31 de agosto de 2026

A nova questão nacional

À medida que a globalização estagna, que possibilidades a política econômica nacional poderia abrir para a esquerda? Benjamin Kunkel avalia as teses de seus intérpretes marxistas, polanyianos e psicanalíticos, questionando se a repolitização da economia poderia estar atrelada a um internacionalismo renovado, adequado à crise ecológica.

Benjamin Kunkel


NLR 160 • July/Aug 2026

“Nous dîmes adieu à toute une époque” [Dissemos adeus a toda uma era]. Apollinaire situou essa sensação — a de que nos despedíamos de uma era inteira — no dia 31 de agosto de 1914, quando, como relata em seu grande poema “La Petite Auto”, ele e um amigo deixaram a estância balneária de Deauville, na Normandia, rumo ao sul, em direção à capital, fugindo do avanço alemão. Após viajarem de carro durante a noite,

Chegamos a Paris
Justo quando afixavam o edital de convocação militar
Percebemos, meu amigo e eu
Que o pequeno automóvel nos havia conduzido a uma nova era
E, embora fôssemos ambos homens já maduros
Tínhamos acabado de nascer.

Apollinaire alistou-se em 1914, sofreu um ferimento na cabeça no front dois anos depois e faleceu, aos 38 anos, em 1918, vítima da epidemia global de gripe. Ele tinha razão ao declarar o início de uma nova era. No rescaldo da Grande Guerra, como observou Hobsbawm muito mais tarde: “Não restou nenhum antigo governo de pé entre as fronteiras da França e o Mar do Japão”. O mesmo historiador analisou a questão com maior profundidade em seu estudo sobre o nacionalismo, observando que o período pós-guerra foi o momento em que o mapa da Europa foi — pela primeira, e, como se viu, única, vez — redesenhado segundo o princípio da nacionalidade, e em que o vocabulário do nacionalismo europeu passou a ser adotado por novos movimentos de libertação colonial. Embora os últimos grandes espasmos da descolonização só tenham ocorrido na década de 1970, os impérios formais — frequentemente multinacionais — acabaram por desaparecer do cenário da história mundial, dando lugar a uma quase uniformidade de Estados-nação.

O poema de Apollinaire atesta o fato de que transformações históricas profundas podem, por vezes, ser vivenciadas como anúncios pontuais, que ocorrem de um dia para o outro, ainda que suas consequências plenas levem gerações para se manifestar plenamente. No ano passado, o economista político sérvio-americano Branko Milanovic previu a data da segunda posse de Trump em termos semelhantes: “Quase nunca as testemunhas de eventos históricos têm consciência de que estão observando ou participando de um acontecimento que muda o curso da história... Mas, no dia 20 de janeiro de 2025, presenciaremos um evento desse tipo”. A posse marcou “um fim simbólico para o neoliberalismo global”: “o globalismo transformou-se, agora, em nacionalismo”. Essa tese de um término repentino do neoliberalismo global por obra de Trump pode, evidentemente, ser questionada; o próprio Milanovic reconheceu que as principais características econômicas do neoliberalismo (“baixas alíquotas de impostos, desregulamentação e a veneração do lucro”) poderiam muito bem sobreviver ao fim da globalização. Além disso, neste segundo ano da administração, muitas das tarifas arbitrárias impostas por Trump foram consideradas ilegais pela Suprema Corte; e, mesmo que iniciativas subsequentes — fundamentadas em teorias jurídicas distintas — venham a prevalecer diante de seus próprios desafios legais, a incursão ad hoc de Trump no protecionismo dificilmente garante que futuras administrações dos EUA manipularão as barreiras comerciais da mesma maneira. Contudo, a preocupação de Milanovic não residia tanto na globalização neoliberal enquanto um regime econômico persistente, mas sim no seu destino enquanto visão de mundo: o nacionalismo vitorioso de Trump “representa uma ruptura com a ideologia que predominou desde a década de 1980 — e, certamente, desde o início da década de 1990 — até os dias de hoje”. Se Keynes estava correto ao afirmar que os políticos são, via de regra, escravos de economistas já superados, essa mudança de perspectiva tornar-se-á, sem dúvida, significativa também em termos práticos.

De fato, não faltaram, nos últimos anos, declarações de que a era da globalização neoliberal chegou ao fim e que uma nova época de nacionalismo econômico teve início — isso mesmo antes de os Estados Unidos — o país mais fortemente associado à promoção da globalização neoliberal a partir da década de 1990 — elegerem, pela segunda vez, um presidente xenófobo que demonstra desprezo aberto por parceiros comerciais e defende um protecionismo de soma zero. Em setembro de 2024, o Financial Times publicou uma série de três artigos sob o título “O Novo Nacionalismo Econômico”. Em um deles, relata-se a tentativa — malsucedida — de um conglomerado de mineração chinês de investir em uma empresa australiana de terras raras por meio de uma “entidade singapuriana de perfil discreto”, criada especificamente para esse fim (Camberra acabou bloqueando o negócio sob a justificativa de interesse nacional). O episódio sinalizava uma “tendência geopolítica muito maior e mais complexa”:

Uma rivalidade crescente entre a China e o Ocidente — liderado pelos Estados Unidos — está impulsionando a fragmentação da ordem econômica mundial. Pequim, Washington, Bruxelas e outras capitais impuseram uma série de tarifas, controles de exportação e outras medidas para proteger seus mercados internos e dificultar o progresso tecnológico de seus concorrentes.

Em novembro de 2024, poucos dias após a segunda vitória de Trump, a London Review of Books publicou uma análise de Adam Tooze sobre o legado da “Bidenomics”. O texto argumenta que os esforços da administração que deixava o poder — visando proteger as indústrias nacionais de energia verde e semicondutores contra a concorrência estrangeira (leia-se: chinesa) — concretizaram, na prática, a retórica protecionista, até então um tanto ineficaz, do primeiro mandato de Trump. Segundo Tooze, o “produtivismo nacional” tornou-se “o denominador comum das políticas tanto do Partido Republicano quanto do Partido Democrata desde 2016”; de fato, “a minimização do papel da China na cadeia de suprimentos [de alta tecnologia]... começou ainda com Obama”. Especialmente no setor tecnológico (por exemplo, em inteligência artificial e seus microchips), Pequim interpretou — de forma compreensível — o objetivo dos Estados Unidos como uma tentativa de garantir, “por todos os meios necessários — incluindo intervenções contundentes em decisões comerciais e de investimento de empresas privadas —, que a China seja contida e que os EUA preservem sua vantagem decisiva”. Tooze considerou “difícil exagerar a natureza decisiva e a importância dessa posição”, na medida em que ela representa “um afastamento de uma compreensão puramente econômica da globalização”.[5]

A literatura acadêmica contemporânea sobre nacionalismo econômico é vasta; alguns trabalhos recentes foram discutidos nestas páginas por Nicholas Mulder, há algumas edições. O objetivo desta contribuição é mais imediatamente político. É difícil prever, por ora, até que ponto uma nova era de nacionalismo econômico conseguirá, de fato, banir a globalização do cenário internacional; contudo, vale indagar se tal configuração poderia se mostrar mais receptiva, do que a sua predecessora, às forças da esquerda radical. Como sugere a utilização da figura de Trump para simbolizá-lo, essa guinada nacionalista na ideologia e na economia política tem estado, até o momento, associada à direita populista, que tem sido a sua principal defensora. Por outro lado, a centro-esquerda tecnocrática também não deixou passar o momento — como demonstram as iniciativas de um "dirigismo verde" (tais como créditos fiscais para produtores de energia renovável e para compradores de bombas de calor ou veículos elétricos) presentes na Lei de Redução da Inflação (Inflation Reduction Act) de 2022, nos Estados Unidos, sob a gestão Biden; ou, ainda, a estratégia de Bruxelas de priorizar o fornecimento de gás natural vindo dos EUA — uma forma de "reorientação para o Ocidente" (west-shoring) que implica custos mais elevados — em resposta ao ataque da Rússia à Ucrânia.

Em tese, partidos e movimentos de esquerda deveriam estar bem posicionados para captar e orientar qualquer transição que leve do abandono da soberania estatal — típico da era da globalização — à reafirmação das prerrogativas do Estado. Afinal, durante décadas, esses grupos criticaram uma ordem econômica liberalizada e desregulamentada, numa época em que tal postura era muito mais isolada do que é hoje. Por ora, contudo, as diversas vertentes de esquerda que surgiram na década de 2010 pouco fizeram para tirar proveito das crises da globalização — um problema que demanda explicação e, mais ainda, uma solução. O pano de fundo dessas recentes agitações nacionalistas é, na verdade, uma crise global — simultaneamente econômica e ecológica — que a humanidade não pode se dar ao luxo de ver enfrentada por meio de nacionalismos antagônicos e letais, típicos do capitalismo que já conhecemos; isso dá uma ideia da magnitude do que está em jogo. O texto a seguir explorará os problemas e as possibilidades que uma ordem pós-globalização pode apresentar para as esquerdas contemporâneas, examinando algumas abordagens teórico-críticas e prognósticos sobre o tema. Antes, porém, pode ser útil abordar a pré-história do nacionalismo econômico atual, para entender como movimentos do passado ajudam a situar a onda presente; e, ainda, verificar que lições podem ser extraídas da própria história da globalização a respeito do surgimento de uma nova configuração econômica mundial.

O antigo regime

Independentemente da forma que os nacionalismos econômicos do século XXI venham a assumir, os contornos gerais do antigo regime da globalização neoliberal são bastante claros, à medida que a costa parece desaparecer de vista. Tratava-se de um modelo de vida econômica com tendência planetária, no qual as economias nacionais tornaram-se cada vez mais integradas no plano financeiro, por meio de fluxos de capital internacional pouco ou nada regulados pelo Estado; cada vez mais entrelaçadas no que tange a mercadorias físicas e digitais, por meio de uma cadeia de suprimentos global abastecida por empresas competitivas em nível internacional, em grande parte independentes de apoio estatal; e, ainda, cada vez mais mescladas no que diz respeito às populações nacionais, uma vez que o transporte de baixo custo — aliado a regimes de imigração formal ou informalmente flexibilizados — estimulou uma forma de arbitragem internacional de mão de obra, qualificada ou não, que conhecemos pelo nome de migração.

Considerava-se que o principal benefício direto desse arranjo universal era a prosperidade continuamente crescente em todo o globo (ainda que, para a maior parte das populações dos países ricos, a renda tenha estagnado em termos absolutos e diminuído em termos relativos: um problema — amplamente analisado nos últimos anos, especialmente por Milanovic — que, com o tempo, tornou-se impossível para os políticos ignorar ou solucionar). Por sua vez, o principal benefício colateral da globalização neoliberal seria a prevenção de guerras entre Estados que, a partir de então, estariam tão integrados economicamente uns aos outros que não chegariam a recorrer a hostilidades. Politicamente, um arranjo tão benéfico tenderia a ser constantemente ratificado pelas populações em regimes democráticos, para as quais suas vantagens deveriam ser evidentes. E, por fim — mas não menos importante —, a globalização deveria, do ponto de vista cultural, promover o cosmopolitismo, à medida que a circulação mundial — em órbitas cada vez mais amplas — de entretenimento comercial e de indivíduos empreendedores (sem falar na língua inglesa — “essa língua de piratas”, como a chamou o filósofo pragmatista americano Peirce) fosse desgastando preconceitos de toda espécie.

Esse era, de qualquer modo, o programa declarado; e, ao longo de várias décadas — tanto antes quanto depois de sua ampla divulgação pública no início da década de 1990 —, os ditames desreguladores da globalização confirmaram-se cada vez mais na prática, a despeito de enormes e descaradas exceções, como a agricultura europeia ou o setor aeroespacial norte-americano. O comércio mundial — ou seja, a participação total das importações e exportações no PIB global — passou de cerca de um quarto da produção internacional total em 1970 para 60% em 2008; após uma breve queda durante a crise financeira global, e outra em 2020 devido à pandemia, atingiu 68% em 2025. Por sua vez, os fluxos anuais de capital transfronteiriço, que alcançavam US$ 11,4 trilhões em 2007, contraíram-se desde então para cerca de US$ 4 trilhões. Em outros aspectos, a globalização também parece ter estagnado ou ter sido obscurecida por fluxos em sentido contrário. Enquanto suposta era de paz internacional, ela esteve comprometida desde o início; hoje, porém, encontra-se marcada por grandes conflitos — entre Rússia e Ucrânia, e entre o eixo EUA/Israel e o Irã —, mandando às favas a ideia de uma "coprosperidade". Como projeto de promoção da democracia liberal, deparou-se com a estabilidade e a aparente legitimidade de um Estado partidário chinês que jamais realizou eleições; com pleitos fraudulentos e repressão popular na Rússia — país que, nos anos 90, parecia caminhar para emular o Ocidente; com o apartheid descaradamente imposto por um Israel supostamente democrático-liberal, o protegido mimado do próprio Ocidente; e com projetos formidáveis ​​de "democracia iliberal" — que combinam autoridade personalista com os ritos do sufrágio —, impulsionados por líderes nacionais em países democráticos, tanto grandes (EUA, Índia) quanto pequenos (Hungria, e novamente Israel). Por fim, enquanto empreendimento cosmopolita, a globalização viu seus valores — como a "igualdade racial e de gênero" e o "multiculturalismo" (na terminologia de Milanovic) — não propriamente morrerem, como ele sugere, mas recuarem para uma posição defensiva diante de um sexismo e um preconceito racial revigorados, que agora ocupam tribunas nos mais altos escalões do poder. Em conjunto, essas reversões marcam a crise profunda de um processo — o da unificação progressiva e da prometida melhoria da vida humana sob a égide do livre mercado (por nós endossado) — que, não faz muito tempo, parecia ter evoluído, ao longo de poucas décadas, de um projeto utópico excêntrico para uma realidade imparável.

