lixo’.  Restaurar,  rearranjar,  remontar,  reformular,  renovar, revisar, recuperar, redesenhar, retornar — os mármores do Partenon — refazer, respeito, alugar  (Rent):  verbos  que  começam  com re —  produzem  ‘espaço-lixo’.”  Trata-se,  sem dúvida, do desaparecimento de todos os “originais”, e, junto com eles, da própria história: 

a  única  certeza  é  a  conversão  —  contínua  —  seguida,  em  raros casos, por uma “restauração”, o processo que exige sempre novas partes  da  história  como  “espaço-lixo”.  A  história  corrompe,  a história  absoluta  corrompe  absolutamente.  Cor  e  matéria  são eliminadas  desses  enxertos  sem  sangue;  o  insípido  tornou-se  o único ponto de encontro do velho e do novo.

Estamos  de  agora  em  diante  no  domínio  do  “sem-forma”  (Rosalind  Kraus, partindo  de  Bataille);  mas  “a  ausência  de  forma  é  ainda  uma  forma  e  o  ‘sem-forma’ também é uma tipologia.” Não se trata do “vale tudo” da nova geração de “arquitetos de gota”  (Greg  Lynn,  Bem  Van  Berkel)  produzidos  pelo  computador:  “na  verdade,  o segredo do ‘espaço-lixo’ é que ele é tanto promíscuo quanto repressor: na medida em que o ‘sem-forma’ prolifera, o formal murcha, e, com ele, todas as regras, regulamentações e recursos.” Sombras de Marcuse e da tolerância repressiva? 

O  “espaço-lixo”  é  um  triângulo  das  Bermudas  de  conceitos,  uma placa   de   petri   abandonada:   ele   cancela   distinções, solapa resoluções   e   confunde   intenção   com   realização;   substitui   a hierarquia  pela  acumulação,  a  composição  pela  adição.  Mais  e mais,  mais  é  mais.  O  “espaço-lixo”  é,  ao  mesmo  tempo,  maduro demais e subnutrido, um colossal cobertor de segurança que cobre a Terra com uma barreira de proteção intransponível...O “espaço-lixo”  é  como  estar  perpetuamente  condenado  a  uma  Jacuzzi  com milhões  dos  seus  melhores  amigos...Um  felpudo  império  de manchas,  no  qual      unificam-se  o  alto  e  o  baixo,  o público  e  o privado, o reto e o curvado, o estufado e o faminto, para oferecer uma   descosturada   colcha   de   retalhos   do   permanentemente desagregado.

Existem, sem dúvida, “trajetórias” tranqüilas, com seus momentos mágicos:

O  pós-modernismo  acrescenta  uma  zona  de  deformação  de  viral  escaldado que tritura e multiplica a infinita linha de frente de exposição, uma embalagem peristáltica com material termo-retrátil, crucial para todas as trocas comerciais. As trajetórias têm início com ladeira, viram na horizontal sem qualquer aviso, atravessam, abaixam e de repente emergem numa vertiginosa varanda acima de um  grande  vazio.  Fascismo  sem  ditador.  Do  repentino  ponto  sem  saída  onde você foi deixado por uma monumental escada de granito, uma escada rolante te leva para um destino invisível, encarando  uma provisória vista panorâmica de gesso, inspirada por fontes insignificantes.

No interior dessa atordoante pseudo-temporalidade material, que modifica-se sem parar  à  nossa  volta,  também  existem  momentos  de  rara,  de  deslumbrante  beleza: “estações ferroviárias abrem-se como borboletas de ferro, aeroportos brilham como gotas de  orvalho  ciclópicas,  pontes  freqüentemente  atravessam  bancos  desprezíveis  como versões   grotescamente   ampliadas   de   uma   harpa.   Para cada   riacho   seu   próprio Calatrava15.”  Mas  tais  momentos  são  insuficientes  para  compensar  o  pesadelo,  ou  fazer valer à pena as alucinações. O cyberpunk16parece ser a referência a apreendermos aqui, o qual — como Koolhaas, apenas ambiguamente cínico — parece positivamente revelar em seu  próprio  excesso  (e  no  do  seu  mundo).  Mas  na  realidade  o cyberpunk  não  é apocalíptico, e penso que a melhor coordenada é Ballard17, o Ballard dos múltiplos “fins do   mundo”,   sem   a   melancolia   de   Byron18,   o   rico   pessimismo   orquestral   e   a weltschmerz19. 

