25 de agosto de 2003

Monsters, Inc.

por Chris Floyd

TMT Metropolis

O grande feiticeiro, líder dos Sábios, outrora conhecido em todo o mundo como uma força do bem, tornou-se amargo, temeroso — e ambicioso. Macaqueando os modos do mal que ele outrora combateu — brutalidade, dominação, avareza, terror — ele desceu ao seu laboratório secreto onde, com a magia negra da alquimia e da tecnologia satânica, engendrou uma raça de guerreiros mutantes, "corpos de ferro e vontades de ferro": combatentes ferozes que podem atacar noite e dia, sem descanso, com um espírito de combate que se mantém elevado graças aos lampejos da varinha do feiticeiro.

Uma cena de "O Senhor dos Anéis", de J.R.R. Tolkein, onde o corrupto feiticeiro Saruman molda o seu monstruoso Uruk-Hai para travar uma cruel e impiedosa guerra de dominação? Não, infelizmente trata-se de um esquema muito real que agora está sendo prosseguido pelo Pentágono, cujos feiticeiros da droga e manipuladores genéticos trabalham na criação do "Desempenho estendido do combatente em guerra" ("Extended Performance War Fighter"), relatam o Daily Telegraph e o Christian Science Monitor.

O sinistro amo do Pentágono, Donald Rumsfeld, está despejando bilhões de dólares de impostos nos fornos de investigação de laboratórios federais e universidades privadas de toda a terra num esforço de grande alcance para desovar "super soldados", movidos por drogas e "cérebros eletromagnéticos assassinos" que possam combater sem cessar dias a fio. O trabalho é dirigido pela Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA) — sim, a mesma instituição que agora labora sob a tutela do condenado terrorista-conspirador John Poindexter na construção da rede "Conhecimento total da informação" ("Total Information Awareness") que permitirá ao governo monitorar os registros eletrônicos e as comunicações de todos os cidadãos.

Os programas de "estimulação do combatente em guerra" do DARPA — uma aceleração dos bio-consertos que se desenvolve há vários anos — implicarão injetar homens e mulheres jovens com preparações hormonais, neurológicas e genéticas; implantar microchips e elétrodos nos seus corpos a fim de controlar os seus órgãos internos e as suas funções cerebrais; e aplicar-lhes drogas que amorteçam algumas das suas tendências humanas normais: a necessidade de sono, o medo da morte, a relutância em matar seres humanos.

A investigação é "muito agressiva e de ampla abertura", diz o almirante Stephen Baker do Center for Defense Information. Na verdade, o Comando de Operações Especiais dos EUA pretende a criação de pessoal com "corpos de ferro e vontade de ferro" que possam "resistir aos efeitos mentais e psicológicos da privação do sono" graças a "substâncias ergogênicas" para "administrar" a "tensão ambiental e mental induzida" pelo campo de batalha. Com corpos espremidos, cérebros envolvidos em nevoeiros Prozacianos, os combatentes guerreiros aperfeiçoados podem agitar-se cruel e implacavelmente rumo à dominação.

A palavra "criação" não é apenas retórica fantástica. Algumas das investigações agora em curso envolvem realmente a alteração do código genético dos soldados, modificando pedaços (bits) de DNA para moldar um novo tipo de espécime humano, alguém que funciona como uma máquina, matando incansavelmente durante dias e noites a fio. Estas mutações "revolucionarão a ordem de batalha atual" e garantirão "dominação operacional ao longo de todo o espectro de potenciais empregos militares dos EUA", entusiasmam-se os feiticeiros do DARPA.

Naturalmente, o Pentágono não está a contar com tecnologia de ficção científica para elevar as habilidades físicas dos seus combatentes; os "aditivos" padrão já fora de moda há muito que são despejados pelas goelas abaixo dos soldados. Exemplo: o uso de anfetaminas para pilotos foi generalizado durante décadas; durante a primeira guerra Bush-Saddam, todos os esquadrões eram trabalhados com este material. A ingestão de estimulantes é não só oficialmente aprovada como também ativamente encorajada, e mesmo implicitamente obrigatória — a carreira pode ser prejudicada se o piloto recusar drogar-se.

Os resultados desta generalização da dopagem foram vistos claramente na nova fronteira imperial do Afeganistão, na última Primavera, quando dois pilotos americanos — excitados com estimulantes — mataram quatro aliados canadenses com "fogo amigo" num raid de bombardeamento. Os pilotos, agora a enfrentar acusações legais, dizem que a Força Aérea os pressionou a tomar drogas que alteravam a mente antes do voo fatal.

Mas pequenas falhas como essa são inevitáveis em qualquer grande empreendimento científico, e a DARPA permanece irredutível no seu arrojado empreendimento para "chegar aos limites do input/output humano", avançar o "relacionamento simbiótico entre homem e máquina" e adaptar a "tecnologia farmacêutica" para "reforçar o combatente e seus superiores", como declararam cientistas militares numa conferência patrocinada pelo Pentágono sobre a guerra futura.

O que acontece às exaustas cascas deste soldados "de ferro" depois de as suas mentes e corpos terem sido comidos por modificações inexoráveis e trabalhos incessantes não faz parte, naturalmente, das preocupações do Regime Bush. Ainda agora, a Casa Branca está a cortar nos benefícios de saúde dos militares veteranos — chegando até mesmo a ordenar a hospitais de veteranos que não anunciem os seus serviços disponíveis, a fim de que os soldados com problemas não tentem exigir realmente o prometido apoio que o seu governo lhes dava. Para homens como Bush — filhos protegidos do privilégio que ficam em segurança, fora de guerras, no luxo apodrecido de bebedeiras — tais promessas são apenas táticas para sugar, destinadas a persuadir soldados decentes a atuarem como assassinos contratados do império, descartando-se deles quando não são mais necessários.

Como isto é estranho: Aqueles que querem transformar os soldados americanos em seres sem mente, em mutantes apodrecidos com drogas a fim de enviá-los para matar e morrer em distantes guerras imperiais de conquista são vistos como patriotas, líderes nobres, cumprindo a vontade de Deus, ao passo que aqueles que tratam estes homens e mulheres bons com honra e respeito — desejando que os seus talentos e dedicação sejam aplicados unicamente na defesa do seu próprio grande país e que não sejam espremidos ao serviço de uma elite voraz e rapinante — são denunciados como "traidores", "agitadores anti-americanos", "aliados do terrorismo".

Mas esta é a inversão de valores — a sabedoria desencaminhada posta em prática — que agora rege a Washington de Bush, e os escaldantes cadinhos de guerra do Pentágono.

24 de agosto de 2003

A solidão de Noam Chomsky

Arundhati Roy

The Hindu

"Eu nunca pedirei desculpas em nome dos Estados Unidos da América — Não quero nem saber quais são os fatos." 
Presidente George Bush Sr.

Sentada em minha casa, em Nova Déli, assistindo um canal de TV americano se autopromover ("Nós reportamos. Você decide."), eu imagino o sorriso entretido e com um dente lascado de Noam Chomsky.

Todo mundo sabe que os regimes autoritários, independentemente de sua ideologia, utilizam a mídia de massas para propaganda. Mas o que dizer dos regimes democraticamene eleitos do "mundo livre"?

