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15 de março de 2026

Irã pode ser o fim da "doutrina Donroe" de Trump, diz professor

  • Para Afshin Matin-Asgari, sobrevivência do regime dos aiatolás à tentativa de derrubar governo é derrota para EUA e Israel
  • Acadêmico iraniano considera, porém, que república islâmica terá de mudar, mesmo resistindo a ataques

Patrícia Campos Mello

Folha de S.Paulo

O conflito no Irã pode ser a primeira grande derrota da "Doutrina Donroe" e inibir novas "aventuras imperialistas" do presidente Donald Trump no mundo, na visão do iraniano Afshin Matin-Asgari, professor de História do Oriente Médio na California State University e autor do recém-lançado "Axis of Empire: a History of Iran-US Relations" (eixo do império: uma história das relações Irã-Estados Unidos).

O iraniano Afshin Matin-Asgari, professor de História do Oriente Médio da Universidade Estadual da Califórnia - J. Emilio Flores/Divulgação

Para ele, a simples sobrevivência do regime muda a dinâmica geopolítica. "A República Islâmica foi capaz de se defender e não ser derrubada pela maior superpotência do mundo, aliada a Israel, a máquina militar mais eficiente da região", diz Asgari, que participou da oposição ao xá Reza Pahlavi e da Revolução Islâmica em 1979, mas tornou-se crítico do regime dos aiatolás.

Trump manifestou a expectativa de que o conflito no Irã tivesse final parecido com a intervenção na Venezuela, onde Delcy Rodríguez, flexível às demandas americanas, tomou o lugar de Nicolás Maduro. Ele também pensou no sírio Ahmed al-Sharaa, que assumiu após a queda de Bashar al-Assad e se aproximou dos EUA. Como o sr. acha que vai evoluir o conflito no Irã?

É muito difícil prever, mas ficou claro que não é como a Venezuela. Não vai ser fácil. Mataram o líder supremo do regime, mas isso não pareceu mudar nada. O lado iraniano estava preparado para continuar mesmo com a liderança dizimada. Eles têm uma estratégia para aumentar o custo da guerra, interromper o fluxo de petróleo, infligir danos aos EUA e seus aliados do golfo Pérsico a ponto de forçar os EUA a ceder e sair. Há uma resistência no Congresso, e a maioria do público americano é contra esta guerra. Isso pode parar Trump. Ele pode estar à procura de uma estratégia de saída, mas não parece ter uma.

Os objetivos de Israel e dos EUA para esta guerra são diferentes. O sr. acredita que, mesmo se Trump declarar missão cumprida, Tel Aviv vá continuar atacando?

Todo mundo sabe que o manual de Israel é bombardear quem quer que seja seu alvo. Agora é o Líbano e o Irã, já foi Gaza e a Síria. Eles não se importam com o dano que infligem e não têm que lidar com as consequências caóticas. Mas, se os EUA se retirarem, não está claro quais objetivos Israel pode alcançar. Se Trump for pressionado a parar, não acho provável que Israel continue sozinho. Se fizerem isso, qual é o objetivo? Eles não podem derrubar o regime apenas com bombardeio aéreo. Poderiam apenas enfraquecê-lo.

O sr. aponta que, antes da eclosão da guerra, estava claro que o regime iraniano tinha que mudar, dada a crise político-econômica e os protestos. O que a intervenção dos EUA e de Israel muda nessa equação?

No Irã, tem havido luta e resistência contra a República Islâmica com organizações da sociedade civil, sindicatos, estudantes. As mulheres iranianas conquistaram algumas vitórias, como na prática reverter os códigos de vestimenta obrigatórios. Então, há uma pressão tremenda de baixo por mudança. Mas os problemas no país se acumularam, a economia está à beira do colapso, há escassez de eletricidade e de água. Para além desta guerra, a República Islâmica enfrenta desafios enormes e não pode continuar para sempre sem mudanças, matando pessoas em protestos.

Isso não vai acontecer, porém, enquanto EUA e Israel estão bombardeando as cidades e pessoas. Sob essas condições, se você sair às ruas e protestar, o governo vai atirar em você, vai dizer que você está ajudando o inimigo. Há um potencial realista para mudança pacífica vinda de baixo, mas a guerra tem que parar.

Existe a possibilidade de o nacionalismo ganhar força por causa da guerra e enfraquecer o movimento reformista dentro do Irã?

Sim, é bem possível. Algo assim aconteceu depois da última guerra de junho [os ataques de Israel e EUA contra instalações nucleares no Irã em 2025]. Temporariamente, havia uma sensação de "nosso país foi invadido, todos ficamos juntos, saímos disso inteiros". Algo assim pode acontecer. Mas uma boa porcentagem da população pode ter chegado a um ponto de total impaciência com o regime. O país parece estar muito dividido, o que é perigoso. Poderia funcionar para fortalecer sentimentos nacionalistas. Também poderia preparar o terreno para conflito social e até guerra civil no futuro.

Há grupos de oposição exilados que teriam legitimidade para eventualmente assumir o poder? Até Trump diz que o filho do xá Reza Pahlavi não conta com apoio interno.

Esta ala monarquista está endossando a campanha de bombardeio de seu país. Não acho que isso vá terminar bem para eles. Eu os vejo cada vez mais isolados. No próprio Irã, não há apoio institucional para a monarquia.

O regime tem sido muito eficaz em não permitir que nenhum tipo de oposição organizada se forme. As pessoas são constantemente jogadas na prisão, executadas, eliminadas, suprimidas. Há as chamadas facções reformistas do próprio regime, e elas também foram expurgadas, até as que eram levemente críticas ao regime. Mas há uma convergência significativa de dissidentes e semioposicionistas que pediriam algum tipo de transição gradual e abertura do sistema. Nem todo mundo pede a derrubada imediata e violenta do regime. Se eles tiverem alguma presença no processo político, isso pode ser um avanço.

Diante da alta dos preços de combustíveis que pressiona a inflação e pode afetar as eleições de meio de mandato, Trump está sob pressão para declarar missão cumprida. Ele tem maneiras de sair da guerra?

Não importa o que aconteça, Trump vai declarar vitória completa e total, tenha alguma correlação com a verdade ou não. Acho que ele poderia dizer: impusemos uma derrota ao Irã, destruímos as bases de mísseis, eles nunca poderão fabricar uma bomba atômica, vencemos e agora estamos saindo.

