30 de abril de 2018

A frota dos EUA e seus mil mísseis no Mediterrâneo

Manlio Dinucci
Tradução / O porta-aviões estadunidense Harry S. Truman, partiu da maior base naval do mundo, em Norvolk, na Virgínia, e entrou no Mediterrâneo com o seu grupo de ataque.

Este é composto do cruzador lança-mísseis Normandy e dos caças-topedeiros lança-mísseis Arleigh Burke, Bulkeley, Forrest Sherman e Farragut, pouco depois outros dois, Jason Dunham e The Sullivans. Acrescenta-se ao grupo de ataque do Truman a fragata alemã Hessen.

A frota, que conduz a bordo mais de mil homens, tem um enorme poder de fogo.

O porta-aviões Truman – um super porta-aviões com mais de 300 metros de comprimento, dotado de dois reatores nucleares – pode lançar ao ataque, em ondas sucessivas, 90 caças e helicópteros. O seu grupo de ataque, integrado por quatro caças-torpedeiros que já se encontram no Mediterrâneo e por alguns submarinos, pode lançar mais de mil mísseis de cruzeiro.

Assim, fortalecem-se notavelmente as forças navais dos EUA para a Europa e a África, com quartel general em Nápoles-Capodichino e base da sexta frota em Gaeta, sob as ordens do mesmo almirante (atualmente James Foggo) que comanda a força conjunta aliada em Lago Pátria.

Isto se inclui no fortalecimento conjunto da força estadunidense na Europa, sob as ordens do mesmo general (atualmente Curtis Scaparrotti) que acumula a responsabilidade de Comandante supremo aliado na Europa.

Em uma audiência no Congresso, Scaparrotti explica o porquê de tal fortalecimento. O que este apresenta é um verdadeiro cenário de guerra: ele acusa a Rússia de conduzir “uma campanha de desestabilização para mudar a ordem internacional, fragmentar a OTAN e minar a liderança dos EUA em todo o mundo”.

Na Europa, depois da “anexação ilegal da Crimeia por parte da Rússia e a desestabilização da Ucrânia oriental”, os Estados Unidos, que deslocaram mais de 60 mil militares aos países europeus da OTAN, reforçaram tal deslocamento com uma brigada de blindados e uma brigada aérea de combate, e constituíram depósitos previamente posicionados de armamentos para o envio de outras brigadas de blindados.

Ao mesmo tempo, duplicaram a instalação dos seus navios de guerra no Mar Negro.

Para aumentar sua força na Europa, os Estados Unidos despenderam em cinco anos mais de 16 bilhões de dólares, empurrando ao mesmo tempo os aliados europeus a aumentarem a sua própria despesa militar de 46 bilhões de dólares em três anos para fortalecer a presença da OTAN contra a Rússia.

Isto faz parte da estratégia iniciada por Washington em 2014 com o golpe da Praça Maidan e o consequente ataque aos russos da Ucrânia: fazer da Europa a primeira linha de uma nova guerra fria para fortalecer a influência estadunidense sobre os aliados e obstaculizar a cooperação euro-asiática.

Os ministros do exterior dos países da OTAN reafirmaram em 27 de abril o seu consenso, preparando uma ulterior expansão da OTAN para o Leste contra a Rússia através do ingresso da Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Geórgia e Ucrânia.

Tal estratégia requer uma adequada preparação da opinião pública. Com essa finalidade, Scaparrotti acusa a Rússia de “usar a provocação política, difundir a desinformação e minar as instituições democráticas”, inclusive na Itália. Assim, anuncia que “os EUA e a OTAN contrastam a desinformação russa com uma informação verdadeira e transparente”.

No seu rastro a Comissão Europeia anuncia uma série de medidas contra as fake news, acusando a Rússia de usar “a desinformação na sua estratégia de guerra”.

