4 de abril de 2017

Socializar a internet

O presidente Trump acaba de entregar aos provedores de Internet a capacidade de fazer o que quiserem com seus dados. Veja como lutar contra isso.

Ben Tarnoff

Jacobin



Jamie Henderson / Flickr

Tradução / A Internet está hoje no centro do funcionamento do sistema financeiro, das maiores empresas do planeta, da indústria das armas e das guerras e, em geral, das relações de trabalho e de produção. Está ainda sendo usada para manter contato entre ativistas, convocar protestos, organizar campanhas, construir mecanismos de democracia direta, entre muitos outros usos políticos pela esquerda.

Os vazamentos de WikiLeaks e Snowden contribuíram para aumentar o debate público sobre vigilância e privacidade na rede. Tal debate se aprofunda à medida que novos problemas aparecem como fake news e agências de inteligência estrangeiras influenciando eleições, sequestros digitais como o que comprometeu o funcionamento do sistema de saúde britânico e ciberataques como o que atingiu fortemente os computadores da Ucrânia.

Diante desses eventos, cada vez mais têm sido discutidos diversos projetos de lei e propostas para o funcionamento da rede. Chama atenção que no pronunciamento que Theresa May fez logo depois do atentado na London Bridge ela tenha enfatizado a necessidade de regular a Internet. Há diferentes formas de fazê-lo.

No Brasil, Eduardo Azeredo (PSDB/MG) se notabilizou por propôr um projeto que os ativistas que defendem a Internet livre apelidaram de AI-5 Digital. Tal projeto exige que os provedores de Internet guardem dados pessoais dos usuários por três anos e criminaliza de forma severa a cópia de conteúdo digital. Como alternativa a esse dispositivo, foi construído de forma colaborativa um Marco Civil para a Internet, que garante direitos aos usuários de Internet e princípios importantes como a neutralidade, que obriga os provedores a tratarem todo tráfego da rede da mesma forma. Sem ela, provedores podem cobrar mais dos usuários que quiserem usar determinados serviços, cobrar de serviços para que possam ser acessados mais rápido, entre outras possibilidades que mudam o caráter da Internet.

Em 2014, a conferência NETmundial reuniu chefes de Estado para debater de forma global problemas de governança da Internet sem grandes avanços. Convocada pela então presidente Dilma como uma resposta à Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) espionar nosso país, ela não foi nem mesmo capaz de intervir na situação do whistleblower responsável por sabermos disso, Edward Snowden.

Neste momento, há intenso debate nos Estados Unidos sobre a regulação da Internet. A Comissão Federal de Comunicação (FCC) sob o presidente Donald Trump está prestes a fazer mudanças que beneficiam os provedores, o que tem motivado bastante debate no país. Na semana passada, movimentos e grandes empresas organizaram um dia de ação em defesa do princípio da neutralidade. Participaram Google, Facebook, Reddit, Amazon, Airbnb, Twitter, Mozilla, Netflix, OkCupid, Imgur, Vimeo, Spotify, Tumblr, Dropbox, entre muitos outros.

Reproduzimos aqui uma tradução inédita do artigo Socialize the Internet, que foi publicado na Jacobin assinado por Ben Tarnoff — fundador e editor da recém-criada revista Logic e colunista do The Guardian. Esse interessante artigo foi publicado originalmente em abril, mas é atual porque trata do importante debate que está sendo travado agora nos EUA.

O autor descreve a agenda de Trump e opina sobre como se deve combatê-la não só buscando saídas individuais, mas políticas. Sem deixar de defender a neutralidade, apresenta ideias para que o programa da esquerda mire muito além dessa reivindicação, que é apenas liberal. Neste momento propício para a disseminação de ideias radicais nos Estados Unidos — país que escolheu o socialista Bernie Sanders como seu político mais popular — Ben propõe saídas criativas que se opõem ao modelo vigente para garantir o direito de uma Internet de alta velocidade e baixo custo para todos.

Nenhuma empresa sabe mais sobre o que você faz on-line do que seu provedor. Quase tudo que você faz na Internet deixa um rastro. E os rastros mais reveladores não são os que ficam nas várias plataformas que você usa — Google e Facebook, por exemplo — mas no serviço que você usa para acessar a Internet em primeiro lugar. No mínimo, seu provedor registra os sites que você visita, quando você visita, quanto tempo você fica neles, sua localização e seu dispositivo — e eles provavelmente estão registrando muito mais.

Em abril1, Trump aprovou um projeto de lei que permite que os provedores façam o que eles quiserem com esses dados. O resultado é a destruição dos marcos de proteção da privacidadeestabelecidos em outubro de 2016 pela Comissão Federal de Comunicação (FCC) que impôs uma série de restrições em como os provedores podem usar dados dos seus clientes. Entre outras coisas, as regras forçavam provedores a obterem permissões explícitas “opt-in” dos clientes para usarem informações “sensíveis” — incluindo seu histórico de navegação.

O que a nova lei muda da perspectiva de um usuário? Nada — e esse é o ponto. As regras de privacidade da FCC não entrariam em vigor até o final deste ano, e a nova lei assegura que elas nunca vão entrar. Ela também proíbe a FCC de realizar regulações semelhantes no futuro.

A nova lei é uma grande vitória para a indústria de telecomunicações, que gastou muito para conseguir esse resultado. Empresas de telecomunicações dedicam uma quantidade considerável de dinheiro para comprar influência política. Elas formam exércitos de lobistas em Washington e nas capitais estaduais de todo o país, e contribuem generosamente para campanhas políticas. Por uma boa razão: a indústria de telecomunicações é um oligopólio dirigido por um punhado de grandes empresas que exigem uma dieta constante de intervenção do governo para preservarem seus lucros e se protegerem da raiva dos seus clientes irritados.

Os provedores são regularmente ranqueados no fim do índice anual de satisfação dos clientes americanos (American Customer Satisfaction Index). São mais impopulares até do que empresas aéreas e planos de saúde. O mais odiado de todos é a Comcast, maior provedor dos Estados Unidos, cujos clientes inundaram a FCC com dezenas de milhares de reclamações. Não coincidentemente, a Comcast foi a maior lobista de telecomunicações em 2016, gastando US$ 14,33 milhões — de um total de mais de US$ 87 milhões gastos pelas empresas de telecomunicações. Se você já se perguntou por quê sua conta de Internet continua aumentando enquanto seu serviço de Internet continua piorando, imagine um lobista num terno de 10 mil dólares perseguindo seu deputado no Congresso.

O mecanismo político robusto da indústria mantém o modelo de negócios dos provedores intacto. É um arranjo lucrativo baseado em preços elevados, velocidades lentas e um mercado consolidado e sem competição. Mas os provedores estão famintos por lucros ainda maiores. Não satisfeitos em cobrar muito dos clientes por uma conexão lamentável, estão interessados em converter esses mesmos clientes em uma nova fonte de receita monetizando seus dados.

Essa é a motivação econômica por trás da nova lei: provedores querem se unir ao comércio rentável de dados pessoais desbravado com tanto sucesso por plataformas on-line como Google e Facebook. Eles querem explorar seu histórico de navegação e construir um perfil detalhado dos seus interesses para que possam lhe vender mais serviços, vender você para anunciantes através de anúncios segmentados e vender seus dados diretamente para empresas de marketing de terceiros. Seu provedor vê muito mais seu tráfego na Internet do que uma empresa como o Google. Como resultado, o conjunto de dados que eles podem desenvolver sobre você é significantemente mais informativo — e, logo, mais valioso.

Como provedores são propriedade de grandes conglomerados, os dados pessoais que eles coletam podem ser monetizados através de várias plataformas. A Comcast não é só um provedor mas também uma empresa de TV a cabo, uma emissora e um estúdio de cinema. Em outras palavras, ela é dona de muitas telas — o que significa vários lugares para lhe mostrar anúncios segmentados. Outro exemplo é a Verizon. Além de ser um importante provedor e o maior fornecedor de wireless do país, a Verizon é dona da AOL e do Yahoo. Imagine todas as maneiras que uma empresa como essa poderia usar dados coletados do seu histórico on-line para ganhar dinheiro.

A nova agenda

A nova lei permite que as empresas de telecomunicações busquem essas novas fontes de dinheiro sem temer interferências regulatórias. Também representa uma demonstração de força pela indústria que vê o novo governo como uma oportunidade para reverter as tentativas recentes de restringí-la. Sob Obama, a FCC obteve ganhos significativos na governança na Internet. De forma mais significativa, a agência reclassificou provedores como “veículos comuns” (common carriers) sob o Título II da Lei das Comunicações de 1934, o que os submeteu a uma regulamentação mais rigorosa.

Liderado pelo presidente Tom Wheeler, a FCC usou esses poderes ampliados para impôr “neutralidade da rede”, o princípio de que os provedores devem tratar todos os tipos de dados da mesma forma. Especificamente, a agência proibiu os provedores de bloquear tráfego a sitesespecíficos, de diminuir a velocidade dos clientes e de aceitar que provedores de conteúdo pagassem para que seu conteúdo fosse priorizado — as chamadas “pistas rápidas” (fast lanes).

O novo presidente da FCC, Ajit Pai, votou contra essas regras quando membro da agência que ele agora lidera. Pai é uma figura macabra. Desde que Trump o apontou como presidente em janeiro, ele provou não apenas ser um servo leal do capital, mas um sadista que parece gostar de punir os pobres. Ele cruelmente terminou com o esforço da agência para cobrir os preços exorbitantes pagos pelos prisioneiros para fazerem ligações telefônicas, deixando os presos à mercê de empresas predadoras que lhes cobram até US$ 1,50 por minuto. Ele também começou a encolhero programa Lifeline, que fornece serviços de Internet subsidiados para famílias de baixa renda.

Mas a principal prioridade de Pai é desmantelar a neutralidade da rede, juntamente com a classificação de veículo comum que habilita a FCC a exigí-la. Embora ele possa seguir essa agenda dentro da agência, ele não pode fazer tudo sozinho: no fim, ele depende do Congresso para tirar os poderes reguladores da FCC.

A nova lei de privacidade da Internet marca um primeiro passo importante nessa direção. Ela passou no Congresso bastante dentro das linhas partidárias, com republicanos a favor e democratas contra. Dado o atual equilíbrio de forças no Congresso e o atual ocupante da Casa Branca, leis futuras também provavelmente passarão — especialmente se alguns democratas embarcarem. E não deve ser tão difícil amolecer democratas: afinal, eles receberam quase US$ 10 milhões da indústria de telecomunicações em 2016, US$ 1 milhão a mais que os republicanos.

Do pessoal para o político

Então, o que os usuários de Internet podem fazer para reagir?

Existem certas precauções técnicas que você pode tomar para proteger sua privacidade. A primeira é instalar uma extensão para o navegador como HTTPS Everywhere, que força seu navegador a ver a versão segura dos sites que você visita. A versão segura usa um protocolo chamado HTTPS, que criptografa sua conexão com o site. Hoje, mais de metade de todo o tráfego de Internet é criptografado via HTTPS — e depois que o Congresso passou a nova legislação, os gigantes da pornografia PornHub e YouPorn anunciaram que também estariam adicionando HTTPS.

HTTPS não impede que os provedores vejam quais sites você visita, mas os impede de ver o que você faz nesses sites. Então seu provedor saberia que você visitou o PornHub, por exemplo, mas não que vídeos você assistiu. Um passo adicional seria usar uma rede privada virtual (VPN), que afunila todo o tráfego através de uma ligação segura com outro servidor. Aí seu provedor não pode ver nem o conteúdo das suas comunicações nem com que sites você está se comunicando — ele só consegue ver que você está conectado à VPN. VPNs são uma ferramenta útil, mas elas variam bastante em qualidade. Pesquise cuidadosamente suas opções e evite VPNs “gratuitas”, que são tão propensas a monetizar seus dados como seu provedor.

A tecnologia pode ajudar a proteger alguns dos seus dados da captura corporativa. Uma resposta mais robusta, no entanto, exigirá política. No curto prazo, isso inclui mobilizar para resgatar proteções de privacidade revogadas pelo Congresso e preservar neutralidade da rede e a classificação de veículo comum de forma mais ampla. Esses ganhos foram conquistados pela mobilização popular — e agora precisam ser defendidas pela mobilização popular. Quando a FCC contemplou suas regras de neutralidade da rede pela primeira vez, em 2014, recebeu um recorde de 3,7 milhões de comentários. Nos anos seguintes, será necessário algo semelhante.

Embora valha a pena proteger as vitórias de regulação da FCC, elas não devem definir a fronteira para a nossa imaginação política. A FCC de Obama foi melhor que a de Trump, mas não chegou longe o suficiente. Quando a agência reclassificou provedores, os isentou de muitas das disposições da Lei de Comunicações de 1934, prometendo um “quadro regulatório leve” que rejeitou explicitamente “regulamentação prescritiva da tarifa”. A agência também deixou intocada grandes porções da Internet, se recusando a regular provedores do “backbone”2 que possuem os principais tubos da rede e provedores “das beiras” como Google, Facebook e Netflix, que possuem a maior parte do conteúdo que flui através desses tubos.