Hoje em dia, graças a Noam Chomsky e a seus colegas que analisam a mídia, é quase axiomático, para milhares, talvez milhões, entre nós, de que a opinião pública nas democracias de "livre mercado" é manufaturada como qualquer outro produto para o mercado de massas — sabonetes, interruptores, ou pão em fatias. Sabemos que, embora em termos jurídicos e constitucionais a expressão possa ser livre, o espaço dentro do qual a liberdade pode ser exercida foi arrancado de nós e leiloado a quem der o maior lance. O capitalismo neoliberal não diz respeito somente à acumulação de capital (para alguns). É também acumulação de poder (para alguns), acumulação de liberdade (para alguns). Por outro lado, para o resto do mundo, para as pessoas que são excluídas do corpo governante do neoliberalismo, trata-se de erosão de capital, erosão de poder,erosão de liberdade. No "livre mercado", a liberdade de expressão tornou-se uma mercadoria como qualquer outra coisa — — justiça, direitos humanos, água potável, ar limpo. E, naturalmente, aqueles que têm recursos para comprá-la, utilizam a liberdade de expressão para manufaturar o tipo de produto, confeccionar o tipo de opinião pública, que melhor servir seus propósitos. (Notícias que eles possam usar.) O modo exato de como isso é feito foi o tema de muitos dos escritos políticos de Noam Chomsky.

O primeiro-ministro Silvio Berlusconi, por exemplo, tem uma participação que lhe dá o controle dos maiores jornais, revistas, canais de televisão e editoras da Itália. "O primeiro-ministro controla, efetivamente, cerca de 90 por cento da audiência italiana", reporta o Financial Times. Qual o preço da liberdade de expressão? Liberdade de expressão para quem? Inegavelmente, Berlusconi é um exemplo extremo. Em outras democracias — nos Estados Unidos, em particular — os barões da mídia, os poderosos lobbies corporativos e os funcionários governamentais estão envolvidos de um modo mais elaborado, menos óbvio. (As conexões de George Bush Jr. com o lobby do petróleo, com o setor de armas, com a Enron, e a infiltração da Enron nas instituições do governo dos EUA e na mídia de massas — tudo isso é, agora, de conhecimento público.)

Depois de 11 de setembro de 2001, dos ataques terroristas a Nova York e Washington, o papel desempenhado descaradamente por grande parte da mídia como mero porta-voz do governo dos EUA, sua demonstração de patriotismo vingativo, sua disposição para publicar os folhetos distribuídos pelo Pentágono como se fossem notícias, e sua censura explícita das opiniões divergentes tornaram-se alvo de um belo humor negro no resto do mundo.

Daí teve lugar a queda da Bolsa de Nova York, companhias aéreas falidas apelaram por fianças governamentais, e falou-se de esquivar as leis de patentes para manufaturar genéricos para combater o alarme do antraz (muito mais importante e, urgente, naturalmente, do que a produção de genéricos para comater a AIDS na África…). De repente, começou a parecer como se os mitos gêmeos da Liberdade de Expressão e do Livre Mercado pudessem desabar junto às Torres Gêmeas do World Trade Center.

Mas, é claro, isso nunca ocorreu. Os mitos continuam vivos.

Há, contudo, um lado mais brilhante, relativo ao montante de energia e dinheiro que oestablishment despeja nos negócios de "gerenciamento" da opinião pública. E que indica um medomuito real da opinião pública. Indica uma persistente e válida preocupação de que se as pessoas descobrissem (e compreendessem plenamente) a natureza real das coisas que são feitas em seu nome, elas poderiam agir com base nesse conhecimento. Os poderosos sabem que as pessoas comuns nem sempre são desalmadas e egoístas. (Quando as pessoas comuns pesam os custos e os benefícios, há algo como uma consciência apreensiva que poderia escalar fácil e rapidamente.) Por esse motivo, elas precisam ser mantidas sob controle, protegidas da realidade, guardadas na traseira sob um clima controlado, numa realidade alterada, como galinhas ou porcos de grelha dentro de um cercado.

Aqueles, dentre nós, que conseguiram escapar dessa sina e não param de arranhar a cerca no fundo do quintal, não acreditam mais em tudo o que lêem nos jornais ou assistem na TV. Colamos nossos ouvidos ao solo e procuramos outros modos de fazer sentido no mundo. Buscamos a história que não foi contada, o golpe militar mencionado apenas de passagem, o genocídio não reportado, a guerra civil em um país africano relatada numa coluna de três centímetros, lado a lado de uma publicidade de página inteira de uma lingerie de renda.

Nem sempre nos lembramos, e muitos nem sequer sabem, que esse modo de pensar, essa fácil acuidade, essa desconfiança instintiva em relação à mídia de massas seria, na melhor das hipóteses, um palpite político, e na pior, uma acusação solta, não fosse pela análise incansável e inabalável de uma das grandes cabeças do mundo. E esse é apenas um dos modos pelos quais Noam Chomsky alterou radicalmente nossa compreensão da sociedade em que vivemos. Ou, será que eu deveria dizer, nossa compreensão das sofisticadas regras do asilo pinel no qual somos todos presidiários voluntários?

Falando sobre os ataques de 11 de setembro em Nova York e Washington, o Presidente George W. Bush chamou os inimigos dos EUA de "inimigos da liberdade". "Os americanos perguntam: — porque nos odeiam?" disse ele. "Eles odeiam nossas liberdades, nossa liberdade de religião, nossa liberdade de expressão, nossa liberdade de votar e de nos reunirmos e de discordarmos uns dos outros."

Se há pessoas nos EUA que quiserem uma resposta verdadeira para aquela pergunta (ao contrário das respostas que podem ser encontradas no Idiot's Guide to Anti-Americanism (Guia para idiotas sobre anti-americanismo), ou seja: "Porque eles nos invejam", "Porque eles odeiam a liberdade", "Porque eles são uns perdedores", "Porque nós somos bons e eles são maus"), eu diria, leiam Chomsky. Leiam Chomsky no que diz respeito às intervenções militares dos EUA na Indochina, na América Latina, no Iraque, na Bósnia, na antiga Iugoslávia, no Afeganistão e no Oriente Médio. Se as pessoas comuns nos EUA lessem Chomsky, talvez suas perguntas seriam contextualizadas de um modo diferente. Talvez seriam do tipo: "Como é que eles não nos odeiam ainda mais?" ou "Não é surpreendente que o 11 de setembro não tenha ocorrido muito antes?"

Infelizmente, nessa época nacionalista, palavras como "nós" e "eles" são usadas ao léu. A fronteira entre cidadãos e estado foi embaçada deliberadamente e com sucesso, não só pelos governos, como também pelos terroristas. A lógica subjacente dos ataques terroristas, assim como das guerras de "retaliação" contra os governos que "apóiam o terrorismo", é a mesma: ambas punem os cidadãos pelas ações de seus governos.

(Uma breve divagação: eu entendo que é mais educado quando um cidadão dos EUA, como Noam Chomsky, critica seu próprio governo do que alguém como eu, cidadã da Índia, quando critico o governo dos EUA. Eu não sou patriota, e sou plenamente consciente de que a venalidade, a brutalidade e a hiprocrisia estão impressas nas almas de chumbo de cada estado. Mas quando um país cessa de ser meramente um país e se torna um império, então a escala de operações muda dramaticamente. Portanto, gostaria de esclarecer que falo na qualidade de sujeito do império dos EUA. Falo como uma escrava que tem a pretensão de criticar seu rei.)

