1 de dezembro de 2003

EUA: ONU

Peter Gowan


Tradução / Durante o século XX os líderes norte-americanos lançaram duas vezes ambiciosas instituições de segurança coletiva para solucionar conflitos internacionais. A cada vez, logo depois de lançados, os projetos eram subvertidos ou transformados pelos próprios Estados Unidos. A ideia de Wilson da criação de uma Liga das Nações naufragou com a oposição republicana no Senado. A concepção de Roosevelt das Nações Unidas foi abortada pela administração democrata de seu sucessor. Até 1950, a administração Truman, orientada por Dean Acheson, havia chegado a uma estrutura política bem diferente para gerenciar a política mundial, que não exigia desmantelar as Nações Unidas nem se retirar dela; a entidade mundial e suas agências desempenhavam demasiadas funções úteis aos Estados Unidos para isso. Porém significava reduzi-la a não mais que um papel secundário, como instrumento auxiliar da diplomacia americana.

Não ficou óbvio de modo imediato que os líderes norte-americanos haviam marginalizado o projeto de Roosevelt para as Nações Unidas. O momento em que essa mutação se completou visivelmente foi o triunfo de Washington na mobilização das Nações Unidas para seus próprios fins: apoiar a intervenção ocidental na guerra civil coreana. Porém, na realidade, nesse momento, as Nações Unidas já haviam sido abandonadas como veículo através do qual a dominância global americana se expressaria. As Nações Unidas haviam sido degradadas e reduzidas a uma estrutura alheia ao projeto inicial de Roosevelt. Até a década de 1960 a Organização das Nações Unidas era considerada em Washington não somente secundária, mas também, de alguma forma, constrangedora, uma vez que as ex-colônias europeias e outros estados se organizavam no movimento não alinhado e usavam a assembleia geral como plataforma para divulgar opiniões indesejáveis para o Departamento de Estado. Tais desdobramentos levaram Acheson a declarar publicamente que “os votos nas Nações Unidas significam menos que nada”. Privadamente, os sentimentos de Acheson sobre a organização eram ainda mais cáusticos. Com grande desdém pelo funcionário nascido na Rússia que era o verdadeiro arquiteto das Nações Unidas na administração Roosevelt, referia-se às “Nações Unidas daquele rato do Leo Pasvolsky”.

Leo Pasvolsky em seu escritório no Departamento de Estado dos EUA [foto de Marie Hansen/The LIFE Picture Collection]Há tempos Pasvolsky caiu no esquecimento (violentamente anti-bolchevista, Pasvolsky gostava de se gabar de que havia debatido com Trotsky em Nova York em 1916). Também caiu no esquecimento o vasto conclave de dois meses, na cidade de São Francisco, Califórnia, que estabeleceu as Nações Unidas. Há uma vasta literatura anglo-saxã sobre Versailles e uma literatura substancial sobre o Congresso de Viena. Inúmeras pessoas ouviram falar dos tratados de Vestfália. Mas São Francisco? A conferência que lançou a Carta das Nações Unidas e a ONU foi grandemente obliterada da memória pública do mundo anglo-americano. Se a grande conquista da Áustria de pós-guerra foi convencer o mundo de que Hitler era alemão e Beethoven era austríaco, houve períodos em que os conservadores nos Estados Unidos atingiram sucesso semelhante em persuadir muitos americanos de que as Nações Unidas foram o trabalho — se não uma conspiração — de estrangeiros. O livro Act of creation de Stephen Schlesinger nos lembra em detalhes vívidos que as Nações Unidas eram tão norte-americanas em sua concepção como a própria cidade de São Francisco. É de Schlesinger o primeiro livro a fornecer um relato razoavelmente acadêmico sobre o que realmente ocorreu na cidade californiana entre 25 de abril e 25 de junho de 1945, sobre o qual há um silêncio de 50 anos, até mesmo no enorme e diverso mundo acadêmico norte-americano.

Parte do motivo pelo qual a conferência em São Francisco não atraiu muita pesquisa deve-se ao fato que muitas das decisões mais importantes sobre o novo órgão já haviam sido estabelecidas entre os principais poderes na conferência em Dumbarton Oaks em setembro de 1944 e na cidade de Ialta em fevereiro do ano seguinte. No entanto, um efeito desse descaso foi que continuam escassos os estudos acadêmicos sobre todo o curso do projeto das Nações Unidas, desde os primórdios do planejamento de Roosevelt para o mundo pós-guerra até a própria conferência de São Francisco. Schlesinger nos deu um estudo razoavelmente completo dos procedimentos na Califórnia, mas o livro é um tanto superficial, carecendo de qualquer perspectiva histórica real sobre os cálculos das grandes potências que determinaram seu resultado. A esse respeito, não há comparação com o clássico estudo de Robert Hilderbrand sobre as negociações em Dumbarton Oaks. O livro The politics of war, de Gabriel Kolko, publicado décadas atrás, ainda permanece o guia indispensável e quase o único completo do quadro geral.

O expansionismo de Franklin Delano Roosevelt

Roosevelt estava bem equipado para desenvolver a grande estratégia exigida pelos Estados Unidos, uma vez que ficou claro que Stalingrado havia determinado o resultado militar da Segunda Guerra Mundial. Fascinado por política internacional desde sua juventude, Roosevelt estudara Mahan (historiador e oficial da marinha dos EUA) com entusiasmo na escola, acumulando uma biblioteca pessoal de livros sobre guerra naval enquanto frequentava Harvard. Um feroz admirador de seu primo Theodore Roosevelt, com cuja sobrinha Eleanor ele se casou, Franklin Roosevelt seguiu muito conscientemente os passos de seu parente assumidamente expansionista. Sua carreira política começou com o que, para um norte-americano da geração dele, era uma escola crucial em estratégia militar: o Departamento Naval, onde tornou-se secretário assistente em 1912. Lá ele se tornou um grande oficial da marinha, levando sua frota a rivalizar com a britânica. Em 1914, ansiava por uma guerra total com o México para “limpar a bagunça política” ocasionada pela revolução mexicana. No mesmo ano, declarou: “Nossa defesa nacional deve se estender sobre todo o hemisfério ocidental, deve se estender mil milhas mar adentro, deve englobar as Filipinas e quaisquer mares onde nosso comércio possa estar”. Desdenhando de seu superior, o secretário da marinha Daniels, um pacífico metodista da Carolina do Sul, Delano Roosevelt esforçou-se para lançar os Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial.

No fim da guerra, Roosevelt apoiou Wilson a respeito da Liga das Nações, mas também — posicionando-se de forma a moldar o pensamento do Partido Democrata sobre política exterior — queria robustecer o poder militar norte-americano. Uma vez instalado na Presidência, Roosevelt enviou Sumner Welles para esmagar a revolução de 1933 e instalar a ditadura de Batista em Cuba, bajulou clientes como Somoza na Nicarágua e — atento à necessidade dos votos dos católicos em casa — cuidou de auxiliar Franco embargando armas para a república espanhola durante a Guerra Civil. O fascismo, para ele, não era muito assustador. As relações com Mussolini eram excelentes; Vichy era um parceiro diplomático normal. Por outro lado, Franklin Roosevelt (embora pouco disposto a oferecer abrigo a refugiados judeus) enxergava a Alemanha nazista como o ressurgimento de uma ameaça expansionista total; exatamente como fez Churchill, outro político também de histórico naval vindo da Primeira Guerra. Assim, quando a luta irrompeu na Europa, e mesmo antes de os Estados Unidos entrarem na guerra, a administração Roosevelt já estava visualizando para além dela um novo mundo liderado pelos Estados Unidos.

Qualquer grande projeto para dominância global norte-americana tinha que abordar um problema fundamental: como estruturar a política doméstica americana para tal papel exterior. Wilson havia sido derrotado por esse desafio, mas a configuração das forças políticas domésticas havia mudado no final da década de 1930. Em primeiro lugar, os setores dominantes da classe empresarial estavam agora majoritariamente ligados à ideia de liderança norte-americana global. A ascensão do candidato Wendell Willkie entre os republicanos e a candidatura de Dewey contra Roosevelt (aconselhado por John Foster Dulles) durante a guerra demonstravam o novo consenso. Assim também o importante grupo de republicanos dentro da própria administração Roosevelt, entre eles Stimson, Lovett e McCloy. O que essa coalizão bipartidária do grande capital queria de Roosevelt era uma garantia de que a expansão internacional estaria em mãos seguras do ponto de vista dos negócios norte-americanos. Nesses círculos, a marca do internacionalismo representada pelo vice-presidente Henry Wallace foi julgada como sendo não confiável (do ponto de vista do liberalismo) e então Roosevelt o rejeitou, escolhendo para substituí-lo Harry Truman como seu parceiro de campanha – e pessoa com pouca probabilidade de ofender os conservadores.

Mas o isolacionismo popular estava longe de morrer nos Estados Unidos e havia um risco real de que, uma vez terminada a guerra, as pressões domésticas se intensificariam para que a América se concentrasse na resolução de problemas internos. A coalizão da classe empresarial precisava que Roosevelt surgisse com uma resposta firme para isso — uma resposta com um componente “moralista” poderoso, assim como deve possuir tal componente qualquer política de massa capaz de mover milhões de maneira duradoura. Grande parte do esforço de Roosevelt no preparo da opinião doméstica para as Nações Unidas envolvia construir tal apelo idealista — sem comprometer de maneira alguma as exigências de um estado dedicado à política de potência global e de expansão internacional do capitalismo norte-americano. Na América dos tempos de guerra, a política cultural local não tinha material disponível a partir do qual se pudesse tecer a bandeira interna necessária para a hipótese de liderança mundial da nação, a não ser uma variante atualizada do internacionalismo wilsoniano. Críticos subsequentes das bondades de Roosevelt a respeito das Nações Unidas teriam preferido uma substância moralista diferente: não o apelo ético sublime de uma nova e supostamente pacífica ordem mundial, mas sim o apelo mais realista de um anticomunismo robusto. Mas essa não era uma opção disponível para Roosevelt durante a guerra, quando uma aliança militar e diplomática com a União Soviética parecia essencial para a vitória.

No processo de resolver sua tarefa, a administração Roosevelt chegou a um insight fundamental: que instituições internacionais poderiam ser construídas para fazer face simultaneamente a duas direções radicalmente diferentes. Uma face estaria voltada na direção da política popular de massa, tanto dentro dos Estados Unidos como internacionalmente. Essa seria a face ética inspiradora, oferecendo as promessas de um mundo melhor. Porém, ao mesmo tempo, a face interna da organização poderia ser moldada de maneira totalmente diferente e, na realidade, de forma oposta, como uma moldura para a política de hegemonia.

Diretório de grandes potências

Desde o início, Roosevelt estava comprometido em envolver as bandeiras wilsonianas das Nações Unidas em torno de uma estrutura moldada como uma impressionante ditadura por um punhado de grandes potências. Ele nunca hesitou quanto a isso. A nova organização daria poder desprezível a seus estados-membros ordinários na assembleia geral: uma nítida violação das regras da Liga das Nações. Até mesmo o “comitê executivo” mais estreito, combinando grandes potências e outros estados-membros, para Roosevelt precisaria ser grandemente impotente. Todo o poder executivo deveria estar concentrado nas mãos de alguns poucos estados permanentes. O principal problema para Roosevelt era como garantir que, dentro desse diretório, os Estados Unidos dominassem.

Aqui Roosevelt enfrentou problemas tanto com Churchill como com Stálin. De muitas maneiras, os problemas de Roosevelt com Stálin a respeito da nova estrutura eram mais fáceis de lidar do que os problemas com Churchill. Inicialmente, Roosevelt concebeu o diretório pós-guerra como uma triarquia englobando Estados Unidos, Reino Unido e URSS; ou, como Hilderbrand chamava secamente, uma visão moderna do Dreikaiserbund (Liga dos Três Imperadores) dos dias de Bismarck. Essa noção, quando exposta em Teerã, soou eminentemente palatável para Stálin. Porém, conforme a vitória se aproximava, Roosevelt falava cada vez mais da sublime meta de reunir os povos da terra em uma assembleia comum. Para isso, Stálin não tinha entusiasmo. Suas prioridades eram essencialmente locais e práticas: Stálin estava convencido de que o resultado da guerra deveria fornecer mecanismos absolutamente confiáveis para a segurança geopolítica do estado soviético. Mas agora ele tinha motivos para temer que seu parceiro pudesse estar se afastando dos entendimentos anteriores. Pois, no momento em que o projeto das Nações Unidas estava sendo estabelecido em Dumbarton Oaks, Hilderbrand observa, “os americanos haviam se afastado do regionalismo, o princípio pelo qual o Kremlin esperava receber autoridade sobre seus vizinhos mais próximos, em favor de uma abordagem universalista que poderia abrir o caminho para o Ocidente intrometer-se na esfera soviética”.

Ao pressentir essa mudança, Stálin empenhou-se em garantir que o novo órgão global fosse projetado de forma que não pudesse ser utilizado como máquina para alinhar estados visando uma confrontação com a União Soviética. Havia dificuldades óbvias em garantir tais proteções para Moscou. Stálin conseguia ver a realidade: os membros da nova organização teriam uma pilha de estados do Hemisfério Ocidental, reunidos sob controle norte-americano; e outra pilha do Império Britânico. Assim a URSS poderia facilmente ser isolada em todas as agências e comitês da nova organização. Sua primeira resposta foi exigir que todas as repúblicas soviéticas fossem consideradas membros, o que causou pânico em Washington, onde a administração sabia bem que isso nunca seria aceito pela opinião pública norte-americana. Mas como Roosevelt, de qualquer maneira, não tinha intenção de conceder aos membros poderes significativos, isso não era uma questão assim tão importante. Ele convenceu Stálin a se conformar com o prêmio de apenas dois assentos a mais — da Ucrânia e Bielorrússia — na assembleia geral. Em Ialta, os Estados Unidos e o Reino Unido aprovaram essa concessão em princípio, enquanto insistiam que a real decisão sobre isso teria que ser tomada na conferência de São Francisco. Mais complicada era a exigência de Stálin que as grandes potências recebessem poder de veto sobre todas as questões de conteúdo e procedimento na nova organização. Os Estados Unidos resistiram a isso, argumentando que qualquer estado que estivesse diretamente comprometido em uma disputa com outro estado não deveria ter direito a voto sobre isso, e que o veto deveria ficar restrito à política, não a questões de procedimento.

