21 de fevereiro de 2008

Loucura eleitoral

Por Howard Zinn [*]

Na Flórida há um homem que me escreve há anos (dez páginas manuscritas), apesar de que nunca nos encontramos. Ele me fala dos diversos trabalhos que já teve — guarda de segurança juramentado, técnico em consertos, etc. Já trabalhou de tudo que é jeito, à noite, de dia, conseguindo sustentar sua família com muita dificuldade. Suas cartas estão sempre cheias de raiva, lançam pragas contra nosso sistema capitalista, incapaz de garantir aos trabalhadores "a vida, a liberdade e a busca da felicidade".

Justamente hoje recebi uma de suas cartas, que por sorte não é manuscrita: agora ele usa o correio eletrônico. "Bom, hoje estou escrevendo porque neste país há uma situação calamitosa, que acho intolerável, e tenho que dizer algo sobre isso. Estou realmente enfurecido com esta crise das hipotecas. Estou irritado com isto de que a maioria dos norte-americanos tenham que viver suas vidas em condições de perpétuo endividamento e de que tantos estejam afundando sob tanto peso. Fico furioso, maldita seja! Hoje trabalhei como guarda juramentado, e minha tarefa foi vigiar uma casa que foi embargada e vai a leilão. Abriram a casa para os interessados e eu estava lá, para fazer a vigilância durante as visitas. No mesmo bairro estavam outros três guardas juramentados que faziam a mesma coisa em outras casas. Nos momentos calmos eu ficava ali sentado me perguntando quem seriam as pessoas despejadas e onde elas estariam agora".

No mesmo dia em que recebi a carta, o Boston Globe publicou um artigo intitulado "Milhares de casas embargadas em Massachussets em 2007". O subtítulo declara: "foram embargadas 7.563 casas, quase o triplo que em 2006". Poucas noites antes, a CBS tinha informado que 750.000 pessoas discapacitadas esperam há anos para receber seus pagamentos da assistência social, porque o sistema de previsão tem orçamento insuficiente e não há pessoal suficiente para atender todas as demandas, nem sequer as mais graves.

Histórias como estas podem até aparecer na mídia, mas desaparecem num piscar de olhos. O que não desaparece, o que mantém a imprensa ocupada dia após dia, impossível de ignorar, é o frenesi eleitoral.

Esta paixão toma conta do país a cada quatro anos, porque todos fomos educados na crença de que votar é fundamental para determinar nosso destino, que o ato mais importante que um cidadão pode realizar é ir às urnas, cada quatro anos, para eleger uma das duas mediocridades que já foram escolhidas para nós por outros. É um teste com respostas de seleção múltipla tão limitado, tão trapaceiro, que nenhum professor de respeito seria capaz de utilizá-lo como exame para seus alunos.

E é triste dizer isto, mas a disputa presidencial hipnotizou da mesma maneira a esquerda liberal e os radicais. Todos somos vulneráveis.

Será que é possível, nestes dias, encontrar os amigos e evitar o tema de conversa das eleições presidenciais?

As mesmas pessoas que deveriam estar mais atentas, as que nunca se cansam de criticar a pressão da mídia sobre a consciência nacional, percebem que estão paralisadas pela imprensa, grudadas na televisão, enquanto os candidatos dão tapinhas nas costas e sorriem enunciando uma infinidade de chavões com uma solenidade digna de poesia épica.

Nos chamados jornais de esquerda também, temos que admitir, se presta uma atenção desmedida ao exame minucioso dos principais candidatos. Ocasionalmente se dá uma olhadinha nos candidatos menores, apesar de que todo o mundo sabe que o nosso maravilhoso sistema político democrático não vai deixar que nenhum deles ultrapasse o marco da porta.

Não; não estou adotando uma postura de ultra-esquerda, segundo a qual as eleições seriam totalmente irrelevantes, ou seja que deveríamos nos recusar a votar para preservar a pureza da nossa moralidade. É claro que há candidatos que são um pouco melhores do que outros, e em certos momentos de crise nacional (os anos 30, por exemplo, ou hoje), mesmo uma diferença pequena entre os dois partidos pode ser uma questão de vida ou morte.

Do que estou falando é de um senso da proporção que desaparece com a loucura eleitoral. Você vai ficar do lado de um candidato e contra o outro? Sim, durante dois minutos; o tempo que basta para depositar a cédula na urna.

Mas antes e depois desses dois minutos, nosso tempo, nossa energia, precisamos dedicá-los a instruir, mobilizar, organizar nossos concidadãos em seus locais de trabalho, em nosso bairro, nas escolas. Nosso objetivo deveria ser construir, laboriosamente, pacientemente, mas energicamente, um movimento que, uma vez alcançada uma certa massa crítica, pudesse ter influência sobre qualquer um que estiver na Casa Branca ou no Congresso, para impor uma virada na política nacional nas questões da guerra e da justiça social.

É preciso lembrar que mesmo quando existe um candidato claramente melhor (sim, melhor Roosevelt que Hoover; melhor qualquer um do que Bush), essa diferença vai ficar em nada, a menos que o poder do povo esteja tão firme que para os ocupantes da Casa Branca se torne muito difícil ignorá-lo.

As políticas sem precedentes do New Deal –assistência social, seguro desemprego, criação de vagas de emprego, salário mínimo, subvenções para habitação— não foram simplesmente o resultado da postura progressista de Roosevelt. A administração Roosevelt, quando chegou ao poder, encontrou uma nação efervescente de agitação. O último ano da administração Hoover tinha visto a rebelião do Bônus Army: milhares de veteranos da primeira guerra mundial marcharam sobre Washington para exigir ajudas ao Congresso porque suas famílias estavam passando fome. Houve manifestações de desempregados em Detroit, Chicago, Boston, Nova York e Seattle.

Em 1934, no início do período presidencial de Roosevelt, ocorreram greves em todo o país, incluída uma greve geral em Mineapolis, uma greve geral em San Francisco, centenas de milhares de pessoas cruzaram os braços nas fábricas de têxteis do Sul. Por todo o país surgiram conselhos de operários desempregados. As pessoas, desesperadas, mobilizaram-se de maneira autônoma, obrigando a polícia recolocar os móveis dentro das casas dos locatários despejados e criando organizações de auto-ajuda com centenas de milhares de membros.

Sem uma crise nacional –pauperização econômica e rebelião—, dificilmente a administração Roosevelt teria empreendido aquelas valentes reformas.

Hoje podemos estar certos de que o Partido Democrata, a menos que se enfrente a uma sublevação popular, não vai sair do centro. Os dois principais candidatos à presidência deixaram claro que, se forem eleitos, nem vão acabar com a guerra do Iraque imediatamente, nem vão instituir um sistema de assistência sanitária gratuita para todos.

Não oferecem uma mudança radical com respeito ao statu quo.

Suas propostas não são nada do que o desespero popular exige com urgência, ou seja: a garantia do governo de um trabalho para todos aqueles que precisam, uma renda mínima para todas as famílias, uma ajuda para aqueles que correm risco de ser despejados e ter suas casas leiloadas.

