21 de dezembro de 2011

Uma esquerda à medida do ser humano

Alain Touraine

La Repubblica

O teorema há muito tempo aceito segundo o qual o centro da vida social é o sistema econômico, ou seja, a estreita correspondência das categorias da vida econômica com as da vida social, não é mais aceitável. A economia se separou da vida social: esse é o significado mais profundo da globalização. O mundo das instituições sociais, políticas e jurídicas está ruindo. A construção de juízos sociais não pode mais ter outros fundamentais senão morais.

Qual é o lugar do trabalho na vida individual e coletiva: esse é o tema que melhor define o espírito de uma concepção "moral" da vida social; a união de uma política desse tipo com a repressão das condições econômicas ilegais transformaria de modo fundamental a vida social de todos. Seria preciso atribuir muito mais importância do que atribuímos hoje a todos os problemas que se referem às minorias de todos os tipos, quer se trate dos muito jovens, quer dos idosos, quer dos deficientes ou das minorias culturais, linguísticas, sexuais, religiosas ou outras ainda.

O problema é que estamos acostumados a ouvir a direita falar a linguagem da moral, e a esquerda, a das relações de poder e da luta do lucro contra os assalariados. Mas ainda é possível ouvir esse discurso quando a especulação reina em toda parte e quando vemos a impossibilidade de reconstruir a economia? E quando, no vazio ou na fraqueza dos discursos feitos por partidos e governos de esquerda, as vozes que ouvimos e que representam mais ativamente a esquerda são, ao contrário, cheias de indignação, de apelos à justiça, de reivindicação do acesso real – e não apenas legal – à satisfação das necessidades mais fortemente sentidas – não é claro que os temas "morais" mobilizam mais do que os estritamente econômicos?

Não existe mais esquerda senão aquela que toma a palavra ou dela se apodera, como já haviam feito os movimentos pioneiros dos anos 1960, sobretudo nos Estados Unidos e na França.

Esquerda ou direita são, acima de tudo, concepções da sociedade, definições do Bem a ser defendido e do Mal a ser combatido. A esquerda ou a direita também podem ser definidas em nível social do ponto de vista das categorias sociais às quais pertencem os eleitores ou os simpatizantes, mas o que está em jogo e a natureza do conflito não podem mais ser definidos em termos sociais. Não são mais os agricultores pobres ou os operários da grande indústria que constituem a esquerda. Vemos isso todos os dias, mais ou menos claramente, dependendo do país que observamos e das categorias que analisamos.

Mas precisamos identificar as novas categorias que compartilham a visão recém-evocada. Precisamos localizar nos principais âmbitos da vida social – produção, distribuição, finanças, educação, saúde, ocupação do território, política cultural etc. – as escolhas que permitem colocar a direita e a esquerda e contrapor uma a outra, tarefa imensa, mas que ao menos é indispensável começar a realizar.

O elemento de definição que vem primeiro à mente é que a direita pensa em termos de objetos e de relações entre objetos, e que define os atores por meio das suas situações objetivas. Chama ainda mais a atenção, portanto, que essa tentativa tenha sido, em um passado já distante identificado com a esquerda. O que impõe que se rompa com as ideologias que sobrevivem às realidades históricas que elas tentaram interpretar. O que define, ao contrário, a esquerda, é que ela pensa e age em termos de direitos.

O populismo de direita, que lamenta as deploráveis condições da infância, dos pobres, das mulheres e dos presos, sempre existiu. Mas o pensamento e a ação só se tornam de esquerda quando o pensamento se interroga sobre as razões da desigualdade, ou da dependência e da violência, buscando nas vítimas os possíveis protagonistas de vontade e desejo de ação.

O setor em que é mais fácil definir a esquerda é o juízo expresso sobre os direitos e sobre a situação das mulheres; talvez porque os progressos rumo à paridade entre homens e mulheres são tão lentos, quando não totalmente ausentes. As nossas sociedades ainda são, nesse contexto, de direita, em imensa maioria. Se o que melhor define a esquerda é o juízo sobre a condição da mulher, a direita se define melhor pela importância atribuída à identidade, que se traduz no medo das minorias, sobretudo as de recente formação. As políticas da identidade são políticas de direita. O que não significa que algumas orientações de esquerda não possam se identificar com um ideal nacional ou religioso, o que é obviamente inegável.

Este é o caminho que é preciso seguir para dar um conteúdo real às ideias de direita e de esquerda. Só quando um grande número de indivíduos, de grupos e de organizações se compromete com decisão em tais tarefas podemos nos preocupar com os problemas de organização política. Com isso, certamente não se quer defender que devamos recomeçar do zero, mas sim que a construção de uma tendência política deve acertar as contas com uma herança de partido que é um obstáculo, mais do que uma ajuda, ao desenvolvimento de novas ideias, de novas práticas, de novas mobilizações.

A partir nossa reflexão contemporânea, essas são as interrogações que deveremos continuar nos pondo: em quais os pontos decisivos a esquerda e a direita se opõem? E quais diferenças devem existir entre as formas de ação política e das pessoas de direita e das pessoas de esquerda?

13 de dezembro de 2011

Quatro futuros

Uma coisa que podemos ter certeza é que o capitalismo vai acabar.

Peter Frase

Jacobin


No seu discurso para o acampamento “Occupy Wall Street” no Parque Zuccotti, Slavoj Žižek lamentou que “é fácil imaginar o fim do mundo, mas não conseguimos imaginar o fim do capitalismo”. É uma paráfrase de um comentário que Fredric Jameson fez há alguns anos, quando a hegemonia do neoliberalismo ainda parecia absoluta. Mesmo assim, a própria existência de “Occupy Wall Street” sugere que o fim do capitalismo tornou-se um pouco mais fácil de imaginar nos últimos tempos. No início, esse cenário tomou uma forma deprimente e distópica: no auge da crise financeira, com a economia global aparentemente em colapso total, o fim do capitalismo parecia ser o início de um período de violência e miséria anárquicas. E ainda pode ser, com a zona do euro balançando à beira do colapso enquanto escrevo. Mas, mais recentemente, a propagação de protestos globais de Cairo a Madri a Madison a Wall Street deu à Esquerda algum motivo para timidamente elevar suas esperanças para um futuro melhor depois do capitalismo.

Uma coisa que podemos ter certeza é que o capitalismo vai acabar. Talvez não em breve, mas provavelmente não daqui a muito tempo; a humanidade nunca conseguiu criar um sistema social eterno, afinal, e o capitalismo é uma ordem notoriamente mais precária e volátil do que a maioria daquelas que a precederam. A questão, então, é o que virá a seguir. Rosa Luxemburgo, reagindo ao início da Primeira Guerra Mundial, citou uma frase de Engels: “A sociedade burguesa está numa encruzilhada, ou transita para o socialismo, ou regride para a barbárie”. Nesse espírito, proponho um experimento mental, uma tentativa de dar sentido aos nossos possíveis futuros. Estes são alguns dos socialismos que podemos alcançar se uma Esquerda ressurgente for bem-sucedida, e os barbarismos a que podemos ser relegados se falharmos.

Grande parte da literatura sobre as economias pós-capitalistas está preocupada com o problema da gestão do trabalho na ausência de chefes capitalistas. No entanto, vou começar por ignorar esse problema, a fim de melhor iluminar outros aspectos da questão. Isso pode ser feito simplesmente extrapolando a tendência do capitalismo em direção à crescente automação, o que torna a produção cada vez mais eficiente enquanto que simultaneamente desafia a capacidade do sistema de gerar empregos e, portanto, sustentar a demanda pelo que é produzido. Este tema, ultimamente, tem sido ressurgente no pensamento burguês: em setembro de 2011, Farhad Manjoo da revista Slate escreveu uma longa série sobre “A Invasão dos Robôs”, e logo depois dois economistas do MIT publicaram Race Against the Machine [N.T. Corrida Contra a Máquina, em tradução literal], um e-book em que argumentavam que a automação estava ultrapassando rapidamente muitas das áreas que até recentemente serviram como os maiores motores de criação de emprego da economia capitalista. De fábricas totalmente automáticas a computadores que podem diagnosticar condições médicas, a robotização está ultrapassando não apenas a manufatura, mas também grande parte do setor de serviços.

Levada ao seu extremo lógico, essa dinâmica nos leva ao ponto em que a economia não exige trabalho humano nenhum. Isso não leva automaticamente ao fim do trabalho ou do trabalho assalariado, como tem sido incorretamente previsto repetidamente em resposta aos novos desenvolvimentos tecnológicos. Mas isso significa que as sociedades humanas enfrentarão cada vez mais a possibilidade de libertar as pessoas do trabalho involuntário. Se aproveitaremos essa oportunidade e como o faremos, depende de dois fatores principais, um material e outro social. A primeira questão é a escassez de recursos: a capacidade de encontrar fontes baratas de energia, extrair ou reciclar matérias-primas e, em geral, depender da capacidade da Terra de fornecer um alto padrão material de vida a todos. Uma sociedade que tem tanto a tecnologia de substituição do trabalho e recursos abundantes pode superar a escassez de maneira mais completa de uma forma que uma sociedade com apenas o primeiro elemento não pode. A segunda pergunta é política: que tipo de sociedade seremos? Uma em que todas as pessoas são tratadas como seres livres e iguais, com igual direito de participar da riqueza da sociedade? Ou uma ordem hierárquica em que uma elite domina e controla as massas e seu acesso aos recursos sociais?

Há portanto quatro combinações lógicas das duas oposições, abundância de recursos versus escassez e igualitarismo versus hierarquia. Para colocar as coisas em termos um tanto vulgares-marxistas, o primeiro eixo dita a base econômica do futuro pós-capitalista, enquanto o segundo se refere à superestrutura sócio-política. Dois futuros possíveis são socialismos (apenas um dos quais eu chamarei por este nome), enquanto os outros dois são sabores contrastantes do barbarismo.

Igualitarismo e abundância: Comunismo

Há uma passagem famosa no terceiro volume de O Capital, em que Marx distingue entre um “reino da necessidade” e um “reino da liberdade”. No reino da necessidade nós devemos “lutar com a natureza para satisfazer [nossos] desejos, para manter e reproduzir a vida “, por meio do trabalho físico na produção. Esse reino de necessidade, diz Marx, existe “em todas as formações sociais e sob todos os modos possíveis de produção”, presumivelmente incluindo o socialismo. O que distingue o socialismo, então, é que a produção é planejada racionalmente e organizada democraticamente, ao invés de operar ao capricho do capitalista ou do mercado. Para Marx, porém, esse nível de sociedade não era o verdadeiro objetivo da revolução, mas apenas uma pré-condição para “o desenvolvimento da energia humana, que é um fim em si mesmo, o verdadeiro reino da liberdade, que, no entanto, só pode florescer com este reino da necessidade como sua base”.

Em outro lugar, Marx sugere que um dia poderemos libertar-nos completamente do reino da necessidade. Em Critique of the Gotha Program (Crítica ao Programa de Gotha), ele imagina que:

“Numa fase mais elevada da sociedade comunista, após a subordinação escravizante do indivíduo à divisão do trabalho, e com isso também o desaparecimento da antítese entre o trabalho mental e o trabalho físico; depois que o trabalho tornar-se não só um meio de vida, mas o desejo primordial da vida; depois que as forças produtivas também aumentarem com o desenvolvimento integral do indivíduo e todas as fontes de riqueza cooperativa fluírem mais abundantemente – então, só então, o estreito horizonte do direito burguês pode ser cruzado em sua totalidade e a sociedade inscrever em suas faixas: De cada um de acordo com sua capacidade, a cada um de acordo com suas necessidades!”

Os críticos de Marx têm frequentemente voltado esta passagem contra ele, retratando-a como uma utopia irremediavelmente improvável. Que possível sociedade poderia ser tão produtiva que os seres humanos estariam totalmente liberados de ter que realizar algum tipo de trabalho involuntário e insatisfatório? No entanto, a promessa de uma automatização generalizada é a de que ela poderia decretar precisamente tal libertação, ou pelo menos se aproximar dela — se, isto é, nós encontrarmos uma maneira de lidar com a necessidade de gerar energia e garantir recursos. Mas os avanços tecnológicos recentes não ocorreram apenas na produção de commodities, mas na geração da energia necessária para operar as fábricas automáticas e as impressoras 3-D do futuro. Assim, um possível futuro pós-escassez combina a tecnologia de economia de trabalho com uma alternativa ao atual regime energético, que é em último caso limitado por ambos, a escassez física e a destruição ecológica dos combustíveis fósseis. Isso está longe de ser garantido, mas há indicadores esperançosos. O custo de produção e operação de painéis solares, por exemplo, vem caindo dramaticamente na última década; No ritmo atual, seriam mais baratos do que nossas fontes de eletricidade atuais até 2020. Se energia barata e automação forem combinadas com métodos de fabricação ou reciclagem eficientes de matérias-primas, então realmente teremos deixado para trás “a economia” como um mecanismo social para administrar a escassez. O que está por trás desse horizonte?