É de se esperar que a OTAN e a União Europeia censurem tudo o que publico aqui, decretando que a presença da frota dos EUA no Mediterrâneo é uma fake news difundida pela Rússia no quadro de sua “estratégia de guerra”.

29 de abril de 2018

Os gerentes governam, não os capitalistas?

Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / O modo de produção capitalista está a chegar ao fim. Mas não está a ser substituído pelo socialismo. Ao invés disso, há um novo modo de produção, baseado numa classe de gestores (managerial class) que tem estado a formar-se na última centena de anos. Esta classe de gestores não explora a classe trabalhadora para a obtenção de valor excedente (surplus value) e a sua acumulação de capital. Os gerentes, ao invés, utilizam poder e controle o qual exercem através da gestão de transnacionais e da finança. A classe trabalhadora não será a "coveira" do capitalismo, como Marx esperava. A "classes populares", ao invés, devem pressionar a classe gerencial a ser progressista e moderna; e eliminar os vestígios da classe capitalista a fim de desenvolver uma nova sociedade meritocrática. Esta é a tese de um novo livro, Managerial Capitalism , de Gerard Dumenil e Dominique Levy (D-L), dois antigos e eminentes economistas marxistas franceses.

Participei no lançamento do livro em Londres, esta semana. No lançamento, Gerard Dumenil argumentou que a classe capitalista (isto é, quem possui os meios de produção) foi substituída pelos gestores que controlam as grandes companhias e tomam todas as decisões que importam. A classe capitalista agora é como a moribunda velha classe feudal no início do século XIX quando Marx entrou em cena. A classe capitalista assumiu então o comando e a classe feudal finalmente converteu-se em capitalista. Agora a classe dos gestores assumiu o comando e os capitalistas tradicionais estão cada vez mais a converterem-se na nova classe dos gestores.

Marx estava bem consciente da separação de funções no capitalismo entre o possuidor do capital e os gestores do capital corporativo. Como ele afirma no volume 3 do Capital: "Companhias por acções em geral (desenvolvidas com o sistema de crédito) têm a tendência para separar esta função de trabalho de gestão cada vez mais da posse de capital, seja ele possuído ou emprestado ... Mas desde que por um lado o funcionamento capitalista confronta o mero possuidor de capital, o capitalista do dinheiro, e com o desenvolvimento do crédito este capital dinheiro assume ele próprio um carácter social, sendo concentrado em bancos e emprestado por estes, não mais os seus proprietários directos; e desde que por outro lado o mero gestor, o qual não possui capital sob qualquer título, nem por empréstimo nem de outra forma, cuida de todas as funções reais que são precisas para o funcionamento capitalista como tal, ali permanece só o funcionário e o capitalista desaparece do processo de produção como alguém supérfluo". (ibid, p. 512).

D-L dedicam algum espaço no seu livro a recordar-nos que Marx estava consciente desta divisão. Mas Marx não via isto como conduzindo a uma nova classe de gestores. A divisão era simplesmente de aparência. O sistema não se havia alterado: "produzir valor excedente, isto é, trabalho não pago, e nas condições mais económicas para isto, é completamente esquecido face à antítese de que os juros acumulam-se para o capitalista mesmo se não desempenha qualquer função enquanto capitalista, mas é simplesmente o possuidor do capital; ao passo que o lucro da empresa, por outro lado, acumula-se para o capitalista em funções mesmo se ele não for o possuidor do capital com o qual ele funciona. Face à forma antitética das duas partes em que o valor excedente se divide, esquece-se que ambos são simplesmente partes do valor excedente e que uma tal divisão não pode de modo algum mudar a sua natureza, a sua origem e as suas condições de existência" (p. 504).