O apogeu da globalização — designação dada, sem rodeios, a esse empreendimento supostamente irreversível por jornalistas e políticos que, via de regra, evitavam usar os termos "neoliberal" ou "capitalista" diante do público — durou apenas cerca de doze anos no âmbito da retórica do establishment, digamos, de 1996 a 2008. Por outro lado, se considerarmos a globalização como um regime econômico emergente e, posteriormente, dominante, sua fase inicial pode ser situada — como faz David Harvey em sua obra Breve História do Neoliberalismo — no período entre 1978 e 1980: momento em que Deng "deu os primeiros passos decisivos rumo à liberalização de uma economia sob regime comunista, em um país que abrigava um quinto da população mundial"; em que Volcker assumiu o comando do Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos; e em que Thatcher e Reagan foram eleitos, pela primeira vez, para governar seus respectivos países.footnote10 Naturalmente, como exploraram detalhadamente Quinn Slobodian, Dieter Plehwe e Philip Mirowski, o próprio neoliberalismo — enquanto filosofia política em ascensão — já trazia em si o ideal da globalização, ao rejeitar a pretensão dos Estados-nação de proteger trabalhadores e empresas da concorrência internacional. Esse processo teve uma trajetória de ascensão ainda mais longa, remontando ao período entre as duas guerras mundiais.[11]

No entanto, traçar a ascensão e a crise da globalização neoliberal não equivale a explicar todo o processo; basta notar que o novo regime exigiu, primeiramente, uma crise preexistente para a qual ele apresentou uma solução e, em segundo lugar, os agentes políticos necessários para implementá-la. A década de 1970 forneceu, naturalmente, a crise que serviu de catalisador: um modelo generalizado de transferências de bem-estar social para famílias pobres e a gestão corporativista das relações industriais — somados a choques do petróleo oriundos do exterior e a greves espontâneas de trabalhadores — provocaram, nos países do primeiro mundo, uma inflação tão elevada que ameaçou tanto a lucratividade das empresas quanto o poder de compra dos consumidores. Robert Brenner, em The Economics of Global Turbulence (A Economia da Turbulência Global), identificou posteriormente a origem da crise da década de 1970 em outro ponto: na redução da lucratividade de setores industriais que sofriam com o excesso de capacidade produtiva em nível internacional, o que fez com que as taxas globais de crescimento — do Japão aos Estados Unidos e à Alemanha Ocidental — caíssem abaixo dos níveis registrados nas duas décadas anteriores.[12] Seja como for, a aceleração da inflação aliada à desaceleração do crescimento criou, tanto entre proprietários quanto entre trabalhadores, uma base de apoio suficiente para levar ao poder líderes dispostos a abandonar o "liberalismo embutido" — ou o pacto keynesiano característico das primeiras décadas do pós-guerra — em favor de experimentos neoliberais ou, na terminologia preferida de Reagan e Thatcher, da "livre iniciativa". Na década de 1980, o FMI e o Banco Mundial impuseram as prescrições do "Consenso de Washington" — livre fluxo de capitais, desregulamentação, privatizações e redução de barreiras comerciais — em grande parte da América Latina, da África e do Sudeste Asiático, como condição para a renegociação das dívidas acumuladas durante o período desenvolvimentista da década de 1960. Nos anos 1990, especialistas norte-americanos prescreveram uma "terapia de choque" para os países do antigo bloco soviético; o Partido do Congresso promoveu uma ampla desregulamentação na Índia; e os Estados europeus viram-se pressionados pelos critérios de convergência necessários para a adoção da nova moeda. Em 2001, a China foi admitida no clube do livre-comércio.[13]

Em sua Breve História, Harvey descreve o neoliberalismo como “a restauração do poder de classe”; os detentores de riqueza, naturalmente, simpatizaram com uma filosofia econômica que prometia reduzir seus impostos — por meio do corte nos gastos estatais — e diminuir os salários dos trabalhadores — mediante o confronto com os sindicatos. Contudo, é evidente que o entusiasmo dos capitalistas, por si só, não seria suficiente para instaurar a era neoliberal. Harvey observou, paralelamente, que apelos “à tradição e aos valores culturais” — voltados a eleitores cujos interesses econômicos não coincidiam, de forma óbvia, com os dos acionistas — desempenharam um papel fundamental no sucesso dos partidos neoliberais de direita. De fato, como ressalta a socióloga australiana Melinda Cooper — que dedica atenção especial ao caso dos Estados Unidos —, as agendas econômica e de “valores familiares” do neoliberalismo convergiam: quanto menos assistência o Estado oferecia em áreas como habitação, seguro-desemprego, saúde ou educação, mais se tornava necessário recorrer à unidade familiar, restaurando-lhe, assim, a centralidade que, na visão dos conservadores morais e religiosos, ela deveria ocupar.[14]

Ainda assim, a surpreendente supremacia ideológica alcançada pelo neoliberalismo durante a década de 1990 e o período subsequente dificilmente teria se concretizado se o neoliberalismo tivesse permanecido como propriedade exclusiva da direita. Sua predominância consolidou-se quando os partidos tradicionais da classe trabalhadora — primeiramente os Democratas de Clinton e, na sequência, o Partido Trabalhista de Blair — aderiram aos princípios neoliberais com um zelo, no mínimo, equivalente ao de seus precursores à direita. Parte dessa conversão — posteriormente replicada por socialistas no continente europeu (como Schröder, do SPD na Alemanha) ou por populistas na América Latina (como o peronista Menem, na Argentina) — decorreu, sem dúvida, de uma crença sincera na inevitabilidade histórica do neoliberalismo, ao qual seria insensatez resistir. Contudo, isso também representou uma rendição pragmática aos fluxos internacionais de capital liberalizados, os quais poderiam abandonar a dívida soberana de qualquer país que ampliasse excessivamente seu déficit fiscal por meio de gastos elevados em programas sociais (ou em políticas industriais). Poucas semanas após sua posse, em 1993, Clinton manifestou aos seus principais assessores econômicos seu espanto com o fato de que “o sucesso do meu programa e a minha reeleição” dependiam do Fed e de um grupo de operadores do mercado de títulos.[15]

Políticos de centro-esquerda podem ter se submetido, a princípio com relutância, aos ditames do neoliberalismo — mas Clinton e outros, nos EUA e no exterior, logo descobriram o potencial eleitoral contido no Consenso de Washington: se os principais partidos, tanto de esquerda quanto de direita, insistissem igualmente no neoliberalismo, então aquela grande parcela da classe trabalhadora — ainda não atraída para a direita por apelos chauvinistas a uma suposta "tradição" — não teria outra escolha (apesar de seu apego remanescente a uma política de classe que já não estava mais em oferta) a não ser votar na centro-esquerda, vista como a vertente mais humana ou "social" do neoliberalismo. Ao mesmo tempo, profissionais urbanos que percebiam benefícios na globalização neoliberal (seja como investidores em mercados acionários globais, compradores de produtos importados baratos ou consumidores de "serviços" prestados por trabalhadores não sindicalizados) podiam, a partir de então, expressar seu progressismo social — ao apoiar a centro-esquerda — sem o receio de entrar em contradição com seus próprios interesses econômicos. Em outras palavras, foram os antigos partidos ligados ao socialismo, à social-democracia ou ao movimento trabalhista que, em diversos países democráticos, selaram a vitória da "ideologia mais bem-sucedida da história mundial".[16]

Se esta história da globalização — intensamente estilizada — oferece algum parâmetro para o nacionalismo econômico que busca sucedê-la, suas lições podem ser, ao menos, duas. Em primeiro lugar, o nacionalismo econômico, assim como a globalização neoliberal que o antecedeu, certamente exigirá uma crise real da ordem estabelecida para ter a chance de substituí-la; e, nesse ponto de crise, a conjuntura atual dá sinais claros de que tal cenário pode se concretizar, por razões que serão exploradas a seguir. Em segundo lugar, qualquer ascensão do nacionalismo econômico — comparável, em escala, ao meio século de predominância do neoliberalismo — provavelmente se consolidaria, tal como ocorreu com este último, por meio de um novo consenso em seu favor; um cenário no qual atores políticos centrais, de todo o espectro ideológico, passariam a defender o nacionalismo econômico, a despeito de suas profundas divergências em outros aspectos. De fato, o nacionalismo econômico contrasta drasticamente com a globalização neoliberal — que sempre previu uma convergência internacional em torno de uma mesma política de laissez-faire — justamente por este motivo: existem formas muito distintas de implementar o nacionalismo econômico, algumas das quais são radicalmente antagônicas entre si.

Sistemas nacionais

O nacionalismo econômico — independentemente do que o termo signifique com exatidão — teve, naturalmente, uma longa trajetória antes de seu ressurgimento no século XXI. Como sugere o subtítulo de The Nationalist Dilemma: A Global History of Economic Nationalism, 1776–Present — um estudo abrangente e notável do historiador econômico alemão Marvin Suesse —, o fenômeno pode ser considerado praticamente contemporâneo ao próprio Estado-nação, tendo reaparecido em momentos decisivos na história de diversos países ao redor do mundo: da Alemanha de Bismarck à Tanzânia de Nyerere, da Argentina de Perón à Malásia de Mahathir. O grande mérito da obra de Suesse reside, portanto, em sua amplitude cronológica — que vai desde a fundação dos Estados Unidos, há duzentos e cinquenta anos, até a conturbada ascensão de Trump e de seus epígonos internacionais nos dias de hoje —, aliada à sua abrangência geográfica. O livro apresenta análises concisas, porém detalhadas, de cerca de duas dúzias de nações, cobrindo períodos que vão da era das revoluções Americana e Francesa aos imperialismos nacionais do final do século XIX, passando pelo período entre guerras, a descolonização, a re-globalização e os programas nacionais associados à "onda rosa" na América Latina.[17]

Suesse examina seu vasto campo de análise com um olhar atento a semelhanças topográficas. Por exemplo, o nacionalismo econômico, enquanto política de Estado, frequentemente se apoiou em profecias intelectuais prévias — seja por meio de Henry Carey, defensor de tarifas nos Estados Unidos do período pré-Guerra Civil (descrito por Marx como “o único economista americano de importância”), ou, de forma mais notável, de Friedrich List. A principal obra de List, O Sistema Nacional de Economia Política (1841), permanece, talvez, como o fundamento teórico mais relevante para as diversas manifestações nacionais desse tipo de sistema. Ao traçar estratégias para que a Alemanha, os Estados Unidos e outras potências desenvolvessem suas economias diante da predominância global da Inglaterra — tanto na manufatura quanto no poder naval — no período pós-napoleônico, List combinou a ideia alemã de um mercado interno robusto para bens industriais com exemplos do expansionismo e da autossuficiência norte-americanos, bem como do dirigisme francês, voltado especialmente para a construção de ferrovias e infraestrutura em geral[18] As ideias listianas de proteção externa e orientação interna formaram, em diferentes combinações, a base teórica do nacionalismo econômico desde então. Outros exemplos de defesa do nacionalismo incluem obras menos conhecidas, como Teoria do Protecionismo e do Comércio Internacional (1929) e O Século do Corporativismo (1934), do romeno Mihail Manoilescu — que serviu como Ministro das Relações Exteriores por alguns meses em 1940, período em que alinhou seu país a Mussolini e Hitler. Suas ideias exerceram uma influência decisiva, do outro lado do hemisfério, sobre o Estado Novo de Vargas, no Brasil.[19] (É notável o cosmopolitismo intelectual presente no pensamento nacionalista econômico.)

Mais tarde, a defesa de ideias filosóficas e a prática da arte de governar acabaram, por vezes, unindo-se de forma mais duradoura. Em Gana, o socialista Nkrumah — presidente de 1960 a 1966 — escreveu obras defendendo o pan-africanismo contra o neocolonialismo: uma campanha continental a ser impulsionada, em grande medida, pelo planejamento econômico por parte de diferentes Estados. Na Malásia, em 1970, Mahathir — então um parlamentar sem cargo no governo — publicou O Dilema Malaio (The Malay Dilemma), no qual denunciava as associações comerciais chinesas por "monopolizarem" a economia nacional, excluindo os malaios — etnia patriótica local. Ele propôs uma "proteção construtiva" para esses malaios, visando sua atuação como gestores e empreendedores; uma iniciativa que ele comparou às tarifas que, segundo os preceitos mais clássicos do nacionalismo econômico, seriam necessárias para proteger indústrias nascentes antes que estas enfrentassem a concorrência internacional consolidada. O próprio Mahathir, vale notar, viria mais tarde a servir como primeiro-ministro por quase um quarto de século. Nesse sentido, Suesse considera o Mao de Sobre a Contradição (1937) — que afirma ser "a contradição entre o imperialismo e a nação chinesa a principal", recomendando, por conseguinte, "uma política prudente em relação à burguesia nacional" — como um tipo de nacionalista econômico profético; e vê, em Pat Buchanan — o quixotesco candidato à presidência dos EUA —, outro exemplo. Embora Buchanan tenha terminado em quarto lugar na disputa de 2000, suas diatribes — tanto contra os imigrantes (o México "exporta seus desempregados para nós") quanto contra uma "elite" americana que "arrastou a nação, à força, para a Economia Global de seus sonhos" —, sem mencionar seu apelo para "Tornar a América a Primeira Novamente" (Make America First Again), anteciparam o populismo rançoso de Trump em 2016 e nos anos seguintes. A queixa de Buchanan de que "o dinheiro não tem bandeira" talvez seja o lema mais conciso do nacionalismo econômico.[20]

Motivações mistas

Esta miscelânea histórica oferece uma ideia da natureza multiforme desse fenômeno, tanto no relato de Suesse quanto em outros. O nacionalismo econômico pode caracterizar tanto os imperialismos europeus da belle époque quanto os países do Sul que lutavam por sua libertação desses mesmos impérios após a Segunda Guerra Mundial. Essa definição pode abranger tanto socialistas quanto fascistas. O nacionalismo econômico também foi invocado em prol da harmonia étnica e da integração regional — como no pan-africanismo do pós-guerra ou em iniciativas mais recentes, a exemplo do Mercosul, estabelecido em 1991, na América Latina —, ao mesmo tempo em que serviu para designar a competição entre Estados, chegando até a levar a guerras, ou para acentuar divisões étnicas dentro das fronteiras nacionais: o favorecimento, por parte de Mahathir, de empresas malaias em detrimento das chinesas não se compara, contudo, ao confisco sistemático de propriedades de grupos marginalizados sob o nazismo ou o sionismo. Assim, o nacionalismo econômico pode ser, por vezes, a bandeira tanto de nações comparativamente ricas e poderosas quanto de países pobres e mais fracos. Tais reflexos distorcidos — como os vistos em espelhos de parques de diversões — de um corpo supostamente único levantam a questão de saber se o conceito possui coerência suficiente para ser, de fato, útil.

