29 de fevereiro de 2016

O socialismo e o feminismo não entram às vezes em conflito?

Em última análise, os objetivos do feminismo radical e do socialismo são os mesmos – justiça e igualdade para todas as pessoas.

por Nicole M. Aschoff

Jacobin

Ilustração por Phil Wrigglesworth
Socialismo e feminismo têm uma relação longa, e por vezes pesada.

Socialistas são muitas vezes acusados de enfatizarem demais a questão de classe – de colocar a divisão estrutural entre aqueles que precisam trabalhar em troca de um salário para sobreviver e aqueles que possuem os meios de produção no centro de cada análise. Até pior, eles ignoram ou inferiorizam o quão centrais outros fatores – como sexismo, racismo ou homofobia – são na formação de hierarquias de poder. Ou eles admitem a importância destas normas e práticas negativas, mas defendem que elas somente poderão ser extirpadas depois que a gente se livrar do capitalismo.

Ao mesmo tempo, socialistas acusam feministas hegemônicas de se focar demais em direitos individuais ao invés da luta coletiva, e ignorar as divisões estruturais entre as mulheres. Eles acusam as feministas hegemônicas de se alinharem com projetos políticos burgueses que diminuem a capacidade de ação de mulheres trabalhadoras, ou de pressionar por demandas de classe média que ignoram as necessidades e desejos de mulheres pobres, tanto no Norte Global quanto no Sul.

Estes debates são antigos e datam da metade do século XIX e da Primeira Internacional, e giram em torno de questões políticas profundas sobre poder e as contradições da sociedade capitalista.

Turvando ainda mais as águas está a forma com que as políticas do feminismo são complicadas pela natureza histórica do Capitalismo – a forma como o sexismo está integrado tanto no processo de lucro quanto no de reprodução do sistema capitalista como um todo é dinâmico.

Este dinamismo é muito aparente hoje, quando uma mulher candidata à presidência, Hillary Clinton, é a principal escolha entre os milionários estadunidenses. Mas a divisão entre Socialismo e Feminismo é, em definitivo, desnecessária.
Por que Socialistas deveriam ser Feministas

A opressão às mulheres, tanto na sociedade dos EUA quanto globalmente, é multi-dimensional – divisões de gênero nas esferas política, econômica e social sublinham por que, para nos libertar das tiranias do Capital, os Socialistas precisam ser também Feministas.

A possibilidade de uma mulher finalmente se tornar presidenta dos EUA joga luz sobre a rígida falta de lideranças femininas, tanto nos EUA quanto ao redor do mundo. Apesar de mulheres poderosas como Angela Merkel, Christine LeGarde, Janet Yellen e Dilma Rousseff, o equilíbrio de gênero nos mundos político e corporativo permanece altamente enviesado. Apenas 4% dos CEOs nas empresas da Fortune 500 são mulheres e a maioria das mesas diretoras de corporações têm poucos membros femininos, quando têm algum.

Globalmente, 90% dos Chefes de Estado são homens, e no Fórum Econômico Mundial de 2015 apenas 17% dos 2500 representantes eram mulheres, enquanto 2013 marcou a primeira vez que as mulheres conquistaram 20 cadeiras no Senado dos EUA.

Diferente de muitos países, as mulheres nos Estados Unidos possuem, a grosso modo, direitos igualitários e proteção legal, além de tanto acesso a educação, nutrição e cuidados de saúde quanto os homens. Mas as divisões de gênero são aparentes através da sociedade.

As mulheres se saem melhor que os homens na educação superior, mas elas não atingem níveis comparáveis de sucesso ou riqueza e permanecem estereotipadas e sub-representadas na mídia popular. Ataques aos direitos reprodutivos femininos [2] continuam sem diminuir e, depois de uma longa e contínua queda nos anos 90, as taxas de violência contra as mulheres não se movem desde 2005.

Ao mesmo tempo, decisões sobre como balancear a vida doméstica e de trabalho, diante de custos sempre crescentes de moradia e cuidado infantil, são tão difíceis quanto sempre foram. Nos 50 anos desde a passagem do Ato de Pagamento Igualitário de 1963 as mulheres penetraram na força de trabalho em massa; hoje 60% das mulheres trabalham fora de casa. Mães solteiras e casadas têm mais chance de trabalhar, incluindo 57% de mães de crianças de menos de 1 ano.

Mas mulheres que trabalham em jornada completa ainda ganham apenas 81% do que os homens ganham – um número inflado pelo declínio mais rápido nos salários de homens nos últimos anos (com exceção dos que possuem diploma superior) nos anos recentes.