Centralização ou esferas regionais

A Grã-Bretanha colocava um problema comparável. Segundo Cordell Hull, Churchill queria que as Nações Unidas tivessem uma estrutura regionalizada com um Conselho das Américas, um Conselho da Europa e um Conselho do Leste da Ásia — deixando o Sul da Ásia, o Oriente Médio e a África (ou seja, a maior parte do Império Britânico) esplendidamente não regulados. Esse esquema tinha suas atrações para Roosevelt. Atendia à determinação de Washington de reter seu controle sobre a América Central e do Sul, não implicando, ao mesmo tempo, exclusão dos Estados Unidos da Europa nem do Leste da Ásia. O poder norte-americano estaria bem implantado na Alemanha, podendo usar a tutela das Nações Unidas para estabelecer bases no Mediterrâneo, África Ocidental, Indochina, Coreia e Formosa. Enquanto satisfazia as necessidades dos Estados Unidos, a concepção regionalista, calculava Churchill, também ofereceria a melhor defesa do Império e de uma liderança britânica na Europa.

Se Roosevelt houvesse optado por uma estratégia pós-guerra de equilíbrio ao largo da costa em cada extremidade da Eurásia, o plano de Churchill teria tido suas atrações. Um arranjo regionalista informal permitiria que os Estados Unidos se mantivessem afastados das querelas locais na Europa ou no Extremo Oriente, mas podendo, ao mesmo tempo, intervir conforme necessário a partir de suas bases para impedir a formação de coalizões hostis. Porém, depois de algumas hesitações, Roosevelt rejeitou o esquema de Churchill e surgiu com uma estrutura centralizada sob a direção de uma grande potência global. Seu secretário de Estado, Cordell Hull, obcecado com a ideia de uma ordem de livre comércio (abrindo os mercados mundiais à indústria norte-americana), estava determinado a varrer do mapa todas as “esferas de influência” regionalistas que poderiam bloquear sua visão estreitamente centrada no comércio. Discutindo os perigos de tais blocos, Pasvolsky— depois de cometer a gafe de relembrar seu chefe que os japoneses haviam descrito sua esfera de co-prosperidade como a doutrina Monroe para a Ásia — foi ainda mais longe e observou que “se pedirmos o privilégio, todo mundo também pedirá”, o que “levaria os soviéticos a uma fusão própria deles”, uma perspectiva que precisava ser impedida. Roosevelt era simpático a tais considerações e também sabia que Hull falava em nome de forças poderosas no Congresso. De qualquer modo, calculava Roosevelt, ele poderia fazer uma estrutura centralizada funcionar melhor para os interesses norte-americanos.

A principal manobra de Roosevelt para garantir a dominância norte-americana dentro de um diretório global foi jogar o jogo da China. Não três, mas “quatro policiais” manteriam a ordem em todo o mundo, explicou ele. Antes de tirar esse coelho da cartola, ele garantiu que o regime irremediavelmente venal e desmoralizado de Chiang Kai-Shek — naquele momento reduzido a um reduto em Chungking— jogaria o jogo lealmente como um cliente norte-americano. Isso correspondia a dois votos norte-americanos entre quatro. Quanto à Grã-Bretanha, ficou claro que Londres seria criticamente dependente de recursos do poder militar e financeiro dos Estados Unidos por muito tempo, uma vez cessadas as hostilidades. Isso poderia transformar dois votos em três em todas as questões cruciais para Washington. Então, e a União Soviética? Nesse estágio, a esmagadora prioridade de Washington era expandir o poderio e os negócios norte-americanos em todo o mundo capitalista. Essa era a grande meta estrutural confrontando a Casa Branca na época; a meta não era engolir completamente a URSS. Três votos no diretório mais respeito pelos problemas soviéticos geopolíticos de segurança – parecia que essa seria uma fórmula que poderia funcionar.

Churchill, no entanto, ficou alarmado e indignado com o plano de Roosevelt quando soube dele em outubro de 1942. Repetidamente ele referia-se aos “Estados Unidos com sua China de faggot votes” (votos ilegalmente multiplicados) e não tinha dificuldade em detectar a conexão entre o truque chinês, uma visão centralizada das Nações Unidas e as intenções norte-americanas no Império Britânico. Os “chineses de rabicho” que Roosevelt estava tentando impingir aos “três grandes” seriam faggot votes do lado dos Estados Unidos em qualquer tentativa de liquidar o Império Britânico ultramarino. Eden buscou afastar Roosevelt advertindo que a China poderia “ter que passar por uma revolução depois da guerra”. Quando Roosevelt não se mexeu, Churchill lançou uma longa batalha buscando um faggot vote próprio. O formato improvável desse voto — considerando-se seus sentimentos para com De Gaulle — era a França, cujo império Churchill resolveu ver reconstruído depois da guerra, para deter os projetos norte-americanos para Indochina, Tunísia e Senegal.

Roosevelt resistiu vigorosamente, mantendo relações diplomáticas com o regime de Vichy muito depois do Dia D em 1944, e ainda rejeitando qualquer reconhecimento da administração De Gaulle na França até mesmo em setembro de 1944, quando os “quatro grandes” estavam negociando a estrutura das Nações Unidas na conferência de Dumbarton Oaks em Georgetown— uma reunião que, ela própria, tinha que ser dividida em duas conferências porque os russos não queriam se sentar à mesa com um governo chinês que ainda não havia declarado guerra contra a Alemanha. Mesmo depois que Roosevelt finalmente abandonou Vichy e reconheceu o governo De Gaulle, Washington demorou em reconhecer plenamente a França como parte dos “grandes cinco”. De Gaulle, que tinha poucos motivos para confiar no apoio de Churchill, não ganhou assento em Ialta. Mesmo enquanto a conferência de São Francisco se reunia, o tratamento que ele recebeu de Washington o fez sentir-se tentado a liderar uma revolta contra Dumbarton Oaks e recusar-se a tomar seu assento como membro permanente do conselho de segurança. Mas na própria São Francisco, os franceses cederam e entraram para os “grandes cinco”, enquanto os americanos foram forçados a abandonar seus planos de abocanhar pedaços do império francês como localidades adequadas para bases americanas.

O modelo rooseveltiano

Apesar dessas batalhas raivosas por poder, a dedicação de Roosevelt nos últimos meses e semanas de sua vida ao projeto das Nações Unidas manteve impulso doméstico e internacional suficiente para garantir que, nos meses após sua morte, São Francisco produzisse uma agência que era, em resumo, a que ele e seus colaboradores haviam concebido. Era uma brilhante obra de engenharia institucional. O pacote das Nações Unidas possuía, desde o início, duas bandeiras herdadas da Liga. A primeira era sua pretensão de escopo cosmopolita. Isso era só uma promessa em São Francisco, já que as potências do Eixo foram excluídas e os impérios europeus ainda não haviam sido destruídos. Porém, com o passar do tempo, graças à reconstrução pós-guerra na Alemanha e no Japão e à descolonização de Ásia e África, as Nações Unidas ultrapassariam grandemente a Liga em escala e importância. A segunda bandeira era dedicação renovada à paz e à resolução dos conflitos armados. Havia muito mais na retórica declaratória da Carta (e uma hoste de agências especializadas das Nações Unidas acabaria por surgir), mas essas duas bandeiras eram e continuam sendo os maiores símbolos da entidade mundial.

Na conferência de fundação, a segunda bandeira foi a mais visível já que, como observado, a primeira ainda tinha um elemento de condicionalidade política: não somente a Alemanha e o Japão, mas quaisquer potências ainda suas aliadas, e até países militarmente neutros mas politicamente pró-Eixo não tinham permissão de participar. Schlesinger explica que o logotipo das Nações Unidas, mostrando um mapa do globo dentro de ramos de oliveira, foi cuidadosamente projetado de forma a ocultar a Argentina por causa da sua amizade com a Alemanha nazista. A vinculação deliberada do cosmopolitismo das Nações Unidas com a coalizão aliada marcou a agência desde então; mais obviamente na composição dos “cinco grandes” e na exclusão da Alemanha e do Japão de suas fileiras.

Ao mesmo tempo, a declaração de São Francisco do princípio de igualdade soberana dos estados e de abertura a uma potencial participação de todas as nações carregava a atraente mensagem que as Nações Unidas um dia poderiam reunir dentro de si todos os representantes dos povos do mundo inteiro. Isso conferiu às Nações Unidas um tipo diferenciado de aura popular: não de uma democracia política, muito menos de justiça social, mas simplesmente de inclusão planetária. Nunca houve questão alguma de governo mundial aqui: a administração Roosevelt sempre se opusera vigorosamente a todos os que pressionassem por até mesmo um embrião disso. Mas seu alcance étnico sempre deu às Nações Unidas uma pátina potente, mas nebulosa, de autoridade. Isso, por sua vez, fortaleceu seu papel continuado como ponto focal para diplomacia em zonas de conflito armado incipiente ou real em quase qualquer lugar do mundo. Os protagonistas em um lado ou em ambos os lados têm procurado consistentemente usar as Nações Unidas como plataforma de esforços para ganhar apoio para sua causa — exatamente como os Estados Unidos também têm usado as Nações Unidas de forma razoavelmente consistente como um órgão no qual lançar responsabilidade por gerenciar ou conter conflitos nos quais os Estados Unidos não identificam interesse estratégico norte-americano premente.

Se eram essas as promessas normativas que o pacote de Roosevelt oferecia, esse pacote buscava simultaneamente garantir que as Nações Unidas não poderiam de modo algum se tornar um obstáculo à busca da estratégia global norte-americana. O ideal cosmopolita foi destruído quando não se deu à assembleia geral nenhum poder significativo para elaborar políticas. A autoridade de tomar decisões ficou concentrada em um conselho de segurança sem a menor pretensão de basear-se em qualquer princípio representativo que não fosse força bruta. Esse rompimento radical entre o escopo da assembleia e a oligarquia irresponsável do conselho de segurança era, na realidade, um tópico de debate interminável na administração de Roosevelt. O próprio Roosevelt estava inclinado a aplicar imposição completa aos “quatro policiais” sem muito esforço para disfarçar (ele brincou com a ideia de acrescentar o Brasil a eles, como mais um vassalo dos Estados Unidos, mas foi dissuadido por seus subordinados). Em vez disso, foi persuadido a trazer seis outros estados eleitos em rotação pela assembleia geral como um todo (não por regiões, conforme instados por Sumner Welles) para o conselho de segurança, essencialmente como fachada para as prerrogativas arbitrárias de seu quarteto de “gendarmes” planetários. Podia-se contar com seus grandes poderes de veto para tornar impotentes os membros eleitos, bem como tornar nulos quaisquer princípios representativos.

Orquestrando o nascimento

Assim era a situação quando os delegados de 46 países chegaram a São Francisco em abril de 1945 para dar os toques finais aos contornos amplos das Nações Unidas que haviam sido concebidos pelos Estados Unidos em Dumbarton Oaks e refinados em Washington durante os meses seguintes. Roosevelt morrera duas semanas antes. Seu último secretário de Estado, Edward Stettinius, antigo diretor da US Steel, foi despachado — com relutância — por Truman para presidir os trabalhos. O livro de Stephen Schlesinger oferece um relato gráfico do total controle norte-americano da ocasião. Bastante adequadamente, as sessões plenárias eram encenadas na Opera House, onde os delegados se sentavam como tantos espectadores de um musical da Broadway — o auditório tendo sido transformado para a ocasião por um projetista. Quatro pilares dourados com ramos de oliveira, um semicírculo de bandeiras no alto de mastros, vinte e quatro refletores “com filtros azuis para um efeito cosmético” e uma banda nos bastidores tocando música marcial enfeitavam a première. Assuntos mais monótonos foram tratados por comitês especializados no edifício dos veteranos, que ficava próximo. Se esses ambientes sugeriam passividade e impotência, nenhuma conotação assim se associava ao apartamento de cobertura de Stettinius no Hotel Fairmont, que testemunhou a verdadeira ação quando as outras grandes potências foram convocadas para discutir com seu anfitrião.

Enquanto isso, na base do exército, no velho presídio espanhol a alguns quilômetros de distância, a inteligência militar norte-americana interceptava sistematicamente todo o tráfego de telegramas de comunicação trocados pelos delegados com seus países de origem, cujas mensagens decodificadas pousavam na mesa do café da manhã de Stettinius; enquanto o FBI rastreava seus movimentos na cidade — bem como, naturalmente, lobbies anticoloniais e outros grupos subversivos que se congregavam em torno da conferência. Muito do que foi bisbilhotado até hoje permanece oculto com tinta preta nas transcrições.

A conferência se concentrou em duas questões principais. A primeira era a posição que a União Soviética ocuparia dentro da estrutura emergente destinada a proteger o poder global norte-americano como Roosevelt o havia concebido. Molotov e Gromyko chegaram apressadamente de Dumbarton Oaks. Os poderes de veto dos membros permanentes do conselho de segurança deviam abranger matérias não somente de substância, mas também de procedimento, já que — como destacou Gromyko — nada era mais fácil do que a segunda deslizar rapidamente em direção à primeira. Truman, que com frequência era visto como mais anticomunista do que Roosevelt, despachou Harry Hopkins para Moscou com instruções: “Polônia, Romênia, Bulgária, Tchecoslováquia, Áustria (sic), Iugoslávia, Letônia, Lituânia, Estônia, e outros (re-sic), não fazem diferença para os interesses dos Estados Unidos”. Com essa garantia, Stálin deixou de se opor à versão norte-americana do veto. A conferência de fundação das Nações Unidas terminou com um recuo soviético para cada ponto importante de discórdia. Os “linha-dura” da delegação norte-americana tinham todos os motivos do mundo para ficarem exultantes.

A concepção de Roosevelt para as Nações Unidas não sobreviveu intacta aos anos seguintes. A guinada na política estrangeira norte-americana enfatizou não as organizações coletivas de segurança para a paz mundial (em que ninguém, em princípio, é inimigo a menos que quebre as regras), mas alianças bilaterais de segurança construídas em linhas amigas/inimigas, desde o início.