É importante destacar que o resultado desta guerra tem um impacto significativo no que os EUA querem fazer globalmente. Eles pensaram que tinham sido muito bem-sucedidos na Venezuela, e Trump colocou outros países na mira. No meio desta guerra, ele estava falando sobre intervenção em Cuba. Se a guerra tivesse sido bem-sucedida, ele poderia nem ter esperado o fim para intervir. Teriam invadido Cuba. Mas agora vai pensar duas vezes. O Irã se tornou um grande teste para a doutrina Donroe, um teste para Donald Trump como o valentão do mundo. Um fracasso no Irã pode inibir outras aventuras imperialistas.

O Irã vai tentar mostrar que ele não foi bem-sucedido?

O Irã conseguiu interromper o fluxo de petróleo, desestabilizar os mercados de energia mundiais, e tudo isso é doloroso para os EUA e o mundo. O objetivo da República Islâmica não é derrotar os EUA ou Israel. Eles nunca poderiam fazer isso. Mas podem aumentar o custo desta guerra, até que o outro lado diga "ok, chega, estamos saindo." Isso seria uma vitória para o lado iraniano e uma derrota para Trump e Israel porque não conseguiram derrubar o regime. E eles se isolaram. O mundo inteiro é contra esta guerra. O Irã se tornou o lugar onde a Doutrina Donroe e a fúria imperialista de Donald Trump foram por água abaixo.

Quais são os custos para a população iraniana?

O povo iraniano está pagando o preço da guerra. Meu irmão mora no Irã, e não tive notícias dele até agora. Sei que ele está sendo bombardeado. Mora em uma pequena ilha no golfo Pérsico. A internet foi cortada, ele mora lá com seus dois filhos. Não tive notícias deles. Eles estão vivos? Não sei. Aqueles de nós que vivemos fora do Irã têm parentes lá. Podemos ver que os EUA atingiram uma escola de meninas e mataram crianças. Israel está atacando o Líbano novamente. Um milhão de pessoas foram deslocadas, centenas foram mortas.

O sr. vê uma mudança no padrão das relações EUA-Irã?

Se os EUA se virem obrigados a sair da guerra, vejo um importante ponto de inflexão não apenas para o Irã, mas para o mundo. A República Islâmica foi capaz de se defender e não ser derrubada pela maior superpotência do mundo, aliada a Israel, a máquina militar mais eficiente da região. Uma República Islâmica sobrevivente poderia reivindicar uma tremenda vitória política. Seria uma grande derrota para os EUA.

Raio-x | Afshin Matin-Asgari, 70

É professor de História do Oriente Médio na California State University. Nascido em Teerã, mudou-se para os EUA após o ensino médio. Matin-Asgari retornou ao Irã em 1978, para participar da revolução que derrubou o xá Reza Pahlavi, mas não apoiou o regime islâmico e voltou para os EUA. Tem doutorado em história do Oriente Médio pela Universidade da Califórnia em Los Angeles e é autor de "Axis of Empire: a history of US-Iran relations".

24 de janeiro de 2026

Os protestos no Irã representam um ponto de virada para a República Islâmica

Os governantes do Irã conseguiram conter uma onda de protestos por enquanto. Mas a natureza da agitação e a resposta letal do Estado tornam este um momento sem precedentes desde a revolução de 1979, com a ameaça de um ataque dos EUA ainda pairando sobre o país.

Afshin Matin-Asgari


A recente onda de protestos no Irã constitui um dos acontecimentos mais significativos da história da República Islâmica, com um número de vítimas muito superior ao de levantes anteriores. Embora os protestos tenham sido contidos por ora, o impasse político persiste. (MAHSA / Middle East Images / AFP via Getty Images)

A recente onda de protestos no Irã constitui um dos acontecimentos mais significativos da história da República Islâmica. Embora as autoridades iranianas tenham imposto um bloqueio à internet para conter o fluxo de informações, há evidências claras de que as forças de segurança do Estado mataram milhares de pessoas, um número muito superior ao de vítimas durante as revoltas anteriores em 2009 ou 2022-2023.

Por ora, Donald Trump recuou da possibilidade de ordenar outro ataque dos EUA ao Irã na esperança de precipitar a queda do regime, mas isso ainda pode mudar nas próximas semanas e meses. Para entendermos a importância desse último acontecimento para a política interna do Irã e suas relações com os Estados Unidos, precisamos analisá-lo em um contexto histórico de longo prazo, que remonta à revolução de 1979.

A crise da embaixada

Há quase meio século, em 4 de novembro de 1979, estudantes seguidores do líder revolucionário iraniano, o aiatolá Ruhollah Khomeini, tomaram o controle da embaixada dos EUA em Teerã e fizeram seus funcionários reféns, libertando-os 444 dias depois, quando Ronald Reagan assumiu a presidência dos EUA. Khomeini havia chegado ao poder alguns meses antes como o líder incontestável de uma revolta popular que depôs Mohammad Reza Pahlavi, o xá (rei) do Irã, que havia sido instalado no trono em 1953 por meio de um golpe militar orquestrado pela CIA. A recente onda de protestos no Irã constitui um dos acontecimentos mais significativos da história da República Islâmica.

No início do inverno de 1979, contudo, Washington havia abandonado sua política de apoio incondicional ao xá. O presidente Jimmy Carter instruiu seu embaixador em Teerã a dizer ao xá que era hora de abdicar do trono e deixar o país. Poucas semanas após a partida do xá, a monarquia desmoronou enquanto enviados americanos negociavam secretamente com Khomeini e seus aliados mais próximos em Paris e Teerã para uma transição de poder ordenada.

Nos meses entre a declaração oficial da República Islâmica, em março de 1979, e a subsequente tomada da embaixada, as relações entre Washington e a jovem República Islâmica foram tensas, mas cordiais. Sob a supervisão de Khomeini, o chefe do governo provisório, Mehdi Bazargan, e membros de sua equipe continuaram reuniões clandestinas com diplomatas americanos em Teerã.

Discutiram como reconstruir as relações, reestruturar as compras militares do Irã e recuperar o dinheiro — algo entre 10 e 12 bilhões de dólares — que o xá havia depositado em bancos americanos. Também houve compartilhamento de informações sensíveis sobre a União Soviética e outros vizinhos do Irã, com a CIA inclusive informando seus contatos iranianos sobre movimentações de tropas iraquianas na fronteira do país.

Entretanto, uma heterogênea coalizão de grupos e organizações islâmicas de esquerda e marxistas ganhava força política ao atacar veementemente as relações, abertas e secretas, do governo provisório com os Estados Unidos, considerando-as uma traição ao mandato anti-imperialista da revolução. Esse era o contexto volátil da tomada da embaixada em Teerã, um evento que mudaria o curso e o caráter da Revolução Iraniana, colocando-a em confronto direto com todo o poderio do colosso americano.

