28 de dezembro de 2016

Carrie Fisher (1956-2016)

O que mais gostávamos sobre Carrie Fisher era que ela parecia inclinada a dizer a verdade, e quase ninguém faz isso, certamente não estrelas de Hollywood.

Eileen Jones


Carrie Fisher em 2012. Gage Skidmore

Tradução / Para muita gente, a morte de Carrie Fisher significa a morte da princesa Leia. Ela sabia disso e escreveu,

“Eu digo a meus jovens amigos que um dia eles estarão em um bar jogando sinuca, olharão para a televisão que terá uma foto da Princesa Leia com duas datas no rodapé e dirão ‘Oh! Ela disse que isso aconteceria’. Depois voltarão a jogar sinuca”.

Vou deixar que outra pessoa escreva este tributo a Princesa Leia, outra pessoa pode fazer esse devido favor. Mas esta não é a Carrie Fisher que me interessa.

O que eu gostava sobre Carrie Fisher foi que ela parecia sempre inclinada a dizer a verdade, e quase ninguém faz isso, certamente não as estrelas hollywoodianas. Mais certamente ainda entre as estrelas de Hollywood que são o que Fisher chamou de “produtos de Hollywood”, referindo-se a seu status de filha de Debbie Reynolds e Eddie Fisher, a estrela infantil de pais famosos.

Manter o estrelato em geral pode resultar em muitos segredos, você pode pensar que uma dinastia de estrelas apenas intensificaria esta tendência através das gerações.

Mas Fisher parecia alérgica a segredos. “Você é tão doente quanto seus segredos” ela escreveu ao dizer tudo ou, pelo menos, sagazmente parecer que dizia tudo.

Pessoas que são ricas e famosas na América, e, portanto, tem muito mais chance de escolher o que fazer com suas vidas do que qualquer pessoa. São inclinadas a aparições públicas em que disfarçam suas reais experiências. O que parece ser as regras de membros de uma sociedade a parte as quais você nunca diz o que realmente acontece atrás dos portões das mansões.

Definitivamente não se fala sobre o consumo de drogas. Mas Carrie Fisher nunca parou de nos contar sobre tomar todas estas drogas. “Eram minhas amigas”, ela disse carinhosamente, embora os amigos fossem contra.

A compulsão por tornar normal o anormal, ilustrado por revistas como US Weekly [revista de celebridades dos EUA – Nota da tradutora] sob o titulo “Eles são como nós!” em que mostram celebridades usando moletom enquanto compram café para viagem e andam com seus cachorros, não é o jeito de Carrie Fisher.

Ela se expôs e disse que toda Hollywood era maluca e detalhou através de histórias. Por isso, abençoamo-la e lamentamos sua morte.

Ela era capaz de reconhecer e divertidamente expor, em livros, entrevistas e monólogos, a relação com sua própria experiência com a suposta normalidade – ou pelo menos o que ela achava ser normalidade. O trecho a seguir é do livro Wishful Drinking:

“Quer dizer, se eu entro em um lugar e digo ‘Sabe como é ver seu pai mais pela TV do que na vida real?’ não acho que muitos poderão responder ‘Meu Deus! Você também?’. E da mesma forma, eu tenho que perguntar, com que frequência você diz “na vida real?“.

Quando Debbie Reynolds precisou de alguém para aconselhar a filha adolescente sobre o uso de drogas, o ex-usuário de LSD Cary Grant foi chamado como conselheiro. Quando Fisher engasgou com uma couve-de-bruxelas, foi Dan Ackroyd que fez a manobra de Heimlich nela.

Meryl Streep interpretou seu alter-ego Suzanne no filme adaptado do primeiro livro de Fisher, Postcards From The Edge. Mas era frequentemente questionada: Por que ela mesma não interpretou o papel? “Já interpretei Suzanne”, disse, referindo-se a sua vida como uma duradoura atuação.

O fato de Fisher saber tudo isso era estranho, e a vontade de compartilhar toda sua esquisitice conosco, o público, fez dela alguém como nós, uma pessoa comum honorária.

Ela tinha um anseio humano de ser parte do panteão dos vivos, vividos, atormentados escritores de verdades de Hollywood que admirava, lendários super-expostos como Judy Garland e Ava Gardner, que perto do final de suas épicas vidas adoraram desenterrar as sujeiras de Hollywood e o fizeram de forma hilária.

Fisher fez listas de celebridades azaradas – bêbados, usuários de drogas, sobreviventes de doenças mentais que pensaram por muito tempo em suicídio – e orgulhosamente adicionava seu nome. Ela se vangloriava, por exemplo, de sua amizade com praticantes de terapia de eletrochoques famosos, como Judy Garland, Cole Porter, Lou Reed, Yves St. Laurent, Ernest Hemingway e Vivien Leigh e coroava “Olha o que estes fodidos conseguiram realizar!”.

Talvez fossem os excessos, do que ela chamou, de sua muito movimentada vida que prematuramente a envelheceu. Fisher pareceu ir rapidamente da picante estrela no icônico biquíni de metal para a cansada veterana de meia idade da guerra do showbiz, mostrando suas cicatrizes e resmungando piadas irônicas sobre suas realizações, como se ela tivesse pensado em ter o status de excelência desde berço.

Esta impressão de acelerado envelhecimento criado parcialmente por sua diversificada carreira de atriz, resultou numa surpreendente limitada filmografia para alguém tão famoso.

Ao invés de construir sua inicial carreira atuando em sucessivos papeis principais em filmes, ela desviou para escrita de livros e revisão de roteiros nos bastidores, nunca perseguindo o estrelato em grandes filmes em nada parecida com a duríssima e tradicional disciplina hollywoodiana de sua mãe.

Finalmente, o estrelato de Fisher se restringiu a composição de sua autobiografia sobre crescer e ser destruída em Hollywood, e como ela se tornou a divertida, auto-depreciada e perversamente orgulhosa encarnação do Estrago Feito.

Passei a apreciar esta imagem de Fisher, em grande parte, porque eu a tenho acompanhado. Sei que não é usual entre especialistas contar sobre suas idas a Hollywood e de ver as estrelas nas festas da indústria cinematográfica e ter grande interesse nestas aparições. Encaramos com certa indiferença estas estrelas, porque eles são mercadorias fabricadas dentro do sistema capitalista e vendido ao público, ou algo do gênero.

Mas penso que o estudioso em cinema Richard Dyer acertou quanto argumentou sobre a intensa importância dos famosos. As imagens destes refletem e nos ajuda a identificar os valores da sociedade que os produziu – representam e vendem as contradições impossíveis desta sociedade.

E vendem a individualidade, uma espetacular miragem americana de realização completa e empoderamento pessoal único, não só porque suas imagens são destinadas a serem distintas, como parte de uma “diferenciação produtiva”, mas porque ficamos fascinados pela evidencia esporádica da luta diária de seres de carne e osso em manter esta suposta imagem distinta.

Esta evidência, em geral, surge na forma de escândalos, de aparições públicas e tragédias reais, de escorregões aparentemente acidentais de todo tipo. Este é o território arenoso que Carrie Fisher apostou as fichas de sua longa carreira, com habilidade quis nos mostrar o caos por trás da imagem e, ao fazê-la, paradoxalmente manteve o controle sobre ela.

Não era somente o personagem da Princesa Leia, era também sua ânsia em ser A princesa diarista que definiu sua personalidade amigável. Quem mais no elenco de Star Wars ou na equipe teria divido conosco a patética edição “sem roupa intima no espaço” de George Lucas, ou brincou sobre o brinquedo da Princesa Leia, ou contou a historia de um jovem fã de Star Wars que confessou a ela ter passado anos pensando todos os dias nela – “na verdade, quatro vezes por dia”.

Então, em sua homenagem, esta é a verdadeira historia de Hollywood sobre Carrie Fisher.

Certa vez, Carrie Fisher ajudou a arruinar Hollywood para mim. Fui até lá procurando uma vitalidade enlouquecida do showbiz com todo o desespero de uma estudante de Humanidades que não pode mais suportar a rigidez da academia mais um segundo.

Mas para meu desespero, Fisher foi o instrumento para me mostrar que por baixo da sua superficial sedução pornografia, a elite hollywoodiana abriu outros caminhos para o tédio e a mediocridade. Não era de se admirar a amizade de Fisher pelas drogas, e quão difícil era se afastar delas.

Fui convidada a duas festas de Hollywood feitas por Fisher – uma delas ela foi efetivamente co-anfitriã – e eram festas estragadas que destruíram todo meu idealismo juvenil. Se você não consegue achar alegre libertinagem em festa da Carrie Fisher, onde você espera achar?

Ela deve ter tido muito disso ao longo dos anos. Se Carrie Fisher vem, pode uma orgia de cocaína estar muito atrás?

Na primeira festa foi à festa de Fisher e Penny Marshall, que alternavam o local a cada ano. Neste ano foi na casa de Marshall, que providenciou todas as necessidades para um verdadeiro sopro de Hollywood em um terraço espaçoso com uma piscina artificialmente iluminada, e vista imponente vista da Los Angeles iluminada, e muitas celebridades.

De qualquer forma, todo o evento foi conduzido em uma atmosfera empolada de carismatismo de doze passos, com grupos decorosamente sóbrios de pessoas famosas à beira da piscina, falando trabalho. Foi incrivelmente deprimente.

A anfitriã Fisher, com aparência linda e jovem, observou a cena atentamente, e concluiu com a voz carregada: “Acho que estas coisas funcionam melhor na minha casa”.

A segunda festa foi um pequeno churrasco à tarde o qual Fisher exalou miséria. Ela bateu o portão do jardim enquanto entrava, andava de forma abatida e pesada, com o cabelo picado grosseiramente curto como se ela tivesse se massacrado com as próprias mãos em um ataque de auto aversão.