Não sugerem recortes significativos dos gastos militares ou reformas radicais no sistema fiscal que poderiam liberar bilhões, ou até trilhões, para destiná-los a programas sociais para transformar nosso modo de vida.

Nada disto deveria nos causar assombro. O Partido Democrata só rompe com seu conservadorismo histórico, com seu desejo de satisfazer os ricos, com sua predileção pela guerra, quando se encontra com uma rebelião dos de baixo, como aconteceu nos anos 1930 e nos anos 1960. Não deveríamos esperar que uma vitória nas urnas comece a curar o país de suas duas doenças fundamentais: a cobiça do capitalismo e o militarismo.

Por isso, deveríamos nos libertar da loucura eleitoral em que está submersa toda a sociedade, incluída a esquerda.

Sim. Dois minutos. Antes e depois temos que nos mobilizar pessoalmente contra todos os obstáculos que atravessam o caminho da vida, da liberdade e da busca da felicidade.

Por exemplo, os embargos que estão privando milhões de pessoas de suas casas deveriam nos fazer lembrar de uma situação muito parecida ocorrida após a guerra revolucionária [de Independência], quando os pequenos granjeiros, muitos deles veteranos da guerra (como são também hoje muitos dos sem-teto) não podiam se permitir pagar os impostos e foram ameaçados de perder suas terras e suas casas. Eles se reuniram em milhares diante das cortes de justiça e impediram a execução dos leilões.

Hoje, o despejo das pessoas que não conseguem pagar seus aluguéis deveria trazer à nossa memória o que fizeram as pessoas nos anos 1930, quando se mobilizaram e, desafiando as autoridades, fizeram com que os pertences das famílias despejadas fossem colocados novamente em suas casas.

Historicamente, o governo —estivesse em mãos de republicanos ou de democratas, de conservadores de direita ou de liberais de esquerda— sempre fracassou quanto a assumir as próprias responsabilidades, até ser pressionado pela mobilização direta: manifestações de todo tipo pelos direitos dos negros, greves e boicotes pelos direitos dos trabalhadores, rebeliões e deserções dos soldados para terminar com a guerra. Votar é um gesto fácil e de utilidade marginal, mas é um pobre substituto da democracia, que exige a ação direta de cidadãos comprometidos. [The Progressive]

[*] Howard Zinn é co-autor, junto com Anthony Arnove, de Voices of a People's History of the United States. Seu livro mais recente é A Power Governments Cannot Suppress (Um poder que os governos não podem suprimir).

15 de fevereiro de 2008

Um outro retrato de Stálin

Por Annie Lacroix-Riz [*]

Le Monde Diplomatique | Não há palavras suficientes para descrever a importância da obra As guerras de Stálin, recém lançada pelo historiador britânico Geoffrey Roberts [1]. Desde 1989, seus trabalhos rejeitam a caricatura de Joseph Stálin armada pela “sovietologia” francesa, então sob o comando de estudiosos do comunismo como Stéphane Courtois e François Furet.

Roberts descreve em seu livro o período entre 1939 e 1953, desde os primórdios da Segunda Guerra Mundial e até morte de Stálin, e cruza os arquivos soviéticos com testemunhos políticos e militares a posteriori. As duas partes iniciais, que abrangem o pré-guerra e a guerra, são as mais apaixonantes, além de melhor documentadas. A primeira, com três capítulos, é consagrada ao período que separa o pacto de não-agressão entre Alemanha e URSS, de 23 de agosto de 1939, e a invasão nazista ao território soviético, em 22 de junho de 1941. Inclui ainda a “guerra de inverno” contra a Finlândia (dezembro de 1939 – março de 1940), uma antologia da propaganda anti-soviética e as execuções de Katyn, episódio em que oficiais do exército polonês foram massacrados pelos soviéticos. A culpa por este último episódio recaiu, por muito tempo, sobre os alemães.

A “grande guerra patriótica”, dividida em seis capítulos, apresenta Stálin como um chefe político e militar que sabe discutir e delegar e que enfrentou resistências e dificuldades terríveis no começo de seu governo. Segundo o historiador, o líder soviético tirou inúmeras lições valiosas dos revezes e das extraordinárias vitórias que abateram a Wehrmacht, as forças armadas nazistas. As etapas dessa guerra de extermínio alemão e de heroísmo soviético são descritas com um talento e uma paixão cativantes.

Roberts, aliás, utilizou largamente os recursos da historiografia militar anglo-saxã, que se renova há mais de dez anos sem cessar. Nela se distinguem algumas obras como o livro de David M. Glantz e Jonathan M. House [2] sobre a guerra e sua condução, que abriu caminho para numerosos escritos recentes, e um trabalho de Michael Jabara Carley, que discute a propagação da “russofobia” [3]. Outro destaque é a edição feita por Antony Beevor e Luba Vinogradova das “cadernetas de guerra” do jornalista e escritor Vassili Grossman [4], que descrevem o cotidiano dos soldados do Exército Vermelho. Correspondente do jornal russo Krasnaya Zvezda (Estrela Vemelha), Grossman acompanhou passo a passo as movimentações das tropas russas no front oriental da Segunda Guerra.

“O Ocidente” é divido em três capítulos, que mostram a hegemonia dos Estados Unidos pós-1945 e buscam relatar como os americanos transformaram os heróis e aliados soviéticos em inimigos da Guerra Fria. Roberts postula o erro de percepção americano sobre as intenções da URSS, que seriam pacíficas, mas mal interpretadas por Washington. Sua abordagem psicológica afasta-o dos “revisionistas” dos Estados Unidos. Estes defendem que os soviéticos, tão indispensáveis até o início de 1945, não puderam resistir à capacidade dos Estados Unidos de reduzi-los à impotência. Mas Roberts partilha com os historiadores “radicais” a análise da dupla obsessão de Stálin: assegurar por algumas décadas a segurança da URSS, devastada, e manter, contra todas as marés, os esforços de coexistência pacífica com “o campo imperialista”, nascidos com Lênin.

Em sua grande obra de 1964 (A Rússia em Guerra, Stock, Paris), Alexander Werth já advertia contra a reescritura krucheviniana da história soviética, sistematicamente anti-stalinista. Ele requeria um exame sereno sobre o papel daquele que foi celebrado por centenas de milhões de pessoas como o artífice essencial da vitória contra o Reich hitleriano e contra o fascismo, dentro da URSS e fora dela. O livro de Roberts, descrevendo um líder revolucionário que foi também patriota, constitui trabalho da maior importância no caminho para essa interpretação defendida por Werth.

Notas:

1. Stalin’s wars: from World War to Cold War, 1939-1953 [As guerras de Stálin: da Guerra Mundial à Guerra Fria, 1939-1953], Londres, Yale University Press, 2006.
2. When titans clashed: how the Red Army stopped Hitler [Conflito de titãs: como o Exército Vermelho parou Hitler]. Lawrence, University Press of Kansas, 1995.
3. Years of war in the East, 1939-1945: a review article [Anos de guerra no Leste, 1939-1945: uma revisão], Londres/Nova York, Estudo Europa-Ásia, março de 2007.
4. Carnets de guerre: de Moscou à Berlin 1941-1945 [Cadernetas de guerra: de Moscou a Berlin 1941-1945], Paris, Calmann-Lévy, 2007.