A crise dos reféns no Irã condenou a presidência de Jimmy Carter, que imediatamente impôs sanções comerciais abrangentes ao Irã e ordenou uma operação militar de resgate de reféns que fracassou. Embora o xá e os bens congelados do Irã não tenham sido devolvidos, o confronto com os Estados Unidos serviu ao objetivo mais importante de Khomeini: consolidar sua ditadura clerical, flanqueando a esquerda e canalizando a mobilização popular anti-imperialista no que ele chamou de "Segunda Revolução".

Guerra com o Iraque

A longo prazo, porém, o confronto de Khomeini com os EUA, apelidado de "anti-imperialismo dos tolos" pelo acadêmico marxista Fred Halliday, teria consequências desastrosas para o Irã. A iniciativa gerou a profunda inimizade do governo e da opinião pública americana, ao mesmo tempo que deu ao ditador iraquiano Saddam Hussein a oportunidade de invadir uma República Islâmica isolada internacionalmente.

A Guerra Irã-Iraque durou oito anos, de 1980 a 1988, resultando em mais de um milhão de mortes e custando mais de um trilhão de dólares. Quando o Irã recuperou o território perdido e partiu para a ofensiva em 1982, os Estados Unidos aumentaram seu apoio ao Iraque. Ao mesmo tempo, porém, Washington também armava secretamente Teerã, em violação das leis americanas — um projeto clandestino cuja exposição quase destruiu a presidência de Reagan. Os Estados Unidos seguiam uma política cínica de manter o equilíbrio militar entre os dois adversários, prolongando a guerra para enfraquecer tanto o Irã quanto o Iraque.

Os Estados Unidos seguiam uma política cínica de manter o equilíbrio militar entre os dois adversários, prolongando a guerra para desgastar tanto o Irã quanto o Iraque. Como disse um agente da CIA sem rodeios: "Só queríamos que eles se destruíssem mutuamente". Israel também interveio seguindo a mesma estratégia, inicialmente armando o Irã quando o Iraque estava em vantagem e, posteriormente, alinhando-se à política americana de conter militarmente as repetidas ofensivas iranianas.

Em 1988, o envolvimento dos EUA atingiu o limiar da intervenção militar direta em favor do Iraque. A maior frota americana desde a Guerra do Vietnã estava concentrada no Golfo Pérsico, onde as crescentes escaramuças com a marinha iraniana sinalizavam a prontidão de Washington para uma guerra total. Quando Khomeini finalmente aceitou um cessar-fogo em 1988, governava um país devastado e empobrecido, cuja estrutura básica de governo e ideologia oficial permaneceriam praticamente intactas até os dias atuais.

A República Islâmica se moldou através de seu confronto existencial com os Estados Unidos, transformando-se em um Estado fortificado cujos principais pilares eram as instituições de inteligência e militares. Ela esmagava brutalmente a oposição interna, atribuindo-a a conspirações tramadas em Washington e Tel Aviv, cuja guerra implacável, secreta e aberta, contra o Irã ajudava a justificar a narrativa paranoica do regime. A identificação da dissidência com traição pela República Islâmica teve um impacto terrível na sociedade iraniana, com milhares de pessoas executadas ou mortas em confrontos de rua e dezenas de milhares definhando e sendo torturadas na prisão durante a primeira década da revolução.

Estado de guerra e Bem-Estar Social

Contudo, o regime não governou apenas pela repressão. Uma década de revolução e guerra durante os anos 1980 exigiu políticas sociais e econômicas que moldariam a República Islâmica em um “Estado de guerra e bem-estar social”. Houve melhorias tangíveis na saúde, educação, eletrificação e transporte, principalmente em áreas rurais — uma política que mais tarde acentuaria a estratificação de classes e as demandas por inclusão política.

Enquanto isso, ao final da guerra, o repressivo e militarizado “Estado profundo” do regime controlava ativos maiores do que os dos setores público e privado. A economia do Irã passou a ser dominada por conglomerados paraestatais, principalmente a Guarda Revolucionária Islâmica e algumas fundações poderosas que operavam sob a supervisão do Aiatolá Ali Khamenei, que sucedeu Khomeini como líder religioso supremo após a morte deste em 1989 e permanece no cargo até hoje.

Proprietários ou controladores de centenas de empresas, bancos, firmas de investimento e instituições de assistência social, a Guarda Revolucionária e suas fundações adaptaram-se a décadas de onerosas sanções econômicas americanas. Gradualmente, expandiram suas operações, já opacas, para a gestão de uma economia paralela, especializada em transações financeiras clandestinas bilionárias, criação de empresas de fachada no exterior, manipulação cambial, lavagem de dinheiro e venda ilegal de petróleo. A primeira década pós-Khomeini testemunhou uma relativa distensão com os EUA, com o governo Clinton afrouxando um pouco as sanções comerciais, sem jamais as revogar completamente.

Tendo sido ostensivamente destinadas a enfraquecer a República Islâmica, as sanções americanas contribuíram para a criação de um poderoso Estado paralelo iraniano, cujos principais agentes e acionistas, eufemisticamente chamados de "mercadores de sanções", colhem enormes recompensas ao burlar o regime de sanções. Ao mesmo tempo, a oligarquia governante do Irã forjou laços estruturais com o constante fortalecimento militar do país em resposta às ameaças e ataques militares americanos e israelenses.

A primeira década pós-Khomeini testemunhou uma relativa distensão com os Estados Unidos, com o governo Clinton afrouxando um pouco as sanções comerciais, embora nunca as tenha removido completamente. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, a República Islâmica aproximou-se discretamente dos EUA, auxiliando na invasão militar do Afeganistão. Teerã também comemorou a deposição de Saddam Hussein pelo presidente George W. Bush em 2003 e coordenou ações com a ocupação americana do Iraque, onde consolidou uma posição significativa como benfeitora da população majoritariamente xiita do país.

Esses acontecimentos desencadearam uma resposta coordenada de Israel, que conduziu uma campanha bem-sucedida para colocar o Irã no topo da lista de inimigos dos EUA, o "Eixo do Mal", devido à suposta busca da República Islâmica por armas nucleares e ao patrocínio do terrorismo internacional. Embora Israel e seus aliados no governo americano tenham exagerado consideravelmente a ameaça militar iraniana, a República Islâmica estava, na verdade, impulsionando seu programa de energia nuclear rumo à capacidade de construir uma bomba.