Sem diversão em seu rosto, ela estava quase irreconhecível.

Ela elevou a depressão e o desgosto a outros níveis naquele dia. Era difícil culpá-la, já que a festa era realmente medonha. Os cães da anfitriã vagavam livremente entre os convidados defecando por toda parte e, como o empolgado evento continuou, mais e mais pessoas seguiram a bosta de Shih Tzu por todo o pátio no calor fétido.

Se quisesse, Fisher poderia ter transformado aquela festa em um texto sobre algo divertido, outra maluquice de calamidade social de Hollywood. A salvação daquela visão aviltada da estrela era pensar na cômica imagem pública que ela criou ao testemunhar o fracasso dos ricos e famosos para viver bem.

A chave para tantas histórias inesquecíveis de Fisher é a fodida incongruência que destrói a imagem de boa vida de Hollywood. A vez que seu irmão Todd acidentalmente atirou na própria coxa, espalhando sangue no sagrado e imaculado quarto da estrela Debbie Reynolds; a vez que um amigo de Fisher, que veio a cidade para acompanhá-la na festa do Oscar, morreu em sua cama e então voltou para assombrá-la, literalmente; a vez que seu pai, Eddie Fisher, escreveu uma biografia alegando que sua ex-mulher, Debbie Reynold, era lésbica, e Carrie Fisher se sentiu compelida a declarar publicamente “Minha mãe não é lésbica. É apenas uma péssima, péssima heterossexual”.

Ao apresentar o estrelato como uma engraçada e enlouquecida bagunça, Fisher permaneceu muito próxima ao publico em geral, cujas vidas também eram desordenadas, embora com menos interesse geral.

E a astúcia desta apresentação pública que soou tão verdadeira colocou-a no panteão de seus amados famosos fodidos com todas as suas realizações. Descanse em paz Carrie Fisher.

Sobre a autora

Eileen Jones é critica de cinema para a Jacobin e autora do livro Filmsuck, USA. Ela é professora na Universidade da Califórnia em Berkeley.

24 de dezembro de 2016

Quando o Estado é avarento

Uma conversa com Paul Laverty, roteirista de Eu, Daniel Blake sobre as indignidades do sistema de bem-estar em uma era de austeridade.

Liam O'Hare

Jacobin

Não é sempre que um filme tem o impacto de Eu, Daniel Blake.

Um autêntico e cortante conto de indignação social sobre o sistema de bem-estar em uma era de austeridade, que tem sido repetidamente mencionado no parlamento britânico, descrito como um "grito de guerra para os despossuídos" e até teve seu título apropriado como um slogan por ativistas.

Dirigido por Ken Loach, ele conta a história de um carpinteiro - Daniel Blake - que sofreu um ataque cardíaco grave e é informado pelo seu médico que ele é incapaz de trabalhar. Ele se candidata ao Subsídio de Apoio ao Emprego, mas é considerado "apto para o trabalho", em grande parte devido ao fato de que ele ainda pode levantar ambos os braços acima de sua cabeça.

Para muitos, é uma situação bem conhecida: milhares de pessoas em situação semelhante morreram pouco depois de serem dadas como “aptas para o trabalho” em testes como esse, aplicados pelo Department for Work and Pensions (DWP) [Departamento de Trabalho e Pensões].

Para muitos, isso soou um acorde: milhares de pessoas em situações semelhantes morreram depois de serem consideradas aptas para o trabalho em testes semelhantes pelo DWP.

Blake faz amizade com uma jovem mãe que também caiu em tempos difíceis, encontrando escasso apoio de um sistema desumano e burocrático em que estar atrasado para uma nomeação pode levar a seus benefícios ser retirados. Sem amortecer sua raiva, Eu, Daniel Blake consegue contar esta história com um toque leve, cheio de humor e humanidade.

Para o roteirista Paul Laverty não há nada inevitável ou acidental sobre as dificuldades em exposição. Em vez disso, quando nos encontramos no Glasgow Film Theatre, ele me diz que é uma conseqüência direta das políticas do governo conservador que levaram as pessoas à beira da existência.

"É uma crueldade consciente", diz ele, com sua voz cheia de raiva. "Há um regime de sanções absolutamente vicioso que tem sido responsável por suicídios, desabrigados, miséria, fome; em todos os tipos de formas. Eu não estou dizendo isso retoricamente. Tenho andado de um lado a outro do país ouvindo sobre isso em primeira mão das pessoas."

Laverty é um colaborador de longo prazo de Ken Loach, tendo trabalhado com ele em uma série de filmes por mais de trinta anos. O relacionamento provou ser imensamente frutífero e Eu, Daniel Blake torna-se o segundo filme deles cobiçado para ganhar o Palme D'or no Festival de Cinema de Cannes.

No entanto, foi o impacto social do filme que mais agradou Laverty. "Nós somos todos Daniel Blake" foi apropriada como uma referência para os ativistas no Reino Unido e além. O filme deu novo impeto às campanhas de longa data contra a austeridade e trouxe a brutalidade do sistema de bem-estar para um público mais amplo. Em uma marcha recente contra o desemprego na França, havia centenas de cartazes "Moi, Daniel Blake" em exibição.

Laverty previu o efeito galvanizador que a história teria?

"Bem, é apenas um filme. É uma história. Histórias às vezes terminam em becos sem saída e ninguém os vê; às vezes elas ecoam. O que eu estou muito, muito animado é pelo fato de ter tido um eco incrível, este, mais do que qualquer um dos filmes que eu já fiz."

"Nós batemos em algo, não só aqui, mas em outros lugares que temos mostrado. Eu acho que é como a dignidade de cada pessoa humana. Eles não são estatísticas. Eles não são apenas um cliente ou um consumidor ou um número do seguro nacional. Todos têm direito a ela: uma vida digna com segurança."

"Há uma abundância de recursos para fazer isso, mas o que temos de imaginar é uma alternativa. Um filme por si só não muda nada, só a atividade e organização posterior."

Essa atividade começou com seriedade. Antes da nossa entrevista, Laverty estava no Parlamento escocês, onde o Secretário do Trabalho e Pensões do Reino Unido, Damian Green, estava depondo em uma comissão parlamentar. O ministro tem sido franco em sua crítica ao filme, chamando-o de trabalho de ficção "monstruosamente injusto" - embora ele admitisse mais tarde não tê-lo assistido.

Esta declaração levou o político escocês George Adam presentear Green com uma cópia do roteiro do filme durante o comitê. Foi assinado por Laverty com uma nota que dizendo "confirmo cada incidente do filme" como um "reflexo justo do que está acontecendo hoje." Enquanto isso, durante toda a sessão, um ativista sentou-se atrás de Green com uma camisa do filme Eu, Daniel Blake.

Laverty sorri quando menciono isso.

"Sim, é como se Daniel Blake o estivesse seguindo para onde quer que ele fosse! Mas me fez rir quando ele o descreveu como um trabalho de ficção. Eu não estou me metendo nessas botas, mas, você sabe, Dickens é um trabalho de ficção? Zola? Steinbeck? Estes eram todos trabalhos que tentavam capturar o momento."

"Nós somos contadores de histórias, nós somos cineastas. Nós não queremos ser apenas uma peça de agitprop. Isso significa encontrar relacionamentos delicados, frágeis, complicados. Isso é fundamental. Eu acho que é por isso que tocou as pessoas, porque tentamos isso. Se é um agitprop que não é bem pesquisado e não reflete algo maior, não vai ter esse eco."

"O [Ministro] Damian Green e aqueles funcionários, eles falam sobre os consumidores. Não, eles não são clientes. Eles são cidadãos. Quando você escuta as pessoas e ouve a miséria que elas atravessam; eles apenas estão exaustos e contam tudo. Muitos, muitos o fazem."

"Mas eu acho que toda essa cultura de medo é realmente importante. Eles negam e dizem: "Oh, não, nós devemos ter sanções." É a miséria e o medo que faz com que as pessoas aceitem esses trabalhos de zero horas. É este tipo de medo só de estar por aqui o tempo todo. Acho que se adéqua à sua cosmovisão."

O fato de que o filme é baseado em eventos que aconteceram a pessoas reais o torna ainda mais angustiante. Uma cena particular pinta uma imagem escura do desespero sentida por algumas pessoas atingidas pela pobreza e austeridade.

Envolve Katie, que não come há dias, abrindo uma lata de feijão no banco de comida local e tentando comer o conteúdo com as mãos. É um momento devastador que reflete o fato de que os bancos de alimentos estão se tornando uma parte cada vez mais regular da sobrevivência de muitos no Reino Unido.

Antes que a coalizão conservadora-liberal-democrata tomasse o poder em 2009-2010, o Trussell Trust de caridade emitiu 41.000 fontes de alimento da emergência de 56 bancos de alimento. Esse número aumentou dramaticamente ano a ano com a entidade emitindo mais de um milhão de pacotes a 424 bancos de alimentos no ano passado.

Outra cena no filme mostra Daniel ficando cada vez mais frustrado ao ser deixado esperar no telefone por horas ao tentar fazer sua reivindicação de apoio à renda.

"Eu ouvi as histórias mais incríveis", diz Laverty. "Há a legislação que você tem que dar a volta, mas então é o pequeno detalhe que você não conhece até que você escavar em torno de ... como os telefones ... quanto tempo as pessoas têm de esperar nos telefones. Se você não o fez, você não percebe. Então você percebe que as pessoas estão telefonando para esses telefones com tarifas premium e pagando uma fortuna e ouvindo o maldito Vivaldi por uma hora e meia.