[*] Professora de história contemporânea na Universidade de Paris VII, autora dos livros O Vaticanos, A Europa e o Reich (1914-1944), A Escolha da Derrota: As Elites Francesas nos anos 1930.

4 de fevereiro de 2008

Vencer a mundialização

Georges Labica

The Official Georges Labica Website

A Mundialização não é uma pessoa. O Mercado e a Bolsa também não. E no entanto, comportam-se como pessoas. É por isso que se diz: «a Mundialização impõe que…», «o Mercado exige que…», ou «as Bolsas chegam a acordo a fim de…». Estas não pessoas submetem as pessoas, pois são muito mais poderosas que elas. Constituem, de qualquer modo, uma nova Santíssima Trindade, a cujos caprichos e humores as pessoas se devem submeter. Evocam-se «os choques da Mundialização», «a pouca saúde do Mercado» (ex. a sua «ebriedade financeira»), assim como «as turbulências da Bolsa». E estas três jamais entram em conflito. Pelo contrário, os seus relógios são regulados uns pelos outros, a Bolsa representando o papel do relógio falante ou do bonecreiro que puxa os cordelinhos…das pessoas evidentemente, que se vêem condenadas a uma filosofia da resignação inspirada, à escolha, pela Anankè, pela Providence ou pelo Mektoub, aux desseins tout aussi impenetráveis. As «cartas estão lançadas», «o jogo está aberto», como diz a novilíngua. É preciso viver com o facto, quer se seja do primeiro, do segundo, do terceiro ou do quarto mundo. Alguns espíritos simples armam ao fino, falando do «fim da História, da ideologia…dos feijões», da «era do vazio», e declinando a «declinologia». Dar-se-ão conta que esta partenogénese do capitalismo que é a mundialização, faz agora pesar sobre a humanidade a pior ameaça, a da sua destruição, pela desregulação económica, o apodrecimento ambiental e a explosão nuclear, ou, o que é mais provável, os três duma só vez? Os nossos lamentáveis Pythies anunciam o Dilúvio, que não era antigamente, há cerca de 5000 anos, mais que um fantasma, ligado talvez a uma recordação muito antiga. No livro de Gilgamesh, do tempo de Sumer, o deus Enlil, cansado da barulheira e da pletora dos homens teria decretado a sua destruição pelas águas, mas Ea, o deus benfazejo, teria permitido a Utanapishtim de se escapar ao castigo com a sua família, os seus animais e os seus bens. No Génsis, Yahvé, arrependendo-se de ter criado os homens, tornados tão ruins, condena-os, junto com os animais, a uma sorte parecida, mas poupando Noé, o justo, que autoriza a salvar os outros seres vivos. Cansados, hoje, para nós, tudo se passa como se os deuses tivessem decidido acabar com tudo, sem poupar um único sobrevivente. Engels pressentiu-o, sem dúvida, ao assimilar Deus ao Capital. Fomos apanhados neste sistema sem saída.

A natureza e as malfeitorias do sistema são perfeitamente conhecidas, não só através das experiências dos povos que são suas vítimas, mas pelas confissões dos próprios que o serviram e observaram a partir do interior, - do «criminoso de guerra» Brzezinski, aos Soros, Stiglitz e outros escroques. Centenas de livros e milhares de artigos lhe foram já consagrados. O entusiasmo que acolheu a queda do muro de Berlim, símbolo do afundamento dos países ditos «socialistas», não durou, mesmo no campo dos «vencedores», mais de dez anos. Os sonhos de democracia e de paz confundidos com o liberalismo à escala planetária, desmoronaram-se por sua vez. As promessas que podiam inspirar o devir duma livre circulação das pessoas, dos bens e das ideias, o fim da escassez, a partilha dos conhecimentos e o mútuo enriquecimento das culturas, revelaram-se o que de facto eram - abstracções idealizadas. Os defensores da «mundialização feliz» ou da sua conversão positiva a partir do interior, tornaram-se raros. Também não se coloca aqui a questão de reabilitar o capitalismo dos seus «erros», porque ele não comete nenhum erro (relativamente a quem, a quê, a si próprio?). O capitalismo age conforme à sua essência, como diria Spinoza. As direitas e as social-democracias no poder asseguram incessantemente, sobretudo durante os períodos eleitorais, a sua vontade de «reduzir as desigualdades», de «lutar contra o desemprego» ou de «defender o poder de compra». Dissimulam a sua impotência nestes domínios, que não são outros senão os do sistema a que aderem, invocando a fatalidade, como se o capitalismo fosse regido por leis naturais. A verdadeira mundialização, a do mercado, manifesta-se nos três domínios:

1. dos mercados a conquistar (a concorrência exacerbada entre monopólios), que impõe privatizações, deslocalizações, despedimentos, flexibilidade do trabalho;

2. O facto que tudo se torna mercadoria (general marchandising), do comércio das armas, das drogas e da prostituição, até às modas e aos gostos relativos ao vestuário, culinários e artísticos;

3. Do reino do mercado financeiro, graças ao qual a especulação leva a melhor sobre a produção, as selvajarias bolsistas subvertem as contabilidades nacionais e o consumo, promovido à categoria de ideal de vida, corre atrás da sobreprodução.

Nesta feira, que torna explosiva a anarquia do mercado, por detrás do ecrã das «leis» da economia, ganha o mais forte. O imperialismo dos Estados Unidos, «única nação necessária» (W. Clinton), que subordina os seus associados da Tríade (Europa, Japão), fez-se o senhor do mundo que macdonaldiza, e cocacolonisa à vontade, exercendo uma fascinação de massas pelo «american way of life», do jean à língua, enquanto que, desde o fim da guerra e dos acordos de Bretton Woods, a «governança» mundial é assegurada por super-organismos colocados sob o seu controlo, tais como o FMI, o BM, a OMC ou a OCDE. O papel das nações e portanto, o exercício das soberanias populares, indispensáveis à manutenção e à extensão das políticas sociais, vê-se assim eliminado. Assim, no momento em que se sabe que os 7 países industrializados encaixam 1.600 biliões de dólares de rendimentos provenientes da venda do petróleo e que 2% da população mundial detém 50% das riquezas, a França, por exemplo, que não é um país «emergente», conta 7 milhões de pobres e na mesma semana de Outubro de 2007, expõe as suas contradições com o contraste de duas publicações. Uma, Convergences, orgão do Socorro Popular, traz como título de primeira página Alerta Pobreza. O outro, Point de vue, periódico reaccionário, procede da mesma forma com o título Políticas, estrelas e milionários.

É notório que nenhum crescimento pode reduzir as desigualdades, que se vão aprofundando sem parar, seja no plano da alimentação, da etnia, da cultura, do sexo, da nacionalidade ou do trabalho. Um continente inteiro, África, sofre uma condenação à miséria e à exploração piores que as do colonialismo, quando as riquezas, em particular do seu subsolo, lhe deveriam permitir um desenvolvimento harmonioso. A corrupção estabeleceu-se nas esferas dos regimes mais «civilizados» e as máfias de poder estatal fazem valer a sua lei à luz do dia.