Não é que todo o trabalho cessaria, no sentido de que todos nós apenas poderíamos nos sentar em libertinagem e torpor. Pois, como dizia Marx, “o trabalho tornou-se não só um meio de vida, mas o desejo primordial da vida”. Quaisquer que fossem as atividades e projetos que empreendêssemos, participaríamos deles porque os acharíamos inerentemente gratificantes, não porque precisaríamos de um salário ou devêssemos nossas horas mensais para a cooperativa. Isso não é tão implausível, considerando o grau em que as decisões sobre o trabalho já são motivadas por considerações não-materiais, entre aqueles que são privilegiados o suficiente para ter a opção: milhões de pessoas escolhem fazer uma pós-graduação ou se tornarem assistentes sociais ou iniciar pequenas fazendas orgânicas, mesmo quando carreiras muito mais lucrativas estão disponíveis para eles.

O fim do trabalho assalariado pode parecer um sonho distante hoje. Mas em uma época muito distante — antes que o movimento trabalhista recuasse da demanda por horas mais curtas e antes da estagnação e reversão da longa tendência por semanas de trabalho reduzidas — as pessoas realmente se preocupavam com o que faríamos depois de sermos liberados do trabalho. Em um ensaio sobre “Possibilidades econômicas para nossos netos”, John Maynard Keynes previu que dentro de algumas gerações, “o homem será confrontado com o seu real, seu permanente problema — como usar sua libertação das preocupações econômicas urgentes, como ocupar o tempo livre, que a ciência e os juros compostos terão conquistado para ele, para viver sabiamente e agradavelmente e bem”. E em uma discussão recentemente publicada, de 1956, Max Horkheimer começa por comentar casualmente para Theodor Adorno que “hoje em dia nós temos bastante por meio das forças produtivas; é óbvio que poderíamos abastecer o mundo inteiro com bens e então poderíamos tentar abolir o trabalho como uma necessidade para os seres humanos”.

E Keynes e Adorno viveram em um mundo onde a indústria só parecia possível em uma escala muito grande, seja em fábricas capitalistas ou empresas estatais; essa forma de indústria implica em hierarquia, não importa em qual formação social ela está inserida. Mas os avanços tecnológicos recentes sugerem a possibilidade de retornar a uma estrutura menos centralizada, sem reduzir drasticamente o padrão de vida material: a proliferação de impressoras 3-D e de “laboratórios de fabricação” em pequena escala está tornando cada vez mais possível reduzir a escala de pelo menos alguma produção sem sacrificar completamente a produtividade. Assim, na medida em que algum trabalho humano ainda é exigido na produção em nosso futuro comunista imaginário, ele poderia assumir a forma de pequenos coletivos em vez de empresas capitalistas ou estatais.

Contudo, a superação econômica do trabalho assalariado também significa superá-lo socialmente, e isso implica em mudanças profundas em nossas prioridades e no nosso estilo de vida. Se quisermos imaginar um mundo onde o trabalho não é mais uma necessidade, é provavelmente mais proveitoso recorrer à ficção do que à teoria. De fato, muitas pessoas já estão familiarizadas com a utopia de um comunismo pós-escassez, porque ela foi representada em uma das nossas obras mais conhecidas da cultura popular: Star Trek. A economia e a sociedade desse programa baseiam-se em dois elementos técnicos básicos. Uma é a tecnologia do “replicador”, que é capaz de materializar qualquer objeto do nada, apenas pressionando um botão. O outro é uma fonte de energia, confusamente descrita, aparentemente gratuita (ou quase gratuita), que faz funcionar os replicadores, bem como todo o resto no programa.

O caráter comunista do universo de Star Trek é muitas vezes obscurecido porque os filmes e programas de TV são centrados na hierarquia militar da Frota Estelar, que explora a galáxia e entra em conflito com as raças alienígenas. Mas mesmo isso parece ser, em grande parte, uma hierarquia voluntariamente escolhida, atraindo aqueles que buscam uma vida de aventura e exploração; na medida em que vemos vislumbres da vida civil, esta parece na maior parte não ser perturbada pela hierarquia ou compulsão. E, na medida em que o show sai da utopia comunista, é porque seus escritores introduzem a ameaça externa de raças alienígenas hostis ou recursos escassos para produzir tensão dramática suficiente.

Não é necessário, contudo, conjurar naves espaciais e alienígenas a fim de imaginar as tribulações de um futuro comunista. A novela de Cory Doctorow, Down and Out in the Magic Kingdom [N.T. Na Rua e Sem Teto no Reino Mágico), imagina um mundo pós-escassez que está inserido numa extrapolação reconhecível dos Estados Unidos atuais. Assim como em Star Trek, a escassez material foi superada neste mundo. Mas Doctorow compreende que dentro das sociedades humanas, certos bens imateriais serão sempre inerentemente escassos: reputação, respeito, estima entre pares. Assim, o livro gira em torno das tentativas de vários personagens para acumular “whuffie”, que são uma espécie de pontos virtuais que representam a boa vontade que você acumulou dos outros. Whuffie, por sua vez, é usado para determinar quem detém a autoridade em qualquer iniciativa coletiva voluntária — como, nesta ficção, administrar a Disneyland.

O valor do livro de Doctorow, em contraste com Star Trek, é que ele trata um mundo pós-escassez como um mundo com as suas próprias hierarquias e conflitos, ao invés de um em que todos vivem em perfeita harmonia e a política está pausada. A reputação, como o capital, pode ser acumulada de forma desigual e autoperpetuante, como também aqueles que já são populares ganham a habilidade de fazer coisas que lhes dão mais atenção e os torna ainda mais populares. Tal dinâmica é facilmente observável hoje, como em blogs e outras mídias sociais que produzem influenciadores populares que são capazes de determinar quem recebe atenção e quem não, de uma forma que não é completamente uma função de quem tem dinheiro para gastar. Organizar a sociedade de acordo com quem tem mais “likes” no Facebook tem certas desvantagens, para dizer o mínimo, mesmo quando desalojado de seu invólucro capitalista.

Mas se não é uma visão de uma sociedade perfeita, esta versão do comunismo é, pelo menos, um mundo no qual o conflito não se baseia mais na oposição entre trabalhadores assalariados e capitalistas ou em lutas por recursos escassos. É um mundo em que nem tudo se resume a dinheiro. Uma sociedade comunista certamente teria hierarquias de status — como têm todas as sociedades humanas, assim como o capitalismo. Mas no capitalismo, todas as hierarquias de status tendem a estar alinhadas, embora de modo imperfeito, com uma hierarquia mestra de status: a acumulação de capital e dinheiro. O ideal de uma sociedade pós-escassez é que os vários tipos de estima sejam independentes, de modo que a estima que alguém possui como músico seja independente da admiração que alguém alcance como ativista político e onde não se possa usar um tipo de status para comprar outro. Em certo sentido, então, é um equívoco referir-se a isso como uma configuração “igualitária”, já que não é um mundo sem hierarquias, mas um de muitas hierarquias, nenhuma das quais é superior a todas as outras.

Hierarquia e abundância: Rentismo

Dadas as premissas técnicas de automação completa e energia gratuita, a utopia de Star Trek do comunismo puro torna-se uma possibilidade, mas dificilmente uma inevitabilidade. A elite burguesa dos dias de hoje não tem apenas acesso privilegiado aos escassos bens materiais, afinal; eles também gozam de status exaltado e poder social sobre as massas trabalhadoras, o que não deve ser desconsiderado como uma fonte de motivação capitalista. Ninguém pode realmente gastar um bilhão de dólares em si, afinal, e ainda há gestores de fundos de investimento hedge que fazem isso em um único ano e depois voltam por mais. Para essas pessoas, o dinheiro é uma fonte de poder sobre os outros, um marcador de status e uma maneira de manter a pontuação — não muito diferente do whuffie de Doctorow, exceto que é uma forma de status que depende da privação material dos outros. Portanto, é de se esperar que, mesmo que o trabalho se tornasse supérfluo na produção, as classes dominantes se esforçariam por preservar um sistema baseado em dinheiro, lucro e poder de classe.

A forma embrionária do poder de classe em uma economia pós-escassez pode ser encontrada em nossos sistemas de direito de propriedade intelectual. Enquanto defensores contemporâneos da propriedade intelectual gostam de falar dela como se ela fosse amplamente análoga a outros tipos de propriedade, ela é realmente baseada em um princípio completamente diferente. Como observam os economistas Michele Boldrin e David K. Levine, os direitos de PI vão além da concepção tradicional de propriedade. Eles não apenas garantem “o seu direito de controlar a sua cópia da sua ideia”, da maneira que eles protegem o meu direito de controlar os meus sapatos ou a minha casa. Em vez disso, eles dão aos detentores de direitos a capacidade de dizer aos outros como usar cópias de uma ideia que eles “possuem”. Como Boldrin e Levine dizem: “Este não é um direito ordinariamente ou automaticamente concedido aos proprietários de outros tipos de propriedade. Se eu produzir uma xícara de café, tenho o direito de escolher se vou ou não vendê-lo para você ou beber eu mesmo. Mas o meu direito de propriedade não é um direito automático para ambos, tanto vender-lhe a xícara de café como dizer-lhe como beber.”

A mutação da forma de propriedade, de real para intelectual, catalisa a transformação da sociedade em algo que não é reconhecido como capitalismo, mas é, contudo, igualmente desigual. O capitalismo, em sua raiz, não é definido pela presença dos capitalistas, mas pela existência do capital, que por sua vez é inseparável do processo de produção de mercadorias por meio do trabalho assalariado, M-C-M’. Quando o trabalho assalariado desaparece, a classe dominante só pode continuar a acumular dinheiro se mantiver a capacidade de apropriar-se de um fluxo de rendas, que resultam do seu controle da propriedade intelectual. Assim surge um rentista, ao invés da sociedade capitalista.

Suponha, por exemplo, que toda a produção seja feita por meio do replicador de Star Trek. A fim de ganhar dinheiro com a venda de itens replicados, as pessoas devem de alguma forma ser impedidas de apenas fazer o que quiserem de graça, e esta é a função da propriedade intelectual. Um replicador só está disponível a partir de uma empresa que licencie para você o direito de usar um, uma vez que quem tentar te dar um replicador ou fazer um com seu próprio replicador estaria violando os termos de sua licença. Além disso, toda vez que você fizer algo com o replicador, você deverá pagar uma taxa de licenciamento para seja lá quem possuir os direitos dessa coisa em particular. Neste mundo, se o capitão de Star Trek Jean-Luc Picard quiser replicar seu amado “chá, Earl Grey, quente”, ele teria que pagar à empresa que detém os direitos autorais do padrão para o replicador do chá quente Earl Grey.

Isso resolve o problema de como manter uma empresa com fins lucrativos, pelo menos nas aparências. Qualquer pessoa que tente suprir suas necessidades a partir de seu replicador sem pagar os cartéis de direitos autorais se tornaria um fora-da-lei, como os compartilhadores de arquivos online de hoje. Apesar de seu absurdo, este arranjo provavelmente teria defensores entre alguns críticos contemporâneos da cultura de compartilhamento da Internet; por exemplo, You Are Not a Gadget (N.T. Você Não É Um Gadget, em tradução livre), de Jaron Lanier, que pede explicitamente a imposição de “escassez artificial” no conteúdo digital para restaurar seu valor. As consequências de tais argumentos já aparecem nos processos judiciais da indústria discográfica contra os desafortunados que fazem downloads de mp3 e na contínua intensificação do estado de vigilância sob o pretexto de combater a pirataria. A extensão deste regime à microfabricação de objetos físicos só irá piorar o problema. Mais uma vez, a ficção científica é esclarecedora, neste caso a obra de Charles Stross. Accelerando nos mostra um futuro no qual os infratores de direitos autorais são perseguidos por assassinos, enquanto o Halting State (N.T. Estado Hesitante, em tradução livre) retrata os “fabbers” de becos furtivos que rodam suas impressoras 3-D um passo à frente da lei.

Mas uma economia baseada na escassez artificial não é apenas irracional, mas também é disfuncional. Se todo mundo está constantemente sendo forçado a pagar dinheiro em taxas de licenciamento, então eles precisam de alguma forma de ganhar dinheiro, e isso gera um novo problema. O dilema fundamental do rentismo é o problema da demanda efetiva: ou seja, como garantir que as pessoas sejam capazes de ganhar dinheiro suficiente para poderem pagar as taxas de licenciamento da qual depende o lucro privado. Evidentemente, isso não é tão diferente do problema que confrontou o capitalismo industrial, mas torna-se mais severo à medida que o trabalho humano é cada vez mais espremido do sistema, e os seres humanos tornam-se supérfluos como elementos de produção, mesmo que permaneçam necessários como consumidores. Então, que tipo de empregos ainda poderiam existir nessa economia?