É claro que qualquer tentativa de impor um certo grau de controle democrático nessas indústrias precisará de um grande movimento por trás dela. Mas não é só questão de construir poder político suficiente. É também uma questão de desenvolver novas ideias e metáforas que possam sustentar uma abordagem mais ambiciosa para a governança da Internet. Isso significa, sobretudo, ir além da neutralidade da rede.

Competição não é uma panaceia

A neutralidade da rede é um conceito politicamente útil. Como palavra de ordem, centrou a atenção pública no domínio corporativo da Internet e guiou avanços regulatórios importantes. Mas tem sérias limitações que a tornam uma armação pouco conveniente para a luta mais longa para democratizar a esfera digital.

Talvez o problema mais óbvio com a neutralidade da rede seja que, estritamente falando, ela é impossível. Tratar todos os dados na Internet da mesma forma não é viável nem desejável. Diferentes aplicações tem diferentes necessidades em termos de velocidade e largura de banda, e as empresas que operam a infraestrutura da Internet necessariamente privilegiam um tipo de pacote sobre outro em formas que beneficiam a rede como um todo.

Justiça seja feita, os defensores da neutralidade da rede nunca insistiram numa interpretação literal. Vint Cerf, um dos arquitetos da Internet, diz que o ponto da neutralidade da rede não é a insistência pedante que provedores “tratem todo pacote da mesma forma”, mas sim a ideia de que elas não devem “ter um comportamento anti-competição e anti-consumidor”. Esse sentimento é ecoado por Tim Wu, o criador da frase que frequentemente descreve neutralidade da rede como um princípio que garante um “campo de jogo nivelado”.

Esses argumentos colocam a neutralidade da rede firmemente dentro de uma tradição liberal antitruste que remonta à virada do século XX. A substância dessa tradição é a crença de que mercados vão gerar resultados socialmente benéficos se só a quantidade de competição correta existir. Nessa visão, o problema com a Internet é que seja propriedade de um punhado de grandes empresas que podem inclinar o campo a seu favor. Em contrapartida, uma rede “neutra” exigiria que todo mundo jogasse pelas mesmas regras, promovendo um ecossistema mais favorável a novos provedores e plataformas.

Infelizmente, a concorrência é uma ferramenta imperfeita para construir uma nova Internet. É verdade que forçar grandes provedores a competir pode ajudar a reduzir os custos para os consumidores. Mas a lógica não pode ir tão longe: a Internet requer muita infraestrutura para funcionar e as barreiras de entrada provavelmente permanecerão altas. Mais importante ainda, há virtudes na grandiosidade: economias de escala produzem eficiências reais, especialmente quando se trata de sistemas grandes, distribuídos e complexos como a Internet.

Atualmente, cerca de 4 empresas dominam o mercado de provedores, algo entre 7 e 12 empresas dominam o mercado de backbone da Internet e mais de metade dos dados fluindo para usuários americanos nos horários de pico vêm de apenas 30 empresas — com Netflix sozinha representando mais de um terço. Será que o usuário médio de Internet estaria melhor se cada um desses mercados tivesse mais competição? Se nós tivéssemos dez Comcasts ou doze Facebooks? Possivelmente, mas não necessariamente. Para pegar apenas um exemplo, o monopólio do Facebook é precisamente o que o torna útil — espalhar usuários em doze Facebooks acabaria com o propósito da plataforma.

Para o nosso controle

O problema com a Internet não é o tamanho das empresas que a controlam. O problema com a Internet é a natureza antidemocrática de um sistema que funciona exclusivamente para o lucro privado. Neutralidade da rede está enraizada num liberalismo que vê o grande como o inimigo e a competição como a solução. Uma agenda de esquerda para a governança da Internet vai ter que ultrapassar esse horizonte estreito com uma tradição socialista que vê a propriedade privada como o problema e a democracia como a solução.

Em termos de retórica, isso significa se afastar da linguagem de escolha do consumidor e se aproximar de uma linguagem sobre direitos. Nós não deveríamos estar falando sobre consumidores, mas sobre cidadãos. Todos os americanos têm o direito de uma Internet de alta velocidade e baixo custo. Isso não é só porque o acesso à Internet é uma pré-condição básica para participação plena na vida social e econômica do país. É também porque nosso dinheiro construiu a Internet — e porque nossos dados continuam a financiar algumas das suas empresas mais lucrativas.

A esquerda nunca deve deixar que as pessoas esqueçam que a Internet foi construída pelo governo com enormes gastos públicos antes de ser rapidamente e completamente privatizada nos anos 90. Dinheiro público financiou a tecnologia, a infraestrutura e até muitas das empresas individuais que compõem a Internet moderna. A rede controlada por empresas hoje é o legado direto da privatização. Reverter esse legado significa reivindicar nossos direitos sobre o sistema que nós criamos em comum — não apenas nosso direito de acessar a Internet, mas nosso direito de controlar os dados pessoais que fluem através dela, nos quais Google, Facebook e outros colocaram um propósito tão lucrativo.

As ferramentas políticas que a esquerda usa para garantir esses direitos vão variar. Uma possibilidade é uma regulamentação mais forte e de estilo utilitário visando não só quebrar grandes empresas em empresas menores mas fortalecer soberania popular e responsabilidade democrática — estabelecendo taxas para provedores, por exemplo, ou estabelecendo regras que regem a coleta de dados pessoais com fins lucrativos.

O objetivo final não deve ser apenas regular as empresas privadas de forma mais agressiva, no entanto, mas substituí-las com alternativas públicas e cooperativas. Felizmente, tais alternativas já existem a nível local: plataformas cooperativas sob propriedade de trabalhadores já começaram a encontrar sua base e experimentos com banda larga de propriedade pública se provaram extremamente populares. Se a Comcast é o provedor mais odiado do país, o mais amado é o Electric Power Board (EPB) de Chattanooga, uma empresa de propriedade da cidade que começou vendendo serviço de Internet de alta velocidade a preços acessíveis aos residentes em 2010. A Consumer Reports classifica a EPB como o provedor mais popular dos EUA e ela oferece algumas das velocidades residenciais mais rápidas do mundo. De fato, seu sucesso aterroriza a indústria da telecomunicação, que tem pressionado legislaturas estaduais para proibir ou limitar empreendimentos similares.

Se um pequeno mercado de banda larga municipal e proteções de privacidade básicas podem provocar uma resposta tão vigorosa da indústria, você pode imaginar o tipo de fúria que se desencadeará se o Estado ousar contestar a conquista corporativa da Internet. Como qualquer coisa que desafia o capital, tal passo precisará de uma maioria social altamente mobilizada por trás. Isso pode parecer um prospecto distante diante do clima político de hoje. Mas é exatamente num momento como esse que a esquerda precisa colocar demandas grandes e utópicas que contrastam com o niilismo da direita e a timidez do centro.

Se desprivatizar a Internet parece improvável, vale lembrar quão improvável a Internet foi em primeiro lugar. Tentar explicar a Internet para um cientista da computação em 1960 seria como tentar explicar o automóvel para um engenheiro ferroviário em 1860. Soaria francamente ridículo — algo da mente de um charlatão ou lunático. Trazer a Internet à vida necessitou não só baldes de dinheiro público, mas de um pensamento imaginativo que desafiou a sabedoria convencional. Algo desse espírito criativo e opositor pode ser útil hoje, à medida que a esquerda se esforça para abrir nossa imaginação política para vislumbrar não meramente um futuro menos pior, mas o melhor de todos os mundos possíveis.

Che Guevara no Congo

A expedição de Che Guevara no Congo, apesar de malfadada, permanece como um exemplo crucial de solidariedade antiimperialista.

David Seddon


Che Guevara no Congo em 1965. Wikimedia Commons.

Tradução
 / A morte de Fidel Castro em novembro de 2016 me levou a revisitar a história extraordinária da Revolução Cubana, e em particular o reconhecimento diplomático, suporte político e assistência militar fornecida pela Cuba de Castro aos esforços de libertação nacional por toda África – da Argélia e Saara Ocidental, a Eritreia, Etiópia, Zanzibar e as colônias portuguesas da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. As vitórias dos soldados cubanos contra as forças sul-africanas em Angola em 1975-76 e novamente em 1987-88 desempenhou um papel crucial nas lutas bem-sucedidas contra o domínio dos brancos na Namíbia e na própria África do Sul. 

Os primeiros esforços de ajuda cubana foram para o movimento de libertação da Argélia em 1961, quando Castro enviou uma grande remessa de armas norte-americanas capturadas durante a abortada invasão da Baía dos Porcos. Depois que os argelinos conquistaram a independência em julho de 1962, eles retribuíram ajudando a treinar um grupo de guerrilheiros argentinos, enviando dois agentes com os guerrilheiros de Argel para a Bolívia em junho de 1963. Dois anos depois, Cuba deu apoio sistemático a um movimento potencialmente revolucionário, enviando um grupo de elite de guerrilheiros voluntários, a grande maioria deles negros, para o leste do Congo. Che Guevara estava entre eles.

Independência do Congo

Após se tornar independente da Bélgica em 1960, o Congo elegeu o primeiro ministro de esquerda Patrice Lumumba. Logo depois, o exército se amotinou; a província de Katanga, rica em minerais, sob Moise Tshombe, se separou; as tropas belgas voltaram; e, finalmente, a pedido de Lumumba, as forças de manutenção da paz das Nações Unidas chegaram para proteger a integridade territorial do país e seu novo governo.

Quando Lumumba requisitou assistência militar adicional aos soviéticos, o Presidente Kasavubu – auxiliado pelo Comandante Chefe Joseph Mubutu – o depôs. Após o assassinato de Lumumba e a morte do Secretário Geral da ONU, Dag Hammarskjold, em uma queda de avião, instaura-se o caos no Congo.

No início de 1964, Cyrille Adoula, fraco e impopular, estava tentando liderar o país. Com a retirada da ONU, quatro rebeliões diferentes estouraram, a maioria operando sobre o guarda chuva do grupo de esquerda chamado Conselho de Libertação Nacional. Desde que Adoula fechou o parlamento, essa coalizão da oposição o substituiu efetivamente.

Gaston Soumaliot liderou o movimento no norte do país – seu tenente Laurent Kabila orquestrou outro grupo mais ao sul. Por algumas semanas na metade de 1964, estas forças controlaram muito da região oeste do Congo. Um dos antigos colegas de Lumumba, Christophe Gbenye, tomou o controle de boa parte do resto do país com o apoio da China e da União Soviética.

Em março de 1964, o presidente Lyndon Johnson enviou Averell Harriman para a capital, Leopoldville-Kinshasa, para avaliar a situação. Com Cyrus Vance, vice-secretário de Defesa, Harriman elaborou planos para um transporte aéreo norte-americano, que começou em maio. Em julho, Moise Tshombe tomou o poder, substituindo o ineficaz Adoula, e pediu ajuda dos EUA, Bélgica e África do Sul.

Eles atenderam ao seu chamado e oficiais belgas e mercenários brancos da Rodésia e da África do Sul reforçaram as forças armadas congolesas. Sua tarefa imediata foi esmagar a rebelião de Gbenye, que havia estabelecido um governo em Stanleyville-Kisangani. Em novembro, o Reino Unido juntou-se aos esforços, permitindo que os paraquedistas belgas fossem transportados por aviões dos EUA a partir de sua base do Atlântico Sul na Ilha da Ascensão. O recém-eleito governo trabalhista sob Harold Wilson aprovou a ação. Os paraquedistas desembarcaram em Stanleyville ao mesmo tempo em que os mercenários brancos chegaram.

Guevara olha para África

Em resposta a essas intervenções ocidentais, um grupo de estados africanos radicais, liderados pela Argélia e Egito, anunciaram que eles poderiam suprir os rebeldes congoleses com armas e tropas. Eles pediram ajuda a outros, e o governo cubano anunciou que isso o compelia.

Em dezembro, Guevara – já reconhecido como um dos membros mais capacitado no internacionalismo dentro da liderança cubana – fez um discurso apaixonado na assembléia geral da ONU. Ele se referiu ao “caso trágico do Congo” e denunciou a “intervenção inaceitável” das potências ocidentais, referindo-se a “paraquedistas belgas, transportados por aviões dos EUA, que decolaram das bases britânicas”.

Guevara então embarcou em um tour pelos Estados africanos, visitando Argélia, depois Mali, Congo-Brazzaville, Senegal, Gana, Daomé, Egito e finalmente Tanzânia. Em Dar es Salaam, ele conheceu Laurent Kabila, que procurou sua ajuda para manter as áreas liberadas no leste e sudeste do Congo; no Cairo, ele conheceu Gaston Soumaliot, que queria homens e dinheiro para a frente de Stanleyville; e em Brazzaville, ele conheceu Agostinho Neto, que solicitou apoio cubano ao exército de libertação angolano, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Guevara estava empolgado com essas lutas de libertação potencialmente eficazes e com o papel que Cuba poderia desempenhar nelas. 