"Falei com uma jovem fora de Dundee que esteve no telefone por duas horas, até que ela usou todo o seu crédito. Então ela voltou para casa e pediu a seus pais seu crédito. Tudo para mudar seu endereço. Duas semanas depois, todo o seu dinheiro acaba. Ela é sancionada. Ela entra. Ela diz: "Por que estou sendo sancionada?" O empregado do centro de empregos diz, bem, enviamos uma carta para uma consulta. E ela diz: "Mas você nunca me enviou uma carta." E ela vai, sim eles fizeram. E ela volta ao antigo endereço. Lá está ela de novo, todo esse tempo depois. Todo esse dinheiro curto. Toda essa frustração. Toda a sua vida foi confundida. Há uma espécie de ineficiência planejada em tudo."

O regime de sanções do DWP é um elemento do sistema de bem-estar que o filme ajudou a colocar em foco nítido. Laverty me conta a história de um homem em Edimburgo que ele conheceu que foi sancionado depois de perder um compromisso porque sua esposa entrou em trabalho de parto. Duas pessoas telefonaram para dizer ao DWP por que o homem não podia comparecer, mas as súplicas caíram em ouvidos surdos. Ele teve seus benefícios retirados.

A regularidade das sanções não é acidental. E-mails vazados revelaram que a equipe do DWP está sob pressão da administração para sancionar os reclamantes ou então estar sujeita a revisões de desempenho e "planos de melhoria pessoal". As sanções podem envolver a suspensão de pagamentos de bem-estar por um período entre quatro semanas e três anos.

A eficácia das medidas foi posta em causa pelos ativistas e, recentemente, por um relatório do próprio Gabinete Nacional de Auditoria do Reino Unido. Em uma avaliação mordaz descobriu que as sanções empurraram milhares de pessoas em dificuldades e depressão sem qualquer evidência de que elas realmente funcionaram. O estudo também constatou que as sanções custaram muito mais para administrar do que conservam.

Mhairi Black, parlamentar do Partido Nacional Escocês foi um oponente do regime e recentemente apresentou um projeto de lei de um membro particular em Westminster, que procurou introduzir um novo código de conduta para o pessoal do Centro de Emprego em todo o Reino Unido. A medida exigiria que tomassem em consideração as circunstâncias individuais antes de emitir uma sanção. No entanto, os deputados conservadores obstruíram o debate.

A abordagem do governo britânico também encontrou críticos além dos corredores de Westminster. Um inquérito das Nações Unidas julgou que os direitos das pessoas com deficiência tinham sido "sistematicamente violados" por mudanças no bem-estar e assistência social no país. As pessoas com deficiência têm sido desproporcionalmente afetadas pelas mudanças no bem-estar e o relatório ecoou o que os ativistas têm dito há muito tempo, que eles foram vitimados por uma narrativa que os considerava "preguiçosos e colocando um peso sobre os contribuintes".

O filme deve ser lançado nos Estados Unidos durante o Natal, mas já foi exibido no Festival de Nova York em outubro. A experiência de Laverty lá o convenceu de que os temas e as questões com que trata são internacionais.

"Foi mostrado no Lincoln Center e havia cerca de novecentas pessoas lá", ele explica, "eu me perguntava o que todas essas pessoas fariam com esse pequeno filme no nordeste da Inglaterra. Enquanto eu vagueava eu passei por uma igreja bonita que não ficava muito longe do centro. Havia uma sugestão de comida lá fora e eu falei com esse cara chamado James Green. Ele foi recentemente desabrigado porque seu pai tinha morrido, em seguida, ele perdeu a casa razão pela qual ele acabou nas ruas. Mas apenas ouvindo sua história, eu pensei que este [filme] poderia ser "Eu, James Green." Então, eu apresentei o filme com esta história."

"Porque, no final das contas, levanta questões muito maiores sobre como organizamos a nossa economia, mesmo se nos livrarmos do regime de sanções. Como vamos dividir o trabalho? Podemos ter uma sociedade de pessoas tentando cuidar umas das outras? "

"Sim, provavelmente haveria o bastardo preguiçoso ocasional que se senta em seu traseiro para assistir televisão. Mas não é um preço melhor a pagar do que empurrar as pessoas para depressão ou suicídio? Não podemos, em vez disso, elevar o ânimo das pessoas?"

19 de dezembro de 2016

O ABC do Socialismo

Editores

Jacobin

Ilustração por Phil Wrigglesworth / Jacobin

Mais e mais pessoas estão interessadas no socialismo.

Elas têm perguntas...

Jacobin tem (algumas) respostas...

Apresentando ensaios de contribuintes da Jacobin e dezenas de ilustrações originais de Phil Wrigglesworth.

Há pouco mais de um século atrás, o socialismo pode não ter sido uma força de massa na política americana, mas parecia destinada a se tornar uma.

Em 1912, o Partido Socialista ganhou quase um milhão de votos na eleição presidencial, tinha mais de 120.000 membros e elegeu mais de 1.000 socialistas para cargos públicos. Prefeitos de cidades como Berkeley, Flint, Milwaukee e Schenectady eram todos socialistas. Assim como um congressista, Victor Berger, e dezenas de funcionários do Estado.

Naquele ano, apenas Oklahoma era o lar de onze hebdomadários socialistas. E nos aglomerados do país - dos enclaves judeus do Lower East Side às cidades mineiras do Leste - a "comunidade cooperativa" era o sonho ao qual todos os outros apelos políticos eram comparados.

Essa comunidade nunca veio a existir, e as décadas que se seguiram seriam menos amáveis ​​com a esquerda. Houve ainda surtos e vitórias, é claro, e os socialistas absorveram bem, ajudando a construir campanhas contra a opressão e a exploração. Mas quando entramos no século XXI, o socialismo nos Estados Unidos se viu menos como uma corrente viva e mais como uma parte morta da história americana.

Com o surgimento da campanha de Bernie Sanders e novos movimentos para a democracia e a liberdade, isso pode estar começando a mudar. Os acontecimentos deste ano apontam para o surgimento de "Sanders Democrats", um grupo que é desproporcionalmente jovem e pede redistribuições maciças de riqueza e poder. Sanders é apenas o começo; esta força continuará lutando por um tipo diferente de política.

Nos últimos seis meses, tivemos mais conversas sobre socialismo com amigos e estranhos do que nos últimos seis anos. O roll de assinantes da Jacobin aumentou centenas a cada semana, e nossa caixa de entrada está cheia de e-mails fazendo perguntas básicas sobre o socialismo.

Nós não temos todas as respostas, mas este livro foi feito para ajudar a resolver algumas delas. O ABC do Socialismo será útil nos próximos anos - não só como uma cartilha para futuras gerações de radicais, mas também como um artefato de uma época em que a esquerda socialista estava novamente cheia de promessas. Como esta história termina depende de nós.

Eu poderia ser um socialista, mas...


Não, o socialismo não é sobre mais governo - é sobre propriedade e controle democráticos.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

Mas pelo menos o capitalismo é livre e democrático, certo?

Pode parecer assim, mas a verdadeira liberdade e democracia não são compatíveis com o capitalismo.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

O socialismo soa bem na teoria, mas a natureza humana não o torna impossível de se realizar?

Nossa natureza compartilhada na verdade nos ajuda a construir e definir os valores de uma sociedade mais justa.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

Os ricos não merecem ficar com a maior parte do seu dinheiro?

A riqueza é criada socialmente – a redistribuição apenas permite que mais pessoas aproveitem os frutos do seu trabalho.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

Os socialistas vão levar os meus CDs do Kenny Loggins?

Os socialistas querem um mundo sem propriedade privada. Mas você pode guardar sua música horrível.


Ilustração por Phil Wrigglesworth

Socialismo não termina sempre em ditadura?

O socialismo é muitas vezes misturado com autoritarismo. Mas, historicamente, socialistas tem estado entre os defensores mais convictos da democracia.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

O socialismo não é só um conceito ocidental?

O socialismo não é eurocêntrico por que a lógica do capital é universal – e a resistência a ela também.
Ilustração por Phil Wrigglesworth

E sobre o racismo? Os socialistas não se importam só com classe?

Na verdade acreditamos que a luta contra o racismo é central para desfazer o poder da classe dominante.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

O socialismo e o feminismo não entram às vezes em conflito?

Em última análise, os objetivos do feminismo radical e do socialismo são os mesmos – justiça e igualdade para todas as pessoas.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

Um mundo socialista não significaria só uma crise ambiental maior ainda?

Sob o socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, levando em consideração necessidades e valores humanos, ao invés da maximização dos lucros.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

Os socialistas não são pacifistas? Algumas guerras não são justificadas?

Socialistas querem erradicar a guerra por que ela é brutal e irracional. Mas nós pensamos que existe uma diferença entre a violência dos oprimidos e a dos opressores.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

Por que os socialistas falam tanto sobre trabalhadores?

Os trabalhadores estão no coração do sistema capitalista. E é por isso que eles estão no centro da política socialista.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

O socialismo vai ser chato?

O socialismo não é sobre induzir uma branda mediocridade. É sobre libertar o potencial criativo de todos.

Ilustração por Phil Wrigglesworth

13 de dezembro de 2016

Socialismo em uma era de reacionarismo

Noam Chomsky sobre a reforma progressista, Fidel Castro, e construção da resistência sob Donald Trump.

Uma entrevista com
Noam Chomsky

Noam Chomsky fala em Boston em abril de 2015. Cancillería del Ecuador / Flickr

Tradução / A bibliografia de Noam Chomsky continua crescendo enquanto em que ele vai se aproximando dos noventa anos. Para a esquerda internacional, felizmente, ele continua concedendo entrevistas.

No início deste mês, menos de uma semana antes de seu aniversário de 88 anos, Chomsky sentou para uma conversa em seu escritório em Cambridge, Massachusetts. Entrevistado por Vaios Triantafyllou, um estudante da Universidade da Pennsylvania, Chomsky debateu desde socialismo, natureza humana e Adam Smith até o presidente eleito dos EUA (a transcrição foi editada e resumida, para ficar mais clara).