A suspeita de que o termo constitui uma fórmula vazia é especialmente justificada quando se trata de declarações de intenções políticas. Afinal, as políticas econômicas dos Estados-nação não seriam, por definição, nacionalistas? Poucos são os estadistas — eleitos ou não — que deixam de afirmar que suas políticas promovem o interesse nacional. Essa exigência retórica aplica-se não apenas ao desenvolvimentismo baseado em tarifas ou ao dirigismo industrial, mas também à doutrina do livre-comércio — como se viu, de forma bastante evidente, na Grã-Bretanha de Gladstone ou nos Estados Unidos de Reagan e Clinton. (Atualmente, Milei na Argentina e Modi na Índia são apenas os exemplos mais recentes de quem combina políticas de liberalização com uma retórica nacionalista.) As palavras de Clinton, em 1998, deixam claro que a globalização neoliberal — frequentemente apresentada, em debates recentes, como o oposto do nacionalismo econômico — esteve, não faz muito tempo, intrinsecamente ligada a um nacionalismo americano de caráter missionário: “As nações do mundo devem desfrutar dos frutos da vitória sobre o totalitarismo: mercados livres, eleições livres, povos livres”. Esses frutos poderiam ser apresentados como um banquete global, mas caberia aos americanos a maior fatia — tanto em termos de prosperidade nacional quanto de orgulho no período pós-Guerra Fria.

O resultado é que o “nacionalismo econômico” só adquire um significado real — ainda que um tanto impreciso — quando o termo é utilizado para descrever estratégias específicas, em detrimento de outras, independentemente de buscarem, no fundo, os mesmos objetivos. Suesse resume o “dilema nacionalista” como uma escolha entre isolamento econômico e expansão econômica. Nesse modelo, o isolamento visa, via de regra, proteger ativos existentes contra o controle estrangeiro, com o intuito de preservar a renda e reduzir a desigualdade entre a população nacional — ainda que ao custo de um crescimento mais lento. A expansão, por sua vez, busca proteger ou subsidiar indústrias emergentes, visando um crescimento mais acelerado, ainda que correndo o risco de ampliar a desigualdade interna. A política típica da primeira abordagem consiste na aplicação de tarifas que resguardam a produção local — no campo ou na indústria — da concorrência internacional; a segunda abordagem caracteriza-se por políticas industriais que fomentam “campeões nacionais” capazes de competir com empresas estrangeiras. Contudo, mal Suesse apresenta essas alternativas, o modelo já começa a apresentar falhas. Em sua introdução, ele admite que nem “todas as tentativas de isolamento” nem “todas as propostas de expansão econômica” precisam ser, necessariamente, nacionalistas, uma vez que tais estratégias também podem ser justificadas com base no “bem-estar individual”. O critério do motivo declarado revela-se insuficiente pelas razões apresentadas acima: um político de âmbito nacional precisa afirmar que zela pelo bem-estar não de indivíduos isolados, mas de toda uma população — ou, ao menos, daquela parcela expressiva que ele considera encarnar a verdadeira nação, em oposição a minorias vistas como intrusas. Além disso, em seu capítulo final, Suesse faz uma concessão que acaba por fragilizar toda a sua estrutura teórica: “Em muitos casos”, observa ele, “é provável que motivos expansionistas e isolacionistas coexistam”.

As características distintivas do nacionalismo econômico devem residir em outro lugar — e Suesse busca critérios tipológicos mais adequados quando, de forma um tanto casual, justifica a “pouca atenção dedicada, neste livro, à Europa e aos Estados Unidos nas décadas imediatamente posteriores à Segunda Guerra Mundial”. Se tantas formações econômicas são classificadas por ele como nacionalistas, por que não as da Europa e dos EUA no pós-guerra? “Em cenários onde a desigualdade econômica percebida é mínima — tanto em escala global quanto no interior de uma nação —, ou onde tais desigualdades não correspondem a divisões políticas marcantes, as abordagens nacionalistas da economia tendem a perder sua força.” Essa passagem, um tanto vaga, remete a diversos aspectos do longo período de expansão conhecido como les trente glorieuses (os “trinta anos gloriosos”). Primeiramente, partidos governantes — tanto de esquerda quanto de direita, na Europa e na América do Norte — aceitaram a crescente integração das economias nacionais (exemplificada pela Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, pelo Mercado Comum e pela abertura inicial dos EUA às exportações alemãs e japonesas) como um caminho para uma prosperidade capitalista avançada, compartilhada tanto entre nações quanto internamente. Paralelamente, a convergência dessas economias em direção a um modelo de bem-estar social durante esse período não pode ser caracterizada como nacionalismo — a despeito da intervenção estatal no mercado de trabalho, inerente a qualquer regime de proteção social —, pelo simples fato de que tais políticas foram adotadas de maneira mais ou menos coordenada, impulsionadas pela rivalidade anticomunista na disputa pela lealdade da classe trabalhadora, e não como desvios excêntricos em relação a um consenso internacional.

Por fim, Suesse propõe que a desigualdade econômica, tanto dentro quanto entre os Estados, deve ser mínima para que eles consigam resistir ao apelo do nacionalismo econômico. Contudo, a era de harmonia do pós-guerra teve início sob condições de desigualdade acentuada: a economia dos EUA era duas vezes maior do que a soma das economias de seus parceiros comerciais da Europa Ocidental. Além disso, a recuperação dos países europeus devastados não ocorreu, de forma alguma, no mesmo ritmo: o *Wirtschaftswunder* (milagre econômico) da República Federal da Alemanha apresentou taxas de crescimento vários pontos percentuais acima das registradas na Itália ou na França, e mais que o dobro das observadas no Reino Unido. Portanto, a cooperação econômica no pós-guerra não surgiu de uma prosperidade compartilhada; pelo contrário, ela prometia tal condição como resultado.

Vale a pena, contudo, examinar as formulações um tanto confusas de Suesse em busca de elementos conceituais relevantes, a fim de contestar uma ideia simplista — presente em grande parte dos debates recentes que contrapõem o nacionalismo econômico à globalização neoliberal — de que os Estados precisam escolher entre exercer controle sobre a economia nacional ou entregar-se totalmente ao livre mercado. Nas décadas do pós-guerra mencionadas por Suesse, a intervenção estatal não foi, de modo algum, descartada em favor do *laissez-faire*; da mesma forma, o período subsequente — da crise da década de 1970 até a de 2008 — não presenciou, de fato, uma retirada do Estado, a despeito do que prega a doutrina neoliberal. É verdade que, nesse período, os gastos governamentais como porcentagem do PIB, de modo geral, pararam de crescer, mas também não diminuíram. O Estado redirecionou, em vez de reduzir, sua atuação. Como observa Nathan Sperber, o neoliberalismo, na prática, “visava menos ao enfraquecimento ou à retirada do Estado do que à sua reorientação como um guardião eficaz da ordem de mercado”: ​​tratava-se menos de desregulamentação e mais de uma “re-regulamentação” da vida econômica. Na União Europeia, isso se manifestou, por exemplo, por meio de uma maior dependência do IVA — um imposto regressivo — em detrimento dos impostos sobre a renda, como forma de arrecadação estatal; nos EUA, os políticos optaram por oferecer créditos fiscais a proprietários de imóveis de classe média, em vez de realizar transferências diretas a trabalhadores pobres, condenados a pagar aluguel. O neoliberalismo no poder, conforme anunciado, transferiu a formulação de políticas econômicas dos Estados-nação para organismos internacionais (por exemplo, a OMC) ou acordos multinacionais (como o NAFTA ou o Espaço Econômico Europeu), que buscavam restringir a intervenção estatal no comércio global. Uma última tentativa de substituir políticas nacionais independentes por acordos comerciais liberalizantes surgiu com a Parceria Transpacífico, delineada no início da década de 2010 por uma dúzia de países em ambos os lados do maior oceano do mundo — iniciativa à qual tanto Trump quanto Clinton se opuseram durante suas campanhas presidenciais de 2016, com Trump retirando os EUA do pacto logo no primeiro mês de seu mandato. Na prática, contudo, mesmo os Estados mais alinhados ao neoliberalismo — como os EUA e o Reino Unido — nunca abriram mão de políticas industriais (sob o pretexto de gastos com defesa), do nacionalismo de recursos (como a tributação extraordinária sobre produtores de petróleo no Mar do Norte) ou do protecionismo agrícola (a exemplo dos subsídios americanos aos produtores de milho ou da proteção aos agricultores de tabaco). Nenhuma dessas medidas condizia com a autodescrição narcisista do neoliberalismo global como o reinado legítimo do livre mercado.

Por outro lado, o nacionalismo econômico raramente significou uma abstenção total do comércio internacional ou um controle estatal absoluto da economia — ressalvados episódios excepcionais ocorridos sob regimes de partidos comunistas. O mundo, tal como o conhecemos, é, em sua vasta maioria, um cenário de economias mistas, nas quais o Estado — em toda parte — limita ou exclui o mercado em graus variados, sem, contudo, chegar perto de abandoná-lo. A globalização neoliberal impôs restrições ao papel do Estado na formulação de políticas econômicas, acompanhadas de uma submissão — ainda que sempre incompleta — às regras do comércio internacional. Já o chamado nacionalismo econômico atual propõe uma reafirmação da soberania econômica; uma reafirmação, contudo, limitada pela tolerância dos parceiros comerciais a políticas voltadas ao interesse próprio e, na ausência de controles rígidos sobre o capital, condicionada sobretudo pelo apetite dos investidores internacionais pela dívida soberana.

Contudo, se os Estados contemporâneos não podem aspirar nem à autoabnegação libertária, nem à autossuficiência autárquica, isso não significa que a ampla transição — observada nos últimos anos — da globalização para o nacionalismo não seja real e significativa. Enquanto o neoliberalismo sentia-se constrangido com a responsabilidade do Estado em assegurar a renda nacional — justificando, muitas vezes, suas políticas sob a alegação de que o Estado estava de mãos atadas —, o novo nacionalismo proclama, e até ostenta, o papel do Estado. Ao passo que a globalização neoliberal pressupunha que regras internacionais compartilhadas promoveriam uma prosperidade comum, o nacionalismo econômico ressurgente parte, ao contrário, do princípio de que o ganho de um país ou região ocorre, frequentemente, às custas de outro. A globalização sempre teve a seu favor o fato de ser um empreendimento utópico: políticas que, na realidade, apenas alteravam a composição da clientela do Estado podiam ser justificadas como uma aproximação assintótica em direção ao paraíso universal do laissez-faire — um cenário no qual o Estado teria se retirado de todas as suas funções, exceto as de polícia, resultando em um crescimento perpétuo para todos. O nacionalismo econômico atual pressupõe uma visão mais sombria e fragmentada, na qual as políticas movidas por interesses próprios e os destinos distintos de Estados concorrentes divergem de forma explícita; o florescimento — ou a simples manutenção de um determinado padrão de vida — de uma população nacional já não implica o bem-estar crescente de outras, cujas economias, na melhor das hipóteses, seguem seus próprios rumos. Na pior das hipóteses, tornam-se rivais a serem dominadas ou destruídas. Em suma, a nova retórica do nacionalismo econômico apresenta uma imagem da economia mundial pautada pelo antagonismo, e não pela cooperação; e o Estado, longe de minimizar sua atuação, passa a enfatizar um papel do qual, na verdade, jamais abriu mão.

Perspectivas de esquerda

Esses fenômenos já haviam recebido uma atenção minuciosa e criativa por parte de um grupo de autores de esquerda antes da segunda posse de Trump. Endgame: Economic Nationalism and Global Decline, de Jamie Merchant, escritor radicado em Chicago, foi lançado em agosto de 2024; Disaster Nationalism: The Downfall of Liberal Civilization, do comentarista político radicado em Londres Richard Seymour, em outubro do mesmo ano; e a tradução para o inglês — atualizada — de Taking Back Control?: States and State Systems after Globalism, do sociólogo alemão Wolfgang Streeck, diretor emérito do Instituto Max Planck em Colônia, em novembro de 2024. Também é considerada aqui a obra The Great Global Transformation, de Branko Milanovic, que, como o título sugere, alinha-se mais a Polanyi do que a Marx em sua perspectiva sobre esse mesmo cenário: um mundo no qual a globalização neoliberal foi sucedida pelo nacionalismo econômico.[25]

Merchant’s Endgame, ele afirma em sua introdução, aborda “o encerramento de uma era da história mundial” — um período em que, “desde o fim da Segunda Guerra Mundial até meados da década de 2010, a economia global foi caracterizada por uma integração cada vez mais profunda”. Essa harmonização ocorreu tanto no plano do comércio — com a maioria dos países negociando mais, e de forma mais livre, entre si — quanto no plano da produção, com empresas multinacionais (de propriedade cosmopolita e sem fronteiras definidas quanto à localização de suas instalações físicas) passando a responder por uma parcela crescente da produção material. A obra apresenta um prenúncio sombrio de novos tempos, marcado por tons apocalípticos: o período “batizado por inúmeros artigos de análise — hoje esquecidos — como a era da ‘globalização’” está chegando ao fim, “assolado por dois flagelos: a guerra e a peste” — ou seja, a pandemia de Covid-19, que impulsionou a renacionalização de cadeias de suprimentos antes globais, e a guerra na Ucrânia, que estimulou a internalização ou o friendshoring (realocação de cadeias produtivas para países aliados) da produção de energia. No lugar da crescente integração das economias nacionais, surge agora “um processo global de desintegração”.

