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24 de março de 2020

A ascensão do Partido da Morte

À medida que a pandemia do COVID-19 se intensifica, nossas classes dominantes estão chegando à conclusão de que, na disputa entre perda de lucro e perda de vida, elas escolhem, a morte.

Peter Frase

Jacobin

Camas são montadas em um abrigo de emergência para pessoas em situação de rua prestes a ser inaugurado em um centro recreativo, enquanto a disseminação do coronavírus continua em 23 de março de 2020 em Los Angeles, Califórnia. Mario Tama / Getty.

Tradução / A economia global está enredada em uma contradição — intensificada, mas não totalmente causada pela pandemia do COVID-19. A epidemiologia e a ciência climática exigem que fiquemos em casa a curto prazo e que desmobilizemos e reequipemos vastos setores da economia a longo prazo. No entanto, os modelos econômicos capitalistas baseados na lucratividade e no crescimento sem fim são impossíveis de conciliar com esses imperativos humanos.

O que de fato mudou na atual pandemia é que a urgência dessa contradição se tornou mais aparente. A cada dia que passa, conforme os casos aumentam, torna-se cada vez menos plausível que voltemos a “normalidade” pré-2020 após um período de quarentenas e distanciamento social. Pelo contrário, figuras como o presidente da filial de St. Louis do Sistema de Reserva Federal alertam para a estimativa de 30% de desemprego que deve atingir os Estados Unidos dentro de alguns meses, um número que superaria até mesmo a Grande Depressão.

A esquerda, capaz de pelo menos tentar lidar com a crise em uma escala adequada, corre apressadamente por dentro dessa brecha. Esta é a hora de um “socialismo do desastre” — nossa contrapartida ao “capitalismo do desastre” identificado por Naomi Klein, no qual uma crise iminente é usada como pretexto para promover mudanças estruturais fundamentais.

Essa tarefa é particularmente urgente por não ser a única solução radical oferecida. Surge entre a classe dominante — centrada no Partido Republicano, mas não limitada apenas a essa esfera — o que podemos chamar de partido da morte.

No meu livro Quatro Futuros, especulei sobre diversos caminhos para sair do capitalismo, em um contexto de crise ecológica e rápidas mudanças tecnológicas. A questão, como eu pensava na época e ainda hoje acredito, não é fundamentalmente se o capitalismo pode ser salvo em algum dos seu formatos anteriores. O capitalismo não pode ser salvo. A questão é o que o sucederá. E a resposta é, por sua vez, determinada pelo principal motor da política — a luta de classes.

Um dos “futuros” que formulei foi chamado de “exterminismo”. O ponto de partida dessa formulação foi uma observação sobre uma das principais contradições históricas do capitalismo: por um lado, capitalistas dependem da classe trabalhadora, já que o nosso trabalho é a fonte fundamental dos seus lucros. Por outro lado, os chefes temem os trabalhadores, potencialmente perigosos e poderosos, devido, justamente, a essa indispensabilidade e à capacidade de paralisar a economia.

Nesta crise, estamos testemunhando outra vez esse poder — principalmente em setores-chave relacionados à reprodução social, como ensino, distribuição de alimentos e, é claro, assistência à saúde. Mas também vemos sinais ameaçadores do que acontece quando grandes partes da classe trabalhadora são consideradas redundantes na perspectiva do capital e passam a ser vistas mais como um fardo do que um motor de acumulação de capital.

Em Quatro Futuros, destaquei a automação como uma força que potencialmente poderia levar a uma grande quantidade de trabalhadores redundantes, e esse espectro ainda espreita por trás da crise atual. Mas a questão mais imediata, relacionada à pandemia do COVID-19, são as grandes massas de pessoas que, para a classe dominante, são consideradas velhas demais, doentes demais ou improdutivas demais para serem lucrativas.

Para o Partido da Morte, a pandemia em si começa a parecer economicamente útil, e as medidas necessárias para combatê-la podem chegar ao ponto de serem vistas como piores do que a própria doença — e, do ponto de vista restrito da acumulação de capital, podem de fato o ser.

As intimações da programa de 2020 do Partido da Morte começaram a surgir praticamente assim que o verdadeiro perigo do COVID-19 começou a ser amplamente compreendido. No início de março, Rick Santelli, personalidade financeira do canal de TV estadunidense CNBC — também notável por sua participação no pontapé inicial do movimento reacionário “Tea Party” — foi ao ar para alertar contra a reação exagerada ao vírus. “Talvez fosse melhor se contaminássemos todo mundo”, sugeriu ele, “assim, dentro de um mês isto terminaria”. Como observa Adam Kotsko, Santelli estava explorando uma maré de sadismo que há tempos tem tido apelo entre os ricos e, infelizmente, também entre uma certa parcela de trabalhadores.

O comentário de Santelli foi recebido com choque e repulsa, mas isso não impediu que continuasse a permear nos mais altos escalões do governo e da mídia. Não há outra forma de entender a ideia frustrada do governo do Reino Unido de buscar o “efeito rebanho” adotando uma abordagem negligente à pandemia. O conselheiro de Boris Johnson, Dominic Cummings, teria supostamente comentado que “se isso significar a morte de alguns aposentados, é uma pena”.

Parece que agora essa visão está ganhando popularidade como senso comum do Partido da Morte em ambos os lados do Atlântico. O Presidente Trump twittou ameaçadoramente que “NÃO PODEMOS DEIXAR QUE A CURA SEJA PIOR DO QUE O PROBLEMA”. Trump ecoou os sentimentos de Lloyd Blankfein, presidente do banco de investimentos Goldman Sachs, que preocupado em “não esmagar a economia”, propõe que “dentro de poucas semanas, deixemos quem corre menos risco de contrair a doença voltar ao trabalho”.

O Wall Street Journal publicou um editorial similar, e o New York Times reportou que os republicanos “apelaram à Casa Branca para que encontrassem maneiras de reiniciar a economia, à medida que os mercados financeiros continuam a despencar e os empregos perdidos ameaçam alcançar a casa dos milhões em Abril”.

Gostaria que essa visão se limitasse aos republicanos. Mas, neste fim de semana, o mesmo New York Times publicou duas colunas de opinião oferecendo versões liberais da posição do Partido da Morte, sugerindo que controlar a pandemia seria menos importante do que reviver a economia — uma delas, naturalmente, assinada pelo onipresente cheio-de-opiniões-ruins Thomas Friedman.

Relutante em falar com verdadeiros especialistas da área ou contemplar mudanças fundamentais no status quo capitalista, Friedman simplesmente escolheu um acadêmico complacente para afirmar que podemos voltar ao normal dentro de algumas semanas e que devemos “deixar que muitos de nós sejamos infectados, para nos recuperarmos e voltarmos ao trabalho”. Gregg Gonsalves, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, twittou esbravejante suas críticas: “o distanciamento social vai prejudicar muitas pessoas, mas também vai evitar muitas mortes. . . por que não pensar em como amenizar os danos econômicos em vez de piorar a epidemia? ”

Nós sabemos o porquê, é claro. “Amenizar os danos” implicaria mudanças em nossa sociedade que desafiariam o status quo do capitalismo. O que, para tipos como Lloyd Blankfein e Thomas Friedman, também seria o fim do mundo. Portanto, para eles, o Partido da Morte oferece a única abordagem viável, por mais sombria que possa parecer.

A crueldade dessa estratégia se tornará aparente quando for tarde demais, quando os hospitais estiverem lotados e o sistema de saúde e a economia colapsarem. Nessa altura, uma estratégia retórica precisará ser encontrada para exonerar todos, de Friedman a Trump, por venderem soluções sem sentido e curas milagrosas. É por isso que o Partido da Morte também é o Partido da Responsabilidade Individual — não a deles próprios, é claro, mas a nossa. Aqueles que estão no poder serão considerados inocentes, e os ricos lamentarão tristemente a tolice das classes inferiores. Se ao menos alguns universitários não tivessem ido a um festival em Miami Beach, tudo isso poderia ter sido evitado.

As bases para essa estratégia de culpar as vítimas já estão sendo estabelecidas, enquanto líderes nos incentivam a apontar o dedo uns para os outros por não nos isolarmos o suficiente, em vez de culpá-los por administrarem uma crise no interesse do capital e não das pessoas. Isso não quer dizer que a pressão pelo distanciamento social seja uma coisa ruim ou desnecessária — no momento, é uma das únicas ferramentas que temos para nos mantermos vivos.

Mas é impossível não perceber o paradoxo do governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, ao dizer para os nova-iorquinos ficarem em casa enquanto ainda tenta cortar o Medicaid [programa de saúde social dos EUA para indivíduos com poucos recursos] em meio a uma pandemia, ou do cirurgião geral dos EUA ao alertar que “a quantidade de pessoas levando isso a sério não é suficiente ”, enquanto a pessoa que parece levar a situação menos a sério é o seu chefe na Casa Branca.
Socialistas sempre insistiram que as necessidades humanas devem prevalecer sobre o lucro, que a economia não é o mercado financeiro e que precisamos transformar completamente essa economia que causa a miséria dos trabalhadores e destrói o planeta. Essa mensagem se tornará ainda mais urgente à medida que nossos oponentes em diferentes partes da classe dominante chegarem à conclusão — lamentosamente para alguns, contentemente para outros — de que, na disputa entre perda de lucro e perda de vida, eles escolhem a morte.

Sobre o autor

Peter Frase está no conselho editorial de Jacobin e é autor do livro "Four Futures: Life After Capitalism".

15 de agosto de 2018

Por quaisquer meios necessários

Precisamos de uma visão abrangente de reconstrução ecológica – e isso significa ter a geoengenharia como parte de nossa visão.

Peter Frase


Rede elétrica perto de Guestrow, Alemanha, em 7 de março de 2017.

Tradução / No início de 2017, houve uma notícia amplamente divulgada sobre a morte da Grande Barreira de Corais. Esta maravilha natural, ao largo da costa da Austrália, se estende por mais de 100 mil quilômetros quadrados. Foi construída e mantida por milhares de anos por bilhões de pequenos organismos e sustenta uma complexa população de vida aquática.

O recife tornou-se mais uma vítima das mudanças climáticas induzidas pelo ser humano. O culpado é um fenômeno conhecido como “branqueamento de corais”, causado pelo aquecimento das águas oceânicas. Os pólipos de corais que criam o recife super-aquecem e expelem as algas que vivem em seus tecidos, tornando-se brancas. Ao longo do tempo, isso leva à morte dos pólipos e, assim, à morte do ecossistema do recife.