O país desenvolveu gradualmente um programa de mísseis balísticos capaz de atingir não apenas Israel, mas também a Europa, e construiu alianças militares com o regime de Bashar al-Assad na Síria e com o Hezbollah no Líbano. Embora Teerã justificasse essas ações como uma dissuasão necessária contra a ameaça de uma invasão militar americana e israelense, elas corroboravam, em certa medida, a imagem que Tel Aviv projetava da República Islâmica como um regime que demonstrava sua força militar, e potencialmente nuclear, fora de suas fronteiras.

De Obama a Trump

A pressão política e econômica dos EUA sobre o Irã aumentou durante a primeira década do novo século, atingindo um novo ápice durante o primeiro mandato presidencial de Barack Obama. Assim que assumiu o cargo em 2009, Obama firmou um acordo secreto com Khamenei para resolver as preocupações sobre o programa nuclear iraniano por meio de negociações. No entanto, antes que as conversas oficiais pudessem começar, o Irã mergulhou em seus maiores protestos em massa desde os primeiros anos da revolução.

Este foi o Movimento Verde do verão de 2009, quando milhões foram às ruas denunciando a fraude nas eleições presidenciais. O regime reprimiu os protestos violentamente, matando dezenas de pessoas e causando centenas de feridos, esmagando assim um movimento popular que reivindicava mudanças democráticas pacíficas dentro dos limites da República Islâmica. Em retrospectiva, a principal lição do Movimento Verde parece ter sido a de que uma reforma significativa dentro da estrutura da República Islâmica era impossível. A partir desse momento, os protestos em massa passaram a ser espontâneos e sem liderança, exigindo veementemente a derrubada do regime.

Durante seu segundo mandato, Obama retomou as negociações com Teerã, alcançando, em julho de 2015, um acordo histórico chamado Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA). De acordo com esse "acordo Obama", o Irã manteria o enriquecimento de combustível nuclear estritamente dentro dos limites para uso pacífico e permitiria a inspeção total de suas instalações nucleares. Em troca, os Estados Unidos, a China, a Rússia, a França, o Reino Unido e a Alemanha concordaram em suspender as sanções comerciais de forma gradual, reversíveis sempre que a República Islâmica fosse considerada em violação de suas obrigações.

Após um aumento significativo na receita petrolífera do Irã, a redução das sanções teve efeitos tangíveis imediatos na economia, que cresceu em média 10% em 2016 e 2017. No entanto, o crescimento econômico temporário não reverteu a tendência de longo prazo de declínio no padrão de vida da população. Entre 2011 e 2019, cerca de dez milhões de pessoas, aproximadamente 15% da população, caíram na condição de pobres.

No final de 2017, a frustração pública acumulada explodiu em violentos protestos. Durante dez dias, entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018, manifestações de protesto irromperam em mais de cem cidades. Os protestos tornaram-se violentos, com multidões entoando slogans contra o regime e atacando bancos, repartições públicas, delegacias de polícia e seminários.

Entre 25 e 50 pessoas teriam sido mortas e centenas ficaram feridas antes que os protestos fossem controlados. As multidões eram, em sua maioria, de origem pobre e da classe média baixa. Em contraste com as reivindicações reformistas do Movimento Verde de 2009, elas exigiam a derrubada da República Islâmica.

Eleito para seu primeiro mandato na sequência desses protestos, Donald Trump, fortemente pressionado por Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, retirou os Estados Unidos do acordo nuclear de Obama em maio de 2018. Embora o Irã estivesse cumprindo integralmente as disposições do acordo, Trump alegou que poderia forçar um "acordo melhor" de Teerã, o que não aconteceu.

Sob as sanções de pressão máxima de Trump, a economia do Irã contraiu mais de 10%, enquanto a pobreza aumentou na mesma proporção. A inflação saiu do controle, com os preços dos alimentos subindo 200% e os custos com saúde, 125%. Todos os dados disponíveis mostram que, durante a década de 2015 a 2025, o padrão de vida dos iranianos de classe média e baixa despencou significativamente.

Mulher, Vida, Liberdade

Décadas de sanções americanas certamente contribuíram para a miséria dos iranianos comuns, mesmo que não sejam a única causa. Além disso, em vez de contribuírem para as perspectivas democráticas do Irã, as sanções americanas e internacionais minam essas perspectivas, levando a República Islâmica a endurecer sua mentalidade de estado de sítio e a se tornar ainda mais repressiva.

Enquanto isso, o descontentamento popular no Irã se intensificou e se tornou mais frequente, com protestos significativos eclodindo a cada dois ou três anos na última década. Em novembro de 2019, cerca de duzentos mil manifestantes, em sua maioria da classe baixa, saíram às ruas em todo o país quando os preços da energia foram aumentados e os subsídios para os pobres foram cortados. Eles atacaram e incendiaram prédios do governo e só foram contidos quando as forças de segurança do Estado mobilizaram metralhadoras, tanques e helicópteros contra eles, causando centenas de mortes. Décadas de sanções americanas certamente contribuíram para a miséria dos iranianos comuns, mesmo que não sejam a única causa.

Protestos em massa eclodiram novamente em setembro de 2022 e duraram até o inverno de 2023, deixando um rastro de mais de quinhentos mortos e 20.000 presos. Este foi o levante “Mulher, Vida, Liberdade” que, além de sua duração e intensidade excepcionais, apresentou novas características, como o papel de liderança das mulheres jovens, a união dos manifestantes das classes média e trabalhadora e a transferência do epicentro radical para as províncias.

Os protestos também foram totalmente seculares e, por vezes, anticlericais. Embora a mobilização fosse abertamente contra o regime, a falta de liderança unificada, organização e reivindicações políticas claras provou ser um grande obstáculo.

Isso nos leva ao contexto imediato dos protestos de janeiro de 2026 — em outras palavras, os principais eventos dos últimos três anos. O governo Biden não conseguiu reviver uma versão do acordo de Obama, sem dúvida por sua complacência com Israel, cujo genocídio do povo palestino Joe Biden apoiou integralmente, militar, financeira e diplomaticamente.

Após culpar o Irã pelo ataque do Hamas em outubro de 2023, Israel bombardeou a embaixada iraniana em Damasco em abril de 2024. Depois de se abster de retaliar diretamente por anos de ciberataques israelenses e assassinatos de seus cientistas e militares, a República Islâmica finalmente respondeu com ataques de mísseis e drones contra alvos militares em território israelense. Os dois países estavam agora em guerra.

Em julho de 2024, Israel elevou a tensão ao assassinar o líder político do Hamas, Ismail Haniyeh, em Teerã. A resposta da República Islâmica veio em outubro com uma saraivada de mísseis balísticos disparados contra alvos israelenses, a maioria dos quais foi interceptada pelo sistema de defesa antimíssil Domo de Ferro de Tel Aviv, pela Marinha dos EUA e pelas defesas aéreas jordanianas. Mais tarde naquele mês, Israel retaliou com três ondas de ataques contra vinte locais no Irã, visando baterias de defesa aérea e instalações de produção de mísseis balísticos. O ataque envolveu mais de cem aeronaves israelenses, algumas das quais penetraram o espaço aéreo iraniano, e todas retornaram às suas bases ilesas.