Pois, aqui, o que está em jogo é o fim do mundo; e isso poderia ser estimulante se o  apocalipse  fosse  o  único  modo  de  imaginar  o  desaparecimento  desse  mundo  (aqui pouco  interessa  se  temos  de  lidar  com  a  explosão  ou  a  lamúria).  É  o  velho  mundo  que merece  a  irritação  e  a  sátira,  o  novo  é  meramente  sua  própria  auto-aniquilação  e  seu deslizamento no que Dick chamava de kipple ou gubble20, naquilo que Le Guin uma vez descreveu  como  o  derreter  dos  prédios.  “Eles  estavam  ficando  encharcados  e  trêmulos; como  gelatina  deixada  ao  sol.  Os  cantos  já  haviam  se  deteriorado  dos  lados,  deixando grandes manchas gordurentas.” Alguém disse uma vez que é mais fácil imaginar o fim do mundo  do  que  imaginar  o  fim  do  capitalismo.  Podemos  agora  aprimorar  isso  e testemunhar  a  tentativa  de  imaginar  o  capitalismo  com  a  intenção  de  imaginar  o  fim  do mundo. 

ROMPENDO DE VOLTA À HISTÓRIA

Penso que seria melhor caracterizar tudo isso em termos de História: uma História que não podemos imaginar de outra forma se não como fim e cujo futuro parece ser nada mais do que uma monótona repetição do que já está aqui. O problema, portanto, é como localizar  a  diferença  radical,  como  impulsionar  o  sentido  histórico  de  modo  que  ele novamente  comece  a  transmitir  frágeis  sinais  de  tempo,  de  alteridade,  de  mudança  e  de Utopia. O problema a ser resolvido é esse: escapar do presente “sem vento” (windless) do pós-moderno e retornar ao tempo histórico real e a uma história feita por seres humanos. Penso que esse texto é uma maneira de se fazer isso ou, pelo menos, uma tentativa. Sua ficcionalidade científica provém do método secreto desse gênero, o qual, na ausência de um  futuro,  concentra-se  numa  única  tendência  maligna,  que  ele  expande  e  expande  até que  a  tendência  se  torna,  ela  mesma,  apocalíptica  e  explode  o  mundo  no  qual  estamos aprisionados em incontáveis fragmentos e átomos. A aparência distópica é, assim, apenas a extremidade afiada inserida na contínua fita de Möbius21 do capitalismo tardio, a ferida ou obsessão perpétua que não se deixa enganar por um enredo, por qualquer enredo, para seu previsível fim. 

Entretanto, isso apenas não é o suficiente: um rompimento da barreira do som da História deve ser realizado numa situação em que a imaginação histórica está paralisada e encasulada, como que pelo ferrão de um predador: nenhuma possibilidade de lançar-se no futuro, de reconquistar a diferença, muito menos a Utopia, a não ser inscrevendo-se nela, mas  sem  voltar  atrás.  Essa  inscrição  é  a  aríete2,  a  repetição  delirante  que  trabalha arduamente nessa uniformidade, percorrendo todas as formas da nossa existência (espaço, estacionamento,   shopping,   trabalhar,   comer,   construir)   e   esmurrando-as   até   elas admitirem sua própria identidade estandardizada entre si, para além da cor, para além da textura,  a  suavidade  sem  forma  que  não  é  mais  nem  mesmo  o  plástico,  o  vinil  ou  a borracha  do  passado.  As  frases  são  o  estrondo  dessa  insistência  repetitiva,  o  socar  na vacuidade  do  próprio  espaço;  e  agora  sua  energia  antecipa  o  movimento  coletivo  e  o  ar fresco, a euforia de um  alívio, uma aparição orgástica no tempo, na história e no futuro concreto novamente.