O problema do branqueamento de corais tem sido conhecido há algum tempo, mas estudos recentes descobriram que o processo está avançando muito mais rápido do que o esperado – grandes áreas do recife já estão mortas. Em um artigo de março de 2017 no New York Times, um cientista australiano relata encontrar um nível de destruição que não se esperava ocorrer por trinta anos.

As reações à notícia seguiram narrativas ambientalistas previsíveis. Para alguns, foi água para o moinho da moralização verde, mais um testemunho do imperativo inegável de que precisamos mudar para um mundo com zero emissões de carbono. Para outros, foi um chamado desanimador ao niilismo. Afinal de contas, esta foi apenas a última demonstração de que as mudanças climáticas estão acontecendo muito mais rápido do que até mesmo os cientistas mais pessimistas acreditavam. Nessas circunstâncias, é fácil abandonar a esperança de que as instituições políticas possam enfrentar a crise na escala de tempo que ela exige.

Houve, no entanto, outra notícia sobre o recife, que sugeria um imaginário político diferente para a resposta à crise climática. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Sydney divulgou um estudo no qual propunham proteger o recife por meio de uma técnica conhecida como “clareamento de nuvens”.

A idéia é simples de se descrever, ainda que radical em suas implicações ecológicas. O objetivo é simplesmente fazer as nuvens refletirem mais luz solar. Isso diminui a quantidade de luz que atinge a superfície da Terra, resfriando-a. Em uma das implementações mais consideradas, isso seria feito por navios atravessando o oceano, convertendo a água do mar em partículas de sal e depois espalhando essas partículas na atmosfera.

Os cientistas propuseram um esforço local de clareamento de nuvens, focado especificamente na proteção do recife. Ao evitar alguns graus de aquecimento, argumentaram eles, ainda pode ser possível salvá-lo.

Isso pode ou não ser realista. De fato, cálculos recentes sugerem que o tempo pode já ter se esgotado para a Grande Barreira de Corais. Mas os pesquisadores sugeriram uma abordagem para a crise climática que tem sido discutida em uma escala muito maior – que é extremamente controversa entre aqueles que estão preocupados com a quebra dos sistemas ecológicos que sustentam a civilização.

O mundo que fizemos

A “geoengenharia”, na definição oferecida pelo programa de geoengenharia da Universidade de Oxford, é “a intervenção deliberada em grande escala nos sistemas naturais da Terra para neutralizar as mudanças climáticas”. O clareamento de nuvens é apenas um item na agenda. Essas propostas implicam reduzir a quantidade de energia solar que atinge a Terra, como no caso do clareamento de nuvens, ou remover ativamente o dióxido de carbono da atmosfera através de algum tipo de captura e retirada. Tais idéias têm atraído o interesse de investidores ricos como Bill Gates e Elon Musk.

É neste ponto que muitos na Esquerda pulam fora do navio. A geoengenharia pode ser facilmente descartada como uma fantasia, a repetição mais absurda de todas da ilusão prometeica de que podemos exercer domínio sobre o mundo natural. Mesmo que a possibilidade desses esforços seja reconhecida, é perturbador pensar que é nossa atual classe dominante que os implementaria, com sua combinação característica de pensamento arrogante de curto prazo e desprezo para com os trabalhadores. E, finalmente, algumas pessoas simplesmente acham inaceitável interferir na natureza dessa maneira, rompendo os processos metabólicos da Terra.

A última objeção é a mais fácil de dispensar, mas também talvez a mais importante. Precisamos reconhecer que somos, e já há muito tempo, manipuladores e gerentes da natureza. Mesmo aqueles que reconhecem isso, em um suspiro ainda cairão em metáforas como “pegada de carbono” reduzida – como se pudéssemos apenas pisar mais levemente e permitir que a natureza se consertasse sozinha. Esta é, paradoxalmente, uma das posições mais antropocêntricas imagináveis, uma vez que presume que é o estado eterno e natural do mundo ser habitável para os seres humanos. Mas Deus não criou o mundo especificamente para nós. A história natural é indiferente aos seres humanos e a todos os outros seres vivos e é caracterizada por mudanças caóticas e extinções em massa, não pelo equilíbrio homeostático.

Além do mais, nós já transformamos irreversivelmente o mundo natural, muitas vezes em nosso detrimento. “Quebrou, pagou!”, como diz a expressão do varejo. E, definitivamente, nós estamos pagando.

Este é o argumento defendido pelo jornalista de ciência Oliver Morton em seu discurso de 2015 a favor da geoengenharia, ‘The Planet Remade’. [‘O Planeta Refeito’] Nesse discurso, ele aborda a ideia popular do “Antropoceno”. O termo se origina com geólogos, que propuseram que nós deixamos para trás o período do Holoceno, iniciando um estágio na história da Terra caracterizado especificamente pela transformação humana do ecossistema.

Há críticas geográficas a esta proposta, mas também existem algumas críticas políticas sérias. Intelectuais de esquerda, como Elmar Altvater, Andreas Malm e Jason Moore, têm questionado toda a noção de “Antropoceno”. De acordo com esses críticos, seria melhor chamá-lo de “Capitaloceno”, uma vez que a degradação da natureza é na verdade atribuível aos métodos de acumulação de capital da classe dominante e não à civilização humana em geral.

Embora este argumento seja baseado em análises históricas bem embasadas, ele é limitado como um guia para a Política. Acusar o Capitaloceno equivale a uma argumentação de origem em retidão moral: “foram vocês, elites dominantes que arruinaram o mundo, não nós!” Seja como for, qualquer sociedade que suceda ao capitalismo herdará o mundo que as sociedades anteriores construíram – e nós já temos feito isso ativamente por mais tempo do que muitas pessoas conseguem perceber.

O livro de Morton ilustra isso por meio de uma intervenção na natureza que recebe bem menos atenção do que o ciclo do carbono que alimenta o aquecimento global: o ciclo do nitrogênio.

O nitrogênio é essencial para a vida, e é abundante na atmosfera. Porém, para ser utilizável para o crescimento de plantas, os átomos de nitrogênio inertes devem ser “fixados” a outro elemento, um processo que, durante milhões de anos, foi feito quase exclusivamente por bactérias do solo.

Isso até o capitalismo industrial surgir.

Tudo termina em merda

A história da gestão humana do ciclo do nitrogênio é literalmente uma história de merda. Nossa história começa na Europa do século XIX, com o químico alemão Justus von Liebig. Foi ele quem notou a importância do nitrogênio para o crescimento das plantas e, portanto, para o abastecimento de alimentos. Além disso, ele observou a maneira específica com que a industrialização capitalista rompeu o ciclo tradicional de nitrogênio.

Em uma sociedade agrária, a comida é consumida onde é cultivada, e os resíduos, sob a forma de estrume e composto, são devolvidos ao solo. Mas na Inglaterra vitoriana, esse ciclo foi interrompido pela industrialização, que atraiu um grande número de pessoas para as cidades. Lá, elas consumiam alimentos cultivados no campo. Os seus resíduos, em vez de retornar ao solo, iam parar nas ruas de Londres, produzindo imundície na cidade e diminuindo a fertilidade do solo no interior. Karl Marx, numa expressão mais tarde popularizada pelo sociólogo John Bellamy Foster, chamou essa disjunção no ecossistema de “fenda metabólica” do capitalismo.

Isso, por sua vez, levou a Grã-Bretanha a enfrentar um problema geopolítico urgente: uma oferta insuficiente de fezes. Ao longo da costa do Peru foi descoberto que os pássaros, por milhares de anos, vinham depositando seus excrementos em ilhas, onde isso se acumulava em enormes quantidades numa substância rica em nitrogênio conhecida como “guano“. Isso podia ser usado como fertilizante, um substituto para o nitrogênio perdido por causa de uma economia urbanizada e um meio para escapar de qualquer limite malthusiano de capacidade de um determinado território para alimentar uma população em crescimento. Durante o período do “imperialismo do guano”, guerras foram travadas para garantir esses suprimentos – mas, no final do século XIX, eles já haviam sido esgotados na maior parte.

Foi nesse ponto que as sociedades capitalistas deram um salto decisivo na gestão humana do ciclo do nitrogênio. Em 1909, o químico alemão Fritz Haber desenvolveu um processo para fixar artificialmente o nitrogênio na amônia, um processo que ainda é usado para produzir fertilizantes comerciais. Agora era possível escapar da dependência da merda, mas a um custo: o processo era extremamente intensivo em energia. Assim, voltamos à questão da crise climática – enquanto a geração de energia depender de combustíveis fósseis, todo alimento é, em essência, um produto do petróleo.

Décadas mais tarde, vivemos agora em um mundo onde mais nitrogênio é fixado em fábricas do que no solo e, conseqüentemente, podemos dar suporte a uma população global de mais de sete bilhões de pessoas. É claro que poderíamos suportar essa população de forma mais eficiente se estivéssemos livres da escassezes artificiais e dos desperdícios impostos pelo capitalismo. E a produção em excesso de nitrogênio, como a emissão em excesso de carbono, tem sérios impactos ambientais que os cientistas ainda estão tentando descobrir como abordar. Mas é difícil enxergar como poderíamos deixar completamente para trás a fixação industrial do nitrogênio, o primeiro grande projeto de geoengenharia da humanidade.

Planejando a natureza

No entanto, a retórica de esquerda continua estando amplamente focada na redução de emissões, ao invés de na atenuação ou na adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Tomemos, por exemplo, o livro ‘This Changes Everything’ [“Isso Muda Tudo”] de Naomi Klein, que explica a urgência da crise climática e a incapacidade do capitalismo de lidar com ela. Klein observa corretamente que as demandas por redistribuição e justiça e um debate fundamental sobre os valores econômicos e sociais são pré-requisitos para soluções climáticas reais. Daí a sua sugestão de que lutar por uma renda mínima garantida pode ser mais urgente do que políticas tecnocráticas, como um imposto sobre o carbono. Mas ela também inclui um capítulo sobre geoengenharia, em que o assunto é tratado com a resposta usual de esquerda, com rejeição, perturbação e desgosto.

O subtítulo do capítulo pergunta zombando se “a solução para a poluição é… poluição?” A atitude desdenhosa em relação ao assunto é, portanto, anunciada logo no início. Da mesma forma, com a citação de abertura de William James: “nossa ciência é uma gota, nossa ignorância é um mar”.