Diferenças de pagamento são comparáveis às divisões de gênero no trabalho. Os setores de varejo, serviços e alimentação – o centro do crescimento de novos empregos – são dominados por mulheres, e a feminização do trabalho de “assistência” é ainda mais pronunciado. Apesar de ganhos recentes, como a extensão do Ato de Padrões Justos de Trabalho aos trabalhadores domésticos, trabalho de assistência [3] ainda é visto como trabalho de mulher e sub-valorizado. Números desproporcionais de empregos de cuidados são contingentes, pagam pouco e onde humilhações, assédio, agressões sexuais e roubo de salário são comuns.

Em adição a estas diferenças claras entre as experiências de homens e mulheres nos EUA, existem efeitos mais perversos e de longo alcance do sexismo. Feministas como bell hooks argumentam que o sexismo e o racismo impregnam todos os cantos da sociedade e que narrativas dominantes de poder glorificam visões de vida brancas e heteronormativas.

Desde o nascimento, meninos e meninas são tratados diferentemente e estereótipos de gênero são introduzidos em casa, na escola, e na vida cotidiana e perpetuados através das vidas das mulheres, dando forma às suas identidades e escolhas de vida.

O sexismo também exerce um papel menos óbvio, mas crítico, na criação de lucros. Desde o começo, o Capitalismo tem dependido de trabalho não-pago fora do mercado de trabalho (principalmente no lar) que provê ingredientes essenciais para a acumulação de capital: trabalhadores – que precisam ser criados, vestidos, alimentados, socializados e amados.

Este trabalho não-pago é altamente marcado pelo gênero. Enquanto mais homens tomam parte nas tarefas domésticas e na educação infantil do que no passado, a reprodução social ainda cai primariamente sobre as mulheres, de quem se espera que carreguem nos ombros o fardo mais pesado no trabalho doméstico. A maioria das mulheres também faz trabalho pago fora de casa, tornando o seu trabalho em casa um “segundo turno.” Desta forma, mulheres são duplamente oprimidas – exploradas no espaço de trabalho e não-reconhecidas como trabalhadoras na reprodução social da força de trabalho.

Por que feministas deveriam ser socialistas

Estas divisões de gênero que atravessam as classes e persistem – nas esferas política, econômica e social – dão combustível ao ponto de vista feminista dominante de que o sexismo é uma coisa separada do Capitalismo, algo com que precisamos lidar separadamente.

Através de numerosas ondas de luta feminista, ativistas tem perseguido uma variedade de estratégias no combate ao sexismo e a divisões de gênero. Hoje, feministas hegemônicas gravitam rumo a um foco em colocar a mulher no poder – tanto na esfera política quanto econômica – como um caminho para resolver a série de problemas que as mulheres encaram, tais como desigualdade salarial, violência, equilíbrio entre vida e trabalho e socialização sexista.

Eminentes porta-vozes femininas [4] como Sheryl Sandberg, Hillary Clinton, Anne-Marie Slaughter e muitas outras defendem esta estratégia feminista de “tomada de poder.” Sandberg – uma das mais influentes defensoras desta estratégia – argumenta que as mulheres precisam parar de ter medo e começar a “desbaratar o status quo.” Se elas fizerem isso, ela acredita que esta geração pode diminuir a lacuna de lideranças e, ao fazer isso, tornar o mundo um lugar melhor para todas as mulheres.

O impulso do argumento de tomada de poder é que se as mulheres estivessem no poder elas, diferente dos homens, iriam dar conta de implementar políticas que beneficiariam mulheres e aquela divisão de gênero que atravessa classes nas esferas econômica, política e cultural somente será eliminada se as mulheres mantiverem um número de posições de liderança igual ao dos homens.

A ênfase em avanços individuais como o caminho para atingir os objetivos do Feminismo não é nova, e tem sido criticada por numerosas feministas, incluindo Charlotte Bunch e Susan Faludi, que questionam a noção de solidariedade entre irmãs como um remédio para divisões de gênero muito enraizadas. Como Faludi diz, “Você não pode mudar o mundo para as mulheres apenas inserindo rostos femininos no topo de um sistema intacto de poder social e econômico.”

Feministas-Socialistas como Johanna Brenner também apontam para como o feminismo hegemônico encobre tensões profundas entre mulheres:

“Nós podemos generosamente caracterizar como ambivalentes as relações entre mulheres da classe trabalhadora/pobres e as mulheres profissionais de classe média cujos trabalhos são erguer e regular aqueles que vêm a serem definidos como problemáticos – os pobres, os não-saudáveis, os que não se encaixam culturalmente, os sexualmente não-conformistas, os pouco-educados. Estas tensões de classe vazam nas políticas feministas, enquanto feministas de classe-média afirmam representar as mulheres trabalhadoras.”