Merchant está naturalmente atento à contemporaneidade latente de seu objeto de estudo, compreendendo o nacionalismo econômico do século XXI como uma disputa em torno de novas fronteiras de mercadorias — abertas, entre outros fatores, pela “robótica, inteligência artificial, produtos farmacêuticos avançados e 5G”, segundo um relatório sobre o investimento norte-americano no século XXI, encomendado pelo então senador dos EUA, Marco Rubio, e citado por Merchant. Dentre as obras analisadas, *Endgame* aborda a novidade digitalizada do nacionalismo econômico do século XXI sob uma perspectiva que se aproxima, em grande medida, do marxismo clássico. Para Merchant, o apelo crescente do nacionalismo econômico deve-se a “uma desaceleração secular na taxa de crescimento da economia mundial transnacional como um todo”. À medida que a economia global desacelera, ela se transforma em “uma questão mais existencial, de soma zero, na qual o crescimento de uns só pode ocorrer às custas de outros”. Adotando a terminologia de Brenner, Merchant descreve o período iniciado na década de 1970 como uma longa fase de declínio, marcada por um excesso de capacidade produtiva na indústria em nível internacional — acrescentando a isso a lei marxista da tendência de queda da taxa de lucro, um conceito que Brenner rejeita.

Sob essa ótica, o apogeu do livre-comércio durante a globalização permitiu a plena manifestação de tendências à crise — inerentes à busca pela acumulação privada, mas contidas durante a “era de ouro” do capitalismo regulado, em meados do século XX. A partir da década de 1980, a “globalização 2.0” aproximou-se da criação de um verdadeiro mercado mundial de trabalho, representado e viabilizado pela moeda global que é o dólar norte-americano. Esse desenvolvimento liberou a tendência fundamental do capital em escala planetária:

Em nível global, à medida que técnicas mecanizadas específicas se difundem e se tornam a norma geral — que capitalistas em toda parte são forçados a adotar —, a fonte de mais-valia, oriunda do tempo de trabalho não pago, esgota-se; isso ocorre porque a parcela da produção realizada por trabalhadores explorados diminui em relação ao total de dispêndios das empresas privadas.[28]

A obra Endgame retoma, naturalmente, o célebre argumento presente no terceiro volume de O Capital — desenvolvido de forma mais completa por Henryk Grossman em 1929 —, que identifica a tendência de queda da taxa de lucro como resultado da substituição do trabalho vivo por maquinaria, fenômeno conhecido como o aumento da composição orgânica do capital. O resultado, aqui, é uma “condição permanente de superprodução”, na qual ondas de mecanização acabam por se dissipar em um cenário de estagnação, caracterizado por uma lucratividade permanentemente baixa. Merchant associa esse processo de longa data à recente financeirização: à medida que o capital privado se retrai de investimentos produtivos, ele passa a buscar, cada vez mais, “aparições” financeiras. Esse movimento, por sua vez, fomenta o nacionalismo econômico por meio de um dirigismo voltado à gestão de crises — no qual os esforços desesperados dos bancos centrais para sustentar os mercados financeiros tornam-se rotina —, ao passo que “os governos nacionais precisam adotar medidas cada vez mais extremas para compensar a paralisia do capitalismo privado”, gerando, assim, “uma fusão cada vez mais estreita entre as instituições estatais e os mercados financeiros privados”.[29]

Ainda assim, a assunção retórica de responsabilidade pelo bem-estar econômico nacional por parte do Estado, bem como sua afirmação prática de controle, não conseguem restaurar a prosperidade. Merchant é categórico: “políticas nacionais não podem abordar as origens transnacionais do colapso do sistema”.[30] Tomadas em conjunto, políticas nacionalistas só servem para deprimir o crescimento e, dessa forma, exacerbar a desaceleração global que buscam atenuar. Ao longo de Endgame, o estilo argumentativo de Merchant é apodítico; ele declara, em vez de demonstrar, que nenhum governo nacional é capaz de conter a crise global — por exemplo, revigorando o mercado interno para a produção nacional por meio de controles de capital. Em outras palavras: se o capital nacional resiste ao investimento produtivo em sua busca por taxas de lucro internacionais, não deveria ele ter seu “passaporte” cassado? Sem dúvida, o retorno a um desenvolvimentismo baseado na substituição de importações seria uma tarefa árdua, dado que os rentistas de qualquer país se acostumaram à livre circulação internacional do capital; contudo, não está claro por que tal estratégia não poderia alcançar algum êxito — ao menos em comparação com a situação de outros governos que enfrentam uma economia mundial estagnada. Os controles de capital implementados pela China — por mais permeáveis ​​que sejam — já sugerem essa possibilidade. Em sua visão de uma “crescente agitação social em uma sociedade terminal”, Endgame não abre espaço para esse tipo de reforma. Merchant atualizou o fatalismo revolucionário — característico do grupo Endnotes durante a década anterior de globalização vacilante (o “período de espera” dos anos 2010) — para um novo cenário marcado por expedientes nacionalistas. E, embora ele ainda admita a possibilidade de uma revolução proletária, é nesse ponto que seu argumento — já um tanto formalista — torna-se verdadeiramente abstrato: o surgimento, tão almejado, de uma classe revolucionária não é nem vislumbrado a partir de evidências, nem deduzido da teoria.[31]

História épica

Assim como Merchant, Milanovic, em The Great Global Transformation, enxerga no momento atual “a reversão da globalização” e uma consequente incursão pelo nacionalismo econômico. Trump, Xi e Putin personificam um “padrão que se espalha pelo mundo todo”: “o nacionalismo é incorporado à política interna e às narrativas como uma forma de fazer com que as políticas pareçam mais ‘rígidas’”. (Presumivelmente, a globalização — ao conceber um mundo no qual a prosperidade de uma nação reforçava, em vez de comprometer, a de outra — não tinha tal necessidade de “rigidez”.) Milanovic, contudo, situa essa guinada nacionalista no contexto de fenômenos mais recentes — e que apresentam evidências empíricas mais sólidas — do que o aumento da composição orgânica do capital. O primeiro desses fenômenos, que de certa forma engloba os demais, é a ascensão da China: “o fato econômico mais importante dos últimos cinquenta, ou até mesmo cem, anos”. Milanovic é categórico: “a ascensão da China, viabilizada pelo neoliberalismo global, tornou inevitável o fim do próprio neoliberalismo global”.

Se a Revolução Industrial desencadeou, há muito tempo, uma divergência progressiva entre o “Ocidente” (Europa e América do Norte) e o restante do mundo — predominantemente asiático —, essa tendência só foi efetivamente revertida nos primeiros anos do século XXI. O que Milanovic define como o “pico de renda relativa” de um país — o ponto máximo de sua renda *per capita* em proporção à média global — foi atingido pelos Estados Unidos e pelo Canadá já em 1952; no caso da Alemanha e do Japão, isso só ocorreria quatro décadas mais tarde. A França atingiu seu ápice apenas em 2001, e o Reino Unido, em 2003. A partir de então, o Ocidente entrou em declínio em relação à potência chinesa que, por volta de 2015, já havia superado os Estados Unidos em termos de PIB total — ao menos quando medido pela paridade do poder de compra (PPC).

Tais números poderiam ter pouco peso político, não fosse o fato de que essa redução nas disparidades de renda entre as nações trouxe consigo, também, uma certa convergência nas distribuições de renda dentro das fronteiras nacionais. Em suma, a classe média asiática tornou-se muito mais rica e numerosa, ao passo que a remuneração das populações ocidentais de menor renda estagnou em termos absolutos e declinou em termos relativos; de modo que, a partir da década de 1990, indivíduos situados nos decis inferiores das distribuições europeias ou norte-americanas passaram a ocupar percentis cada vez mais baixos em uma escala global. É evidente que uma verdadeira equalização da renda per capita entre o Norte e o Sul globais ainda está longe de ocorrer — mas a tendência é clara. Segundo as estimativas de Milanovic, é possível que, até o final do século, o número de chineses ricos seja equivalente ao de norte-americanos ricos. Essa “grande transformação do poder econômico” entre os continentes acaba, naturalmente, por abalar o orgulho — seja de cunho racial ou civilizacional — de muitos ocidentais de baixa renda, além de restringir seus hábitos de consumo: Milanovic observa que, “enquanto no passado tanto um operário metalúrgico quanto um engenheiro alemães podiam se dar ao luxo de passar férias na Tailândia (um bem de consumo global), no futuro, talvez apenas o segundo tenha condições para tal”.

Valendo-se de um repertório mais amplo do que o de Merchant, Milanovic analisa a disputa entre Estados Unidos e China à luz dos debates clássicos da filosofia política sobre a relação entre economia e guerra. Entre 1978 e 2008, aproximadamente, os interesses econômicos e geopolíticos de ambos os lados promoveram uma convergência pacífica — o que Montesquieu, Smith e Ricardo chamariam de douces mœurs (costumes amenos). O período posterior à crise financeira trouxe de volta o cenário descrito por Hobson, Lenin, Luxemburgo e Schumpeter: o capital excedente, gerado pela elevada desigualdade interna nos grandes centros industriais, é direcionado ao exterior em busca de retornos mais altos; simultaneamente, o poderio militar do Estado de origem é mobilizado para assegurar a obtenção de matérias-primas, o controle de mercados coloniais e a exploração de mão de obra barata, em oposição aos interesses de nações rivais. Nesse ponto, como afirmou Schumpeter, “tem início uma luta amarga e custosa”, na qual “já não é indiferente quem constrói uma determinada ferrovia, ou quem detém a posse de uma mina ou de uma colônia”.

O triunfo asiático e a crise ocidental estão intrinsecamente ligados, como causa e consequência: o baixo crescimento e a estagnação dos salários reais da classe média americana são, “em grande medida”, atribuíveis às “importações provenientes da China e à terceirização para a China” — fatores que prejudicaram o emprego no setor manufatureiro dos EUA e a capacidade de negociação dos trabalhadores. Para Milanovic, o mal-estar econômico e o descontentamento da “classe média” americana — mobilizados em meados da década de 2010 contra as “elites liberais” pelo agitador Donald Trump — foram os principais motores de sua ascensão. Nesse ponto, a política democrático-liberal chegou a uma encruzilhada:

Havia duas respostas possíveis para o “desafio chinês” enfrentado pelas classes médias ocidentais. Uma seria alterar as regras da globalização, de modo que ela deixasse de esvaziar as classes médias do Ocidente; a outra seria melhorar a situação de renda dessa classe média, tributando mais os ricos internamente e redistribuindo a renda do topo para o meio. Essa segunda opção poderia ter servido como alternativa à postura antichinesa. Contudo, tal política encontrou muitos opositores entre os ricos... [39]

O nacionalismo econômico de Trump consiste, em grande parte, na escolha do primeiro caminho: culpar a China pelos problemas econômicos da classe média americana. Mas Trump também esteve atento ao outro aspecto do dilema apontado por Milanovic: o cisma entre os estratos de renda média e baixa — que, por não serem suficientemente organizados ou conscientes de si mesmos, não chegam a constituir “classes” no sentido político — e os ricos, cujas fortunas apenas cresceram na era da ascensão geopolítica da China. Milanovic analisa a afluência excepcional dos ricos no Ocidente como um fenômeno historicamente inédito — “possivelmente o único desdobramento do capitalismo moderno que surpreenderia Marx” — denominado *homoploutia*: uma condição em que os ricos acumulam, simultaneamente, altos rendimentos provenientes do trabalho (em virtude de suas posições profissionais) e altos rendimentos provenientes do capital (por meio de seus portfólios de investimentos). Como os cargos ocupados por essas elites “meritocráticas” não estão sujeitos à concorrência internacional, esses “supergestores” (como os denominou Piketty) encaram o Oriente com muito menos apreensão do que seus compatriotas. A prosperidade autossuficiente dessa “elite globalizada” atrai, por sua vez, o ressentimento de eleitores menos favorecidos — um sentimento explorado hipocritamente por Trump e populistas de direita semelhantes, que denunciam o cosmopolitismo representado por tais elites, em vez de combater, por meio da redistribuição, a desigualdade que elas encarnam.

Em seu penúltimo capítulo, Milanovic aponta o que ele denomina “liberalismo de mercado nacional” como a “ordem sucessora” mais provável da globalização neoliberal. Essa vertente política — que “provavelmente perdurará muito tempo após a saída de Trump” — preservaria, em grande medida, o escopo atual das trocas de mercado, mantendo-se, portanto, como uma forma de liberalismo. Ela guardaria continuidade com o neoliberalismo em aspectos como a baixa tributação sobre rendimentos do capital e heranças; contudo, adotaria tarifas em vez de celebrar a globalização, defenderia “sanções politicamente motivadas e políticas industriais conduzidas pelo Estado” — em vez de fingir que a economia pode ser isolada da política —, rejeitaria a imigração em massa em favor de “muros e cercas” e promoveria critérios de valor humano baseados no chauvinismo, em vez de em princípios universais. No campo da política externa, essa orientação também rejeitaria a unipolaridade (a hegemonia dos EUA) e o universalismo (a ideia do capitalismo liberal como norma planetária). De fato, embora Milanovic não chegue a mencioná-lo, a administração Trump já utiliza a retórica de uma superioridade americana inigualável para mascarar o declínio da influência dos EUA.