Justo. Porém, como já vimos, nossa ignorância nos levou ziguezagueando até um ponto onde nos fizemos os gestores de um ecossistema inteiro, gostemos disso ou não. Assim como não há uma maneira fácil de fugir da fixação industrial do nitrogênio, é difícil enxergar como poderíamos escapar de uma relação de emaranhamento cada vez maior com o sistema do carbono. Esse é ainda mais o caso, se levarmos a sério a insistência de Klein, e de muitos cientistas, de que as mudanças climáticas provavelmente serão mais severas e rápidas do que se esperava até alguns anos atrás. Ou seja, mesmo que passemos a zero emissões amanhã, o carbono que já foi emitido está aí para ficar e terá efeitos profundos.

Klein acha discussões sobre geoengenharia perturbadoras, pelo mesmo motivo que muitos ambientalistas de esquerda: elas ameaçam ser uma distração da tarefa de transformar nossos sistemas energéticos, políticos e econômicos. Ela observa que o mais popular dos planos agressivos de geoengenharia “não faz nada para mudar a causa subjacente das mudanças climáticas, o acúmulo de gases que capturam o calor”. Isso é, sem dúvida, verdade.

Deixando de lado os charlatães como Newt Gingrich, ninguém acredita que a geoengenharia é uma alternativa a se mudar para um sistema de energia com zero carbono. Em vez disso, faz parte de uma estratégia que combina mitigação e adaptação com descarbonização. Mas a preocupação política é que, até mesmo discutir a manipulação ativa do clima, acobertaria os que usariam esses esquemas como uma desculpa para o capitalismo de combustíveis fósseis continuar os negócios como de costume. Isso posto, algumas pessoas na esquerda perguntam: não podemos simplesmente deixar todas essas coisas para depois da revolução ecossocialista?

Mas colocar na mesa essa conversa nesses termos por si só habilitaria nossos inimigos – e nossos “amigos só de tempo bom”. Afinal, não são apenas trapaceiros empreendedores de tecnologia que iniciaram a estrada em direção à manipulação climática. O aparato da governança global neoliberal também está de olho na geoengenharia.

Considere, por exemplo, a ‘Carnegie Climate Geoengineering Governance Initiative’ ou o “c2g2” [algo como “Iniciativa Carnegie de Governança de Geoengenharia Climática”]. Este é um projeto do ‘Carnegie Council for Ethics in International Affairs’ [“Conselho Carnegie para a Ética em Assuntos Internacionais”], uma organização sem fins lucrativos, cujas origens remontam ao barão ladrão Andrew Carnegie, do século XIX. A c2g2 adota uma visão cautelosa da geoengenharia, afirmando que, embora não sejam “à favor ou contra a pesquisa, o teste ou o uso potencial de tecnologias de geoengenharia climática”, eles vêem a necessidade de “uma discussão mais ampla e por toda a sociedade sobre os riscos, os benefícios potenciais, desafios éticos e de governança criados pela geoengenharia de clima”.

Em princípio, isso parece uma perspectiva sensata, até louvável. Certamente, isso é preferível do que colocar nossa fé em atores privados que não precisam prestar contas para ninguém. Mas o c2g2 é uma cria da ordem capitalista transnacional, e seu conselho está povoado por funcionários da ONU e de ONGs. Se não for criado incômodo para eles, uma “discussão com toda a sociedade” sobre a manipulação climática envolverá apenas as mesmas elites que nos deram órgãos de governança transnacionais como a Organização Mundial do Comércio e a União Européia.

É por isso que a esquerda não pode ignorar esses debates; porque resulta que a geoengenharia não é realmente tão única, ou tão diferente de toda uma série de questões que hoje nos confrontam: É mais um problema que tem escopo global, enquanto nossos movimentos permanecem persistentemente de caráter local. Construir solidariedade internacional é necessário para que possamos apresentar alternativas tanto às visões tecno-utópicas quanto às de liberais-do-tipo-ongs sobre a política climática.

Essa é uma das razões para termos discussões abertas sobre geoengenharia na esquerda: se não o fizermos, a burguesia simplesmente levará em frente seu trabalho sem nós. Mas há outro motivo também: Embora a perspectiva da geoengenharia como uma distração em relação à urgência de acabar com os combustíveis fósseis seja alarmante, devemos também estar atentos a outra armadilha que se encontra na direção oposta. Simplesmente, aqueles que querem enfatizar a severidade da crise climática encontram-se presos entre dois imperativos contraditórios.

Por um lado está a necessidade de convencer as pessoas de que, como diz o título do livro de Klein, isso muda tudo: As rápidas mudanças climáticas são uma realidade, e o capitalismo só pode responder de maneiras que às vezes são ineptas e às vezes, desumanas. Nesta perspectiva, falar de qualquer outra coisa que não seja a necessidade imediata de reduzir a zero as emissões de carbono seria alimentar os argumentos delirantes ou dissimulados daqueles que dizem que não precisaríamos mudar quase nada e que poderíamos confiar em algumas correções técnicas para resolver o problema.

No entanto, uma ênfase no apocalíptico também tem desvantagens severas. A jornalista Sasha Lilley tem advertido contra os perigos do “catastrofismo”. Ela argumenta que “a consciência da escala ou da severidade da catástrofe não leva inevitavelmente alguém a mudar na direção de uma política radical”. Em vez disso, isso pode encorajar a passividade e a quietude. Isso pode assumir a forma pessimista da antecipação de um desastre inevitável, ou a convicção otimista de que o sistema atual necessariamente cairá e será substituído por algo melhor. Nenhuma das versões motiva a ação política.

Este é o propósito de se explorar a perspectiva da geoengenharia em um contexto à esquerda – não como um substituto da descarbonização, mas como parte de um quadro maior de ecossocalismo. Imaginar esse retrato importa, porque a esquerda sempre se motivou para a luta imediata olhando para uma visão de um mundo melhor no futuro. E para que essa visão pareça tanto realista quanto atraente hoje, ela deve abranger tanto o fim dos combustíveis fósseis quanto a intervenção ativa sobre o clima. Caso contrário, nos sobra imaginar um futuro de austeridade e auto-sacrifício na melhor das hipóteses, e de morte apocalíptica na pior.

O aspecto dessa intervenção ainda é uma questão do debate científico, embora seja um tema cada vez mais urgente. Morton se inclina na direção de um programa de pulverização de partículas de aerossol na atmosfera superior, reduzindo assim a quantidade de energia solar que atinge a Terra e agindo contra o efeito estufa do dióxido de carbono. Outras propostas envolvem remover ativamente o co2 da atmosfera e enterrá-lo permanentemente. Mesmo o plantio em massa de árvores, que absorvem co2, pode ser considerado uma forma de geoengenharia.

Alguns, incluindo Klein, se opõem a tudo isso com base em que isso nos comprometeria permanentemente com um projeto de planejamento ecológico controlado por humanos, “levando nossos ecossistemas ainda mais longe da auto-regulação”. Mas o capitalismo já nos comprometeu com esse percurso muito tempo atrás. Ela também se preocupa com um correlato ecológico de sua famosa “doutrina de choque”, na qual “todos os tipos de oposição sensata derretem e todos os tipos de comportamentos de alto risco parecem temporariamente aceitáveis” diante de uma aguda crise ambiental.

A comparação permanece verdadeira, mas não da maneira que Klein pretende. O neoliberalismo da doutrina de choque foi uma resposta à crise real do capitalismo de bem-estar social do pós-guerra, uma crise que pegou a esquerda completamente despreparada. E se não prepararmos uma visão abrangente da reconstrução ecológica, não é irracional se preocupar que a classe dominante – sejam os membros das elites tecnológicas, como Bill Gates, ou os burocratas de um c2g2 – vai aparecer com a sua versão, e a impor pela força.

O que importa é, em última análise, menos as técnicas de geoengenharia do que a forma como são implementadas e por quem. Dessa forma, a geoengenharia assemelha-se aos organismos geneticamente modificados [ou “transgênicos”]: não são intrinsecamente condenáveis, mas são potencialmente monstruosos quando desenvolvidos pelo agronegócio capitalista com o objetivo de maximizar seu lucro.

Em resposta às acusações de arrogância e Prometeísmo, é também importante enfatizar que embora aceitemos a inevitabilidade de tentarmos “planejar” a natureza, o projeto socialista não visa controlar a natureza. A natureza nunca está sob nosso controle, e sempre há consequências não desejadas. Mas assim como não podemos confiar nem no mercado nem em uma elite política para produzir automaticamente resultados econômicos justos, não podemos assumir que uma natureza intocada nos proporcionará um mundo seguro e abundante no qual viver, neste ou em qualquer outro sistema social. E assim, no processo para alcançar a ordem pós-escassez que o biólogo marxista David Schwartzman chama de “comunismo solar“, vamos assumir a tarefa de limpar a bagunça que o capitalismo criou e de criar um antropoceno mais racional, democrático e igualitário do que aquele que agora habitamos.

Talvez isso nem importe. Talvez as mudanças climáticas já tenham ido longe demais, e a geoengenharia seja um mero sonho ingênuo – ou pior, algo que criará efeitos colaterais não intencionais que apenas acelerarão nossa queda. Mas a única alternativa à torcer pelo melhor é resignar-nos com o pior. O projeto socialista está baseado na esperança emancipatória de que, nas palavras d’A Internacional, “um mundo melhor está nascendo”. Se assim for, ele não nascerá a menos que o ajudemos vir à luz.

Sobre o autor

Peter Frase is on the editorial board of Jacobin and the author of Four Futures: Life After Capitalism.

16 de março de 2017

A longa marcha

Bernie Sanders sofreu um revés na noite passada. Mas vitórias locais apontam para a ressurgência de movimentos populares.

Peter Frase

Jacobin

Um líder de quadro comunista aborda uma multidão de sobreviventes da Longa Marcha no norte da China. (Foto de Hulton Archive/Getty Images)

Bernie Sanders provavelmente perderá a indicação do Partido Democrata para Hillary Clinton, depois de sua impressionante, mas insuficiente, performance na terça passada. Ainda assim, a esquerda saiu ganhando essa noite.

A campanha de Sanders tem energizado e galvanizado um grande número de pessoas, especialmente jovens. E tornou rotineiro e socialmente aceitável falar sobre "socialismo". Como alguém que está há 20 anos pregando no deserto sobre marxismo e socialismo, não tenho como não adorá-la por essas razões.

Inevitavelmente, entretanto, há uma camada de ativistas inexperientes que tem tanto investimento afetivo na campanha que perdem de vista o quadro maior. Fazem desse político em particular algo muito mais significativo do que ele é, ao passo que não compreendem corretamente seu real valor.