Ao mesmo tempo, durante 2024, os ataques mortais de Israel contra o Hezbollah e o Hamas no Líbano, bem como o colapso do regime de Assad na Síria, romperam o chamado Eixo da Resistência, uma rede de alianças político-militares que o Irã ajudou a construir em torno de Israel a um custo altíssimo. Tendo perdido seus aliados regionais, a República Islâmica tornou-se muito mais vulnerável a ataques militares diretos de Israel e dos Estados Unidos.

A Guerra dos Doze Dias

O equilíbrio de forças se deslocou ainda mais contra o Irã quando Trump foi reeleito e escreveu a Khamenei propondo negociações, uma oferta que Teerã aceitou. Trump estabeleceu um prazo de sessenta dias para se chegar a um novo acordo nuclear. Em 13 de junho de 2025, um dia após o prazo de Trump, Israel lançou uma enorme série de ataques cibernéticos e bombardeios aéreos contra o Irã. O ataque atingiu instalações militares sensíveis e infraestrutura nuclear, assassinando dezenas de líderes militares e de inteligência de alto escalão, além de cientistas que trabalhavam no programa nuclear. Israel bombardeou alvos civis, incluindo a infraestrutura energética do Irã, hospitais, bairros residenciais e o prédio da emissora estatal.

Israel também bombardeou alvos civis, incluindo a infraestrutura energética do Irã, hospitais, bairros residenciais e o prédio da emissora estatal. Quase cinco mil baixas foram relatadas do lado iraniano, com mais de mil mortes, incluindo centenas de civis. A República Islâmica retaliou enviando centenas de mísseis balísticos e drones contra Israel, a maioria dos quais foi interceptada, embora alguns tenham ultrapassado as defesas israelenses e americanas para atingir alvos militares e causar centenas de baixas e algumas dezenas de mortes, principalmente entre civis.

Em 22 de junho, os Estados Unidos entraram diretamente na guerra, realizando um bombardeio aéreo de longo alcance altamente complexo, lançando doze bombas antibunker de 13.600 kg (30.000 libras) em três instalações nucleares iranianas. Quando a guerra entre EUA e Israel contra o Irã terminou com um cessar-fogo após doze dias, a República Islâmica declarou vitória, embora, na realidade, o regime estivesse gravemente enfraquecido e tenha perdido rapidamente qualquer simpatia que tivesse conquistado de uma população iraniana subjugada pelos bombardeios inimigos.

Imediatamente após a guerra, uma série de declarações públicas e cartas abertas exigiram uma “mudança de paradigma no sistema governante”. Essas declarações partiram de acadêmicos, ativistas de direitos humanos e da sociedade civil, advogados, ex-presos e presos políticos, sindicalistas, organizações de mulheres, grupos étnicos e nacionais reprimidos e dissidentes do regime expurgados.

Elas convergiram em vários pontos-chave: a libertação dos presos políticos; a liberdade de formar partidos e associações; o fim do controle estatal sobre a mídia; a transferência para o governo dos vastos ativos econômicos controlados pelo Líder Supremo e por instituições não eleitas; e o fim da intervenção das instituições militares, principalmente a Guarda Revolucionária, em assuntos econômicos. Todas as declarações também condenaram o ataque EUA-Israel ao Irã e rejeitaram a perspectiva de “mudança de regime” por meio de intervenção estrangeira ou levante violento.

Essa poderia ter sido a oportunidade perfeita para um regime sitiado por crescente insatisfação popular, uma economia à beira do colapso e inimigos poderosos à espreita, ao menos sugerir abertura a alguma forma de mudança estrutural pacífica. Mas nada disso aconteceu. Recusando-se a assumir a responsabilidade pelos graves dilemas do país, Khamenei redobrou a aposta, limitando-se a repetir sua retórica desgastada de desafio.

Em 28 de dezembro, protestos e greves eclodiram no bazar de Teerã após uma queda repentina na taxa de câmbio da moeda iraniana, que se desvalorizava incessantemente. Isso ocorreu em um contexto de inflação de pelo menos 40%; escassez de eletricidade, água e gás; poluição atmosférica tóxica; padrões de vida precários para as classes média e trabalhadora; e greves rotativas contínuas de trabalhadores, professores e aposentados.

Repressão sem precedentes

Como vimos em ciclos anteriores, os protestos se espalharam e se intensificaram rapidamente, envolvendo em pouco tempo centenas de milhares de pessoas em todo o país. Imagens digitais das multidões enfurecidas se espalharam globalmente, levando o governo a cortar a internet e isolar o país do resto do mundo, como já havia feito em protestos anteriores.

Inicialmente, Khamenei respondeu com uma mistura de conciliação e ameaças, declarando que o regime ouviria as “queixas” públicas, mas não toleraria “distúrbios”. Ele também alegou que agentes americanos e israelenses estavam entre os manifestantes, tentando incitá-los à violência. A questão da violência tornou-se então primordial, já que a maioria dos slogans era inequivocamente contra o regime, e muitos pediam sua derrubada. Também houve relatos de ataques violentos contra prédios do governo, mesquitas e agentes de segurança, embora não estivesse claro quem eram os perpetradores. Inicialmente, Khamenei respondeu com uma mistura de conciliação e ameaças, declarando que o regime ouviria as "queixas" do público, mas não toleraria "distúrbios".

Enquanto isso, as forças governamentais atiravam contra as multidões, causando dezenas de baixas a princípio e, em seguida, matando centenas e, eventualmente, milhares. Este último número foi confirmado por Khamenei, que alegou que um número não especificado entre eles eram agentes do governo. O número horrível de milhares de baixas infligidas aos manifestantes é sem precedentes, mesmo para os padrões brutais da República Islâmica.

Outra característica sem precedentes dos protestos recentes é o surgimento de slogans em favor da monarquia como alternativa à República Islâmica. Por décadas, o monarquismo, personificado por Reza Pahlavi, filho do rei deposto do Irã, foi um fenômeno amplamente restrito à diáspora iraniana, particularmente nos Estados Unidos, onde é uma tendência marginal, e não popular. Além disso, Reza Pahlavi alinha-se abertamente com as facções mais à direita dos EUA e de Israel, defendidas por Trump e Benjamin Netanyahu.