A mundialização não se limita ao mercado, ela mostra igualmente o seu suporte mascarado que é a violência. A violência mundializada fixa-se em dois planos: do lado do econômico, chegado ao ponto de comandar o político, encontra-se essencialmente o militar, que pretende controlar pela força as reservas de energia e impedir todo e qualquer desenvolvimento autônomo nacional. As guerras da atualidade - Afeganistão, Iraque, Líbano, Palestina, e as programadas para o futuro - Irã, Coreia do Norte ou Síria, são precisamente conduzidas pelo país que funciona à força de conflitos desde o seu nascimento, os Estados Unidos, que não podem existir sem dispor de um outro maldito, seja o Índio de outrora, o comunista num passado recente ou agora o islamita. A guerra é uma política, que se acoberta, para as opiniões mundiais, sob a ideologia da «luta contra o terrorismo» e do discurso securitário, santificados pelo «conflito de civilização» e da «cruzada do Bem contra o Mal», enquanto os atentados do 11 de Setembro, agora objeto de suspeição, impuseram o Patriot Act como modelo a todas as nações, afim de destroçar as conquistas sociais, nocivas ao liberalismo, e de criar as condições para um controle policial das populações.

Segue-se a condenação, partilhada das direitas às esquerdas, de toda a violência, ou dito de outro modo, a carta branca passada ao Estado para monopolizar o recurso à força e reprimir tudo o que puder parecer-se com qualquer tipo de resistência.

Os chamados «processos de paz» vieram substituir a «paz» propriamente dita e mantêm o clima de violência. O pretexto do terrorismo vai ao ponto de fazer esquecer que o dito terrorismo é um assunto que apenas diz respeito às classes dominantes, que o produziram e o mantêm para assegurar a sua dominação.

Apoiada por meios de comunicação inteiramente às ordens, que se encarregam de censurar, peneirar e perverter a informação, interditando qualquer expressão crítica da ordem estabelecida, a maquinaria de enquadramento conseguiu provocar um estado moderno de servidão voluntária.

Quer isto dizer que estamos desarmados perante uma situação de tal modo apocalíptica?

Alguns fenómenos tornam visível que as coisas estão em vias de mudar. Lembro, em primeiro lugar, que a mundialização não é de modo nenhum um estado de coisas irreversível, mas sim um processo, um movimento em curso, susceptível portanto de ser contrariado. A sua necessidade é humana e não transcendente. Notaremos, antes de tudo, que o capitalismo, chamem liberal ou neo-liberal à sua forma actual, não tem nada de um sujeito de boa saúde. Está minado, como sempre esteve, pelas suas próprias crises, sendo que a que está em incubação pode desempenhar um papel nos factores conducentes à sua erradicação. Estas crises, cujo exame deixaremos aos economistas, designam-se: sobre-acumulação, recessão, especulação, estagnação, inflação, competição, ou desvalorização, sobre um fundo de saturação dos mercados, de conflitos crescimento/consumo, de inflacionismo, portanto.

Tratando das debilidades da economia americana, Alan Woods colocava à cabeça, em Julho do ano passado, em Barcelona, entre outros elementos, o peso da dívida dos EUA, que vivem às costas das outras nações, dívida essa muito mais importante que a dos países do Terceiro Mundo, e a quebra do mercado imobiliário, que se conjuga, por sua vez, com a estagnação dos salários, ao «abismo das desigualdades», à emergência duma vasta mão-de-obra, nomeadamente asiática, fracamente remunerada, ao crescimento das trocas em euros, sem esquecer o custo das operações de guerra.

Teremos em conta, por outro lado, tratando-se da metrópole do imperialismo, de um duplo fracasso, que compromete as suas pretenções hegemónicas e a sua arrogância: o relevante fracasso interno, aquando da catástrofe climática de Nova Orleães, a sua incapacidade para fazer face às suas próprias necessidades, e o fracasso externo, tanto mais pesado no plano internacional, das guerras perdidas no Iraque, no Afeganistão e, por interposição de Israel, no Líbano. No antigo «quintal das traseiras» dos EUA, quebram-se as cadeias, seja em processos que é necessário qualificar como revolucionários da Venezuela, da Bolívia, do Equador, seja pelas afirmações autonómicas do Uruguai, ou da Nicarágua, do tomar de distâncias que se anunciam, por parte da Argentina e do México, enquanto que o regime cubano, cada vez menos isolado, conseguiu manter-se, apesar de um bloqueio, velho de dezenas de anos.

A rejeição, enfim, do protocolo de Kyoto, apesar de muito moderado, apenas confirma o desprezo da administração Bush relativamente às ameaças que pesam sobre o Ambiente e, a mais longo prazo, sobre a sobrevivência do planeta. As democracias ocidentais, «desenvolvidas», não estão em último lugar, nesta balbúrdia. As contestações, os movimentos de greve e mesmo as revoltas, como a dos subúrbios, ditos «difíceis», em França, multiplicam-se e aprofundam-se, contrariando, sob a cobertura escravizante, a imposição do liberalismo.

Tendo em vista e em consequência destes fenómenos de sapa, quais são as propostas dos projectos que se oferecem como alternativas? A finalidade geral foi delineada por Rosa Luxemburgo na sua obra A acumulação do capital:

«Tendo tendência a tornar-se uma forma mundial, ele [o capitalismo] confronta-se com a sua própria incapacidade de ser essa forma mundial da produção. Ele oferece o exemplo de uma contradição histórica viva; o seu movimento de acumulação é simultaneamente a expressão, a solução progressiva e a intensificação desta contradição. Num certo grau de desenvolvimento, esta contradição apenas pode ser resolvida pela aplicação dos princípios do socialismo, ou seja, por uma forma econômica que é por definição uma forma mundial, um sistema harmonioso em si-mesmo, baseado não na acumulação, mas na satisfação das necessidades da humanidade trabalhadora e portanto, no desenvolvimento de todas as forças produtivas da Terra».

As intenções democráticas, quer se trate do estabelecimento da democracia, do seu reforço ou do prosseguimento do processo jamais concluído de democratização, são afirmadas de todos os lados, quer dizer por todas as famílias políticas e por todos os poderes, da menor organização corporativa aos Estados. Se a realidade deste desejo já não deixa lugar a dúvidas, a ponto que os próprios imperialismos já não ousam promover ou apoiar abertamente as ditaduras, pelo menos em palavras, os seus meios suscitam legitimas suspeitas.

Não existe sistema eleitoral que não esteja armadilhado na própria letra constitucional, a fim de assegurar a manutenção no poder da burguesia e dos grupos dominantes. Basta que cada um se debruce sobre o seu. A democracia «participativa», tornada cavalo de batalha do discurso de esquerda, está apenas prevista no plano do poder local. A cidadania, constantemente incensada acomoda-se à exclusão dos trabalhadores migrantes e dos não nacionais. Um pesado silêncio rodeia até a noção de auto-gestão, bem como a noção de transformação radical é vilipendiada em nome da… democracia.