Algumas pessoas ainda seriam necessárias para sonhar coisas novas para serem replicadas, e assim haveria um lugar para uma pequena “classe criativa” de designers e artistas. E à medida que suas criações se acumulassem, o número de coisas que poderiam ser replicadas em breve superaria amplamente o tempo e o dinheiro disponível para apreciá-las. A maior ameaça aos lucros de uma determinada empresa não seria o custo de mão-de-obra ou matérias-primas — ambos mínimos ou inexistentes — mas sim a perspectiva de que as licenças que possuem iriam perder popularidade para os concorrentes. Marketing e propaganda, então, continuariam a empregar números significativos. Junto com os profissionais de marketing, haveria também um exército de advogados, uma vez que os litígios de hoje sobre a violação de patentes e direitos autorais incha para abranger todos os aspectos da atividade econômica. E finalmente, como em qualquer sociedade hierárquica, deveria haver um aparato de repressão para impedir os pobres e impotentes de tomar uma parte de volta dos ricos e poderosos. Fazer cumprir a lei de propriedade intelectual draconiana exigiria grandes batalhões do que Samuel Bowles e Arjun Jayadev chamam de “trabalho de guarda”: “Os esforços dos monitores, guardas e pessoal militar… dirigidos não para a produção, mas para a execução de reivindicações resultante de trocas e a busca ou prevenção de transferências unilaterais de propriedade”.

No entanto, manter o pleno emprego em uma economia rentista será uma luta constante. É improvável que as quatro áreas que acabamos de descrever possam substituir completamente todos os trabalhos perdidos pela automação. Além disso, esses trabalhos são, eles próprios, sujeitos a inovações que economizam trabalho. O marketing pode ser feito com mineração de dados (data mining) e algoritmos; muita coisa da rotina do negócio de advocacia pode ser substituída por software; o trabalho de guarda pode ser realizado por drones de vigilância em vez de policiais humanos. Até mesmo um pouco do trabalho da invenção de produto poderia um dia ser dado aos computadores que possuem alguma inteligência criativa artificial rudimentar.

E se a automação falhar, a elite de rentistas pode colonizar nosso tempo de lazer para extrair o trabalho gratuito. O Facebook já depende de seus usuários para criar conteúdo de graça, e a moda recente da “gamificação” sugere que as empresas estão muito interessadas em encontrar maneiras de transformar o trabalho de seus funcionários em atividades que as pessoas vão achar prazerosas e, assim, fazer gratuitamente com o seu próprio tempo. O cientista da computação Luis von Ahn, por exemplo, se especializou no desenvolvimento de “jogos com um propósito”, aplicações que se apresentam aos usuários finais como diversões agradáveis ao mesmo tempo que executam uma tarefa computacional útil. Um dos jogos de von Ahn pedia aos usuários que identificassem objetos em fotos e os dados eram então retornados a um banco de dados usado para pesquisar imagens. Esta linha de pesquisa evoca o mundo da ficção “Ender’s Game” (N.T. O Jogo de Ender, em tradução livre) de Orson Scott Card, em que as crianças lutam de forma remota uma guerra interestelar através do que eles pensam ser jogos de vídeo game.

Tudo isso significa que a sociedade do rentismo provavelmente estaria sujeita a uma tendência persistente para o subemprego, que a classe dominante teria que encontrar alguma forma de conter para manter o sistema unido. Trata-se de perceber uma visão que o falecido André Gorz tinha da sociedade pós-industrial: “a distribuição dos meios de pagamento deve corresponder ao volume de riqueza socialmente produzida e não ao volume de trabalho realizado”. Isso poderia envolver taxar os lucros das empresas lucrativas e redistribuir o dinheiro de volta para os consumidores — possivelmente como uma renda garantida sem nenhuma contrapartida e, possivelmente, em troca da realização de algum tipo de trabalho sem significado. Mas mesmo que a redistribuição seja desejável do ponto de vista de classe como um todo, surge um problema de ação coletiva; qualquer empresa individual ou pessoa rica ficará tentada a pegar carona sobre os pagamentos de outros, e, portanto, resistirão aos esforços para impor um imposto redistributivo. O governo também poderia simplesmente imprimir dinheiro para dar à classe trabalhadora, mas a inflação resultante seria apenas uma forma indireta de redistribuição e também seria resistida. Finalmente, existe a opção de financiar o consumo através do endividamento dos consumidores — mas os leitores no início do século XXI presumivelmente não precisam ser lembrados das limitações inerentes a essa solução.

Dado todos esses problemas, alguém pode perguntar por que a classe rentista iria se incomodar tentando extrair lucros das pessoas, uma vez que poderiam apenas replicar o que quisessem, de qualquer maneira. O que impede a sociedade de simplesmente se dissolver no cenário comunista da seção anterior? Pode ser que ninguém fique com licenças suficientes para atender a todas as suas necessidades, então todo mundo precisa de receitas para pagar seus próprios custos de licenciamento. Você pode possuir o padrão replicador para uma maçã, mas apenas ser capaz de fazer maçãs não é o suficiente para sobreviver. Nesta leitura, a classe rentista são apenas aqueles que possuem licenças suficientes para cobrir todas as suas próprias taxas de licença.

Ou talvez, como observado no início, a classe dominante guardaria a sua posição privilegiada, a fim de proteger o poder sobre os outros concedido apenas aos que estão no topo de uma sociedade dividida em classes. Isso sugere outra solução para o problema de subemprego do rentismo: contratar pessoas para realizar serviços pessoais pode se tornar um marcador de status, mesmo que a automação o torne, estritamente falando, desnecessário. A ascensão tão anunciada da economia de serviço evoluiria em uma versão futurista da Inglaterra do século XIX ou partes da Índia de hoje, onde a elite pode se dar ao luxo de contratar um grande número de criados.

Mas essa sociedade só pode persistir enquanto a maioria das pessoas aceitar a legitimidade da sua hierarquia governante. Talvez o poder da ideologia seja suficientemente forte para induzir as pessoas a aceitar o estado das coisas aqui descrito. Ou talvez as pessoas começassem a se perguntar por que a riqueza do conhecimento e da cultura estava sendo contida dentro de leis restritivas, quando, para usar um slogan recentemente popular, “outro mundo é possível” para além do regime de escassez artificial.

Igualitarismo e escassez: Socialismo

Vimos que a combinação de produção automatizada e recursos abundantes nos dá ou a pura utopia do comunismo ou a absurdista distopia do rentismo; mas e se a energia e os recursos continuarem escassos? Nesse caso, chegamos a um mundo caracterizado simultaneamente pela abundância e escassez, em que a liberação da produção ocorre paralelamente a um planejamento e gestão intensificados dos insumos para essa produção. A necessidade de controlar o trabalho ainda desaparece, mas a necessidade de gerenciar a escassez permanece.

A escassez nos insumos físicos à produção deve ser entendida como englobando muito mais do que commodities específicas como petróleo ou minério de ferro — o maléfico efeito do capitalismo sobre o meio ambiente ameaça causar danos permanentes aos climas e aos ecossistemas dos quais depende grande parte de nossa economia atual. As mudanças climáticas já começaram a causar estragos no sistema mundial de alimentos, e gerações futuras podem olhar a variedade de alimentos disponíveis hoje como um tempo dourado insustentável. (As gerações anteriores de escritores de ficção científica às vezes imaginavam que um dia escolheríamos consumir toda a nossa nutrição sob a forma de uma pílula sem sabor, o que podemos acabar fazendo por necessidade). E sob as projeções mais severas, muitas áreas que agora estão densamente povoadas podem tornar-se inabitáveis, impondo severos custos de remanejamento e reconstrução para nossos descendentes.

Nosso terceiro futuro, então, é aquele em que ninguém precisa realizar o trabalho, e ainda assim, as pessoas não são livres para consumir tanto quanto quiserem. Algum tipo de governo é necessário, e o comunismo puro é excluído como uma possibilidade; o que temos em vez disso é uma versão do socialismo, e alguma forma de planejamento econômico. Contrastando com os planos do século XX, no entanto, estes planos do futuro com recursos limitados estão principalmente preocupados com a gestão do consumo, em vez da produção. Ou seja, ainda assumimos o replicador; a tarefa é gerenciar as entradas que o alimentam.

Isso parece menos que promissor. O consumo, afinal, era precisamente a área em que o planejamento soviético era o mais deficiente. Uma sociedade que pode armar-se para a guerra com os nazistas, mas é então sujeita a uma interminável escassez e filas para o pão, é dificilmente um modelo inspirador. Mas a verdadeira lição da URSS e de seus imitadores é que o tempo do planejamento ainda não havia chegado — e quando começou a surgir, a esclerose burocrática e as deficiências políticas do sistema comunista se mostraram incapazes de acomodá-la. Nas décadas de 1950 e 1960, os economistas soviéticos tentaram heroicamente reconstruir sua economia em uma forma mais viável — uma das principais figuras neste esforço foi o ganhador do prêmio nobel Leonid Kantorovich, cuja história é contada em forma fictícia no recente livro de Francis Spufford Red Plenty (N.T. – Bastante Vermelho, em tradução livre). O esforço encalhou não porque o planejamento era impossível a princípio, mas porque era tecnicamente e politicamente impossível na URSS daquela época. Tecnicamente, porque o poder de computação necessário ainda não estava disponível, e politicamente porque a elite burocrática soviética não estava disposta a abrir mão do poder e privilégio concedido a eles sob o sistema existente.

Mas os esforços de Kantorovich e dos teóricos contemporâneos do planejamento, como Paul Cockshott e Allin Cottrell, sugerem que alguma forma de planejamento eficiente e democrático é possível. E isso será necessário num mundo de recursos escassos: enquanto a produção capitalista privada tem sido muito bem sucedida em incentivar a inovação tecnológica que poupa o trabalho, provou ser terrível na conservação do meio ambiente ou no racionamento de recursos escassos. Mesmo em um mundo pós-capitalista, pós-trabalho, algum tipo de coordenação é necessária para garantir que os indivíduos não tratem a Terra de uma forma que, como um todo, seja insustentável. O que é necessário, como disse Michael Löwy, é algum tipo de “planejamento democrático global” enraizado no debate pluralista e democrático ao invés de governado por burocratas.

No entanto, deve ser feita uma distinção entre o planejamento democrático e uma economia completamente sem-mercado. Uma economia socialista poderia empregar o planejamento racional enquanto ainda apresenta uma troca de mercado de algum tipo, junto com dinheiro e preços. Essa era, de fato, uma das idéias de Kantorovich; em vez de acabar com os sinais dos preços, ele queria fazer dos preços mecanismos que tornassem as metas de produção planejadas em realidades econômicas. As tentativas atuais de colocar um preço sobre as emissões de carbono por meio de esquemas de “cap-and-trade” apontam nesse sentido: enquanto elas usam o mercado como um mecanismo coordenado, elas também são uma forma de planejamento, uma vez que o passo chave é a decisão sem-mercado sobre que nível de emissões de carbono é aceitável. Esta abordagem poderia parecer muito diferente do que é hoje, se generalizada e implementada sem relações de propriedade capitalista e desigualdades de riqueza.

Suponhamos que todos recebessem um salário, não como retorno do trabalho, mas como um direito humano. O salário não compraria os produtos do trabalho dos outros, mas sim o direito de usar uma certa quantidade de energia e recursos como se fossemos usar os replicadores. Os mercados podem desenvolver-se na medida em que as pessoas optassem por trocar um tipo de autorização de consumo por outro, mas isso seria o que o sociólogo Erik Olin Wright chama de “capitalismo consentido entre adultos”, ao invés da participação involuntária no trabalho assalariado impulsionado pela ameaça de fome.

Dada a necessidade de determinar e atingir níveis estáveis de consumo — e, assim, fixar os preços — o Estado não pode desaparecer inteiramente, como acontece no cenário comunista. E onde há escassez, certamente haverá conflito político, mesmo que este não seja mais um conflito de classes. Conflitos entre locais, entre gerações, entre aqueles que estão mais preocupados com a saúde a longo prazo do meio ambiente e aqueles que preferem mais consumo material no curto prazo — nenhum destes será fácil de resolver. Mas, pelo menos, teremos chegado ao outro lado do capitalismo como uma sociedade democrática, e mais ou menos inteiros.