O papel de Rockefeller

Enquanto a maior parte da administração Roosevelt se preocupava em travar uma guerra e organizar os preparativos para ancorar a dominância norte-americana através de uma organização coletiva de segurança, o setor que manipulava os assuntos latino-americanos sob a liderança de Nelson Rockefeller não estava envolvido em nenhum dos dois. Aqui não havia guerra a lutar, e a construção organizacional em que Rockefeller estava envolvido era a de uma aliança hegemônica de segurança. Rockefeller havia sido coordenador de assuntos interamericanos na administração desde 1940, onde uma de suas principais metas era, como ele definiu em um memorando oficial, “diminuir a dependência latino-americana da Europa como mercado para suas matérias-primas e fornecedora de artigos manufaturados”. Como observado em outro memorando oficial, havia “boas propriedades no portfólio britânico” na América Latina e “bem que nós poderíamos agarrá-las agora”, embora também houvesse “um monte de lixo que a Grã-Bretanha deveria ter permissão de manter”. Com tal finalidade, Rockefeller havia construído comitês coordenadores em cada país latino-americano. Como explicou um graduado diplomata norte-americano em uma carta para o chefe de Rockefeller, o subsecretário de Estado para Assuntos Latino-Americanos, os comitês eram “compostos dos mais importantes homens de negócios”, incluindo a Standard Oil, Guggenheim, GE e United Fruit. “Eles têm ideias muito bem definidas sobre como deveria ser nossa política e, em geral, as ideias deles têm sido as mais reacionárias”.

Tal foi o sucesso de Rockefeller nesse trabalho que, em novembro de 1944, ele foi promovido a secretário assistente para Assuntos Latino-Americanos. No início de 1945 ele organizou uma conferência interamericana em Chapultepec, no México, para formalizar a dominância dos Estados Unidos na região através de uma aliança militar/de segurança. Formalmente, o Pacto de Chapultepec comprometeu os Estados Unidos a defender os estados da região contra agressão externa; na prática, o objetivo era proteger os regimes pró-americanos contra subversão interna, em troca de acesso norte-americano a qualquer recurso que desejassem nos vários estados envolvidos.

Porém, a atividade de Rockefeller em Chapultepec provocou feroz oposição por parte da divisão internacional do Departamento de Estado, pois ela contradizia o princípio de Dumbarton Oaks que determinava que todas as disputas internacionais deveriam ser tratadas pelas Nações Unidas. Havia mais um problema com o ativismo de Rockefeller — o tipo de forças políticas que ele apadrinhava em vários países da América Latina. Nicolo Tucci, o chefe da Agência Latino-Americana de Pesquisa no Departamento de Estado, pediu demissão, declarando que “minha agência tinha que desfazer a propaganda nazista e fascista na América do Sul, mas Rockefeller está convidando os piores fascistas e nazistas para Washington.”

No entanto, Rockefeller ganhou em Chapultepec e, apesar de não ter sido incluído na delegação norte-americana em São Francisco, apareceu lá de qualquer maneira e tornou-se uma das figuras mais poderosas na conferência, pela simples razão que ele, e não o chefe da delegação norte-americana, seu superior formal Stettinius, contava com a lealdade das delegações latino-americanas, cujos votos tinham peso decisivo. Rockefeller cuidou de todas as necessidades do bloco latino-americano, mandando a marinha dos Estados Unidos cumprir seu papel e reunindo-se regularmente para elaborar linhas comuns sobre questões da conferência. Rockefeller tinha relações ainda mais próximas com o FBI do que tinha seu próprio secretário de Estado. Ele disse ao agente chefe do FBI na conferência que ele, Rockefeller, seria o veículo para os relatórios do FBI destinados a Stettinius. O FBI agradeceu, passando todo o seu material a Rockefeller, embora ele não tivesse função oficial alguma em São Francisco. Stettinius nunca descobriu esse vínculo.

O primeiro problema a eclodir foi a Argentina, com seu governo pró-fascista bruto. A reunião latino-americana de Rockefeller insistiu que dessem permissão à Argentina para participar das Nações Unidas. A reunião também advertia que, a menos que a Argentina tivesse um assento, os latino-americanos bloqueariam assentos para a Ucrânia e Bielorrússia, ameaçando assim uma grande ruptura pública com a União Soviética. Stettinius se viu obrigado a concordar. Em seguida, e muito mais grave para os princípios centrais das Nações Unidas, veio a pressão de Rockefeller para garantir que a conferência aceitasse o Pacto de Chapultepec, embora Washington estivesse fazendo campanha para um órgão mundial centralizado, acabando com as esferas de influência regionais.

Stettinius tentou lutar contra Rockefeller e o resultado foi a disputa interna mais grave dentro da delegação norte-americana em São Francisco. Rockefeller ganhou a batalha contra Stettinius e foi acordada uma vaga forma de palavras no Artigo 51 da Carta que permitia autodefesa individual ou coletiva no nível regional. Na década de 1950, encontrando-se ao lado de Rockefeller em um jantar, Stettinius declarou: “Eu lhe devo desculpas. Se você não tivesse feito isso, talvez nunca tivéssemos tido a Otan”. O real significado da atividade de Rockefeller na América Latina e em São Francisco era muito mais profundo. Ele estava oferecendo um modelo político de como organizar o poderio norte-americano global, em parte alternativo e em parte complementar ao modelo de Roosevelt das Nações Unidas: os contornos de um mundo capitalista subordinado aos Estados Unidos através de um sistema de alianças amigos/inimigos centrado no anticomunismo.

Ao longo das duas décadas depois da Segunda Guerra Mundial, o poderio do governo dos Estados Unidos na política mundial e seus interesses em desenvolver um sistema de alianças com outros governos contra a União Soviética, China e o comunismo, produziram as condições políticas subjacentes que possibilitaram a ascensão do transnacionalismo – empresarial. A Europa Ocidental, a América Latina, o leste da Ásia e grande parte do sul da Ásia, Oriente Médio e África se encaixavam no que era eufemisticamente chamado de “mundo livre” e que era, na realidade, uma zona de segurança. Os governos dos países dentro dessa zona achavam que estavam entre seus interesses: (a) aceitar uma garantia explícita ou implícita por parte de Washington da independência de seu país e, em alguns casos, da autoridade do governo; e (b) permitir acesso a seu território para uma variedade de organizações norte-americanas governamentais e não governamentais perseguindo metas que essas organizações considerassem importantes… A “Pax Americana”, como afirmou I. F. Stone, “é o internacionalismo da Standard Oil, Chase Manhattan e do Pentágono”.

Em tal ordem mundial, sejam quais fossem os papéis das Nações Unidas e suas várias agências, elas não poderiam ser mais do que auxiliares dentro das estruturas políticas da primazia norte-americana.

Encenando o desenlace

A Conferência de São Francisco terminou em grande estilo, com uma festa de gala no último minuto promovida por Nelson Rockefeller no Iate Clube St Francis, “abrilhantada pela presença de Carmen Miranda, a ‘Brazilian bombshell’, para celebrar o encerramento”. A isso se seguiu um final esplendorosamente coreografado na Opera House, holofotes brilhando sobre uma decoração de adereços de luxo em vários tons de azul, um fluxograma para rastrear os movimento dos delegados, ensaios de cada assinatura da Carta em uma sala escondida atrás do palco, e manobras de última hora para evitar que a Argentina liderasse o desfile de signatários que, de outra maneira seria em ordem alfabética. Assim que a cerimônia acabou, “guardas armados correram para o andar superior com a Carta e a colocaram em um cofre à prova de incêndio que pesava 34 quilos”. A carga preciosa foi então transportada em um avião especial do exército — embrulhada em seu próprio paraquedas para caso de acidente — para Washington por ninguém menos que Alger Hiss, o secretário geral da conferência. Esperando uma recepção igualmente solene ao entregar a Carta na Casa Branca, Hiss ficou mortificado ao encontrar o presidente descansando em mangas de camisa, um uísque na mão, indiferente à majestade da nova aliança em sua arca de aço com fechadura de combinação.

Não se poderia achar máxima melhor para as hipocrisias características das Nações Unidas quanto esta: quanto mais cínica e bruta a conduta de suas potências dominantes, mais essencial “invocar” e “contemplar” o bálsamo de edificantes princípios. O destino de Stettinius, descartado sem cerimônia por Truman a poucos dias de completar sua missão em São Francisco, foi um barômetro mais honesto da real condição atribuída às Nações Unidas em grandes projetos norte-americanos nos anos vindouros. Durante a Guerra Fria, a estratégia norte-americana global prosseguiu seguindo as linhas de Acheson.

Uma agenda mais “avançada”

Considerando-se que o projeto de Roosevelt garantiu realmente a dominância dos Estados Unidos sobre a política do mundo capitalista (com proteções de veto para a URSS), pareceria estranho que os líderes norte-americanos achassem a organização insuficiente como o principal instrumento da hegemonia norte-americana. Um indício pode ser encontrado em outra das observações de Acheson sobre a agência mundial. Ele alegava que as Nações Unidas eram uma ideia do século XIX. Claramente isso era um exagero, mas o que Acheson queria dizer certamente era que a concepção das Nações Unidas pertencia a uma época antes da hegemonia norte-americana. Pois a formal razão de ser das Nações Unidas, como a Liga antes dela, era acabar com as guerras entre os estados (capitalistas) estabelecendo regras de ação coletiva para detê-las. Para a Grã-Bretanha e para outras potências satisfeitas dos anos entre as guerras, esse era um princípio admirável. Nessa época Londres já havia abocanhado o que queria — e mais —em todo o globo, e o legalismo liberal, tão perfeitamente capturado e criticado por E. H. Carr, incorporado na Liga e a base de sua jurisprudência, atendia a seus interesses.

Afunção de segurança coletiva de defender o status contra potências revisionistas era irrelevante sob a hegemonia norte-americana pela simples razão que a América, diferente da Grã-Bretanha, possuía os recursos para impor um controle unipolar sobre todas as outras potências capitalistas na Europa Ocidental e na Ásia Oriental. Nesse sentido, Acheson tinha razão: o princípio de segurança coletiva era antiquado e supérfluo sob a hegemonia norte-americana. Basicamente ainda abordava o que tinha sido o problema mais espinhoso do mundo centrado na Europa.

Certamente, para os Estados Unidos exercerem o papel de guardiões e gerentes do núcleo todo, isso exigiria militarizar o Estado norte-americano permanentemente. Porém, por sua vez, parecia que isso poderia resolver problemas complicados da economia política doméstica. Nessas condições, as Nações Unidas eram não apenas redundantes como instrumento para estabilizar relações entre os principais centros capitalistas, mas, do ponto de vista de Acheson, eram piores do que redundantes porque, na causa de defesa política coletiva do status quo, as Nações Unidas promoviam um princípio jurídico que era, quando muito, inútil: soberania nacional absoluta. Novamente, isso era um princípio mais afinado com a era do imperialismo britânico do que com o imperialismo norte-americano. Os britânicos nunca tiveram a capacidade de remodelar coercivamente os arranjos internos de outros estados capitalistas. A especialidade deles era tomar e remodelar sociedades pré-capitalistas, derrotando forças tradicionalistas de resistência dentro de tais sociedades. Assim, o princípio de direitos absolutos dos estados e não-interferência era perfeitamente aceitável para os britânicos, uma vez que eles haviam atingido os limites de seu império.

Porém Washington tinha uma agenda diferente: primeiro, penetrar nos estados capitalistas existentes e reconhecer seus mecanismos internos para que se adequassem às finalidades norte-americanas; e segundo, derrotar quaisquer forças sociais ali que rejeitassem a via norte-americana para a modernidade em nome não do tradicionalismo, mas de uma modernidade alternativa. O modelo das Nações Unidas simplesmente não abordava essas questões que eram tão fundamentais para Washington. Na realidade, o modelo oferecia uma defesa conceitual contra a interferência norte-americana em sua ênfase na soberania nacional. Como resultado, a ordem política e social das Nações Unidas era um obstáculo incômodo para grande parte das atividades de pós-guerra norte-americanas, forçando muitos de seus movimentos por mudança interna de regime a serem organizados acobertadamente. O princípio de Acheson de união do mundo (mercado) livre contra toda a resistência — tematizado como “comunismo”— ao modo norte-americano de organizar a vida moderna podou as fraseologias da Carta das Nações Unidas. Intensificando a ameaça soviética, transformou os dois principais centros de capitalismo na Eurásia, Europa Ocidental e Japão, em semiprotetorados dos Estados Unidos — permitindo assim que Washington reconstruísse a Alemanha e o Japão com os polos industriais de suas respectivas regiões sem medo que eles pudessem tornar a desenvolver estratégias geopolíticas para reorganizar suas regiões como rivais de Washington. Paralisar o sistema das Nações Unidas, com seu lugar simbólico proeminente para a URSS, era, assim, um componente necessário da primazia de Acheson.

Depois da queda

A primeira Guerra do Golfo em 1991 foi um falso amanhecer para as Nações Unidas após a Guerra Fria, assim como a Coreia tinha sido no início da Guerra Fria. Ao violar o princípio de soberania incondicional dos estados, a invasão do Kuwait por Sadam Hussein permitiu aos Estados Unidos explorar ao máximo as Nações Unidas, dando uma demonstração do novo alcance da hegemonia norte-americana, à medida que a União Soviética cambaleava rumo à extinção. Porém agora, mais do que nunca, a utilidade das Nações Unidas para os Estados Unidos na era pós Guerra Fria exigia que seu princípio central de soberania dos estados fosse sucateado, pois esse princípio sugere que os estados são livres para organizar suas economias políticas domésticas como desejarem, ao passo que as correntes de lucro dos negócios norte-americanos (e muito dos europeus, especialmente britânicos) dependem fundamentalmente de acordos internos em outros estados que forneçam liberdade irrestrita para operadoras financeiras externas, direitos irrestritos para as empresas estrangeiras adquirirem empresas domésticas e proteção irrestrita de preços monopolistas sobre propriedade intelectual. A Carta das Nações Unidas não garante nada disso: na realidade, teoricamente, ela trabalha contra isso.