Os eleitorados reagem em todo o lado, já se sabe, pela abstenção, dito de outro modo, pela recusa de exercer o seu primeiro direito democrático, o de votar. Não é a sistematização do policiamento, directamente saído da «luta contra o terrorismo» e a invocação das dificuldades económicas que fará avançar a democratização. Muitas «democracias» pelo mundo, por outro lado, apenas devem o seu reconhecimento enquanto tal à sua submissão ao modelo «ocidental» dominante.

O recurso às esquerdas é farinha do mesmo saco. Sejam políticas ou sindicais, à força de substituir por consensos e compromissos o conflito, sobre o qual assenta toda e qualquer sociedade, à força de afirmar o carácter pacífico dos seus programas e da não-violência dos seus apelos, elas integraram-se no sistema e, sob a figura de «parceiros sociais» (mais parceiros que sociais), servem-no lealmente, apenas aspirando ao balanço das alternâncias de governos na gestão do país. É sem dúvida, por isso, que as ditas esquerdas não cessam de se «reformar», de se «renovar», de se «reconstruir» e de se «refundar».

Dos Direitos do Homem, que a própria ONU, criada para os defender, não se preocupa já em os fazer respeitar em lado nenhum, mais vale não falar.

O considerável sucesso do altermundialismo, modestamente nascido da reivindicação da taxa Tobin, e que soube formular e fazer-se eco de exigências de fundo, singularmente em matéria de normas democráticas e de protecção do ambiente, parece ter-se esgotado. Atravessado por correntes e aspirações contraditórias, não representando senão camadas intelectuais saídas da pequena e média burguesia, não soube nem quis dotar-se dos meios organizativos para a sua acção, abandonando o capital de tomada de consciência que se havia constituído nos debates sobre uma «outra» mundialização.

Os foruns sociais, concomitantes do altermundialismo, e alargados hoje a cerca de 90 países, foram mais fundo, arrastando no seu movimento, quando da sua primeira expressão em Porto Alegre e internacionalmente depois do encontro de Mumbai, as massas camponesas, mas com o tempo não escaparam, também eles, à fórmula dos grandes debates vedetizados que, mesmo descentralizados como acontece actualmente, não conseguem avançar com palavras de ordem mobilizadoras e mundializadas. As grandes ideias, por mais generosas que sejam, flutuam no vácuo. Precisamente no fórum de 2004, um grande cartaz proclamava que «as pessoas não querem o desenvolvimento, que viver».

Em ambos os casos a insuficiência teórica e não apenas politicamente programática, fracassou no lançar das bases de que poderia ter sido um novo internacionalismo.

A ecologia, agora reivindicada por todo o lado, tal como a democracia, não pode representar uma via de alternativa, na medida em que ou é dissolvida em protocolos individuais ridículos, ou apropriada por grandiloquências sem efeito, ou instrumentalizada pelos poderes instalados, ou, por fim, recuperada pelas firmas capitalistas, responsáveis pela poluição.

Invoca-se com frequência o papel crescentemente determinante que os países ditos «emergentes» podem desempenhar para contrabalançar a hegemonia americana-ocidental e colocar na ordem do dia esse policentrismo tão frequentemente invocado. Uma tal prospectiva não pode no entanto, dar a esperada resposta positiva. Os países em questão, Brasil, Índia, China, não parecem nada contestar a ordem mundial dominante. Estes países entregaram ao sistema capitalista, igualmente globalizado sob este aspecto, centenas de milhões de trabalhadores que, no tempo dos países «socialistas», lhe escapavam, ainda que estes países emergentes possam gozar de autonomia político-económica.

Esta gigantesca força é ambivalente. Por um lado, ela permite produzir ao menor custo e pesar sobre as rivalidades concorrenciais dos monopólios. Por outro, fazendo entrever a promessa duma extensão sem precedentes do modo de consumo desenvolvido, até agora diferido, exerce a ameaça, no seu caso cada vez mais visível, de graves desequilíbrios no seio das nações «avançadas». A chegada ao primeiro plano dos países emergentes, que se exprime já pela sua vontade de integração, pela fascinação, do modo de vida e dos meios de a oferecer às suas camadas de novos-ricos, até à posse da energia nuclear e à adesão à Organização do comércio, não representará de modo algum um sucesso do capitalismo. Este sucesso não será/seria possível, numa perspectiva muito longínqua, senão a partir do momento em que as massas, exploradas a bom preço, conhecerem as condições de vida, e de consciência (de classe), atingidas, graças a um desenvolvimento análogo, pelos trabalhadores dos países actualmente em postura de dominação.

Pelo menos as contradições internas do sistema ver-se-ão agravadas. É também o caso da Rússia de Putin, potência re-emergente, que, procurando sair do inqualificável marasmo em que a tinha lançado a sua própria ascensão, tenta recuperar as suas capacidades internacionais e perturbar o jogo.

Do ponto de vista intelectual, alguns esperam muito das teses do «Decrescimento», explicitamente apresentadas como alternativa ao produtivismo impulsionado pela mundialização, cada vez mais desenfreado e, portanto, perigoso. Estas nem por isso resistem a diversos argumentos contrários. Como o do facto histórico que o capitalismo ultrapassou, até agora, todas as suas crises sem nunca atingir o seu ponto de saturação; ou que o carácter forçosamente individual dos dispositivos de decrescimento, semelhantes aos da ecologia, são minúsculos, perante o facto de milhões de seres humanos se encontrarem ainda na escassez dos recursos e na não satisfação das suas necessidades vitais, quando se destroem os excedentes de produção e as nações mais providas de bens têm falta de serviços públicos ou vêem-nos degradar-se (escolas, hospitais).

Concluindo, apesar do inegável interesse e do impacto crítico de muitas delas, os trâmites ou as expectativas alternativas, que aqui rapidamente evoquei, apenas constituem falsas saídas, no sentido em que se revelam inadequadas à situação que pretendem conjurar. Estas transcendências do sistema não são mais que as suas hipóstases, como Feuerbach dizia da religião.

Em consequência, o único caminho possível é o do trabalho revolucionário. Este supõe, em primeiro lugar, que não tenhamos medo das palavras, rejeitadas pela ideologia dominante em benefício da sua aceitação, ou pelo menos do seu reconhecimento geral. Como consequência directa, as palavras são arrastadas pela recusa da violência, que suscita um acordo unânime. Desta forma, também os comunistas fazem preceder todo e qualquer enunciado de contestação pela declaração tranquilizante de que para eles está fora de questão instigar à insurreição, e ainda menos tomar de assalto a Bastilha ou o Palácio de Verão.