Hierarquia e escassez: Exterminismo

Mas se não chegarmos como iguais, e os limites ambientais continuarem a nos pressionar, chegaremos ao quarto e mais perturbador de nossos futuros possíveis. De certa forma, ele se assemelha ao comunismo com que começamos — mas é um comunismo para poucos.

Uma verdade paradoxal sobre aquela elite global que aprendemos a chamar de “um por cento” é que, enquanto ela é definida pelo controle de uma grande faixa da riqueza monetária do mundo, ela é ao mesmo tempo o fragmento da humanidade cuja vida diária é menos dominado pelo dinheiro. Como Charles Stross escreveu, os mais ricos habitam uma existência em que a maioria dos bens mundanos são, na verdade, gratuitos. Ou seja, sua riqueza é tão grande em relação ao custo de alimentos, habitação, viagens e outras amenidades que eles raramente têm de considerar o custo de alguma coisa. O que quer que eles queiram, eles podem ter.

O que quer dizer que, para os muito ricos, o mundo já é algo como o comunismo descrito anteriormente. A diferença, claro, é que sua condição de pós-escassez é possível não apenas por máquinas, mas pelo trabalho da classe operária global. Mas uma visão otimista dos desenvolvimentos futuros — o futuro que descrevi como comunismo — é que acabaremos por chegar a um estado no qual todos nós somos, em certo sentido, o um por cento. Como celebremente observou William Gibson, “o futuro já está aqui; só está distribuído de forma desigual”.

Mas e se os recursos e a energia são simplesmente muito escassos para que todos possam desfrutar do padrão material de vida dos ricos de hoje? E se chegarmos a um futuro que já não exige o trabalho em massa do proletariado na produção, mas não é capaz de fornecer a todos um padrão arbitrariamente alto de consumo? Se chegamos a esse mundo como uma sociedade igualitária, então a resposta é o regime socialista de conservação compartilhada descrito na seção anterior. Mas e se, pelo contrário, continuarmos a ser uma sociedade polarizada entre uma elite privilegiada e uma massa oprimida, então a trajetória mais plausível leva a algo muito mais sombrio; vou chamá-la pelo termo que E. P. Thompson usou para descrever uma distopia diferente, durante o pico da guerra fria: exterminismo.

O grande perigo posto pela automação da produção, no contexto de um mundo de hierarquia e de recursos escassos, é que ela torna a grande massa de pessoas supérflua do ponto de vista da elite dominante. Isso contrasta com o capitalismo, onde o antagonismo entre capital e trabalho se caracterizava por um choque de interesses e uma relação de dependência mútua: os trabalhadores dependem dos capitalistas enquanto não controlam os próprios meios de produção, enquanto que os capitalistas precisam de trabalhadores para fazer funcionar suas fábricas e oficinas. É como a letra de “Solidarity Forever” (N.T. – Solidariedade Eterna, em tradução livre): “Eles têm tomado milhões incalculáveis que nunca trabalharam para ganhar / Mas sem o nosso cérebro e músculos nem uma única roda pode girar”. Com a ascensão dos robôs, a segunda estrofe deixa de existir.

A existência de uma turba empobrecida e economicamente supérflua representa um grande perigo para a classe dominante, que naturalmente teme uma expropriação iminente; confrontados com esta ameaça, vários cursos de ação se apresentam. As massas podem ser compradas com algum grau de redistribuição de recursos, com os ricos dividindo sua riqueza na forma de programas de bem-estar social, pelo menos se as limitações de recursos não forem muito restritivas. Mas, além de potencialmente reintroduzir a escassez na vida dos ricos, esta solução é propensa à conduzir a uma maré crescente de exigências por parte das massas, levantando assim o espectro da expropriação mais uma vez. Isso é essencialmente o que aconteceu na maré alta do estado de bem-estar social, quando os patrões começaram a temer que os lucros e o controle sobre o local de trabalho estivessem escorrendo de suas mãos.

Se comprar a multidão irritada não é uma estratégia sustentável, uma outra opção é simplesmente fugir e se esconder dela. Essa é a trajetória do que o sociólogo Bryan Turner chama de “sociedade de enclave”, uma ordem na qual “governos e outras agências buscam regular espaços e, quando necessário, imobilizar fluxos de pessoas, bens e serviços” por meio de “confinamento, barreiras burocráticas, exclusões legais e cadastramentos”. Comunidades fechadas, ilhas privadas, guetos, prisões, paranoia terrorista, quarentenas biológicas; juntas, estas equivalem a um gulag global invertido, onde os ricos vivem em pequenas ilhas de riqueza espalhadas ao redor de um oceano de miséria. Em Tropic of Chaos (N.T. – Trópico do Caos, em tradução livre), Christian Parenti argumenta que já estamos construindo essa nova ordem, já que a mudança climática traz o que ele chama de “convergência catastrófica” da ruptura ecológica, da desigualdade econômica e do fracasso do Estado. O legado do colonialismo e do neoliberalismo é que os países ricos, juntamente com as elites dos países mais pobres, têm facilitado uma desintegração em violência anárquica, uma vez que várias facções tribais e políticas lutam pela porção diminuta de ecossistemas danificados. Diante dessa realidade desanimadora, muitos dos ricos — que, em termos globais, incluem muitos trabalhadores nos países ricos — resignaram-se a se fechar em suas fortalezas, a serem protegidas por drones não tripulados e por militares privados contratados. O trabalho de guarda, que encontramos na sociedade rentista, reaparece de forma ainda mais malévola, uma vez que poucos afortunados são empregados como guardas e protetores dos ricos.

Mas isso também é um equilíbrio instável, pela mesma razão básica que a compra das massas é. Enquanto as hordas de pobreza existirem, existe o perigo de que um dia se torne impossível mantê-las à distância. Uma vez que o trabalho em massa se torne supérfluo, uma solução final espreita: a guerra genocida dos ricos contra os pobres. Muitos chamaram o recente veículo de promoção de Justin Timberlake, In Time, um filme marxista, mas é mais precisamente uma parábola da estrada para o exterminismo. No filme, uma pequena classe dominante literalmente vive para sempre em seus enclaves fechados devido à tecnologia genética, enquanto todos os outros estão programados para morrer aos 25, a menos que possam implorar, emprestar ou roubar mais tempo. A única coisa salvando os trabalhadores é que os ricos ainda têm alguma necessidade pelo seu trabalho; quando essa necessidade expirar, o mesmo acontece com a própria classe trabalhadora, presumivelmente.

Daí o exterminismo, como uma descrição desse tipo de sociedade. Tal fim genocida pode parecer um bizarro, nível de vilão de história em quadrinhos, barbarismo; Talvez não seja razoável pensar que um mundo marcado pelo holocausto do século XX poderia novamente afundar em tal depravação. E então, novamente, os Estados Unidos já são um país onde um candidato sério à Presidência se deleita em executar os inocentes, enquanto que o Comandante em Chefe em exercício ordena casualmente o assassinato de cidadãos americanos sem ao menos fingir o devido processo, para difusão de aplausos liberais.

Essas quatro visões são tipos ideais abstraídos, essências platônicas de uma sociedade. Eles deixam de fora muitos dos complicados detalhes da história e ignoram a realidade de que a escassez-abundância e igualdade-hierarquia não são dicotomias simples, mas sim escalas com muitos possíveis pontos intermediários. Mas a minha inspiração, ao desenhar esses retratos simplificados, foi o modelo de uma sociedade puramente capitalista que Marx perseguiu em O Capital: um ideal que nunca pode ser perfeitamente refletido nos complexos agrupamentos da história econômica real, mas que ilumina elementos únicos e fundamentais de uma ordem social específica. Os socialismos e barbarismos aqui descritos devem ser pensados como estradas que a humanidade deve percorrer, mesmo que sejam destinos que nunca alcancemos. Com algum conhecimento sobre o que está no final de cada estrada, talvez nós estaremos mais capacitados para evitarmos sair na direção errada.

13 de novembro de 2011

Quem leu o relatório sobre o IDH?

A questão social brasileira é chaga secular, e mudanças são processos lentos, mas não vagamos "como uma onda no mar", como alguns afirmam

Eduardo Fagnani


Muito se falou sobre o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Poucos leram o documento, mas criticaram o fato de o Brasil subir só uma posição no ranking global (84ª posição) de 187 países.

Alguns ignoraram a advertência do próprio Pnud de que "é enganoso comparar valores e classificações do IDH 2011 com os de relatórios publicados anteriormente. Isto porque, além da inclusão de 18 novos países e territórios, os dados e métodos sofreram ajustes e algumas mudanças".

Em artigo publicado nesta Folha, um ex-economista do Pnud (Flavio Comim, "IDH, como uma onda no mar", 6/11) desconsiderou o seguinte alerta da instituição em que trabalhou: o IDH 2011 "mostra que o Brasil faz parte do seleto grupo de apenas 36 dos 187 países que subiram no ranking entre 2010 e 2011, seguindo os dados recalculados para a nova base deste ano. Os outros 151 permaneceram na mesma posição ou caíram".

O IDH reflete as alterações na renda nacional, na expectativa de vida e nos anos de estudo.

Em sua obra clássica, o economista Gunnar Myrdal sublinha o papel central da renda para o bem-estar social. Entre 1980 e 2003, a renda per capita brasileira cresceu míseros 6%; na China, ela setuplicou; na Índia, dobrou. Isso explica "o vigor da juventude" do IDH desses países -e o nosso atraso relativo.

Após 25 anos, desde 2006 voltamos a trilhar o caminho do crescimento, com reflexos positivos no mercado de trabalho e na redução da pobreza e da desigualdade.

Apesar das restrições financeiras e dos problemas estruturais da saúde, o SUS tem feito progressos.

A taxa de mortalidade infantil caiu de 47% para 16% entre 1990 e 2010 (Nordeste: de 76% para 24%). A expectativa de vida progrediu: "no caso brasileiro, essa evolução do IDH do ano passado para este ano contou com um impulso maior da dimensão saúde -medida pela expectativa de vida-, responsável por 40% da alta", afirma o Pnud.

Na educação, universalizamos o acesso: 98% das crianças de seis a 14 anos estão na escola. O desafio presente é melhorar a qualidade.

A educação infantil poderá contribuir para isso. O filho do rico entra no ensino fundamental alfabetizado pela pré-escola. O filho do pobre deveria ter o mesmo direito.

Na última década, a proporção de crianças de zero a cinco anos que está na escola aumentou de 23% para 38%. A escolaridade média é baixa (7,4 anos), mas, desde 1999, a proporção de pessoas de 18 a 24 anos (PEA) com 11 anos de estudo subiu de 22% para 41%.

Em suma, a questão social no Brasil é uma chaga secular. Mudanças são processos lentos que exigem continuidade e investimentos -e, de fato, gastamos pouco em saúde e em educação. Porém, não vagamos "como uma onda no mar", como afirma o especialista.

Em 1988 a sociedade optou pela cidadania social. Essa decisão soberana foi cerceada pelos donos do mundo e por seus experimentos fracassados. A partir de 2006, retomamos a rota traçada em 1988. Seus resultados estão disponíveis para aqueles que não se contentam com manchetes de jornais.

Sobre o autor

Eduardo Fagnani é professor doutor do Instituto de Economia da Unicamp.

28 de outubro de 2011

O Partido de Wall Street encontra o seu Nemesis

David Harvey*

Verso Books

O Partido de Wall Street controlou os Estados Unidos sem dificuldades por tempo demais. Controlou totalmente (em contraste com parcialmente) as políticas dos presidentes por pelo menos quatro décadas (para não dizer mais), independentemente de se algum presidente individual foi ou não seu agente por vontade própria. Corrompeu legalmente o Congresso por meio da dependência covarde de políticos dos dois partidos em relação ao poder do dinheiro e ao acesso à mídia comercial que controla. Graças a nomeações feitas e aprovadas pelos presidentes e Congresso, o Partido de Wall Street domina muito do aparato estatal e do Judiciário, em especial a Suprema Corte, cujas decisões estão crescentemente a favor dos interesses venais do dinheiro, em esferas tão diversas quanto eleitoral, trabalhista, ambiental e comercial.

O Partido de Wall Street tem um princípio universal de dominação: não pode haver qualquer adversário sério ao poder absoluto do dinheiro de dominar absolutamente. E esse poder é para ser exercido com um único objetivo. Os detentores do poder do dinheiro não devem apenas ter o privilégio de acumular riqueza sem fim a seu gosto, mas também de herdar o planeta, tomando direta ou indiretamente o domínio da terra, todos os seus recursos e as potencialidades produtivas que nela residem. O resto da humanidade se torna nessa visão supérfluo.