Tal  é,  portanto,  o  segredo  dessa  nova  forma  simbólica,  que  Koolhaas  não  é  o único  de  nossos  contemporâneos  a  mobilizar  (mas  poucos  o  fazem  melhor).  Voltar lentamente  agora,  reentrar,  como  que  numa  câmara  de  descompressão,  no  mundo  mais prosaico  do  shopping,  que  foi  o  ponto  de  partida  dessa  aventura  delirante,  significa também  procurar  pelo  acontecimento,  por  aquilo  que o  impulsionou  e  provocou  uma reação tão monumental e verdadeiramente metafísica. Ele nos foi dado, de fato, bem no início,  numa  frase  improvisada  de  Sze  Tsung  Leong, no  final  de  uma  abordagem  mais comedida  e  focada  da  transformação  comercial  do  globo,  que  é,  afinal,  o  tema  do presente volume: “No fim, haverá pouca coisa a se fazer além de comprar.” O mundo no qual estávamos aprisionados é na realidade um shopping-center; a clausura sem vento é a rede subterrânea de túneis destinada à exibição de imagens. O vírus atribuído ao “espaço-lixo”  é,  na  verdade,  o  vírus  do  próprio  shopping;  que,  como  a  “Disneyficação”, gradualmente  se  espalha  pelo  universo  conhecido  como  um  musgo  tóxico.  Mas  o  que  é esse  shopping  do  qual  estamos  tediosamente  falando há  tanto  tempo  (e  os  autores  mais tempo ainda)? 

Teoricamente, ele vem em muitos pacotes (e como era de se esperar, podemos ir a várias  lojas  para  comparar  os  preços  de  nossa  marca  ou  versão  teórica  favorita).  A tradição do marxismo ocidental chamou isso de mercantilização, e nessa forma a análise remonta  pelo  menos  ao  próprio  Marx,  ao  famoso  capítulo  sobre  o  fetichismo  da mercadoria, que abre O Capital. A perspectiva religiosa do século XIX é a meio através do qual Marx põe em primeiro plano uma dimensão especificamente superestrutural das trocas  mercantis  sob  o  capitalismo.  Ele  entendia  “as  sutilezas  metafísicas  e  os  requintes teológicos”  da  mercadoria  como  o  meio  pelo  qual  a  relação  de  trabalho  é  ocultada  do comprador  (do  consumidor?),  e  assim  Marx  apreendeu a  mercantilização  como  uma operação  essencialmente  ideológica,  como  uma  forma de  falsa  consciência  que  tem  a função específica de mascarar  a produção de valor do  consumidor (burguês). História e Consciência  de  Classe,  o  clássico  filosófico  de  Georg  Lukács,  o  texto  inaugural  do chamado  marxismo  ocidental,  desenvolve  essa  análise  no  plano  mais  amplo  da  própria história  da  filosofia,  recolocando  a  mercantilização  no  centro  do  mais  geral  e  extensivo processo social de reificação, tanto física quanto mental.