Se eu tivesse que escolher uma das maiores contribuições de Noam Chomsky para o mundo, seria o fato de que ele desmascarou o universo feio, manipulador e cruel que existe por trás da bela e ensolarada palavra "liberdade". Ele fez isso racional e empiricamente. A massa de evidência que ele compilou para construir seu caso é formidável. Na realidade, terrificante. A premissa inicial do método de Chomsky não é ideológica, mas é intensamente política. Ele embarca no seu percurso de investigação com uma desconfiança instintivamente anárquica do poder. Ele nos leva a uma excursão pelo pântano do establishment dos EUA, e nos conduz através do labirinto estonteante dos corredores que conectam o governo, os grandes negócios e o negócio do gerenciamento da opinião pública.

Chomsky nos mostra como frases do tipo "liberdade de expressão", "livre mercado", "mundo livre" pouco ou nada têm a ver com liberdade. Ele nos mostra que, entre as miríades de liberdades conclamadas pelo governo dos EUA, estão a liberdade de assassinar, de aniquilar, e de dominar outros povos. A liberdade de financiar e patrocinar déspotas e ditadores no mundo todo. A liberdade de treinar, armar e abrigar terroristas. A liberdade de derrubar governos eleitos democraticamente. A liberdade de amontoar e usar armas de destruição em massa — químicas, biológicas e nucleares. A liberdade de declarar guerra contra qualquer país cujo governo não seja bem visto. E, pior de tudo, a liberdade de cometer esses crimes contra a humanidade em nome da "justiça", em nome da "retidão", em nome da "liberdade".

O procurador-geral John Ashcroft declarou que as liberdades dos EUA "não são concessão de nenhum governo ou documento, mas… um presente que nos foi outorgado por Deus". Portanto, basicamente, encaramos um país armado por um mandato dos céus. Talvez isso explique porque o governo dos EUA se recuse a julgar a si próprio com os mesmos padrões morais que julga os outros. (Qualquer tentativa nesse sentido é denunciada como "equivalência moral".) Sua técnica é posicionar-se como o gigante bem intencionado cujos feitos são confundidos em países estranhos por seus nativos conspiradores, cujos mercados está tentando liberar, cujas sociedades está tentando modernizar, cujas mulheres está tentando libertar, cujas almas está tentando salvar.

Talvez essa crença em sua própria divindade explique porque o governo dos EUA tenha se outorgado a si próprio o direito e a liberdade de assassinar e exterminar pessoas "para o próprio bem delas".

Ao anunciar os ataque aéreos contra o Afeganistão, o Presidente Bush Jr. disse: "Somos uma nação pacífica." Continuou dizendo: "Esse é o chamado dos Estados Unidos da América, a nação mais livre do mundo, uma nação construída sobre valores fundamentais, que rejeita o ódio, rejeita a violência, rejeita os assassinos, rejeita o mal. E nós não descansaremos."

O império dos EUA se assenta numa fundação terrível: o massacre de milhões de indígenas, o roubo de suas terras e, depois disso, o seqüestro e a escravização de milhões de negros da África, para trabalharem a terra. Milhares morreram nos mares, ao serem despachados como gado entre os continentes. "Roubados da África, trazidos para a América" – "Buffalo Soldier" de Bob Marley contém todo um universo de tristeza inexprimível. Fala da perda de dignidade, da perda do estado natural selvático, da perda da liberdade, do despedaçar-se do orgulho de um povo. Genocídio e escravidão fornecem a escora social e econômica da nação cujos valores fundamentais rejeitam o ódio, os assassinatos e o mal.

Eis Chomsky, escrevendo em seu ensaio "The Manufacture of Consent" ("A Manufatura da Conformidade") sobre a fundação dos Estados Unidos da América:

Durante o feriado de Thanksgiving (Dia de Ação de Graças), há alguns dias, fiz uma caminhada com alguns amigos e familiares em um parque nacional. Aí, nos deparamos com uma lápide, sobre a qual havia uma inscrição: "Aqui jaz uma mulher indígena, uma wampanoag, cuja família e tribo se entregaram, assim como à sua própria terra, para que esta grande nação pudesse nascer e crescer."

Naturalmente, não é suficientemente exato dizer-se que a população indígena se entregou e entregou sua própria terra para esse nobre propósito. Mais exatamente, eles foram assassinados, dizimados e dispersos durante um dos maiores exercícios de genocídio de toda a história humana… o qual celebramos a cada mês de outubro, quando homenageamos Colombo — ele próprio um famoso assassino de massas – no Columbus Day.

Centenas de cidadãos americanos, pessoas bem intencionadas e decentes, avançam em grupo em direção àquela lápide e lêem a inscrição, aparentemente sem qualquer reação, exceto, talvez, um sentimento de satisfação de que, enfim, estamos prestando algum reconhecimento aos sacrifícios dos povos nativos… é provável que elas reagiriam diferentemente se estivessem visitando Auschwitz ou Dachau e se confrontassem com uma lápide com a inscrição: "Aqui jaz um mulher, uma judia, cuja família e tribo se entregaram, assim como à sua própria terra, para que esta grande nação pudesse crescer e prosperar."

Como os EUA puderam sobreviver a esse passado terrível e emergir com uma cara tão boa? Não foi admitindo aquilo que tinha sido feito, não foi por meio de reparações, não foi pedindo desculpas aos negros americanos ou aos nativos americanos, e certamente não foi por meio de mudanças em seus modos de atuação (já que agora exporta suas crueldades). Como a maioria dos demais países, os EUA rescreveram sua própria história. Mas o que distingue os EUA dos outros países, e o que o coloca na linha de frente da corrida, é que contratou os serviços da firma de publicidade mais poderosa e bem sucedida do mundo: Hollywood.

Na versão best-seller do mito popular vendido como história, a "bondade" dos EUA atingiu seu clímax durante a Segunda Guerra Mundial (na Guerra da América Contra o Fascismo). Na realidade, atordoado pelo estrondo da trombeta e do canto do anjo, está o fato de que enquanto o fascismo estava a pleno galope na Europa, o governo dos EUA olhou para o outro lado. Quando Hitler continuava a execução de seu progrom genocida contra os judeus, os funcionários do governo dos EUA recusavam a entrada dos refugiados judeus que escapavam da Alemanha. Os EUA entraram na guerra somente depois que os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Afogado pelo barulhentos hosanas, encontra-se o mais bárbaro dos atos; de fato, o ato mais selvagem que o mundo jamais testemunhou: o lançamento da bomba atômica sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki. A guerra estava quase no fim. As centenas de milhares de cidadãos japoneses que foram mortos, as inúmeras pessoas que foram vítimas de câncer por inúmeras gerações futuras, não constituíam uma ameaça à paz mundial. Eram população civil. Como as vítimas do bombardeio do World Trade Center e do Pentágono eram população civil. Como as milhares e milhares de pessoas que morreram no Iraque como resultado das sanções lideradas pelos EUA também eram população civil. O bombardeio de Hiroshima e Nagasaki foi um experimento frio e calculado, realizado para demonstrar o poder da América. Naquela época, o Presidente Truman descreveu o fato como "o maior evento da história".