Assim, durante a década de 1990, os Estados Unidos e seus associados europeus procuraram retrabalhar o discurso tradicional das Nações Unidas, argumentando que a soberania não era incondicional, mas que deveria ser encarada como uma permissão revogável concedida a estados pela “comunidade internacional”, a ser emitida ou retirada de acordo com a palatabilidade ou conforme seu regime interno. Se um estado deixasse de atender os devidos padrões internacionais, justificava-se bloqueio ou invasão contra tal estado. Ao construir essa revisão, na qual trabalharam um exército de juristas e diplomatas, Washington (e Londres) conseguiram inspirar-se em ideais das Nações Unidas com bons resultados. O repertório eclético da própria Carta, com sua mistura de cláusulas contraditórias, oferecia um antídoto pronto para qualquer insistência muito firme sobre soberania nacional. Pois, afinal de contas, ela também era uma sonora declaração dos direitos humanos universais. Esses eram os valores superiores que o momento exigia, legitimando um novo “humanismo militar” em defesa deles. Nos Balcãs, a guerra podia ser travada pela Otan em nome dos direitos humanos e dos livres mercados, com a bênção do secretário geral das Nações Unidas, e “serviço pós-venda” ministrado pelo conselho de segurança. No final da década de 1990, parecia que a visão original de Roosevelt das Nações Unidas como instrumento central do poder norte-americano global poderia reviver, até além das expectativas de Roosevelt, já que a Rússia agora também poderia ser contada entre seus dependentes de um modo que ele mal poderia ter imaginado em Ialta.

Mas nem mesmo essa mudança foi suficiente para persuadir sucessivos presidentes a confiarem nas Nações Unidas como seu instrumento de hegemonia. A Casa Branca permaneceu comprometida com o modelo de primazia, organizado através de alianças de segurança radiais que tornam os outros principais estados capitalistas dependentes dos Estados Unidos para sua segurança. Uma nova cisão global (agora contra o “terrorismo”) oferece uma base muito mais flexível para intervencionismo de grande amplitude do que qualquer fórmula legal que o secretariado das Nações Unidas, embora com boas intenções, pudesse fornecer.

As Nações Unidas se encaixariam na estrutura de hegemonia norte-americana como uma máquina auxiliar novamente, como nos dias da Guerra Fria, mas desta vez com os outros quatro membros permanentes do conselho de segurança firmemente subordinados às diretivas dos Estados Unidos — uma impressionante máquina de ditadura mundial. Em caso de frustração, pelo menos Washington pode ter certeza que não há chance de quaisquer outras forças conseguirem usar as Nações Unidas como freio eficiente dos instintos predatórios dos EUA e de seus amigos britânicos.

Porém, apesar de mais precária, a estrutura rooseveltiana ainda se mantém. Depois da mais descarada de todas as guerras norte-americanas em violação à Carta das Nações Unidas, todas as mãos no conselho de segurança — algumas ansiosamente, outras mais aborrecidas — se levantaram para endossar a autoridade fantoche instalada pelos conquistadores, ratificando sua conquista.

Referências bibliográficas

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__________ Invoking humanity. War, law, and global order. Londres-Nova York, 2002.

Sobre o autor

Peter Gowan (1946-2009) foi professor de relações internacionais na Universidade Metropolitana de Londres e membro do comitê editorial da New Left Review.

Recordações de Edward Said

Tariq Ali


Tradução / Edward Said foi um amigo e camarada de longa data. Conhecemo-nos em 1972, num seminário em Nova York. Mesmo naquela época turbulenta, uma de suas características mais marcantes era seu primor no trajar: tudo era meticulosamente escolhido, até as meias. É quase impossível imaginá-lo de outro modo. Em 1997, em uma conferência em sua homenagem na cidade de Beirute, Edward insistiu em acompanhar a mim e Elias Khoury num mergulho. Quando saiu de calção de banho, perguntei a ele por que a toalha não combinava. “Quando em Roma…”, respondeu, com graça; mas naquela noite, ao ler um trecho do manuscrito árabe de Fora do lugar, seu livro de memórias, sua roupa era impecável. E assim foi até o fim, durante toda a sua longa batalha contra a leucemia.

Nos últimos onze anos ficamos tão acostumados com a doença de Edward – as internações regulares no hospital, a disposição de experimentar os remédios mais recentes, a recusa de aceitar a derrota – que começamos a achá-lo indestrutível. No ano passado, por puro acaso, encontrei em Nova York o médico de Said. Em resposta a minhas perguntas, ele disse que não havia explicação clínica para a sobrevivência de Edward. Foi seu espírito indômito de combatente, a vontade de viver, que o preservou por tanto tempo. Said viajava por toda parte. Falava, como sempre, da Palestina, mas também da capacidade unificadora das três culturas que, insistia ele, tinham muito em comum. O monstro devorava-o por dentro, mas os que iam ouvi-lo não eram capazes de perceber, e os que sabiam preferiam esquecer. Quando o maldito câncer finalmente o levou, o choque foi violento.

A briga com o establishment político e cultural do Ocidente e do mundo árabe oficial é a característica mais importante da biografia de Said. Foi a Guerra dos Seis Dias, de 1967, que mudou sua vida; antes disso, não era politicamente engajado. Seu pai, cristão palestino, emigrou para os Estados Unidos em 1911, com dezesseis anos, para não ser alistado à força pelos otomanos para lutar na Bulgária. Tornou-se cidadão norte-americano e serviu, em vez disso, nas forças armadas dos Estados Unidos na França, durante a Primeira Guerra Mundial. Depois voltou a Jerusalém, onde Edward nasceu em 1935. Said nunca fingiu ser um refugiado palestino atingido pela pobreza, como alegaram depois alguns detratores. Sua família mudou-se para o Cairo, onde Wadie Said abriu uma papelaria, sendo bem-sucedido, e Edward foi matriculado numa escola de elite de língua inglesa. Seus anos de adolescência foram solitários, dominados por um pai vitoriano, a cujos olhos o menino precisava de disciplina permanente e de uma vida sem amigos fora da escola. Os romances tornaram-se um sucedâneo: Defoe, Scott, Kipling, Dickens, Mann. Recebera o nome de Edward por causa do príncipe de Gales, mas, apesar do monarquismo do pai, não foi estudar na Grã-Bretanha, e sim nos Estados Unidos, em 1951. Mais tarde Said diria odiar o internato “puritano e hipócrita” da Nova Inglaterra: era “terrível e desorientador”. Até então, achava que sabia exatamente quem era, que conhecia todas as suas falhas, “morais e físicas”. Nos Estados Unidos teve de se transformar “numa coisa que o sistema exigia”.

O divisor de águas de 67

Ainda assim, prosperou no ambiente da Ivy League, primeiro em Princeton e depois em Harvard, onde, como disse tempos mais tarde, teve o privilégio de estudar a tradição filológica alemã de literatura comparada. Said começou a ensinar em Columbia em 1963; seu primeiro livro, sobre Conrad, foi publicado três anos depois. Quando o entrevistei em Nova York, em 1994, numa conversa filmada para o Channel Four britânico, ele descreveu seus primeiros anos em Columbia, entre 1963 e 1967, como o “período Dorian Gray”:

Tariq Ali: Então um de vocês era o professor de literatura comparada, que cuidava de seus afazeres, dava aulas, trabalhava com Trilling e os demais; mas, ao mesmo tempo, outro personagem crescia dentro de você – e você mantinha os dois separados? 
Edward Said: Tinha de manter. Não havia espaço para o outro personagem existir. Eu havia efetivamente rompido minha ligação com o Egito. A Palestina não existia mais. Uma parte de minha família vivia no Egito, a outra parte, no Líbano. Eu era estrangeiro nos dois lugares. Não me interessava pela empresa da família e por isso estava aqui. Até 1967, não pensava em mim senão como alguém que se preocupa com o próprio trabalho. Aprendera algumas coisas pelo caminho. Estava obcecado com o fato de muitos heróis culturais meus – Edmund Wilson, Isaiah Berlin, Reinhold Niebuhr – serem sionistas fanáticos. Não eram apenas pró-israelenses; diziam e publicavam as coisas mais horríveis sobre os árabes. Mas eu só podia observar. Em termos políticos, não havia outro lugar para mim. Estava em Nova York quando começou a Guerra dos Seis Dias; fiquei absolutamente abalado. O mundo que eu entendia acabou naquele momento. Estava nos Estados Unidos fazia anos, mas só então foi que comecei a ter contato com outros árabes. Em 1970, estava totalmente mergulhado na política e no movimento de resistência palestina.[1]

Sua obra Beginnings [Princípios], de 1975 – um envolvimento heroico com os problemas causados pelo “ponto de partida”, que sintetizava as visões de Auerbach, Vico, Freud, com uma leitura notável do romance modernista –, e, sobretudo, Orientalismo foram produto dessa conjuntura. Publicado em 1978, quando Said já era membro do Conselho Nacional Palestino (CNP), Orientalismo combina o vigor polêmico do ativista com a paixão do crítico cultural. Como todas as grandes polêmicas, rejeita o equilíbrio. Certa vez eu lhe disse que, para muitos asiáticos do Sul, o problema com os primeiros acadêmicos orientalistas britânicos não era a ideologia imperialista, mas, pelo contrário, o fato de serem politicamente corretos demais, impressionados demais com os textos sânscritos que traduziam. Said riu e insistiu que o livro era, em essência, uma tentativa de desbastar as premissas mais básicas do Ocidente sobre o Oriente árabe. O “discurso” – Foucault, vejam só, era uma influência importante – do Oriente, elaborado na França e na Grã-Bretanha durante os dois séculos que se seguiram à conquista do Egito por Napoleão, servira tanto de instrumento de domínio quanto de sustentação da identidade cultural européia, contrapondo-a ao mundo árabe . Por essa razão ele se concentrara deliberadamente na exotização, na vulgarização e nas distorções do Oriente Médio e de sua cultura. Retratar as suposições imperialistas como verdade universal era uma mentira, baseada em observações tendenciosas e instrumentalistas a serviço da dominação ocidental.

Orientalismo gerou muitos seguidores acadêmicos. Embora sem dúvida Said tenha ficado emocionado e lisonjeado com o sucesso do livro, sabia muito bem como era mal usado e costumava negar a responsabilidade por seus rebentos mais monstruosos: “Como podem me acusar de condenar os ‘insensíveis machos brancos’? Todo mundo sabe que adoro Conrad”. E então desfiava uma lista de críticos pós-modernos, atacando um de cada vez pela ênfase dada por eles à identidade e pela hostilidade à narrativa. “Escreva tudo isso”, disse-lhe certa vez. “Por que não escreve você?”, foi a resposta. O que gravamos foi mais contido: 

TA: A guerra de 1967 radicalizou-o, levou-o a se tornar um porta-voz palestino? 
ES: Árabe primeiro, antes de palestino. 
TA: E Orientalismo nasceu desse novo compromisso. 
ES: Passei a ler metodicamente o que vinham escrevendo sobre o Oriente Médio. Não correspondia à minha experiência. No início dos anos 1970 comecei a perceber que as distorções e idéias erradas eram sistemáticas, faziam parte de um sistema de pensamento bem maior, endêmico em toda iniciativa do Ocidente de lidar com o mundo árabe. Isso confirmou minha sensação de que o estudo da literatura era, em essência, uma tarefa histórica, não apenas estética. Ainda acredito no papel da estética; mas o “reino da literatura” – “literatura pela literatura” – está simplesmente errado. A pesquisa histórica séria tem de partir do fato de que a cultura está irremediavelmente envolvida na política. O meu interesse tem sido a grande literatura canônica do Ocidente, lida não como obras-primas que têm de ser veneradas, mas como obras que precisam ser entendidas em sua densidade histórica para que possam ressoar. Mas também não acho que se possa fazer isso sem gostar delas, sem ligar para os próprios livros.

Cultura e imperialismo, publicado em 1993, ampliou os principais argumentos de Orientalismo para descrever um padrão mais geral de relações entre o Ocidente metropolitano e seus territórios ultramarinos, além da Europa e do Oriente Médio. Escrito num período político diferente, provocou alguns ataques afrontosos. Houve uma famosa controvérsia no Times Literary Supplement com Ernest Gellner – que achava que Said deveria ter “pelo menos alguma palavra de gratidão” pelo papel do imperialismo como veículo da modernidade –, na qual nenhum dos lados poupou o adversário. Mais tarde, quando Gellner tentou uma possível reconciliação, Said foi impiedoso; o ódio tem de ser puro para ser eficaz, e, aqui e em todo lugar, ele sempre retribuiu tudo na mesma moeda.

Mas então os debates sobre cultura foram obscurecidos pelos acontecimentos na Palestina. Quando perguntei se o ano de 1917 lhe significava alguma coisa, respondeu sem hesitar: “Sim, a Declaração Balfour”. Os textos de Said sobre a Palestina têm um sabor totalmente diferente de tudo o mais que escreveu, apaixonados e bíblicos em sua simplicidade. Era essa a sua causa. Em The End of the peace process [O fim do processo de paz], Blaming the victims [Culpar as vítimas] e uma meia dúzia de outros livros, em suas colunas no al-Ahram e em seus ensaios nesta revista e no London Review of Books, a chama que se acendera em 1967 brilhou ainda mais intensa. Ele ajudou uma geração a entender a verdadeira história da Palestina, e foi sua posição de cronista fiel de seu povo e de sua pátria ocupada que lhe conferiu respeito e admiração no mundo todo. Os palestinos tornaram-se vítimas indiretas do judeocídio europeu na Segunda Guerra Mundial, mas poucos políticos do Ocidente pareceram se incomodar. Said esporeou-lhes a consciência coletiva, e por isso não gostavam dele.