Em fevereiro de 1965, ele voou para Pequim para ver o que a República Popular da China poderia prover para as rebeliões congolesas. Lá ele conheceu Chou en Lai, que havia viajado por dez países africanos entre dezembro de 1963 e fevereiro de 1964. Logo após conhecer Che, Chou fez uma segunda visita a Argel e Cairo, onde pode ter encontrado os líderes rebeldes congoleses. Em junho, ele voou para a Tanzânia, onde certamente teve uma audiência com Kabila e Soumaliot.

Enquanto isso, o próprio Guevara voltou ao Cairo para discutir seu plano de liderar um grupo de guerrilheiros com o coronel Nasser. De acordo com o relato da reunião do genro de Nasser, Mohammed Heikal, o líder egípcio aconselhou Guevara “a não se tornar outro Tarzan”. “Isso não pode ser feito”, disse ele. Guevara não deu atenção ao aviso; ele já estava totalmente comprometido em aplicar sua experiência com o sucesso da Revolução Cubana a movimentos em todo o mundo. Ele voltou para Cuba, onde foi recebido por Castro. Foi a última vez que ele foi visto novamente em público até depois de sua morte, dois anos e meio depois na Bolívia. 

Antes de deixar Cuba, Che escreveu uma carta de despedida a Castro – que foi lida em público em Havana seis meses depois, em outubro – declarando que estenderia a influência da Revolução Cubana: “outras nações estão pedindo a ajuda de meus modestos esforços… Sempre me identifiquei com a política externa de nossa Revolução e continuo fazendo isso”. Ele agora sentia que seu destino exigia que ele exportasse a revolução e liderasse um movimento de guerrilha na África.

Desordem no front

Adecisão de intervir no Congo já havia sido tomada antes de Che retornar a Havana. Um grupo de voluntários de elite, todos negros, havia sido recrutado no início do ano e foi treinado em três campos diferentes em Cuba. O plano era que um contingente de cubanos viajasse em pequenos destacamentos para a Tanzânia e através do lago Tanganyika até o norte de Katanga; um segundo contingente – chamado Batalhão Patrice Lumumba – voaria para uma base perto de Brazzaville, do outro lado do rio Congo, de Leopoldville-Kinshasa, capital do Congo.

O capitão Victor Dreke – um cubano de ascendência africana – liderava a menor coluna oriental, composta por 150 guerrilheiros, incluindo o próprio Guevara. Che escreveu mais tarde a Castro que seu capitão “era…um dos pilares em que confiei. A única razão pela qual eu não estou recomendando que ele seja promovido é que ele já possui a classificação mais alta. ” Jorge Risquet Valdes Santana, membro do comitê central do Partido Comunista Cubano, chefiou o Batalhão Patrice Lumumba.

Em 1º de abril de 1965, após uma reunião final com Castro na base de guerrilha em Havana, Guevara voou com um pequeno guarda avançado primeiro para Moscou e depois para o Cairo e depois para Dar es Salaam. O novo embaixador cubano, Pablo Rivalta, cumprimentou Guevara e seus soldados no aeroporto nos arredores de Dar es Salaam. Guevara temia que a chegada deles chamaria a atenção da CIA, mas os americanos haviam acabado de retirar seu embaixador da Tanzânia e estavam ocupados. Infelizmente, a liderança rebelde congolesa também prestou pouca atenção. Kabila e Soumaliot estavam se encontrando com outros líderes no Cairo para tentar reduzir as divisões políticas dentro de seu movimento, e apenas pessoal relativamente júnior estava disponível para Guevara.

Os preparativos de Cuba para sua intervenção foram – como vimos – completos; mas eles superestimaram claramente o nível de cooperação que receberiam da própria liderança rebelde. Contudo, em 22 de abril de 1965, Guevara e seus companheiros partiram de Dar es Salaam para o lago Tanganyika, dirigiram para o sul e estabeleceram uma base de suprimentos na cidade à beira do lago de Kigoma, perto da vila de Ujiji – onde David Livingstone e Henry Stanley tinham se conhecido quase um século antes. Não sabemos se Guevara estava ciente do lugar de Ujiji na história do imperialismo africano quando ele estabeleceu sua base antiimperialista em Kigoma.

Depois de atravessar o lago, os cubanos encontraram um destacamento bem armado do Exército de Libertação Popular e iniciaram uma campanha de sete meses no que o líder mercenário pró-Tshombe, coronel Mike Hoare, nomeou “o bolso de resistência de Fizi Baraka”, uma área que cobria dezesseis mil milhas quadradas. Mais cubanos chegaram pouco a pouco entre abril e outubro. Durante esse período, os cubanos e os congoleses exploraram o terreno, e os cubanos começaram a avaliar os pontos fortes e fracos de seus inimigos e aliados

Eles observaram que as bases avançadas do inimigo estavam bem defendidas, apoiadas por pequenas aeronaves e mercenários brancos; também observaram que os rebeldes congoleses estavam sofrendo com sua moral baixa. Eles consideravam seus líderes, incluindo Kabila, como estranhos – ou, mais pejorativamente, como turistas. 

Os comandantes locais “passaram dias bebendo e depois fizeram grandes refeições sem disfarçar o que estavam fazendo das pessoas ao seu redor. Usaram gasolina em expedições sem sentido. Em 7 de junho, em um acidente inexplicável, Leonard Mitoudidi, o líder rebelde mais antigo presente – Kabila ainda estava em Dar es Salaam – se afogou no lago Tanganica.

Logo, chegaram instruções de Kabila de que os cubanos deveriam organizar um ataque à guarnição de Bendera, que defendia uma usina hidrelétrica. Guevara não concordou com o plano, mas decidiu seguir em frente de qualquer maneira. Em 20 de junho, uma força combinada de cubanos, congoleses e tutsis (alguns dos quais originalmente eram de Ruanda) partiu e realizou o ataque, conforme solicitado. Muitos tutsis fugiram, os congoleses se recusaram a participar e quatro cubanos foram mortos, revelando ao inimigo que Cuba estava agora envolvido na rebelião no local. Os cubanos consideraram esta operação não apenas um fracasso, mas um desastre. O líder mercenário Mike Hoare, por outro lado, ficou impressionado. Em suas memórias, ele observou:

[Os] observadores notaram uma mudança sutil no tipo de resistência que os rebeldes estavam oferecendo ao governo de Leopoldville… A mudança coincidiu com a chegada na área de um contingente de conselheiros cubanos especialmente treinados nas artes da guerra de guerrilha.

Nesse ponto, os cubanos se sentiam deprimidos e desiludidos. Todos já estavam doentes uma vez ou outra desde a chegada deles; O próprio Guevara sofria de crises de asma e malária. Seus pequenos sucessos militares – como a emboscada de um grupo de mercenários em agosto – pareciam insignificantes, e o clima político estava indubitavelmente se deteriorando.

As diferenças entre as facções rebeldes e seus líderes pareciam estar chegando ao topo, e um golpe de Estado na Argélia mudou o equilíbrio de forças. Ben Bella, um dos principais apoiadores de Guevara, foi substituído pelo comandante do exército Houari Boumedienne, que queria reduzir o compromisso da comunidade internacional com a rebelião congolesa.

Embora Guevara notasse o baixo moral, a falta de progresso e a mudança do clima político, ele mantinha suas preocupações em segredo. Quando Soumaliot foi para Havana no início de setembro de 1965, ele convenceu Castro de que a revolução estava indo bem. Os guerrilheiros cubanos continuaram a chegar à Tanzânia. Além disso, apesar das probabilidades, o treinamento cubano deve ter contado para alguma coisa. Como Hoare gravou mais tarde:


O inimigo era muito diferente de tudo que já havíamos conhecido antes. Eles usavam equipamentos, empregavam táticas normais de campo e respondiam a sinais de apito. Eles estavam obviamente sendo liderados por oficiais treinados. Interceptamos mensagens sem fio em espanhol…e parecia claro que a defesa…estava sendo organizado por cubanos.

Mas em outubro, os cubanos e seus aliados congoleses foram atingidos no contrapé. As forças combinadas dos mercenários brancos e as tropas de Tshombe estavam avançando em uma contra-ofensiva. Guevara retirou-se para o acampamento base em Luluabourg e esperava uma longa e última resistência. Os eventos, no entanto, se mostraram tão imprevisíveis como sempre.

Mudança de terreno

OPresidente Kasavubu começou a reconhecer que nunca obteria aprovação da Organização da Unidade Africana (OUA) se Tshombe continuasse como primeiro-ministro, então o substituiu por Evariste Kimba.

Por um momento, parecia que a revolução seria salva. Na realidade, no entanto, o fim do regime de Tshombe profetizou um esforço de reconciliação política que acabaria por minar a rebelião, encerrando o apoio que vinha recebendo dos estados africanos.Em 23 de outubro de 1965, Kasavubu participou de uma reunião de chefes de estado africanos em Accra, presidida por Kwame Nkrumah, em Gana. Kasavubu anunciou que a rebelião havia praticamente terminado e que ele enviaria os mercenários brancos para casa. Isso foi suficiente para convencer muitos líderes africanos. Também representou uma significativa derrota para os estados africanos radicais, permitindo que uma aliança mais conservadora se unisse dentro da OUA.

Em 11 de novembro de 1965, sentindo que o clima agora o favorecia, Ian Smith, o líder branco da Rodésia, declarou unilateralmente a independência do Reino Unido. Na África do Sul, um ataque renovado ao Congresso Nacional Africano esmagou efetivamente o movimento de massas contra o apartheid por meia década, e os portugueses foram incentivados a manter seu domínio sobre Angola, Moçambique e Guiné-Bissau por mais uma década. Enquanto isso, Ben Bella já havia sido derrubado; Nkrumah foi retirado do poder durante uma visita à China no início de 1966; e Ben Barka – o líder radical marroquino que estava organizando a Conferência Tricontinental de Cuba, um encontro de movimentos revolucionários internacionais a ser realizado em Havana em janeiro de 1966 – foi sequestrado e morto.

De volta ao Congo, Mike Hoare ouviu falar do discurso de Kasavubu e voou para Leopoldville para ver Mobutu em pessoa. “O general estava furioso”, lembra ele, “ele não havia sido consultado… e me senti amargo por isso”. O novo primeiro ministro, Evariste Kimba Muondo, teve que fazer uma declaração explicando que nenhum mercenário voltaria para casa até que o Congo estivesse completamente pacificado.

Guevara também estava lutando com a virada da maré política. Em 1º de novembro de 1965, ele recebeu uma mensagem urgente de Dar es Salaam avisando-o de que o governo da Tanzânia havia decidido encerrar a força expedicionária cubana. O Presidente Nyerere, ciente das brigas da liderança congolesa e preocupado com suas implicações, sentiu que tinha poucas escolhas.

Nas últimas semanas da campanha, Guevara considerou ficar para trás “com vinte homens escolhidos a dedo”, continuando a luta até o desenvolvimento do movimento ou até que suas possibilidades se esgotassem. Ele pediu ajuda à China e Chou en Lai o aconselhou a continuar construindo grupos de resistência, mas não a entrar em combate. O próprio Guevara teve a ideia, no final, de fazer uma marcha forçada pelo Congo para unir forças com os rebeldes de Mulele em Kwilu, mas ele não recebeu apoio por tal noção selvagem.

Em 20 de novembro, Guevara organizou a travessia do lago Tanganica de volta à Tanzânia. “Todos os líderes congoleses”, escreveu ele, “estavam em retirada total, os camponeses se tornaram cada vez mais hostis”. Ele reconheceu que tal situação tornava inútil a presença contínua dos guerrilheiros cubanos. Outros concordaram. Anos depois, Castro diria:

No final, foram os líderes revolucionários do Congo que tomaram a decisão de parar a luta… Na prática, esta decisão foi correta; vimos que as condições para o desenvolvimento dessa luta, naquele momento específico, não existiam.

Se esse foi realmente o caso, permanece discutível. De qualquer forma, depois de alguns dias em Dar es Salaam, a maioria dos cubanos voltou para casa via Moscou.

Para outro front

Victor Dreke retornou a Cuba para chefiar uma unidade militar que preparava voluntários internacionalistas; em 1966, liderou a missão militar cubana na Guiné-Bissau / Cabo Verde, onde serviu ao lado de Amílcar Cabral. Ele desempenhou uma função semelhante na República da Guiné. Ele retornou à Guiné-Bissau em 1986, liderando a missão militar de Cuba até 1989.

Jorge Risquet tornou-se chefe da Missão Internacionalista Civil Cubana na República Popular de Angola entre 1975 e 1979, liderando eventualmente 55 mil tropas cubanas contra as Forças de Defesa da África do Sul apoiadas pela CIA. Outros membros da força de guerrilha de Guevara também retornaram à África para lutar.

Che Guevara não voltou a Cuba com seus camaradas. Ele permaneceu na embaixada cubana em Dar es Salaam para escrever seu relato da campanha congolesa. No início de 1966, ele viajou para Praga, onde ficou por vários meses. Ele finalmente retornou a Cuba, onde secretamente ajudou a preparar a força expedicionária que se estabeleceria no leste da Bolívia em novembro de 1966. Enquanto no leste do Congo, Guevara aceitou formalmente a posição número três, na Bolívia, insistiu em liderar abertamente a força. Isso – combinado com o fato de a esquerda revolucionária na Bolívia estar profundamente dividida como resultado da disputa sino-soviética – significou que seus guerrilheiros receberam pouco apoio do Partido Comunista Boliviano, em grande parte alinhado a Moscou, deixando-os desesperadamente isolados.