A Segunda Guerra Mundial, como nos dizem, foi uma "guerra pela paz". A bomba atômica era uma "arma de paz". Somos convidados a acreditar que a intimidação nuclear evitou a ocorrência da Terceira Guerra Mundial. (Isso antes que o Presidente George Bush Jr. viesse com sua "doutrina de ataque preventivo". Houve uma explosão de paz depois da Segunda Guerra Mundial? Certamente, houve uma paz relativa na Europa e na América — mas será que isso conta como paz? Não, a menos que as guerras selvagens e por procuração combatidas onde vivem as raças de outras cores (os "chinks, niggers, dinks, wogs, gooks" [N.T.: nomes pejorativos dados pelos americanos respectivamente aos chineses, negros, árabes, hindus ou negros, asiáticos ou vienamitas, etc…]) não contarem como guerra.

Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estiveram em guerra contra, ou atacaram, entre outros países, a Coréia, Guatemala, Cuba, Laos, Vietnã, Camboja, Granada, Líbia, El Salvador, Nicarágua, Panamá, Iraque, Somália, Sudão, Iugoslávia e Afeganistão. Essa lista deveria incluir as operações camufladas pelo governo dos EUA na África, Ásia e América Latina, os golpes que projetaram e os ditadores que armaram e apoiaram. Deveria incluir também a guerra de Israel contra o Líbano, financiada pelos EUA e na qual milhares de pessoas foram mortas. Deveria também incluir o papel fundamental que a América desempenhou no conflito do Oriente Médio, no qual milhares de pessoas têm morrido ao combaterem a ocupação ilegal dos territórios palestinos por Israel. Deveria também incluir o papel da América na guerra civil do Afeganistão nos anos 80, na qual mais de um milhão de pessoas foram mortas. Deveria também incluir os embargos e as sanções que levaram direta e indiretamente à morte de centenas de milhares de pessoas, mais visivelmente no Iraque.

Juntando-se isso tudo, parece que, na realidade, houve mesmo uma Terceira Guerra Mundial, e que o governo dos EUA era (ou é) um de seus principais protagonistas.

A maioria dos ensaios que compõem For Reasons of State (Por Razões de Estado) de Chomsky era sobre a agressão dos EUA no Vietnã do Sul, Vietnã do Norte, Laos e Camboda. Foi uma guerra que durou mais de 12 anos. Cinqüenta e oito mil americanos e cerca de dois milhões de vietnamitas, cambojanos e laocianos perderam a vida. Os EUA enviaram tropas com meio milhão combatentes e jogaram mais de seis milhões de toneladas de bombas. E mesmo assim, embora seja difícil de acreditar para quem vê a maioria dos filmes de Hollywood, a América perdeu a guerra.

A guerra começou no Vietnã do Sul e se espalhou para o Vietnã do Norte, Laos e Cambodja. Depois de ter colocado no poder um regime cliente em Saigon, o governo dos EUA se autoconvidou para combater uma insurgência comunista — guerrilheiros vietcongs que tinham se infiltrado nas regiões rurais do Vietnã do Sul, onde os habitantes lhes forneciam abrigo. Esse foi o modelo exato que a Rússia replicou quando, em 1979, autoconvidou-se no Afeganistão. Ninguém no "mundo livre" tem qualquer dúvida sobre o fato de que a Rússia invadiu o Afeganistão. Depois da glasnost, até mesmo um ministro do exterior soviético chamou a invasão do Afeganistão de "ilegal e imoral". Mas esse tipo de introspecção não teve lugar nos Estados Unidos. Em 1984, numa estonteante revelação, Chomsky escreveu:

Nos últimos 22 anos, eu tenho tentado encontrar alguma referência no jornalismo da grande mídia ou nos escritos acadêmicos sobre a invasão americana do Vietnã do Sul em 1962 (ou outro dia), ou sobre qualquer agressão americana na Indochina — sem ter tido sucesso. Esse evento não existe na história. Mais precisamente, encontra-se algo sobre a defesa do Vietnã do Sul pela América, contra os ataques terroristas que contavam com apoio externo (principalmente do Vietnã).

Não existe um evento desses na história!

Em 1962, a Força Aérea dos EUA começou a bombardear a região rural do Vietnã do Sul, onde 80 por cento da população residia. Os bombardeios duraram mais de uma década. Milhares de pessoas foram mortas. A idéia era bombardear numa escala suficientemente colossal de modo a induzir uma migração em função do pânico, dos vilarejos para as cidades onde as pessoas poderiam ser detidas em campos de refugiados. Samuel Huntington referiu-se a esse processo como "urbanização". (Eu fiquei sabendo dessa urbanização quando era estudante de arquitetura na Índia. De qualquer modo, não me consta que bombardeamento aéreo fizesse parte do curriculum escolar.) Huntington – hoje famoso pelo seu ensaio "The Clash of Civilizations?" ("O choque das civilizações?") – era, naquela época, presidente do Council on Vietnamese Studies of the Southeast Asia Development Advisory Group (Conselho de Estudos Vietnamitas do Grupo de Assessoria para o Desenvolvimento do Sudeste da Ásia). Chomsky o cita, quando aquele autor descreve os vietcongs como "uma força poderosa que não pode ser extirpada dos distritos nos quais está enraizada, enquanto esses distritos continuarem a existir". Huntington prossegue, aconselhando uma "aplicação direta de poder mecânico e convencional"– em outras palavras, para esmagar uma guerra do povo, eliminar o povo. (Ou, talvez, para atualizar sua tese – para se prevenir um choque de civilizações, aniquilar a civilização.)

Eis um observador daquela época, a respeito das limitações do poder mecânico da América: "O problema é que as máquinas americanas não se equiparam com a tarefa de matar soldados comunistas, exceto como parte de uma política de terra queimada que destrua todo o resto também." Aquele problema foi resolvido, agora. Não com bombas menos destrutivas, mas com uma linguagem mais imaginativa. Há uma maneira mais elegante de se dizer "que destrua todo o resto também". A frase é "dano colateral".

E existe um relato em primeira mão daquilo que as "máquinas" americanas (Huntington as chamava de "instrumentos de modernização" e os funcionários do Pentágono as chamavam de "bomb-o-grams") podiam fazer. Trata-se de T.D. Allman sobrevoando a planície de Jars, no Laos.

Mesmo se a guerra no Laos terminasse amanhã, a restauração de seu equilíbrio ecológico poderia levar vários anos. A reconstrução das cidades e dos vilarejos da Planície destruídos poderia também levar muitos anos. Mesmo se isso ocorresse, a Planície poderia revelar-se perigosa para abrigar habitantes devido às centenas de milhares de bombas não explodidas, minas e armadilhas minadas.

Um vôo recente sobre a Planície de Jars revelou o que menos de três anos de intensivo bombardeio americano pode provocar numa área rural, mesmo depois que a sua população civil tenha sido evacuada. Em extensas áreas, a cor tropical primária — o verde exuberante — foi substituído por um padrão abstrato de cor negra e de cores metálicas brilhantes. A maioria da folhagem sobrevivente está atrofiada e opaca, devido aos desfolhadores.