Isto é a maneira mais segura de aceitar o sistema e as combinações internas que não o ponham em questão. Revolução é uma dessas palavras. Certamente que, ao contrário da crença duravelmente imposta pela Internacional Comunista estalinizada, é preciso convir que não existe nenhum programa, nem muito menos, nenhuma receita, dados de uma vez por todas, do processo de liquidação das relações capitalistas de produção. A cada nação, e antes de tudo aos seus trabalhadores, cabe inventar o seu, em função da sua tradição histórica, do seu nível de desenvolvimento económico e político, da relação de forças e da intensidade da luta de classes. As caricaturas do sentimento nacional, reduzido à tacanhez do chauvinismo, do «soberanismo» ou de vistas ainda mais estreitas, pelos turifários duma Europa entregue sem entraves ao liberalismo, nada podem mudar quanto à realidade que é a nação, como lugar concreto onde se afirma a soberania popular, sem a qual toda a democracia é periclitante e toda a República ilusória. Nação, povo, são outras duas dessas palavras censuradas. Ao seu lado, a palavra propriedade sofre um opróbrio semelhante, pois seria obsoleta, sendo que os pretensos proprietários - de terras, de fábricas ou de acções – não seriam mais que gestores ou directores das empresas apenas assalariados.

Apropriação, expropriação já não significam nada. Abaixo a expropriação dos expropriadores. De qualquer forma, na rubrica «regresso do exilado», registamos o reaparecimento na imprensa e na linguagem política de capitalismo, de classe, ou de imperialismo, entre outros tabus. O nome de Marx e o marxismo em pessoa são objecto de números especiais de revistas e de conjunturistas oficiais que não temem reconhecer-lhe alguma verdade na abordagem das convulsões da mundialização.

Um certo número de iniciativas recentes mostra o caminho. Aglutinando os movimentos de greve em número crescente, bem como as insubordinações no seio das organizações de esquerda que, em França, a propósito das orientações de voto sobre a Europa ou das negociações salariais e das rupturas com os reformismos de todos os matizes rebentaram no seio dos partidos políticos tradicionais, comunista e socialista, e nos sindicatos. Na CGT, um grupo, o CRI (Comunista, Revolucionário, Internacionalista), que se define por um «sindicalismo de classe», manifesta, no seu boletim, o seu interesse e a sua solidariedade com as lutas que se desenrolam noutras paragens sobre as mesmas bases que as suas. Tanto mais, que é uma realidade a ameaça de um enconchamento nacional que prepararia o novo «desafio americano», ou de um coma político, com o bipartidarismo de duas direitas milionárias e a asfixia do que foi o maior proletariado do mundo. Poder-se-á dar razão à apreciação feita por Michael Moore no seu último filme, segundo a qual na Europa os governos têm medo do povo, enquanto nos EUA o povo tem medo do seu governo?

Contra a trindade escravização/servilismo/servidão, todas as armas são boas. Um modesto exemplo é dado pela francofonia, de que alguns querem fazer um meio de impedir o nivelamento cultural e o imperialismo da língua do imperialismo. Em La Paz, desde 2001, a Coordenação Andina das Organizações Indígenas (CAOI), adoptou uma resolução exigindo o estabelecimento em toda a América latina de governos pluralistas, garantindo a participação que neles cabe por direito dos grupos autóctones. Evo Morales, na Bolívia, viria a ser a primeira expressão, de valor histórico. A criação, por 7 países da América latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai, Uruguai, Venezuela) de um Banco do Sul representa uma iniciativa consideravelmente mais ambiciosa, pois destina-se a fazer frente ao Banco Mundial e ao FMI, donde estes países se retirarão. O Grupo de Xangai, criado em 1996, por iniciativa de 5 países (China, Kazakistão, Kyrgistão, Rússia, Tajiquistão), tem vindo a suscitar um interesse crescente de outros países (Mongólia, que ocupa já um lugar de observador, Paquistão, Índia, Irão, Bielo-Rússia), e a estabelecer novas formas de cooperação, sejam elas energéticas, bancárias e culturais, ou sejam, de trabalhar para um multipolarismo, que tornará inútil a presença dos EUA na Ásia («revoluções coloridas»). O Irão, depois do Iraque de Saddam Hussein, renuncia ao comércio em dólares, em proveito do euro….

Tratando-se, enfim, da violência, farei algumas referências. Primeiro, para lembrar algumas evidências, negadas e ocultadas pelo pressuposto da recusa da violência, a saber:

1. que, a violência revolucionária é uma violência de reacção, cujas condições são criadas por uma situação vivida como insuportável, que é emancipadora, ou seja, libertadora de uma opressão;

2. que o recurso à violência política nunca é uma escolha, sobretudo da parte das massas, porque, e todas as referências históricas o atestam, são elas que pagam o preço mais pesado.

É inteiramente aberrante sugerir, como o fazem actualmente alguns belos espíritos, que teríamos de nos pronunciar, quer a favor de Gandhi, quer a favor de Lénine. Quando consideramos, por outro lado, as forças em presença, ficamos forçosamente impressionados pela sua desproporção. Aqui, a classe possuidora dispõe da dupla maquinaria, inteiramente sob seu controlo, do enquadramento politico-económico-mediático e militar que a superioridade tecnológica permite; do outro lado, os insurgentes encontram-se reduzidos, como no mercado de trabalho, às suas próprias forças, ou seja, à violência física e à disciplina que lhes falta inventar.

Violência dominante e violência dominada ou violência «muda» (Marx) e violência sangrenta: o paradigma da situação é-nos infligido, há longos, anos pelo frente a frente entre Israelitas e Palestinos. Será útil, enfim, objectar às hipócritas indignações dos depreciadores, que existem revoluções pacíficas, tais como se apresentam sob os nossos olhos as da Venezuela e da Bolívia. Regra geral, mais uma vez, quem hesitaria, a fim de «mudar o mundo», entre a legalidade das urnas e a aventura da rua?

Não existe um caminho seguro, portanto, mas uma lição pode ser avançada para pelo menos, sustentar a linha segura da alternativa mais que nunca necessária. Tomo-a de empréstimo a Sartre: «Só tenho um fio de Ariana mas suficiente: a experiência inesgotável da luta de classes». Esta experiência é válida, tanto no plano nacional para consolidar as alianças, por exemplo, entre o movimento operário e as revoltas dos subúrbios, e no plano internacional para dotar de coerência, à volta de uma nova Internacional do trabalho, às formas contestatárias ainda esparsas. Isto é o que consta já na palavra de ordem do Manifesto, que está longe de ter sido esgotada, e que supõe apoiar «em todos os países todo o movimento revolucionário contra a ordem social e política existente».

A mundialização não é um destino. Se é assimilável a uma personagem, como sugeri no início da minha comunicação, então bem pode ser deitada por terra.

É tempo de nos empenharmos nessa tarefa.

1 de fevereiro de 2008

Uma devastadora crise se revela

Robert Brenner

Against the Current

Tradução / A presente crise pode bem vir a revelar-se a mais devastadora desde a Grande Depressão. Ela manifesta profundos e irresolvidos problemas da economia real, os quais têm sido, literalmente, embrulhados em papel de dívida ao longo das últimas décadas, bem como um aperto financeiro de curto prazo de uma profundidade que não era vista desde a II Grande Guerra. A combinação entre a fraqueza da acumulação capitalista subjacente e o desmoronamento do sistema bancário é o que torna este deslizamento para o fundo tão intratável para os desenhadores de política econômica e o seu potencial de desastre tão sério. A praga dos encerramentos e das casas abandonadas – frequentemente arrombadas e despojadas de tudo, inclusive dos fios de cobre – atinge em particular Detroit e outras cidades do Midwest norte-americano.

