15 de outubro de 2025

Lula fere a Palestina de morte

Ao dizer que Brasil tem problema com Netanyahu, e não com Israel, presidente comete três erros e um pecado

Contribui com a confusão, prejudicial aos judeus e instrumental para os sionistas, de que Israel e judaísmo são uma única e mesma coisa

Salem Nasser
Professor de direito internacional da FGV-SP; publica a Newsletter "Cegueira Seletiva" no Substack.com


É verdade que o presidente Lula foi um dos poucos governantes que chamaram o que acontecia na Faixa de Gaza pelo seu nome: genocídio. Penso que um país que se orienta pelo princípio da primazia dos direitos humanos deveria ter cortado relações com o Estado genocida. Ainda que o governo Lula não o tenha feito, o presidente e o Brasil continuaram a ser vistos como aliados da questão palestina e como vozes que se elevavam contra o sofrimento dos palestinos.

Mas, desde Roma, onde se encontrava com o papa, Lula desferiu contra os palestinos, de Gaza, da Cisjordânia e do resto do mundo, um golpe injusto.

Lula discursa no Fórum Mundial da Alimentação, em Roma - Andreas Solaro/AFP

Em Gaza, no mesmo momento, depois de dois anos de genocídio ininterrompido, os palestinos festejavam o cessar-fogo; caminhavam às centenas de milhares em direção às cidades e casas que já não existem; recepcionavam seus pais, filhos e irmãos liberados das prisões israelenses; e preparavam-se para procurar os corpos dos milhares de parentes soterrados sob os escombros.

Justamente nessa hora histórica, o ápice de uma resistência épica, os palestinos ouviram de Lula que ele não tem qualquer problema com Israel; que o problema dele era Binyamin Netanyahu; que antes tínhamos relações normais!

O contexto nos permite interpretar assim a fala: Lula tem um problema com o genocídio em Gaza, mas não responsabiliza Israel, o Estado, pela matança; joga toda a culpa sobre o primeiro-ministro e seu governo.

Ao fazer isso, comete três erros e um pecado.

Primeiro, ao sugerir que a política de Netanyahu não tem o apoio da população de Israel e que essa mesma política não seria a do Estado como um todo, Lula comete um erro factual. Ignora as evidências e tudo o que se sabe sobre a opinião pública israelense.

Segundo, ao dizer que não tinha qualquer problema com Israel e logo complementar com a afirmação de que muitos judeus eram contra o que o Netanyahu estava fazendo, Lula contribui com a confusão, prejudicial aos judeus e instrumental para os sionistas, de que Israel e judaísmo são uma única e mesma coisa.

Terceiro, ao confinar seu problema a Netanyahu e ao genocídio presidido por ele, Lula parece esquecer muito da história. Na verdade, acaba contribuindo para a naturalização da ideia de que a história começou em 7 de outubro de 2023; de que, antes desta data, mesmo sendo governado por Netanyahu durante 16 dos últimos 31 anos, Israel era um país normal, com quem se podia ter relações normais. E da ideia de que tudo ia bem na Palestina.

Lula está dizendo, então, que não tem problema com o Israel que ocupa os territórios internacionalmente reconhecidos como sendo palestinos (o território daquele Estado da Palestina que o próprio Lula reconheceu em 2010). Que não tem problema com o Israel do apartheid que, depois de décadas de atraso, as organizações internacionais de direitos humanos hoje reconhecem em uníssono. Que não tem problema com o Israel da limpeza étnica da Palestina, um processo iniciado em 1948, que segue em curso até hoje e foi acelerado nos últimos dois anos. Que não tem problema com o Israel dos assentamentos ilegais e da substituição dos habitantes históricos, palestinos, por colonos judeus importados do mundo inteiro. Em suma, não tem problema com o projeto colonial extemporâneo e absurdo que é Israel.

O pecado está em não ver, em não reconhecer, em fazer esquecer por que razão os palestinos suportaram, como teria feito o Cristo, esse grande palestino, a paixão que lhes foi imposta. Eles pagaram com o sangue e a carne de dezenas de milhares de seus filhos, suas crianças, suas mulheres, seus homens; passaram fome e sede; tiveram suas casas e vidas destruídas, seus hospitais e suas escolas obliteradas.

Ofereceram tudo isso para que o mundo, finalmente, começasse a enxergar, não só o genocídio atual, mas também a injustiça histórica: a ocupação, o apartheid, a limpeza étnica, a colonização, o caráter racista do projeto israelense.

Não, presidente Lula, não. A sua história pede, exige, que você tenha um problema com Israel.

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