Esses princípios e práticas não surgem da ganância individual, falta de horizonte ou abusos (por mais que todos esses ocorram aos montes). Esses princípios se formaram no corpo político de nosso mundo por meio da vontade coletiva de uma classe capitalista instigada pelas leis coercivas da competição. Se meu grupo de pressão gasta menos do que o seu, então receberei menos favores. Se esse departamento gasta para atender às necessidades das pessoas, então se torna menos competitivo.

Muitas pessoas decentes estão presas a um sistema que está completamente podre. Se querem ter um salário razoável não têm outra opção além de se render à tentação do diabo: só estão “seguindo ordens”, como Eichmann disse, “fazendo o que o sistema pede”, como se diz hoje em dia, aceitando os princípios e práticas bárbaras e imorais do Partido de Wall Street. As leis coercivas da competição nos forçam todos, em diferentes níveis, a obedecer às regras desse sistema cruel e insensível. O problema é sistêmico, não individual.

Os ideais de liberdade e autonomia do partido, a serem garantidos pelos direitos à propriedade privada, livre-mercado e livre-comércio, se traduzem na realidade pelo direito de explorar o trabalho alheio, de despossuir as pessoas de seus bens a seu bel prazer e a liberdade de saquear o meio ambiente para seus benefícios individuais ou de classe.

No controle do aparato estatal, o Partido de Wall Street geralmente privatiza todos os ramos de atividade interessantes, abaixo do valor de mercado, para abrir novas frentes para a acumulação do capital. Arranja esquemas de subcontratação (do qual o complexo militar industrial é um exemplo claro) e de tributação (subsídios ao agronegócio e baixos impostos sobre os ganhos do capital) que lhe permitem limpar livremente os cofres públicos. Estimula deliberadamente sistemas regulatórios complicados e níveis surpreendentes de incompetência administrativa no resto do aparato estatal (vide a Agência de Proteção Ambiental sob Reagan e a Agência Federal de Gestão de Emergências e o “baita trabalho” de Brown sob Bush), de modo a convencer um público inerentemente cético de que o Estado não consegue ter um papel construtivo ou de apoio para melhorar a vida ou as perspectivas futuras das pessoas. Por fim, usa o monopólio da violência, que todo Estado soberano reivindica, para excluir o público do espaço público e para por pressão, vigiar e, se necessário, criminalizar e prender quem não aceitar de modo amplo suas ordens. É exímio nas práticas de tolerância repressiva que perpetuam a ilusão de liberdade de expressão enquanto essa expressão não expuser claramente a natureza verdadeira de seu projeto e o aparato repressivo sobre o qual repousa.

O Partido de Wall Street articula incessantemente a guerra de classes: “Claro que há uma guerra de classes”, disse Warren Buffett, “e é minha classe, os ricos, que a está fazendo e vencendo”. Em grande parte, essa guerra é articulada em segredo, atrás de uma série de máscaras e ilusões pelas quais os planos e objetivos do Partido de Wall Street se escondem.

O Partido de Wall Street sabe muito bem que quando perguntas políticas e econômicas se transformam em questões culturais não há como respondê-las. Geralmente aciona uma enorme variedade de opiniões de especialistas cativos, na sua maior parte empregados em institutos de pesquisa e universidades que financia e espalhados na mídia que controla, para criar controvérsias sobre assuntos que de fato não importam e sugerir soluções a perguntas que de fato não existem. Num instante, só fala da austeridade necessária a todas as outras pessoas para tratar do déficit e, num outro, propõe a redução de sua própria tributação sem se importar sobre o impacto no déficit. A única coisa que nunca pode ser debatida ou discutida é a verdadeira natureza da guerra de classes que tem mantido de modo incessante e tão cruel. Descrever algo como “guerra de classes” é, no clima político atual e no julgamento dos especialistas, colocar-se fora do espectro de considerações sérias, sendo chamado de imbecil, senão de sedicioso.

Mas agora pela primeira vez há um movimento explícito que enfrenta o Partido de Wall Street e seu mais puro poder do dinheiro. A street (rua) de Wall Street está sendo ocupada — ô, horror dos horrores — por outros! Espalhando-se de cidade em cidade, as táticas do Ocupem Wall Street são tomar um espaço público central, um parque ou uma praça, próximo a onde muitos dos bastiões do poder estão localizados, e fazer com que corpos humanos convertam esse lugar de espaço público em uma comunidade de iguais, um lugar de discussão aberta e debate sobre o que esse poder está fazendo e as melhores formas de combater seu alcance. Essa tática, mais conspicuamente presente nas lutas nobres e atuais da praça Tahrir, no Cairo, se alastrou por todo o mundo (praça do Sol, em Madri, praça Syntagma, em Atenas, agora as escadarias de Saint Paul, em Londres, além da própria Wall Street). Mostra como o poder coletivo de corpos no espaço público continua sendo o instrumento mais efetivo de oposição, quando o acesso a todos os outros meios está bloqueado. A praça Tahrir mostrou ao mundo uma verdade óbvia: são os corpos na rua e praças, não o fluxo de sentimentos no twitter ou facebook, que realmente importam.

O objetivo desse movimento nos Estados Unidos é simples. Diz: “Nós, as pessoas, estamos determinadas a retomar nosso país dos poderes do dinheiro que atualmente o controlam. Nosso objetivo é mostrar que Warren Buffett está enganado. Sua classe, os ricos, não vai mais governar sem oposição e não vai mais herdar automaticamente a terra. Sua classe, os ricos, não está destinada a sempre vencer”.

Diz “Somos os 99%”. Somos a maioria e essa maioria pode, deve e vai prevalecer. Na medida em que todos os outros canais de expressão estão fechados por causa do poder do dinheiro, não temos outra opção a não ser ocupar os parques, praças e ruas de nossas cidades até que nossas opiniões sejam ouvidas e nossas necessidades atendidas.

Para ter êxito, o movimento precisa alcançar os 99%. Conseguirá e o está fazendo um passo por vez. Primeiro, há todas as pessoas jogadas na miséria pelo desemprego e aquelas que foram ou estão sendo despossuídas de suas casas e bens pela falange de Wall Street. Deve formar grandes coalizões entre estudantes, imigrantes, sub-empregados e todos os que estão ameaçados pelas políticas de austeridade, totalmente desnecessárias e draconianas, impostas sobre a nação e o mundo para atender ao Partido de Wall Street. Deve por o foco nos níveis estarrecedores de exploração nos locais de trabalho — dos empregados domésticos imigrantes que os ricos exploram tão cruelmente em suas casas aos funcionários de restaurantes que são escravizados por quase nada nas cozinhas dos estabelecimentos onde os ricos comem tão copiosamente. Deve unir os trabalhadores criativos e artistas cujos talentos são transformados tantas vezes em produtos comerciais pelo grande poder do dinheiro.

O movimento deve especialmente atingir todos os alienados, os insatisfeitos e os descontentes, todos os que reconhecem e sentem nas entranhas que há algo de muito errado, que o sistema que o Partido de Wall Street criou não é só bárbaro, antiético e moralmente errado, mas também está falido.

Tudo isso tem de ser unido democraticamente em uma oposição coerente, que também tem de contemplar livremente com o que se parecem uma cidade alternativa, um sistema político alternativo e, por fim, uma forma alternativa de organizar a produção, distribuição e consumo para o benefício do povo. Se não o fizer, o futuro para os jovens que se encaminha para uma crescente dívida privada e austeridade pública profunda, em benefício ao um porcento, não é um futuro.

Em resposta ao movimento Ocupem Wall Street, o Estado, apoiado pelo poder da classe capitalista, tem um argumento surpreendente: ele, e só ele, tem o direito exclusivo de regular e organizar o espaço público. O público não tem o direito comum ao espaço público! Com que direito prefeitos, chefes de polícia, oficiais militares e autoridades do Estado dizem ao povo que têm o direito de determinar o que é público em “nosso” espaço público e quem pode ocupar esse espaço? Quando consideram em seu interesse expulsar-nos, o povo, de qualquer espaço que nós, o povo, decidamos ocupar coletiva e pacificamente? Dizem que agem no interesse público (e se referem a leis para prová-lo), mas somos nós o povo! Onde está “nosso interesse” nisso tudo? E, aliás, não é “nosso” dinheiro que os bancos e financistas usam tão descaradamente para acumular “seus” bônus?

Diante do poder organizado do Partido de Wall Street de dividir e conquistar, o movimento que está emergindo também deve ter como um de seus princípios fundadores que não será dividido nem se desviará de seu curso até que o Partido de Wall Street caia na real — para ver que o bem comum tem de prevalecer sobre os estreitos interesses do dinheiro — ou de joelhos. Os privilégios corporativos de ter todos os direitos dos indivíduos sem as responsabilidades de verdadeiros cidadãos têm de ser eliminados. Os bens públicos, como educação e saúde, têm de ser oferecidos publicamente e acessíveis a todos. Os poderes monopolistas na mídia têm de ser abalados. A compra de eleições tem de ser considerada inconstitucional. A privatização do conhecimento e cultura tem de ser proibida. A liberdade de explorar e despossuir outras pessoas tem de ser controlada e, no fim, impedida.

Os estadunidenses acreditam na igualdade. Pesquisas de opinião pública mostram (independentemente da filiação partidária) que, para a população, os 20% deveriam ter 30% da riqueza total. O fato de os 20% mais ricos deterem 85% da riqueza é inaceitável. O fato de que a maior parte disso seja controlada pelos 1% mais ricos é totalmente inaceitável. O que o movimento Ocupem Wall Street propõe é que nós, o povo estadunidense, nos comprometamos a reverter esse nível de desigualdade, não só de riqueza ou salários, mas, ainda mais importante, o poder político que essa disparidade gera. O povo estadunidense tem orgulho, com razão, de sua democracia, mas ela está à mercê do poder de corromper do capital. Agora que é dominada por esse poder o tempo de fazer outra Revolução Estadunidense, como Jefferson sugeriu ser necessário há muito tempo, está se aproximando: e que seja baseada em justiça social, igualdade e cuidado e contato consciente na relação com a natureza.

A luta que se criou — o Povo contra o Partido de Wall Street — é crucial para nosso futuro coletivo. A luta é global assim como local em sua natureza. Reúne estudantes confinados a uma luta de vida ou morte contra o poder político no Chile para criar um sistema de educação gratuito e de qualidade para todos, desmantelando o modelo neoliberal que Pinochet impôs brutalmente. Engloba os ativistas da praça Tahrir que reconhecem que a queda de Mubarak (como o fim da ditadura de Pinochet) foi apenas o primeiro passo de uma luta para emancipar-se do poder do dinheiro. Inclui os indignados da Espanha, os trabalhadores em greve na Grécia, a oposição militante que surge em todo o mundo, de Londres a Durban, Buenos Aires, Shenzhen e Mumbai. A dominação brutal do grande capital e o poder do dinheiro estão na defensiva em todo lugar.

De que lado vamos estar, nós, indivíduos? Que rua vamos ocupar? Só o tempo dirá. Mas o que sabemos é que o tempo é agora. O sistema não está só quebrado e exposto, mas também incapaz de qualquer resposta a não ser a repressão. Então nós, o povo, não temos outra opção senão lutar pelo direito coletivo a decidir como o sistema será reconstruído e com base em qual modelo. O Partido de Wall Street teve sua vez e fracassou miseravelmente. Como construir uma alternativa em suas ruínas é tanto uma oportunidade inescapável quanto uma obrigação que nenhum de nós pode ou vai querer deixar de lado.

* David Harvey é um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001. Foi também professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seu livro Condição pós-moderna (Loyola, 1992) foi apontado pelo Independent como um dos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a Segunda Guerra Mundial. Seus livros mais recentes, além de O enigma do capital (Boitempo), são: A Companion to Marx’s Capital (Boitempo, no prelo) e O novo imperialismo (São Paulo, Loyola, 2004).

21 de outubro de 2011

Chega de chiclete

Mike Davis

Los Angeles Review of Books

Tradução / Quem poderia prever que o Occupy Wall Street e sua proliferação ao estilo de uma planta selvagem aconteceriam em cidades grandes e pequenas? John Carpenter previu. Há quase 25 anos (1988), o mestre do terror (Halloween, A coisa) escreveu e dirigiu They Live [“Eles vivem”, no Brasil], retratando a Era Reagan como uma catastrófica invasão alienígena. O filme continua sendo seu tour de force. Aliás, quem poderia esquecer das primeiras cenas brilhantes em que uma grande periferia terceiro-mundista é mostrada ao longo de uma autoestrada e refletida pelos arranha-céus espelhados de Bunker Hill, em Los Angeles? Ou da maneira como Carpenter retrata banqueiros milionários e ricos midiocratas dominando a pulverizada classe trabalhadora dos Estados Unidos, que vive em barracas numa encosta cheia de entulhos e implora por trabalhos casuais?