Anti-Oslo

Dois amigos íntimos, cujos conselhos sempre buscou – Ibrahim Abu-Lughod e Eqbal Ahmad –, morreram com poucos anos de diferença, em 1999 e 2001. Said sentiu muitíssimo a falta deles, mas a ausência só o deixou mais decidido a continuar com seu massacre literário do inimigo. Embora tenha sido, durante catorze anos, membro independente do CNP e ajudado a burilar e revisar o discurso de Arafat na Assembléia Geral da ONU em 1984, tornou-se cada vez mais crítico da falta de visão estratégica que caracterizava a maior parte dos líderes palestinos. Ao escrever logo depois do que chamou de “vulgaridade de desfile de moda” – o aperto de mãos entre Arafat e Rabin no gramado da Casa Branca –, Said retratou os Acordos de Oslo, impostos aos vencidos pelos Estados Unidos e Israel depois da Guerra do Golfo de 1991, como “instrumento de rendição, um Versalhes palestino, oferecendo apenas murchos bantustões em troca de uma série de renúncias históricas”. Israel, enquanto isso, não tinha razão para desistir enquanto Washington lhe fornecesse armas e recursos . (O lugar-tenente de Arafat, Nabil Shaath, repetindo os críticos mais reacionários de Orientalismo, respondeu: “Ele devia se limitar à crítica literária. Afinal de contas, Arafat não se mete a discutir Shakespeare”.) A história absolveu a análise de Said. Um de seus ataques mais devastadores à liderança de Arafat, publicado em 2001 nestas páginas e no al-Ahram, condenou Oslo como mera embalagem nova da ocupação, “oferecendo simbólicos 18% das terras tomadas em 1967 à autoridade corrupta, ao estilo de Vichy, de Arafat, cuja missão, em essência, tem sido policiar e tributar seu povo em prol de Israel”:

O povo palestino merece coisa melhor. Temos de dizer claramente que, com Arafat e companhia no comando, não há esperança [...] Os palestinos precisam é de líderes que sejam realmente do povo e pelo povo, que resistam de verdade, na prática, e não burocratas gordos e mastigadores de charutos que preferem preservar seus negócios e renovar seus passaportes vip, que perderam qualquer vestígio de decência ou credibilidade [...] Precisamos de uma liderança unida e capaz de pensar, planejar e tomar decisões em vez de rastejar diante do Papa ou de George Bush enquanto os israelenses impunemente matam seu povo. […] É na luta para libertar-se da ocupação israelense que estão hoje todos os palestinos com algum valor.[4]

O Hamaz seria uma alternativa séria? “Esse é um movimento de protesto contra a ocupação”, disse-me Said:

Na minha opinião, as ideias deles sobre um Estado islâmico são completamente incoerentes, incapazes de convencer quem mora lá. Ninguém leva a sério esse aspecto de seu programa. Quando perguntamos a eles, como fiz na Cisjordânia e em outros lugares, “Quais são suas políticas econômicas? Quais são suas idéias sobre usinas elétricas, sobre habitação?”, respondem: “Ah, estamos pensando nisso”. Não há um programa social que se possa rotular de “islâmico”. Vejo-os como criaturas do momento, para quem o Islã é uma oportunidade de protestar contra o impasse atual, a mediocridade e a falência do partido dominante. A Autoridade Palestina, hoje, está irremediavelmente prejudicada e sem credibilidade – como sauditas e egípcios, um Estado dependente dos Estados Unidos.

Por trás das reiteradas exigências israelenses de que a Autoridade combata o Hamaz e a Jihad Islâmica, Said percebeu “a esperança de que haja algo parecido com uma guerra civil palestina, um brilho nos olhos das forças armadas israelenses”. Mas, nos últimos meses de sua vida, ainda pôde comemorar a obstinada recusa dos palestinos de aceitar o papel – como os descreveu o chefe do Estado-Maior das forças de defesa israelenses – de “povo derrotado” e viu sinais de uma política palestina mais criativa na Iniciativa Política Nacional liderada por Mustafá Barghuti: “A idéia aqui não é um Estado provisório inventado que ocupe 40% da terra, com os refugiados abandonados e Jerusalém mantida por Israel, mas um território soberano liberado da ocupação militar pela ação de massa, envolvendo árabes e judeus sempre que possível”.

Com sua morte, a nação palestina perdeu a voz mais articulada no hemisfério norte, mundo onde, em geral, o sofrimento constante dos palestinos é ignorado. Para as autoridades israelenses, são untermenschen, sub-homens; para as autoridades norte-americanas, são todos terroristas; para os regimes árabes mercenários, um incômodo constante. Em seus últimos textos, Said condenou com todo o vigor a guerra ao Iraque e seus muitos apologistas. Defendia a liberdade em vez da violência e das mentiras. Sabia que a ocupação dupla da Palestina e do Iraque tornara ainda mais remota a paz na região. Sua voz é insubstituível, mas seu legado irá perdurar. Ele tem muitas vidas pela frente.

Notas:

[1] Esta citação e as seguintes são de A conversation with Edward Said [Uma conversa com Edward Said], produção da Bandung Films. O programa foi gravado no apartamento de Said na Riverside Drive, num dia tão úmido que ele tirou o paletó e a gravata quando as câmeras começaram a gravar, causando muito riso na casa.

[2] TAssim lorde Cromer, cônsul-geral britânico no Egito durante quase um quarto de século depois de 1881, disse: “O europeu é um raciocinador rigoroso; sua declaração dos fatos são privadas de ambigüidade; é um lógico natural [...] Por outro lado, à mente do oriental, como às suas ruas pitorescas, falta bastante simetria [...] Ele muitas vezes desmoronará sob o mais leve processo de exame mais cuidadoso” (Orientalism, Londres, 2003, p. 38).

[3] London Review of Books, 21 October 1993.

[4] NLR 11, September-October 2001.

[5] London Review of Books, 19 June 2003.

1 de outubro de 2003

Pobreza mundial, pauperização e acumulação de capital

Samir Amin

Monthly Review

Tradução / Um discurso sobre a pobreza e a necessidade de reduzir a sua magnitude, se não mesmo erradicá-la, ficou na moda hoje em dia. É um discurso da caridade, no estilo século XIX, que não procura entender os mecanismos sociais e econômicos que geram a pobreza, embora os meios científicos e tecnológicos para erradicá-la estejam já disponíveis.

O capitalismo e nova questão agrária

Todas as sociedades antes dos tempos modernos (capitalista) foram sociedades camponesas. Sua produção era regrada por vários sistemas e lógicas específicos — mas não aqueles que regem o capitalismo numa sociedade de mercado, como a maximização do retorno sobre o capital.

A moderna agricultura capitalista — abrangendo tanto as fazendas familiares em grande escala como as corporações do agribusiness, igualmente ricas — está agora empenhada num ataque maciço à produção camponesa do terceiro mundo. O sinal verde para isto foi dado na sessão de Novembro de 2001 da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Doha, Qatar. Há muitas vítimas deste ataque — e a maior parte são camponeses do terceiro mundo, que ainda constituem mais da metade da humanidade.

A agricultura capitalista governada pelo princípio do retorno sobre o capital, que se localiza quase exclusivamente na América do Norte, Europa, Austrália e no cone sul da América Latina, emprega apenas umas poucas dezenas de milhões de agricultores que já não são camponeses. Devido ao grau de mecanização e às extensas dimensões das fazendas administradas por um proprietário, a sua produtividade geralmente varia entre 1 a 2 milhões de quilogramas de cereais por agricultor.

Em agudo contraste, três mil milhões de agricultores estão dedicados à agricultura camponesa. As suas terras podem ser agrupadas em dois sectores distintos, com escalas de produção, características económicas e sociais, e níveis de eficiência muito diferentes. Um sector, capaz de beneficiar da revolução verde, obteve fertilizantes, pesticidas, sementes melhoradas e algum grau de mecanização. A produtividade destes camponeses varia entre 10 mil e 50 mil quilogramas de cereais por ano. Contudo, estima-se que a produtividade anual dos camponeses excluídos das novas tecnologias esteja em torno dos 1000 quilogramas por agricultor.

O rácio da produtividade entre o mais avançado segmento capitalista da agricultura mundial e o mais pobre, que estava em torno de 10 para 1 antes de 1940, está agora a aproximar-se dos 2000 para 1! Isto significa que a produtividade progrediu muito mais desigualmente na área da agricultura e da produção alimentar do que em quaisquer outras áreas. Esta evolução conduziu simultaneamente à redução dos preços relativos dos produtos alimentares (em relação a outros produtos industriais e de serviços) a um quinto do que era há cinquenta anos atrás. A nova questão agrária resulta deste desenvolvimento desigual.

A modernização sempre combinou dimensões construtivas, nomeadamente a acumulação de capital e o aumento da produtividade, com aspectos destrutivos — reduzir o trabalho ao estado de uma mercadoria vendida no mercado, muitas vezes destruindo a base ecológica natural para a reprodução da vida e a produção, e polarizando a distribuição da riqueza a um nível global. A modernização sempre integrou simultaneamente alguns, pois mercados em expansão criam empregos, e excluiu outros, que não foram integrados na nova força de trabalho depois de terem perdido as suas posições nos sistemas anteriores. Na sua fase de ascensão, a expansão capitalista global integrou muitos juntamente com os seus processos de exclusão. Mas agora, nas sociedades camponesas do terceiro mundo, está a excluir um número maciço de pessoas e a incluir relativamente poucas.

A questão levantada aqui é precisamente se esta tendência continuará a operar em relação aos três mil milhões de seres humanos que ainda produzem e vivem em sociedades camponesas na Ásia, África e América Latina.

Na verdade, o que aconteceria se a agricultura e a produção alimentar fossem tratadas como qualquer outra forma de produção submetida às regras da competição num mercado aberto e desregulamentado, como foi em princípio decidido em Novembro de 2001 na reunião da OMC em Doha? Será que tais princípios estimulariam a aceleração da produção?

Alguém poderia imaginar que a comida trazida ao mercado pelos três milhões de camponeses de hoje, depois de assegurarem a sua própria subsistência, seria ao invés disso produzida por vinte milhões de novos agricultores modernos. As condições para o êxito de uma tal alternativa incluiriam: 1) a transferência de importantes parcelas de terra boa para os novos agricultores capitalista (e estas terras teriam de ser arrancadas das mãos das actuais populações camponesas); 2) capital (para comprar bens e equipamento); e 3) acesso ao mercados consumidores. Tais agricultores na verdade competiriam com êxito com os milhares de milhões de camponeses do presente. Mas o que sucederia àqueles milhares de milhões de pessoas?

Nestas circunstâncias, concordar com o princípio geral da competição para produtos agrícolas e alimentos, impostos pela OMC, significa aceitar a eliminação de milhares de milhões de produtores não competitivos dentro do curto tempo histórico de umas poucas décadas. O que transformará estes milhares de milhões de seres humanos, a maioria dos quais já são os pobres entre os pobres, que alimentam-se a si próprios com grandes dificuldades. Num espaço de tempo de cinquenta anos, o desenvolvimento industrial, mesmo na fantástica hipótese de uma taxa de crescimento contínua de 7 por cento ao ano, não poderia absorver nem um terço desta reserva.

O maior argumento apresentado a fim de legitimar a doutrina da competição da OMC é que tal desenvolvimento aconteceu no século XIX e no XX tanto na Europa como nos Estados Unidos, onde produziu uma sociedade urbano-industrial e pós-industrial moderna, rica, com agricultura moderna capaz de alimentar a nação e até exportar alimentos. Por que não deveria este padrão ser repetido nos actuais países do terceiro mundo?

Este argumento deixa de considerar os dois principais factores que tornam quase impossível a reprodução deste padrão no terceiro mundo. O primeiro é que o modelo europeu desenvolveu-se ao longo de um século e meio juntamente com tecnologias trabalho-intensivas. As tecnologias modernas utilizam muito menos trabalho e os recém-chegados do terceiro mundo têm de adoptá-las para a suas exportações industriais serem competitivas nos mercados globais. O segundo é que, durante aquela longa transição, a Europa beneficiou da migração maciça para as Américas do seu excedente populacional.

A alegação de que o capitalismo realmente resolveu a questão agrária nos seus centros desenvolvidos sempre foi aceite por amplos sectores da esquerda, sendo um exemplo o famoso livro de Karl Kautsky, A questão agrária , escrito antes da Primeira Guerra Mundial. A ideologia soviética herdou tal visão e, com base na mesma, empreendeu a modernização durante a colectivização stalinista, com fracos resultados. Aquilo que sempre foi passado por alto é o facto de que o capitalismo, enquanto resolvia a questão nos seus centros, fazia isto gerando uma gigantesca questão agrária nas periferias, a qual só pode resolver através do genocídio de metade da espécie humana. Dentro da tradição marxista, apenas o maoismo entendeu a magnitude do desafio. Portanto, aqueles que acusaram o maoismo de ser um "desvio camponês" mostram por esta simples crítica que lhes falta a capacidade analítica para compreenderem o capitalismo imperialista, o qual eles reduzem a um discurso abstracto sobre o capitalismo em geral.

A modernização através da liberalização do mercado capitalista, como sugerido pela OMC e pelos seus apoiantes, alinha lado a lado, sem sequer efectuar a necessária unificação, as duas componentes: a produção alimentar a uma escala global através de modernos agricultores competitivos baseados sobretudo no norte e no futuro possivelmente também em alguns bolsões do sul, e a marginalização, exclusão, e o avanço do empobrecimento da maioria dos três mil milhões de camponeses do actual terceiro mundo e finalmente seu isolamento em alguma espécie de reservas. Combina portanto um discurso pro-modernização e dominado pela eficiência com um conjunto de políticas ecológicas-culturais-de contenção que permitam às vítimas sobreviverem num estado de empobrecimento material (incluindo o aspecto ecológico). Estas duas componentes podem portanto complementar-se uma à outra, ao invés de entrarem em conflito.

Poderemos nós imaginar outras alternativas, e têm elas sido debatidas amplamente? Alternativas nas quais a agricultura camponesa fosse mantida durante o futuro visível do século XXI, mas que simultaneamente entrasse num processo de contínuo progresso tecnológico e social? Por este caminho, as mudanças poderiam verificar-se a uma taxa que permitiria uma progressiva transferência dos camponeses para empregos não-rurais e não-agrícolas.

Tal conjunto estratégico de objectivos envolve complexas políticas mistas a níveis nacional, regional e locais.

Ao nível nacional implica macro políticas que protejam a produção alimentar do campesinato da competição desigual dos agricultores modernizados e das corporações do agrobusiness — locais e internacionais. Isto ajudará a garantir preços internos dos alimentos aceitáveis — desligados dos preços dos mercados internacionais, os quais além disso são enviesados pelos subsídios agrícolas do norte rico.

Tais objectivos políticos também questionam os padrões de desenvolvimento industrial e urbano, os quais deveriam ser menos baseados em prioridades orientadas para a exportação (exemplo: mantendo salários baixos, o que implica preços baixo para alimentos) e mais direccionados para a expansão do mercado interno socialmente equilibrado.