D-L consideram que esta visão da relação entre famílias puramente capitalistas e seus administradores está ultrapassada. Administradores, não famílias capitalistas, dominam agora. No livro, D-L apoia a sua tese com evidências empíricas sobre o aumento da desigualdade de rendimento nos EUA e outras economias principais. Os 1% do topo de receptores de rendimento nos EUA, que habitualmente seriam encarados como parte da classe capitalista, agora obtêm 80% do seu rendimento como salários por trabalharem como administradores e executivos de topo, não do rendimento do capital (dividendos, juros e lucros). Assim estas pessoas de topo são administradoras, não capitalistas. É por esta razão, argumentam D-L, que devemos rever a visão marxista tradicional de que administradores de topo são meramente funcionários da classe capitalista.

Mas os dados poderiam ser interpretados de outra maneira. Simon Mohum efetuou um trabalho empírico semelhante sobre de onde vem o rendimento das camadas do topo. Ele descobriu que a classe trabalhadora – aqueles que dependem unicamente de salários para viver – ainda constitui 84% da população trabalhadora. Os administradores constituem o resto, mas só 2% (Qc no gráfico abaixo) pode realmente viver só de rendas, juros, ganhos de capital e dividendos. Eles são a classe capitalista real. E esse rácio pouco mudou em 100 anos, ainda que a sua fonte direta de rendimento tenha mudado.


Além disso, este foi o grupo que mais ganhou durante os últimos 30 anos de aumento da desigualdade. O rendimento desta classe capitalista (Qc) aumentou de cerca de 9 vezes o rendimento médio da classe trabalhadora para 22 vezes enquanto os rendimentos dos administradores (Lpd na tabela) aumentou de 2,5 vezes para 3,5 vezes o rendimento dos trabalhadores. Assim, o aumento da desigualdade é primariamente o resultado da exploração acrescida (uma ascensão da taxa do valor excedente) em termos marxistas.

Sim, para os 1% do topo, a partir de 1980, a sua fonte de rendimento do "trabalho" tem flutuado em torno dos 60% do rendimento médio total (cerca do dobro do que era na década de 1920). Mas este topo de 1% dos administradores inclui banqueiros de investimento, juristas corporativos, administradores de hedge funds e de fundos de acções, executivos corporativos. Além disso, dois terços dos 1% do topo são administradores só de nome, pois uma proporção crescente destas ocupações executivas é de negócios de capital fechado (closely held business). Isso significa que possuem seu próprio negócio mas pagam-se salários a si próprios como a fonte de rendimento principal. Isto borra a distinção entre rendimento do trabalho e não-trabalho. Assim, os -3% do topo, de acordo com Mohum, ainda são capitalistas tais como Marx entendia isto, mesmo que se paguem a si próprios enormes salários e bónus.

Além disso, como mostra um estudo : "Os rendimentos de executivos, administradores, profissionais financeiros e profissionais da tecnologia que estão nos 0,1% do topo da distribuição de rendimento são muito sensíveis às flutuações do mercado de acções. A maior parte das nossas evidências apontam a um papel particularmente dos preços de activos no mercado financeiro, comutação de rendimento entre a base fiscal corporativa e pessoal, bem como possivelmente governança corporativa e empresarial, como explicação desta ascensão dramática nas fatias de topo do rendimento". Assim, o rendimento do seu trabalho depende dos mercados capitalista de acções e de activos financeiros.

Quanto aos administradores em geral, pela maior parte das definições eles constituem cerca de 17-20% da força de trabalho, mas parece um salto excessivo sugerir que eles constituem uma nova classe de gerentes, pois podem variar deste Jeff Bezos da Amazon até um supervisor da Walmarts. "Se bem que administradores supervisionem, a maior parte deles também são supervisionados e dividir a distribuição em classe trabalhadora e classe não trabalhadora não trata da questão de quem tem de vender a sua força de trabalho e quem não o faz. Ou seja, de modo algum os administradores podem ser considerados como um grupo homogéneo porque eles estão fundamentalmente divididos entre aqueles que podem vender sua força de trabalho mas não têm de fazer isso e aqueles que vendem a sua força de trabalho porque assim têm de fazer". Mohun.