Partindo dessa igualdade negativa entre falta de moradia e desesperança, e graças aos óculos escuros mágicos encontrados pelo enigmático “Nada” (interpretado por Kurt Russell), o proletariado finalmente alcança a unidade inter-racial, não se deixa enganar pelas fraudes subliminares do capitalismo e fica furioso, extremamente furioso. Sim, eu sei, estou adiantando as coisas. O movimento “Occupy the World” ainda procura seus óculos mágicos (programa, demandas, estratégia e assim por diante), e sua fúria permanece baixa, em estado gandhiano.

Mas, como previu Carpenter, arrancar um número suficiente de cidadãos norte-americanos de suas casas e/ou carreiras (ou pelo menos atormentar dezenas de milhões com essa possibilidade) para promover algo novo e de grandes proporções é um movimento lento e cambaleante em direção ao Goldman Sachs. E, ao contrário do “Partido do Chá” [Tea party], até agora não há fios de marionete. Um dos fatos mais importantes sobre a revolta atual é simplesmente que ela ocupou as ruas e criou uma identificação espiritual com os desabrigados.

Para ser bem franco, a minha geração, educada no movimento dos direitos civis, teria pensado em primeiro ocupar os prédios e esperar que a polícia colocasse todos porta afora na base de cacetadas. (Hoje, os policiais preferem spray de pimenta e “técnicas não letais”.) Em 1965, quando eu tinha dezoito anos e participava da equipe nacional dos Estudantes para uma Sociedade Democrática, planejei uma ocupação do Chase Manhattan Bank, “parceiro do apartheid” por conta de seu papel central no financiamento da África do Sul depois do massacre de manifestantes pacíficos. Foi o primeiro protesto em Wall Street em uma geração, e 41 pessoas foram arrastadas de lá pela polícia.

Ainda acho que tomar o comando dos arranha-céus é uma ideia esplêndida, mas para um estágio mais avançado da luta. Até o momento, a genialidade do Occupy Wall Street é o fato de ter liberado alguns dos imóveis mais caros do mundo e transformado uma praça privada em um espaço público magnético e catalisador de protestos.

Nossa ocupação há 46 anos foi uma incursão de guerrilheiros; a de agora é uma Wall Street sob o cerco dos liliputianos. Também é o triunfo do princípio supostamente arcaico do cara a cara, da organização dialógica. As mídias sociais são importantes, é claro, mas não onipotentes. O sucesso da auto-organização dos ativistas – a cristalização da vontade política a partir do livre debate – continua sendo melhor nos fóruns urbanos da realidade. Dito de outra forma, a maior parte das nossas conversas na internet equivale ao padre sendo ensinado a celebrar a missa; até mesmo megasites como o MoveOn.com são voltados para um grupo que já sabe do que é dito, ou pelo menos para seu provável grupo demográfico.

As ocupações também são para-raios, acima de tudo, para as menosprezadas e alienadas tropas dos Democratas, mas, além disso, elas parecem estar derrubando barreiras de geração, proporcionando as bases comuns, por exemplo, para que os professores de meia-idade, ameaçados e que trabalham na educação básica, troquem ideias com jovens graduados e empobrecidos.

De maneira ainda mais radical, os acampamentos tornaram-se lugares simbólicos para reparar as divisões dentro da coalizão do New Deal impostas nos anos do governo Nixon. Como observa Jon Wiener em seu impecável blog, The Nation, “operários e hippies – juntos, finalmente”. Evidentemente. Quem não se comoveria quando o presidente da AFL-CIO, Richard Trumka – que trouxe mineiros de carvão para Wall Street em 1989 durante uma greve cruel, mas bem-sucedida, contra a Pittston Coal Company –, convocou homens e mulheres cheios de energia para “montar guarda” no Zucotti Park, apesar do esperado ataque da polícia de Nova York? Ainda que velhos radicais como eu sejam propensos a declarar como messias qualquer recém-nascido, essa criança tem o sinal do arco-íris.

Acredito que estamos vivenciando o renascimento das qualidades que definiram de modo tão marcante as pessoas comuns da geração de meus pais (migrantes e grevistas da Crise de 1929): uma compaixão generosa e espontânea, uma solidariedade baseada em uma ética perigosamente igualitária: Pare e dê carona a uma família. Jamais fure uma greve trabalhista, mesmo se sua família não puder pagar o aluguel. Compartilhe seu último cigarro com um estranho. Roube leite quando não houver para seus filhos e dê metade para as crianças do vizinho (isso foi o que minha própria mãe fez repetidas vezes em 1936). Ouça atentamente aos sagazes e serenos que perderam tudo, menos a dignidade. Cultive a generosidade do “nós”. O que quero dizer, suponho, é que me sinto extremamente impactado por aqueles que se juntaram para defender as ocupações apesar de diferenças significativas de idade, classe social e raça. E, da mesma maneira, adoro as crianças corajosas que estão prontas para encarar o próximo inverno e passar frio nas ruas, bem como seus irmãos e irmãs desabrigados.

Mas voltemos à estratégia: qual o próximo elo na corrente (no sentido de Lenin) que precisa ser apreendido? Até que ponto é imperativo para as plantas selvagens formar uma convenção, assumir demandas programáticas e, dessa forma, colocarem a si próprias no leilão das eleições de 2012? Obama e os Democratas certamente, e talvez desesperadamente, precisarão de energia e autenticidade. Mas é improvável que os “ocupacionistas” se coloquem à venda, ou seu extraordinário processo de auto-organização. Pessoalmente, tendo para uma posição anarquista e seus imperativos óbvios.

Primeiro, exponham a dor de 99%, levem Wall Street a julgamento. Tragam Harrisburg, Laredo, Riverside, Camden, Flint, Gallup e Hooly Springs para o centro financeiro de Nova York. Confrontem os predadores com suas vítimas. Um tribunal nacional sobre o genocídio econômico.

Segundo, continuem a democratizar e ocupar produtivamente o espaço público (isto é, reivindicar os bens comuns). O veterano historiador e ativista Mark Naison, do Bronx, propôs um plano arrojado para transformar os espaços degradados e abandonados de Nova York em recursos de sobrevivência (jardins, áreas de acampamento, playgrounds) para desabrigados e desempregados. Os manifestantes do Occupy em todo o país agora sabem como é ser desabrigado e não poder dormir em parques ou numa barraca. Mais uma razão para arrebentar as amarras e escalar os muros que separam o espaço não usado das necessidades humanas urgentes.

Terceiro, fiquem atentos à verdadeira recompensa. A grande questão não é subir os impostos dos ricos ou realizar uma melhor regulamentação dos bancos. Trata-se de uma democracia econômica – o direito das pessoas comuns de tomar macrodecisões sobre investimento social, taxas de juros, fluxo de capital, criação de empregos, aquecimento global e afins. Se o debate não for sobre o poder econômico, ele é irrelevante.

Quarto, o movimento deve sobreviver ao inverno para combater o poder na próxima primavera. As ruas são frias em janeiro. Bloomberg e todos os outros prefeitos e autoridades locais estão contando com um inverno rigoroso para acabar com os protestos. Por isso é muito importante reforçar as ocupações durante as férias de Natal. Vistam seus casacos.

Por fim, precisamos nos acalmar – o itinerário do protesto atual é totalmente imprevisível. Mas se alguém erguer um para-raios, não podemos nos surpreender caso caia um relâmpago.

Banqueiros entrevistados recentemente no The New York Times parecem considerar os protestos do Occupy pouco mais que um incômodo baseado, segundo eles, numa compreensão rudimentar do setor financeiro. Eles deveriam ser mais humildes. Na verdade, deveriam tremer diante da imagem da carreta de munições. Quatro milhões e meio de empregos na área industrial foram perdidos nos Estados Unidos desde 2000, e uma geração inteira de recém-graduados encara agora a mais alta mobilidade descendente na história do país. Desde 1987, afro-americanos perderam mais da metade de seu patrimônio líquido; os latinos, inacreditáveis dois terços. Arruinar com o sonho americano e com as pessoas comuns será extremamente prejudicial para vocês. Ou, como Nada explica aos agressores imprudentes no excelente filme de Carpenter: “Vim aqui para mascar chiclete e quebrar tudo… e meus chicletes acabaram.”

18 de outubro de 2011

O capitalismo aprendeu a criar organismos hospedeiros

Em face da crise financeira, qualquer esperança de que o parasita vai morrer quando ele ficar sem comida é em vão - o capitalismo é muito inventivo

Zygmunt Bauman

The Guardian

A figura da chanceler alemã Angela Merkel com o slogan "acumulação de dinheiro" em um protesto contra o sistema bancário e financeiro, em Colônia. Foto: Wolfgang Rattay/Reuters

Tradução / As notícias sobre a morte do capitalismo são, parafraseando Mark Twain, um pouco exageradas. A capacidade surpreendente de ressurreição e regeneração é inerente ao capitalismo. Uma capacidade parecida com a dos parasitas – organismos que se alimentam de outros organismos, estando agregados a outras espécies. Depois de exaurir completa ou quase completamente um organismo hospedeiro, o parasita normalmente procura outro, que o nutra por mais algum tempo.

Há cem anos, Rosa Luxemburgo compreendeu o segredo da misteriosa habilidade do sistema em ressurgir das cinzas repetidamente, assim como uma fênix; uma habilidade que deixa atrás de si traços de devastação – a história do capitalismo é marcada pelos túmulos de organismos que tiveram suas vidas sugadas até a exaustão. Luxemburgo, no entanto, restringiu o conjunto dos organismos que aguardavam em fila, esperando a conhecida visita do parasita, às “economias pré-capitalistas”, cujo número era limitado e em constante regressão, sob o impacto da expansão imperialista.

A cada visita sucessiva, outra terra “intocada” era convertida em campo de pastagem para a exploração capitalista. Portanto, mais cedo ou mais tarde, não serviriam mais às necessidades da “reprodução ampliada” do sistema, já que não ofereceriam os lucros que tal expansão requeria. Pensando por essa trilha (um viés completamente compreensível, dado que a expansão há cem anos era principalmente territorial, mais extensiva que intensiva, mais lateral que vertical), Luxemburgo só poderia antecipar os limites naturais da duração concebível do sistema capitalista. Uma vez que todas as terras “intocadas” do globo fossem conquistadas e integradas à máquina de reciclagem capitalista, a ausência de novas terras de exploração iria forçar, ao fim, o colapso do sistema. O parasita morre, quando faltam organismos vivos de onde possa retirar alimento.

Hoje o capitalismo já atingiu uma dimensão global, ou está muito próximo disso – um cenário que Luxemburgo via em horizonte distante. Sua previsão estará a ponto de se concretizar? Penso que não. Nos últimos 50 anos, o capitalismo aprendeu a inimaginável e desconhecida arte de criar novas “terras intocadas”, em vez de se limitar às já existentes. Essa nova arte tornou-se possível porque o sistema viveu uma transição. A “sociedade de produtores” converteu-se numa “sociedade de consumidores”. E a fonte principal da “agregação de valor” já não está na relação capital-trabalho, mas na que há entre mercadoria e cliente. Lucro e acumulação baseiam-se principalmente na progressiva mercantilização das funções da vida; na mediação, pelo mercado, da satisfação de necessidades sucessivas; na substituição do desejo pela necessidade, como engrenagem principal da economia voltada para o lucro.

A crise atual deriva da exaustão de uma dessas “terras intocadas” criadas artificialmente. Milhões que pessoas foram obrigadas a abandonar a “cultura dos cartões de crédito” para se dedicar à “cultura das planilhas de gastos”. Por algum tempo, elas foram estimuladas a gastar o dinheiro que ainda não haviam ganhado, vivendo com crédito, falando de empréstimos e pagando juros. A exploração dessa “terra intocada” particular está, em linhas gerais, acabada. O sistema entregou para os políticos a tarefa de limpar os detritos deixados pela farra dos banqueiros. É algo que entrou na lista dos “problemas políticos”: passou de “problema econômico” para (citando a chanceler alemã, Angela Merkel) algo dependente de “vontade política”. Mas alguém poderia duvidar que estão em construção novas “terras intocadas” – as quais também terão vida bastante limitada, dada a natureza parasítica do capitalismo?

O sistema funciona por um processo contínuo de destruição criativa. O que se cria é capitalismo numa “fórmula nova e melhorada”; o que se destrói é a capacidade de auto-sustentação e vida digna nos inúmeros “organismos hospedeiros” para os quais todos somos atraídos e ou seduzidos, de uma maneira ou de outra. Suspeito que um dos recursos cruciais do capitalismo deriva do fato de que a imaginação dos economistas – incluindo os que o criticam – está muito atrasada em relação à sua invenção, a arbitrariedade do seu procedimento e crueldade com que opera.