Hoje, o negro é a cor predominante das extensões do norte e do sul da planície. O napalm é lançado regularmente para queimar a grama e o mato que cobre as planícies e que preenche seus vários desfiladeiros estreitos. Os incêndios parecem ser constantes, criando retângulos negros. Durante o vôo, plumas de fumaça podiam ser vistas, erguendo-se das áreas recém bombardeadas.

As estradas principais, chegando à planície do território mantido pelos comunistas, são bombardeadas implacável e incessantemente, sem pausas. Lá, e ao longo de toda a borda da planície, a cor predominante é o amarelo. Toda a vegetação foi destruída. As crateras são inúmeras… A área foi bombardeada tantas vezes repetidamente que a terra parece o deserto marcado e escumado das áreas desérticas atingidas por tempestades no Norte da África.

Mais em direção ao sudeste, Xieng Khouangville – uma vez a cidade mais povoada do Laos comunista — jaz vazia, destruída. Ao norte da planície, o pequeno vilarejo de Khang Khay também foi destruído.

Em volta do campo de pouso da base de King Kong, as cores predominantes são o amarelo (devido ao solo revolvido) e o negro (devido ao napalm), aliviado por manchas de cor vermelha e azul intensa: os pára-quedas costumavam atirar suprimentos.

Os últimos habitantes do local foram transportados por via aérea. Jardins de vegetais abandonados que nunca mais viram qualquer colheita cresceram perto das casas abandonadas, dentro das quais estão ainda postos os pratos sobre as mesas e afixados os calendários nas paredes.

(Nunca foram calculados entre os "custos" da guerra o número de pássaros mortos, os animais carbonizados, os peixes assassinados, os insetos incinerados, as fontes de água envenenadas, a vegetação exterminada. Raramente mencionada é a arrogância da raça humana em relação às outras formas de vida, com as quais compartilha esse planeta. Tudo isso é esquecido, na luta por mercados e ideologias. Essa arrogância será, provavelmente, a ruína final da espécie humana.)

Parte fundamental de For Reasons of State (Por Razões de Estado) é um ensaio titulado "The Mentality of the Backroom Boys" ("A Mentalidade dos Rapazes do Quarto dos Fundos"), no qual Chomsky oferece uma análise extraordinariamente desenvolta e exaustiva dos Pentagon Papers (Documentos do Pentágono), sobre os quais ele diz que "fornecem evidência documentária de uma conspiração para usar a força em questões internacionais, infringindo a lei". Aqui também, Chomsky observa o fato de que enquanto o bombardeio do Vietnã do Norte é discutido com certa profundidade nos Pentagon Papers, a invasão do Vietnã do Sul mal merece uma menção.

Os Pentagon Papers são fascinantes, não como documentação da história da guerra dos EUA na Indochina, mas para dar uma idéia da mentalidade dos homens que a planejaram e a executaram. É fascinante ficar a par das idéias que estavam sendo lançadas, das sugestões que eram feitas, das propostas que foram apresentadas. Numa seção titulada "The Asian Mind – the American Mind" ("A Mente Asiática — A Mente Americana"), Chomsky examina a discussão sobre a mentalidade do inimigo que "estoicamente aceita a destruição dos bens e a perda de vidas", ao passo que "nós queremos a vida, a felicidade, a riqueza e o poder" e, para nós, "a morte e o sofrimento são escolhas irracionais, se existirem alternativas". Assim, aprendemos que os pobres asiáticos, presumivelmente porque eles não podem entender o significado da felicidade, do bem-estar e do poder, convidam a América para levar a cabo essa "lógica estratégica até a sua conclusão, que é o genocídio". Mas daí "nós" barramos o plano, porque o "genocídio é um fardo muito pesado para carregar". (Eventualmente, é claro, "nós" fomos adiante e cometemos o genocídio de todo jeito, e em seguida, fingimos que ele nunca realmente ocorreu.)

Naturalmente, os Pentagon Papers contêm também algumas propostas moderadas.

Ataques a populações-alvo (per se), provavelmente, não só criam uma onda contraproducente de repulsa, tanto no país quanto no exterior, como aumentam muito o risco de estender a guerra com a China e a União Soviética. Destruição de comportas e represas, entretanto — se forem gerenciadas corretamente — … podem ser promissoras. Isso deveria ser estudado. Esse tipo de destruição não mata ou afoga as pessoas diretamente. Mas, inundando-se superficialmente o arroz, depois de um tempo haverá inanição generalizada na região (mais de um milhão?), a menos que se providenciem alimentos — e nós poderíamos oferecer esses alimentos numa "mesa de conferência".

Camada por camada, Chomsky desmonta o processo de tomada de decisão dos funcionários do governo dos EUA, para revelar em essência o coração desalmado da máquina de guerra americana, completamente isolado das realidades de guerra, cego pela ideologia, e disposto a aniquilar milhões de seres humanos, populações civis, soldados, mulheres, crianças, vilarejos, inteiras cidades, inteiros ecossistemas — com métodos de brutalidade cientificamente afiados.

Eis um piloto americano falando sobre as alegrias do napalm:

Certamente, estamos satisfeitos com os backroom boys da Dow. O produto original não era tão ‘quente’ — se os gooks (N.T.: pejorativo de asiático, ou de vietnamita, ou de soldado vietnamita do norte) fossem rápidos, poderiam removê-lo. Então, os backroom boys começaram a acrescentar polistireno — agora gruda feito bosta num cobertor. Mas se os ‘gooks’ se atirarem na água, parava de queimar, então eles começaram a acrescentar ‘Willie Peter’ [fósforo branco] assim eles poderiam queimar melhor. Queima até embaixo d’água. E só uma gota é o suficiente, continua queimando até o osso, assim eles morrem de qualquer jeito, por causa do envenenamento provocado pelo fósforo.

Portanto, os ‘gooks’ felizardos foram aniquilados para o seu próprio bem. ‘Better Dead than Red’("Melhor Morto que Vermelho’)..

Graças aos sedutores charmes de Hollywood e ao irresistível apelo da mídia de massas americana, todos esses anos que se seguiram, o mundo vê a guerra como uma história americana. A Indochina forneceu o fundo tropical exuberante do cenário no qual os EUA soltaram suas fantasias de violência, testaram suas mais recentes tecnologias, fizeram avançar sua ideologia, examinaram sua consciência, agonizaram com os dilemas morais e lidaram com sua culpa (ou fingiram fazê-lo). Os vietnamitas, cambojanos e laocianos foram só pontas no roteiro. Sem nome, sem rosto, meros humanóides de olhos puxados. Eles eram apenas as pessoas que morriam. Gooks.

A única lição verdadeira que o governo dos EUA aprendeu com a sua invasão da Indochina foi como ir para guerra sem engajar as tropas americanas e arriscar as vidas americanas. Assim, agora, temos guerras feitas por mísseis cruise de longo alcance, Black Hawks, "bunker busters" ("detonadores de casamatas"). Guerras nas quais os "aliados" perdem mais jornalistas do que soldados.