Em março de 1967, apenas três meses após sua chegada, as forças do governo boliviano descobriram os cubanos e seus aliados locais e os obrigaram a lutar. Com praticamente nenhum apoio externo, o grupo diminuiu lentamente em números, e sua moral diminuiu. Em outubro de 1967, Guevara foi capturado e fuzilado.

Por uma perspectiva, podemos ver a decisão de Che de lutar contra probabilidades sem esperança na Bolívia como evidência de que ele não aprendeu nada com suas experiências no Congo. Por outra, poderíamos argumentar que ele já havia planejado algo assim no Congo, quando considerou ficar para trás. Ele pode até ter se decidido em abril de 1965, quando escreveu sua carta a Castro renunciando a suas posições na liderança do partido, seu cargo no ministério, seu posto de comandante e sua cidadania cubana. Afinal, ele era argentino e sempre fora, até certo ponto, um estranho.

Ele também era um idealista que havia viajado muito em sua motocicleta pela América Latina quando era apenas um jovem médico, familiarizando-se com a vida das pessoas pobres. Ele acreditava que a ação revolucionária poderia melhorar suas vidas, e sua participação no extraordinário sucesso da Revolução Cubana mostrou a ele o que poucas pessoas determinadas poderiam alcançar. Antes de partir para o Congo, Guevara escreveu aos pais: “Mais uma vez sinto sob os calcanhares as costelas de Rocinante”.

Esta imagem de Guevara – como um Don Quixote do século XX, partindo em seu cavalo ancião para reviver a cavalaria, desfazer erros e trazer justiça ao mundo, que, contra todas as probabilidades e apesar de uma série de encontros desastrosos, sobrevive com o espírito inalterado até o fim – apela ao romântico em todos aqueles que se consideram revolucionários. Mas a intervenção cubana no Congo não foi realizada de ânimo leve ou sem uma preparação séria; e as divisões dentro dos vários movimentos congoleses e os fracassos de sua liderança, embora muito reais, não pareciam à liderança cubana, pelo menos a princípio, insuperáveis.

Qualquer que fosse a situação no Congo, foi, sem dúvida, a mudança do ambiente político na África como um todo, e particularmente a retirada do apoio do Presidente Nyerere da Tanzânia à força expedicionária cubana que afetou adversamente a situação enfrentada por Guevara e seus guerrilheiros. Além disso, é claro que a decisão de abortar a missão não foi tomada apenas por Guevara, como observou Castro anos depois.

Guevara, no entanto, permaneceu heroicamente, embora tragicamente, otimista em relação à sua capacidade de contribuir para a revolução em outros lugares. Representantes do movimento de independência de Moçambique, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), relataram, por exemplo, que se encontraram com Guevara no final de 1966 em Dar es Salaam, sobre sua oferta de ajudar em seu projeto revolucionário, uma oferta que eles rejeitaram em último caso.

Enquanto Guevara se preparava secretamente para a Bolívia, ele escreveu uma última carta para seus cinco filhos para serem lidos após sua morte, que terminou com ele instruindo-os: “Acima de tudo, sempre seja capaz de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra alguém, em qualquer lugar do mundo. Esta é a mais bela qualidade em um revolucionário”.

Este artigo baseia-se na introdução de Richard Gott para o livro de Che Guevara The African Dream: The Diaries of the Revolutionary War in the Congo.

Sobre o autor

David Seddon is co-author of Congo: Plunder and Resistance. He is the coordinator of an essay series for the Review of African Political Economy site.

O retorno da Esquerda

A campanha eleitoral de Mélenchon eletrizou a esquerda fazendo o que Hamon não podia fazer – uma ruptura com o centro político.

por Cédric Durand e Razmig Keucheyan

Jacobin

Jean-Luc Mélenchon em 2011. Thomas Bartherote / Flickr

Tradução / A campanha do candidato socialista Benoît Hamon está agora em um impasse, porque ele não podia ver que a raposa neoliberal se recusaria a acomodar a galinha socialista. Essa é a estratégia oposta à de Jean-Luc Mélenchon, que assumiu a liderança da esquerda.

As eleições do passado foram longas e bastante chatas. Levado adiante por um vento liberal, havia uma troca contínua do escritório entre a direita segura de si e a esquerda leve – estes convertidos de todo coração à modernização do mercado – no eterno presente do capitalismo. O capitalismo fora dominado por um espaço globalizado e por um tempo financiado. O desemprego endêmico, a exultação consumista e o horror terrorista ou criminoso compunham os três extremos dramáticos de um pequeno jogo que se movimentava, apimentado apenas pelas palhaçadas dos candidatos ou pelas cenas feitas por amigos traídos.

2017 não é daquela safra. Sob o lento fluxo de reviravoltas da competição eleitoral, um mapa político está tomando forma, com linhas divisórias claras. Na França, a história está de volta. Aqui como em outros lugares, a tectônica social da grande crise econômica de 2008 está fazendo seu trabalho. Os demarcações presidenciais rotineiras estão se recompondo à grande velocidade. Eles estão realinhando as forças políticas em torno das três opções aninhadas dentro do infra-mundo de nossa modernidade política. Estes são três colossos irredutíveis, destinados ao confronto.
Os monstros

Para o primeiro dos três, a palavra de ordem é a competição livre e irrestrita, estabilidade financeira, a fraternidade do cálculo egoísta. Ele já é hegemônico na maioria dos locais de poder e pretende permanecer assim com a ajuda de uma cobertura de mídia escandalosamente favorável e a frenética mobilização das últimas tecnologias de marketing eleitoral. Seu sentido é a auto-evidência do discurso dominante; sua força é sua repetição; E sua fraqueza é o seu fracasso.

As elites internacionais e financeiras baseiam sua legitimidade numa prosperidade econômica que derruba migalhas suficientes para acalmar a dureza de uma existência subordinada. Infelizmente, com a estagnação que agora está enraizando, as desigualdades indecentes estão se tornando cada vez mais insuportáveis. O cansaço se desenvolve, o rancor se acumula e, pouco a pouco, vai matando o extremo-centro – o herói político do nosso tempo neoliberal – sufocado.

O segundo dos três é um monstro que se alimenta do desespero e isolamento causados pelo primeiro. Este é o partido da ordem e da pequena propriedade, o partido do ressentimento e perda do status de classe. Este é o campo dos perdedores do neoliberalismo, que sonham com uma mesquinha vingança contra aqueles mais fracos que eles mesmos. Nacionalista, autoritário, xenófobo, sua ancoragem popular torna-se mais forte a cada centímetro concedido quando se oferece os arranjos necessários aos poderosos. Divisão, opressão e confinamento são costurados em seu manto cinzento, abominado por todos os amigos da democracia.

O terceiro é chamado de Esquerda, a esquerda real. Audaz e forte das batalhas que luta, seu olhar é de longo alcance e abrange tanto o sofrimento imediato quanto o destino da raça humana. Nas últimas décadas, restrito a importunar o eleitorado e recuar sobre as lutas sociais e ambientais, hoje é novamente um candidato ao poder. Do sul da Europa aos países anglófonos, está forçando o recuo – internamente, ou de fora – dos antigos aparelhos social-democratas que passaram às mãos inimigas, enquanto retoma a bandeira da emancipação.

Amigo ou inimigo

A vitória de Enoît Hamon na Primária Socialista e a deserção do ex-primeiro-ministro socialista Manuel Valls acelerou esta ampla recomposição política. Certamente, a deslealdade do ex-primeiro-ministro é extremamente descortês. Mas fundamentalmente, Manuel Valls tem razão ao colocar as idéias antes do processo: a esquerda não pode ser reconciliada com aqueles que têm a responsabilidade pelos calamitosos últimos cinco anos, que pensam que seu pecado foi uma falta de neoliberalismo e não seu excesso.

Como Maquiavel escreveu, é sempre preferível declarar-se abertamente um amigo ou inimigo. Jean-Luc Mélenchon assumiu a liderança da esquerda porque reconheceu a necessidade dessa estratégia. Por outro lado, a campanha de Benoît Hamon está em um impasse precisamente porque não conseguiu ver que a raposa neoliberal se recusaria a acomodar a galinha socialista.

Ninguém pode subestimar a importância, nestes tempos difíceis, da chegada ao poder – em um grande país como a França – de uma esquerda que não gira mais em torno do neoliberalismo. É exatamente isso que está em jogo na possibilidade de Benoît Hamon se unir à campanha de Jean-Luc Mélenchon. Existem diferenças entre seus programas, mas não são intransponíveis.

Em particular, na questão europeia, a articulação de Mélenchon de um Plano A e Plano B deixa uma grande margem de manobra para encontrar o justo equilíbrio entre a tentativa de refundar a Europa e a determinação de levar a cabo políticas de justiça social e ecológica. A aproximação entre os dois parece inevitável: a única questão é saber se acontecerá antes ou depois da eleição presidencial.

No extremo-centro, a aliança de Macron, François Bayrou e Manuel Valls ocupa seu lugar em continuidade com o mandato de François Hollande e a ortodoxia europeia; mais forte do que nunca, a extrema direita está hoje em ordem de batalha. Carregada pelo vento doente que sopra através de nossos tempos, tem razão de acreditar que tem uma chance. Neste momento crítico, a esquerda só tem uma candidatura capaz de trazer o futuro para nós: a votação por Mélenchon. Se esta votação se torna um ponto de encontro, então a vitória está ao alcance.

O grande segredo do seu chefe

Você tem o direito de saber quanto seus colegas de trabalho recebem - e se quiser eliminar a diferença salarial, faça o seguinte.

Rebecca Kolins Givan

Jacobin

Sonny Abesamis / Flickr

https://jacobin.com.br/2021/09/o-segredinho-que-seu-chefe-nao-quer-que-voce-saiba/

A Islândia entendeu recentemente que as leis que impediam a discriminação salarial eram insuficientes. A nova legislação exigirá que os empregadores provem que seus empregados estão sendo remunerados de forma justa. Este é um avanço significativo. O sigilo salarial dá aos empregadores o poder de discriminar os trabalhadores ou de pagá-los com base em critérios arbitrários e pouco claros ou evidentes. Forçar os empregadores a serem transparentes sobre o tema coloca a Islândia na primeira linha na proteção dos direitos dos trabalhadores. Em muitos países, incluindo os Estados Unidos, o ônus recai sobre o funcionário ou funcionária que deve descobrir por si próprio a discriminação salarial e iniciar uma ação judicial a fim de remediar a situação.

Perguntar sobre salário é um assunto delicado. Temos uma norma moral forte contra a discussão salarial, mantendo o pretexto de que a motivação para trabalhar vem de outro lugar que não a necessidade de um contracheque, tais como a dedicação exclusiva ao empreendimento ou empresa. O sigilo salarial é apenas uma ferramenta que os empregadores usam para impedir que os funcionários falem abertamente sobre suas experiências no trabalho e ajam coletivamente para melhorar sua situação.

A questão do sigilo salarial é particularmente preocupante para as mulheres, que historicamente vem recebendo muito menos do que os homens para fazer o mesmo trabalho. Mas isso está começando a mudar. Em uma era de feminismo, as mulheres se familiarizaram com pesquisas que mostram que as mulheres normalmente não questionam sobre isso e que começar uma carreira com um salário mais baixo do que um homem em uma posição semelhante pode levar a diferenças dramáticas na remuneração no longo prazo. Hoje em dia, mais e mais mulheres estão perguntando sobre condições salariais.

Mas perguntar sobre condições salariais não significa receber igualitariamente. Nada demonstra melhor as normas opressivas em torno do sigilo salarial do que o recente caso de Taylor Byrnes. Byrnes, como aparentemente qualquer pessoa normal que se candidata a um emprego, perguntou sobre salários e benefícios enquanto fazia uma entrevista para um emprego em uma empresa de Winnipeg chamada SkipTheDishes. Sua pergunta foi recebida com escárnio e a SkipTheDishes cancelou sua segunda entrevista. Aparentemente, Byrnes estava muito “focada na compensação”; a empresa estava procurando trabalhadores com “motivação intrínseca” e provavelmente sem aluguel ou outras contas a pagar.

O caso de Byrnes parece ridículo, mas infelizmente pode ser considerado como tudo menos como raro ou excepcional. A cultura organizacional de muitas startups exige esse tipo de dedicação feroz e disposição para ignorar práticas de emprego frequentemente abusivas – desde o assédio sexual recentemente descoberto no Uber, até discrepâncias salariais e discriminação. A cultura das startups evoluiu para enfatizar a dedicação a uma missão, ou a um propósito, ao invés do simples ato de vender sua força de trabalho. Funcionários e funcionárias são encorajados a se entregar, motivados apenas pela devoção a tecnologias e pela promessa de uma eventual recompensa por meio de ações. E embora os tecno-libertários que dominam a cultura das startups possam acreditar ou defender que “a informação tem que ser livre”, esse interesse pela liberdade geralmente não se estende aos trabalhadores se organizando para um trabalho melhor ou um pagamento mais justo.