17 de outubro de 2011

17 de outubro de 1961: O massacre escondido da memória coletiva

A execução de mais de cem manifestantes argelinos em Paris no dia 17 de outubro de 1961 permanece desconhecida, diz o historiador Gilles Manceron.

Soren Seelow

Um argelino ferido é levado pelo fotográfo Elie Kagan e por um jornalista americano ao hospital Nanterre no dia 17 de outubro de 1961.

Tradução / Cinco meses após o fim da guerra da Argélia, em 17 de outubro de 1961, Paris foi palco de um dos maiores massacres de civis na história contemporânea da Europa Ocidental. Naquele dia, dezenas de milhares de argelinos protestaram pacificamente contra o toque de recolher que os atingia desde 5 de outubro além da repressão organizada pelo prefeito da polícia de Sena, Maurice Papon. A resposta da polícia seria terrível. Centenas de argelinos, talvez entre 150 e 200, são executados. Alguns corpos são encontrados no Sena. Por várias décadas, a memória deste grande episódio da guerra da Argélia foi obscurecida.

O historiador Gilles Manceron, autor de “A tripla ocultação de um massacre”, explica os mecanismos que contribuíram para essa amnésia organizada.

Por que a repressão da manifestação de 17 de outubro de 1961 ficou oculta por tanto tempo?

É um evento excepcionalmente sério, cujo número de mortes foi relatado somente a dois historiadores britânicos [Jim House e Neil MacMaster, em Estado da República e do Terror, Tallandier, 2008]. É a repressão estatal mais violenta já provocada por uma manifestação de rua na Europa Ocidental na história contemporânea.

Como uma repressão dessa magnitude não pode ser considerada por várias décadas como um evento em nossa história? O historiador Pierre Vidal-Naquet usou o termo “enigma”. Eu me pergunto sobre os fatores que explicam como esse massacre foi escondido da memória coletiva.

Parece-me, antes de tudo, que existe uma vontade de silenciar essa questão pelas autoridades francesas. Em primeiro lugar, é claro, as autoridades envolvidas na organização dessa repressão: o prefeito de polícia do Sena, Maurice Papon, o primeiro-ministro Michel Debré e Roger Frey, ministro do Interior. Mas também o general de Gaulle, que obviamente ficou muito irritado com esse episódio. No entanto, ele queria fechar a cortina e garantir que os franceses seguissem em frente.Foto mostra policiais intimidando protestantes argelinos desarmados.

De que maneira o poder conseguiu impor o silêncio e, portanto, essa amnésia?

No momento, houve censura à imprensa, com jornalistas sendo impedidos de ir a centros de detenção argelinos, por exemplo. E então, muito rapidamente, os meios judiciais foram fechadas sem sucesso. Havia cerca de sessenta, todos eles levaram a lugares de difícil acesso. Existia um desejo de esquecimento judicial, combinado com os decretos de anistia, que cobriam os incidentes de aplicação da ordem na França, aliados a uma dificuldade em acessar os arquivos e a remoção de um certo número de fundos… tudo isso contribuiu para esse fenômeno da ocultação até o final da década de 1970.

Posteriormente, outros fatores assumiram o controle. Em 1961, Gaston Deferre, na época senador, protestou vigorosamente contra a repressão policial. Mas quando Jean-Louis Beninou, jornalista da Libération, o solicitou a esclarecer esse evento, no início dos anos 80, Deferre, que se tornou ministro do Interior, responde que ele não lida mais com esse assunto. Ele fez a escolha de não abrir este arquivo.

Cinqüenta anos depois, ainda há confusão entre 17 de outubro de 1961 e a manifestação em Charonne, 8 de fevereiro de 1962, após a qual nove pessoas foram mortas …

A memória de Charonne, uma manifestação pela paz na Argélia e contra os ataques da OEA – mas não pela independência! -, de fato, é sobreposta à de outubro de 1961. Deve-se dizer que a esquerda francesa teve mais capacidade de resposta em comparação com a violência que foi desencadeada durante a manifestação em Charonne, que ela havia organizado. Essa atitude foi a do PCF, mas também da Liga dos Direitos Humanos, que decidiu a constituição de uma comissão de inquérito depois de Charonne, o que não aconteceu no dia seguinte a 17 de outubro.

Aqui vemos os limites do compromisso da esquerda francesa da época. Com exceção do pequeno PSU e da UNEF, poucos partidos foram receptivos à ideia de independência da Argélia.

O mais surpreendente é que a memória de Charonne ofuscou a de 17 de outubro, inclusive entre algumas famílias argelinas…

Sim. A família de uma das vítimas de 17 de outubro, uma jovem colegial de 15 ou 16 anos de idade, Fatima Bédar, cujo corpo foi encontrado no Canal Saint-Martin, há muito acredita e repete que ela estava morta em Charonne. No coração da imigração argelina, a palavra “Charonne” estava mais presente do que a referência a 17 de outubro.

Após a independência argelina, como esse evento foi investigado pelas novas autoridades?

Foi aqui que ocorreu um terceiro fator de ocultação: a vontade do poder argelino de não destacar uma iniciativa da Federação Francesa da FLN, que organizou a manifestação de 17 de outubro.

A Federação da França havia se tornado uma fortaleza de oposição ao novo poder por causa de sua abertura aos ideais e valores da Europa, dos sindicatos e da esquerda política. Durante a crise do verão de 1962, enfrentada pelos pretendentes ao poder na FLN, ela apostou nos civis do GPRA [o governo da FLN no exílio] contra os soldados do exército das fronteiras liderados pelo Coronel Boumediene. Encontrou-se assim no campo dos conquistados e as autoridades da nova República da Argélia evitaram divulgá-la, passando mais ou menos em silêncio a repressão de 17 de outubro …

Como finalmente foi lançada a luz sobre a extensão deste massacre?

Através de publicações, em particular. A história de detetive de Didier Daeninckx [Assassinato pela memória, Gallimard, 1984], que combina pesquisas sobre o passado de Maurice Papon durante a Ocupação em seu papel em 1961, ou obras de historiadores como A Batalha de Paris, de Jean Luc Einaudi [1990, Threshold], desempenharam um papel importante. E então, com a constituição de uma associação, em nome da memória das vítimas deste dia, por crianças da imigração argelina, a memória começou a emergir.

O julgamento de Maurice Papon por cumplicidade em crimes contra a humanidade como Secretário-Geral da prefeitura de Gironde durante a ocupação certamente ajudou a abrir o arquivo de 17 de outubro de 1961 e a fazê-lo surgir no espaço da mídia. Durante o julgamento de Papon, em 1997-1998, testemunhas falaram sobre sua personalidade, seu papel na Argélia e na sede da polícia de Paris. Entre eles, Jean-Luc Einaudi, que publicou um tributo no jornal Le Monde em 20 de maio de 1998, onde usou o termo “massacre” em relação ao dia 17 de outubro. Papon achou bom processar Einaudi por difamação. Sua queixa não foi aprovada. O termo “massacre” foi considerado legítimo pelo tribunal. É um verdadeiro ponto de virada.

Cinqüenta anos após os eventos, o Estado francês reconheceu sua responsabilidade?

Há um reconhecimento das autoridades locais, incluindo o prefeito de Paris, em 2001, que fez um forte gesto com a fixação de uma placa comemorativa na ponte St-Michel. Outras comunidades nos subúrbios fizeram gestos semelhantes. E o quinquagésimo aniversário, este ano, será marcado por uma série de iniciativas, incluindo uma avenida sobre o 17 de outubro em frente à prefeitura de Hauts-de-Seine, Nanterre. Mas do Estado, ainda não há sinal de reconhecimento.

Como explicar que essa repressão ocorreu logo após a abertura das negociações de Evian, o que levaria à independência da Argélia?

As negociações da Evian entre representantes franceses e as da FLN foram iniciadas em maio de 1961. Naquela época, podia-se pensar que o destino da guerra só poderia levar à independência. Foi a vontade do general de Gaulle, aprovada pelos franceses e pelos argelinos. Em janeiro de 1961, um referendo deu uma clara maioria (75%) na França metropolitana e na Argélia a favor deste processo.

Mas essa política foi contestada por várias forças, às vezes até dentro do aparato estatal. O primeiro-ministro Michel Debré, que havia sido retirado do arquivo argelino por De Gaulle, insistira em que ele ficasse com a manutenção da ordem na região metropolitana da França e poderia implantar uma ação que tomava o oposto da ação implementada pelo General de Gaulle.

Para fazer isso, ele se cercou de Roger Frey, nomeado para o Ministério do Interior em maio de 1961, quando da abertura das negociações da Evian, substituindo Pierre Chafenet. Acima de tudo, ele obteve a substituição no final de agosto de Edmond Michelet, o detentor dos selos, que se opôs aos métodos brutais e ilegais implementados por Papon. Ele seria substituído por Bernard Chenot, um homem considerado mais flexível, que deixaria as mãos livres para Papon se envolver na repressão de 17 de outubro.

O general de Gaulle, que chegou ao poder com a ajuda de Michel Debré em 1958, é um pouco prisioneiro das condições de sua ascensão ao poder. Ele tenta preservar o essencial, isto é, o fim da guerra através das negociações e faz concessões. Ele procura manter ao seu lado pessoas leais a ele, mesmo que elas desaprovem sua política argelina. Ele, portanto, expressou seu descontentamento a Michel Debré no dia seguinte a 17 de outubro, mas se absteve de divulgar sua desaprovação. Manteve o silêncio e, de certa forma, prolongou também a ocultação deste evento.

16 de outubro de 2011

Duas, Três, muitas Wall Streets

Amy Davidson

The New Yorker

Um banner na frente da Catedral de São Paulo na cidade de Londres no dia 16 de outubro, parte do dia global de protestos contra o corporativismo de Wall Street.

Tradução / Onde fica Wall Street? Céticos em relação ao “Occupy Wall Street” – e há muitos deles, apesar de serem muito menos hoje do que eram há uma semana – gostam de apontar que os manifestantes não estão de fato ocupando uma rua chamada Wall, mas um parque chamado Zuccotti; e que “Wall Street” é um termo arcaico, de qualquer forma, já que muitas firmas financeiras não residem lá. Os manifestantes, em outras palavras, foram ingênuos e mal orientados: eles nem sabem onde estão de pé, quanto mais contra quê estão levantando-se. Mas na noite de sábado, conforme os protestos, que já haviam sido replicados em cidades de Boston a Seattle, moveram-se para outras partes da cidade, como o Washington Square Park e a Times Square, e ao redor do mundo, puderam vislumbrar aonde eles podem estar indo. Onde não fica Wall Street, afinal? Está nos termos de financiamento de um imóvel, e em empréstimos estudantis e em legislaturas. E onde não há raiva?

A Times Square, onde quarenta e cinco pessoas foram presas no sábado – com mais quarenta e sete no Washington Square Park e em outros lugares – seria uma boa escolha como nova base para o Occupy Wall Street, não porque é um espaço comercial e corporativo (Condè Bast, pai do The New Yorker, é um dos inquilinos) mas porque é um espaço cívico. É bem maior do que o Zuccotti Park. Nova Iorquinos sabem como se reunir lá (e turistas também). É cheio de câmeras e cheio de representantes, a qualquer dado instante, de dúzias de países. É onde se pode ter acesso a notícias, e compartilha-las.

Os manifestantes do O.W.S. já foram testemunhas eficazes. O que é impactante em relação a este fim de semana é como bem sintonizados foram os ecos, e a maneira como as vozes se uniram. Não era apenas um monte de gente gritando a respeito de bancos, com os italianos descontrolando-se mais do que a maioria (embora eles tenham se descontrolado, queimando carros em Roma). Pessoas em Londres, Hong Kong, Madrid, Tóquio, Coreia do Sul, Estocolmo, e Sydney carregavam cartazes parecidos e alegavam fazer parte dos “99%”. Não se deve dispensar este termo como algo ingênuo ou sem significado sem observar o que vem acontecendo, nos últimos anos, à desigualdade de renda: como Nicholas Kristof aponta no Times, “O 1% do topo dos americanos possui mais riquezas do que os 90% debaixo”. Der Spiegel, reportando sobre os protestos em Berlin e Frankfurt, referiu-se ao “Occupy-Märsche”. Wall Street há muito tem sido uma marca multinacional; agora o Occupy também é.

Outro par de reclamações em relação ao movimento é que ele é baseado apenas em retórica cativante, e que é desarticulado quanto ao que quer. E ainda assim, de alguma maneira, conforme as marchas espalham-se, as ideias estão ficando mais coerentes, não menos. Há uma conversação global acontecendo no momento, e seria tolice não escutá-la. Para um movimento anti-corporativista, o O.W.S. tem um bom senso de concessão – mais importante, ele tem algo a dizer sobre emancipação.