Erik Olin Wright examinou a estrutura de classe de seis economias capitalistas avançadas e mostrou que os "administradores" fazem parte de um grupo misto num capitalismo moderno. Ao decompor os factores de qualificação de administradores, ele considerou que a maior deles é realmente de trabalhadores com qualificações. A classe trabalhadora propriamente dita ainda constituia mais de 70% da força de trabalho. O método de cálculo de Mohun descobre que a classe trabalhadora está mais próxima dos 80-85%.

Certamente, a questão real é: no interesse de que classe os administradores executam o seu trabalho administrativo? A própria natureza da economia capitalista obriga os administradores a administrarem no interesse dos 1%. Seus empregos dependem das decisões dos accionistas, do preço da acção da companhia e do desempenho dos seus ganhos, por mais altamente pagos que sejam.

Além disso, como previu Marx, a principal característica do capitalismo moderno é uma crescente concentração e centralização da riqueza (não do rendimento). E isso significa que a riqueza possuída nos meios de produção e não apenas riqueza familiar. Em 2016, os 1% de topo da população dos EUA possuíam 40% da riqueza líquida total, ao passo que os 80% da base possuíam apenas 10%. Na base da análise da estrutura de classe de Wright, isto sugere que os 1% do topo são uma combinação de capitalistas e peritos em administração . Os 20% seguintes em riqueza consistem dos capitalistas remanescentes e os dois terços dos administradores de topo. Os 80% da base em termos de riqueza são constituídos por um terço dos administradores e toda a classe trabalhadora (trabalhadores assalariados e supervisores).

O capitalismo moderno desenvolveu-se numa enorme rede de companhias interconectadas com participações accionistas cruzadas. Três teóricos de sistemas do Swiss Federal Institute of Technology, de Zurique, desenvolveram uma base de dados listando 37 milhões de companhias e investidores de todo o mundo e analisaram todas as 43.060 corporações transnacionais e as partilhas de propriedade que as ligam. Eles descobriram que um núcleo dominante de 147 firmas através de posições interconectadas com outras controla em conjunto 40% da riqueza existente na rede. Um total de 737 companhias controla 80% delas todas. Isto é o poder concentrado do capital. (147 controlam)

No lançamento do livro, Gerard Dumenil argumentou que esta concentração de propriedade entre um pequeno número de companhias globais, particularmente bancos, realmente demonstrou a tese de D-L. Eram administradores e directores financeiros que dirigiam estas companhias e tomavam decisões sobre fusões, etc ao passo que os accionistas seguiam-nos como carneiros. Isto seria a prova do "capitalismo dos administradores". Ao invés disso, eu argumentaria que é a prova de que, desde que Marx escreveu acerca de companhias por acções 150 anos atrás, o modo de produção capital tem dominando ainda mais globalmente o investimento, o emprego e a produção.

Uma das características inerentes do modo de produção capitalista é que ele gera crises de produção, investimento e emprego em intervalos regulares e recorrentes. Isto é a consequência da produção para o lucro por parte de proprietários privados individuais num mercado que funciona em contradição com as necessidades da sociedade. Isto é uma característica exclusiva do capitalismo. Terá ela desaparecido? Será que Marx não se demonstrou correcto ao prever que as crises se tornariam mais globais e danosas?

Dumenil parecia estar a sugerir que Marx estava errado acerca do crescimento das crises. No lançamento ele afirmou que a recente Grande Recessão tinha evitado uma grande depressão devido ao "managerialism". A crise foi administrada. Bem, a evidência é certamente ao contrário – como tenho argumentado extensamente neste blog e no meu livro, The Long Depression .