Para uma criança que cresceu no estado de Kerala, no Sul da Índia – onde o primeiro governo comunista do mundo eleito democraticamente chegou ao poder em 1959, ano em que nasci — eu ficava muito preocupada com o fato de ser gook. Kerala distava apenas poucos milhares de milhas ao oeste do Vietnã. Tínhamos florestas e rios e campos de arroz, e tínhamos comunistas também. Eu imaginava repetidamente minha mãe, meu irmão, e eu mesma sendo bombardeados e explodindo nos matagais por uma granada, ou sermos cortados em pedaços, como os gooks nos filmes, por um marine americano com braços musculosos e mascando chiclé, e um ruído barulhento de fundo. Nos meus sonhos, eu era a menina queimada daquela famosa fotografia tirada na estrada de Trang Bang.

Para alguém que cresceu no meio do vértice da propaganda americana e da propaganda soviética (situação na qual, mais ou menos, uma neutralizava a outra), quando li Noam Chomsky pela primeira vez, ocorreu-me que a exposição, o volume e a persistência da evidência era um pouco — como poderia dizer? — absurda. Mesmo um quarto da evidência que ele tinha compilado teria sido suficiente para me convencer. Eu me perguntava porque ele precisava de tanto trabalho. Porém, agora, entendo que a magnitude e a intensidade da obra de Chomsky é um barômetro da magnitude, do escopo, da persistência da máquina de propaganda contra a qual ele se depara. Ele é como a broca de madeira que reside dentro da terceira prateleira de minha biblioteca. Noite e dia, ouço sua mandíbula triturando a madeira, moendo a mesma até transformá-la em fino pó. É como se ele discordasse com a literatura e quisesse destruir a própria estrutura sobre a qual ela se assenta. Eu o chamo de Chompsky.

Sendo americano e trabalhando na América, escrever para convencer os americanos sobre o seu ponto de vista deve ser, realmente, como tentar abrir uma senda no meio de floresta densa de madeiras rigidíssimas. Chomsky é um dos indivíduos de um grupo muito reduzido que está combatendo todo um setor. E isso faz dele não apenas um ser brilhante, como também heróico.

Há alguns anos, numa entrevista comovente a James Peck, Chomsky falou sobre sua lembrança do dia em que Hiroshima foi bombardeada. Ele tinha 16 anos:

Lembro-me de que eu literalmente não conseguia falar com ninguém. Não havia ninguém. Saía caminhando sozinho. Estava num acampamento de verão naquele momento, e caminhei até a floresta e fiquei sozinho por algumas horas, depois que ouvi a notícia. Nunca podia falar com ninguém sobre isso e nunca entendi a reação das pessoas. Senti-me completamente isolado.

O isolamento produziu um dos maiores e mais radicais pensadores públicos de nossos tempos. Quando ocorrer o pôr-do-sol para o império americano, porque é certo que ele ocorrerá, é preciso que ele ocorra, a obra de Noam Chomsky sobreviverá.

Ele apontará um dedo seguro e acusador em direção a um império impiedoso e maquiavélico, tão cruel, convencido e hipócrita como aqueles que substituíu. (A única diferença é que esse está armado com um tipo de tecnologia que pode provocar um tipo de devastação no mundo jamais conhecida pela história e que a raça humana nem sequer pode começar a imaginar.)

Como eu podia ter sido gook e, quem sabe, talvez uma gook em potencial, é raro que se passe um dia sem que eu me encontre pensando – por uma ou outra razão – "Chomsky Zindabad".

14 de agosto de 2003

Os parâmetros da resistência

Amiya Kumar Bagchi

Monthly Review

Tradução / Como o imperialismo está fora de controle, e como as manifestações das suas perversidades penetram todos os poros da existência humana em toda a parte, a resistência contra ele também tem emergido de todas as células da organização social e política, assumindo formas muito diversas que desafiam uma classificação fácil. As formas de protesto tem-se multiplicado, assim o problema de escolher uma estratégia política adequada tornou-se muito mais difícil. Deve a resistência ser montada apenas globalmente? Devemos nós combater só as finanças licenciosas e a gula das corporações transnacionais dedicadas à pilhagem e deixar tudo o mais para ser resolvido depois de o combate global ter sido vencido? Ou vamos nós combater toda a pequena tirania por toda a parte — a corrupção de responsáveis municipais, a arrogância de patrões partidários que procuraram controlar a democracia local, e a insensibilidade das autoridades dos hospitais públicos? E iremos tratar como inimigos toda formação política que proporciona assistência e conforto a tais pequenos tiranos e burocratas pretensiosos?

Em grande parte do terceiro mundo, incluindo o subcontinente da Ásia do Sul, parece delinear-se uma linha que divide as lutas anti-sistêmicas ou anti-imperialistas em dois grupos. Num lado há os que acreditam na necessidade de fortalecer-se para lutar contra o capital global transnacional e combater para reverter as políticas que lhe permitiram subverter e controlar todos os principais governos. Os adeptos desta visão pensam que estratégias a longo prazo para tomar o poder do Estado têm de ser prosseguidas em direção a este objetivo. No outro lado, há outros que estão convencidos de que o combate contra tiranias que estão mutilando as vidas do povo têm de ser efetuado aqui e agora.

De fato, os ativistas políticos, se este é o nome que podemos dar ao primeiro grupo, têm de tratar com questões locais — e eles têm de provar sua sinceridade e competência no trato das mesmas. Tais compromissos construtivos são necessários, em acrescento à sua ideologia, para que possam construir sua base de apoio e fortalecer a resistência popular contra a opressão do capital e do aparelho de Estado. Entre os resistentes morais, para dar um nome ao outro grupo, também há alguns que não são relutantes em procurar a ajuda do aparelho de Estado a fim de consertar as injustiças que combatem. Mas há alguns resistentes morais que pensam que o Estado, como tal, é uma instituição perversa e o seu abraço deve ser evitado a todo custo.

Esta divisão, contudo, confunde-se nas margens. Muitas vezes tem sido difícil aos movimentos de resistência unificar os ativistas políticos e os resistentes morais. A divisão costuma ser descrita como sendo entre aqueles movimentos cujas ideologias focam o controle do poder do Estado e aquelas que muitas vezes procuram remediar males sem se incomodar com quem controla o Estado. Em geral, os chamados acadêmicos neutros têm preferido os resistentes morais àqueles que encaram como à procura do poder. A separação também tem sido descrita como um divisor de águas entre a visão de resistência dos comunistas ou socialistas e a visão foucauldiana, com o seu foco na natureza celular das estruturas opressivas e no seu surgimento inevitável sob qualquer Estado, por mais benignamente que possa tentar operar.

Nunca fui capaz de aceitar esta dicotomia como uma representação válida da resistência de hoje ao capitalismo imperialista, isto é, o capitalismo real dos séculos XX e XXI. O combate contra o imperialismo deve abarcar todos os aspectos da vida incluindo as formas de ideologia, o aparelho de Estado, e também a assim chamada sociedade civil. Tal combate tem de ser efetuado através da união de todas as formações anti-imperialistas genuínas. A imensa diversidade da existência humana, e os muitos diferentes meios de opressão que pesam sobre a sua existência, devem fazer parte da nossa compreensão dos motivos porque diferentes formas de resistência levantar-se-ão em diferentes contextos.