Embora esse cenário de proliferação de nacionalismos econômicos pareça plausível, ele ignora o próprio problema ao qual Milanovic alude quando observa, de forma seca, que a redistribuição encontra “muitos oponentes entre os ricos”. Os graus de plutocracia variam de acordo com o Estado-nação, mas a “homoploutia” (a concentração de riqueza e renda nas mesmas mãos) tornou-se tão extravagante em muitos lugares — e, certamente, nos Estados Unidos — que o poder político acabou concentrado de tal modo entre os ricos que uma redistribuição de renda em direção às camadas mais pobres é, na prática, tão improvável sob arranjos nacionalistas quanto sob arranjos neoliberais. Milanovic sugere isso ao notar que as baixas alíquotas de impostos sobre ganhos de capital e heranças são uma característica mais arraigada da vida política contemporânea do que a própria arquitetura do comércio mundial. O apelo do nacionalismo econômico deriva, em grande parte, da promessa de socorro às classes de renda média e baixa; contudo, tal salvação parece improvável enquanto os Estados-nação forem discutidos sem uma referência séria às classes socioeconômicas. Grande parte da direita política aposta, na verdade, que uma desigualdade de renda acentuada é mais tolerável sob o nacionalismo do que sob o neoliberalismo, graças às concessões simbólicas que o primeiro oferece; em ambos os casos, a desigualdade é dada como um fato consumado. O impasse redistributivo sugere que, nos próximos anos, os nacionalistas econômicos talvez tenham mais sucesso ao conquistar o poder do que ao mantê-lo. Diante do fracasso tanto da globalização neoliberal quanto do nacionalismo econômico (de direita), o que restará aos eleitorados?

Por mais impressionante que seja a obra The Great Global Transformation — tanto como um levantamento estatístico quanto como uma anatomia política do mundo atual —, ela termina recorrendo a uma explicação psicológica um tanto frágil: “De onde vem o nacionalismo? Da ganância” — ou pleonexia, definida por Aristóteles como o desejo insaciável de obter mais do que a sua parte justa, às custas dos outros. O nacionalismo se assusta com a possibilidade de que os habitantes de outro país “possam, no fim das contas, ter mais bens do que nós”, e enxerga o Estado-nação como um mecanismo “para evitar tal desfecho”. Deixando de lado o fato de que, nesse caso, a inveja parece ser um vício mais predominante do que a ganância, uma explicação tão simplista para as motivações políticas não é suficiente. A ganância ou a inveja são traços da espécie duradouros demais para explicar qualquer conjuntura histórica passageira; além disso, mesmo hoje, o cidadão comum de um determinado país dificilmente possui uma noção clara o suficiente dos bens de consumo de que desfruta seu equivalente no outro lado do planeta a ponto de avaliar sua própria felicidade, sobretudo, à luz dessa comparação. Também não é inteiramente convincente a ideia de que a "guinada" dos EUA em relação à China tenha partido da base; na verdade, a indignação popular contra Wall Street em 2008–2009 foi redirecionada, "de cima", para a República Popular da China — acusada, supostamente, de roubar empregos. Os pontos fortes de The Great Global Transformation residem em outro lugar: na articulação entre desigualdades econômicas e rivalidades geopolíticas em uma escala histórica global.

Miasma de extrema-direita

Disaster Nationalism, de Richard Seymour — um livro que opta deliberadamente por um registro psicanalítico, em vez de econômico —, oferece uma análise mais sutil e persuasiva do fenômeno psicológico que constitui o nacionalismo do século XXI. Não é que Seymour ignore as considerações econômicas; em sua introdução, ele observa que aqueles que, em 6 de janeiro de 2021, invadiram o Capitólio dos EUA em nome de Trump provinham, “de forma desproporcional, das classes empresariais e profissionais em processo de declínio socioeconômico”. Assim como seus pares ideológicos na direita brasileira ou britânica, “eles haviam prosperado durante os anos de bonança, apenas para serem lançados ao endividamento e até mesmo à falência”. O “nacionalismo do desastre” de Seymour é uma disposição ou um estado de espírito — algo menos estruturado do que uma ideologia — no qual o desastre real e presente de um capitalismo ecocida, desigual e em colapso escapa à percepção de seus sujeitos mais enfurecidos, dando lugar a um desastre percebido: a ameaça cultural e racial. É verdade que essa perspectiva frequentemente envolve um nacionalismo econômico, mas, enquanto tendência política, ela vai muito além de um simples programa econômico — da mesma forma que qualquer explicação baseada apenas em determinantes econômicos logo se mostra insuficiente: “Não é a economia, estúpido”. Em seu primeiro capítulo, Seymour observa que eleitores de direita em uma dúzia de países — nas Américas, na Europa e na Ásia — “recusaram-se obstinadamente a aceitar a condição de pobreza ou de exclusão política. Mais importante ainda: demonstraram pouco interesse em seu próprio bem-estar econômico pessoal”.[43]

O "nacionalismo de desastre" recorre, portanto, a um vocabulário inteiramente distinto — pautado por termos como "paranoia", "fantasia", "medo", "contágio social", entre outros. O livro pode ser descrito como uma investigação sobre as aberrações mentais que surgem na ausência daquela consciência de classe lúcida que o marxismo, outrora, propôs que acompanharia — e impulsionaria — o surgimento de um movimento operário internacional à altura de sua tarefa. Os "nacionalistas de desastre" de Seymour não pertencem a nenhum coletivo dotado de coerência interna, como seria uma classe de trabalhadores ou de proprietários, ou mesmo uma população nacional. Grande parte do interesse — e, não raro, do horror — que o livro desperta advém do fato de que a nação com a qual esses nacionalistas se identificam pouco coincide com a população nacional real, tal como definida pelos censos, seja em termos de classe, gênero, raça ou ideologia. Segundo Seymour, eles reagem à insegurança econômica ou aos perigos ecológicos sem dispor de conceitos adequados para compreender tais dilemas; em vez disso, rebelam-se contra os promotores e os supostos beneficiários das normas mais triviais da "civilização liberal" — como, por exemplo, o uso de pronomes de gênero "corretos" —, normas pelas quais se sentem julgados e marginalizados em seus próprios países. Os danos sofridos dizem respeito ao status, não à classe. Em uma obra que resiste a resumos, Seymour chega perto de uma síntese ao escrever:


O nacionalismo de desastre, hoje, canaliza a insegurança, a humilhação e as misérias de classes e grupos sociais heterogêneos — incluindo alguns dos mais pobres — para uma revolta contra a civilização liberal e suas normas pluralistas e democráticas. Ele oferece o bálsamo da vingança, a promessa de um amor-próprio nacional e a cura que consistiria em restaurar a sociedade a um estado mais puro e harmoniosamente hierarquizado, por meio de uma violência proporcional à ofensa percebida.


É assim que a humilhação acaba sendo interpretada, erroneamente, como superioridade.

Seymour rastreia esse estado de espírito por meio de diversas manifestações: a proliferação de teorias conspiratórias sobre o meio ambiente; ansiedades racializadas e impregnadas de pornografia em torno das escolhas das mulheres quanto a seus parceiros; espasmos de violência — tanto na forma de "lobos solitários" quanto de pogroms; e, por fim, iniciativas que apontam para a ditadura e o genocídio. Quanto à dimensão econômica desse chauvinismo multifacetado: apesar de todas as suas queixas, a nova direita nacionalista carece de "uma alternativa coerente à globalização". Na França e na Hungria, partidos de extrema-direita prometeram redes de proteção social mais robustas, ao mesmo tempo em que se aproximam de grandes empresas e ameaçam penalizar os pobres, os dissidentes e os migrantes. Na Índia de Modi, no Brasil de Bolsonaro e na Argentina de Milei, o próprio neoliberalismo foi exaltado como um método para separar os “vencedores” sociais dos “perdedores”. Contudo, tal doutrina não é exatamente consistente em todo o espectro da direita. Os mesmos traços de darwinismo social podem acompanhar políticas antineoliberais — como quando nacionalistas defendem medidas protecionistas em favor dos trabalhadores “nativos” em detrimento de estrangeiros e migrantes, ou promovem políticas industriais estatais voltadas para “campeões nacionais”. Assim, a beligerância retórica do nacionalismo de extrema-direita acaba por revelar a timidez e a confusão de uma estratégia ainda limitada pela visão de mercado e pelo liberalismo; economicamente falando, trata-se, no máximo, de um “nacionalismo de desastre”.

Esse nacionalismo modifica a competição desenfreada — que, por outro lado, ele abraça vigorosamente — por meio de preferências nacionais, ou ameniza seus efeitos para certos eleitores com transferências de renda. Ele também não idolatra o Estado, como fazia o fascismo clássico. Embora seja agressivo no uso do braço repressivo do Estado para perseguir “inimigos nacionais”, ele costuma ser hostil — quando não paranoico — em relação a intervenções estatais de caráter assistencial ou voltadas à saúde pública.

Seymour enfatiza que o “nacionalismo de desastre” “ainda não é fascismo”. Ele expressa uma atitude perplexa e amarga, excessivamente parasitária do neoliberalismo que diz rejeitar para conseguir alcançar qualquer coerência. O que mais chama a atenção é a solidão e o desespero dos direitistas que habitam o ambiente online descrito por Seymour; para eles, a nação parece designar uma comunidade orgânica da qual não possuem qualquer experiência real. Na linguagem das plataformas de redes sociais onde prosperam, eles são “trolls” — capazes de uma hostilidade sardônica contra o capitalismo liberal, mas incapazes de formular uma oposição coerente. Essa confusão intelectual apenas reforça a impressão de uma solidão incomunicável, que tateia, em vão, em busca de um sentimento de pertencimento coletivo.

O problema com essa perspectiva prismática é, simplesmente, o mesmo de todas as abordagens psicanalíticas da política. Elas alteram o teor do pensamento político, de modo que um autor de esquerda deixa de tentar falar de maneira convincente a um conjunto de cidadãos para, em vez disso, falar de forma plausível *sobre* eles — com aquele quociente tragicamente elevado de plausibilidade em detrimento da certeza, inerente à especulação psicanalítica, especialmente quando aplicada a mentes que não a própria. A irracionalidade da política contemporânea, sobretudo à direita, pode até exigir tal abordagem; contudo, essa mesma abordagem confirma, de modo desalentador, que a esfera pública da década de 2020 é um espaço tomado por fantasias inconscientes. Uma política de esquerda com aspirações reais ao poder deveria basear-se em alegações mais empíricas e em argumentos mais abertos ao debate. Ainda assim, o "nacionalismo do desastre" (*Disaster Nationalism*) ajuda a esclarecer as bases subjetivas que explicam por que as extremas-direitas atuais são nacionalistas econômicos tão medíocres. Embora possam apoiar tarifas protecionistas, falta-lhes a compreensão — defendida por Friedrich List — de uma comunidade nacional imaginada que seja expansiva, inclusiva e declaradamente democrática; em vez disso, reagem com uma indignação egoísta quando outros países retribuem com medidas protecionistas.

Redemocratização?

Nem a explicação de Merchant para a recente guinada nacionalista — fundamentada na queda da taxa de lucro —, nem a de Milanovic — baseada na dialética entre neoimperialismo e desigualdade —, nem a de Seymour — que recorre à psicopatologia —, oferecem muito em termos de estratégia política. O diferencial da obra Taking Back Control?, de Wolfgang Streeck, reside na tentativa de reconhecer — e reforçar — esse novo nacionalismo, ao mesmo tempo em que o redireciona para propósitos de esquerda. Assim como os outros autores, Streeck caracteriza o presente como "um momento histórico em que a globalização neoliberal está se fragmentando", o que poderia levar à devolução de suas prerrogativas ao Estado-nação. Ele se distancia, contudo, das análises convencionais sobre a crise do neoliberalismo, ao concentrar-se tanto nas deficiências democráticas quanto nas econômicas das “três décadas de capitalismo neoliberal-globalista após o aparente ‘fim da história’”.footnote46 A abordagem de Streeck, neste ponto, fundamenta-se na periodização que ele desenvolveu na obra Buying Time, de 2014.[47] Nessa narrativa, os Estados-nação no pós-guerra — marcados pela memória da Grande Depressão e pela consequente guinada rumo ao fascismo — assumiram a “missão de proteger suas sociedades das pressões dos mercados capitalistas”, principalmente por meio de medidas de bem-estar social que resguardavam os trabalhadores, bem como de controles de capital que mantinham os investimentos circunscritos às fronteiras nacionais.[48]

Mas esse “casamento de conveniência histórica” entre capitalismo e democracia desfez-se na era neoliberal, quando governos eleitos tentaram resolver a crise de estagflação capitalista escancarando as economias nacionais ao capital sem pátria. Nesse processo, a “política democrática dissociou-se da economia política, ao impedir a si mesma de intervir discricionariamente nas oportunidades e nos resultados do mercado”. A abdicação do Estado quanto à correção igualitária dos resultados de mercado privou a classe trabalhadora de uma representação política significativa — inclusive, ou especialmente, por parte dos partidos históricos de esquerda — e incumbiu os governos de centro-esquerda da tarefa de promover valores sociais de classe média, voltados ao “pós-materialismo” e ao progresso individual em uma sociedade capitalista; surgiu, assim, uma “política identitária” materialmente esvaziada.[49]

No nível dos partidos políticos que ocupam o poder, as forças democráticas responderam ao neoliberalismo, essencialmente, mudando de lado. Grande parte da centro-esquerda — tendo abandonado o ideal socialista de uma sociedade sem classes, a ser buscado por meio da formação de um bloco eleitoral que unisse classe média e classe trabalhadora — optou, em vez disso, pelo padrão neoliberal (exemplificado por organismos internacionais como a União Europeia) de uma “sociedade sem Estado”, sem fronteiras e, portanto, “sem capacidade de regulação dotada de autoridade”. O termo “democracia” deixou de se referir à disputa institucionalizada entre partidos de base classista pelo controle da economia nacional. No vocabulário das elites neoliberais, a palavra passou a designar um consenso esclarecido que situava a política econômica e os valores sociais acima e além da arena da contestação popular — seja consagrando-os em constituições por meio de especialistas jurídicos não eleitos, seja impondo-os como regulamentações formuladas por tecnocratas anônimos em nome da “boa governança”.[50] Esse abandono da democracia — mantendo-se apenas o nome — por parte da centro-esquerda liberal abriu caminho para o ressurgimento de reivindicações nacional-democráticas por parte de uma direita ufanista; demagogos populistas passaram, então, a convocar os “perdedores da hiperglobalização” a “retomar o controle”. Esses eleitores nem sempre eram perdedores em um sentido estritamente econômico — e, nesse ponto, Streeck concordaria com Seymour: o “sentimento de ofensa” experimentado em reação à afirmação presunçosa, por parte da elite liberal, de valores universais, oferece “uma razão pela qual os contramovimentos ‘populistas’ de direita atraem não apenas uma classe trabalhadora em declínio, mas também uma pequena burguesia” que, embora esteja em uma situação econômica razoavelmente boa, sente-se ultrajada pela rejeição de “sua reivindicação de igual competência e dignidade”. A linguagem sociológica, um tanto abstrata, de Streeck consegue, ainda assim, evocar as figuras reais e ressentidas de Orbán, Trump, Le Pen, Farage e outros.