Contudo, Dumenil foi insistente em que aqueles de nós que se apegam às antigas análises e previsões de Marx precisam romper com o dogma e reconhecer o novo modo de produção que está diante de nós. A estratégia política que decorria disto para as "classes populares" (classes trabalhadoras) seria revigorar a luta de classe – mas não para a substituição do capitalismo pelo socialismo. Isso não iria acontecer. Mas o objectivo ao invés devetia ser pressionar a classe dominantes dos administradores (progressista?) para a esquerda a fim de introduzir reformas pró trabalho e isolar a pequena e enfraquecida classe capitalista. Bem, se a classe trabalhadora ainda é 80% da população adulta nas economias mais avançadas (quem dirá alhures) e o capital está ainda mais concentrado e centralizado do que nunca, por que não derrubar também o "managerial capitalism" ?

Cuba em 1968

1968 foi um ponto de virada decisivo na Revolução Cubana.

Samuel Farber

Jacobin

Uma passeata em memória das vítimas da explosão do La Coubre em Havana, Cuba, em 5 de março de 1960. Wikimedia

Tradução / Em 1960, menos de dois anos depois de ter derrubado a ditadura de Batista, a Revolução Cubana avançava com a implementação do modelo soviético. A maioria das pessoas ainda apoiava a revolução. Apesar da escassez de bens de consumo e a crise de moradia, a maioria dos cubanos se havia beneficiado do novo estado de bem-estar, que assegurava um nível de vida austero, porém seguro.

Graças a esse apoio e à entusiasta resposta popular em forma de resistência ao imperialismo estadunidense, os dirigentes cubanos prosseguiram em seus objetivos de política exterior, com um espírito revolucionário ausente até mesmo no bloco soviético, mais cauteloso e conservador.

Cuba avançou com uma política anti imperialista particularmente vigorosa na América Latina, apoiando – e às vezes até organizando – grupos guerrilheiros, com o objetivo de derrubar governos ditatoriais. O governo de Fidel Castro prestou uma atenção especial aos países que haviam cortado relações com Cuba, obedecendo as diretrizes de Washington. Ou seja, a política exterior militante de Castro se baseava não só em suas ideias revolucionárias, como também nos interesses do Estado cubano.

Isso ajuda a explicar por que Castro manteve relações amistosas com um México corrupto e autoritário, já que foi o único país da América Latina que se negou a romper as relações diplomáticas com a Cuba revolucionária. Aliás, o governo de Castro se absteve de criticar os crimes do México, incluindo a matança de Tlatelolco, de outubro de 1968.

O Granma, órgão oficial do Partido Comunista de Cuba, adotou uma postura jornalística puramente “objetiva” na cobertura de Tlatelolco, o que permitiu evitar qualquer análise crítica dos fatores políticos por trás da matança. Enquanto a esquerda mexicana denunciava o assassinato de centenas de manifestantes, o Granma informou, com estilo acrítico, as cifras “provisórias” proporcionadas pelas “fontes oficiais”: somente 30 falecidos, 53 feridos graves e 1,5 mil detidos.

Razões de Estado também explicam porque, depois de um começo difícil, Fidel estabeleceu relações amistosas com a ditadura de Franco, e porque a hierarquia revolucionária cubana, seus sindicatos oficiais e organizações de estudantes, não apoiaram o movimento de Maio de 68 francês. Não só o presidente francês Charles De Gaulle se negou a seguir a linha dos Estados Unidos contra Cuba como também manteve o comércio, que era de vital importância para a ilha após o embargo estadunidense. Como no caso de Tlatelolco, no México, o Granma se limitou a informar “objetivamente” os acontecimentos de Maio de 68. Simplesmente, evitou fazer análises ou conclusões políticas.

Apesar destas contradições, a política exterior inicial dos Castro foi regida por um conjunto de ideias revolucionárias cujo objetivo era estabelecer sistemas similares ao de Cuba em toda a América Latina. Seu governo apoiava e organizava grupos de foco que seguiam o modelo cubano, o que provocou ásperos conflitos com os partidos comunistas gradualistas e pró-Moscou em países como Venezuela e Bolívia. Também teve fricções com a própria União Soviética, porque estas políticas de Castro colocavam em perigo o velho acordo entre os soviéticos e os Estados Unidos, segundo o qual as duas potências imperiais e seus sócios não deveriam intervir nas esferas de influência do outro.