Enquanto Donald Trump nomeia seu gabinete ministerial, Chomsky admite que o futuro pode nos trazer a intolerância e a busca por “bodes expiatórios”. Contudo, ainda nos cabe escolher “se isto vai ou não acontecer”, afirma Chomsky acerca das táticas de dividir para conquistar: “depende do tipo de resistência que será imposta por pessoas como você”.

Vaios Triantafyllou

Como os socialistas deveriam pensar as relações entre as reformas que humanizam o sistema existente de produção (como as propostas por Sanders) e a estratégia de longo prazo da abolição do capitalismo como um todo?

Noam Chomsky

Bem, primeiramente, deveríamos levar em conta que, tal como a maioria dos termos no discurso político, o termo “socialismo” perdeu de certa forma o seu significado. “Socialismo” tinha, antes, um significado preciso. Há muito tempo, esta palavra designava basicamente o controle da produção pelos produtores, a eliminação do trabalho assalariado, a democratização de todas as esferas da vida: produção, comércio, educação, mídia, controle operário nas fábricas, controle comunitário sobre as próprias comunidades e assim por diante. Isto era o socialismo antigamente.

No entanto, esta palavra não tem mais este significado há um século. Na verdade, os países que eram chamados de “socialistas” tinham os sistemas mais antissocialistas do mundo. Os trabalhadores tinham mais direitos nos Estados Unidos e na Inglaterra que na Rússia, e ainda assim chamava-se aquilo que havia na Rússia de socialismo.

Quanto a Bernie Sanders, ele é uma pessoa honesta e decente, e eu o apoiei. Mas o que ele quer dizer com “socialismo” é o liberalismo do New Deal. De fato, suas propostas políticas não teriam surpreendido o General Eisenhower. O fato de que suas propostas tenham sido chamadas de “uma revolução política” é um sinal do quanto o espectro político girou à direita, principalmente nos últimos trinta anos, desde que os programas neoliberais começaram a ser aplicados. O que Sanders estava reivindicando era a restauração de algo como o liberalismo do New Deal, que é algo muito positivo.

Então, voltando a sua pergunta, acho que deveríamos perguntar: as pessoas que se importam com os seres humanos e com suas vidas e anseios deveriam tentar humanizar o sistema de produção existente através dos meios que você menciona? E a resposta é: claro que elas deveriam fazer isto, pois é melhor para as pessoas.

Deveriam estabelecer a meta em longo prazo de abolir a organização capitalista da economia como um todo? Claro, acredito que sim. O capitalismo trouxe avanços, mas é baseado em premissas muito brutais, desumanas. A própria ideia de que deve haver uma classe de pessoas que dão ordens por serem proprietárias de riquezas e outra classe, gigantesca, que recebe ordens e que as segue, porque não tem acesso à riqueza e ao poder, é inaceitável.

Então, é claro que este sistema deveria ser abolido. Mas estas duas metas [a reforma e a abolição do capitalismo] não são alternativas. São coisas que são feitas em conjunto.

Um dos principais argumentos lançados contra o socialismo é que a natureza humana seria, por definição, egoísta e competitiva, e que, portanto, tenderia ao capitalismo. Como você responderia a isto?

Noam Chomsky

Não esqueça que o capitalismo é um curtíssimo período da sociedade humana. Nunca, na verdade, tivemos um capitalismo, sempre tivemos uma variedade ou outra de capitalismo de Estado. A razão para isto é que o capitalismo iria se autodestruir em muito pouco tempo. Então, a classe empresarial sempre exigiu forte intervenção estatal para proteger a sociedade dos efeitos destrutivos das forças de mercado. É muito comum que isto seja levado a cabo, porque eles não querem que tudo se acabe.

Assim, tivemos uma forma ou outra de capitalismo de Estado durante um período muitíssimo breve da história humana, e isto nada nos diz de essencial acerca da natureza humana. Se você observar as sociedades e as interações humanas, encontra de tudo. Você encontra egoísmo, encontra altruísmo, encontra simpatia.

Vamos pegar Adam Smith, o santo padroeiro do capitalismo – o que ele pensava? Ele acreditava que o principal instinto humano era a compaixão. Na verdade, observe a expressão “mão invisível”. Preste atenção no modo exato com que ele usava esta expressão. Na verdade, não é difícil entender, porque ele só a usou duas vezes de forma relevante, uma vez em cada um de seus livros mais importantes.

Em um de seus principais livros, A riqueza das nações, a expressão aparece uma vez, e surge como parte de uma crítica à globalização neoliberal. O que ele diz é que se, na Inglaterra, os industriais e comerciantes investissem no exterior e de lá importassem, eles poderiam lucrar com isto, mas tal prática seria ruim para a Inglaterra. Contudo, seu compromisso com a pátria é o bastante para que eles dificilmente façam tal coisa e, portanto, através de uma mão invisível, a Inglaterra será salva do impacto do que se poderia chamar de globalização neoliberal. Este é um dos usos.

O outro uso está em seu outro grande livro, A teoria dos sentimentos morais (que as pessoas não leem muito, mas que para ele era o livro mais importante). Aqui, ele é um igualitarista, acreditava na igualdade dos resultados, não das oportunidades. Ele é uma figura do Iluminismo, pré-capitalista.

Ele diz: suponha que na Inglaterra um proprietário de terras possuísse a maior parte da terra e outras pessoas não tivessem do que viver. Ele diz que não importaria muito, porque o rico proprietário, graças a uma mão invisível, acabaria numa sociedade bastante igualitária. Esta é sua concepção da natureza humana.

Este não é o sentido com que a “mão invisível” é mencionada por pessoas com quem vocês estudaram ou cujos livros leram. Isto demonstra uma diferença quanto à doutrina, não quanto às fatos, acerca da natureza humana. O que nós realmente sabemos sobre a natureza humana é que ela tem todas estas possibilidades.

Você considera necessário elaborar propostas concretas para uma futura ordem socialista, criando uma sólida alternativa que atraia a maioria das pessoas?

Noam Chomsky

Eu acredito que as pessoas estejam interessadas em autênticas metas socialistas em longo prazo (que não correspondem ao que normalmente é chamado de socialismo). Elas deveriam refletir cuidadosamente sobre como a sociedade projetada deveria funcionar, não de maneira detalhada, porque muitas das coisas simplesmente devem ser aprendidas experimentando-se, e nós não sabemos o bastante para planejar sociedades minuciosamente, de forma alguma. Contudo, as linhas gerais podem ser concebidas, e muitos dos problemas específicos podem ser discutidos.

Basta que estas questões façam parte da consciência das pessoas comuns. É assim que a transição ao socialismo pode acontecer. Quando isto se torna parte do pensamento, da consciência e das aspirações da grande maioria da população.

Então, tomemos o exemplo de um dos maiores êxitos neste sentido, talvez o maior: a revolução anarquista na Espanha, em 1936. Houve décadas de preparação para ela: na educação, no ativismo, e esforços – às vezes reprimidos –, mas quando chegou o momento da ofensiva fascista, as pessoas tinha consciência da forma como elas queriam que a sociedade fosse organizada.

Nós já vimos isto em outras formas, também. Veja, por exemplo, a reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial. A Segunda Guerra Mundial teve um impacto totalmente devastador sobre a maior parte da Europa. Mas não lhes custou muito tempo para reconstruir as democracias do capitalismo de Estado porque a mesma estava na cabeça das pessoas.

Houve outras partes do mundo que foram muito devastadas, mas em que eles não puderam fazer o mesmo. As pessoas não tinham as mesmas concepções. Muito depende da consciência humana.

A Syriza chegou ao poder declarando compromisso com o socialismo, mas acabou por cooperar com a União Europeia e não renunciou ao poder mesmo depois de ter sido forçada a implantar a austeridade. Como você acha que nós podemos evitar acontecimentos similares no futuro?
Noam Chomsky

Acredito que a verdadeira tragédia da Grécia, além da selvageria da burocracia europeia, da burocracia de Bruxelas, dos bancos dos países do norte, que foi realmente selvagem, seja que a crise Grega não precisasse irromper. Poderia ter sido controlada com facilidade bem no início.

Mas aconteceu, e a Syriza chegou ao poder com o compromisso declarado de combatê-la. De fato, convocou-se um plebiscito que aterrorizou a Europa: a ideia de que as pessoas deveriam ter o direito de decidir algo a respeito de seus próprios destinos é um anátema para as elites europeias – como a democracia poderia sequer ser permitida (mesmo no país em que ela foi criada)?

Como resultado desta ação criminosa de perguntar as pessoas o que elas queriam, a Grécia foi punida ainda mais severamente. As exigências da Troika se tornaram ainda mais duras por causa do plebiscito. Eles temiam uma espécie de efeito dominó – se nós levarmos em consideração a vontade das pessoas, outros podem ter a mesma ideia, e a praga da democracia poderia realmente se espalhar, então nós temos que combatê-la, imediatamente, desde a raiz. Assim, a Syriza capitulou e, desde então, vem fazendo muitas coisas que julgo um tanto inaceitáveis.

Você pergunta como as pessoas devem reagir? Criando algo melhor. Não é fácil, especialmente quando se está isolado. A Grécia, sozinha, está numa posição muito vulnerável. Se os gregos tivessem o apoio da esquerda progressista e das forças populares no resto da Europa, eles poderiam ter sido capazes de resistir às exigências da Troika.

Qual a sua opinião sobre o sistema que Castro criou em Cuba depois da revolução?

Noam Chomsky

Bem, quais seriam os verdadeiros objetivos de Castro nós não temos como saber. Ele foi muito pressionado desde o início por um ataque cruel e duro por parte da superpotência dominante.
É preciso lembrar que, literalmente, poucos meses depois de sua chegada ao poder, aviões da Flórida começaram a bombardear Cuba. Dentro de um ano, o governo Eisenhower, secreta, mas formalmente, decidiu derrubar o governo [Cubano]. Então ocorreu a invasão à Baía dos Porcos. O governo Kennedy ficou furioso devido à falha da invasão e imediatamente lançou uma grande guerra terrorista, econômica, que recrudesceu ao longo dos anos.