Isto envolve, em simultâneo, um padrão global de políticas a fim de assegurar a segurança alimentar nacional — uma condição indispensável para um país ser um membro activo da comunidade global, desfrutando a indispensável margem de autonomia e capacidade negocial.

A níveis regional e global implica acordos internacionais e políticas que se afastem dos princípios doutrinários liberais que regem a OMC — substituindo-os com soluções imaginativas e específicas para diferentes áreas, levando em consideração as questões específicas e as condições históricas e sociais concretas.

A nova questão trabalhista

A população urbana do planeta actualmente representa cerca da metade da humanidade, pelo menos três mil milhões de indivíduos, com camponeses formando uma porcentagem estatisticamente não insignificante da outra metade. Os dados acerca desta população permitem-nos distinguir entre aquilo que podemos denominar classes médias e as classes populares.

Na etapa contemporânea da evolução capitalista, as classes dominantes — proprietários formais dos principais meios de produção e administradores superiores associados ao seu desempenho — representam apenas uma minúscula fracção da população global embora a fatia que retiram do rendimento disponível das suas sociedades seja significativo. A isto acrescentamos as classes médias no antigo sentido da expressão — rentistas não-assalariados, proprietários de pequenas empresas e administradores médios, os quais não estão necessariamente em declínio.

A grande massa de trabalhadores nos segmentos de produção modernos consiste de assalariados que agora representam mais de quatro quintos da população urbana dos centros desenvolvidos. Esta massa está dividida em pelo menos duas categorias, cuja fronteira é visível não só para o observador externo como está realmente viva na consciência dos indivíduos afectados.

Há aqueles que podem ser etiquetados como classes populares estabilizadas no sentido de que estão realmente seguros nos seus empregos, graças entre outras coisas a qualificações profissionais que lhes dão poder negocial junto aos empregadores e, portanto, estão frequentemente organizados, pelo menos em alguns países, em sindicatos poderosos. Em todos os casos esta massa traz consigo um peso político que reforça sua capacidade negocial.

Outros constituem as classes populares precárias que incluem trabalhadores enfraquecidos pela sua baixa capacidade negocial (em resultado dos seus baixos níveis de qualificação, seu status como não-cidadãos, ou sua raça ou o seu género) bem como não-assalariados (aqueles formalmente desempregados e os pobres com empregos no sector informal). Podemos etiquetar esta segunda categoria das classes populares como "precários", ao invés de "não-integrados" ou "marginalizados", porque estes trabalhadores estão perfeitamente integrados na lógica sistémica que comanda a acumulação de capital.

Da informação disponível para países desenvolvidos e certos países do sul (dos quais extrapolámos dados) obtemos as proporções relativas que cada uma das categorias acima definidas representa na população urbana do planeta.


Embora os centros representam apenas 18 por cento da população do planeta, uma vez que a sua população é urbana em 90 por cento, eles constituem o lar para um terço da população urbana mundial (ver tabela 1).

As classes populares representam três quartos da população urbana mundial, ao passo que a subcategoria dos precários representa dois terços das classes populares a uma escala mundial. (Cerca de 40 por cento das classes populares nos centros e 80 por cento nas periferias estão na subcategoria precários). Por outras palavras, as classes populares precárias representam a metade (pelo menos) da população urbana mundial e muito mais do que isto nas periferias.

Um olhar à composição das classes populares urbanas há meio século, logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, mostra que as proporções que caracterizavam a estrutura das classes populares eram muitos diferentes daquelas que vieram a ser.

Naquela época, a parte do terceiro mundo não excedia a metade da população urbana global (então da ordem de mil milhões de indivíduos) contra os dois terços de hoje. Megacidades, como aquelas que hoje conhecemos em praticamente todos os países do Sul, ainda não existiam. Havia apenas umas poucas grandes cidades, nomeadamente na China, na Índia e na América Latina.

Nos centros, as classes populares beneficiaram, durante o período do pós-guerra, de uma situação excepcional baseada nos compromissos históricos impostos ao capital pelas classes trabalhadoras. Este compromisso permitiu a estabilização da maioria dos trabalhadores nos moldes de uma organização do trabalho conhecida como o sistema da fábrica "fordista". Nas periferias, a proporção dos precários — que era, como sempre, maior do que nos centros — não excedia a metade das classes populares urbanas (contra mais de 70 por cento hoje). A outra metade ainda consistia, em parte, em assalariados estabilizados nos moldes da nova economia colonial e da sociedade modernizada e, em parte, nos antigos moldes das indústrias artesanais.

A principal transformação social que caracteriza a segunda metade do século XX pode ser resumida numa única estatística: a proporção das classes populares precárias ascende de menos de um quarto para mais da metade da população urbana global, e este fenómeno de pauperização reapareceu numa escala significativa nos próprios centros desenvolvidos. Esta população urbana desestabilizada aumentou em meio século de 250 milhões para mais de 1500 milhões de indivíduos, registando uma taxa de crescimento que ultrapassa aquela que caracteriza a expansão económica, o crescimento da população ou o próprio processo de urbanização.

Pauperização — não há palavra melhor para designar a tendência evolutiva durante a segunda metade do século XX.

O facto em si mesmo geralmente é reconhecido e reafirmado na nova linguagem dominante: "redução da pobreza" tornou-se um tema recorrente entre os objectivos que as políticas governamentais dizem executar. Mas a pobreza em questão é apresentada só como um facto medido empiricamente, tanto de forma muito grosseira através da distribuição do rendimento (linhas de pobreza) ou de uma forma um pouco menos grosseira através de índices compostos (tais como os índices de desenvolvimento humano propostos pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), sem nem mesmo levantar a questão das lógicas e dos mecanismos que geram esta pobreza.

A nossa apresentação destes mesmos factos vai mais além porque permite-nos precisamente começar a explicar o fenómeno e a sua evolução. Estratos médios, estratos populares estabilizados e estratos populares precários estão todos integrados dentro do mesmo sistema de produção social, mas eles preenchem diferentes funções no mesmo. Alguns na verdade estão excluídos dos benefícios da prosperidade. Os excluídos são também uma parte do sistema e não estão marginalizados no sentido de não estarem integrados — funcionalmente — dentro do sistema.

A pauperização é um fenómeno moderno que não é inteiramente redutível à falta de rendimento suficiente para sobreviver. É realmente a modernização da pobreza e tem efeitos devastadores em todas as dimensões da vida social. Os emigrantes das zonas rurais estavam relativamente bem integrados dentro das classes populares estabilizadas durante a idade de ouro (1945-1975) — eles tendiam a tornar-se trabalhadores fabris. Agora aqueles que chegaram recentemente e os seus filhos estão situados nas margens dos sistemas produtivos, criando condições favoráveis para a substituição de solidariedades de comunidade por consciência de classe. Enquanto isso, as mulheres são ainda mais vitimizadas pela precariedade económica do que os homens, resultando na deterioração das suas condições materiais e sociais. E se os movimentos feministas sem dúvida conseguiram avanços importantes no âmbito das ideias e do comportamento, os beneficiários destes ganhos são quase exclusivamente mulheres das classes médias, certamente não aquelas da pauperizadas classes populares. Quanto à democracia, a sua credibilidade — e portanto a sua legitimidade — é solapada pela sua incapacidade para reduzir a degradação das condições de uma fracção cada vez maior das classes populares.

A pauperização é um fenómeno inseparável da polarização a uma escala mundial — um resultado inerente da expansão do capitalismo realmente existente, que por esta razão devemos chamar imperialista por natureza.

A pauperização nas classes populares urbanas está estreitamente ligada aos desenvolvimentos que vitimizam as sociedades camponesas do terceiro mundo. A submissão destas sociedades às exigências de expansão do mercado capitalista sustenta novas formas de polarização social que excluem uma proporção cada vez maior de agricultores do acesso à utilização da terra. Estes camponeses que ficaram empobrecidos ou sem terra alimentam — ainda mais do que o crescimento populacional — a migração para os bairros de lata. Apesar disso, todos estes fenómenos estão destinados a piorar enquanto os dogmas liberais não forem desafiados, e nenhuma política correctiva dentro desta estrutura liberal possa controlar a sua difusão.

A pauperização põe em questão tanto a teoria económica como as estratégias das lutas sociais.

A vulgar teoria económica convencional evita as questões reais que são colocadas pela expansão do capitalismo. Isto acontece porque ela substitui uma análise do capitalismo realmente existente por uma teoria de uma capitalismo imaginário, concebido como uma extensão simples e contínua das relações de troca (o mercado), apesar de o sistema funcionar e reproduzir-se na base da produção capitalista e das relações de troca (não simplesmente relações de mercado). Esta substituição é facilmente emparelhada com uma noção a priori, que não é confirmada nem pela história nem por argumentos racionais, de que o mercado é auto-regulador e produz um óptimo social. A pobreza assim só pode ser explicada por causas que se decreta serem externas à lógica económica, tal como o crescimento populacional ou erros políticos. A relação da pobreza com o próprio processo de acumulação é afastada pela teoria económica convencional. O resultante vírus liberal, que polui o pensamento social contemporâneo e aniquila a capacidade de entender o mundo, para não falar transformá-lo, penetrou profundamente as várias esquerdas constituídas desde a Segunda Guerra Mundial. Os movimentos actualmente envolvidos em lutas sociais por "um outro mundo" e uma globalização alternativa só serão capazes de produzir avanços sociais significativos se se livrarem deste vírus a fim de construir um debate teórico autêntico. Enquanto não se livrarem deste vírus, os movimentos sociais, mesmo os mais bem intencionados, permanecerão presos nas algemas do pensamento convencional e portanto prisioneiros de propostas correctivas ineficazes — aquelas que são alimentadas pela retórica referente à redução da pobreza.

A análise esboçada acima deveria contribuir para a abertura deste debate. Isto porque ele restabelece a pertinência da ligação entre acumulação de capital por um lado e o fenómeno da pauperização social por outro. Cento e cinquenta anos atrás Marx iniciou uma análise dos mecanismos por trás desta ligação, a qual a duras penas foi prosseguida desde então — e de maneira nenhuma a uma escala global.

[*] Samir Amin é director do Fórum do Terceiro Mundo, em Dakar, Senegal. Seus livros recentes incluem Specters of Capitalism: A Critique of Current Intellectual Fashions (Monthly Review, 1998), e Obsolescent Capitalism: Contemporary Politics and Global Disorder , a publicar pela Zed Books.

24 de agosto de 2003

A solidão de Noam Chomsky

Arundhati Roy

The Hindu

"Eu nunca pedirei desculpas em nome dos Estados Unidos da América — Não quero nem saber quais são os fatos." 
Presidente George Bush Sr.

Sentada em minha casa, em Nova Déli, assistindo um canal de TV americano se autopromover ("Nós reportamos. Você decide."), eu imagino o sorriso entretido e com um dente lascado de Noam Chomsky.

Todo mundo sabe que os regimes autoritários, independentemente de sua ideologia, utilizam a mídia de massas para propaganda. Mas o que dizer dos regimes democraticamene eleitos do "mundo livre"?

Hoje em dia, graças a Noam Chomsky e a seus colegas que analisam a mídia, é quase axiomático, para milhares, talvez milhões, entre nós, de que a opinião pública nas democracias de "livre mercado" é manufaturada como qualquer outro produto para o mercado de massas — sabonetes, interruptores, ou pão em fatias. Sabemos que, embora em termos jurídicos e constitucionais a expressão possa ser livre, o espaço dentro do qual a liberdade pode ser exercida foi arrancado de nós e leiloado a quem der o maior lance. O capitalismo neoliberal não diz respeito somente à acumulação de capital (para alguns). É também acumulação de poder (para alguns), acumulação de liberdade (para alguns). Por outro lado, para o resto do mundo, para as pessoas que são excluídas do corpo governante do neoliberalismo, trata-se de erosão de capital, erosão de poder,erosão de liberdade. No "livre mercado", a liberdade de expressão tornou-se uma mercadoria como qualquer outra coisa — — justiça, direitos humanos, água potável, ar limpo. E, naturalmente, aqueles que têm recursos para comprá-la, utilizam a liberdade de expressão para manufaturar o tipo de produto, confeccionar o tipo de opinião pública, que melhor servir seus propósitos. (Notícias que eles possam usar.) O modo exato de como isso é feito foi o tema de muitos dos escritos políticos de Noam Chomsky.

O primeiro-ministro Silvio Berlusconi, por exemplo, tem uma participação que lhe dá o controle dos maiores jornais, revistas, canais de televisão e editoras da Itália. "O primeiro-ministro controla, efetivamente, cerca de 90 por cento da audiência italiana", reporta o Financial Times. Qual o preço da liberdade de expressão? Liberdade de expressão para quem? Inegavelmente, Berlusconi é um exemplo extremo. Em outras democracias — nos Estados Unidos, em particular — os barões da mídia, os poderosos lobbies corporativos e os funcionários governamentais estão envolvidos de um modo mais elaborado, menos óbvio. (As conexões de George Bush Jr. com o lobby do petróleo, com o setor de armas, com a Enron, e a infiltração da Enron nas instituições do governo dos EUA e na mídia de massas — tudo isso é, agora, de conhecimento público.)

Depois de 11 de setembro de 2001, dos ataques terroristas a Nova York e Washington, o papel desempenhado descaradamente por grande parte da mídia como mero porta-voz do governo dos EUA, sua demonstração de patriotismo vingativo, sua disposição para publicar os folhetos distribuídos pelo Pentágono como se fossem notícias, e sua censura explícita das opiniões divergentes tornaram-se alvo de um belo humor negro no resto do mundo.

Daí teve lugar a queda da Bolsa de Nova York, companhias aéreas falidas apelaram por fianças governamentais, e falou-se de esquivar as leis de patentes para manufaturar genéricos para combater o alarme do antraz (muito mais importante e, urgente, naturalmente, do que a produção de genéricos para comater a AIDS na África…). De repente, começou a parecer como se os mitos gêmeos da Liberdade de Expressão e do Livre Mercado pudessem desabar junto às Torres Gêmeas do World Trade Center.

Mas, é claro, isso nunca ocorreu. Os mitos continuam vivos.