Não apenas porque o "socialismo" de Sanders não é mais do que, em muitos outros contextos, seria considerado uma forma tíbia de capitalismo de bem-estar europeu. Para que possamos realmente apreciar o significado de Sanders, é necessário ver sua candidatura como algo mais que apenas outra campanha eleitoral, algo que diz respeito a algo além da capacidade desse sujeito de Vermont conquistar um certo número de delegados e prevalecer na convenção.

Recentemente, Corey Robin escreveu sobre a campanha e encorajou os apoiadores de Sanders a continuarem na luta. Em vez de "ficarmos presos na questão da contagem de delegados", ele aconselha, devemos "educar, agitar e organizar o corpo político". E devemos fazer isso por meio da campanha de Sanders, especificamente, porque, embora "a esquerda ame movimentos sociais", tais movimentos "não são imunes ao clima e ao meio da política eleitoral", que ele retrata como uma maneira de concentrar e focar as energias da esquerda.

Eu colocaria de modo ligeiramente distinto. A campanha do Sanders é um “movimento social”, e seria um erro colocar ênfase excessiva no fato de que esse movimento particular está ocorrendo por meio da política eleitoral. No nível de infra-estrutura e de pessoal, a campanha de Sanders se alimenta dos resíduos organizacionais em torno de campanhas prévias como as de Howard Dean e Barack Obama.

Mas Bernie como um inesperado fenômeno social, e inspiração para memes clichês, está mais para um sucessor de movimentos não-eleitorais recentes como Occupy e Black Lives Matter.

É no fluxo e refluxo desses movimentos interligados que podemos ver os componentes em evolução de uma esquerda ressurgente, um desafio emergente ao capitalismo que assume várias formas, algumas eleitorais e outras não.

Partidários de candidatos políticos, em especial de candidatos presidenciais, têm uma tendência a exagerar o significado de cada eleição, tornando-a um ponto de viragem crucial do qual toda a política depende. Mas é provavelmente melhor ver coisas como a campanha de Sanders como parte do que a tradição “autonomista” do marxismo chama de um processo de “composição de classe”.

Composição de classe, como o historiador Steve Wright coloca, lida com “a relação entre a estrutura material da classe trabalhadora, e seu comportamento como sujeito, autônomo aos ditames tanto do capital quanto do movimento sindical”.

Os militantes que desenvolveram o conceito, como Raniero Panzieri e Mario Tronti, estavam se debatendo com um velho problema marxista: transformar uma classe trabalhadora “em si”, em classe “para si”. Isto é: como indivíduos atomizados, explorados pelo capitalismo, podem passar a fazer parte de um movimento coletivo auto-consciente, com uma identidade comum ligada à transformação social?

Para os autonomistas originais, composição de classe estava intimamente ligada à experiência dos operários industriais na fábrica. Mas autores que fazem um uso mais recente do conceito, incluindo Antonio Negri, começaram a generalizá-lo.

Esses autores insistem que a experiência de classe se estendeu para a cidade, e para o lar, de modo que o processo de composição de classe deve levar em conta toda a vida do trabalhador e não apenas sua experiência com o trabalho assalariado. O que significa que as forças de composição de classe podem incluir não apenas o salário mínimo que você recebe no McDonald´s, mas a violência policial que você sofre depois que acaba o turno de trabalho.

Para levar isso tudo de volta ao concreto, e à votação dessa semana, é mais esclarecedor olhar não para a primária presidencial em si, mas para outra coisa que aconteceu em Illinois e Ohio. A procuradora do estado Anita Alvarez perdeu a primária por grande margem em Illinois, enquanto, ao mesmo tempo Tim McGinty perdia a corrida para procurador-geral do distrito de Cuyahoga, Ohio, que inclui Cleveland. Assim como o fenômeno Sanders, nenhum desses resultados era o que se esperava até bem recentemente.

O que liga Alvarez e McGinty são suas conexões com recentes assassinatos notórios por parte da polícia: Alvarez esperou quatrocentos dias para apresentar acusações contra o policial que matou o adolescente de dezessete anos de idade, Lacquan McDonald, e McGinty não indiciou os policiais envolvidos na morte de Tamir Rice, um menino de doze anos. Ambas as derrotas estão sendo vistas, corretamente, como vitórias do Black Lives Matter e movimentos relacionados que agitaram e organizaram contra a violência de estados às comunidades negras.

Chicago, em particular, é instrutivo, e precisa de uma estudo de caso detalhado que vai bem além do que posso oferecer aqui. Para usar termos autonomistas, a composição de classe em Chicago está muito mais avançada do que em qualquer outro lugar do país.

De longe, é difícil até desembaraçar todas as correntes. Mas elas variam de coletivos feministas como "As filhas de Assata" (que foram centrais para a campanha anti-Alvarez) ao sindicato dos professores de Chicago, cuja greve bem sucedida de 2012 o tornou uma força institucional poderosa para a esquerda, de modo mais amplo, em Chicago.

Mesmo em Chicago, a esquerda ainda não ganhou seu maior prêmio, a saída do prefeito Rahm Emanuel. Mas isso pode estar por vir, na medida em que a classe trabalhadora ganhar poder e coerência por lá. E isso deve ser uma fonte de reafirmação para os apoiadores de Sanders também, dando confiança de que essa campanha não é o fim, mas apenas um passo em um processo muito mais longo.

Colaborador

Peter Frase faz parte do conselho editorial da Jacobin e é autor de Four Futures: Life After Capitalism.

30 de novembro de 2016

Votando sob o socialismo

Vai ser mais significativo – mas esperamos que não envolva assembleias sem-fim.

Peter Frase

Jacobin

Tradução / Depois de assistir meses de cobertura na mídia, você vai para as urnas por alguns minutos e deposita seu voto para alguém te representar... E então acabou. Isso é o que “democracia” significa hoje.

Certamente, conquistar mesmo esta forma limitada de democracia eleitoral foi uma importante vitória da classe-trabalhadora. E o acesso às urnas permanece uma questão importante. Conservadores continuam seus esforços para reverter direitos de voto de pessoas negras nos Estados Unidos. Outras populações, tais como condenados, residentes sem a condição de cidadãos e adolescentes com menos de 18 anos estão inteiramente por fora dessa concessão.

A questão permanece, porém, se estas são algo mais do que batalhas táticas, formas de conquistar vantagens na luta contra o capital. Em um mundo melhor, democracia não significaria mais do que isso? Que tipo de organização política é adequada para uma sociedade socialista?

Historicamente, socialistas tem argumentado que a democracia deveria ser estendida para algumas das partes menos democráticas da sociedade capitalista: a economia e o espaço de trabalho. Nós já temos instituições como sindicatos que fazem isso de uma maneira limitada. Mas como poderíamos democratizar a economia como um todo?

Alguns advogam pela democracia direta, em que as próprias pessoas desenvolvem e votam em iniciativas, ao invés de escolher representantes baseadas em plataformas gerais e garantindo a eles o direito de estabelecer políticas.

Um dos argumentos recentes mais influentes por uma democracia direta pós-capitalista é o livro de Michael Albert e Robin Hahnel, Parecon: Life After Capitalism. Nele, os autores concebem um mundo em que cada possível tarefa é classificada em termos de seu nível de força necessária para que o fardo do trabalho seja distribuído igualmente. Além disso, todo mundo registra suas preferências de consumo e de tempo de trabalho a fim de garantir que recebam uma alocação ótima de tempo e de bens.

Mas como muitos críticos têm apontado, este sistema implica numa quantia absurda de esforço e de tempo para sua implementação. O sistema de alocação de empregos iria requerer reuniões, comissões e análises sem fim, enquanto o sistema de alocação de bens imporia imensos requisitos burocráticos sobre os indivíduos. Democracia direta pode ser ideal para, digamos, uma cooperativa pequena, mas não faz sentido como uma forma de conduzir uma sociedade inteira.

Algum tipo de sistema representativo será necessário, tanto em organizações quanto em sabe-se-lá-que-tipo-de-estado possa existir após o capitalismo. Porém, ele deve ser tão pequeno e simples quanto possível. Governos modernos com eleições constantes para todo tipo de funcionários menores e oficiais locais seriam, à sua maneira, tão incômodos e impraticáveis para as pessoas participar quanto no Parecon.

Esperamos que um dia todos viveremos em um futuro de energia ilimitada e produção automatizada, e assim os muitos aspectos de nossos governos que são dedicados tanto para proteger quanto para redistribuir riqueza serão desnecessários. Mas ainda existirão grandes questões sendo levantadas. Construiremos aquele trem de alta velocidade? Tentamos salvar a Terra ou nos mudamos para Marte?

Nesse caso pode ser útil ter instituições representativas em alguma forma altamente atenuada, que possam organizar e focar opiniões sobre questões enormes e complicadas, concentrando-as em plataformas e partidos ideológicos que serão mais democráticos e participativos do que a maioria dos que temos hoje.

Mas ainda não terminamos. Mesmo no capitalismo, existe um outro sistema, nem democracia representativa e nem direta, que às vezes é oferecido como uma alternativa a ambas.

“Libertários” de direita frequentemente defendem o mercado como uma forma superior de democracia. A democracia representativa, eles afirmam, é falha por que permite que maiorias imponham sua vontade sobre minorias, e porque ela permite que eleitores desinformados deem suporte para políticas “irracionais”.

Em contraste, estes “libertários” consideram o mercado como um mecanismo democrático perfeito. “Vote com seus dólares,” e a mão-invisível fará o resto, garantindo resultados ótimos para todos.

Dada essa proveniência, muitos esquerdistas são rápidos para repudiar qualquer coisa que tenha a ver com mercado como necessariamente antitético para a democracia. Mas ao invés de nos apressarmos para esse julgamento, deveríamos parar e considerar o que exatamente torna a forma “libertária” de democracia de mercado tão impalatável.

O problema não vem principalmente do ato de troca no mercado – ou seja, usar dinheiro como um meio para comprar e vender. Ao invés, são as dotações desiguais que precedem essa troca. Nós nos opomos ao fato de que uns poucos comandem quantias enormes de dinheiro – e, assim, um poder enorme no mercado – enquanto uma vasta maioria tenha pouco dinheiro, e poucas maneiras de obtê-lo além de vender sua própria força de trabalho.

O problema não está restrito a mercados de trocas privadas. Em uma sociedade capitalista, também afeta a própria democracia representativa. Enquanto esse sistema é formalmente baseado no princípio de “uma pessoa, um voto,” os ricos invariavelmente encontram maneiras de corromper o processo a seu favor.