As startups de tecnologia estão se inspirando em um antigo manual; o “jeitinho” da SkipTheDishes reproduzem práticas antigas de discriminação. Lily Ledbetter, cujo nome consta na peça mais importante da legislação dos Estados Unidos que proíbe a discriminação salarial em décadas, foi discriminada durante anos. Ela trabalhava como supervisora ​​em uma fábrica de pneus Goodyear no Alabama e, pouco antes de sua aposentadoria planejada para 1998, Ledbetter recebeu uma nota anônima, informando que ela estava recebendo significativamente menos do que seus colegas homens. Ledbetter entrou com uma reclamação na Equal Employment Opportunity Comission (EEOC) [em tradução livre Comissão de Oportunidade Igualitárias de Emprego] e, em retaliação, a empresa a transferiu para uma posição que exigia um trabalho manual mais pesado.

Ledbetter processou e, inicialmente, ganhou uma ação multimilionária no tribunal do júri contra a empresa, mas a Goodyear apelou para a Suprema Corte. O tribunal decidiu que o prazo prescricional havia expirado porque a violação ocorreu no dia em que Ledbetter recebeu seu primeiro salário discriminatório (20 anos antes). De acordo com a lei existente, Ledbetter teria que entrar com o processo dentro de 180 dias após o recebimento de seu primeiro contracheque. Mas, como os valores de pagamento geralmente são um segredo, Ledbetter não teria como saber que estava sendo discriminada, tornando inútil a já escassa ação protetiva da EEOC.

​​A Lei de Salário Justo de Lily Ledbetter de 2009 – a primeira peça de destaque da legislação do governo Obama – foi projetada para remediar essa situação “entre a cruz e a espada”. A própria Ledbetter não foi compensada pelas décadas que passou recebendo menos do que seus colegas de trabalho, mas a Lei Ledbetter protege os futuros trabalhadores e trabalhadoras ao especificar que a discriminação ocorre toda vez que o trabalhador recebe um salário, zerando assim o relógio do estatuto de limitações.

Obama assinou outra ordem executiva em 2014 exigindo que os empreiteiros federais fossem ainda mais longe, proibindo-os de retaliar contra funcionários, funcionárias, candidatas e candidatos a emprego “que indagassem, discutissem ou revelassem sua própria remuneração ou a remuneração de outros funcionários ou candidatos”. Ao proteger postulantes a empregos, esta ordem executiva vai além das salvaguardas que abrangem todos funcionários e funcionárias sob a Lei Nacional de Relações Trabalhistas. O governo Trump tentou reverter várias proteções da era Obama para funcionários.

Na teoria, a Lei Ledbetter trabalha em consonância com a Seção 7 da Lei Nacional de Relações do Trabalho, que concede a funcionárias e funcionários (que não estejam em cargos de supervisão) em empresas do setor privado a liberdade de discutir seus salários ou vencimentos. Assim, qualquer discussão neste sentido é uma atividade protegida pela lei. No entanto, as penalidades para violações do empregador permanecem lamentavelmente fracas e podem desaparecer totalmente sob a atual administração presidencial.

Além disso, como argumenta a jurista Cynthia Estlund, a maioria dos locais de trabalho tem normas rígidas contra a discussão de salários, e muitos trabalhadores acreditam (incorretamente) que podem ser punidos por essas discussões. Por exemplo, várias decisões do National Labor Relations Board (NLRB) [em tradução livre Conselho Nacional de Relações de Trabalho] proíbem as empresas de colocar regras nos manuais dos funcionários que desrespeitem as proteções federais nos direitos de trabalhadores. Mesmo assim, as empresas ainda fazem isso. Em 2010, um juiz de direito administrativo determinou que dez seções diferentes dos manuais de equipe da T-Mobile violavam as leis trabalhistas federais, incluindo disposições que impediam os trabalhadores de discutir salários e condições de trabalho. Nesse caso, a empresa estava impondo uma política ilegal a mais de 40 mil trabalhadores, diminuindo sua capacidade de se organizarem ao mesmo tempo que o Communications Workers of America [em traduçao livre, Trabalhadoras e Trabalhadores da área de Comunicações dos Estados Unidos] tentavam organizar um sindicato na T-Mobile.

Cerca de 60% dos trabalhadores e trabalhadoras do setor privado relatam que seus empregadores têm políticas semelhantes às da T-mobile. Essas políticas, embora tecnicamente impraticáveis, criam um clima em que os trabalhadores não discutem salários e, portanto, não podem descobrir quaisquer disparidades. Muitos trabalhadores e trabalhadoras pensam erroneamente (sem dúvida, incentivados por seus empregadores) que é contra as regras discutir seus salários com seus colegas de trabalho.

Os Estados vem tentando enfraquecer essas práticas. Dez Estados dos Estados Unidos têm atualmente legislações sobre “sigilo salarial” em seus ordenamentos, proibindo retaliação contra trabalhadoras e trabalhadores que discutem seu salário; a legislação aplica-se a todas funcionárias e funcionários, estejam ou não abrangidos pela Lei Nacional de Relações Trabalhistas. No entanto, apesar dessas proteções, os empregadores dos EUA frequentemente proíbem seus trabalhadores de discutir salários. Uma pesquisa de 2014 descobriu que cerca de metade dos empregadores proíbe ou desencoraja trabalhadores e trabalhadoras a discutirem salários e demais compensações, embora essa proibição geralmente viole a NLRA (National Labor Relations Act, a Lei Nacional de Relações Trabalhistas).

É verdade que alguns salários nos Estados Unidos já estão sujeitos a requisitos de divulgação: executivos de empresas de capital aberto, funcionários públicos e os funcionários mais bem pagos de organizações sem fins lucrativos, bem como funcionários sindicais, todos têm salários registrados em agências governamentais. Em muitos casos, de jornais estaduais e bons grupos do governo até o obscuro – e anti-sindical – Centro de Fatos Sindicais, tornaram esses salários pesquisáveis ​​e facilmente disponíveis online. Para a maioria dos trabalhadores americanos, entretanto, os salários de seus colegas de trabalho permanecem um grande mistério.

Mas este é um mistério que pode ser resolvido, e a melhor maneira de fazer isso é por meio de negociação coletiva. A maioria dos acordos de negociação coletiva inclui escalas de pagamento transparentes em que um funcionário ou funcionária pode localizar seu salário com base em seu cargo, credenciais, habilidades, antiguidade, experiência ou alguma combinação destes. O pagamento de acordo com a maioria dos acordos coletivos de trabalho é normalmente aberto e transparente. Os sindicatos podem eliminar as disparidades salariais dentro de um único empregador e limitar drasticamente a desigualdade salarial, mesmo entre diversos empregadores. Os acordos de negociação coletiva removem a capacidade dos gerentes de definirem salários com base em seus próprios critérios, que podem ser arbitrários ou influenciados por preconceitos implícitos ou explícitos.

Mesmo na ausência de um sindicato, a discussão aberta sobre salários reduz a desigualdade. Pesquisas recentes mostram que as leis estaduais que proíbem o sigilo salarial reduzem as disparidades salariais entre homens e mulheres, especialmente para mulheres com níveis mais altos de educação. Embora haja uma análise esparsa dos efeitos dessas leis até agora, a mais significativa, segundo a economista Marlene Kim, conclui que “as leis de sigilo salarial parecem ajudar as mulheres a determinar se são mal pagas ou não em comparação com (suas contrapartes) homens e podem ser úteis para reduzir a diferença salarial com base em gênero, especialmente entre aqueles e aquelas com educação universitária (ou superior).”

É claro, porém, que a transparência sobre os pagamentos não resolve todos os problemas do local de trabalho. Saber os salários dos seus e suas colegas de trabalho, sem qualquer mecanismo de voz no local de trabalho, pode criar tantos problemas quanto resolver. O que é insuficiente por si só. Algumas empresas, como a Whole Foods e a startup de tecnologia Buffer, oferecem transparência salarial, mas também são empresas não sindicalizadas que praticam At-will employmen [termo utilizado nos Estados Unidos para caracterizar uma forma de contrato de trabalho onde empregadores podem demitir um trabalhador ou trabalhadora por qualquer motivo – que não tenha por base em discriminação racial, sexual ou religiosa – por justa causa e sem aviso prévio]; os trabalhadores não têm uma voz coletiva organizada, portanto, agir com base em informações sobre remuneração pode ser arriscado. Considere, por exemplo, o caso de um funcionário gay que descobre que está sendo mal pago por sua posição em comparação com colegas de trabalho heterossexuais. Como a maioria dos Estados permite a discriminação contra trabalhadores gays, o trabalhador corre o risco de ser legalmente demitido se exigir um pagamento igualitário.

No entanto, vale a pena combater o sigilo salarial. Sem a divulgação aberta da folha de salários e pagamentos, os empregadores mantêm a capacidade de discriminar e isolar funcionários e funcionárias sob o pretexto de que os trabalhadores e trabalhadoras devem ser motivados por uma vocação superior. Ainda trabalhamos em um mundo em que admitir que seu salário é importante viola um tabu, como Taylor Byrnes aprendeu. Portanto, na ausência de uma negociação coletiva generalizada, transferir o ônus da comprovação da equidade salarial dos trabalhadores e trabalhadoras mal informados para os empregadores que têm o benefício da informação seria um excelente primeiro passo em direção à criar mais igualdade no local de trabalho.

Sobre o autor

Rebecca Kolins Givan é professora de Estudos de Trabalho e Relações de Trabalho na Escola de Administração e Relações de Trabalho em Rutgers, Universidade Estadual de Nova Jersey.

3 de abril de 2017

O que Lênin estava pensando?

Na forma de seu primeiro líder, a Revolução Russa tinha um gênio estratégico que nunca mais encontrou.

Tariq Ali


Mural de Vladimir Lenin. SHEPARD SHERBELL/CORBIS SABA/Getty Imagens

O que Vladimir Lênin estava pensando na longa viagem à Estação Finlândia de Petrogrado em 1917?

Como todo o mundo, ele tinha sido tomado de surpresa pela velocidade em que havia se sucedido a Revolução de Fevereiro. Enquanto cruzava a Europa de Zurique até a Rússia, a bordo de um trem blindado, cortesia do Kaiser alemão, ele deve ter refletido que esta não era uma oportunidade para ser perdida.

Que os fracos partidos liberais tinham dominado o novo governo era de se esperar. O que o preocupava eram os relatórios de que seus próprios bolcheviques estavam vacilando no caminho adiante. A teoria os tinha aprisionado, junto com boa parte da esquerda, à ortodoxia marxista de que, nesse estágio de desenvolvimento, a revolução na Rússia podia apenas ser democrático burguesa. O socialismo era possível apenas em economias avançadas como a Alemanha, a França, ou até os Estados Unidos, mas não na Rússia camponesa. (Leon Trotsky e seu círculo intelectual estavam entre os poucos que discordavam dessa visão.)

Já que o curso da revolução estava dessa maneira preordenado, tudo o que os socialistas poderiam fazer era oferecer apoio ao Governo Provisório enquanto este atravessava o primeiro estágio da revolução e desenvolvia uma economia capitalista completa. Uma vez que isso estivesse terminado, poderiam agitar por uma revolução mais radical.

Essa combinação de dogmatismo e passividade enfurecia Lênin. O levante de fevereiro tinha feito com que repensasse velhos dogmas. Para progredir, ele agora acreditava, deveria haver uma revolução socialista. Nenhuma outra solução era possível. O estado czarista tinha que ser destruído desde a raiz. Assim disse quando desembarcou do trem em Petrogrado: Nenhuma harmonia ou acordo era possível com um governo que continuasse a participar na guerra ou com os partidos que apoiassem tal governo.

A palavra de ordem bolchevique que sintetizou seu pensamento tático foi “pão, paz e terra.” Quanto à revolução, ele agora argumentava que a corrente capitalista internacional quebraria no elo mais fraco. Convencer os trabalhadores e camponeses russos a construir um novo estado socialista levaria a insurreições na Alemanha e em outros lugares. Sem isso, argumentou, seria difícil construir qualquer forma significativa de socialismo na Rússia.

Ele detalhou sua nova visão nas Teses de Abril, mas teve que lutar para convencer o partido bolchevique. Denunciado por alguns por virar as costas à doutrina marxista aceita, Lênin parafrasearia Mefistófeles do Fausto de Goethe: “A teoria, meu amigo, é cinza, mas verde é a eterna árvore da vida.” Uma das primeiras apoiadoras foi a feminista Alexandra Kollontai. Ela, também, rejeitava acordos e meios-termos, porque não acreditava que algum fosse possível.

De fevereiro a outubro, de acordo com alguns o período mais aberto na história russa, Lênin persuadiu seu partido, juntou forças com Trotsky e se preparou para uma nova revolução. O Governo Provisório de Alexandre Kerensky se recusou a desistir da guerra. Agitadores bolcheviques entre as tropas no front se aproveitaram de seus vacilos. Motins e deserções em larga escala seguiram.