Divisões entre as forças anti-imperialistas, causadas em parte pela falta de uma tal apreciação, ajudaram a sustentar e apoiar o imperialismo ao longo da sua história. O maior dano ao movimento socialista internacional no século XX foi causado pela conflito sino-soviético de 1960. Uma das causas principais do conflito foi a falha da liderança soviética em apreciar que o socialismo pode desenvolver-se ao longo de diferentes caminhos em diferentes condições históricas. O congelamento da ditadura do proletariado em ditadura da burocracia do partido também tornou o socialismo realmente existente impenetrável às exigências específicas de povos com diferentes histórias e diferentes trajectórias. O combate com forças capitalistas-imperialistas exauriu o regime soviético e deu oportunidade às forças imperialistas de incitar nacionalidades e grupos étnicos contra os grupos apoiados pelo bloco soviético. Esta história deixou muitos movimentos anti-sistémicos genuínos suspeitosos de todas as formações que apoiem qualquer partido detendo poder ainda que de uma forma subordinada.

Por outro lado, a natureza esmagadora da investida do imperialismo em sua última encarnação convenceu muita gente nos movimentos sociais de que não basta combater tiranias e opressão local. Ao invés disso, é necessário procurar aliados que estejam preparados para combater o sistema em todas as suas ramificações atacando a raiz principal do imperialismo. O movimento ecológico na Índia, por exemplo, que principiou como um protesto contra o abate indiscriminado de árvores por comerciantes de madeira, pondo em perigo os meios de vida e os recursos de água das pessoas, em particular das mulheres, foi então assumido por todos os grupos de esquerda que resistiam à devastação do ambiente provocada pela caça ao lucro feita pelo capital. Os movimentos ecológicos estiveram presentes em força no recente Fórum Social Asiático realizado em Hyderabad, Índia.

Um dos legados infelizes do socialismo realmente existente, e dos partidos políticos a ele associados, foi uma fascinação com grandes fábricas, grandes barragens e grandes projectos em geral. Simbolizavam, para eles e para muitos nacionalistas não-comunistas, o ímpeto de todos os povos oprimidos rumo à industrialização e a sua procura da libertação de uma pobreza degradante. Jawaharlal Nehru, o primeiro-ministro da Índia independente, que partilhou alguns dos valores do movimento socialista global, denominou estas barragens e fábricas como os templos da Índia moderna. Contudo, muitas das fábricas e barragens estavam localizadas em sítios que haviam proporcionado abrigo e condições de vida para camponeses e utilizadores da floresta da Índia interior; tais pessoas foram deslocadas e receberam poucos benefícios dos projectos que destruíram os seus lares. Vários grupos deram voz ao descontentamento e desespero dos deslocados, mas havia uma tendência entre os movimentos comunistas organizados para encarar tais protestos com suspeição. Contudo, quando o Vale do Silêncio em Kerala, um dos mais ricos habitats de flora e fauna subtropical do mundo, foi ameaçado por um projecto de energia hidroeléctrica, o movimento para protegê-lo foi liderado pelo Kerala Sahitya Shastra Parishad. Este era uma frente, organizada principalmente por activistas comunistas, que procura difundir a literacia e elevar o conhecimento da ciência e dos cuidados de saúde entre pessoas comuns. Devido aos protestos, o projecto para produzir hidro-electricidade foi abandonado pelo governo e o Vale do Silêncio foi salvo.

O movimento contra grandes barragens chegou a um ponto crítico, atraindo atenção global, com o movimento contra a construção de uma barragem sobre o Rio Narmada, na Índia ocidental. O movimento ficou conhecido como Narmada Bachao Andolan (Salve o Narmada). Contudo, apesar de um movimento de protesto que perdurou mais de uma década, foi construída uma grande barragem sobre o Narmada. A obra já deslocou milhares de camponeses adivasis (ou seja, povos indígenas) e não-adivasis da área represada do rio. O projecto gigantesco é economicamente enfermiço e pode deixar de alcançar a sua lógica política: proporcionar água aos fazendeiros ricos de Gujarat. Os líderes principais do movimento de protesto, Medha Patekar e Baba Amte, construíram em torno disto a National Alliance for People's Movements (NAPM). A princípio havia suspeitas mútuas entre o a NAPM e os partidos da esquerda organizada, mas felizmente, face ao inimigo comum da globalização desenfreada dos ricos, pelos ricos e para os ricos, eles estão agora ombro a ombro contra a OMC e os programas de ajustamento estrutural e de privatização do governo central da Índia. Movimentos semelhantes foram montados contra a privatização da Bharat Aluminium Company (BALCO), localizada no território adivasi no actual Chhattisgarh na Índia central. Aquela terra foi tomada pelo governo sob o explícito entendimento de que seria utilizada só para finalidades públicas. A venda da companhia para uma empresa privada na lista negra a um preço absurdamente baixo e a colocação em perigo dos empregos dos trabalhadores conduziu a um protesto conjunto dos residentes adivasis e dos trabalhadores das companhia afectada. Os protestatários levaram a sua reclamação até ao Supremo Tribunal. Este, contudo, considerou como válida a avaliação da BALCO feita pela firma indicada pelo governo e assim encerrou o processo. Os julgamentos com viézes de classe são tão comuns na Índia como nos Estados Unidos, no fim das contas. Mais uma vez a influência ubíqua dos valores capitalistas ficou demonstrada. Entretanto, nem a Narmada Bachao Andolan nem os protestos contra a privatização da BALCO desapareceram da memória do povo e eles continuam a figurar regularmente no repertório dos movimentos ecológicos e dos movimentos orquestrados pelos partidos de esquerda. Os movimentos foucaldianos e os partidos políticos marxistas podem andar juntos apesar de tudo.

A Ásia do Sul, juntamente com a Ásia Ocidental e vários países do Leste e Sudeste Asiático, continuam a ser bastiões do chauvinismo machista. Uma característica importante dos fundamentalismos étnicos e religiosos é a sua tendência para reverenciar as mulheres como ícones e oprimi-las como seres humanos. Um dos mais esperançosos sinais de abertura da consciência popular para os seus direitos como seres humanos na Ásia do Sul durante as últimas décadas do século XX foi o crescimento do movimento das mulheres contra a opressão de género, classe e estado, e a exploração com base no isolamento da mulher dentro de casa. O movimento feminino tem estado activo na exigência de medidas estritas contra a violência doméstica, contra a enorme incidência de feticídio (homicídio de fetos) feminino executada com a ajuda da moderna tecnologia reprodutiva, e contra os assassínios de mulheres por dotes na busca de esposas mais lucrativas. As mulheres também têm protestado contra a utilização de muitas tecnologias de controle de nascimento que põem em perigo a saúde da mulher mas são lucrativas para companhias transnacionais e agências de ajuda com elas coniventes. O movimento exigiu que fossem reservados postos para mulheres em governos locais, em assembleias de estado e no parlamento central.

Em Gujarat, talvez o mais desenvolvido estado capitalista da Índia, desde Fevereiro de 2002 o Hindutva fascista utilizou o aparelho de Estado para orquestrar um genocídio de muçulmanos. Estas forças fascistas perpetraram brutalidades inéditas contra homens, mulheres e crianças (inclusive aquelas ainda no útero). Foram organizados protestos contra aquele genocídio por toda a Índia; organizações de mulheres e organizações dirigidas por mulheres difundiram as actividades de protesto a nível nacional, regional e internacional. É sabido que o fascismo na Índia, tal como na Bósnia e no Kosovo, utiliza os corpos da mulheres como sinalizadores da "honra" etnizada e como altos de ataques sobre o território inimigo. Na Índia, mesmo que a maior parte das formações políticas de esquerda ainda sejam dominadas pelos homens, elas tiveram de reconhecer a luta pela igualdade de direitos das mulheres como uma parte integral da luta do povo pela igualdade de justiça.