Sob tais condições, é até surpreendente que Cuba tenha sobrevivido. Trata-se de uma pequena ilha há poucos quilômetros do litoral de uma gigantesca superpotência que está tentando destrui-la e que, obviamente, dependera dos Estados Unidos para sobreviver durante toda a sua história pregressa recente. Porém, de alguma forma, eles sobreviveram. É verdade que é uma ditadura: muita brutalidade, muitos prisioneiros políticos, muitas pessoas mortas.

Lembre-se de que o ataque dos EUA a Cuba foi apresentado ideologicamente como necessário para nos defendermos da Rússia. Tão logo a Rússia desapareceu, contudo, o ataque foi mais duro. Quase não se comentou tal fato, mas isto nos mostra que as justificativas anteriores eram apenas mentiras puras e simples, como se mostraram de fato.

Se você consultar os documentos internos dos EUA, eles explicam muito claramente qual era a ameaça de Cuba. No início dos anos 60, o Departamento de Estado descrevia a ameaça de Cuba como um desafio bem-sucedido de Castro à política dos EUA, até à Doutrina Monroe. A Doutrina Monroe estabelecia a reivindicação – que eles não podiam concretizar à época, mas reivindicavam – de domínio do Hemisfério Ocidental, e Castro estava desafiando esta reivindicação com sucesso.

Isto não podia ser tolerado. É como se alguém dissesse: vamos ter democracia na Grécia, e nós simplesmente não pudéssemos tolerar isto, então teríamos que cortar o mal pela raiz. Ninguém pode, com sucesso, desafiar o senhor do hemisfério, na verdade o senhor do mundo, e daí vem a selvageria. Mas a reação foi diversificada. Houve êxitos, como na saúde, na alfabetização, e assim por diante. O internacionalismo foi inacreditável. Foi a razão por que Nelson Mandela foi a Cuba cumprimentar Castro e agradecer ao povo cubano assim que saiu da prisão. É uma reação do terceiro mundo, e eles entenderam-na.

Cuba desempenhou um enorme papel na libertação da África e na derrubada do apartheid – enviando médicos e professores aos lugares mais pobres do mundo, como Haiti, Paquistão depois do terremoto, a quase todos os lugares. O internacionalismo é simplesmente espantoso. Não acho que tenha havido nada parecido na história. As conquistas na área da saúde foram surpreendentes. As estatísticas de saúde em Cuba eram aproximadamente as mesmas que as dos Estados Unidos, mas observem-se as diferenças de riqueza e de poder.

Por outro lado, havia uma ditadura cruenta. Então, houve ambas as coisas. Transição ao socialismo? Não se pode sequer falar sobre isto. As condições tornavam isto impossível, e não sabíamos se havia esta intenção.

Nos últimos anos surgiram muitos movimentos nos EUA criticando a atual forma de organização social e econômica. Ainda assim, a maioria destes movimentos se uniu contra um inimigo comum em vez de se unir em torno a uma perspectiva comum. Como poderíamos entender a situação dos movimentos sociais e sua capacidade de se unificarem?

Noam Chomsky

Tomemos o movimento Occupy (Ocupe). Occupy não era um movimento, era uma tática. Não se pode sentar num parque próximo de Wall Street para sempre. Não se pode fazer tal coisa por mais que alguns meses.
Foi uma tática que eu não havia previsto. Se as pessoas tivessem me perguntado, eu teria dito: não façam isto.

Mas foi um grande sucesso, um sucesso enorme, com um grande impacto no pensamento das pessoas, nas ações das pessoas. Todo o conceito de concentração de renda (1 por cento e 99 por cento) estava lá, obviamente, como um pano de fundo na consciência das pessoas, mas se tornou proeminente – proeminente até mesmo nos meios de comunicação de massa (no Wall Street Journal, por exemplo) – e levou a muitas formas de ativismo, energizou as pessoas e tudo mais. Mas não foi um movimento.

A esquerda, de uma forma geral, é muito atomizada. Vivemos em sociedades muito atomizadas. As pessoas são muito solitárias: é você com seu iPad.

Os maiores centros organizativos, como o movimento dos trabalhadores, foram seriamente enfraquecidos, nos Estados Unidos muito seriamente, pela política. Não aconteceu de uma hora para outra. Políticas têm sido elaboradas para arruinar a organização da classe trabalhadora, e o motivo não é apenas que os sindicatos lutem pelos direitos dos trabalhadores, mas porque também têm um efeito democratizante. Estas são instituições em que as pessoas sem poder podem se reunir, apoiar-se mutuamente, aprender sobre o mundo, experimentar suas ideias, iniciar programas – e isto é perigoso. É como o plebiscito na Grécia. É perigoso permitir tal coisa.

Devemos nos lembrar de que durante a Segunda Guerra Mundial e a Depressão, houve uma irrupção de democracia popular e radical em todo o mundo. Deu-se de formas diferentes, mas estava lá, em todo lugar.

Na Grécia foi a revolução grega. E tinha de ser esmagada. Em países como a Grécia, foi esmagada pela violência. Em países como a Itália, onde as forças britânicas e estadunidenses entraram em 1943, foi esmagada com o ataque e a destruição das milícias que combatiam os alemães e com a restauração da ordem tradicional. Em países como os Estados Unidos, foi esmagada não pela violência – o poder capitalista não tem esta capacidade aqui -, mas sim, desde os anos 40, por imensos esforços no sentido de tentar minar e destruir o movimento trabalhista. E assim foi.

Estes esforços chegaram a um ápice sob Reagan e, mais tarde, sob Clinton, e agora o movimento dos trabalhadores é extremamente fraco (em outros países, isto se deu de outras maneiras). Mas este movimento era uma das instituições que permitia que as pessoas se reunissem e agissem cooperativamente em mútuo auxílio, e alguns destes movimentos foram totalmente dizimados.

O que nós podemos esperar de Donald Trump? Sua ascensão ao poder põe a necessidade de redefinir e unir um movimento socialista em torno a uma perspectiva como nos Estados Unidos?

Noam Chomsky

A resposta para isto cabe basicamente a você e aos seus amigos. Realmente depende de como as pessoas, especialmente os jovens, reagirão. Há muitas oportunidades que poderiam ser aproveitadas. Não é inevitável, de modo algum.

Considere apenas o que pode acontecer. Trump é bastante imprevisível. Ele não tem ideia do que planeja. Mas o que poderia acontecer, por exemplo, é o seguinte: muitas das pessoas que votaram em Trump, pessoas da classe trabalhadora, votaram em Obama em 2008. Eles foram seduzidos por slogans como “esperança” e “mudança”. Eles não obtiveram esperança; não obtiveram mudança; ficaram desiludidos.

Desta vez estas pessoas votaram em outro candidato que está evocando esperança e mudança e prometeu fazer todas as maravilhas. Bem, ele não vai fazer nenhuma. Então, o que pode acontecer em alguns anos, quando ele não as tiver feito e aquele mesmo eleitorado estiver desiludido?

O que é muito provável é que o sistema de poder faça o que normalmente faz em tais condições: tentar encontrar um bode expiatório mais vulnerável, para dizer: “É isto aí, vocês não receberam o que lhes prometemos, e a causa são estas pessoas inúteis, estes mexicanos, estes negros, estes imigrantes sírios, são os que fraudam a assistência social. São eles que estão destruindo tudo. Vamos persegui-los. Os gays, são eles os culpados.”

Isto poderia acontecer. Já aconteceu diversas vezes na história, com consequências um tanto desastrosas. E se isto vai acontecer de novo depende do tipo de resistência que vai ser imposta por pessoas como você. A resposta a esta questão deveria ser dirigida a você, não a mim.

Sobre o entrevistado

Noam Chomsky é professor emérito de lingüística no Massachusetts Institute of Technology. A Haymarket Books lançou recentemente doze de seus livros clássicos em novas edições.

5 de dezembro de 2016

"Tudo vai mudar"

Sim, a derrota da reforma constitucional de Renzi foi uma vitória. E não, ela não vai condenar a Itália ao autoritarismo de direita.

David Broder


Matteo Renzi em Bologna, Itália, em 2016. Foto: Francesco Pierantoni.

Tradução / Os jornais de ontem apresentaram uma visão tenebrosa sobre o que estava em jogo no referendo sobre a reforma constitucional na Itália. O Sunday Times anunciou que o primeiro-ministro “Renzi resiste à marcha da direita radical”; uma reportagem no Independent começou com “a votação italiana que poderia destruir a Europa” (mais tarde editada para “zona euro”), enquanto outra declarou o domingo, 4 de dezembro, como “o momento mais perigoso para a Europa desde o Brexit” e foi ilustrada com uma foto de Matteo Renzi acompanhada da sombria legenda “tudo vai mudar”. Enquanto isso, o Observer adicionou o referendo à sua série sobre a “ameaça à democracia liberal”. Então, depois da rejeição de quase 60% da população italiana à reforma constitucional de Renzi, o país caminha para o abismo autoritário?

A tentativa de inserir o referendo em uma narrativa mais ampla do declínio europeu e da ascensão dos nacionalismos não se reduz a uma projeção da mídia estrangeira. Durante a campanha, tanto Renzi como seus opositores de direita promoveram essa mesma narrativa. O primeiro-ministro do Partido Democrata (PD) apresentou a si mesmo como o último baluarte contra o populismo nacionalista, da mesma forma que os líderes da extrema-direita, a Liga do Norte, procuraram transformar a votação em um referendo sobre o euro e a migração, abstraindo seu conteúdo político de fato.