Dentro dos conselhos de trabalhadores e soldados, os sovietes, a estratégia de Lênin começou a fazer sentido para um grande número de trabalhadores. Os bolcheviques ganharam maiorias nos sovietes de Petrogrado e Moscou, e o partido se desenvolvia rapidamente em outros lugares. Essa junção entre as ideias políticas de Lênin e a consciência de classe crescente entre os trabalhadores produziu a fórmula para outubro.

Longe de ser uma conspiração, ou até um golpe, a Revolução de Outubro foi talvez o levante mais publicamente planejado na história. Dois dos camaradas mais antigos de Lênin no comitê central do partido continuaram opostos a uma revolução imediata e publicaram a data do evento. Embora seus detalhes finais obviamente não tenham sido divulgados antes, a tomada de poder foi rápida e envolveu um mínimo de violência.

Tudo mudou com a guerra civil consequente, na qual os inimigos do nascente estado soviético receberam apoio dos antigos aliados ocidentais do czar. Entre o caos resultantes e as milhões de baixas, os bolcheviques obtiveram a vitória – mas sob um custo político e moral terrível, incluindo a quase extinção da classe trabalhadora que tinha originalmente feito a revolução.

A escolha que seguiu a revolução de outubro de 1917 não foi, então, entre Lênin e a democracia liberal. A escolha verdadeira foi determinada por uma brutal luta pelo poder entre os exércitos Branco e Vermelho, o primeiro liderado por generais czaristas que não mantinham em segredo que, se ganhassem, tanto bolcheviques quanto judeus seriam exterminados. Massacres promovidos pelos Brancos erradicaram vilarejos judeus inteiros. A maioria dos judeus russos revidou, tanto como membros do Exército Vermelho quanto em suas próprias unidades de guerrilha. Nem devemos esquecer que, poucas décadas depois, foi o Exército Vermelho – originalmente forjado na guerra civil por Trotsky, Mikhail Tukhachevsky e Mikhail Frunze (os primeiros dois depois mortos por Stalin) – que quebrou a força militar do Terceiro Reich nas grandes batalhas de Kursk e Stalingrado. Nesse ponto, Lênin já estava morto há duas décadas.

Enfraquecido por um derrame nos dois últimos anos antes de morrer em 1924, Lênin teve tempo de refletir sobre as conquistas da Revolução de Outubro. Ele não estava feliz. Ele viu como o estado czarista e suas práticas, longe de serem destruídos, tinham contaminado o bolchevismo. O ufanismo da Grande-Rússia estava desenfreado e tinha que ser erradicado, ele percebeu. O nível da cultura do partido era lamentável após a perda humana da guerra civil.

“Nosso aparato de estado é tão deplorável, para não dizer miserável,” ele escreveu no jornal Pravda “que a coisa mais prejudicial seria contar com a presunção de que sabemos de alguma coisa sequer.”

“Não” ele concluiu “estamos ridiculamente em deficiência”. A Revolução tinha que admitir seus erros e se renovar, ele acreditava; de outra forma, iria falhar. Mas esta lição não foi levada a cabo após sua morte. Seus escritos foram em boa parte ignorados ou deliberadamente distorcidos. Nenhum líder soviético veio à tona com a visão de Lênin.

“Sua mente era um instrumento notável.” escreveu Winston Churchill, que não era suspeito de admirador do bolchevismo. “Quando sua luz brilhava ela revelava o mundo inteiro, sua história, suas tristezas, suas estupidezes, suas farsas, e, acima de tudo, seus males.”.

De seus sucessores, nenhum dos reformadores notórios – Nikita Khruschchev nos anos 50 e 60 e Mikhail Gorbachev na década de 80 – tinha a real capacidade de transformar o país. A implosão da União Soviética devia quase tanto à sua cultura política degradada – e, por vezes, à ridícula insuficiência de sua elite burocrática – quanto à estagnação econômica e dependência de recursos que se instalaram a partir dos anos 70. Obcecados com imitar os avanços tecnológicos dos Estados Unidos, seus líderes cortaram o piso de sob seus pés. No trágico capítulo final da revolução, não foram poucos os seus burocratas que se redescobriram como milionários e oligarcas – algo que Trotsky havia predito no exílio em 1936.

“A política é uma expressão concentrada da economia.” Lênin afirmou certa vez. Enquanto o capitalismo vai tropeçando, seus políticos e apoiadores oligarcas veem seus eleitores desertando os partidos em massa. A tendência à direita na política ocidental é uma revolta contra as coalizões neoliberais que governam desde a queda da União Soviética.

Hoje, porém, os políticos não podem culpar o socialismo como antes faziam – pois ele não existe.
Na Rússia nacional-conservadora de seu presidente, Vladimir V. Putin, não haverão celebrações este ano da Revolução de Fevereiro ou da de Outubro. “Não estão no nosso calendário.” ele disse a um jornalista indiano conhecido meu no ano passado.

“Depois da sua morte” Lênin escreveu sobre revolucionários “tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para “consolo” das classes oprimidas e para o seu ludíbrio.” Depois da sua morte, contra os protestos de sua viúva e irmãs, Lênin foi mumificado, posto em exibição pública e tratado como um santo bizantino. Ele tinha previsto seu próprio destino.

Tariq Ali, membro do conselho editorial da New Left Review, é o autor, mais recentemente, de The Dilemmas of Lenin: Terrorism, War, Empire, Love, Revolution.

1 de abril de 2017

O retorno do reprimido

Estará o longo reinado do neoliberalismo a chegar ao fim, atingido pelos golpes desfavoráveis do Brexit, de Trump e da propagação de insurgências populistas por toda a Europa, as vítimas do seu padrão de globalização começam a encontrar uma voz? Se assim for, sem nenhuma alternativa radical ainda à vista, um estranho interregno está se aproximando, onde "tudo é possível e nada consequente"?

Wolfgang Streeck


NLR 104 • MAR/APR 2017

Tradução / O neoliberalismo veio junto com a globalização, ou a globalização com o neoliberalismo; foi assim que começou a Grande Regressão. [1] Nos anos 70, nas nações industriais reconstruídas no pós-guerra, o capital começou a se libertar das tarefas locais, do papel nacional que havia sido obrigado a cumprir depois de 1945. [2] Havia chegado a hora de se despedir dos mercados de trabalho esvaziados, da produtividade estagnada, dos lucros em baixa e das reivindicações cada vez maiores dos sindicatos do capitalismo já maduro e administrado pelo Estado. O caminho rumo ao futuro, à nova expansão a que todo capital aspira de coração, apontava para fora, para o mundo ainda alegremente ingovernado de uma economia global sem limites – na qual os Estados, em vez de conter mercados, estão contidos neles.

A guinada neoliberal ocorreu então sob o signo de uma deusa chamada TINA – There Is No Alternative [Não Há Alternativa]. Sua longa linhagem de sacerdotes e sacerdotisas vai de Margaret Thatcher a Angela Merkel, passando por Tony Blair. Quem desejasse servir a essa deusa, sob o cântico solene dos economistas de todos os países, precisava reconhecer o avanço do capital mundo afora, escapando de seus grilhões locais, como uma necessidade ditada pelas leis da natureza e pelo bem comum. Precisava também se empenhar ativamente na desmontagem dos obstáculos a lhe atravancar o caminho. Práticas típicas dos não convertidos à deusa TINA, como o controle da circulação do capital e benefícios do Estado, deveriam ser perseguidas e exterminadas; ninguém mais deveria ter o direito de se furtar à “concorrência global” e de se acomodar confortavelmente em qualquer tipo de rede nacional. Tratados de livre-comércio deveriam abrir os mercados e resguardá-los de toda e qualquer intervenção estatal; uma “governança global” haveria de substituir os governos nacionais; as antigas medidas de proteção contra uma excessiva mercantilização da vida dariam lugar, agora, à capacitação para o mercado; ao Estado de bem-estar social caberia ceder terreno ao Estado competitivo de uma nova era de racionalização capitalista. [3]

Antes que a década de 80 chegasse ao fim, o neoliberalismo já havia se transformado no pensamento único da vida política, da centro-direita à centro-esquerda. As velhas controvérsias foram dadas como resolvidas. Importava agora promover “reformas” para aumentar a “competitividade” nacional, e reformas idênticas por toda parte: flexibilização do mercado de trabalho; melhoria dos “incentivos” (positivos para o topo da distribuição de renda, negativos na base); privatização e abertura de mercados, usadas como arma para atrair investimentos e reduzir custos, mas também como teste de solidez moral. Os conflitos distributivos do passado foram substituídos pela avaliação tecnocrática do que era economicamente necessário, além de inevitável, a única possibilidade. Instituições, políticas e modos de vida deveriam se ajustar a esses objetivos. Como era inevitável, tudo isso se fez acompanhar da involução dos partidos políticos -their retreat into the machinery of the state as ‘cartel parties’ [4]-, que passaram a contar com um número cada vez menor de membros e com uma participação popular cada vez menor nas eleições, algo que ganhava contornos acentuados entre os mais pobres. A isso se acrescentou um derretimento da organização sindical e um declínio dramático na realização de greves mundo afora – em outras palavras, uma desmobilização ampla de quase todos os mecanismos de participação e redistribuição de renda que vigoraram na democracia do pós-guerra. Tudo isso foi acontecendo aos poucos, num ritmo que ganhou intensidade e firmeza, a ponto de afinal se transformar no estado natural das coisas.

Como um processo de regressão institucional e política, a revolução neoliberal inaugurou uma nova era da política pós-factual. [5] Isso se fez necessário porque a globalização neoliberal nem de longe foi capaz de cumprir a promessa de bem-estar para todos. [6] À inflação da década de 70 e ao desemprego decorrente do duro combate a ela seguiu-se, nos anos 80, o endividamento do Estado, e, na década de 90, o saneamento das finanças públicas por meio das “reformas” impostas ao Estado de bem-estar social. Numa espécie de compensação por essas mudanças, as famílias passaram a ter acesso a uma generosa oferta de oportunidades de endividamento. Enquanto isso, o crescimento regredia, embora a desigualdade e o endividamento continuassem a aumentar – na verdade, era justamente porque o crescimento era menor que isso acontecia. Em vez do que prometia o modelo econômico de trickle-down – em que benefícios estatais aos mais ricos, como abatimento de impostos, se converteriam em ganhos também para os mais pobres –, verificou-se o fenômeno inverso e bem mais vulgar, o trickle-up: a crescente desigualdade entre indivíduos, famílias, regiões de um mesmo país, e, na zona do euro, nações. A prometida sociedade dos serviços e do conhecimento acabou se revelando bem menor do que a decadente sociedade industrial, aumentando assim o número de pessoas que se viam descartadas, sem serventia econômica. Essa gente, excesso de contingente do capitalismo em marcha, passou a assistir indefesa e confusa à transformação do Estado, que passava de coletor de impostos a Estado endividado (seguido do Estado de austeridade). Assistiam também às crises financeiras e às medidas de salvação nacional que as sucederam, sob as quais essa população se viu em situação cada vez pior. [7] A “governança global” não ajudou em nada, tampouco o Estado nacional democrático ajudou – do qual, aliás, a economia capitalista se desatrelou. A fim de garantir que todos esses óbvios problemas – todas as limitações da globalização – não se transformassem num perigo para o Admirável Mundo Novo, foi necessário criar métodos mais refinados de produção de consenso, de um lado, e de desorganização da resistência, de outro. Com efeito, a caixa de ferramentas desenvolvida com essa finalidade se mostrou de início extraordinariamente eficaz.

A era "pós-factual"

Mentiras, mesmo as mais descaradas, sempre houve na política; basta pensar no PowerPoint apresentado por Colin Powell ao Conselho de Segurança da ONU, contendo provas visuais infalíveis da existência de armas de destruição em massa no Iraque. Com a revolução neoliberal e, atrelada a ela, a transição rumo à “pós-democracia” [8], entrou em cena um novo tipo de engodo político: a mentira especializada. Sua estreia se deu com a Curva de Laffer, que comprovaria cientificamente que reduções de impostos conduziriam a uma arrecadação tributária maior. [9] Em seguida, veio, entre outros exemplos, o “Relatório Cecchini” da Comissão Europeia (1988), que, como recompensa pela conclusão do processo de criação do mercado comum europeu, prometeu aos cidadãos da UE um crescimento do bem-estar equivalente a 5% de seu PIB, uma queda média de 6% nos preços dos bens de consumo, “milhões de novos postos de trabalho” e uma melhora das finanças públicas de cerca de 2,2% do PIB europeu. Enquanto isso, nos Estados Unidos, especialistas em finanças, como Ben Bernanke, Alan Greenspan e Larry Summers, concordavam não só que medidas de segurança tomadas por investidores racionais, em interesse próprio e por sua própria conta, bastariam para estabilizar mercados financeiros cada vez mais “livres” e globais, como também que as autoridades estatais não precisavam atuar contra a formação de bolhas, até porque já era possível anular sem dor os efeitos de uma eventual reversão de expectativas.