Nos últimos anos, sua mensagem ressoou no Irã graças a emissoras de televisão via satélite em língua persa, amplamente consideradas financiadas pelos governos saudita, israelense e americano, ou por doadores individuais desses países. Longe de haver unanimidade nos recentes protestos no Irã, os slogans monarquistas estão ligados à influência estrangeira, especialmente porque Reza Pahlavi defende abertamente a intervenção dos EUA e de Israel no Irã. Ele saudou o ataque sofrido por seu país no verão passado e demonstra clara simpatia pelo apoio militar estrangeiro para derrubar a República Islâmica.

Slogans como "Viva o Xá" ainda parecem ser mais afrontas retóricas ao regime atual do que endossos programáticos da monarquia. Contudo, a recente ascensão do monarquismo, mesmo que (e principalmente porque) seja apoiada pelos governos dos EUA e de Israel, deve ser levada a sério e não descartada como mera ilusão reacionária. Não existe alternativa política comparável fora do Irã, enquanto a República Islâmica, durante décadas, impediu sistematicamente e violentamente o surgimento de qualquer alternativa dentro do país, mesmo entre suas próprias facções reformistas.

Uma tarefa desafiadora

Embora os protestos tenham sido contidos à força por ora, o impasse político imposto pela República Islâmica a uma sociedade inquieta e agora desesperada persiste. Resolver esse impasse exige uma mudança política significativa, algo que o regime se recusa veementemente a sequer considerar. As declarações de apoio de Trump aos manifestantes também não tiveram qualquer impacto perceptível no Irã, exceto por fortalecer a mão repressiva de um regime que culpa os protestos pela intervenção dos EUA e de Israel.

Enquanto isso, Trump intensifica sua retórica contraditória, ocasionalmente insinuando uma mudança de regime por meio de intervenção militar direta dos EUA. Essa seria uma proposta extremamente perigosa, à qual a República Islâmica poderia responder atacando bases e aliados dos EUA no Golfo Pérsico, interrompendo o fluxo global de petróleo e causando estragos na região.

Há indícios de que até mesmo Trump compreende as implicações imprevisíveis de uma guerra em grande escala contra o Irã, já que admitiu que qualquer alternativa viável à República Islâmica deve surgir de dentro do país. Ao mesmo tempo, continua sendo a árdua tarefa do povo iraniano e de seus aliados internacionais progressistas de definir os contornos básicos de um roteiro viável para sair do terrível impasse atual do país.

Colaborador

Afshin Matin-Asgari é professor de história na Universidade Estadual da Califórnia, em Los Angeles. Sua obra mais recente é Eixo do Império: Uma História das Relações Irã-EUA.

28 de agosto de 2024

O estudo do Irã de Fred Halliday é um clássico marxista

Na véspera da revolução iraniana, Fred Halliday publicou um estudo clássico sobre a ditadura do xá apoiada pelos EUA e as forças sociais que trabalharam para miná-la. É um texto essencial para aqueles que querem entender a política do Oriente Médio.

Afshin Matin-Asgari


Um tiroteio em Khorramshahr no sudoeste do Irã, durante a Revolução Iraniana, 1979. (Keystone / Hulton Archive / Getty Images)

Resenha de Fred Halliday, Iran: Dictatorship and Development (Londres: Oneworld Academic, 2024)

Aparecendo no momento triunfante da Revolução Iraniana em 1979, o livro de Fred Halliday Iran: Dictatorship and Development imediatamente se tornou um texto icônico para os leitores do Oriente Médio e a esquerda internacional. O apelo do livro para uma geração de esquerdistas, particularmente iranianos, foi fenomenal.

Em dezembro de 1978, eu era um estudante de 23 anos abandonando a escola em Los Angeles, Califórnia, para voltar para casa e me juntar à revolução que se desenrolava no Irã. De alguma forma, consegui uma cópia do livro de Halliday antes da data oficial de publicação em 1979. Devorei seu conteúdo, coloquei-o na minha mala como uma relíquia sagrada e o levei de volta comigo para Teerã, onde serviu como meu guia de referência para entender por que o governo do xá estava entrando em colapso.

A publicação em 2024 de uma nova edição de Iran: Dictatorship and Development merece a atenção daqueles interessados ​​na história iraniana e do Oriente Médio, bem como na história intelectual do marxismo global. Além do texto original de 1979, a nova edição inclui seis artigos que Halliday escreveu entre 1979 e 2009, apresentando seu comentário sobre o desenrolar da Revolução Iraniana.

A nova edição tem uma soberba introdução do especialista e historiador iraniano Eskandar Sadeghi-Boroujerdi, que contextualiza a publicação original, conectando-a à ampla trajetória intelectual de Halliday e suas reflexões sobre o Irã pós-revolucionário.

Um raio intelectual

Durante meus quatro anos de estudo nos Estados Unidos, li bastante história revolucionária e literatura marxista — em persa e inglês — mas nunca nada parecido com o livro de Halliday, que era rigorosamente acadêmico e marxista até os ossos. Os estudos em inglês sobre o Irã geralmente evitavam eventos atuais ou comentavam cautelosamente sobre o governo do xá, permanecendo com segurança dentro dos paradigmas conservadores da teoria da ocidentalização/modernização e da Guerra Fria. Os poucos estudos críticos excepcionais sobre o Irã foram feitos por jovens acadêmicos afiliados ao movimento estudantil iraniano anti-xá, uma das organizações de esquerda mais eficazes do mundo durante as décadas de 1960 e 1970.

Em 1969, por exemplo, Ervand Abrahamian, cuja obra de 1981 Iran Between Two Revolutions superaria o livro de Halliday na amplitude e profundidade de sua abordagem marxista, publicou “The Crowd in the Persian Revolution” no periódico incipiente Iranian Studies. O periódico de esquerda conhecido como MERIP (Middle East Information Project) publicou alguns artigos curtos e contundentes sobre o Irã contemporâneo durante a década de 1970. Chegando com um timing impecável, bem quando o xá estava sendo derrubado, o livro de Halliday nos atingiu como um raio intelectual. Poucos meses após a publicação, várias traduções persas foram publicadas, alcançando um amplo público no Irã.

Como a introdução de Sadeghi-Boroujerdi aponta, Halliday identificou os sérios desafios enfrentados pelo xá sem prever sua derrubada iminente. Mas poucos viram o estado à beira do colapso até o outono de 1978, quando Halliday terminou de escrever o livro, de acordo com seu prefácio.