Enquanto isso, o eclético Movimento Cinco Estrelas (M5S), atualmente em segundo lugar nas pesquisas eleitorais, saiu em campanha pelo “Não”, sem entrar em detalhes constitucionais – mas usando a votação como um meio de tirar Renzi do poder. Contrariando a nova geração de líderes do M5S, como Luigi di Maio ou a prefeita de Roma, Virginia Raggi, o fundador do partido, Beppe Grillo, bem como a Liga Norte, fizeram comparações com a revolta trumpista.

Apesar do tratamento dado ao referendo por tais figuras – condicionando fortemente as resposta do eleitorado ao pleito – é importante perceber o referendo como algo mais do que uma questão partidária. Excessivamente confiante em sua própria popularidade, Renzi disse antes da votação que ele renunciaria em caso de derrota – o que inevitavelmente polarizou o referendo em torno de sua figura, levando todos os partidos da oposição para o campo do “Não”.

Essa concepção individualizada de política refletiu-se no próprio pacote de reforma constitucional de Renzi, que neutraliza o Senado e enfraquece o governo regional, fortalecendo o executivo para prosseguir com o projeto do que Renzi chama de “desmantelamento” da velha Itália, remodelando sua economia em termos neoliberais e “anglo-saxões”.

A preocupação do The Independent de que “tudo vai mudar” se a Constituição permanecer a mesma inverte curiosamente o lema de um dos grandes romances italianos, Il Gattopardo, de Lampedusa. Refletindo sobre as rupturas com a tradição que permitem às classes dominantes da Itália preservarem sua influência através da auto-renovação, o protagonista de Lampedusa explica que “Se queremos que as coisas fiquem como estão, tudo terá que mudar”.

A ideia central de que o voto pelo “Sim” (e, por consequência, a invalidação da Constituição atual) foi um voto pela estabilidade é parte da ilusão construída na mídia italiana por anos: de que Renzi é uma espécie de figura salvadora que substituiu a disfuncional centro-esquerda com um partido da Terceira Via, à la Blair e Clinton.

Nessa visão, os esforços de Renzi para enfrentar sua base partidária com reformas pró-business – superando até as ambições de Silvio Berlusconi – são a única rota para tornar a Itália um “país normal” e parar a deriva rumo ao declínio nacional. Ao contrário do seu herói do novo trabalhismo, Renzi chegou ao poder em uma conjuntura política adversa e, além disso, sem dinheiro, na sequência da crise de 2008.

Depois de ter conseguido o que Berlusconi não conseguiu – derrubar o artigo 18, de proteção ao emprego, da lei trabalhista italiana – Renzi buscou com o referendo levar mais adiante essas reformas, sem restrições parlamentares. No entanto, na prática, ele se limitou a promessas vagas de “fazer a Itália se reerguer”, fazendo que ela de fato “saísse do lodo”.

A ênfase exageradamente retórica da campanha pelo “Sim”, na qual Renzi dominava o tempo de TV, era uma tentativa paternalista de ostentar sua própria coloração “populista”, prometendo cortar o número de políticos, economizando algumas dezenas de milhões de euros dos contribuintes ao “tirar as poltronas” dos senadores e deputados ora demitidos. Líder de uma coalizão multipartidária desde o golpe dentro de seu próprio partido, em 2014, e sem um mandato popular próprio, o ex-prefeito de Florença, porém, não conseguiu aparecer como um “outsider”.

Além do populista M5S e da direita tradicional, houve também um voto forte pelo “Não” de setores fragmentados do antes poderoso Partido Comunista Italiano (PCI), dos movimentos sociais e de aproximadamente um quarto dos apoiadores do próprio PD. Esses dissidentes no partido de Renzi incluíam boa parte dos ex-comunistas e daqueles que foram para a social-democracia na década de 1990 – como o rival de Renzi, e ex-primeiro-ministro (1998-2000), Massimo d’Alema.

Para além dos conflitos internos ou das críticas específicas ao plano de Renzi, o compromisso histórico da esquerda com a Constituição também se deve ao momento de criação deste documento, escrito por comunistas, socialistas, democratas-cristãos e liberais, nos governos do imediato pós-1945 da Itália. Apesar de a esquerda ter sido afastada do poder durante o período da Guerra Fria, o estilo retórico progressista do documento – declarando a Itália “uma república democrática fundada no trabalho” – tornaram “a Constituição nascida da Resistência” uma pedra de toque entre a esquerda parlamentarista e as políticas antifascistas.

Desde os anos 2000, o M5S, partido sem qualquer ligação com essa tradição, conseguiu monopolizar o clima de revolta social, devido, em larga medida, à autodestruição da Refundação Comunista nos governos de centro-esquerda durante os anos 2000. Mesmo assim, ainda permanece uma conexão residual entre milhões de ex-eleitores do PCI e esses valores históricos.

Ao acusar Renzi de ter tentado “varrer” a centro-esquerda em seu mandato, d’Alema saudou, na noite de ontem, a “derrocada do projeto neo-centrista” de transformar o PD em um “partido da nação”. De acordo com a lógica de suas propostas, Renzi procurou radicalizar os desenvolvimentos das décadas de 1990 e 2000, através dos quais ex-comunistas, liberais e democratas-cristãos se uniram em um único partido, criando uma força explicitamente inspirada no Partido Democrata norte-americano para colocar em prática uma política neoliberal convencional.

Ainda que ligações entre determinados setores do PD, os sindicatos e um antigo eleitorado do PCI continuem sendo potentes, elas são regidas por vínculos pessoais tradicionais e não por um programa político comum. Esse elemento se expressou domingo na ampla votação pelo “Não” vinda de parte do PD, hostil ao desprezo explícito de Renzi pelas raízes de seu partido e por sua “base social”.

Apesar de Renzi não ter conseguido criar uma frente ampla de centro que se opusesse à extrema-direita, não há indicações claras sobre a direção futura do PD. Na medida em que ela está inextrincavelmente ligada à questão imediata de manter o governo de coalizão, qualquer mudança importante de curso parece improvável.

A despeito da queda brusca do euro no dia seguinte e muitos alertas terríveis de que a renúncia de Renzi colocaria em risco um acordo de resgate do Banco Central Europeu para o frágil Monte dei Paschi di Siena (o terceiro maior banco do país), Sergio Mattarella deve tentar obter a estabilização política de várias formas antes de convocar eleições antecipadas. Portanto, a Itália deixar o euro ou a União Europeia (ou até mesmo votar para isso) continua a ser um horizonte distante.

O cenário mais provável nos próximos dias é a nomeação do ministro das Finanças, Pier Carlo Padoan, para liderar um novo governo baseado na mesma coalizão que sustentou Renzi, unindo o PD (do qual Padoan não é membro) com partidos pequenos liberais e de centro-direita. Outros candidatos incluem o presidente do Senado, Pietro Grasso (PD), a ex-ministra de relações exteriores, Emma Bonino, e Dario Franceschini, ex-secretário do PD. Esse governo provavelmente se concentraria na reforma eleitoral antes de ir às urnas em 2018, possivelmente mesmo com Renzi novamente à frente do PD.

Se, em vez disso, Mattarella chamar eleições antecipadas, o resultado provável seria uma disputa entre o PD e o M5S (cada um com 30% hoje), mas também de grandes avanços para a Liga Norte, que subiria para cerca de 12%, contra os 4%, em 2013. Embora ambos os partidos estejam pedindo eleições antecipadas (sendo que, desde Berlusconi, em 2008-2011, nenhum primeiro-ministro italiano tenha levado seu partido a eleições gerais), o país provavelmente pode esperar mais um governo tecnocrático ou de coalizão.

Embora não se trate de modo algum de uma reviravolta decisiva contra o mantra neoliberal de “reestruturação” que domina tanto os comentários domésticos como europeus sobre a Itália, tampouco se trata de uma história de adesão da esquerda a uma campanha de “direita radical” ou mesmo “populista”. As reivindicações de partidos como a Liga Norte (ainda longe de obter qualquer tipo de consenso de massas, menos ainda no nível dos 60% de votos pelo “Não”) não nos dizem qual é de fato o conteúdo da reforma.

Mesmo no nível mais rasteiro da política partidária, caso a reforma de Renzi tivesse passado, não teria significado a derrota da M5S e da Liga Norte, mas, no máximo, o prolongamento do atual governo de coalizão até maio de 2018, em vez de março de 2017. Os partidos populistas e de direita conseguiram mobilizar melhor os eleitores do que as forças esgotadas e dispersas da esquerda; e há uma grande possibilidade de que a morte política de Renzi contribua para impulsioná-los para o poder, especialmente por conta da força do M5S entre os jovens.

No entanto, o futuro ainda está para ser definido e a crise do PD apresenta oportunidades não apenas para o M5S. A mobilização dos movimentos sociais pelo “Não”, combinada com o racha dos votos do PD, indicam um eleitorado desiludido com Renzi e que defendeu o processo democrático. Igualmente, o terrível desempenho do M5S à frente da prefeitura em Roma, combinado com a ascensão da esquerda independente em Nápoles, mostram que o apoio desses eleitores ao M5S não é de forma alguma garantido caso existam alternativas reais. A esquerda inteira votou “Não”: a luta agora é fazer avançar o seu próprio projeto para a Itália pós-Renzi.

4 de dezembro de 2016

Pensando para além de Fidel

Embora freqüentemente negligenciado, os movimentos da classe trabalhadora desempenharam um papel substancial na formação da Revolução Cubana.

por Michelle Chase

Jacobin


Repintura de um mural revolucionário em Havana. Carsten ten Brink / Flickr

No rescaldo da morte de Fidel Castro, e com as ameaças explosivas do início da administração Trump, é tentador especular sobre o futuro de Cuba. No entanto, este também pode ser um momento importante para repensar as origens da revolução, tão frequentemente vista como a obra de um homem.