O resultado, em cada democracia capitalista, fica em algum lugar entre o puro “uma pessoa, um voto” e o ideal oligárquico -”libertário” de “um dólar, um voto”. Reformas no financiamento de campanha podem mover as coisas para longe da democracia-de-dólares e rumo à democracia-de-pessoas, mas a única forma de superar totalmente o poder dos ricos é remover seu controle sobre a riqueza social.

Mas se nós fôssemos capazes de fazer isso – expropriar a classe dominante e superar o capitalismo – onde isso deixa o mercado? Se a desigualdade de recursos iniciais é apagada, o mercado pode de fato servir como um mecanismo de coordenação democrática. Seus dólares podem ser seus votos.

O problema da conservação de recursos fornece um jeito de pensar sobre isso. Suponha que vivemos em uma sociedade socialista democrática em que o trabalho já foi, em sua maior parte, abolido, e todos têm recursos iguais. O único embaraço é que ainda vivemos em um mundo com severos limites de recursos, então temos de encontrar uma forma justa de evitar que as pessoas usem materiais demais.

Em alguns casos, alguns tipos de regulação centralizada ou planejamento podem ser necessários. Mas nós não queremos ter de soletrar em detalhes o quanto de cada bem de consumo que cada pessoa terá direito – nesse caminho está a distopia do Parecon das reuniões sem-fim.

Então, ao invés disso, imagine atribuir a todas as pessoas um número igual de créditos para gastar em bens cujos preços estejam vinculados aos seus respectivos impactos ambientais. No caso mais simples, esse poderia ser o custo de carbono, mas poderia incluir muitos materiais e recursos. Dessa forma, se eu não tiver os créditos para conseguir tanto um novo computador quanto uma viagem transatlântica, eu posso escolher qual eu quero, sem precisar participar de qualquer assembleia ou solicitar através de um escritório governamental, e o “preço” de recursos escassos específicos se ajustaria baseado na demanda de toda a sociedade por ele.

Essa é uma vasta simplificação, é claro. Mas o ponto geral é que em qualquer sociedade futura concebível nós precisaremos de uma variedade de diferentes métodos para coordenar nossa vida em comum – em outras palavras, diferentes formas de democracia.

30 de junho de 2016

O ponto de ruptura da social-democracia

Peter Frase

Precisamos de uma política que reconheça que o acordo de classes da social-democracia é insustentável.


Foto: Instituto Max Planck

TraduçãoPatrick Iber e Mike Konczal publicaram um ensaio na revista Dissent em que usam o fenômeno Bernie Sanders como uma oportunidade para explicar as teorias de Karl Polanyi e o que elas significam para o futuro da política progressista.

Polanyi foi um imigrante húngaro em Viena e mais tarde na Inglaterra e nos Estados Unidos, além de um veterano do período entre-guerras que nos deu a Grande Depressão e a ascensão do Fascismo.

Seu livro mais famoso, “A Grande Transformação”, foi escrito nos anos 30 e 40, e tentava diagnosticar as falhas do capitalismo de livre-mercado de seu tempo, que em sua visão haviam dado origem à reação e à guerra que ele teve de atravessar.

Seu ponto central, e aquele que tem sido mais influente sobre os progressistas contemporâneos, é sobre como nunca existiu algo como um mercado livre sem restrições ou um mercado “natural”.

Ao invés disso, todas as formações sociais realmente existentes envolvem laços complexos entre as pessoas, baseados em uma variedade de normas e tradições. Como Iber e Konczal colocam, “a Economia está ‘embutida’ na Sociedade – é parte das relações sociais – não é independente delas.”

Por essa razão, o esforço para estabelecer mercados desregulados e sem restrições está condenado: “uma sociedade de livre-mercado pura é um projeto utópico e impossível de se realizar, por que as pessoas resistirão ao processo de serem transformadas em mercadorias.”

Essa é uma sacada importante, e até aqui não há muito com que eu não possa concordar. O problema começa quando alguém tenta derivar uma estratégica política completa a partir dessa análise. É aí que meu caminho se separa da análise polanyiana que Iber e Konczal oferecem.

Eles sugerem que a visão de “Socialismo” oferecida por Polanyi, e também por Bernie Sanders, em última análise apenas envolve submeter o capitalismo a alguns limites democráticos e humanos. Eles citam a passagem em que Polanyi define socialismo como “a tendência inerente em uma civilização industrial de transcender o mercado auto-regulatório ao subordiná-lo conscientemente a uma sociedade democrática.”

Polanyi não parece pensar que os mercados ou que as relações de propriedade capitalistas poderiam ser suplantadas (apesar de alguns trechos no final de “A Grande Transformação” introduzirem alguma ambiguidade nesse ponto). O capitalismo apenas será humanizado e controlado. Iber e Konczal atribuem algo como essa ideia a Bernie Sanders: “as pessoas usam a democracia para mudar as regras que governam nossa economia política nacional.”

Há uma longa tradição, especialmente associada com o leninismo, que rejeita esse programa como mero “reformismo”. De acordo com essa visão, a perspectiva polanyiana seria inadequada porque abraça reformas que melhoram o capitalismo.

Isso é tomado como sendo uma distração da necessidade de se construir uma força revolucionária que possa tomar o poder estatal, derrubar a classe dominante e reconstruir as relações de propriedade. Essa é uma perspectiva que Iber e Konczal rapidamente recusam: uma “ideia tradicionalmente marxista de ter o Estado tomando os meios de produção” que, eles dizem, “foi abandonada mesmo pela maioria dos que se identificam como socialistas.”

Me considero um socialista e um marxista, apesar de ser questionável se sou “tradicional”. Minha objeção à análise polanyiana é um tanto diferente, porém, daquela que Iber e Konczal exemplificam.

Sou bastante “reformista” no sentido de que minha política diária envolve trabalhar por coisas como um sistema de saúde universal, por sindicatos mais fortes ou por um governo local menos corrupto. (Isto, deveria ser notado, também era verdade sobre muitos militantes comunistas históricos, mesmo se eles antecipavam a tomada do poder como seu horizonte). Onde meu caminho se separa da esquerda polanyiana – e de certa forma, também da Esquerda Marxista Tradicional – é sobre onde acredito que tais lutas vão dar, em última instância.

Algum tempo atrás, escrevi um pouco sobre como as ideias polanyianas influenciam apoiadores e defensores do Estado de Bem-Estar Social. Em resposta ao ataque do sociólogo Daniel Zamora à teoria de Michel Foucault, observei que para muitos críticos de esquerda ao capitalismo neoliberal, o projeto da esquerda é concebido em termos polanyianos, e portanto está limitado à luta para “amortecer para os trabalhadores os efeitos dos caprichos do mercado, embora deixando no lugar as instituições básicas da propriedade privada e do trabalho assalariado.”

Deste modo, não poderia haver nada além de “um Estado de Bem-Estar Social que proteja a classe trabalhadora do funcionamento de um mercado irrestrito.”

Há duas objeções distintas que eu gostaria de levantar contra esse projeto. Uma é basicamente normativa: um mundo de trabalho assalariado mais ou menos humanizado não é um mundo em que eu queira viver, mesmo se ele fosse melhor do que esse em que vivemos agora.

Isto está enraizado na tradição socialista do “anti-trabalho”, que insiste que o objetivo final das políticas socialistas não é tornar o trabalho assalariado mais agradável, mas abolí-lo por completo. Como já escrevi extensivamente sobre isso alhures, não repetirei aqueles argumentos aqui.

A segunda objeção tem a ver com a viabilidade no longo prazo do capitalismo polanyiano de Bem-Estar Social, como um equilíbrio dentro do capitalismo. A distinção fundamental que eu faria, entre marxismo e social-democracia polanyiana, não tem a ver com debates sobre “reforma” ou “revolução”.

Em outras palavras, eu aceito a proposição de que no curto prazo, o projeto socialista se desenrole através de lutas incrementais para conquistar ganhos materiais para os trabalhadores, dentro do contexto do capitalismo.

Mas o ponto final do socialismo de polanyi na verdade é o regime que o teórico do Estado de Bem-Estar Social Gøsta Esping-Andersen chamava de “capitalismo de Bem-Estar Social”.

Ou seja, ainda se trata de uma sociedade em que os meios de produção são controlados privadamente por uma pequena elite, e a maioria das pessoas precisam vender o seu trabalho para sobreviver. Ela difere do capitalismo irrestrito graças à presença de coisas como sindicatos, regulações, programas e redes de segurança social, que parcialmente – mas nunca totalmente – desmercadificam o trabalho.

É nesse ponto que descobrimos a divisão entre a perspectiva polanyiana e a alternativa marxista que estou propondo. Tudo gira em torno da questão sobre se esse regime seria viável.

O que é viabilidade? Uma definição concisa vem do sociólogo Erik Olin Wright – que parte de uma base marxista, mas cujo trabalho tem fortes sobretons polanyianos.

Ele tem trabalhou extensivamente na definição de “Utopias Reais”, que poderiam ser oferecidas como alternativas ao sistema atual. Ele argumentava que uma tal utopia precisa satisfazer três critérios: ‘desejabilidade’, ‘exequibilidade’ e ‘viabilidade’. Os dois primeiros são o que parecem ser: “É para lá que queremos ir?”, e “podemos chegar lá?”.

Como notado acima, penso que a visão polanyiana deixa um pouco a desejar em termos de desejabilidade, mas ainda seria um passo adiante.

Quanto à na questão de exequibilidade, não tenho nada a discutir: Eu apoio lutas reformistas pelo Estado de Bem-Estar Social por que o vejo como algo alcançável, comparadas às estratégias alternativas de se construir um Partido Comunista Insurrecional, ou de escrever polêmicas sectárias e esperar que o capitalismo colapse por si mesmo.

A viabilidade é onde todos os problemas surgem. Wright define a questão da viabilidade como segue: “Se pudéssemos criar esta alternativa, seríamos capazes de permanecer nela ou ela teria tamanhas consequências não-intencionais e dinâmicas auto-destrutivas que ela não seria sustentável?”

Lembrando a definição do socialismo polanyiano como a situação em que “as pessoas usam a democracia para mudar as regras que governam nossa política econômica nacional.”

Esse seria um equilíbrio estável, aceitável para tanto para os capitalistas quanto para os trabalhadores? Ou seria uma situação inerentemente instável, que deve se romper na direção da expropriação da classe capitalista, ou da restauração do poder de dominação de classe?