Outra crítica injustificada ao livro de Halliday diz respeito ao seu secularismo incisivo e à suposta falta de atenção à oposição religiosa ao xá. Na esteira da substituição da monarquia por uma República Islâmica, a comunidade internacional de estudiosos do Irã descobriu de repente a importância da religião — particularmente a marca do islamismo do aiatolá Ruhollah Khomeini — no Irã pré-revolucionário. Embora notando o movimento de Khomeini, Halliday corretamente não o considerou como a principal força da oposição. Esse foi um papel que ele assumiu apenas em 1978, quando o livro estava prestes a ser publicado.

Em última análise, como observa Sadeghi-Boroujerdi, Iran: Dictatorship and Development foi uma análise astuta da sociedade e da política iraniana pré-revolucionária, em vez de um texto da Revolução Iraniana. Em dez capítulos cuidadosamente organizados, Halliday expôs e diagnosticou a estrutura social, econômica e política básica do Irã, concentrando-se no período entre a restauração da monarquia por meio do golpe orquestrado pela CIA em 1953 e os crescentes desafios que ela enfrentava na segunda metade da década de 1970.

Irã sob o Xá

Halliday começou com um breve esboço da "sociedade iraniana" contemporânea, usando as estatísticas mais recentes sobre geografia, equilíbrio populacional urbano-rural, repartição etnolinguística, padrões de trabalho e emprego e as instituições clericais que sustentam a afiliação muçulmana xiita do Irã. Os dois capítulos seguintes se concentraram no "estado iraniano", cobrindo seu contexto histórico e características específicas.

O estado iraniano moderno, nos diz Halliday, foi o produto de cinco "crises" políticas do século XX convergindo para moldá-lo em uma "ditadura", um dos dois termos-chave no título de seu livro. Ele então ofereceu sua explicação sobre por que o estado ditatorial construído sob os dois xás Pahlavi correspondia em primeiro lugar às condições domésticas do Irã e apenas secundariamente à intervenção estrangeira, notavelmente pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.

Aqui, a análise de Halliday divergiu das narrativas nacionalistas e esquerdistas típicas que culpavam o imperialismo britânico e americano por estabelecer um estado iraniano ditatorial com a monarquia Pahlavi como seu "fantoche". Halliday foi enfático ao dizer que o estado Pahlavi foi "criado de uma maneira comparativamente independente", em vez de ser um estado "pós-colonial" estabelecido pelo imperialismo ocidental e sua clientela local.

Em outra saída metodológica, ele colocou e tentou responder à questão de por que uma ordem política burguesa-democrática não havia surgido no Irã. Aqui também, as causas que ele identificou eram principalmente internas à sociedade iraniana, em vez de impostas por estrangeiros. No final deste capítulo, ele observou as fraquezas e erros dos dois movimentos de oposição do Irã em meados do século XX, o Partido Comunista (Tudeh) e o governo nacionalista do primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh de 1951-53.

Halliday abriu o livro com uma enxurrada de insights analíticos ousados, apresentando uma perspectiva fortemente crítica sobre o governo do xá, enquanto questionava as suposições ideológicas de seus oponentes esquerdistas e nacionalistas. Eu era politizado em círculos estudantis iranianos de esquerda e, ainda assim, questionava suas ortodoxias maoístas/stalinistas e o culto à luta armada de guerrilha. Jovens ativistas como eu estavam buscando perspectivas mais sofisticadas sobre o governo do xá e sua relação com o imperialismo dos EUA.

Halliday forneceu essa perspectiva em prosa nítida e sem jargões que era descaradamente marxista sem depender dos velhos clichês cansados ​​de "superestrutura de base", "sociedade semifeudal", "a hierarquia de contradições" ou ginástica dialética semelhante. Ao mesmo tempo, sua sólida abordagem acadêmica marcou uma ruptura com os paradigmas dominantes da Guerra Fria que serviram para justificar a intervenção anglo-americana no Irã e os tropos acadêmicos orientalistas do Irã como uma nação de poetas, supostamente caracterizada por seus atributos islâmicos atemporais e as raízes e ramos milenares da monarquia persa.

Contradições do desenvolvimento

O segundo capítulo de Halliday sobre o estado iraniano moderno delineou suas "características gerais", argumentando que este era, antes de tudo, um estado que promovia o desenvolvimento do capitalismo e, portanto, em algum sentido, "progressista" em uma perspectiva marxista clássica. Desenvolvimento, o segundo termo-chave no título de seu livro, foi, portanto, fundamental para a análise de Halliday sobre o Irã.

Este era o desenvolvimento capitalista gerando resultados contraditórios, tanto progressivos quanto regressivos. Aqui, novamente, Halliday desafiou os paradigmas esquerdistas prevalentes de que o Irã estaria preso em um padrão de espera “semifeudal” ou seu desenvolvimento capitalista seria “dependente” do imperialismo e, portanto, totalmente reacionário. Em vez disso, ele estava seguindo o modelo analítico de Vladimir Lenin para o estudo do capitalismo na Rússia czarista, que o estudioso-mentor marxista de Halliday, Bill Warren, havia adotado.

A afirmação de que o estado do xá tinha algumas características progressivas era herética nos círculos de esquerda iranianos, em grande parte dependentes do maoísmo, da teoria da dependência e de outros paradigmas do Terceiro Mundo. A esquerda tendia a rejeitar o pacote de reformas da "Revolução Branca" dos anos 1960 do xá como uma farsa total, embora seus principais pilares — reforma agrária, direito de voto para mulheres e educação pública gratuita — tivessem se apropriado das demandas socialistas e comunistas.

No final de seu segundo capítulo sobre o estado iraniano, Halliday delineou suas principais características dessa maneira afiada: "É capitalista, é capitalismo em desenvolvimento, é ditatorial, é uma forma monárquica de ditadura e, em certo sentido, depende dos países capitalistas avançados". Assim, a tese principal de  Iran: Dictatorship and Development, resumida no título do livro, era que o governo do xá era politicamente reacionário e dependente, embora não fosse um fantoche, do imperialismo dos EUA, enquanto o desenvolvimento socioeconômico capitalista que ele havia fomentado era uma mistura de resultados positivos e negativos.

Indo além das abstrações dos primeiros capítulos, o restante do livro analisou a política e a sociedade iranianas sob as seguintes rubricas: as forças armadas e a SAVAK, desenvolvimento agrícola, petróleo e industrialização, a classe trabalhadora, a oposição e relações exteriores. Essas categorias foram, e continuam sendo, cruciais para a compreensão da monarquia Pahlavi. Em cada caso, Halliday usou as melhores fontes disponíveis para expor as contradições e tensões que já ameaçavam a estabilidade do governo.