O desastre humano que isto representa para centenas de milhares de famílias e para as suas comunidades pode ser apenas o primeiro sinal do que esta crise capitalista realmente significa. Subidas históricas nos mercados financeiros nas décadas de 1980, 1990 e 2000 – com as suas transferências de rendimento e riqueza para o 1% dos mais ricos, que definiram toda uma época – distraíram a atenção para a real fraqueza a longo prazo das economias capitalistas mais desenvolvidas. O desempenho econômico nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, medido por praticamente todos os indicadores padrão – o crescimento do produto, o investimento, o emprego e os salários - deteriorou-se década após década, ciclo econômico após ciclo econômico, desde 1973.

Os anos decorridos desde o início do presente ciclo, que teve origem nos inícios de 2001, têm sido os piores de todos. O crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) nos Estados Unidos tem sido o mais lento para qualquer intervalo de tempo comparável desde o final dos anos 1940. Incremento em novas fábricas ou equipamentos e criação de empregos têm estado, respectivamente, um terço e dois terços abaixo das médias anteriores à última Grande Guerra. Os salários reais por hora, para trabalhadores produtivos (que não de supervisão), que constituem 80% da força de trabalho, têm permanecido praticamente estagnados, arrastando-se aproximadamente ao mesmo nível desde 1979.

A expansão económica também não tem sido significativamente mais forte, quer na Europa, quer no Japão. O declínio no dinamismo económico do mundo capitalista avançado tem as suas raízes numa grande quebra na lucratividade, causada em primeiro lugar por uma tendência crónica para a sobre-capacidade no sector manufactureiro mundial, que remonta as suas origens até ao final dos anos 1960, início dos anos 1970. Por volta do ano 2000, nos Estados Unidos, Japão e Alemanha, a taxa de lucro na economia privada ainda não tinha completado uma retoma, não estando mais alta no ciclo dos anos 1990 do que o esteve no dos anos 1970.

Com uma mais baixa lucratividade, as empresas tiveram lucros reduzidos para acrescer as suas fábricas e equipamentos, bem como incentivos menores para se expandirem. A perpetuação de uma lucratividade reduzida desde os anos 1970 conduziu a um constante abaixamento do investimento, em proporção do PIB, em todas as economias capitalistas avançadas, bem como a reduções faseadas no crescimento do produto, dos meios de produção e do emprego.

A arrastada desaceleração na acumulação capitalista, bem como a compressão efectuada pelas empresas na sua massa salarial, de modo a restaurar as suas margens de lucro - para além dos cortes governamentais nos gastos sociais, feitos para escorar os lucros capitalistas – resultou num abrandamento do crescimento do investimento, assim como da procura governamental e privada e, portanto, num abrandamento do crescimento da procura como um todo. Esta fraqueza na procura agregada, resultado último da quebra de lucratividade, constitui há muito a principal barreira ao crescimento nas economias capitalistas avançadas.

Para contrariar a persistente fraqueza da procura agregada, os governos, dirigidos pelo dos Estados Unidos, não viram outra hipótese senão incorrer em cada vez maiores volumes de dívida, através de canais cada vez mais variados e barrocos, para manter a economia em funcionamento. Inicialmente, durante os anos 1970 e 1980, os Estados eram obrigados a incorrer em cada vez maiores défices públicos, para sustentar o crescimento. Todavia, embora mantendo a economia relativamente estável, estes défices também a tornaram cada vez mais estagnada: na linguagem da época, os governos obtinham cada vez menos impacto com a sua prodigalidade (“less bang for their buck”), menos crescimento do PIB por um dado incremento no endividamento.

Dos cortes orçamentais à economia das bolhas

Deste modo, no princípio da década de 1990, tanto nos Estados Unidos como na Europa, governos virados para a direita e guiados pelo pensamento neo-liberal (privatização e cortes nos programas sociais), sob a direcção de Bill Clinton, Robert Rubin e Alan Greenspan, procuraram superar a estagnação com uma tentativa de movimento em direcção a orçamentos equilibrados. Mas, embora esse facto não seja muito realçado pela maioria dos relatos sobre este período, esta mudança dramática teve um impacto radicalmente negativo.

Porque a lucratividade ainda não tinha recuperado, as reduções no défice, trazidas pelas tentativas de equilíbrio orçamental, resultaram num enorme golpe para a procura agregada, com o resultado de que, na primeira metade dos anos 1990, tanto a Europa como o Japão passaram por recessões devastadoras, as piores do período pós-guerra, enquanto a economia dos Estados Unidos experimentou a chamada retoma sem novos empregos (“job-less recovery”). Consequentemente, desde meados dos anos 1990, os Estados Unidos viram-se obrigados a recorrer a mais poderosas e arriscadas formas de estímulo, para contrariar a tendência à estagnação. Em particular, substituiu os défices públicos do keynesianismo tradicional pelos défices privados e a inflação dos activos, aquilo que poderíamos designar por keynesianismo dos preços dos activos ou, simplesmente, economia das bolhas (“bubblenomics”).

Na grande corrida ascensional das bolsas dos anos 1990, as grandes empresas e os lares abastados viram a sua riqueza em papel expandir-se de uma forma maciça. Deste modo, puderam embarcar num aumento sem precedentes do endividamento e, nessa base, sustentar um poderoso acréscimo do investimento e do consumo. A expansão da chamada “Nova Economia” foi o resultado directo da histórica bolha nos preços dos activos dos anos 1995-2000. Mas uma vez que os preços dos activos subiram em desafio às taxas de lucro declinantes, e uma vez que os novos investimentos vieram exacerbar a sobre-capacidade industrial já existente, seguiu-se rapidamente a quebra bolsista e a recessão de 2000-2001, deprimindo a lucratividade no sector não financeiro até ao seu nível mais baixo desde 1980.

Sem se deixar deter por isso, Greenspan e a Federal Reserve Board (Fed), com a ajuda de outros grandes bancos centrais, contrariaram o novo ciclo depressivo com uma nova ronda de inflação nos preços dos activos. Foi isso que, essencialmente, nos trouxe até onde estamos hoje. Reduzindo a zero as taxas de juro reais de curto prazo, durante três anos, eles facilitaram uma explosão historicamente sem precedentes do endividamento familiar, a qual contribuiu para o disparar dos preços imobiliários, alimentando-se dele também depois, por sua vez.