Embora a extraordinária influência e o poder de Fidel Castro nunca possam ser ignorados, ainda sabemos muito pouco sobre como ou por que muitos milhares de cubanos comuns participaram da revolução. Isso é particularmente verdadeiro no movimento operário cubano, que muitos observadores descreveram como apático, passivo e desmoralizado por chefes sindicais corruptos e, portanto, não particularmente ativos no movimento revolucionário.

O novo livro de Steve Cushion, Uma História Oculta da Revolução Cubana: Como a Classe Trabalhadora deu Forma à Vitória das Guerrilhas, é um corretivo útil para essas suposições e fornece uma importante mudança de perspectiva histórica à medida que Cuba se move além de sua liderança histórica. Cushion argumenta persuasivamente que a classe operária da ilha fez uma contribuição vital para o movimento revolucionário.

Sem desconsiderar o papel do exército rebelde ou da classe média urbana, ele argumenta que havia também "um terceiro braço para as forças rebeldes, um movimento operário revolucionário". No primeiro estudo histórico profundamente pesquisado sobre esse assunto, Cushion mostra como a organização do trabalho contribuiu direta e indiretamente para a luta revolucionária.

Assim que a Revolução Cubana chegou ao poder em 1959, um debate feroz sobre quem havia feito a revolução começou. Observadores estrangeiros simpatizantes tendiam a enfatizar o papel dos camponeses dispostos pela Sierra Maestra, que acabaram por fazer causa comum com os setores urbanos, muitas vezes de classe média, que formaram o núcleo do exército rebelde. Observadores mais críticos mostraram-se céticos quanto a essa afirmação.

Como o historiador Theodore Draper argumentou em The New Leader em 1961, "A revolução foi feita e sempre controlada por filhos e filhas desclassificados da classe média, primeiro em nome de todo o povo, depois dos camponeses e agora dos trabalhadores e camponeses ". Assim nasceu a influente teoria da" revolução traída": um movimento revolucionário de classe média, democrático, tinha sido sequestrado por Fidel Castro e pelo Partido Comunista.

O que dizem da classe trabalhadora urbana nesses debates? A suposta aquiescência da classe operária tem sido uma questão preocupante, explicada de várias maneiras como uma corrupta união burocrática em conluio com o Estado, a suposição de que o desenvolvimento de Cuba resultou em uma "aristocracia do trabalho destituída de uma consciência de classe revolucionária devido ao fato de que, pelo menos em Havana, os trabalhadores sindicalizados gozavam de salários e benefícios relativamente altos para a região. Embora os historiadores considerem o movimento revolucionário como um movimento inter-classe em que os indivíduos da classe trabalhadora participaram, é geralmente assumido que o movimento trabalhista como tal desempenhou um papel significativo.

Cushion modificou esta sabedoria convencional. Com base num conjunto impressionante de novas fontes de arquivo, desde folhetos privados até histórias orais, Cushion  oferece uma visão perspicaz e matizada do papel do trabalho organizado na Revolução Cubana. Ao reconsiderar importantes episódios do período, desde greves e protestos até a lenta construção de uma seção trabalhista dentro do Movimento 26 de julho de Fidel Castro, Cushion demonstra convincentemente que os trabalhadores - especialmente em certas indústrias e em certas regiões - foram a chave para a vitória revolucionária.

Uma das maiores contribuições do livro é restaurar a sensação de turbulência trabalhista em Cuba em meados da década de 1950. Houve tantas greves, protestos e disputas trabalhistas em 1955 que podemos ver o descontentamento dos trabalhadores virtualmente como um levante paralelo. Os historiadores há muito conhecem essas queixas trabalhistas. No entanto, elas têm sido muitas vezes minimizadas como secundárias para a história "real" da ascensão do exército rebelde ou rejeitadas como reveladoras das demandas materiais e, portanto, da mentalidade reformista do trabalhador cubano.

Mas Cushion oferece-nos uma explicação detalhada desta turbulência na metade da década e o distanciamento permite uma análise mais matizada. A economia de Cuba nesse período ainda estava esmagadoramente baseada nas exportações de açúcar, assim os lucros cresciam e diminuíam com o preço do açúcar nos mercados globais. Os preços aumentaram no início dos anos 1950 por causa estocamento estimulado pela Guerra da Coréia.

Quando os preços mundiais do açúcar caíram em 1953, Cushion mostra que os empregadores cubanos aumentaram suas tentativas de impor medidas de eficiência para reduzir o custo do trabalho através da mecanização, da redução dos salários e da eliminação dos benefícios. No confronto com o trabalho que inevitavelmente seguiu, os empregadores - com o apoio de Batista - geralmente ganhavam.

Mas Cushion mostra que, depois de serem derrotados, alguns trabalhadores começaram a procurar uma alternativa mais revolucionária. Ele identifica um padrão: os trabalhadores que obtiveram suas reivindicações nas greves de 1955 tendiam a manter suas filiações políticas e a fé nas estratégias tradicionais da organização do trabalho para defender seus direitos. Mas os que perderam tornaram-se abertos a métodos mais militantes, e finalmente procuraram uma aliança com o Movimento 26 de Julho. Esta tendência ainda foi encorajada com o aumento da violência estatal que começou no início de 1956.

Cushion nos lembra que as forças de segurança do Estado não só alvejaram os insurrectos - eles aproveitaram a oportunidade para matar mobilizadores do trabalho e membros do Partido Comunista também. Ele também nos mostra como os acordos de comércio internacionais desfavoráveis aos trabalhadores cubanos alimentaram um crescente sentimento de nacionalismo militante. Assim, ao contrário de muitos observadores anteriores que retratam o movimento dos trabalhadores como paralisado e estagnado neste período, Cushion traça uma evolução política na política dos trabalhadores, longe da acomodação, para táticas e metas mais militantes.

Outra grande contribuição do estudo de Cushion é ir além de Havana e explorar a dinâmica regional da militância trabalhista no período. Embora seja comum elogiar o fermento revolucionário das montanhas e cidades da província mais oriental de Cuba, Oriente, ainda faltam explicações históricas mais profundas sobre por que as províncias orientais da ilha ficaram tão mais reticentes.

O livro de Cushion vai muito longe para responder a essa pergunta, olhando não só o papel das guerrilhas na Sierra Maestra e Sierra Cristal, mas também o forte movimento operário na cidade de Guantánamo, adjacente à base naval dos EUA. Aqui ele descobre uma história de uma militância baseada em torno dos trabalhadores ferroviários, muitas vezes com raízes no trotskismo, que foi pioneiro em novas ideias sobre formas mais beligerantes de ativismo laboral, incluindo a sabotagem, e gravitaram para o Movimento 26 de Julho. Cushion meticulosamente reconstrói como essas táticas foram se espalhando para o resto da ilha.

Cushion também sugere que o Movimento 26 de Julho desfrutou de relações  muito melhores com o Partido Comunista fora de Havana, e ele vê essas relações como chave para explicar o fermento revolucionário. Ele mostra que a burocracia sindical era muito mais fraca nas províncias, permitindo que mais ativismo de trabalhadores independentes florescesse. Ele também sugere - embora reconhecidamente sem muitos exemplos - que fora de Havana o movimento urbano anti-Batista era menos de classe média, e mais influenciado pelos líderes da classe trabalhadora. Em suma, Cushion sugere que, em muitos aspectos, Havana era a exceção, não a regra..

Uma grande contribuição final deste trabalho é a de iluminar as relações entre o Movimento 26 de Julho e o Partido Comunista. Costuma-se argumentar que o Partido Comunista se juntou ao movimento revolucionário no último minuto, depois que a maré se transformou em favor do exército rebelde na Serra.

Cushion dá-nos a imagem mais clara ainda de como o então Partido Socialista do Povo respondeu lentamente à ascensão de armas. Ele descobre algumas dinâmicas internas do partido, incluindo a crescente demanda dos trabalhadores por proteção armada diante da violência do Estado e uma ala juvenil que cada vez mais apoiou o Movimento 26 de Julho. Ele capta a nuance e a evolução das relações entre os dois grupos, culminando numa tentativa de aliança que cada partido entendia de forma diferente - e que se desintegraria parcialmente em 1959 e 1960.

O período pós-revolucionário levantou imediatamente questões preocupantes sobre o papel que o trabalho organizado teria na nova Cuba. Ao longo de 1959, os trabalhadores reivindicaram por salários atrasados, reinstituições e controle democrático de seus sindicatos. Beneficiaram-se de decretos iniciais para salários mais elevados e pleno emprego.

Mas à medida que a revolução atingia a turbulência econômica, Fidel começou a desencorajar as greves e a enfatizar os sacrifícios iminentes do trabalho. E à medida que o novo Estado revolucionário se consolida, Cushion admite que "não existem instituições democráticas de trabalhadores independentes capazes de responsabilizar o governo".

Doravante, o trabalho ficaria sob o controle do Estado e os sindicatos funcionariam mais para canalizar diretivas para os trabalhadores do que para protegê-los. Em 1960, alguns dos líderes trabalhistas que haviam participado da revolução juntaram-se à contra-revolução.

De certa forma, trata-se de uma antiga história do trabalho. Ele se concentra principalmente em trabalhadores industriais, sua luta por salários vitais e sindicatos mais democráticos, e como a frustração da luta acabou por levá-los a adotar estratégias e objetivos mais radicais.

Não se trata de um estudo sobre o grande número de trabalhadores pobres, informais, posseiros ou desempregados crônicos. Cushion aborda brevemente o papel das mulheres, especialmente as trabalhadoras de escritório femininas que lutaram em solidariedade com seus colegas de trabalho masculinos e as mulheres militantes membros da família de homens em greve. Ele não aborda a questão da raça - uma questão importante para a classe trabalhadora multiracial de Cuba, como bem entendido pelo Partido Comunista nesse período.