Ao mesmo tempo, foram se tornando cada vez mais absurdas as “narrativas” [10] disseminadas por partidos tradicionais, governos e especialistas em relações públicas, bem como as decisões ou ausência de decisões que elas fundamentavam. A captura do aparato governamental por antigos e futuros executivos da Goldman Sachs prosseguiu como se nada tivesse acontecido; seu saber especializado era tido como indispensável. Passados sete anos sem que um único executivo de banco corresponsável pelo crash de 2008 fosse levado à Justiça, Eric Holder, procurador-geral de Obama, retornou ao escritório de advocacia do qual havia saído, especializado na defesa de executivos do setor financeiro, para receber um salário principesco de milhões de dólares. E Hillary Clinton – que, com marido e filha, acumulara fortuna de centenas de milhões de dólares nos dezesseis anos desde sua saída da Casa Branca, incluindo aí honorários da Goldman Sachs muito acima daqueles pagos inclusive a Larry Summers – disputou uma eleição como representante autoproclamada dos que “trabalham duro” ou, na verdade, daquela “classe média” que o progresso capitalista degradou há tempos à condição de contingente supérfluo.

Tudo isso já acontecia, mas é claro que para o internacionalismo neoliberal, que havia elevado a propagação de ilusões à condição de arte do governar democrático, a era pós-factual só começou depois de 2016, o ano do referendo do Brexit e da derrota do clintonismo para Donald Trump. [11] Foi somente depois do fracasso da pós-democracia – depois do fim da paciência desmesurada de boa parte da população com as “narrativas” de uma globalização que, nos Estados Unidos, beneficiou apenas o 1% mais rico – que os gestores do “discurso” dominante passaram a exigir a “checagem de fatos”. Só então passaram a lamentar os “déficits” impostos àqueles que se viram esmagados pela força da economia global, de um lado, e pelos efeitos das políticas de austeridade nacionais, em matéria de educação e treinamento, de outro. É neste ponto que começaram a exigir provas de aptidão – dos mais diversos tipos – como requisito para o exercício do direito ao voto. [12] O retorno das massas às urnas – elas que, para o bem do capitalismo, haviam passado muito tempo no Facebook, nas páginas de Kim Kardashian, Selena Gomez, Justin Bieber e tutti quanti – pareceu sinalizar uma perigosa regressão. Além disso, recursos até então utilizados para distrair as pessoas da decadência de suas próprias sociedades, como “intervenções humanitárias” ou o reavivamento do conflito Leste-Oeste – dessa vez com a Rússia no lugar da União Soviética, e a temática LGBTQ em vez do comunismo –, haviam, de súbito, se exaurido. Verdade e moralidade tinham deixado de importar – e, na Inglaterra, um membro conservador da Câmara dos Comuns explicou, quando lhe perguntaram por que, contrariando a opinião dos especialistas, ele fazia campanha pela saída do Reino Unido da UE: “As pessoas neste país já se cansaram dos especialistas!”

Moral high grounds and lowlands

Característica do “espírito do tempo” de hoje é uma nova cisão cultural que, do nada, parece ter acometido as sociedades capitalistas democráticas. Estruturalmente, essa divisão se fundamenta num desconforto com a “globalização”, algo que há tempos vem aumentando nos subterrâneos, dado o crescimento constante do número de “perdedores” nesse processo – um processo que alcançou um momento crítico nos anos que se seguiram à crise financeira de 2008, quando a quantidade dos atingidos se traduziu na qualidade do protesto, agora aberto. Que isso tenha demorado tanto a ocorrer também se deve ao fato de os antigos porta-vozes dos “perdedores” sociais terem aderido, antes do final dos anos 90, ao fã-clube da globalização. Assim, quem vivia a “globalização” como problema, e não como solução, ficou sem ter quem o representasse.

A fase áurea da globalização promoveu uma indústria da consciência de orientação cosmopolita; e essa indústria vislumbrou suas chances de crescimento ao atribuir ao ímpeto expansionista dos mercados capitalistas valores libertários da revolução social dos anos 60 e 70, bem como suas promessas utópicas de emancipação humana. [14] Isso fundiu a pensée unique tecnocrática do neoliberalismo ao juste milieu moral de uma comunidade com discurso internacionalista. Its control over the airspace above the seminar desks established at the time serves today as an operations base in a cultural struggle of a special kind, one in which the moralization of a globally expanding capitalism goes hand in hand with the demoralization of those who find their interests damaged by it.

Depois de, ao longo de décadas, decair nas democracias ocidentais, recentemente a participação nas eleições voltou a subir, sobretudo nas camadas mais baixas da sociedade. A redescoberta da democracia como corretivo político, no entanto, beneficia apenas partidos e movimentos novos, que conturbam os sistemas políticos nacionais. Por isso, partidos tradicionais irmanados há tempos e já integrados aos aparatos estatais, assim como seus assessores de imprensa, identificam e combatem esses novos partidos e movimentos como um perigo mortal para “a democracia”. A palavra de luta aí empregada, e rapidamente inserida no saber pós-factual, é “populismo” – com ela se etiquetam correntes e organizações de direita e de esquerda que se fecham à lógica da falta de alternativas, da política “responsável” sob a égide da globalização neoliberal.

O conceito de populismo tem uma longa história, que remete à era progressista nos Estados Unidos dos anos 20 e ao Progressive Party de Robert M. La Follette (1855–1925; presidential candidate for the Progressive Party in 1924). Mais tarde, populismo passou a ser o nome neutro para a ideologia de movimentos políticos, sobretudo latino-americanos, que se viam como oposição “popular” a uma “elite” autoproclamada que buscava o próprio enriquecimento. [15] Hoje, e já há alguns anos, o conceito é empregado pelos partidos e pela mídia do internacionalismo liberal como designação genérica e polêmica para a oposição que insiste em alternativas nacionais para a internacionalização declarada compulsória. A ideia, associada ao populismo clássico, de um povo que, na luta política, age em conjunto para afastar do poder uma minoria hostil à “gente comum”, economicamente influente e culturalmente arrogante, aplica-se tanto à direita como à esquerda. Isso facilita sua apropriação pelos fiéis globalizadores, porque permite que eles evitem distinções, de modo que Trump e Sanders, Farage e Corbyn, e na Alemanha, Petry e Wagenknecht possam ser agrupados no mesmo título. [16]

O racha entre aqueles que chamam os outros de “populistas” e os que são assim designados é, hoje em dia, o conflito político dominante nas sociedades em crise do capitalismo financeiro. A questão em pauta não é outra senão a da relação entre capitalismo global e organização estatal. Nada polariza tanto as sociedades capitalistas atuais como os embates sobre a necessidade e a legitimidade de políticas nacionais; nessas discussões, interesses e identidades se fundem, dando margem a hostilidades de um vigor que não se via desde o final da Guerra Fria. A consequente guerra religiosa, que a qualquer momento pode explodir em batalhas de aniquilação moral, mexe com camadas profundas e extremamente sensíveis da identidade social e individual, nas quais se tomam decisões sobre respeito e desdém, inclusão e exclusão, reconhecimento e excomunhão. [17]

Característica da política de internacionalização é a uniformidade com que as “elites”, assim designadas depreciativamente pelos “populistas” (mas apreciadoras, elas próprias, de tal designação), reagem aos novos partidos. Na linguagem una dos internacionalistas, o “populismo” é tratado acima de tudo como um problema cognitivo: seus adeptos seriam pessoas que demandam “soluções simples” porque não compreendem as soluções complexas efetivamente necessárias (como as que podem ser produzidas, de maneira incansável e exitosa, pelos quadros de comprovada competência do internacionalismo); e seus representantes são cínicos que prometem “ao povo” as desejadas “soluções simples”, embora saibam não existir alternativa às soluções complexas dos tecnocratas. Assim, pode-se explicar o surgimento dos novos partidos como uma Grande Regressão que acomete a gente comum e se manifesta na falta de educação e de respeito pelos bem-educados. Podem-se também cultivar “discursos” sobre a desejável abolição de referendos ou a transferência de decisões políticas a especialistas e autoridades não políticas.

Do ponto de vista mais prático, esse tipo de discurso tem como consequência a exclusão moral e cultural dos partidos antiglobalização e de seus adeptos. À declaração de imaturidade cognitiva segue-se a condenação moral das demandas por políticas nacionais visando a proteção contra riscos e efeitos colaterais da internacionalização. A palavra de luta usada pelos internacionalistas, que há de evocar a lembrança do racismo e da guerra, é “etnonacionalismo”. Os “etnonacionalistas” não estão à altura dos desafios da globalização, sejam eles morais ou econômicos. Seus “medos” e suas “preocupações”, afirma a linguagem sacramentada, “devem ser levados a sério” – mas “levados a sério” como quem se preocupa em oferecer algum tipo de assistência social. Manifestações de protesto contra a degradação moral e material da sociedade são suspeitas de serem fascistas, sobretudo agora que os antigos defensores das classes plebeias apoiam a globalização, de modo que estas, para articular seu protesto contra a pressão capitalista por modernização, só dispõem do material linguístico bruto, não elaborado, da experiência pré-política da privação. Daí decorrem constantes violações das regras vigentes para o discurso público civilizado, que provocam tanto revolta “no topo” como mobilização “na base”. Ao mesmo tempo, conforme se retiram das mídias públicas e passam a atuar nas “mídias sociais”, os perdedores e os contestadores do internacionalismo escapam à censura moral: com o auxílio da mais globalizada das infraestruturas, constroem círculos de comunicação que os protegem de serem chamados de retrógrados pelas elites. [18]

Cut off

Entre os acontecimentos mais espantosos de 2016, deve-se incluir o modo como o Brexit e a vitória de Trump surpreenderam não apenas a opinião pública liberal, mas também as ciências sociais. Nada documenta melhor a cisão das sociedades globalizadas do neoliberalismo do que a perplexidade de suas elites, tanto a do poder como a do discurso, com o retorno do reprimido, cuja apatia política acreditaram poder interpretar como sábia resignação. Até mesmo as universidades americanas, tidas como “excelentes” e, por isso mesmo, bem-dotadas de fundos, falharam como sistemas de alarme. Claro que a pesquisa de “opinião” realizada por entrevistas telefônicas de vinte minutos já não tem nada a ensinar sobre as atuais sociedades, desestabilizadas e em crise. É de se esperar o adensamento contínuo daqueles que veem os cientistas sociais como espiões de um poder estrangeiro e que, portanto, buscam evitá-los, ou que, na impossibilidade de fazê-lo, contornam sua desaprovação com respostas que acreditam corresponder ao que esses cientistas querem ouvir. Solidificam-se assim, patologicamente, as ilusões das “elites” sobre o estado de suas sociedades. São poucos os cientistas sociais que parecem perceber, hoje, o que se passa mais abaixo. Quem leu, por exemplo, Our Kids: The American Dream in Crisis [Nossos Filhos: o Sonho Americano em Crise], de Robert Putnam, decerto não se espantou com a vitória de Trump. [19]

Será necessário um bom tempo até que a esquerda globalmente aburguesada compreenda o que aconteceu em 2016. Na Grã-Bretanha, os adeptos de Blair remanescentes no Partido Trabalhista acreditaram que convenceriam seus antigos eleitores a permanecer na UE enumerando os benefícios dessa permanência, sem, contudo, questionar a distribuição enviesada dessas vantagens. Não ocorreu a liberais apartados da experiência cotidiana de decadência vivida por grupos e regiões do país que o eleitorado poderia, na verdade, esperar que o governo que elegera primeiro cuidasse dos interesses dos eleitores, e não de acordos internacionais. Além disso, muitos eleitores por certo não entenderam que a solidariedade internacional entre trabalhadores no século XXI compreende expor o próprio emprego à competição global irrefreável.

Interregnum

O que esperar agora? A desmontagem da máquina clintoniana por Trump, o Brexit, o fracasso de François Hollande na França e de Matteo Renzi na Itália, tudo isso inaugura uma nova fase na crise do sistema estatal capitalista transformado pela revolução neoliberal. Para caracterizar essa fase, recorro ao conceito de “interregno” [20] de Antonio Gramsci: um período de duração indeterminada em que a velha ordem já se rompeu, mas a nova ainda não pode surgir. A velha ordem, rompida em 2016 sob o ataque dos populistas bárbaros, era o mundo do capitalismo globalizado. Os governos dessa velha ordem haviam neutralizado suas democracias locais, nacionais, adotando pós-democracias, a fim de não perderem a conexão com a expansão global do capitalismo – delegando a uma futura democracia global a tarefa de realizar intervenções igualitárias e democráticas nos mercados capitalistas. A cara da nova ordem ainda por criar não se sabe qual será, e essa incerteza é inerente ao interregno. Até que essa nova ordem surja, segundo Gramsci, podem ocorrer “fenômenos patológicos dos tipos mais diversos”.