O objetivo de Taking Back Control? — o que inclui a reapropriação, ou pelo menos o reexame, do slogan homônimo — é arrebatar a bandeira da democracia nacional das mãos da direita e renovar o Estado-nação “como a principal arena da política democrática sob o capitalismo”, em nome de uma esquerda reformista que busca “um novo acordo aceitável entre o capitalismo e a sociedade”. Inspirando-se nas ideias de Polanyi, essa proposta política visaria subordinar o mercado às necessidades da sociedade, após uma era neoliberal globalizada em que a sociedade parecia estar subordinada ao mercado. Para tanto, Streeck contrapõe a “demonização moral” do Estado-nação e o “desprezo por sua capacidade técnica de governar” com uma defesa — especialmente no que diz respeito aos Estados-nação de menor porte — baseada em fundamentos, em certa medida, antropológicos. A constituição de fato da União Europeia — composta por “dois tratados praticamente ilegíveis” entre quase trinta países, “cada um deles com poder de veto sobre qualquer alteração” — não apenas substitui a direção democrática da economia por uma “mobilidade irrestrita de capital”, como também suplanta culturas nacionais distintas por meio de uma “utopia moral de unidade cultural, arquitetada pelo domínio tecnocrático”. O superestado que os arquitetos neoliberais da União Europeia pretendiam criar acabaria, na prática, por sufocar o poder democrático e as particularidades culturais regionais, devido à sua dimensão e centralização excessivas.[52]

Segundo a “política da escala política” de Streeck, esses passivos antidemocráticos só podem ser evitados se a UE for reformulada como uma confederação voluntária e se as prerrogativas do pequeno Estado forem reafirmadas. Ou, talvez, deva-se dizer: o pequeno Estado federado, uma vez que a descentralização do poder — em contraste, por exemplo, com o “superestado centralista dos nazistas” — parece ser, para Streeck, tão relevante quanto o tamanho absoluto do território e da população. De qualquer modo, apenas o pequeno Estado é capaz de respeitar tanto a soberania popular quanto aquilo que, com base em Gibbon e Polanyi, Streeck denomina “particularismo constitutivo da socialização humana”: afinal, “a *differentia specifica* [diferença específica] da espécie humana é a sua falta de especificidade natural”, acompanhada por uma multiplicação de línguas, culturas e visões de mundo ao longo de linhas regionais. É claro que Estados territoriais e nações culturais “quase nunca coincidem” — só sendo possível fazê-los coincidir por meio de uma violência extrema —, mas o Estado pequeno, e possivelmente federado, pode acomodar a heterogeneidade sem abrir mão da unidade; algo que um superestado europeu centralizado jamais conseguiria fazer.

Apesar da diversidade cultural constitutiva da humanidade, Streeck mantém em aberto a possibilidade de que Estados-nação “restaurados” possam convergir — numa alusão irônica à “isonomia” de livre mercado de Hayek — em direção a uma resposta comum ao capitalismo global. Munidos de poderes e de uma missão democráticos renovados, tais Estados poderiam adotar uma série de medidas para “reverter” a globalização a partir da base: encurtar as cadeias de suprimentos de bens essenciais, reduzindo, assim, sua vulnerabilidade tanto a conflitos bélicos quanto à dominação por grandes potências; comprometer-se abertamente com o “patriotismo econômico” — e até mesmo com o protecionismo —, visando proteger melhor os cidadãos dos “efeitos colaterais adversos” do capitalismo; reorientar a política econômica para o crescimento interno, isto é, “produção doméstica para consumidores domésticos”; desmercantilizar a oferta de bens coletivos, como transporte público, educação e saúde; e criar um sistema de finanças nacionais substancialmente socializado, voltado para a produção e o consumo internos — em consonância com a máxima de Keynes, publicada em 1933 na Yale Review:

Ideias, conhecimento, ciência, hospitalidade, viagens — são coisas que, por sua própria natureza, deveriam ser internacionais. Mas que os bens sejam de produção local, sempre que isso for razoável e convenientemente possível; e, acima de tudo, que as finanças sejam primordialmente nacionais.

A redescoberta, por esses meios, de uma social-democracia nacional — alcançada de forma independente por diversos atores que se afastaram da globalização — constituiria, então, o desdobramento da era neoliberal, estabelecendo um sistema entre Estados que respeitasse a soberania de regimes econômicos alternativos. Aqui, Streeck recorre ao argumento de Polanyi em favor da coexistência pacífica de diferentes sistemas de planejamento regional, logo após a Segunda Guerra Mundial — antes que a administração Truman impulsionasse sua polarização em blocos antagônicos, como prelúdio para a vitória do “capitalismo universal”.[55] Para Streeck, assim como para Milanovic, um aspecto relevante da ascensão da China é o fato de ela tornar esse pluralismo sistêmico uma realidade concreta — algo que uma Europa democratizada (ou social-democratizada) poderia buscar expandir e enriquecer, à medida que seus Estados-nação procuram uma saída “para baixo” do neoliberalismo na era pós-globalista.

Contudo, é uma ideia mais fantasiosa do que Streeck admite supor que a lógica de tal desenvolvimento resida no “particularismo universal” da espécie humana; afinal, mesmo “pequenos Estados” — que abrigam milhões ou dezenas de milhões de habitantes — revelam-se, em qualquer escala temporal antropológica, entidades políticas verdadeiramente gigantescas, que reduzem o cidadão individual quase ao esquecimento. Certamente, uma comunidade genuína — em oposição a um “pertencimento” ilusório, tal como o fervor dos torcedores por uma seleção nacional — exigiria uma escala ainda menor. Por outro lado, a relativa uniformidade internacional nas políticas econômicas — que, na visão de Streeck, poderia ser o resultado comum de tantas restaurações da soberania nacional — pressupõe um universalismo latente, que a esquerda já não proclama abertamente e que o próprio Streeck rejeita de forma explícita. Em conjunto, essas ressalvas — segundo as quais o Estado-nação acaba sendo, simultaneamente, amplo demais para constituir uma comunidade e estreito demais para abrigar a universalidade — sugerem que o novo nacionalismo tem mais chances de representar uma etapa de transição histórica do que uma configuração humana definitiva.

Contudo, essas são questões filosóficas tangenciais ao argumento político de Streeck — embora pudessem ser mais bem exploradas em um sistema internacional pluralista e não hegemônico, como o defendido por ele (assim como por Polanyi), em vez de sob um regime de globalização dominado pelos EUA, que buscou submeter todos os Estados a uma única regra. Seu verdadeiro mérito reside em construir um argumento convincente de que a esquerda deveria ser a legítima beneficiária e condutora de uma retomada da soberania nacional e da democracia, após ambas terem sido perdidas para a globalização neoliberal.

Até onde vai o recuo?

Independentemente de seu destino final ou de sua natureza política, é inegável a dimensão das iniciativas recentes de nacionalismo econômico — ou, como Ilias Alami e Thea Riofrancos denominam em um ensaio recente, "capitalismo de Estado". Alami e Riofrancos analisam as transformações ocorridas desde o ano 2000: os fundos soberanos, que na virada do milênio detinham menos de US$ 1 trilhão em ativos, hoje controlam cerca de US$ 15 trilhões; as empresas estatais gerenciam US$ 54 trilhões — um montante mais de quatro vezes superior ao registrado em 2000; e, entre 2017 e 2023, houve um aumento de nove vezes no anúncio de novas políticas industriais. Tarifas, proibições de importação e cotas também se multiplicaram ao redor do mundo — ainda que a imposição e a remoção erráticas de medidas protecionistas por parte de Trump dificilmente constituam uma política industrial de longo prazo, servindo, muito provavelmente, apenas para facilitar o uso de informações privilegiadas por aliados do governo.

E, no entanto, o comércio e as finanças internacionais continuam praticamente como eram antes da pandemia de Covid-19 e da guerra entre Rússia e Ucrânia; seu curso ainda não foi alterado de forma decisiva por intervenções estatais. Afinal, os fundos soberanos de riqueza aproveitam-se da desregulamentação financeira transfronteiriça da mesma maneira que o capital privado; e, na medida em que geram receita estatal por meio da especulação financeira — em vez da tributação pública —, podem ser vistos mais como um reforço ao neoliberalismo do que como um fator de sua erosão. Apesar das empresas estatais chinesas, as companhias controladas pelo Estado continuam, em escala global, muito menores do que as empresas privadas, cujas estratégias de investimento ditam, em grande parte, as estratégias das próprias estatais. Além disso, segundo estimativas do Banco Mundial, a participação do comércio internacional na economia global aumentou em 2025, atingindo 68% — o patamar mais elevado já registrado. Como sugere a análise de Alami e Riofrancos sobre a busca de Trump por "minerais críticos", o novo nacionalismo econômico permanece, até o momento, um fenômeno mais setorial do que abrangente.

Em outras palavras, a globalização neoliberal sofreu, até agora, uma derrota mais ideológica do que prática. Contudo, esse revés intelectual e político não deve ser subestimado. Analistas e políticos ao redor do mundo já não podem recorrer aos preceitos neoliberais — que eram tanto mais eficazes por serem considerados consensos tácitos, quase um "senso comum" — para justificar suas políticas econômicas (ou a ausência delas). Eles já não conseguem contemplar a globalização neoliberal com um deslumbramento silencioso, nem, de forma mais resignada, alegar impotência diante das dinâmicas de mercado. Não que o fracasso da globalização neoliberal em promover a prosperidade generalizada que prometeu fosse, por si só, suficiente para decretar seu fim ideológico; a retórica da inevitabilidade — o famoso "não há alternativa", de Thatcher — poderia, em tese, ter sido retomada sempre que a retórica utópica fracassasse. Mas esse fatalismo não resistiu ao exemplo contundente da China: uma saída em massa da pobreza acompanhada por um crescimento acelerado, alcançados por meio de métodos que se aproximam de um capitalismo de Estado. Uma lição dessa magnitude fragmentou o "pensamento único" neoliberal e abriu caminho, nos países ocidentais ricos, para experiências explícitas de nacionalismo econômico. As consequências ideológicas são imensas: se os Estados dispõem da possibilidade de assegurar o bem-estar nacional à revelia dos mercados globais, eles também assumem a responsabilidade de fazê-lo.

É verdade que o nacionalismo econômico que ressurge em nosso tempo traz, como uma das possibilidades, um clientelismo ufanista e estreito, no qual governos favorecem empresas ou setores específicos — alegando representar o interesse geral, mas que, na realidade, refletem interesses bastante particulares. Alami e Riofrancos observam que a administração Trump facilitou o acesso a “minerais críticos” estrangeiros tanto para um banco de investimentos dirigido pelos filhos do Secretário de Comércio quanto para uma startup de capital de risco na qual os filhos mais velhos de Trump detêm uma participação de proporções não reveladas. Assim como outros esquemas da era Trump, essas concessões nepotistas assemelham-se mais a esforços personalizados para saquear uma economia nacional em declínio do que a um programa real voltado a consolidar o crescimento geral com base em uma nova política industrial. Contudo, o fato de o nacionalismo econômico ser invocado de maneira cínica ou confusa não impede que ele seja defendido de forma sincera e inteligente por outros atores políticos. Políticos do mainstream, sem dúvida, testarão até que ponto podem intervir no Estado em nome da sociedade como um todo, sem alarmar bases eleitorais ainda fiéis a um modelo de acumulação privada praticamente irrestrito. Os movimentos socialistas, por sua vez, enfrentarão uma resistência ainda maior por parte do capital ao proporem políticas dessa mesma natureza — embora, ao fazê-lo, lidem com menos contradições internas. Alami e Riofrancos apontam para uma oportunidade para a esquerda, implícita no que tem sido, até o momento, uma incursão no nacionalismo econômico predominantemente conduzida por forças de direita ou de centro:

Projetos de esquerda ao redor do mundo precisam desenvolver suas próprias experiências — incluindo a retomada da capacidade institucional pública — para exercer um controle coletivo, racional e consciente sobre a infraestrutura que sustenta a vida social, econômica e ecológica.[58]

Naturalmente, o fracasso da globalização não garante que o sucesso aguarde os nacionalistas econômicos — sejam eles de direita, de esquerda ou de centro. Historicamente, a resposta mais satisfatória ao “dilema nacionalista” — isolacionista e expansionista, nos termos de Suesse — tem sido, primeiro, isolar e, depois, expandir: proteger empresas e setores nacionais selecionados até que se tornem exportadores competitivos internacionalmente, voltados para países que não impõem barreiras à importação de bens estrangeiros. Em outras palavras, o nacionalismo econômico em um determinado país costumava ser bem-sucedido na medida em que outros países se abstinham de adotar tal nacionalismo, ao menos nos setores relevantes de suas próprias economias. Por outro lado, a substituição de importações — que visa à troca permanente de produtos importados por alternativas produzidas internamente — corria o risco de se tornar uma receita para a fabricação ineficiente de bens com preços excessivos. Esse cenário só poderia ser evitado mediante o estímulo a uma concorrência interna tão intensa que acabaria por anular as economias de escala, devido a um excesso de empresas — as quais, em pouco tempo, poderiam colapsar e derivar para a situação oposta: o monopólio. Isso sem mencionar que o capital privado invariavelmente buscava contornar os controles de capitais em busca de retornos mais elevados no exterior; ou que salários internos elevados — por mais desejáveis ​​que sejam em si mesmos — acabam por minar tanto o padrão de vida da burguesia nacional quanto a competitividade internacional dos exportadores.