Há, contudo, um lado mais brilhante, relativo ao montante de energia e dinheiro que oestablishment despeja nos negócios de "gerenciamento" da opinião pública. E que indica um medomuito real da opinião pública. Indica uma persistente e válida preocupação de que se as pessoas descobrissem (e compreendessem plenamente) a natureza real das coisas que são feitas em seu nome, elas poderiam agir com base nesse conhecimento. Os poderosos sabem que as pessoas comuns nem sempre são desalmadas e egoístas. (Quando as pessoas comuns pesam os custos e os benefícios, há algo como uma consciência apreensiva que poderia escalar fácil e rapidamente.) Por esse motivo, elas precisam ser mantidas sob controle, protegidas da realidade, guardadas na traseira sob um clima controlado, numa realidade alterada, como galinhas ou porcos de grelha dentro de um cercado.

Aqueles, dentre nós, que conseguiram escapar dessa sina e não param de arranhar a cerca no fundo do quintal, não acreditam mais em tudo o que lêem nos jornais ou assistem na TV. Colamos nossos ouvidos ao solo e procuramos outros modos de fazer sentido no mundo. Buscamos a história que não foi contada, o golpe militar mencionado apenas de passagem, o genocídio não reportado, a guerra civil em um país africano relatada numa coluna de três centímetros, lado a lado de uma publicidade de página inteira de uma lingerie de renda.

Nem sempre nos lembramos, e muitos nem sequer sabem, que esse modo de pensar, essa fácil acuidade, essa desconfiança instintiva em relação à mídia de massas seria, na melhor das hipóteses, um palpite político, e na pior, uma acusação solta, não fosse pela análise incansável e inabalável de uma das grandes cabeças do mundo. E esse é apenas um dos modos pelos quais Noam Chomsky alterou radicalmente nossa compreensão da sociedade em que vivemos. Ou, será que eu deveria dizer, nossa compreensão das sofisticadas regras do asilo pinel no qual somos todos presidiários voluntários?

Falando sobre os ataques de 11 de setembro em Nova York e Washington, o Presidente George W. Bush chamou os inimigos dos EUA de "inimigos da liberdade". "Os americanos perguntam: — porque nos odeiam?" disse ele. "Eles odeiam nossas liberdades, nossa liberdade de religião, nossa liberdade de expressão, nossa liberdade de votar e de nos reunirmos e de discordarmos uns dos outros."

Se há pessoas nos EUA que quiserem uma resposta verdadeira para aquela pergunta (ao contrário das respostas que podem ser encontradas no Idiot's Guide to Anti-Americanism (Guia para idiotas sobre anti-americanismo), ou seja: "Porque eles nos invejam", "Porque eles odeiam a liberdade", "Porque eles são uns perdedores", "Porque nós somos bons e eles são maus"), eu diria, leiam Chomsky. Leiam Chomsky no que diz respeito às intervenções militares dos EUA na Indochina, na América Latina, no Iraque, na Bósnia, na antiga Iugoslávia, no Afeganistão e no Oriente Médio. Se as pessoas comuns nos EUA lessem Chomsky, talvez suas perguntas seriam contextualizadas de um modo diferente. Talvez seriam do tipo: "Como é que eles não nos odeiam ainda mais?" ou "Não é surpreendente que o 11 de setembro não tenha ocorrido muito antes?"

Infelizmente, nessa época nacionalista, palavras como "nós" e "eles" são usadas ao léu. A fronteira entre cidadãos e estado foi embaçada deliberadamente e com sucesso, não só pelos governos, como também pelos terroristas. A lógica subjacente dos ataques terroristas, assim como das guerras de "retaliação" contra os governos que "apóiam o terrorismo", é a mesma: ambas punem os cidadãos pelas ações de seus governos.

(Uma breve divagação: eu entendo que é mais educado quando um cidadão dos EUA, como Noam Chomsky, critica seu próprio governo do que alguém como eu, cidadã da Índia, quando critico o governo dos EUA. Eu não sou patriota, e sou plenamente consciente de que a venalidade, a brutalidade e a hiprocrisia estão impressas nas almas de chumbo de cada estado. Mas quando um país cessa de ser meramente um país e se torna um império, então a escala de operações muda dramaticamente. Portanto, gostaria de esclarecer que falo na qualidade de sujeito do império dos EUA. Falo como uma escrava que tem a pretensão de criticar seu rei.)

Se eu tivesse que escolher uma das maiores contribuições de Noam Chomsky para o mundo, seria o fato de que ele desmascarou o universo feio, manipulador e cruel que existe por trás da bela e ensolarada palavra "liberdade". Ele fez isso racional e empiricamente. A massa de evidência que ele compilou para construir seu caso é formidável. Na realidade, terrificante. A premissa inicial do método de Chomsky não é ideológica, mas é intensamente política. Ele embarca no seu percurso de investigação com uma desconfiança instintivamente anárquica do poder. Ele nos leva a uma excursão pelo pântano do establishment dos EUA, e nos conduz através do labirinto estonteante dos corredores que conectam o governo, os grandes negócios e o negócio do gerenciamento da opinião pública.

Chomsky nos mostra como frases do tipo "liberdade de expressão", "livre mercado", "mundo livre" pouco ou nada têm a ver com liberdade. Ele nos mostra que, entre as miríades de liberdades conclamadas pelo governo dos EUA, estão a liberdade de assassinar, de aniquilar, e de dominar outros povos. A liberdade de financiar e patrocinar déspotas e ditadores no mundo todo. A liberdade de treinar, armar e abrigar terroristas. A liberdade de derrubar governos eleitos democraticamente. A liberdade de amontoar e usar armas de destruição em massa — químicas, biológicas e nucleares. A liberdade de declarar guerra contra qualquer país cujo governo não seja bem visto. E, pior de tudo, a liberdade de cometer esses crimes contra a humanidade em nome da "justiça", em nome da "retidão", em nome da "liberdade".

O procurador-geral John Ashcroft declarou que as liberdades dos EUA "não são concessão de nenhum governo ou documento, mas… um presente que nos foi outorgado por Deus". Portanto, basicamente, encaramos um país armado por um mandato dos céus. Talvez isso explique porque o governo dos EUA se recuse a julgar a si próprio com os mesmos padrões morais que julga os outros. (Qualquer tentativa nesse sentido é denunciada como "equivalência moral".) Sua técnica é posicionar-se como o gigante bem intencionado cujos feitos são confundidos em países estranhos por seus nativos conspiradores, cujos mercados está tentando liberar, cujas sociedades está tentando modernizar, cujas mulheres está tentando libertar, cujas almas está tentando salvar.

Talvez essa crença em sua própria divindade explique porque o governo dos EUA tenha se outorgado a si próprio o direito e a liberdade de assassinar e exterminar pessoas "para o próprio bem delas".

Ao anunciar os ataque aéreos contra o Afeganistão, o Presidente Bush Jr. disse: "Somos uma nação pacífica." Continuou dizendo: "Esse é o chamado dos Estados Unidos da América, a nação mais livre do mundo, uma nação construída sobre valores fundamentais, que rejeita o ódio, rejeita a violência, rejeita os assassinos, rejeita o mal. E nós não descansaremos."

O império dos EUA se assenta numa fundação terrível: o massacre de milhões de indígenas, o roubo de suas terras e, depois disso, o seqüestro e a escravização de milhões de negros da África, para trabalharem a terra. Milhares morreram nos mares, ao serem despachados como gado entre os continentes. "Roubados da África, trazidos para a América" – "Buffalo Soldier" de Bob Marley contém todo um universo de tristeza inexprimível. Fala da perda de dignidade, da perda do estado natural selvático, da perda da liberdade, do despedaçar-se do orgulho de um povo. Genocídio e escravidão fornecem a escora social e econômica da nação cujos valores fundamentais rejeitam o ódio, os assassinatos e o mal.

Eis Chomsky, escrevendo em seu ensaio "The Manufacture of Consent" ("A Manufatura da Conformidade") sobre a fundação dos Estados Unidos da América:

Durante o feriado de Thanksgiving (Dia de Ação de Graças), há alguns dias, fiz uma caminhada com alguns amigos e familiares em um parque nacional. Aí, nos deparamos com uma lápide, sobre a qual havia uma inscrição: "Aqui jaz uma mulher indígena, uma wampanoag, cuja família e tribo se entregaram, assim como à sua própria terra, para que esta grande nação pudesse nascer e crescer."

Naturalmente, não é suficientemente exato dizer-se que a população indígena se entregou e entregou sua própria terra para esse nobre propósito. Mais exatamente, eles foram assassinados, dizimados e dispersos durante um dos maiores exercícios de genocídio de toda a história humana… o qual celebramos a cada mês de outubro, quando homenageamos Colombo — ele próprio um famoso assassino de massas – no Columbus Day.

Centenas de cidadãos americanos, pessoas bem intencionadas e decentes, avançam em grupo em direção àquela lápide e lêem a inscrição, aparentemente sem qualquer reação, exceto, talvez, um sentimento de satisfação de que, enfim, estamos prestando algum reconhecimento aos sacrifícios dos povos nativos… é provável que elas reagiriam diferentemente se estivessem visitando Auschwitz ou Dachau e se confrontassem com uma lápide com a inscrição: "Aqui jaz um mulher, uma judia, cuja família e tribo se entregaram, assim como à sua própria terra, para que esta grande nação pudesse crescer e prosperar."

Como os EUA puderam sobreviver a esse passado terrível e emergir com uma cara tão boa? Não foi admitindo aquilo que tinha sido feito, não foi por meio de reparações, não foi pedindo desculpas aos negros americanos ou aos nativos americanos, e certamente não foi por meio de mudanças em seus modos de atuação (já que agora exporta suas crueldades). Como a maioria dos demais países, os EUA rescreveram sua própria história. Mas o que distingue os EUA dos outros países, e o que o coloca na linha de frente da corrida, é que contratou os serviços da firma de publicidade mais poderosa e bem sucedida do mundo: Hollywood.

Na versão best-seller do mito popular vendido como história, a "bondade" dos EUA atingiu seu clímax durante a Segunda Guerra Mundial (na Guerra da América Contra o Fascismo). Na realidade, atordoado pelo estrondo da trombeta e do canto do anjo, está o fato de que enquanto o fascismo estava a pleno galope na Europa, o governo dos EUA olhou para o outro lado. Quando Hitler continuava a execução de seu progrom genocida contra os judeus, os funcionários do governo dos EUA recusavam a entrada dos refugiados judeus que escapavam da Alemanha. Os EUA entraram na guerra somente depois que os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Afogado pelo barulhentos hosanas, encontra-se o mais bárbaro dos atos; de fato, o ato mais selvagem que o mundo jamais testemunhou: o lançamento da bomba atômica sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki. A guerra estava quase no fim. As centenas de milhares de cidadãos japoneses que foram mortos, as inúmeras pessoas que foram vítimas de câncer por inúmeras gerações futuras, não constituíam uma ameaça à paz mundial. Eram população civil. Como as vítimas do bombardeio do World Trade Center e do Pentágono eram população civil. Como as milhares e milhares de pessoas que morreram no Iraque como resultado das sanções lideradas pelos EUA também eram população civil. O bombardeio de Hiroshima e Nagasaki foi um experimento frio e calculado, realizado para demonstrar o poder da América. Naquela época, o Presidente Truman descreveu o fato como "o maior evento da história".

A Segunda Guerra Mundial, como nos dizem, foi uma "guerra pela paz". A bomba atômica era uma "arma de paz". Somos convidados a acreditar que a intimidação nuclear evitou a ocorrência da Terceira Guerra Mundial. (Isso antes que o Presidente George Bush Jr. viesse com sua "doutrina de ataque preventivo". Houve uma explosão de paz depois da Segunda Guerra Mundial? Certamente, houve uma paz relativa na Europa e na América — mas será que isso conta como paz? Não, a menos que as guerras selvagens e por procuração combatidas onde vivem as raças de outras cores (os "chinks, niggers, dinks, wogs, gooks" [N.T.: nomes pejorativos dados pelos americanos respectivamente aos chineses, negros, árabes, hindus ou negros, asiáticos ou vienamitas, etc…]) não contarem como guerra.

Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estiveram em guerra contra, ou atacaram, entre outros países, a Coréia, Guatemala, Cuba, Laos, Vietnã, Camboja, Granada, Líbia, El Salvador, Nicarágua, Panamá, Iraque, Somália, Sudão, Iugoslávia e Afeganistão. Essa lista deveria incluir as operações camufladas pelo governo dos EUA na África, Ásia e América Latina, os golpes que projetaram e os ditadores que armaram e apoiaram. Deveria incluir também a guerra de Israel contra o Líbano, financiada pelos EUA e na qual milhares de pessoas foram mortas. Deveria também incluir o papel fundamental que a América desempenhou no conflito do Oriente Médio, no qual milhares de pessoas têm morrido ao combaterem a ocupação ilegal dos territórios palestinos por Israel. Deveria também incluir o papel da América na guerra civil do Afeganistão nos anos 80, na qual mais de um milhão de pessoas foram mortas. Deveria também incluir os embargos e as sanções que levaram direta e indiretamente à morte de centenas de milhares de pessoas, mais visivelmente no Iraque.

Juntando-se isso tudo, parece que, na realidade, houve mesmo uma Terceira Guerra Mundial, e que o governo dos EUA era (ou é) um de seus principais protagonistas.

A maioria dos ensaios que compõem For Reasons of State (Por Razões de Estado) de Chomsky era sobre a agressão dos EUA no Vietnã do Sul, Vietnã do Norte, Laos e Camboda. Foi uma guerra que durou mais de 12 anos. Cinqüenta e oito mil americanos e cerca de dois milhões de vietnamitas, cambojanos e laocianos perderam a vida. Os EUA enviaram tropas com meio milhão combatentes e jogaram mais de seis milhões de toneladas de bombas. E mesmo assim, embora seja difícil de acreditar para quem vê a maioria dos filmes de Hollywood, a América perdeu a guerra.