Por todo o terceiro mundo, as pessoas estão a combater pelos seus direitos sobre a água, terra, florestas e meios de vida, e as organizações locais muitas vezes nasceram da sua necessidade de levarem adiante o combate. Em Cochabamba, na Bolívia, os trabalhadores venceram um famoso combate para impedir uma corporação transnacional de usurpar todos os direitos dos residentes locais à água — água para irrigação, água para saneamento e água para beber. Na Índia, pescadores ganharam o direito de pescar no Ganges contra os que tentavam monopolizar as instalações pesqueiras naquele rio. Em lutas disseminadas por toda a Índia, muitos grupos locais exigiram e obtiveram o direito de se governarem na maior parte das áreas da vida. Na Índia, uma estrutura de governação local tem estado em operação parcial através de um sistema de corporações municipais e aldeias panchayat. Mas na maior parte dos estado, com excepção de Kerala, Tripura e Bengala Ocidental em que partidos de esquerda têm continuamente ou intermitentemente constituído o governo, as eleições para os panchayats e outras estruturas locais de autogovernação foram realizadas muito irregularmente. Na verdade, em alguns estado elas nunca foram feitas, sendo as estruturas administradas por pessoas nomeadas pelos governos dos estados. A 73ª e 74ª emendas à Constituição indiana determinaram eleições para aquelas estruturas e dotaram-nas com extensos poderes de administração local, incluindo o planeamento e a implementação de projectos de desenvolvimento. Em Kerala, Tripura e Bengala Ocidental estas estruturas deram um novo sentimento de autogoverno aos povos locais.

Contudo, assim como a maior parte dos Estados do terceiro mundo foram tornados impotentes pois ataram-nos à prisão da dívida, ao ajustamento estrutural e aos programas de privatização, também estas estruturas locais estão a ser penetradas pelas forças do imperialismo. A arquitectura da dominação financeira pelo grande capital erigida pelas corporações transnacionais, FMI, Banco Mundial, OMC e potência do G7 muitas vezes permanece invisível para o grosso dos trabalhadores, até que sejam atingidos pelas bombas de quilotoneladas dos bombardeiros furtivos e suas vidas sejam totalmente destruídas. Há uma ilusão entre alguns activistas de que o desmonte do Estado nacional é sempre uma coisa boa. Mas nos países pobres, em última análise, é apenas o Estado que pode proporcionar educação primária universal, cuidados básicos de saúde, saneamento básico, segurança alimentar para os pobres e protecção à propriedade dos recursos comuns. Conseguir que o Estado proporcione estas coisas faz parte da luta democráticas em todo o mundo.

Esta função de proporcionar serviços públicos exige que o Estado tenha recursos financeiros e administrativos adequados. A maior parte das nações-Estado foi privada de qualquer autoridade financeira devido ao seu endividamento. Os seus poderes de recuperação foram destruído porque criar empresas estatais, interferir em mercados ou lançar impostos sobre os ricos são acções consideradas, pelo capital global e os seus cúmplices, para além dos limites da sua autoridade legítima. Em países nos quais os Estados ainda têm recursos financeiros adequados para atender os serviços públicos necessários, as autoridades monetárias e fiscais tratam tais empreendimentos como desperdício criminoso, de modo que as estruturas locais são cada vez mais privadas dos fundos necessários para cuidar das necessidades humanas básicas das pessoas sob sua jurisdição. Com o crescimento dos fardos da dívida e o esgotamento das receitas disponíveis, eles têm então de voltar-se para agências de ajuda como o Banco Mundial e as suas muitas satrápias, a Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA ou Departamento para Desenvolvimento Internacional britânico para o financiamento de projectos. Ao empreenderem tais projectos acabam inevitavelmente por ficar enredados nas suas condicionalidades e então muitas autoridades políticas orientadas para a esquerda começam inevitavelmente a actuar como simples agentes de corporações transnacionais. A proliferação de ONGs financiadas pelo estrangeiro também precipita este desenvolvimento.

Portanto, a resistência contra as forças do capital global e do imperialismo precisa ser tanto a nível local como global. O povo deve agitar-se contra as actividades das transnacionais e do grande capital interno, contra o fortalecimento da repressão e da deliberada exacerbação de conflitos armados regionais em nome da defesa, e contra as operações de organizações antidemocráticas como o FMI, Banco Mundial e OMC. Ao mesmo tempo, os trabalhadores anti-imperialistas deve lutar por estabelecer o direito dos pescadores a pescarem em rios e águas costeiras, dos adivasis a utilizarem a água, as plantas e os recursos animais das suas localidades, dos habitantes das cidades a disporem de água e ar limpos, e das crianças a desenvolverem-se como cidadãos capazes.

O genocídio patrocinado pelo Estado em Gujarat e a criminosa agressão não provocada contra o Iraque pelas forças americanas e britânicas demonstraram que o capital não hesitará em utilizar todo o arsenal do fascismo para atingir os seus fins e que levantar o slogan dos "mercados livres" não é melhor do que chamar a agressão contra o povo do Iraque "Operação Liberdade Iraquiana". Estes ataques do capitalismo tornado fascista também demonstraram que a batalha, como sempre, é pelas mentes de homens e mulheres, bem como pelo controle dos meios de coerção. Bush e Blair usaram a falta de coordenação entre os governos da Ásia Ocidental e da África do Norte para montar a sua guerra. Em Gujarat, o enfraquecimento das lutas dos trabalhadores nas cidades e locais de trabalho deu uma oportunidade às formações Hindutva de recrutar os trabalhadores mais pobre e em pior situação económica para a sua campanha de extermínio dos muçulmanos. Não só os erros cometidos há mais de mil anos por um invasor que professava fé no Islão foram invocados pelas forças Hindutva. Também os eventos reais naquele antigo feudo foram adornados, manipulados e falsificados a fim de envenenar as cabeças dos adivasis assim como daqueles da casta hindus e dalitas. Analogamente, na publicidade aos actos criminosos dos governos americano e britânico no Afeganistão e no Iraque havia ecos da cruzadas dos cristãos contra os muçulmanos e o agitar de todos os muçulmanos como terroristas.

Na Índia, felizmente, embora alguns dos media estabelecidos tenham papagaiado a propaganda de Bush-Blair e as mentiras do Hindutva, houve outros grandes canais que tentaram retractar a realidade camuflada por aquela propaganda. Juntamente com a cacofonia dos media, protestos contra o genocídio de Gujarat e a carnificina no Afeganistão e no Iraque retumbaram na maior parte das cidades e regiões da Índia e também de outros países da Ásia do Sul. Mais pessoas do que nunca estão conscientes de que a liberdade está a ser posta em perigo pelas forças fascistas nos Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha e pelos seus apoiantes em velhos países imperialistas como Portugal e Espanha, assim como por aquelas a operarem na própria Índia, e de que temos de trabalhar duramente para impedir a vitória destas forças e preservar a dignidade dos seres humanos como criaturas com a capacidade de raciocinar e escolher. A resistência vive! Como dizemos na Índia, Inqilab Zindabad!