6 de outubro de 2011

Super-abutres: Os bilionários que escolheriam o nosso Presidente

Greg Palast

TruthOut

Tradução / O magnata dos fundos hedge Paul Singer gosta de comer carcaças em decomposição no café da manhã. O que ele mastiga e engole é de embrulhar o estômago, mas os convivas dele também provocam enjoo: os bilionários Ken Langone e os irmãos Koch, Charles e David.

Singer convocou reunião do clube dos meninos bilionários com o propósito de escolher o próximo presidente para nós. O estilo antigo de escolher presidentes – democracia, contagem de votos e tudo isso – nunca foi o favorito dessa turma. Posso falar isso com base nas minhas investigações sobre cada um destes cavalheiros para o The Guardian. Quando a Estátua da Liberdade tem pesadelos, ela sonha que esses caras vão se juntar para tomar a América através de um golpe de estado via dinheiro.

Benvindos ao pesadelo. Singer, Langone e os Koch decidiram, no mês passado, eleger Chris Christie para nós. A pseudo-campanha do governador de Nova Jersey naufragou antes de decolar. Mas isso não importa. Agora que a Suprema Corte efetivamente acabou com os limites de financiamento de campanhas e permitiu contribuições secretas através das corporações, essa nova combinação de ultra ricos não deve ser vista como apenas como uma ameaça aos Democratas e sim à Democracia.

Deixe-me apresentar uma lista dos arquivos que cheiram a enxofre desse homens que querem dar as cartas.

Bilionário 1: Ken Langone

Langone gosta de ser identificado como o fundador do Home Depot, um sujeito simples, de avental azul levando uma sacola de parafusos.

Mas ele também foi o homem, com seus colegas da extrema direita, por trás da Database Technologies (DBT). Foi na minha primeira investigação sobre o Langone, em 2000, que descobri que a DBT tinha criado uma lista de vários milhares de “criminosos” – quase todos negros, todos inocentes, todos eliminados das listas de eleitores da Flórida pela cliente da DBT, Katherine Harris. E a empresa do Langone sabia exatamente o que estava acontecendo.

O que qualifica o Langone para escolher nosso presidente? Nas palavres dele mesmo: “Eu sou doido, eu sou rico”.

Bilionários 2 e 3: David e Charles Koch

Você acha que já leu tudo sobre os irmãos bilionários. Bem, aqui vai mais:

Em 1996, Richard Elroy, agente do FBI, disse à minha equipe que petróleo havia sido roubado da reserva indígena Osage, em Oklahoma. Ele e outro homem filmaram o furto, segundo testemunhas pessoalmente encomendado por Charles Koch. Uns barris aqui, uns barris ali.

E foram somando: cerca de um bilhão e meio de barris de petróleo roubado, diz um especialista, um terço da fortuna dos Koch naquela época. David e Charles dividiram o produto do furto através da empresa privada deles, a Koch industries.

Bilionário 4: Paul Singer

Agora chegamos ao rei da carcaça, Paul Singer, conhecido como Singer, O Urubu. Não fui eu que o apelidei. O nome Urubu foi dado a ele pelo primeiro ministro britânico e pelo Banco Mundial. Recentemente, o ex-enviado das Nações Unidas Winston Tubman sugeriu que eu perguntasse ao Singer ou aos sócios deles, “Você sabe que está provocando a morte de bebês?”

O que esse cara faz, bota veneno no leite das crianças? Pior: ele retira o leite.

O modus operandi do Singer é encontrar pequenas dívidas de nações pobres esquecidas (Peru e Congo estavam no cardápio dele). Ele espera os contribuintes dos Estados Unidos e da Europa perdoarem a dívida da nação pobre, depois espera um pouco mais pelas ofertas de ajuda em alimentos, medicamentos e empréstimos para investimentos. Aí Singer ataca. Legalmente, toma todos os recursos e todo o dinheiro que estava indo para o país em desespero. As trocas comerciais param, os fundos ficam congelados e toda a economia efetivamente se torna refém.

Singer, então, exige das nações que estão oferecendo ajuda que paguem regates monstruosos para permitir que as trocas comerciais recomecem. No programa Newsnight da TV BBC nós descobrimos que Singer exigiu 400 milhões de dólares do Congo por conta de uma dívida que ele comprou por 10 milhões de dólares. Se ele não recebe seus 4.000% de lucro, ele pode efetivamente matar a nação de fome. E eu não digo isso figurativamente – digo matar de fome, sem comida. No Congo-Brazzaville, no ano passado, um quarto de todas as mortes de crianças com menos de cinco anos de idade foram provocadas por má nutrição.

Para a BBC, tentei fazer ao Urubu Singer a pergunta do diplomata sobre a matança de bebês, mas não pude ir além de George Gershwin. (Na torre de Nova York que abriga o poleiro do bilionário, um sósia de Gershwin, de fraque e cartola, toca canções em um piano de calda para a entrada triunfal de Singer).

E não são apenas pobres carcaças africanas. Durante as investigações para o meu livro “Vulture’s Picnic”, descobri que o primeiro grande ataque de urubu do Singer foi às vítimas americanas de amianto.

Pano de fundo: Os executivos de três empresas – a operadora de minas WR Grace, a construtora de chapas para revestimento de paredes USG e a empresa de materiais de construção Owens Corning – sabiam que a exposição ao amianto em suas operações estava matando os trabalhadores. Quando foram pegas e processadas, as empresas entraram com pedido de falência e concordaram em dar quase toda a receita bruta das operações às pessoas que estavam morrendo ou que ficaram doentes por causa do amianto.

Mas o Singer teve uma ideia melhor. Essas empresas, como você pode imaginar, valiam quase nada e o Singer comprou a Owens Corning por uns trocados.

Se ele pudesse reduzir o montante pago às vítimas, Singer poderia aumentar muito o valor da Corning. Então, começou a campanha de relações públicas, atacando os trabalhadores que estavam morrendo, dizendo que todos estavam fingindo.

Um dos atacantes era um cara chamado George W. Bush.

Em Janeiro de 2005, o presidente organizou um encontro televisionado para promover um “especialista” que declarou que mais de meio milhão de trabalhadores que processavam a indústria do Singer eram mentirosos. Se os trabalhadores não podiam respirar, ele disse ao presidente, não era culpa do amianto.

O “especialista” não era um médico mas, notavelmente, sua “pesquisa” foi em parte financiada por… Paul Singer. Como Bush também foi. Depois da morte de Ken Lay, da Enron, Singer e seu bando de urubus do fundo hedge Elliot International se tornaram os maiores contribuintes do Comitê Nacional Republicano. É difícil medir com precisão sua generosidade porque parte desta ajuda chega por portas laterais. Por exemplo, Singer colocou dinheiro na campanha difamatória do Swift Boat, contra o adversário de Bush, John Kerry. (Nota do Viomundo: o anúncio, na televisão, distorcia a atuação de Kerry na guerra do Vietnã).

O ataque legal, político e de relações públicos aos trabalhadores a beira da morte reduziu as compensações que seriam pagas pelas empresas de amianto, aumentando seu valor. Singer então revendeu a Corning com o belo lucro de um bilhão de dólares.

É legal. É brilhante. É doente. É Singer.

Um dos meus gols favoritos do Singer foi a trama bem sucedida para legalmente roubar o Tesouro do Peru. Um dos advogados americanos do país me disse, de boca aberta, como o Singer deixou o velhaco presidente do Peru, Alberto Fujimori, fugir do país para escapar de acusações de assassinato. Singer tomou o avião de Fujimori. E o urubu deu seu preço: um dos últimos atos de Fujimori como presidente antes de fugir foi fazer com que sua pobre nação pagasse 58 milhões de dólares ao Singer.

Por que os bilionários precisam comprar a Casa Branca

Um executivo da Koch Industries (ele não sabia que estava sendo gravado) disse que perguntou a Charles Koch, que já tinha um bilhão de dólares de herança, porque Koch estava usurpando alguns dólares, por semana, dos índios americanos. Koch disse a ele: “eu quero a minha justa parte, e é tudo isso”.

Tudo isso, claro, inclui a Casa Branca.

Colocar Bush na Casa Branca valeu ouro para esses cavalheiros – mais, na verdade. E agora, os Koch, Singer e Langone se juntaram para escolher um candidato que, rezam, possa tomar de volta o imóvel 1600 da Avenida Pensilvânia.

O me dê para Langone

A lista de “criminosos” da empresa DBT, do Langone, incluía apenas pessoas inocentes por isso, certamente, você não encontraria ali o nome do Langone. Em 2004, o Procurador Geral de Nova York, Eliot Spitzer, apresentou acusação formal contra o Langone de conspiração, acusando o bilionário de subverter as investigações de reguladores da bolsa de valores sobre negócios suspeitos do banco de investimentos do Langone.

Um detalhe técnico encerrou a ação civil de conspiração.

Mas agora, a reforma bancária e de ações do Obama, apesar de fraca, dá aos reguladores novos poderes para manter um olho independente sobre as travessuras no mercado de ações. Para Langone, escolher o presidente significa cerrar o olho regulador.

O me dê para os Koch

Elroy, o homem do FBI, disse aos nossos investigadores que o Departamento de Justiça iria permitir que o FBI algemasse Charles Koch por conta da acusação de roubo do petróleo dos índios Osage. Porém, diz Elroy furioso, os amigos bem financiados pelos Koch, na época senadores Bob Dole e Don Nickles, entraram em cena – e Koch saiu livre. Sem acusação.

Dennis DeConcini, senador do Arizona na época, quis saber por que acusações civis ou criminais nunca foram apresentadas contra os Koch. Essa não era uma pergunta muito sábia. O senador me disse que os Koch apeaçaram destruí-lo politicamente no comitê do Congresso que ele presidia se ele fosse adiante com as investigações a respeito do roubo do petróleo dos indígenas. Ele continuou, mas sua carreira política não.

Durante o governo Clinton, as indústrias dos Koch foram acusadas criminalmente por violarem a Lei da Água Limpa. Sob o presidente Bush, as acusações, mas não a água, foram lavadas.

Em outras palavras, o crime paga bem – se você escolher quem vai ser o xerife.

O dá-me Paul Singer

Paul Singer apostou pesado na indústria de amianto e depois foi arrumar o cassino, ajudando a instalar Bush na Casa Branca. Ou seja, ele tinha um presidente disposto a bater nos trabalhadores de amianto e apoiar a chamada “reforma ilícita” que solapou as alegações das vítimas. O que as vítimas perderam, Singer ganhou.

Mas existem problemas no horizonte para Singer. Em 2007, o governo Britânico proibiu Singer e todos os especuladores-urubus de dívidas do Terceiro Mundo de coletarem suas libras de carne no Reino Unido. Outras nações europeias estão seguindo o mesmo caminho.

Vários congressistas americanos estão brigando por uma proibição ao estilo britânico das atividades do Singer. (Até mesmo a Corporação Chevron está reclamando dos ataques dos urubus. Quando a Chevron chama banqueiros de inescrupulosos, eles devem ser realmente muito inescrupulosos). Sem uma caneta de veto sobre o Congresso, Singer pode perder centenas de milhões de dólares.

Singer está jogando na defesa, mas é melhor no ataque: para coletar contra a Argentina, seus lobistas conseguiram aprovar no congresso uma lei que estrangulava as trocas comerciais com a nação da América do Sul. Obama e a Secretária Hillary Clinton bloquearam esse ato louco contra nosso aliado. Como resultado Singer não é um gaúcho contente. Vai haver sangue. Obama terá que pagar.

O dá-me para todos eles

Existe uma coisa que todo bilionário quer: outro bilhão. E isso está ameaçado pelos planos do Obama de taxar os lucros hoje isentos.

Caras como Singer e Langone não pagam impostos como eu e você. Enquanto pagamos impostos sobre salários, os lucros de especulações tipo urubu e arbitragem são via de regra declaradas como “carried interest”, efetivamente não são taxados. É um benefício de um bilhão de dólares para os bilionários, e todos os candidatos republicanos juraram manter essa brecha na legislação aberta e garantir que eu e você paguemos os impostos para o Singer.

Infelizmente, para Singer, os Koch e Langone, os candidatos republicanos que estão beijando a bunda dos bilionários não parecem ser elegíveis.

Então, o Clube dos Meninos Bilionários instigou o Governador Christie, o bully de Jersey, a usar os músculos para entrar no Escritório Oval. Christi não decolou, o que não foi surpresa. Mas se eles vão escolher o candidato republicano ou recuar para a tática de difamar nos bastidores, uma frágil coisa chamada democracia tem poucas chances contra o poder de tsunami dos talões de cheques somados do quarteto.

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