Ainda assim, o livro nos dá uma visão extremamente necessária sobre o papel do trabalho neste período e modifica categoricamente nossa percepção de como a revolução foi conquistada. Uma anedota aqui será suficiente.

Em dezembro de 1958, as tropas do Che desviaram um trem blindado trazendo setecentos soldados para Las Villas. Isso se tornou um momento icônico na história revolucionária, muitas vezes visto como indispensável para garantir a vitória rebelde. Mas aqui Cushion nos apresenta uma rica história por trás desse incidente, começando nas oficinas ferroviárias de Ciénaga fora de Havana:

Os trabalhadores do estaleiro tinham considerado recusar-se a trabalhar no comboio, mas após uma reunião com um organizador regional anônimo do 26 de Julho, decidiram continuar a trabalhar ... mantendo os rebeldes informados sobre o progresso e a natureza do seu trabalho, enviando esboços detalhados de seu trabalho diretamente a Che Guevara.

Enquanto isso, os trabalhadores envolviam-se em proselitismo político entre os soldados já alojados no trem, tentando assim com que um número significativo de soldados desertassem antes do trem sair, enquanto muitos outros desertassem ao longo do caminho. No momento em que o trem foi descarrilado para Santa Clara para a batalha final naquela cidade, as tropas do Che já haviam se beneficiado das forças esgotadas do trem, do moral fraco dos soldados, e do conhecimento íntimo dos reforços do trem.

Que melhor exemplo da forma como os trabalhadores militantes prepararam as bases para a vitória dos rebeldes?

2 de dezembro de 2016

Fidelistas após Fidel

Com Castro desaparecido e Trump na Casa Branca, as apostas são altas para os cubanos comuns. Conversamos com alguns deles.

Tom Munday

Jacobin

Havana, Cuba. Matias Garabedian

Emely tem quarenta e poucos anos, morando ao redor do centro de Havana. Ela pertence a uma onda recente de cubanos que se movem para cima, economicamente emancipados pela flexibilização de leis sobre propriedade e empresas privadas.

De todos os cubanos, que falam da política muito mais livremente do que você poderia esperar, são precisamente aqueles do tipo de Emely que são supostos ser os mais hostis ao governo. Afinal de contas, ela é membro de uma "classe média" emergente, que os especialistas internacionais preveem de maneira tão confiável que introduzirá mudanças em Havana.

Certamente, ela é crítica do governo em alguns aspectos. Ela pinta-o como desordenado e inconstante, propenso a guinadas políticas aleatórias; reagindo desajeitadamente a ameaças reais e imaginadas. A situação material do país também está madura para críticas. Smartphones, laptops e selfie sticks aparecem prontamente disponíveis, mas bens de consumo básico, como papel higiênico e xampu, são muitas vezes difíceis de encontrar. Perceber que sabonetes extravagantes podem ser cobiçados como pedras preciosas dá-lhe algum sentido das frustrações mundanas da vida diária no único estado comunista do hemisfério ocidental.

Então, quando Emely levanta o dedo para o ar e orgulhosamente proclama "Soy Fidelista!", isso me trás de volta um pouco. Até agora, contornamos o tema, concentrando-nos principalmente em queixas menores e resmungos. Eu evito deliberadamente o tópico sobre Castro por medo de ser o sabe-tudo, patrulhante esquerdista europeu; irrefletidamente adulador sobre as credenciais socialistas de Cuba, ignorando seu caráter muitas vezes desagradável. No entanto, em meu desespero para evitar uma armadilha eu pareço ter tropeçado em outra. Emely é sincera e contundente em sua atitude em relação ao regime de Castro, cujos problemas ela atribui significativamente ao estado de sítio sofrido pela ilha por quase sessenta anos.

Jorge vive em um bairro. Ele também fala livremente sobre suas queixas gerais e aguarda com expectativa o influxo iminente de dólares Yanqui. Mas ele também conta para mim a história de um filho dele que deixou o país e foi para a Espanha e fica visivelmente irritado explicando que, por um tempo, ele foi forçado a dormir nas ruas de Madrid. Jorge expressa exasperação pela insensibilidade com que seu filho foi tratado. Eu percebo em seu enquadramento o sentido de "lá": o outro capitalista. Ele esclarece o estado do discurso político em Cuba.

Apesar de todas as falhas do estado insular, os cubanos parecem orgulhosos de seu sistema. Mais do que apenas um orgulho nacionalista, salpicado com gib nods em direção ao seu sistema de saúde e educação universal, as pessoas com quem falo exibem um espírito de propósito em sua compreensão do mundo. Tenho a clara impressão de que, por mais falho que seja, o socialismo de Cuba se infiltrou nos ossos de seus cidadãos e se tornou uma parte naturalizada de sua identidade e experiência.

Quando minha conversa com Emely toma uma direção política distinta e tropeçamos nos caprichos da classe e do sistema de classe, ela me leva para sua varanda para mostrar-me que aqui também a classe está bem viva. O beco serpenteia abaixo entre os terraços. Algumas casas abaixo, uma família - dez pessoas ou mais - senta-se, conversando alto em um jardim de concreto. Mesmo de longe eles não são claramente parte da crescente classe média de Cuba, um fato que Emely corrobora. Como Jorge, o enquadramento de Emely é impressionante: ela exclui explicitamente "o sistema" da culpa. Classe é um erro, não um recurso, e um que ela quer que seja corrigido com pressa. É fascinante ouvir alguém que, em outro lugares estaria numa posição privilegiada para se considerar "apolítico", compreende instintivamente a luta de classes.

A diferença entre como os cubanos vêem o seu sistema político e como ele é visto no exterior é enorme. No Ocidente, por um lado, Cuba é espetada como nada mais que um estado policial tropical, com Castro comparado indistintamente com Pinochet. Por outro lado, o Partido Comunista fez bom uso do resultado de meio século de auto-engrandecimento: cada cartaz em cada estrada proclama as conquistas da nação. Perdido entre estes dois pontos está a experiência matizada e a compreensão do povo cubano.

Agora, Cuba está numa encruzilhada. A morte de Fidel foi antecipada por muito tempo como o início do fim. O governo, com pleno conhecimento de causa, preparou cuidadosamente as bases para uma reaproximação muito atrasada com os Estados Unidos, com a esperança de se manter estável ao passar por uma transição inevitavelmente turbulenta. A eleição de Donald Trump só aumentou essa instabilidade.

Mas esse aumento potencialmente dramático das tensões, num momento em que a última frente da Guerra Fria finalmente parecia estar se fechando, pode muito bem forçar Cuba a um momento de introspecção que vale a pena.

Como um estado de bem-estar robusto parece ser gerações de distância em seu vizinho de superpotência e sob ataque em todo o resto do mundo ocidental, Cuba é concedido um breve momento de sobriedade para fazer um balanço de suas fortunas. Quando eu visitei no início deste ano, o abraço dos Estados Unidos foi prefigurado com uma mistura de trepidação e esperança. Já tinha visto bandeiras americanas tremulando em edifícios de Cuba; lojas de souvenirs mais notavelmente, sem dúvida olhando para chegar à frente da curva.

Motoristas de táxi de Havana conversavam comigo para praticarem seus estoques de fases em inglês. No entanto, muitos exibiam uma certa hesitação - uma compreensão de que o caminho pela frente seria repleto de dificuldades. Por um lado, o bloqueio, um grande erro cometido contra os cubanos por seu vizinho do norte, pesa enormemente na psique nacional e não será facilmente esquecido. Os Emelys e Jorges nem por um segundo se permitem acreditar na simples magnanimidade dos EUA. Eles vêem claramente, muito mais do que aqueles de fora olhando para dentro, que os sabonetes mais sofisticados poderiam ser a morte de muito do que eles valorizam em seu país.

2016 não é 1989 - não há um ator substituto de David Hasselhoff para bramir "Looking for Freedom" sobre as ruínas da sociedade antiga. O mundo do outro lado do Estreito da Flórida está em ponto de implosão. Eles não querem nada disso: estão conscientes de que o Ocidente está convidando-os para uma casa que está desabando na frente do seus narizes. Onde isto deixa a distensão de longo prazo com os Estados Unidos é apenas uma suposição, mas é claro que o apetite para mudança é desigual. Seu desejo de acesso livre a mercadorias básicas é tão premente como seu medo de ser sugado por um buraco negro dos EUA e cuspido como outro Porto Rico.

Os sonhos contrários à lei seca de Washington permanecerão uma fantasia que eu suspeito: conquanto Havana pise com cuidado, é improvável que vejamos uma revolução colorida aqui. Se Cuba poderá sobreviver a outras décadas de bloqueio, é uma questão diferente. No entanto, para cubanos comuns como Emely e Jorge as matérias-primas estão presentes para revitalizar os ideais revolucionários, os quais foram fundados em 1959, embora compreendendo que uma mentalidade de cerco não pode vincular uma sociedade indefinidamente. Os cubanos precisam de esperança e inspiração.

Nos últimos dias da minha estadia em Cuba, pego um táxi de Trinidad, na costa sul, de volta a Havana, no noroeste. A viagem dura quase cinco horas. O motorista é tão animado para falar como qualquer outra pessoa. Ele me disse que passou um tempo significativo no exterior, predominantemente na Espanha, e ainda assim retornou a Cuba. Ouça os expatriados de Miami e a ideia pareceria absurda; sair só para voltar. Ele evidentemente discorda. "A Espanha é um desastre", diz ele. Sim, a vida pode ser difícil aqui, mas - especialmente para um imigrante - é difícil na Espanha também.

É difícil em muitos lugares. É tentador ver isso como desesperança, mas acho que aponta para outra coisa. Talvez seja pragmatismo; certamente abrange uma compreensão sofisticada de que "em outros lugares" não é a terra prometida de sabonetes extravagantes. O caminho bem trilhado está lá, mas os destinos a que conduz não são sempre desejáveis. Cuba tem sua própria maneira de fazer.

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