20 de maio de 2022

Por um modelo de geração e incorporação de conhecimento

Sem coordenação planejada entre setor privado e público, continuaremos exigindo da educação um milagre que está muito além do seu alcance

João Prates Romero e André Roncaglia



A centralidade do conhecimento para o desenvolvimento econômico constitui um dos raros consensos entre economistas. A acumulação de conhecimento gera um fluxo de inovações que autonomiza os ganhos de produtividade e de bem-estar material. Conhecimento tácito e organizacional são particularmente importantes nesse processo, o que enseja a discussão da melhor forma de impulsionar sua acumulação.

A teoria econômica neoclássica enfatiza a importância da educação, medida por anos de estudo e qualidade da educação, que combinadas dão origem ao que chamam de “capital humano”. Ressalta também a importância das atividades de P&D para a geração de conhecimento tecnológico, medido por patentes. Essas variáveis, ainda que importantes, são medidas imperfeitas do conhecimento produtivo, pois negligenciam o conhecimento tácito, derivado sobretudo da experiência prática, e o organizacional, associado à capacidade das organizações articularem a produção coletiva do conhecimento.

A importância do conhecimento tácito já foi enfatizada por economistas de renome. Chama-se a atenção para a importância do aprendizado tácito relacionado ao processo de investimento (Kenneth Arrow), para a acumulação da habilidade de investir (Albert Hirschman), para a importância do learning by doing no espaço da produção (Nicholas Kaldor) e para as capacidades organizacionais (Alfred Chandler e John Kenneth Galbraith).

Recentemente, os economistas Cesar Hidalgo e Ricardo Hausmann propuseram uma nova forma de medir o nível de conhecimento produtivo acumulado em cada economia. Trata-se do índice de complexidade econômica. Calculado a partir de informações desagregadas de comércio internacional, o índice capta os diversos tipos de conhecimento.

Economias complexas são aquelas com maior nível de conhecimento produtivo acumulado e processado na forma de inovações efetivadas nos mercados. Alguns produtos são difíceis de ser produzidos por necessitar de grandes quantidades de conhecimento e competências. Em função disso, produtos e serviços complexos são ofertados competitivamente por poucos países altamente diversificados, sendo dominados por grandes conglomerados corporativos com elevado poder de mercado. Economias complexas, portanto, são aquelas que conseguem produzir competitivamente um elevado número de produtos de difícil produção, isto é, de baixa ubiquidade.

Hausmann, Hidalgo e seus coautores testaram a capacidade da complexidade de explicar o crescimento do PIB per capita futuro, comparando-a a medidas usuais de capital humano e instituições. Encontraram que a complexidade explica 15% do crescimento do PIB per capita, enquanto o capital humano explica 3,6% e a qualidade institucional apenas 1%. Educação sozinha não faz verão.


Estas evidências reforçam a importância do conhecimento e da mudança estrutural para o desenvolvimento. É crucial ingressar na produção de bens complexos (como máquinas, eletrônicos e fármacos) para elevar a acumulação de conhecimentos codificado e tácito, e forçar a ampliação das capacidades organizacionais das empresas para se manterem inovadoras e competitivas. A resultante destes vetores é a geração de empregos de qualidade, com remuneração adequada ao nível de investimento em educação e qualificação que atividades complexas demandam. Inclusão produtiva é a expressão dos anseios de uma sociedade em desenvolvimento.

Para viabilizar esta estratégia, a formidável capacidade dos mercados em identificar oportunidades precisa ser associada à coordenação do Estado. Desenvolvimento é o coletivo de coordenações bem-sucedidas em plano microeconômico.

Foi exatamente isso que os países asiáticos fizeram e ainda fazem: desenvolveram políticas industriais que incentivaram a produção em setores gradativamente mais complexos, possibilitando a acumulação de conhecimento tácito, sem negligenciar os investimentos em conhecimento codificado (educação e ciência - P&D) e nas capacidades organizacionais, como a Sasac, na China, e os Chaebols, na Coreia do Sul.

A Coreia do Sul, em especial, tem subido continuamente nos rankings de complexidade econômica e de PIB per capita. O país investiu pesadamente em educação, mas o fez enquanto seus planos quinquenais construíam capacidades produtivas em setores em que não tinha vantagens comparativas. A elevada poupança agregada foi resultado do forte crescimento econômico fomentado por políticas de investimento setorial validadas por um sistema financeiro pujante e “paciente”. Esta paciência resultou, por sua vez, do forte direcionamento do Estado para que os recursos atendessem às demandas de construção de um ecossistema de inovação focado em produtos de alta complexidade.

Na contramão das experiências de sucesso, o Brasil tem sofrido uma preocupante perda de complexidade. Nos anos 2000 esse processo se explica pelo boom de commodities e pela valorização do câmbio, que dificultaram a construção de políticas industriais que nos permitissem fugir à sedução da especialização em soja, minério de ferro e proteína animal. Nos últimos anos, a regressão se aprofundou. Políticas de incentivo à produção de alta complexidade foram desmontadas e investimentos em educação e ciência foram drasticamente reduzidos. O desmonte de políticas sociais afetou as condições de alimentação, habitação e transporte, fundamentais para o aprendizado. Como resultado, entre 1995 e 2019 o país caiu da posição 24 para a 52 no ranking de complexidade, num total de 127 países. No ranking de PIB per capita, o Brasil caiu da posição 43 para a 53, a despeito do Brasil ter subido da posição 80 para a 42 no ranking de capital humano.

A queda dos níveis relativos de conhecimento e de renda do Brasil só se reverterá quando forem retomadas as políticas sociais e de fomento à produção de bens complexos, e os investimentos em educação e ciência. Sem coordenação planejada entre setor privado e público, continuaremos exigindo da educação um milagre que está muito além do seu alcance.

Sobre os autores

João Prates Romero é professor do Departamento de Economia da UFMG e do Cedeplar.

André Roncaglia é professor do Departamento de Economia da Eppen-Unifesp.

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