Não  obstante,  depois  da  Segunda  Guerra  Mundial,  a  orientação  ideológica  desse tema toma um rumo um tanto diferente, num momento em que a venda de mercadorias e artigos  de  luxo,  para  além  daqueles  da  simples  subsistência  ou  reprodução  social, generaliza-se  integralmente  nas  áreas  cada  vez  mais  prósperas  do  Primeiro  Mundo  — Europa  Ocidental,  Estados  Unidos  e,  no  devido  tempo,  Japão.  A  essa  altura,  os situacionistas  e  seu  teórico,  Guy  Debord,  concebem uma  nova  perspectiva  para  a mercantilização  em  seu dictum  de  que  “a  forma  final  do  fetichismo  da  mercadoria é  a imagem.”  Esse  é  o  ponto  de  partida  de  sua  teoria  da  assim  chamada  sociedade  do espetáculo,  na  qual  a  antiga  “riqueza  das  nações”  é  agora  compreendida  como  “uma imensa acumulação de espetáculos.” Com essa perspectiva, estamos muito mais perto de nossas  atuais  suposições  (ou doxa),  a  saber,  de  que  o  processo  de  mercantilização  é menos uma questão de falsa consciência do que um estilo de vida inteiramente novo, que chamamos de consumismo e que se equipara mais a um vício do que a um erro filosófico ou mesmo uma escolha equivocada de partidos políticos. Esse giro é parte da visão mais contemporânea  da  cultura  como  a  substância  mesma  da  vida  cotidiana  (ela  própria  um conceito relativamente novo do pós-guerra, introduzido por Henri Lefebvre). 

As  imagens  do Guide to Shopping são,  portanto,  imagens  de  imagens  e  devem assim  possibilitar  um  novo  tipo  de  distanciamento  crítico,  coisa  que  eles  fazem conceitualmente recolocando a noção de mercadoria em sua situação original nas trocas comerciais.  O  que  nós  fazemos  com  as  mercadorias,  enquanto  imagens,  portanto,  não  é olhar  para  elas.  A  idéia  de  que  compramos  imagens  já  é  uma  “desfamiliarização”  útil dessa  noção;  mas  a  caracterização  de  acordo  com  a  qual  vamos  às  compras  atrás  de imagens  é  ainda  mais  útil,  pois  desloca  o  processo para  uma  nova  forma  de  desejo, situando-o  bem  diante  de  onde  ocorre  a  venda  real  —  quando,  como  se  sabe,  perdemos todo  o  interesse  no  objeto  enquanto  tal.  Quanto  ao consumo,  ele  tem  sido  inteiramente volatizado  nessa  perspectiva,  e,  como  temia  Marx,  tornou-se  completamente  espiritual. Aqui a materialidade é um mero pretexto para o exercício de nossos prazeres mentais: o que  deixou  de  ser  particularmente  material  no  consumo  de  um  carro  novo  e  caro  — lavado e polido com a maior freqüência possível— que alguém dirige pelas ruas locais? 

“No fim, haverá pouca coisa a se fazer além de comprar.” Será que isso não revela uma  extraordinária  expansão  do  desejo  em  todo  o  planeta  e  uma  instância  existencial totalmente nova daqueles que podem pagar por isso e que, agora, há muito familiarizados tanto  com  a  vida  esvaziada  de  sentido  quanto  com  a impossibilidade  de  satisfação, constroem um estilo de vida em que uma nova e específica organização do desejo oferece tão-somente  o  consumo  dessa  impossibilidade  e  dessa  ausência  de  sentido?  De  fato, talvez  esse  seja  o  momento  propício  para  retornarmos  ao  delta  do  Rio  das  Pérolas  e  ao socialismo  pós-moderno  de  Deng  Xiaoping,  no  qual  “ficar  rico”  não  significa,  na verdade,  ganhar  dinheiro,  mas,  sim,  construir  imensos  shopping-centers  —  o  segredo deles está no fato de que o “ir às compras” não exige que você compre, e que a forma do shopping é uma performance que pode ser realizada sem dinheiro, desde que os espaços adequados a ela, em outras palavras, o “espaço-lixo”, tenham sido  providenciados.

1 Chuihua Judy Chung, Jeffrey Inaba, Rem Koolhaas e Sze Tsung Leong, eds, Great Leap Forward, Harvard Design School Project on the City, 722 pp, Colônia 2002; e Guide to Shopping, Harvard Design School Project on the City, 800 pp, Colônia 2002.
2 Mutations, Barcelona 2001.

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