Então, enquanto é certamente necessário reconhecer o quão dividida por gênero a sociedade contemporânea permanece, também é necessário manter os olhos abertos sobre como superar essas divisões e, igualmente importante, reconhecer as limitações de um Feminismo que não desafia o Capitalismo.

O Capital se alimenta sobre normas existentes de sexismo, compondo a natureza exploradora do trabalho assalariado. Quando as ambições e desejos das mulheres são silenciados ou sub-valorizados, é mais fácil de tomar vantagem delas. O sexismo é parte da caixa de ferramentas da companhia, permitindo às empresas pagar menos para as mulheres – particularmente negras – e discriminá-las de outras maneiras.

Mas mesmo se nós extirparmos o sexismo, as contradições inerentes ao Capitalismo vão persistir. É importante e necessário que as mulheres assumam posições de poder, mas apenas isso não vai mudar a divisão fundamental entre trabalhadores e proprietários – entre mulheres no topo e mulheres na base. Não vai mudar o fato de que a maioria das mulheres se encontra em empregos precários, de baixo salário, que representam uma barreira bem maior ao avanço e a uma vida confortável que o sexismo na esfera econômica ou política. Não vai mudar o poder da busca pelo lucro e a compulsão das companhias por dar às trabalhadoras e trabalhadores tão pouco quanto as normas econômicas, sociais e culturais permitirem.

É claro, a sociedade não é redutível a relações salariais e as divisões de gênero são reais e persistentes. Levar a questão de classe a sério significa ancorar a opressão feminina dentro das condições materiais em que elas vivem e trabalham, enquanto reconhecendo o papel do sexismo na formação das vidas das mulheres tanto no trabalho quanto em casa.

O movimento feminista – tanto sua encarnação de “Bem-Estar Social” quanto a radical contemporânea – tem tido ganhos significativos. O desafio agora é duplo: defender essas duras vitórias e tornar possível a todas as mulheres realmente aproveitá-las; e pressionar adiante por demandas novas e concretas que lidem com as relações complexas entre o sexismo e a busca por lucro.

Não há resposta simples sobre como atingir estes objetivos gêmeos. No passado, mulheres tiveram os maiores ganhos ao lutar tanto por direitos das mulheres quanto direitos dos trabalhadores simultaneamente – ligando a luta contra o sexismo à luta contra o Capital.

Como Eileen Boris e Anelise Orleck argumentam, durante os anos 70 e 80 “feministas sindicalistas ajudaram a revitalizar o movimento das mulheres que deflagrou novas demandas de direitos femininos em casa, no trabalho e dentro de sindicatos.” Aeromoças, trabalhadoras do setor têxtil, da igreja e domésticas desafiaram os movimentos sindicais dominados por homens (uma mulher não sentou na mesa executiva da AFL-CIO até os anos 80) e no processo forjaram um novo Feminismo, mais expansivo.

Mulheres sindicalistas criaram um novo campo de possibilidades ao demandar não apenas salários mais altos e oportunidades iguais, mas também creches, escalas de trabalho flexíveis, licença-maternidade, e outros ganhos normalmente negligenciados e subvalorizados por seus irmãos sindicalistas.

Esta é a direção em que tanto Socialistas e Feministas deveriam estar se orientando – rumo a lutas e demandas que desafiem tanto as tendências do Capital quanto as normas arraigadas do sexismo que estão enraizadas tão fundo sob o Capitalismo.

Lutas e demandas que atingem isso são concretas e estão atualmente sendo travadas. Por exemplo, a luta por um sistema público e gratuito de saúde – que proveria cuidados de Saúde como um Direito para toda pessoa, do berço ao túmulo, independente de sua capacidade de pagar – é uma demanda que mina ambos o sexismo e o poder do Capital de controlar e reprimir a ação trabalhadora. Há muitas outras demandas concretas de curto-prazo que misturam os objetivos do Feminismo e do Socialismo também, incluindo Educação Superior gratuita, creches gratuitas, e uma Renda Básica Universal combinados com uma rede robusta de segurança social.

Estas reformas estabeleceriam as bases para objetivos mais radicais que iriam longe na extirpação do sexismo, da exploração e da mercantilização da vida social. Por exemplo, projetos para aumentar o controle coletivo e democrático sobre instituições centrais para nossas vidas em casa, na escola ou no trabalho – escolas, bancos, espaços de trabalho, prefeituras, agências estatais e locais – dariam a todas as mulheres e homens mais poder, autonomia e a possibilidade de uma vida melhor.

Esta estratégia anticapitalista é uma que contém a possibilidade de mudanças radicais de que as mulheres precisam.

Em última análise, os objetivos do Feminismo radical e do Socialismo são os mesmos – justiça e igualdade para todas as pessoas, não simplesmente oportunidades iguais para as mulheres ou participação igual por mulheres em um sistema injusto.

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