Diferente dos polanyianos, penso que o Estado de Bem-Estar Social, nos termos de Wright, não é viável. Diferente de Wright, no entanto, não acho que isso o invalida como um objetivo. Ao invés disso, acredito que a política socialista é inevitavelmente uma tarefa de “construir a crise.”

A grande tragédia do Socialismo no Pós-Guerra foi a divisão perversa do trabalho organizado a qual ele deu origem, entre revolucionários que se recusavam a se engajar em políticas reformistas, e reformistas que eram incapazes ou que não desejavam lidar com a crise que suas vitórias inevitavelmente produziram.

Então, o que faz com que a social-democracia não seja viável como um sistema estável? Para isso, precisamos nos voltar para o economista polonês Michal Kalecki e seu famoso ensaio de 1943, “Aspectos Políticos do Pleno-Emprego”.

A principal sacada daquele ensaio é que as lutas econômicas entre os trabalhadores e os patrões, em última análise, não são sobre o tamanho de salários, ou a estabilidade dos empregos, ou a generosidade dos benefícios. Elas são sobre poder.

É possível construir argumentos mostrando que colocar trabalhadores desempregados de volta no trabalho seria bom para os capitalistas também, no sentido de que levaria a um crescimento mais rápido e a maiores lucros.

Mas como Chris Maisano explica em seus comentários sobre Kalecki, “as maiores barreiras à manutenção do pleno-emprego são primariamente políticas em sua natureza, não econômicas.”

Isto por que em uma situação de baixo desemprego, os trabalhadores têm menos medo daquilo que Kalecki chamava de “poder da demissão” [17]. Como eles passam a ter menos medo dos chefes, começam a demandar mais e mais dos capitalistas.

Os sindicatos e os partidos social-democratas se fortalecem; greves autônomas proliferam, mesmo sem autorização de sindicatos. No final, esta dinâmica coloca em questão não apenas os lucros, mas as relações de propriedade fundamentais do capitalismo em si.

O capitalismo de Bem-Estar Social assim atinge aquilo que poderíamos chamar de o “ponto de Kalecki”, onde sua viabilidade terá sido fatalmente minada.

Nessa situação, os empregadores passam a pensar em tomar ações drásticas para colocar os trabalhadores de volta na linha, mesmo que às custas da lucratividade no curto-prazo.

Isso toma muitas formas, incluindo ataques liderados pelo Estado contra os sindicatos e a recusa dos capitalistas em investir, uma “greve do Capital” em que o dinheiro é levado para o exterior ou simplesmente deixado nos bancos, como uma forma de quebrar o poder da classe trabalhadora.

David Harvey, em seu “Neoliberalismo: História e Implicações”, essencialmente retrata a virada de Direita dos anos 80 como uma resolução reacionária desta crise: uma mudança à partir do ponto de Kalecki que trouxe a restauração do poder da classe capitalista ao invés de um salto na direção do socialismo.

Jonah Birch fornece um estudo de caso muito útil sobre o governo de Mitterrand na França durante este período, que pressionou os limites do acordo social-democrático e finalmente foi forçado a recuar pelo poder do Capital.

A falha do Plano Rehn-Meidner, que era essencialmente um esquema gradualista para socializar os meios de produção na Suécia, fornece um exemplo similar.

Até aqui, tenho argumentado que o acordo de classes social-democrático é inerentemente inviável, e que tende na direção de conflito e crises. No entanto, outra forma de olhar para isso é que o capitalismo de Bem-Estar Social pode ser tornado viável, mas apenas de uma maneira que subverta a sua promessa socialista.

Isso por que “o poder da demissão” pode ser reconfigurado em outros tipos de poder disciplinar, dependendo da natureza do regime capitalista de bem-estar social especifico de que estivermos falando.

Recentemente, descobri (através de Mariame Kaba), o trabalho de Elizabeth Hinton, focado na expansão do Estado de Bem-Estar Social durante a “Grande Sociedade” de Lyndon Johnson nos anos 60, e suas conexões com a construção do Estado Carcerário – o nascimento do encarceramento em massa e da militarização do policiamento nos EUA.

Ela mostra que embora a “Grande Sociedade” estivesse expandindo o acesso a coisas como o suporte de renda e a cobertura de saúde, uma simultânea “Guerra ao Crime” estava submetendo os pobres, e especialmente os negros pobres, a uma maior vigilância e repressão estatal.

A sua análise indica que isso não foi simplesmente uma justaposição, mas parte de uma reconstrução coesa da relação entre o Estado e a classe trabalhadora.

Isso é facilmente compreensível em termos da natureza contraditória do Estado de Bem-Estar Social e o problema do ponto de Kalecki. Sem o Estado de Bem-Estar Social, os trabalhadores são disciplinados pelo poder da demissão – ou, em situações onde os trabalhadores estão suficientemente organizados e coesos para resistir aos chefes de qualquer maneira, por milícias privadas.

Na era do Estado de Bem-Estar Social, no entanto, a desmercadificação parcial do trabalho cria um grande perigo para o Capital, por que aumenta a autonomia dos trabalhadores, estejam eles empregados ou não, para fazer mais exigências para o Capital e o Estado.

Foi apenas esse reconhecimento que levou líderes de organizações como Frances Fox Piven e Richard Cloward a mobilizar beneficiários de políticas de Bem-Estar Social no final dos anos 60.

Violência policial, guerras às drogas, encarceramento em massa, exigências pesadas sobre beneficiários de programas: estas são todas formas de disciplinar o trabalhador na era do Estado de Bem-Estar Social, na ausência do poder de demissão.

Isso também significa que as lutas contra a opressão policial e o encarceramento não são paralelas ou subordinadas à luta de classes e ao movimento pelo socialismo, mas são fundamentais para isso: elas atacam o regime disciplinar que mantém a estabilidade do nosso regime específico de acumulação de Capital.

Para os mais polanyianos e Polianas, seria possível para todos nós nos darmos bem em um mundo onde os trabalhadores possuem vidas confortáveis e os chefes ainda ganham dinheiro. Essa é a visão que parece animar as explicações de Iber e Konczal.

O argumento marxista alternativo é que o Capitalismo é definido pela luta pelo poder entre os trabalhadores e o Capital, e a versão polanyiana de socialismo tenta suprimir essa contradição em favor de uma visão de co-existência harmoniosa.

Onde essa visão falha não é no curto-prazo, mas no longo. Ela deixa a esquerda mal equipada para lidar com a crise inevitável que um programa reformista de sucesso gera, e eu argumentaria que a crença na possibilidade de uma conciliação de classes permanente contribuiu para a derrota da esquerda e a vitória do neoliberalismo.

Então o problema não é que nós não podemos conquistar vitórias reformistas para os trabalhadores – a História nos mostra que podemos. O problema é o que vem depois da vitória, e nós precisamos de uma teoria do socialismo e da social-democracia que prepare nosso movimento para essa fase.

Sobre o autor

Peter Frase está no conselho editorial de Jacobin e é autor do livro "Four Futures: Life After Capitalism".

18 de março de 2015

Precisamos domar a tecnologia

Nosso desafio é enxergar na tecnologia tanto os atuais instrumentos de controle dos empregadores quanto as precondições para uma sociedade pós-escassez.

Peter Frase

Jacobin


Tradução / O Google está nos deixando mais estúpidos? O Facebook está nos tornando solitários? Os robôs vão roubar nossos empregos? Aparentemente, estas ansiedades afligem a muitas pessoas atualmente.

O capitalismo é definido pelo impulso de maximização dos lucros, e um dos caminhos mais seguros para esse objetivo sempre tem sido reduzir os custos do trabalho assalariado. Daí a pressão constante pelo aumento da produtividade por meio de novas técnicas de produção, automação, e agora, da informatização e da robotização.

A ansiedade com os efeitos da tecnologia capitalista sobre o trabalho é tão antiga quanto o capitalismo industrial em si. No folclore anglo-saxão, uma das representações mais famosas desta inquietação é a lenda de John Henry, um trabalhador ferroviário que morreu tentando atingir o mesmo desempenho de um martelo à vapor.

Agora, porém, as preocupações sobre a obsolescência do trabalhador estão atingindo um pico febril. A confluência de estagnação salarial, uma recuperação econômica sem empregos, melhorias rápidas na automação e na inteligência artificial têm alimentado a fornalha do medo do desemprego em massa que sempre assombrou as discussões sobre tecnologia.

Estudos de ampla circulação têm mostrado que até 80% dos empregos atuais estão suscetíveis à automação em um futuro próximo. Parte desse número é uma hipérbole, mas está claro que a automação está saindo da fábrica e entrando no reino de intelectuais e comentaristas – exatamente as pessoas responsáveis por produzir a maior parte da literatura de técno-ceticismo. (Daí o apelo acanhado do articulista Kevin Drum na revista Mother Jones: “Bem-vindos, Mestres Robôs. Podem, por favor, não nos demitir?”)

O movimento socialista, e o marxismo especificamente, possuem uma relação complicada com as ferramentas de produção capitalista: Nosso desafio é ver no desenvolvimento técnico do capitalismo tanto os atuais instrumentos de controle dos empregadores quanto as precondições para um futuro de pós-escassez.

O discurso dominante tende na direção de uma visão simplista de que a tecnologia seria uma coisa que você pode ser a favor ou contra – algo que talvez possa ser usado de uma forma ética ou antiética. No entanto, a tecnologia no processo de trabalho, assim como o capital, não é uma coisa mas uma relação social: as tecnologias são desenvolvidas e introduzidas no contexto da batalha entre capital e trabalhadores, e mascaram as vitórias, derrotas e as concessões mútuas dessas lutas. Quando os termos do debate mudam das relações de produção para uma “tecnologia” reificada, isso beneficia os chefes.

Tome, por exemplo, a greve de 2013 dos trabalhadores de transporte de São Francisco. Os trens BART de São Francisco são usados por muitos membros das elites do Vale do Silício, que despejaram suas frustrações por sofre um inconveniente devido a uma ação dos trabalhadores. Nesse processo, eles tentaram pintar a greve como um debate sobre os méritos da tecnologia: supostamente os trabalhadores estariam resistindo à introdução de tecnologias de economia de tempo e de trabalho no sistema de trânsito.

O sindicato, entretanto, via as coisas de forma diferente. As regras do espaço de trabalho que eles estavam tentando preservar em geral estavam desvinculadas da implementação de novas tecnologias, e tinham mais a ver com coisas como “impedir a administração do BART de fazer atribuições de trabalho como punição contra empregados que preencherem reclamações sobre o ambiente de trabalho.”