A guerra começou no Vietnã do Sul e se espalhou para o Vietnã do Norte, Laos e Cambodja. Depois de ter colocado no poder um regime cliente em Saigon, o governo dos EUA se autoconvidou para combater uma insurgência comunista — guerrilheiros vietcongs que tinham se infiltrado nas regiões rurais do Vietnã do Sul, onde os habitantes lhes forneciam abrigo. Esse foi o modelo exato que a Rússia replicou quando, em 1979, autoconvidou-se no Afeganistão. Ninguém no "mundo livre" tem qualquer dúvida sobre o fato de que a Rússia invadiu o Afeganistão. Depois da glasnost, até mesmo um ministro do exterior soviético chamou a invasão do Afeganistão de "ilegal e imoral". Mas esse tipo de introspecção não teve lugar nos Estados Unidos. Em 1984, numa estonteante revelação, Chomsky escreveu:

Nos últimos 22 anos, eu tenho tentado encontrar alguma referência no jornalismo da grande mídia ou nos escritos acadêmicos sobre a invasão americana do Vietnã do Sul em 1962 (ou outro dia), ou sobre qualquer agressão americana na Indochina — sem ter tido sucesso. Esse evento não existe na história. Mais precisamente, encontra-se algo sobre a defesa do Vietnã do Sul pela América, contra os ataques terroristas que contavam com apoio externo (principalmente do Vietnã).

Não existe um evento desses na história!

Em 1962, a Força Aérea dos EUA começou a bombardear a região rural do Vietnã do Sul, onde 80 por cento da população residia. Os bombardeios duraram mais de uma década. Milhares de pessoas foram mortas. A idéia era bombardear numa escala suficientemente colossal de modo a induzir uma migração em função do pânico, dos vilarejos para as cidades onde as pessoas poderiam ser detidas em campos de refugiados. Samuel Huntington referiu-se a esse processo como "urbanização". (Eu fiquei sabendo dessa urbanização quando era estudante de arquitetura na Índia. De qualquer modo, não me consta que bombardeamento aéreo fizesse parte do curriculum escolar.) Huntington – hoje famoso pelo seu ensaio "The Clash of Civilizations?" ("O choque das civilizações?") – era, naquela época, presidente do Council on Vietnamese Studies of the Southeast Asia Development Advisory Group (Conselho de Estudos Vietnamitas do Grupo de Assessoria para o Desenvolvimento do Sudeste da Ásia). Chomsky o cita, quando aquele autor descreve os vietcongs como "uma força poderosa que não pode ser extirpada dos distritos nos quais está enraizada, enquanto esses distritos continuarem a existir". Huntington prossegue, aconselhando uma "aplicação direta de poder mecânico e convencional"– em outras palavras, para esmagar uma guerra do povo, eliminar o povo. (Ou, talvez, para atualizar sua tese – para se prevenir um choque de civilizações, aniquilar a civilização.)

Eis um observador daquela época, a respeito das limitações do poder mecânico da América: "O problema é que as máquinas americanas não se equiparam com a tarefa de matar soldados comunistas, exceto como parte de uma política de terra queimada que destrua todo o resto também." Aquele problema foi resolvido, agora. Não com bombas menos destrutivas, mas com uma linguagem mais imaginativa. Há uma maneira mais elegante de se dizer "que destrua todo o resto também". A frase é "dano colateral".

E existe um relato em primeira mão daquilo que as "máquinas" americanas (Huntington as chamava de "instrumentos de modernização" e os funcionários do Pentágono as chamavam de "bomb-o-grams") podiam fazer. Trata-se de T.D. Allman sobrevoando a planície de Jars, no Laos.

Mesmo se a guerra no Laos terminasse amanhã, a restauração de seu equilíbrio ecológico poderia levar vários anos. A reconstrução das cidades e dos vilarejos da Planície destruídos poderia também levar muitos anos. Mesmo se isso ocorresse, a Planície poderia revelar-se perigosa para abrigar habitantes devido às centenas de milhares de bombas não explodidas, minas e armadilhas minadas.

Um vôo recente sobre a Planície de Jars revelou o que menos de três anos de intensivo bombardeio americano pode provocar numa área rural, mesmo depois que a sua população civil tenha sido evacuada. Em extensas áreas, a cor tropical primária — o verde exuberante — foi substituído por um padrão abstrato de cor negra e de cores metálicas brilhantes. A maioria da folhagem sobrevivente está atrofiada e opaca, devido aos desfolhadores.

Hoje, o negro é a cor predominante das extensões do norte e do sul da planície. O napalm é lançado regularmente para queimar a grama e o mato que cobre as planícies e que preenche seus vários desfiladeiros estreitos. Os incêndios parecem ser constantes, criando retângulos negros. Durante o vôo, plumas de fumaça podiam ser vistas, erguendo-se das áreas recém bombardeadas.

As estradas principais, chegando à planície do território mantido pelos comunistas, são bombardeadas implacável e incessantemente, sem pausas. Lá, e ao longo de toda a borda da planície, a cor predominante é o amarelo. Toda a vegetação foi destruída. As crateras são inúmeras… A área foi bombardeada tantas vezes repetidamente que a terra parece o deserto marcado e escumado das áreas desérticas atingidas por tempestades no Norte da África.

Mais em direção ao sudeste, Xieng Khouangville – uma vez a cidade mais povoada do Laos comunista — jaz vazia, destruída. Ao norte da planície, o pequeno vilarejo de Khang Khay também foi destruído.

Em volta do campo de pouso da base de King Kong, as cores predominantes são o amarelo (devido ao solo revolvido) e o negro (devido ao napalm), aliviado por manchas de cor vermelha e azul intensa: os pára-quedas costumavam atirar suprimentos.

Os últimos habitantes do local foram transportados por via aérea. Jardins de vegetais abandonados que nunca mais viram qualquer colheita cresceram perto das casas abandonadas, dentro das quais estão ainda postos os pratos sobre as mesas e afixados os calendários nas paredes.

(Nunca foram calculados entre os "custos" da guerra o número de pássaros mortos, os animais carbonizados, os peixes assassinados, os insetos incinerados, as fontes de água envenenadas, a vegetação exterminada. Raramente mencionada é a arrogância da raça humana em relação às outras formas de vida, com as quais compartilha esse planeta. Tudo isso é esquecido, na luta por mercados e ideologias. Essa arrogância será, provavelmente, a ruína final da espécie humana.)

Parte fundamental de For Reasons of State (Por Razões de Estado) é um ensaio titulado "The Mentality of the Backroom Boys" ("A Mentalidade dos Rapazes do Quarto dos Fundos"), no qual Chomsky oferece uma análise extraordinariamente desenvolta e exaustiva dos Pentagon Papers (Documentos do Pentágono), sobre os quais ele diz que "fornecem evidência documentária de uma conspiração para usar a força em questões internacionais, infringindo a lei". Aqui também, Chomsky observa o fato de que enquanto o bombardeio do Vietnã do Norte é discutido com certa profundidade nos Pentagon Papers, a invasão do Vietnã do Sul mal merece uma menção.

Os Pentagon Papers são fascinantes, não como documentação da história da guerra dos EUA na Indochina, mas para dar uma idéia da mentalidade dos homens que a planejaram e a executaram. É fascinante ficar a par das idéias que estavam sendo lançadas, das sugestões que eram feitas, das propostas que foram apresentadas. Numa seção titulada "The Asian Mind – the American Mind" ("A Mente Asiática — A Mente Americana"), Chomsky examina a discussão sobre a mentalidade do inimigo que "estoicamente aceita a destruição dos bens e a perda de vidas", ao passo que "nós queremos a vida, a felicidade, a riqueza e o poder" e, para nós, "a morte e o sofrimento são escolhas irracionais, se existirem alternativas". Assim, aprendemos que os pobres asiáticos, presumivelmente porque eles não podem entender o significado da felicidade, do bem-estar e do poder, convidam a América para levar a cabo essa "lógica estratégica até a sua conclusão, que é o genocídio". Mas daí "nós" barramos o plano, porque o "genocídio é um fardo muito pesado para carregar". (Eventualmente, é claro, "nós" fomos adiante e cometemos o genocídio de todo jeito, e em seguida, fingimos que ele nunca realmente ocorreu.)

Naturalmente, os Pentagon Papers contêm também algumas propostas moderadas.

Ataques a populações-alvo (per se), provavelmente, não só criam uma onda contraproducente de repulsa, tanto no país quanto no exterior, como aumentam muito o risco de estender a guerra com a China e a União Soviética. Destruição de comportas e represas, entretanto — se forem gerenciadas corretamente — … podem ser promissoras. Isso deveria ser estudado. Esse tipo de destruição não mata ou afoga as pessoas diretamente. Mas, inundando-se superficialmente o arroz, depois de um tempo haverá inanição generalizada na região (mais de um milhão?), a menos que se providenciem alimentos — e nós poderíamos oferecer esses alimentos numa "mesa de conferência".

Camada por camada, Chomsky desmonta o processo de tomada de decisão dos funcionários do governo dos EUA, para revelar em essência o coração desalmado da máquina de guerra americana, completamente isolado das realidades de guerra, cego pela ideologia, e disposto a aniquilar milhões de seres humanos, populações civis, soldados, mulheres, crianças, vilarejos, inteiras cidades, inteiros ecossistemas — com métodos de brutalidade cientificamente afiados.

Eis um piloto americano falando sobre as alegrias do napalm:

Certamente, estamos satisfeitos com os backroom boys da Dow. O produto original não era tão ‘quente’ — se os gooks (N.T.: pejorativo de asiático, ou de vietnamita, ou de soldado vietnamita do norte) fossem rápidos, poderiam removê-lo. Então, os backroom boys começaram a acrescentar polistireno — agora gruda feito bosta num cobertor. Mas se os ‘gooks’ se atirarem na água, parava de queimar, então eles começaram a acrescentar ‘Willie Peter’ [fósforo branco] assim eles poderiam queimar melhor. Queima até embaixo d’água. E só uma gota é o suficiente, continua queimando até o osso, assim eles morrem de qualquer jeito, por causa do envenenamento provocado pelo fósforo.

Portanto, os ‘gooks’ felizardos foram aniquilados para o seu próprio bem. ‘Better Dead than Red’("Melhor Morto que Vermelho’)..

Graças aos sedutores charmes de Hollywood e ao irresistível apelo da mídia de massas americana, todos esses anos que se seguiram, o mundo vê a guerra como uma história americana. A Indochina forneceu o fundo tropical exuberante do cenário no qual os EUA soltaram suas fantasias de violência, testaram suas mais recentes tecnologias, fizeram avançar sua ideologia, examinaram sua consciência, agonizaram com os dilemas morais e lidaram com sua culpa (ou fingiram fazê-lo). Os vietnamitas, cambojanos e laocianos foram só pontas no roteiro. Sem nome, sem rosto, meros humanóides de olhos puxados. Eles eram apenas as pessoas que morriam. Gooks.

A única lição verdadeira que o governo dos EUA aprendeu com a sua invasão da Indochina foi como ir para guerra sem engajar as tropas americanas e arriscar as vidas americanas. Assim, agora, temos guerras feitas por mísseis cruise de longo alcance, Black Hawks, "bunker busters" ("detonadores de casamatas"). Guerras nas quais os "aliados" perdem mais jornalistas do que soldados.

Para uma criança que cresceu no estado de Kerala, no Sul da Índia – onde o primeiro governo comunista do mundo eleito democraticamente chegou ao poder em 1959, ano em que nasci — eu ficava muito preocupada com o fato de ser gook. Kerala distava apenas poucos milhares de milhas ao oeste do Vietnã. Tínhamos florestas e rios e campos de arroz, e tínhamos comunistas também. Eu imaginava repetidamente minha mãe, meu irmão, e eu mesma sendo bombardeados e explodindo nos matagais por uma granada, ou sermos cortados em pedaços, como os gooks nos filmes, por um marine americano com braços musculosos e mascando chiclé, e um ruído barulhento de fundo. Nos meus sonhos, eu era a menina queimada daquela famosa fotografia tirada na estrada de Trang Bang.

Para alguém que cresceu no meio do vértice da propaganda americana e da propaganda soviética (situação na qual, mais ou menos, uma neutralizava a outra), quando li Noam Chomsky pela primeira vez, ocorreu-me que a exposição, o volume e a persistência da evidência era um pouco — como poderia dizer? — absurda. Mesmo um quarto da evidência que ele tinha compilado teria sido suficiente para me convencer. Eu me perguntava porque ele precisava de tanto trabalho. Porém, agora, entendo que a magnitude e a intensidade da obra de Chomsky é um barômetro da magnitude, do escopo, da persistência da máquina de propaganda contra a qual ele se depara. Ele é como a broca de madeira que reside dentro da terceira prateleira de minha biblioteca. Noite e dia, ouço sua mandíbula triturando a madeira, moendo a mesma até transformá-la em fino pó. É como se ele discordasse com a literatura e quisesse destruir a própria estrutura sobre a qual ela se assenta. Eu o chamo de Chompsky.

Sendo americano e trabalhando na América, escrever para convencer os americanos sobre o seu ponto de vista deve ser, realmente, como tentar abrir uma senda no meio de floresta densa de madeiras rigidíssimas. Chomsky é um dos indivíduos de um grupo muito reduzido que está combatendo todo um setor. E isso faz dele não apenas um ser brilhante, como também heróico.

Há alguns anos, numa entrevista comovente a James Peck, Chomsky falou sobre sua lembrança do dia em que Hiroshima foi bombardeada. Ele tinha 16 anos:

Lembro-me de que eu literalmente não conseguia falar com ninguém. Não havia ninguém. Saía caminhando sozinho. Estava num acampamento de verão naquele momento, e caminhei até a floresta e fiquei sozinho por algumas horas, depois que ouvi a notícia. Nunca podia falar com ninguém sobre isso e nunca entendi a reação das pessoas. Senti-me completamente isolado.

O isolamento produziu um dos maiores e mais radicais pensadores públicos de nossos tempos. Quando ocorrer o pôr-do-sol para o império americano, porque é certo que ele ocorrerá, é preciso que ele ocorra, a obra de Noam Chomsky sobreviverá.

Ele apontará um dedo seguro e acusador em direção a um império impiedoso e maquiavélico, tão cruel, convencido e hipócrita como aqueles que substituíu. (A única diferença é que esse está armado com um tipo de tecnologia que pode provocar um tipo de devastação no mundo jamais conhecida pela história e que a raça humana nem sequer pode começar a imaginar.)

Como eu podia ter sido gook e, quem sabe, talvez uma gook em potencial, é raro que se passe um dia sem que eu me encontre pensando – por uma ou outra razão – "Chomsky Zindabad".

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