De acordo com a revista ‘The Economist’, a bolha imobiliária mundial entre 2000 e 2005 foi a maior de todos os tempos, ultrapassando mesmo a de 1929. Tornou possível um crescimento constante nas despesas de consumo e no investimento residencial, que conjuntamente conduziram a expansão. O consumo pessoal mais a construção de casas respondeu por 90 a 100 % do crescimento do PIB nos E.U.A. nos primeiros cinco anos do corrente ciclo económico. Durante este mesmo intervalo de tempo, segundo as contas do Moody’s Economy.com, o factor imobiliário, por si só, foi responsável por elevar o crescimento do PIB quase 50% acima do que o que teria ocorrido sem ele – 2,3% em vez de 1,6%.

Deste modo, conjuntamente com os défices orçamentais reaganianos de George W. Bush, os défices familiares sem precedentes contribuíram para obscurecer quão débil era de facto a recuperação económica subjacente. O crescimento da procura de consumo suportada pela dívida, bem como, de uma forma mais geral, do crédito super-barato, revigoraram mais do que apenas a economia norte-americana. Em especial por terem conduzido aí a um novo surto de importações e a um alargamento do défice de transacções correntes (balança de pagamentos e comercial) para níveis sem precedentes, promoveu também aquilo que apareceu como uma impressionante expansão da economia global.

Uma brutal ofensiva patronal

Mas se os consumidores fizeram a sua parte, o mesmo não pode ser dito dos negócios privados, apesar dos inauditos estímulos económicos. Greenspan e o Fed sopraram a bolha imobiliária de forma a dar tempo às grandes corporações para resolverem o seu problema de excesso de capital e retomarem o investimento. Mas em vez disso, concentrando-se na restauração das suas taxas de lucro, elas desencadearam uma brutal ofensiva contra os trabalhadores. Elas elevaram o crescimento da produtividade, não tanto com o aumento do investimento em fábricas e equipamentos avançados, mas cortando radicalmente nos empregos e compelindo os empregados que ficaram a preencher os vazios. Comprimindo os salários enquanto espremiam mais produto por pessoa, elas apropriaram-se, sob a forma de lucros, de uma percentagem historicamente sem precedentes no aumento que teve então lugar no PIB não financeiro.

As corporações não financeiras, durante esta expansão, elevaram significativamente as suas taxas de lucro, mas mesmo assim continuando sem atingir de novo os já reduzidos níveis dos anos 1990. Para além disso, tendo em vista o grau em que esta elevação dos lucros foi atingida simplesmente pela via do aumento das taxas de exploração – fazendo os operários trabalhar mais e pagando-lhes menos, por hora – há razões para duvidar por quanto tempo isto poderá continuar assim. Acima de tudo, porém, ao aumentar a lucratividade comprimindo a criação de empregos, o investimento e os salários, os patrões norte-americanos mantiveram em baixa o crescimento da procura agregada e, deste modo, cortaram no seu próprio incentivo para se expandirem.

Simultaneamente, em vez de aumentar o investimento, a produtividade e o emprego, de modo a aumentar os lucros, as empresas procuraram explorar os custos de empréstimo hiper-baixos para melhorar a sua posição (e a dos seus accionistas) por via da manipulação financeira – pagando as suas dívidas, distribuindo dividendos e comprando as suas próprias acção para fazer subir a sua cotação, particularmente sob a forma de uma enorme onda de fusões e aquisições. Nos Estados Unidos, ao longo dos últimos quatro ou cinco anos, tanto os dividendos como a recompra de acções, como percentagem dos ganhos retidos, explodiram para os seus mais elevados níveis na época pós-guerra. O mesmo género de coisas tem vindo a acontecer um pouco por toda a economia mundial – na Europa, no Japão, na Coreia.

O rebentamento das bolhas

No final de tudo, o facto é que, nos Estados Unidos e em todo o mundo capitalista avançado, desde 2000, temos assitido ao mais lento crescimento da economia real desde a II Grande Guerra. E assitimos também à maior expansão financeira e da economia de papel na história dos Estados Unidos. Não é preciso ser marxista para dizer que as coisas não poderão continuar assim.

É claro, da mesma forma que a bolha nos mercados bolsistas dos anos 1990 acabou por rebentar, também a bolha imobiliária se esvaziou. Em consequência disso, o filme da expansão apoiada no imobiliário, que vimos durante o ciclo ascendente, está agora a passar em reverso. O preço das casas já baixou 5% desde o seu pico de 2005, mas isto é apenas o começo. Está estimado pela Moody’s que, quando a bolha imobiliária tiver esvaziado por completo, nos começos de 2009, os preços das casas terão baixado 20% em termos nominais – e ainda mais em termos reais – o que é, de longe, o maior declíneo na história norte-americana pós-guerra.

Do mesmo modo que o efeito positivo de riqueza produzido pela bolha imobiliária conduziu a economia em frente, o efeito negativo do desastre está a guiá-la para trás. Com o valor das suas residências em declínio, as famílias não podem continuar a tratar as suas casas como terminais Multibanco. Os empréstimos de garantia imobiliária estão em declínio e, portanto, as famílias vêm-se obrigadas a consumir menos.

O perigo subjacente a isto é que, não sendo mais capazes de “aforrar” putativamente através dos seus valores imobiliários crescentes, as famílias norte-americanas comecem a aforrar deveras, levando a um aumento da taxa de poupança pessoal – que neste momento está ao seu nível histórico mais baixo de sempre – puxando assim o consumo para baixo. Compreendendo como o fim da bolha imobiliária iria afectar o poder de compra dos consumidores, as empresas cortaram na sua contratação, com o resultado de que o crescimento do emprego caiu significativamente, desde inícios de 2007.

Graças à crise imobiliária galopante e à desaceleração no emprego, logo no segundo quartel de 2007, os fluxos monetários totais que entraram para a disposição das famílias, em termos reais, que tinham crescido a uma taxa de 4,4% em 2005 e 2006, caíram para perto de zero. Por outras palavras, se adicionarmos o rendimento real disponível das famílias, mais os seus levantamentos em crédito de garantia imobiliária (“home equity”), mais os seus empréstimos para consumo, mais as suas realizações em ganhos de capital, ver-se-á que o dinheiro que as famílias tinham efectivamente para gastar tinha parado de crescer. Bem antes que a crise financeira batesse à porta, no Verão passado, a expansão já estava no seu estertor final.

Complicando enormemente esta recessão e tornando-a extremamente perigosa, está, é claro, o colapso dos créditos hipotecários de risco (“sub-prime”), que se verificou como extensão do rebentamento da bolha imobiliária. Os mecanismos que ligam os empréstimos hipotecários sem escrúpulos realizados a uma escala titânica, aos encerramentos de casas em massa, ao colapso do mercado de títulos (“securities”) sustentado pelas hipotecas de risco, à crise nos grandes bancos que detinham directamente tão grandes quantidades destes títulos, tudo isto requereria uma discussão em separado.

O que aqui podemos dizer, à laia de conclusão, é simplesmente que, porque as perdas bancárias são tão grandes, desde já enormes, e em vias de crescer cada vez mais à medida que a recessão se torna pior, a economia enfrenta a perspectiva, sem precedentes no período pós-guerra, de uma paralisação total do crédito no exacto momento em que entra em recessão. Os governos enfrentam, agora mesmo, problemas de dificuldade sem paralelo conhecido, para tentar evitar este resultado.