A questão, portanto, se torna como incorporar a tecnologia no pensamento social e na estratégia política sem tratá-la como algo externo às relações sociais e sem cair na dicotomia crua de técno-utópicos versus técno-céticos, ao mesmo tempo em que se reconhece que as mediações técnicas do trabalho e do capital possuem sim alguma existência relativamente autônoma. Às vezes as lutas políticas envolvem o uso de certas tecnologias, mas elas nunca são apenas sobre essas tecnologias; são, em última análise, sobre o equilíbrio de poder de classe. Precisamos de algo que poderia ser chamado de um “ludismo iluminado,” se esse termo puder de fato ser reivindicado.

Os luditas eram artesãos ingleses do século XIX conhecidos por destruir maquinário de economia de trabalho. Hoje, seu nome simboliza ou a resistência heroica contra máquinas repressivas, ou o ódio intransigente contra todo progresso tecnológico.

Não surpreende que a “Fundação Tecnologia da Informação e Inovação”, um think tank financiado por gente como Google e IBM, conceda seu “Troféu Ludita” para aqueles que eles julgam insuficientemente favoráveis à tecnologia; o relatório do prêmio de 2014 denuncia a regulação hoteleira e repudia as preocupações sobre privacidade nos registros sobre saúde.

Os luditas originais são incompreendidos de maneira semelhante. Como o historiador marxista Eric Hobsbawm escreveu em um artigo de 1952, a quebradeira de maquinário era uma tática comum de resistência trabalhista durante a Revolução Industrial. Ao invés de dirigirem sua fúria contra a tecnologia em si, os trabalhadores quebravam as máquinas “como um meio de coagir os empregadores a garantir a eles concessões em relação a salários e outras questões.” Tal sabotagem “era dirigida não apenas contra máquinas, mas também contra matérias-primas, produtos finalizados, e até mesmo contra a propriedade privada dos empregadores.”

A figura moderna do ludita é valiosa para os capitalistas e suas ideologias especialmente por razões retóricas: se os trabalhadores puderem ser retratados como sendo hostis a algum método ou dispositivo que possui qualidades patentemente positivas, eles podem ser repudiados como egoístas ou irracionais. Não importa que em muitos casos o problema seja que tecnologias úteis e potencialmente emancipatórias são capturadas dentro da carapaça capitalista, otimizadas para maximizar os lucros privados ao invés da riqueza social.

Isso não quer dizer que os argumentos dos titãs tecnológicos não sejam lógicos em seus próprios termos. Do ponto de vista do capital, não há muita diferença entre a sabotagem de máquinas e outras formas de ação trabalhista – afinal, para o proprietário das máquinas, seu valor não está na coisa específica que elas produzem, mas em quanto dinheiro elas darão em retorno. Uma máquina é apenas parte do mais importante de todos os processos da produção capitalista: M-C-M’, o método de transformar dinheiro em mais dinheiro ao passá-lo através do processo de contratar trabalhadores, produzir mercadorias e vendê-las.

Tão logo uma máquina é comprada, ela custa dinheiro ao seu proprietário: os empréstimos precisam ser pagos, as instalações físicas começam a se deteriorar e novas máquinas constantemente ameaçam tornar inúteis competitivamente aquelas já existentes. Portanto, qualquer coisa que desacelere ou pare a produção tem o efeito de destruir parte do valor da máquina como capital, o que para o capitalista é sua substância real. Se for uma greve de braços cruzados ou uma chave inglesa em uma engrenagem o que estiver parando a produção é irrelevante, já que em ambos os casos valor é destruído. Para os proprietários, toda resistência dos trabalhadores é ludismo.

A hostilidade para com novas tecnologias, a suspeita em relação a toda “inovação” como sendo uma artimanha capitalista, tem uma certa lógica para os trabalhadores organizados, mesmo que seja uma lógica de visão curta. Os luditas são frequentemente invocados como um talismã contra toda crítica à tecnologia, um aviso de que seria impossível resistir à inevitável marcha do progresso. Isso mistifica as questões políticas do progresso ao drenar dele todo o conflito e elementos políticos. Porém, se a resistência dos trabalhadores não representar nada além de parar na frente de mudanças técnicas gritando “PARE!”, ela só será capaz de preservar um status quo completamente capitalista.

O esquerdismo anti-tecnológico coloca os trabalhadores na posição de conservadores intransigentes, que se agarram às tecnologias existentes, que – se a crise do trabalho industrial nos dias do pleno emprego dos anos 60 e 70 forem alguma indicação – não são particularmente amadas. A fabricação industrial que hoje algumas pessoas querem preservar já foi considerada uma imposição monstruosa sobre as prerrogativas do trabalho que exigia habilidades manuais artesanais. Além disso, a resistência contra a tecnologia encoraja a fragmentação de classe, colocando trabalhadores contra os consumidores, que apreciam o acesso à riqueza social possibilitada pelo desenvolvimento capitalista.

Uma estratégia alternativa à atual resistência anti-tecnológica seria lidar com as questões de poder de classe e de distribuição. Alguns dos primeiros socialistas nos EUA a confrontar diretamente esta dinâmica foram os trabalhadores comunistas da indústria automobilística em Detroit, que lutavam com o impacto da robotização. Nelson Peery, um trabalhador radical da “Liga de Trabalhadores Negros Revolucionários”, via a automação como um processo que tornaria irrelevantes as velhas formas de organização industrial e que anunciaria um novo estágio da luta de classes.

É claro, a maioria dos trabalhadores do setor automobilístico acabou ficando sem empregos de altos salários e sem a fatia crescente na riqueza social, enquanto a reestruturação da indústria e a des-sindicalização avançaram lado a lado com o desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social Keynesiano.

Então o que significaria lutar por direitos sociais em uma estrutura que vá além da nostalgia industrial? O caso do Sindicato dos Estivadores da Costa Oeste dos EUA fornece um exemplo ilustrativo tanto de possibilidades quanto de limites.

Confrontado com a automação e a conteinerização dos portos e o concomitante colapso na demanda por trabalhadores iniciada nos anos 60, o sindicato portuário conquistou um acordo. Como relembra o repórter sindical Steven Greenhouse no New York Times: “A administração prometeu a todos os estivadores um nível garantido de pagamento, mesmo se não houvesse trabalho para todos.” Os termos reais do acordo e o contexto em que ele foi atingido passavam longe de serem ideais, mas demandas como estas ressaltam a necessidade de esculpir um pedacinho de pós-escassez dentro de um mundo capitalista.

Os trabalhadores das docas, é claro, não representam muito bem a classe trabalhadora mais ampla, de maneira genérica. Devido à sua posição estratégica nos gargalos da distribuição de mercadorias, e sua resultante habilidade de travar partes enormes da economia, eles desfrutam de uma alavanca estratégica que falta à maioria de nós. Além disso, em última análise eles foram incapazes de proteger a sua bolha e tem sofrido uma série de derrotas decentes. Conquistar para o resto de nós uma parcela dos frutos da automação exige vitórias no nível do Estado ao invés do nível dos ambientes de trabalho individuais.

Isto poderia ser feito através de uma Renda Básica Universal, um pagamento mínimo garantido a todos os cidadãos, completamente independente do trabalho. Se levada em frente por forças progressistas, a RBU seria uma reforma não-reformista que também aceleraria a automação ao tornar mais competitivas as máquinas contra trabalhadores melhor posicionados para rejeitar salários baixos. Isso facilitaria também a organização sindical ao funcionar também como um tipo de “fundo de greve” e amortecedor contra a ameaça de desemprego.

Uma renda básica universal poderia defender os trabalhadores e realizar o potencial de uma economia pós-escassez altamente desenvolvida; poderia quebrar a falsa escolha entre trabalhadores bem-pagos ou máquinas de economia de trabalho, entre sindicatos fortes ou avanços tecnológicos.

No fim das contas, a força dos trabalhadores e o desenvolvimento das forças de produção estão dialeticamente entrelaçados. Deixando de lado a falação esbaforida sobre robôs, na verdade o crescimento da produtividade nos últimos anos tem estado em baixas históricas, levando alguns comentaristas a advertir sobre uma “grande estagnação”.

Uma forma de explicar isso é que quando os trabalhadores são baratos e controláveis, é mais fácil para o chefe tratar o próprio trabalhador como uma máquina do que encontrar uma máquina para substituí-lo. Assim, o fortalecimento da classe trabalhadora tanto dentro quanto fora do ambiente de trabalho se torna a força que nos empurra rumo ao ideal utópico de uma sociedade pós-escassez e da abolição do trabalho assalariado.

Colaborador

Peter Frase está no conselho editorial de Jacobin e é autor do livro "Quatro futuro: a vida após o capitalismo", publicado pela Autonomia Literária em 2020.

4 de outubro de 2014

Em defesa dos gamers

Não culpem os gamers pelos pecados do capitalismo.

Peter Frase



Jim Sheaffer / Flickr

Tradução / Houve um tempo em que eu poderia dizer que era um “gamer” – ou seja, alguém que joga videogames, que reflete sobre eles e que os vê como uma forma cultural rica e cheia de potencial, tanto como arte quanto como esporte.

Hoje, no entanto, mesmo as pessoas que geralmente ignoram os jogos de videogame já foram apresentadas à figura do “gamer”, e ele é uma coisa totalmente diferente disso. O gamer se sente ameaçado por mulheres que compartilham seus gostos e as chama de “garotas geeks falsas” ou “falsas nerds”. O gamer reage às críticas de Anita Sarkeesian aos clichês sexistas nos videogames com um bombardeio de ameaças violentas contra ela e sua família. O gamer ataca a criadora de jogos feminista Zoe Quinn com abusos misóginos e alegações infundadas de corrupção em reação a uma postagem sórdida em um blog feita por um ex-namorado cheio de rancor.

Não é nenhuma novidade que os videogames costumam ser hostis às mulheres, tanto enquanto indústria quanto como cultura de fãs. Também não é novidade que há excelentes críticas feministas apontando isso na imprensa de jogos, como Leigh Alexander e Samantha Allen. No entanto, os debates sobre misoginia e games têm fervilhado com nova intensidade nas discussões entre consumidores e criadores de jogos, e também têm ultrapassado esses círculos. (O portal New Inquiry reuniu uma coleção de links sobre o tema.)

Evidentemente, nem todo mundo com um profundo interesse por jogos é um jovem amargo e reacionário que reage com uma violenta misoginia ao menor sinal de justiça social. Mas essa facção de “gamers” tem demonstrado sua capacidade descomunal de policiar os limites do debate e expulsar consumidores, criadores e críticos que os desafiem, com o consentimento de uma maioria silenciosa. Politicamente, o que representa esse grupo demográfico específico de extrema-direita?