Em suma, mesmo as iniciativas de nacionalismo econômico mais bem-sucedidas sempre representaram, para qualquer país capitalista, um arranjo inerentemente instável, no qual o “totem” do interesse nacional falhava em conciliar os interesses contraditórios de diferentes classes sociais. Menos ainda se pode esperar que a renovada competição internacional entre Estados resulte, no futuro, em um nível comum de prosperidade — especialmente em um contexto marcado por estagnação, excesso de capacidade produtiva e dívidas crescentes. Ademais, qualquer país que caia em uma situação de pobreza relativa corre o risco de ver sua soberania formal ser acompanhada por uma dominação real, exercida por rivais mais ricos. Em outras palavras, os países capitalistas contemporâneos não conseguem escapar da globalização neoliberal sem cair, inevitavelmente, nas armadilhas tradicionais do nacionalismo econômico. De fato, se Merchant estiver correto ao afirmar que a recente guinada nacionalista na economia política apenas aprofundará a desaceleração global — da qual, ironicamente, promete oferecer uma saída —, então os desafios inerentes ao nacionalismo econômico acabarão, na verdade, sendo amplificados durante esse período de afastamento do cenário mundial.

Possibilidades?

A redescoberta tardia do nacionalismo econômico parece, contudo, oferecer uma oportunidade clara para uma esquerda socialista que, desde o início, jamais aceitou a separação — ou a “quarentena” — entre economia e política. Mas, se é assim, por que o nacionalismo econômico de direita — termo jornalístico comum para isso é "populismo" — tem encontrado, até agora, mais aceitação entre o eleitorado do que qualquer nacionalismo econômico ou populismo de esquerda? Figuras que podem ser descritas como nacionalistas econômicos de direita conquistaram o poder em países importantes ao redor do mundo, enquanto legendas como o Reform (Reino Unido) e o Rassemblement National (França) aguardam sua vez nos bastidores. A esquerda não pode ostentar feitos semelhantes. Na Grécia, o Syriza obteve uma vitória retumbante nas urnas em 2015, apenas para se comprometer, quase imediatamente, com a austeridade e o euro. Nos anos seguintes, primeiro Corbyn, no Reino Unido, e depois Sanders, nos Estados Unidos, lançaram tentativas plausíveis de assumir o controle dos partidos de centro-esquerda em seus respectivos países, buscando transformá-los em instrumentos de um populismo de esquerda — mas acabaram não obtendo sucesso. Isso ecoou o impasse, em maior escala, enfrentado pelos governos da "onda rosa" na América Latina, que surgiram como resposta à crise neoliberal no Sul Global a partir de 1998. Talvez os exemplos mais significativos de nacionalismo econômico de esquerda — se é que o termo não é grandioso demais — nesta década tenham sido o segundo mandato de Lula no Brasil, que incluiu a retomada, em 2023, do programa Bolsa Família e investimentos expressivos na preservação da floresta tropical; e o mandato de Sheinbaum no México, que instituiu uma pensão para mulheres trabalhadoras entre 60 e 64 anos — abrangendo tanto o setor informal quanto o trabalho doméstico não remunerado —, além da implementação de um programa de atendimento médico domiciliar para idosos e pessoas com deficiência. (Sheinbaum também prometeu uma forma básica de cobertura universal de saúde a partir de 2027.) A modéstia desses programas chama mais a atenção do que a sua ambição.

Como explicar o relativo fracasso da esquerda eleitoral em tirar proveito do ressurgimento do nacionalismo econômico? Ao contrário dos partidos de esquerda, as legendas de direita e do "centro morto" possuíam credenciais capitalistas inquestionáveis, o que lhes permitia promover a intervenção estatal sem despertar o espectro do comunismo. Por outro lado, as antigas forças social-democratas de centro-esquerda despertavam — e de fato despertaram — uma desconfiança específica sempre que defendiam uma orientação e restrição mais incisivas do mercado; contudo, raramente estavam dispostas a fazê-lo, dadas as visões e os interesses materiais dos segmentos mais prósperos e da classe gerencial-profissional que compunham sua base eleitoral. Por fim, e talvez o mais importante, tanto a centro-esquerda quanto a esquerda radical mostraram-se menos dispostas — e não mais — do que outras correntes políticas a restringir o livre fluxo daquele fator de produção crucial: a mão de obra imigrante. As fronteiras vigiadas por administrações de centro-esquerda em países desenvolvidos estavam, naturalmente, longe de serem "fronteiras abertas"; ainda assim, revelavam uma ambivalência constrangida em relação à migração em massa — um equilíbrio entre um antirracismo cosmopolita e uma avidez insaciável por mão de obra barata, carecendo, porém, da clareza implacável da direita nativista. Era um tema que os políticos de esquerda, em geral, preferiam evitar, a menos que — como na Dinamarca de Frederiksen ou na Grã-Bretanha de Starmer — buscassem competir com a direita na aplicação rigorosa e punitiva do controle das fronteiras nacionais.

Ainda assim, o populismo de esquerda ou o nacionalismo econômico podem ter um futuro mais promissor a longo prazo do que sugerem as frustrações de Corbyn, Sanders e — até o momento — Mélenchon, ou o refluxo da "onda rosa" na América Latina. Se, para os eleitores mais velhos, moldados pela Guerra Fria, qualquer menção à intervenção estatal na economia ainda soa como motivo de preocupação, o mesmo não se aplica às gerações mais jovens: para elas, o termo "socialismo" tende a evocar imagens de transporte público gratuito e creches, em vez das privações típicas do modelo soviético. Talvez não agora, mas em breve, poderá tornar-se uma vantagem para os socialistas o fato de que — ao contrário de seus pares liberais e de direita, que dependem fortemente dos defensores da acumulação privada — eles podem se comprometer, sem ressalvas, com a repolitização da economia. Mais importante ainda, a lógica do capitalismo contemporâneo contém o potencial de inverter a valência política da migração em massa, em benefício da esquerda. Ultimamente, a chegada de um grande número de imigrantes de pele mais escura a países ricos — majoritariamente brancos — forneceu à direita um argumento valioso e politicamente eficaz. Pouco importa que esses trabalhadores tenham ocupado postos de serviço de baixa remuneração e reforçado a base tributária — contribuindo muito mais do que retirando empregos dos cidadãos nativos; segundo o tipo de "trabalho onírico político" analisado por Seymour, a presença desses imigrantes em um novo país servia, por meio da cor de sua pele, para ilustrar — de forma concreta, porém invisível e sem relação causal real — as ameaças que pairam sobre uma população provincial em envelhecimento: a desindustrialização, o eclipse cultural e a própria mortalidade. Para sua própria vergonha, grande parte da centro-esquerda eleitoral acabou por tolerar — ou, na melhor das hipóteses, ignorar — essa fobia, que goza de uma respeitabilidade indevida.

Uma postura diferente e mais lúcida sobre a imigração aguarda os políticos que tiverem a coragem de defendê-la. Há anos, os jornais trazem, lado a lado, narrativas contraditórias: por um lado, as populações nativas dos países ricos estão envelhecendo e diminuindo — devido às baixas taxas de fecundidade —, o que ameaça a solvência fiscal do Estado; por outro, essas mesmas populações ressentem-se da chegada de imigrantes, que são, em sua grande maioria, mais jovens e possuem famílias maiores. A direita não tem resposta para esse dilema, a não ser fantasiar com a fecundidade da população branca, promovendo políticas natalistas — como as que se revelaram um fracasso retumbante na Hungria de Orbán. Assim, a política convencional, ou de centro, vê-se paralisada diante desse impasse: deseja realizar deportações em um ritmo que, muitas vezes, iguala ou supera o de governos de direita, ao mesmo tempo em que evita manifestações explícitas — e socialmente inaceitáveis ​​— de racismo.

Grandes recompensas podem aguardar uma esquerda que finalmente admita e abrace a lógica da situação, apostando que a prosperidade e o dinamismo evidentes, proporcionados pela migração em massa, superam qualquer estagnação movida pelo ressentimento — especialmente à medida que os eleitores mais velhos desaparecem. Essa esquerda celebraria e incentivaria a imigração em larga escala, em vez de apenas tolerá-la; uma postura que, de modo algum, é incompatível com a exposição dos recém-chegados a um certo nacionalismo cultural inócuo, capaz de despertar o orgulho de muitos cidadãos nativos — por exemplo, por meio da oferta de antologias de literatura e cinema nacionais, aulas de música e dança tradicionais, e um compromisso nacional explícito com a liberdade de culto. Mantidas as demais condições, uma população em crescimento significa uma economia em expansão; e, nas próximas décadas, talvez se questione a política do início e meados da década de 2020, que via a chegada e a integração de jovens trabalhadores como algo incompatível com formas atraentes de nacionalismo econômico.

Outra oportunidade para a esquerda, no contexto do renascimento do nacionalismo, é mais remota e teórica, mas não menos importante. Vale ressaltar que, na esteira de Friedrich List, o novo nacionalismo econômico contesta a separação entre economia e política — um pilar fundamental da doutrina neoliberal. Até o momento, contudo, essa contestação tem ocorrido de forma tímida e hesitante. Entre os políticos de destaque, os porta-vozes do nacionalismo econômico são, em sua maioria, liberais inquietos que ganham tempo ao redescobrir o papel do Estado na vida econômica, ou chauvinistas de direita cujo medo da globalização não se traduz em nenhuma alternativa coerente a ela. De maneiras distintas, Merchant, Milanovic, Seymour e Streeck sugerem que essas investidas nervosas ou hostis em direção ao nacionalismo econômico não serão suficientes para mitigar a desigualdade e a desaceleração que pretendem enfrentar. Mas será que esse fracasso, tanto do centro liberal quanto da direita, não poderia, na verdade, favorecer o socialismo ou o comunismo? Afinal, ao contrário dos populistas de direita ou dos liberais que apenas adiam decisões, a esquerda pode levar às suas últimas consequências a premissa de que a economia não está — nem deveria estar — isolada da política democrática.

Muitos pensadores de esquerda argumentam que essa própria separação formal entre a tomada de decisão econômica privada e as políticas públicas é, na verdade, um elemento constitutivo do próprio capitalismo. Nesse caso, a recusa a essa separação, por parte de políticos burgueses de qualquer matiz, jamais pode ser mais do que provisória e fragmentária. Somente na esquerda radical a reunificação da política e da economia pode surgir como uma forma abrangente de democracia, indo além de um protecionismo assistemático para superar o capitalismo por completo e alcançar a socialização plena — não necessariamente a estatização — dos meios de produção, financiamento e troca. O resultado é que, para a política burguesa, o nacionalismo econômico pode representar um avanço em relação ao liberalismo ou ao *laissez-faire*, mas não passa de uma ideologia de transição incompleta, que racionaliza a confusão e a contradição. Para a esquerda, ele pode, em princípio, ser algo distinto: um portal para uma vida além do capital.

Mudança de cenário

Seja como for, os nacionalismos econômicos da atualidade surgem em um contexto global muito diferente daquele da economia mundial em rápido crescimento — que, nas décadas de 1950 e 1960, antes da onda neoliberal, abrigava tanto o desenvolvimentismo nos países pobres quanto o keynesianismo nos países ricos. Sobretudo, o contraste nas perspectivas ecológicas não poderia ser mais acentuado: desde os primórdios da "revolução verde" — que impulsionou drasticamente a produtividade agrícola, ao mesmo tempo em que reduziu a população camponesa global a uma fração do seu tamanho no período pré-guerra — até o caos climático do século XXI, que ameaça desestabilizar a produção de alimentos nas próximas décadas, entre outras perturbações de magnitude semelhante.

Quase todos os livros discutidos acima pelo menos reconhecem a gravidade dos nossos problemas ecológicos. Streeck, por exemplo, sugere que os pequenos Estados-nação podem estar mais abertos do que as vastas burocracias à persuasão moral de Greta Thunberg e dos seus camaradas sobre a necessidade de enfrentar “a crise do ambiente global”. Neste sentido, estes livros são culpados daquilo que Jason Moore critica como “aritmética verde”: a compreensão ecológica apenas se acrescenta à crítica da economia política sem a transformar, como se o capital pudesse acumular-se e os défices ambientais aumentarem em colunas perfeitamente separadas do nosso livro intelectual e político. mas pelo menos é necessário fazer uma tentativa, se quisermos que os Estados-nação do século XXI não apareçam como contornos vazios num mapa, vazios do terreno físico e do clima onde as populações nacionais encontram a sua felicidade, ou não o fazem. Muito drama já foi transmitido às carreiras dos Estados-nação pelo facto de as suas populações poderem admitir grandes mudanças ao longo de pequenos períodos de anos; mais drama surgirá da combinação deste facto com outro, nomeadamente o de que as paisagens e os territórios – rios, glaciares, tundra, florestas, campos, costas – não serão doravante mais ecologicamente estáveis ​​do que as populações são demograficamente estáticas.