Refletindo sobre as causas da Revolução Iraniana, estudos subsequentes geralmente retornaram ao mesmo conjunto de fatores estruturais que Halliday havia identificado em 1979. Além disso, sem prever um colapso iminente, o livro de Halliday se concentrou em uma vulnerabilidade crucial que muitos observadores identificariam como uma das principais causas estruturais do colapso do estado, a saber, a crescente discrepância entre uma ditadura política disfuncional e uma sociedade em rápida transformação ou desenvolvimento.

Depois da Revolução

A série de razões listadas acima torna o texto de Halliday de 1979 indispensável para historiadores do Irã do século XX e da Revolução Iraniana até o presente. Enquanto recentemente terminava um manuscrito sobre a história das relações EUA-Irã, voltei para Iran: Dictatorship and Development, achando-o frequentemente tão novo e perspicaz quanto me lembrava de tê-lo lido pela primeira vez. Particularmente notável foi a análise de Halliday sobre o relacionamento complexo da monarquia com os Estados Unidos, onde ele destacou a crescente agência do xá, e até mesmo uma certa independência, enquanto suas decisões sempre permaneceram dentro dos parâmetros estratégicos dos interesses imperiais dos EUA.

Isso nos leva aos escritos de Halliday sobre a Revolução Iraniana e a República Islâmica, uma importante adição ao texto de 1979 na nova edição de 2024. O primeiro desses escritos foi um artigo que Halliday publicou no New Statesman da Grã-Bretanha após uma visita de duas semanas ao Irã em agosto de 1979. Intitulado “Irã: A Revolução se Volta para a Repressão”, este ensaio deu o tom para a postura crítica de Halliday sobre o governo pós-revolucionário emergente sob o Aiatolá Khomeini. Ele se baseou nas observações e entrevistas em primeira mão de Halliday com membros do Governo Provisório, bem como líderes da oposição secular e esquerdista às crescentes tendências repressivas do novo estado.

Halliday participou de um comício organizado pela Frente Nacional Democrática de esquerda em defesa da liberdade de imprensa. O comício massivo foi atacado violentamente por bandidos pró-Khomeini, marcando um ponto de virada após o qual a repressão às facções de esquerda e seculares da coalizão revolucionária aumentou rapidamente. Eu também participei desse comício e tive minha cabeça rachada por pedras atiradas por apoiadores de Khomeini.

Na época, eu pertencia a uma facção de esquerda que viu uma forma de fascismo fermentando dentro da coalizão revolucionária empenhada em estabelecer uma nova ditadura sob Khomeini. Eu havia escrito artigos alertando sobre o perigo fascista e fiquei feliz em ver Halliday ecoando essa visão em seu artigo de agosto de 1979 no New Statesman intitulado "Islã com uma face fascista".

O alinhamento de Halliday com esquerdistas iranianos que estavam resistindo à virada ditatorial da República Islâmica continuou com sua posição crítica sobre a tomada de reféns na embaixada dos EUA em Teerã em novembro de 1979, um evento que mudou as relações relativamente cordiais de Washington com a República Islâmica para uma inimizade profunda que continua até o presente. Com duração de 444 dias, a crise dos reféns ajudou a derrubar a presidência de Jimmy Carter. Ela dividiu amargamente a esquerda iraniana entre aqueles que a saudavam como uma cruzada anti-imperialista e aqueles que a viam, como eu, como uma manobra para desarmar politicamente e então acabar com a crescente oposição ao governo.

Halliday estava do nosso lado, condenando o impasse da República Islâmica com os Estados Unidos em um artigo da revista Nation intitulado "A Revolução Roubada do Irã: Anti-Imperialismo dos Tolos". Essa análise da crise dos reféns como uma jogada política cínica e tola com custos enormes, incluindo a invasão do Iraque a um Irã isolado internacionalmente, foi posteriormente aceita por praticamente todos. Isso incluiu vários participantes da tomada de reféns que posteriormente se tornaram críticos da República Islâmica.

Irã na História Global

Os comentários subsequentes de Halliday sobre a República Islâmica podem ser encontrados em mais quatro artigos, além de um intitulado "A Revolução do Irã na História Global", que estão incluídos na nova edição. Aqui ele reflete sobre o primeiro, terceiro, quarto e décimo aniversários da revolução. Juntos, esse tesouro acrescenta uma nova nuance à sua visão altamente crítica do estado pós-revolucionário.

A essência dessas críticas apareceu no ensaio que marcou o primeiro ano da revolução, que assumiu uma posição inequívoca em relação a Khomeini e seus aliados: "Por sua própria natureza, o movimento islâmico é extremamente hierárquico e, portanto, antidemocrático. ... Sua posição sobre mulheres e questões de moralidade pessoal geralmente é extremamente repressiva e, por um padrão socialista, reacionária."

Durante as três décadas seguintes, até sua morte prematura em 2010, Halliday continuaria a escrever sobre uma ampla gama de tópicos além do Irã, da intervenção soviética no Afeganistão à Revolução Etíope e à política latino-americana, tornando-se um acadêmico internacionalmente reconhecido e respeitado do Oriente Médio contemporâneo e da política islâmica. Dada a extraordinária gama de seus interesses e escritos, ele inevitavelmente teve sua cota de erros analíticos e erros de julgamento político. Mas ele sempre acertou o tom sobre o Irã — de uma perspectiva de esquerda, é claro.

Encontrei Fred algumas vezes depois da revolução e o achei um indivíduo caloroso e um conversador encantador que falava persa para conversar com amigos iranianos. Nosso último encontro presencial foi durante uma conferência realizada em 2000 na Escola de Estudos Orientais e Africanos em Londres, onde tive o orgulho de apresentar um artigo ao lado do meu colega e camarada Fred.

Os procedimentos desta conferência foram publicados em um volume intitulado Reformers and Revolutionaries in Modern Iran, editado por Stephanie Cronin. Ele abriu com um capítulo de Halliday, "The Iranian Left in International Perspective", seguido pelo meu como uma pesquisa do balanço patrimonial da esquerda iraniana no século XX. Aqui, o internacionalismo que era uma marca registrada da carreira intelectual e política de Halliday estava em plena exibição e, mais uma vez, fiquei muito feliz em aparecer impresso ao lado dele.

Embora eu sinta falta de Fred pessoalmente, recomendo a nova edição Iran: Dictatorship and Development não por motivos sentimentais, mas por seu próprio mérito extraordinário como um texto único da história revolucionária e um testemunho icônico da erudição marxista e do internacionalismo socialista. A geração mais jovem de progressistas e socialistas não deve perdê-la.

Colaborador

Afshin Matin-Asgari é professor de história na Universidade Estadual da Califórnia, em Los Angeles, e autor de Both Eastern and Western: An Intellectual History of Iranian Modernity.

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