A cultura dos videogames há muito tempo tem se mantido bastante provinciana – assim como, em maior ou menor grau, a “cultura geek” mais abrangente na qual ela está inserida, que também abarca fenômenos como Dungeons & Dragons, romances e filmes de ficção científica e fantasia, e histórias em quadrinhos. Todas essas formas possuem uma longa história de experimentação politicamente subversiva, socialista e feminista, mas, em suas formas comerciais que recebem mais financiamento e que são mais amplamente consumidas, elas atendem especialmente a certos tipos de garotos e homens socialmente desajeitados, lhes proporcionando alternativas aos padrões dominantes de masculinidade.

Ao mesmo tempo, porém, eles também cultivam uma misoginia alternativa, baseada no ressentimento de outros homens e no desejo de usurpar seu domínio patriarcal, e não de derrubar o patriarcado por completo. Consequentemente, a cultura geek é um terreno fértil para “Caras Bonzinhos” que se veem como párias perseguidos, mas que são incapazes de superar seu desejo de controlar as mulheres.

É impossível contestar que, em termos puramente econômicos, os jogos eletrônicos se tornaram um fenômeno de cultura de massa completamente convencional: os gastos dos consumidores em jogos agora rivalizam ou excedem os gastos com música e filmes. Ainda assim, esses gamers se agarram a uma identidade de oprimidos e marginalizados, até mesmo enquanto defendem as práticas existentes de sexismo, racismo e exploração de classe no interior da indústria de jogos.

Parte desse fenômeno tem a ver com a defasagem de tempo entre a aceitação econômica e a aceitação cultural. Os jogos podem ser uma mídia dominante enquanto indústria, mas ainda não alcançaram paridade cultural com outras mídias e outras formas de arte. Por conseguinte, ainda temos grandes críticos de cinema escrevendo ladainhas toscas e apaixonadas sobre por que os videogames não poderiam ser considerados arte, e o New York Times expressando admiração com a noção de que esportes competitivos possam ser mediados por computadores.

Isso não é algo inusitado para qualquer mídia jovem; o cinema e a televisão enfrentaram defasagens semelhantes. Eventualmente, pessoas que cresceram com os videogames estarão em posições de autoridade cultural, e a ideia dos jogos eletrônicos como uma mídia inferior ou efêmera desaparecerá.

A assimilação dos jogos eletrônicos na cultura mais ampla, entretanto, representa um problema para um segmento reacionário de gamers. Significa o engajamento com uma sociedade que, embora ainda seja capitalista, patriarcal e impregnada de racismo, também tem sido desafiada durante décadas por aqueles que ela tradicionalmente marginalizou. O envolvimento mais amplo inevitavelmente transforma os parâmetros da cultura geek, à medida que novas vozes e novas ideias vão sendo incorporadas.

Alguns gamers gostariam de ter as duas coisas: que todo mundo leve a sério a sua mídia, mas que ninguém desafie suas premissas políticas ou questione a forma como os jogos tratam as pessoas que não se parecem ou pensam como eles. Eles odeiam e temem um mundo onde os jogos sejam realmente feitos por e para todos, onde as mulheres constituem a maioria do público dos jogos eletrônicos e onde uma mulher trans domine um dos maiores eSports do mundo.

É importante chamar essas pessoas daquilo que elas são: não apenas idiotas anti-sociais e não apenas misóginos, mas, como diz Liz Ryerson, em geral a ala de direita (ou de extrema-direita) das pessoas envolvidas com os videogames. Não surpreende, portanto, que eles se assemelhem aos conservadores que lamentam com ressentimento o viés liberal progressista de Hollywood ou a condescendência de professores universitários elitistas. Não se trata de um problema com a cultura gamer, mas um problema com toda a nossa cultura e, especificamente, com as atitudes e comportamento de uma seção de direita, predominantemente branca e masculina dessa cultura.

Os gamers de direita projetam um senso de superioridade arrogante e se sentem no direito de ter acesso exclusivo a certos bens materiais e imateriais devido à sua condição, ao mesmo tempo em que constroem uma identidade baseada na marginalidade e vitimização. Nisso, entretanto, eles não são realmente tão diferentes de muitos movimentos revanchistas nas sociedades capitalistas. Eles se parecem bastante com a direita do Tea Party, que lamenta o desaparecimento da “América” que reconhece – isto é, os EUA onde os homens brancos heterossexuais são sistematicamente favorecidos.

Esse é um elemento básico da mente reacionária: uma oposição fundamental à igualdade como tal. O mesmo ocorre com esses gamers para os quais, como coloca Tim Colwill, “a pior coisa que pode acontecer aqui é a igualdade”. Esse grupo de gamers raivosos “já não reconhece mais o seu país”, por assim dizer, com todas essas mulheres, LGBTs e esquerdistas circulando por aí.

É por isso que é errado sugerir, como faz Ian Williams, que a cultura gamer estaria “manchada, da raiz às pontas dos galhos, por abraçar o consumismo como um modo de vida.” A ideia de que comunidades organizadas em torno do consumo cultural compartilhado seriam inerentemente reacionárias é tão ampla que chega a ser vazia e poderia se aplicar igualmente a cinéfilos, fãs de esportes ou mesmo aficionados por teoria marxista.

É possível que qualquer visão política, de esquerda ou de direita, se decante em meras escolhas de consumo. Só que esse não é o problema atualmente sendo exibido entre os gamers. Na verdade, o perigo surge de sua escolha de não apenas consumir passivamente, mas de realizar ataques em nome daquilo que acreditam que a verdadeira cultura gamer deveria ser.

Os ataques a pessoas como Anita Sarkeesian devem ser compreendidos como atos políticos coletivos, e os reacionários que os praticam devem ser entendidos como representantes ideológicos de uma tendência política específica entre aqueles que criam e jogam videogames, ao invés de se acenar contra eles com uma retórica moralizante como se fossem um bando de consumidores ingênuos.

Duas coisas ameaçam esses gamers: a noção de que os jogos eletrônicos não existam exclusivamente para reafirmar seus preconceitos misóginos, e o fato de que esses preconceitos possam ser contestados. Não apenas a cultura dos jogos está se ampliando, mas o segmento comercial de grande orçamento que mais atende às suas fantasias retrógradas está se contraindo em relação aos jogos independentes, para celular e na web.

Como aponta Leigh Alexander em sua sofisticada desconstrução da identidade gamer: “é difícil para eles ouvirem que não são mais donos de nada, que eles não são o grupo demográfico de consumidores mais especiais do mundo, que eles têm que compartilhar.” Troque as palavras “o grupo demográfico de consumidores” por “beneficiários de serviços públicos do Estado de bem-estar social” e você poderia estar falando sobre seguidores do Tea Party defendendo que os serviços públicos que utilizam sejam reservados a eles, ao mesmo tempo em que acusam pessoas (principalmente mulheres) mais pobres de serem “sanguessugas” dos programas do governo, que estariam fazendo filhos para receber auxílios e não precisar trabalhar.

Portanto, essa não é uma questão específica aos gamers; e, dentro dos limites do mundo dos jogos, também não se trata apenas de uma história sobre uma “cultura tóxica” entre os fãs de jogos, mas sim sobre uma indústria que é estrutural e sistematicamente reacionária e que cultiva os mesmos valores entre um segmento de seus consumidores. Não são apenas as turbas do 4chan aterrorizando roteiristas e designers de jogos, é todo um negócio de jogos que expulsa os trabalhadores que não se conformam com suas premissas políticas e estereótipos demográficos.

Famosos designers de jogos e proprietários de estúdios de desenvolvimento não endossam abertamente as ameaças e o terror realizado por trolls anônimos, mas esses trolls são as tropas de choque que ajudam a manter a elite existente no poder. Os respeitáveis homens de terno seguem contratando no mesmo clube do bolinha, enquanto inventam desculpas para explicar por que as mulheres simplesmente não se enquadrariam como programadoras, designers de jogos ou jornalistas na área. Mas as táticas fascistas de confronto pela brigada de trolls funcionam para manter o status quo da indústria.

Não se trata apenas de uma ferramenta útil para calar vozes dissidentes; a existência desses movimentos de nerds raivosos entre os fãs e consumidores também realiza aquilo que os movimentos fascistas sempre fazem: dividir a classe trabalhadora, fazendo com que alguns deles se identifiquem com o chefe. Nesse caso, por sua vez, essa identificação serve para escorar a indústria hiper-exploradora que Ian Williams descreveu anteriormente.

A existência de um esquadrão de vigilantes hostis e vociferantes calando os discursos divergentes torna mais fácil para os diretores de estúdio contratar nada além dos mesmos homens brancos e, em seguida, quase matá-los de tanto trabalho; para os administradores de fóruns reivindicar a liberdade de expressão e dar de ombros para o ódio vomitado em suas páginas; e para a indústria alegar que estão apenas satisfazendo “o público” quando reproduzem os mesmos estereótipos estreitos e preconceituosos, ano após ano. Enquanto isso, os “bons” geeks acabam sendo distraídos do evento principal enquanto brigam com os trolls, como skinheads SHARP e skinheads nazistas se digladiando em um show de porão.

O que não quer dizer que as ameaças de morte sejam uma bela vista para o pessoal de terno no topo da hierarquia da indústria de jogos. Os trolls podem às vezes sair fora de controle, assim como o establishment do partido republicano às vezes perde o controle do Tea Party, ou como os capitalistas industriais às vezes perdem o controle dos camisas-marrons nazistas. Mas isso não significa que eles não façam parte de um mesmo projeto político dialeticamente inter-relacionado. Os cossacos trabalham para o czar. As turbas em busca de confronto estão lá para policiar os limites do discurso, para expulsar à força qualquer um que desafie a hierarquia existente – mulheres, pessoas não brancas, LGBTs, e até mesmo aquele excêntrico homem branco considerado simpático demais às mulheres e aos comunistas.

Não é um problema sobre o ato de jogar videogames; é um problema do capitalismo. Em vez de vê-los simplesmente como babacas imorais ou consumistas iludidos, devemos levar a sério a ala avançada de trolls cheios de ódio entre os gamers como representantes das tropas de choque reacionárias que teremos de derrotar para construir uma sociedade mais igualitária – seja na indústria de jogos, ou em qualquer outro lugar.

Sobre o autor

Peter Frase está no conselho editorial de Jacobin e é autor do livro "Quatro futuro: a vida após o capitalismo".

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