Seymour, em Disaster Nationalism, constitui a excepção à regra de que as considerações do novo nacionalismo económico negligenciam o terreno ecológico ou o ambiente natural em que se assenta. Ele observa as projecções de que as alterações climáticas e as catástrofes naturais associadas irão deslocar 1,2 mil milhões de pessoas até meados do século e admite que este dilúvio de refugiados poderá “intensificar a pressão nacionalista para regimes fronteiriços mais violentos”, mesmo que tais resultados devam sempre ser considerados como escolhas políticas e não como processos naturais por direito próprio. Seymour também conjetura que a destruição generalizada de capital fixo – seja em campos férteis ou em instalações industriais – por condições climáticas extremas poderá retirar capital sobreacumulado suficiente para inaugurar um novo e mais robusto ciclo de acumulação. É claro que estas possibilidades sombrias não excluem o potencial emancipatório também presente no desastre ecológico, mas sobre este complemento utópico do seu inventário geral, Seymour é decididamente abstrato: “É no movimento histórico que a consciência é elevada e a vida democrática é construída”.[62]

A premissa de qualquer nacionalismo económico assenta na disponibilidade estável e contínua dos rudimentos de prosperidade e segurança dentro das fronteiras nacionais – e é precisamente esta premissa que uma era de calamidade ecológica parece prestes a ser cancelada para a maioria dos Estados-nação. É verdade que alguns países excepcionalmente grandes e ecologicamente diversos, como os EUA, a China, o Brasil e a Rússia, poderão ser capazes de absorver secas e incêndios florestais crescentes e mais frequentes, furacões e inundações, vórtices polares e cúpulas de calor, sem destinar uma parte tão grande do seu território à assistência em catástrofes que a prosperidade nacional fique comprometida. Mas a maioria dos Estados – territorialmente mais pequenos e mais uniformes – são incapazes de proteger as suas apostas ecológicas da mesma forma que os Estados enormes, pela sua própria natureza, o fazem. Os desastres ambientais regionais são, consequentemente, susceptíveis de se transformarem em desastres económicos de âmbito nacional, nos quais um Estado fica dependente dos seus próprios recursos justamente quando menos capaz de ser autossuficiente. Tais episódios dificilmente são calculados para reavivar o fascínio decrescente da globalização neoliberal, que sempre deixou os Estados sitiados à sua própria sorte e a rezar por caridade – mas também não parecem recomendar um nacionalismo económico demasiado estrito, distante da cooperação internacional e da ajuda mútua. Tal isolamento implica simplesmente demasiada vulnerabilidade a sofrimentos imprevisíveis.

Muito mais atraente, ao que parece, seria a colocação numa rede de acordos bilaterais ou multilaterais entre Estados – idealmente, ecossocialistas –, que limitariam o seu próprio consumo de recursos e a poluição ambiental a níveis consistentes com a viabilidade de sociedades complexas e concordariam em reconstruir as infra-estruturas danificadas uns dos outros e em abrigar os residentes deslocados uns dos outros, de acordo com a necessidade. Por mais improváveis ​​que tais pactos possam parecer neste momento, a alternativa a eles hoje são os tratados climáticos globais apenas honrados em caso de violação – e, amanhã, a degradação social e natural centrífuga de Estados-nação isolados. Pode-se imaginar uma situação em que estados que, por enquanto, permanecem mais ou menos ambientalmente intactos, saqueiam ou invadem os seus pares menos afortunados, tomando para si a diminuída mas ainda valiosa capacidade agrícola, as instalações industriais, o parque habitacional e as matérias-primas do Estado vítima – uma espécie de hitlerismo ecológico.

Por ora, a recente redescoberta do nacionalismo econômico tende a pressupor que o Estado-nação ainda pode ser considerado uma unidade distinta, de certa forma independente das realidades do clima e da biosfera, que não respeitam fronteiras. Tal pressuposto é de má-fé. Em termos ecológicos, o Estado-nação não é um compartimento estanque, mas sim uma compartimentalização mental. Ao encararmos de frente a nova realidade ecológica do século XXI — a suscetibilidade persistente, porém imprevisível, de todos os países à degradação ecológica —, somos também lembrados de um dos princípios mais antigos e tradicionais da política de esquerda: a ideia de que nenhum nacionalismo que se preze existe sem um internacionalismo que o acompanhe. Apesar de todas as suas controvérsias e complexidades, a chamada "questão nacional" no debate marxista clássico baseava-se em algumas premissas simples. Por um lado, a população de um determinado território — composta, em sua esmagadora maioria, pela classe trabalhadora — é quem tem o direito de definir sua própria política, independentemente de quaisquer pretensões externas; daí o apoio de Marx e Engels à independência da Irlanda e da Polônia, e o de Lênin à autodeterminação nacional de modo geral. O fim do imperialismo formal não torna esse princípio obsoleto.

Ao mesmo tempo, a visão de uma integração socialista — ou, hoje, ecossocialista — abrangente em escala global sempre atraiu os marxistas, apontando para um futuro no qual os trabalhadores de todos os países poderiam se unir e as populações nacionais desfrutariam, finalmente, de soberania suficiente para, então, diluí-la no que Rosa Luxemburgo descreveu como "uma economia socializada, conduzida em escala mundial segundo um plano uniforme". A fragilidade da abordagem marxista clássica sobre a questão nacional sempre residiu na negligência teórica quanto aos estágios intermediários entre a autodeterminação isolada e uma revolução mundial abrangente: como Estados-nação socialistas, dotados de autodeterminação, poderiam se articular para fortalecer e ampliar os esforços uns dos outros em um mundo que permanece, em sua essência, capitalista? É possível que, neste século, a questão da formação e do crescimento de blocos de esquerda compostos por múltiplos Estados volte a adquirir relevância prática.

A globalização neoliberal aproximou-se, por um breve período — mais do que qualquer outro momento na história —, de um modelo único de economia "conduzida em escala mundial segundo um plano uniforme". Isso representou uma realização invertida e farsesca dos objetivos universais da esquerda revolucionária, tal como compreendidos por Rosa Luxemburgo. Nossa tragédia é que, agora, algumas décadas mais tarde, nenhuma contraordem socialista ou comunista pode surgir, a não ser sob condições de degradação ecológica planetária jamais imaginadas pelos teóricos originais da questão nacional. A situação inverte o provérbio de Marx: a farsa (neoliberal) precede a tragédia (ecossocialista). Contudo, a simples proposição de que o ecossocialismo é preferível à etnobarbárie não depende de tais ironias. Seria absurdo esperar que ele possa prevalecer, de país em país?

1. Guillaume Apollinaire, Calligrammes: Poems of Peace and War (1913–1916), trans. Anne Hyde Greet, Berkeley and Los Angeles 1980.
2. Eric Hobsbawm, The Age of Extremes: The Short Twentieth Century, 1914–1991, New York 1995, p. 29; Nations and Nationalism since 1780: Programme, Myth, Reality, Cambridge 1990, p. 3.
3. Branko Milanovic, ‘To the Finland Station: Trump as a Tool of History’, Global Inequality and More 3.0, 7 January 2025.
4. James Kynge, Jude Webber and Christine Murray, ‘China’s New Back Doors into Western Markets’, ft, 5 September 2024.
5. Tooze, ‘Great Power Politics: What Was Bidenomics?’, lrb, 7 November 2024.
6 Nicholas Mulder, ‘Interludes of Abundance’, nlr 155, Sept–Oct 2025, reviewing Arnaud Orain’s Le monde confisqué: Essai sur le capitalisme de la finitude ( xvi e– xxi e siècle), Paris 2025. On the intellectual history of the concept, see István Hont’s Jealousy of Trade: International Competition and the Nation State in Historical Perspective, Cambridge ma 2005; Eric Helleiner, The Neomercantilists: A Global Intellectual History, Ithaca ny 2021.
7 In its most bathetic form, this was Thomas Friedman’s ‘Golden Arches Theory of Conflict Prevention’, which proposed that war would not break out between two countries sufficiently prosperous and well-integrated into the global economy as to boast McDonald’s franchises. Not articulated by Friedman until 1996, the theory seemed nevertheless to allow for a conflict such as the 1990–91 Gulf War: a us war fought by an international coalition bearing a un mandate, against a country with an isolated and state-dominated economy. Nor did McPeace last long even on its own terms: in 1999, the us and nato bombed Serbia, where the first McDonald’s in Eastern Europe had opened its doors in 1988. See Friedman, ‘Foreign Affairs Big Mac I’, nyt, 8 Dec 1996; elaborated in The Lexus and the Olive Tree, New York 1998.
8 Respectively: World Bank Data: Trade (percentage of gdp); ‘External Sector Report: Balances Receding’, imf, July 2024.
9 Milanovic, ‘To the Finland Station’.
10 David Harvey, A Brief History of Neoliberalism, Oxford 2005, p. 1.
11 Philip Mirowski and Dieter Plehwe, eds, The Road from Mont Pèlerin: The Making of the Neoliberal Thought Collective, Cambridge ma 2009; Quinn Slobodian, Globalists: The End of the Empire and the Birth of Neoliberalism, Cambridge ma 2018.
12 Robert Brenner, ‘The Economics of Global Turbulence’, nlr 229, May–June 1998; an expanded version was published by Verso in 2006.
13 The ‘Washington Consensus’ was so named in a conference brief drafted by John Williamson of the Peterson Institute for International Economics, spelling out ‘What Washington Means by Policy Reform’ (1989).
14 Harvey, Brief History, p. 40; Melinda Cooper, Counterrevolution: Extravagance and Austerity in Public Finance, Princeton 2024; on which, see also Nic Johnson, ‘What the Thunder Said’, nlr 156, Nov–Dec 2025.
15 Bob Woodward, The Agenda: Inside the Clinton White House, New York 1994, p. 84.
16 Perry Anderson, ‘Renewals’, nlr 1, Jan–Feb 2000, p. 17.
17 Marvin Suesse, The Nationalist Dilemma: A Global History of Economic Nationalism, 1776–Present, Cambridge 2023.
18 As List wrote in The National System of Political Economy: ‘The result of a general free trade would not be a universal republic, but, on the contrary, a universal subjection of the less advanced nations to the predominant manufacturing, commercial and naval power.’ List (1789–1846) was the son of a master tanner in Württemberg who, at sixteen, entered the lowest clerical rank of the Duchy’s administration and, as a young civil servant, campaigned for a customs union of the German lands, that would abolish the many barriers between the petty states to create a common market big enough to support industrialization, within a larger ring of external protective tariffs, buttressed by local democratic representation. For this he was sentenced to prison, given early release only on condition that he emigrate to America, which he reached via a sojourn in Paris, mixing in democratic circles. In the us between 1825–33, List made contact (through Lafayette) with American economic nationalists, as well as investing—at first profitably, then disastrously—in Pennsylvanian coal and railroad ventures. The Jackson Administration sponsored his return to Europe in 1833 on a diplomatic posting. There he zigzagged between Leipzig, Paris and Augsburg, tirelessly writing and campaigning for national-economic development, despite increasing poverty and ill-health; he took his own life in late 1846, little more than a year before the eruption of the great continental wave of revolutions that would owe so much to his thought.
19 Suesse, The Nationalist Dilemma, pp. 163ff.
20 Respectively, Suesse, The Nationalist Dilemma: Ghana, pp. 194ff; Malaysia, pp. 253ff; Mao, pp. 151ff; Buchanan, pp. 307ff.
21 Bill Clinton, remarks made at the dedication of the Ronald Reagan Building and International Trade Center in Washington dc, 5 May 1998.
22 Suesse, The Nationalist Dilemma, pp. 10, 324.
23 Suesse, The Nationalist Dilemma, p. 326.
24 Nathan Sperber, ‘Beyond Neoliberalism?’, nlr 158, March–April 2026.
25 Respectively: Jamie Merchant, Endgame: Economic Nationalism and Global Decline, London 2024, henceforward, eg. Richard Seymour, Disaster Nationalism: The Downfall of Liberal Civilization, London and New York 2024, henceforward, dn; Wolfgang Streeck, Taking Back Control?: States and State Systems after Globalism, trans. Ben Fowkes and Joshua Rahtz, London and New York 2024, henceforward tbc; Branko Milanovic, The Great Global Transformation: National Market Liberalism in a Multipolar World, London 2025, henceforward tggt.
26 eg, 11–13.
27 eg, 73, 13.
28 eg, 153–54.
29 eg, 154, 134.
30 eg, 135.
31 eg, 197. The concept of a Western capitalist ‘holding pattern’ was drawn from Gopal Balakrishnan, ‘Speculations on the Stationary State’, nlr 59, Sept–Oct 2009.
32 tggt, 3.
33 tggt, 5, xiii.
34 tggt, 21–22.
35 tggt, 29, 41.
36 Joseph Schumpeter, ‘The Sociology of Imperialisms’ [1918–19], cited in tggt, 67.
37 tggt, 75–76.
38 ‘Middle-class’: The Great Global Transformation retains the us Cold War euphemism for the American working classes.
39 tggt, 76.
40 tggt, 152, 156.
41 tggt, 197.
42 dn, 3.
43 dn, 27.
44 dn, 42.
45 dn, 46.
46 tbc, ix, xii.
47 Wolfgang Streeck, Buying Time: The Delayed Crisis of Democratic Capitalism, trans. Patrick Camiller and David Fernbach, London and New York 2014.
48 tbc, xii.
49 tbc, xii.
50 tbc, 53, 254.
51 tbc, 53, 52.
52 tbc, 56, 57, 191, 199.
53 tbc, 164, 159.
54 John Maynard Keynes, ‘National Self-Sufficiency’, Yale Review, vol. 22, no. 4, 1933, cited in tbc, 297.
55 Karl Polanyi, ‘Universal Capitalism or Regional Planning?’, London Quarterly of World Affairs, vol. 10, no. 3, 1945, discussed in tbc, Chap. One.
56 Ilias Alami and Thea Riofrancos, ‘Trumpian State Capitalism: Critical Minerals Security and us Economic Interventionism’, Phenomenal World, 10 June 2026.
57 Alami and Riofrancos, ‘Trumpian State Capitalism’.
58 Alami and Riofrancos, ‘Trumpian State Capitalism’.
59 ‘A long time ago I suddenly realized that the country one belongs to is not, as the usual rhetoric goes, the one you love but the one you are ashamed of’, wrote the late Carlo Ginzburg in ‘The Bond of Shame’, nlr 120, Nov–Dec 2019. This strikes me as powerfully true as far as history and current events go. Culturally, on the other hand, the country one belongs to is more often cause for pride, and it seems impossible to think of the culture—the music, film and literature, the visual arts and architecture—of any country that one knows at all well as devoid of peculiar and vindicating glories.
60 tbc, xv.
61 Jason Moore, Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital, London and New York 2015, pp. 2, 22, 78–81.
62 dn, 193, 205.
63 Rosa Luxemburg, ‘The National Question’, in The National Question: Selected Writings, ed. Horace Davis, New York and London 1976 [1909], p. 190.

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