Um interregno, como o entendia Gramsci, designa um período de extrema insegurança, no qual perdem validade os costumeiros nexos causais e a todo momento podem ocorrer coisas inesperadas, perigosas, grotescamente fora dos padrões, até porque, nele, desenvolvimentos disparatados caminham lado a lado, inconciliáveis, resultando frequentemente em configurações instáveis e dando ensejo a cadeias inesperadas de acontecimentos, em vez de estruturas previsíveis. Entre as causas dessa nova imprevisibilidade está a obrigatoriedade imposta pela revolução populista de as classes políticas do capitalismo neoliberal voltarem a dar ouvido a suas populações nacionais. Depois de décadas de dedicação institucional exclusiva à globalização, a democracia nacional volta a ser útil como canal para a articulação da insatisfação vinda de baixo. É o fim da desmontagem planejada das linhas nacionais de defesa contra a pressão por racionalização exercida pelos mercados internacionais. Depois de Trump, é improvável que ocorra na Grã-Bretanha um segundo referendo sobre o Brexit, à maneira do que a União Europeia costuma fazer – ou seja, seguir votando até alcançar o resultado correto. Um novo eleitorado estará tão pouco receptivo a necessidades econômicas naturais e compulsórias, como a engolir que o controle de fronteiras é impossível. Parties that have relied on responsibility will have to relearn what responsiveness means [21] or else they will have to give way to other parties.

A retórica do One Nation da nova primeira-ministra britânica mostra que pelo menos uma parte da classe política dominante esteve atenta. Já no discurso de lançamento de sua candidatura, em 11 de julho de 2016, Theresa May clamou por mudanças que não se ouviam desde os anos 80, nem mesmo no Partido Trabalhista: combate à desigualdade econômica, tributação mais justa dos que ganham mais, melhoria do sistema educacional, participação dos trabalhadores no destino das empresas, proteção aos postos de trabalho no Reino Unido contra seu deslocamento para o exterior – tudo isso acoplado à restrição da imigração. O voto pela saída da União Europeia lembrou sobretudo aos políticos britânicos que são eles, em primeira linha, os responsáveis por seu eleitorado; em seu discurso na assembleia anual da Confederação da Indústria Britânica, em novembro de 2016, Theresa May explicou o resultado do referendo como “o desejo das pessoas por uma economia mais justa”.

O programa neoprotecionista de May coloca a esquerda social-democrata diante de questões desconfortáveis. Trump também poderia se tornar um problema para a esquerda, caso pretendesse cumprir suas promessas no campo da política industrial e da política fiscal. Na verdade, um astuto Bernie Sanders já lhe ofereceu apoio repetidas vezes, tanto no saneamento das velhas regiões industriais, que seguiram se degradando nos oito anos do governo Obama, como para um programa “keynesiano” de reconstrução da infraestrutura nacional. O novo e necessário endividamento para tanto, sobretudo se for cumprida a promessa de redução de impostos, atenderia às receitas neokeynesianas a que políticos e economistas da esquerda moderada dão preferência há muito tempo (“fim da austeridade”); ante a resistência do restante do Tea Party, isso só passaria no Congresso com a ajuda dos democratas. The same would hold for the use of ‘helicopter money’, another measure at one time contemplated by Trump, which would require in addition the cooperation of the Federal Reserve.

O problema é que tampouco uma política pós-globalista e neoprotecionista como a pretendida por Trump ou May poderá assegurar crescimento estável, maiores e melhores taxas de emprego, diminuição das dívidas pública e privada ou a confiança na moeda. O capitalismo financeirizado e atualmente em crise não se deixa regular desde o nível nacional, embaixo, nem de cima, em nível internacional: ele pende por um fio de seda de uma política monetária “não convencional”, que notoriamente busca em vão gerar algo parecido com crescimento valendo-se de juros negativos e de uma expansão monetária aventureira, produzida por meio da compra de títulos de dívida pelos bancos centrais. As “reformas estruturais” neoliberais, necessárias e complementares na visão dos “especialistas”, empacaram naqueles países onde talvez ainda pudessem surtir algum efeito, mas onde enfrentam a resistência da população a uma imposta “globalização” de suas condições de vida. Ao mesmo tempo, a desigualdade cresce, inclusive porque sindicatos e Estados perderam seu poder, ou dele abdicaram, para os mercados globais. Seja pela via do “populismo” ou da tecnocracia, o capitalismo se tornou ingovernável devido à destruição pura e simples de instituições nacionais de redistribuição econômica, e foi isso que acarretou a dependência exagerada de políticas monetárias e dos bancos centrais como instâncias últimas de política econômica.

Conflitos políticos internos se anunciam também onde o simbolismo cultural desempenha papel decisivo. A valorização da população local por parte dos “populistas” implicará uma desvalorização dos imigrantes, no sentido mais amplo do termo? Conseguirão as esquerdas pagar um tributo cultural crível àqueles que despertaram de sua apatia? Muitas palavras duras foram ditas de parte a parte, isso sem contar que uma reconciliação entre a esquerda e os insatisfeitos da globalização poderia alienar os esquerdistas aburguesados, cosmopolitas, mais próximos do centro no espectro político-ideológico. E, no caso de um insucesso econômico, Trump, May e outros poderiam se sentir tentados a lançar campanhas diversionistas, sutis ou nem tanto, contra minorias étnicas e outras. A consequência disso seriam revoltas tanto dos decentes quanto dos indecentes. No plano internacional, é possível que, ao menos de início, as coisas sejam menos dramáticas. Ao contrário de Obama, Blair, Clinton, ou mesmo Sarkozy, Hollande, Cameron e talvez até Angela Merkel – como “última defensora do Ocidente livre” [22] –, os novos protecionistas nacionais não possuem qualquer ambição em termos de direitos humanos, nem em relação à China e à Rússia, nem, até onde se pode ver, no tocante à África e ao Oriente Médio. Eis algo que defensores de intervenções humanitárias, no sentido amplo da expressão, podem vir a lamentar. Seja como for, a intolerância russa em relação a manifestações culturais como o Pussy Riot não deflagrará reflexos missionários nos governos ensimesmados desta nossa nova época. Planos como o de integrar a Ucrânia à União Europeia e à OTAN, privando a Rússia de seu porto no mar Negro, são agora águas passadas, assim como projetos de “mudança de regime” em países como a Síria. A tentativa dos Estados Unidos de engajar a Rússia pós-soviética numa nova Guerra Fria vai ter fim. É possível que a substituam pela China, a China que o presidente Trump precisa convencer a renunciar a fatias de mercado nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, a seguir comprando e acumulando títulos da dívida do Tesouro norte-americano.

O avanço dos “populistas” nos aparatos de poder estatal é outra fonte de incertezas no cenário pouco estruturado do interregno que se instala, com suas instituições disfuncionais e suas cadeias causais caóticas. O início do interregno parece um momento bonapartista: tudo é possível, mas nada traz consequências, menos ainda aquelas desejadas, porque a sociedade na revolução neoliberal voltou a se tornar um “saco de batatas”. Os novos protecionistas não vão encerrar a crise do capitalismo, mas vão trazer a política de volta à cena e lembrá-la constantemente das classes baixas e médias transformadas em perdedoras da globalização. Tampouco a esquerda, ou o que foi feito dela, sabe como seria uma transição do capitalismo ingovernável do presente para um futuro mais ordenado, menos ameaçado e ameaçador – basta observar Hollande, Renzi e Clinton. Se a esquerda, contudo, ainda deseja desempenhar algum papel, vai precisar tirar lições do fracasso da “governança global” e desse sucedâneo que é a política identitária. Entre essas lições, podem-se enumerar: os outsiders da autoproclamada “sociedade do conhecimento” não devem, menos ainda por razões estéticas, ser abandonados a seu próprio destino e, portanto, entregues à direita; numa democracia, não há como impor o cosmopolitismo à custa da “gente comum”, nem mesmo com ameaças neoliberais; só se pode abrir o Estado nacional com a colaboração dos cidadãos, e não contra eles. Ao se aplicar isso tudo à Europa, tem-se que quem deseja semear integração demasiada colhe conflito e, assim, menos integração. O identitarismo cosmopolita dos dirigentes da era neoliberal, saído em parte do universalismo esquerdista, gera como reação um identitarismo nacional, e medidas antinacionais de reeducação vindas de cima produzem, em baixo, um nacionalismo antielitista. Quem, econômica ou moralmente, pressiona uma sociedade para que se dissolva vai colher uma resistência tradicionalista, porque aquele que se vê entregue às incertezas dos mercados internacionais – cujo controle é promessa antiga, mas jamais cumprida – prefere ter na mão o pássaro da democracia nacional do que ver a sociedade democrática global voando.

Notas:

[1] As will become even clearer below, concepts such as this one, which have become fixtures of the repertoire of political rhetoric, are being employed here against the grain. This essay is published with kind permission from Polity Press, and will appear in Heinrick Geiselberger, ed., The Great Regression, Cambridge 2017.

[2] Wolfgang Streeck, Buying Time: The Delayed Crisis of Democratic Capitalism, London and New York 2014.

[3] Wolfgang Streeck, ‘Industrielle Beziehungen in einer internationalisierten Wirtschaft’, in Ulrich Beck, ed., Politik der Globalisierung, Frankfurt am Main 1998, pp. 169–202.

[4] Peter Mair and Richard Katz, ‘Changing Models of Party Organization and Party Democracy: The Emergence of the Cartel Party’, Party Politics, vol. 1, no. 1, 1995.

[5] See note 1, above.

[6] On the following see Streeck, Buying Time.

[7] Oliver Nachtwey, Die Abstiegsgesellschaft. Über das Aufbegehren in der regressiven Moderne, Berlin 2016.

[8] Colin Crouch, Post-Democracy, Cambridge 2004.

[9] For the contribution of the economist Arthur B. Laffer to Reaganite taxation and government debt policies, see David Stockman, The Triumph of Politics: Why the Reagan Revolution Failed, New York 1986.

[10] This term has recently migrated from literary theory and psychology into politics, where it has made a meteoric career. No wonder. According to Wikipedia, a narrative is a ‘meaningful story in which emotions are transported and which provides an orientation and conveys confidence’. This concept is especially popular nowadays with reference to ‘Europe’, where every time an election goes awry, self-appointed ‘Europeans’ call for ‘a better narrative’.

[11] On 15 November 2016, the editor of the Oxford Dictionaries announced that ‘post-truth’ had been nominated Word of the Year. This was followed immediately by the Society for the German Language, which declared ‘post-factual’ [‘postfaktisch’] to be the German Word of the Year. ‘Ever larger sections of the population’ were said to be ready ‘in their feelings of resentment towards “those up there” to ignore the facts and are even prepared to accept obvious lies. It is not the claim to truth, but the expression of a “felt truth” that brings success in the “post-factual age”.’ After decades of constructivist hegemony in the faculties of literature (see ‘narrative’!), a sudden rediscovery of objective truth for the purpose of insulting non-academic fellow-citizens.

[12] The similarity to the literacy tests to which people with dark skins used to be subjected in the Southern states of the US is striking. On 29 November 2016, in an article in the Frankfurter Allgemeine Zeitung, Sandro Gaycken, ‘Director of the Digital Society Institute’—which, according to its website, is ‘a strategic research institute for digital topics of German companies’—wrote: ‘We need a “gnosocracy”. Whoever wants to vote must demonstrate political competence . . . to this end, every poll booth must be provided with a variable multiple-choice test, with simple questions from every sphere: external, internal, the environment, the economy, etc. Whoever passes the test may vote.’
[13] Michael Gove, quoted in Henry Mance, ‘Britain Has Had Enough of Experts, Says Gove’, Financial Times, 3 June 2016.

[14] This is one facet of the way in which ‘1968’ was co-opted by a capitalism eager to adapt itself to an altered society, as described by Luc Boltanski and Eve Chiapello in The New Spirit of Capitalism, London and New York 2006.

[15] Ernesto Laclau, On Populist Reason, London and New York 2005; Chantal Mouffe, Agonistics: Thinking the World Politically, London and New York 2013.

[16] The ‘populists’ retaliate by describing all adherents to the globalist doctrine, regardless of their origins, as an indistinguishably uniform globalization ‘elite’.

[17] The international dimension of this conflict is interesting. The Internationalist International warns against the Nationalist International, which it wants to see combated by all in the name of democracy—and the same is true vice-versa. Occasionally, we hear talk of an ‘authoritarian’ International to be fought by the (neo-)liberal International in both domestic and foreign policy. (In this way nationalism and authoritarianism are equated.) The leaders of the European parties deemed populist, along with Trump and the emerging dictator in Turkey, do often speak positively about Russia, probably to escape entanglement in internationalist alliances for globalization.

[18] In Germany, the Alternative für Deutschland has more Facebook followers than any other party.

[19] Robert Putnam, Our Kids: The American Dream in Crisis, New York 2015.

[20] Wolfgang Streeck, How Will Capitalism End?, London and New York 2016, pp. 35–46.

[21] Peter Mair, ‘Representative versus Responsible Governments’, MPIfG Working Paper, No. 09/8, September 2009.

[22] Alison Smale and Steven Erlanger, ‘As Obama Exits World Stage, Angela Merkel May Be the Liberal West’s Last Defender’, New York Times, 12 November 2016.

[23] ‘Thus the great mass of the French nation is formed by the simple addition of isomorphous magnitudes, much as potatoes in a sack form a sack of potatoes.’ Karl Marx, ‘The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte’, in Surveys from Exile, London 1973, p. 239.

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