Esta tensão chegou a um ponto máximo em 1967, quando Moscou começou a reduzir significativamente seus envios de petróleo a Cuba, para pressionar a ilha e moderar sua agressiva política exterior. Mas Castro não se deixou influir. Respondeu denunciando os gestos amistosos da URSS a Venezuela e Colômbia, apesar de sua repressão anticomunista. Se negou a enviar uma figura política cubana de alto nível à celebração do 50º aniversário da Revolução Russa, em novembro de 1967. E, na celebração do 9º aniversário da Revolução Cubana, em janeiro de 1968, de forma expressa, embora diplomaticamente, incluiu o racionamento de petróleo em Cuba, com os atrasos nos envios soviéticos, em seu discurso. Em consequência, a URSS suspendeu o fornecimento de equipes militares e a assistência técnica.

Quando começou a se plantear o conflito entre o governo comunista reformista da Tchecoslováquia e Moscou, muitos se perguntaram qual seria a resposta cubana. Durante meses, o Granma publicou muito pouco sobre a Tchecoslováquia, ignorando por completo as reformas da Primavera de Praga e seu impacto na esquerda internacional. Isso mudou, entretanto, em meados de julho, quando o periódico começou a cobrir a crescente confrontação entre Tchecoslováquia e URSS com mais profundidade.

O mais provável é que Castro tenha reconhecido que os pontos centrais da dinâmica dos acontecimentos tchecos haviam mudado. No começo, os manifestantes pediam reformas internas e a democratização, que Castro não queria que se conhecesse na Ilha – da mesma forma, o Granma não cobriu os movimentos estudantis na Polônia e na Iugoslávia, que ocorreram em março e junho daquele ano. Mas em julho, ficou evidente que a confrontação entre Tchecoslováquia e a URSS era inevitável, e que plantearia a questão da soberania nacional. A agressão do imperialismo estadunidense fez com que a questão se tornasse especialmente importante para Castro, e o incipiente conflito entre Cuba e a URSS fazia com que a disputa fosse ainda mais urgente.

O Granma se centrou no conflito externo entre URSS e Tchecoslováquia, ignorando a dimensão interna, e escreveu com detalhes as reações de outros partidos comunistas diante desta confrontação, independentemente de qual lado apoiava. Era evidente que o periódico – e consequentemente Fidel Castro, seu governo, e o Partido Comunista de Cuba – não tomariam partido. Aliás, o comandante tentou recolher as posições de ambos os lados com o mesmo cuidado.

Mas tudo isso mudou quando Fidel, sem ter dito sequer uma palavra sobre o conflito, apoiou a invasão soviética, em agosto. O Granma imediatamente adotou a linha soviética, e começou a publicar declarações das organizações de massas cubanas, elogiando o apoio de Fidel à invasão. Se produziram outros sinais para apaziguar os soviéticos e merecer mudanças a seu favor. Cuba cortou seu apoio às guerrilhas na América Latina e, nos anos 70, levou a cabo uma aproximação com os partidos pró-comunistas de Moscou na região, reconhecendo que a luta armada era só uma das vias possíveis da luta revolucionária. Em contrapartida, os partidos comunistas reconheceram o papel de vanguarda de Cuba na luta anti imperialista no hemisfério.

Este foi o começo do que o ex-diplomata soviético Yuri Pavlov chama de “tardia lua de mel” entre a URSS e Cuba, que se prolongou até os anos 80. Em junho de 1969, o representante de Cuba na Conferência Internacional de Partidos Comunistas, em Moscou se uniu à maioria pró soviética na denúncia da posição “sectária” da China. Em troca, a União Soviética enviou uma frota de guerra a visitar Cuba. Logo, se produziu um intercâmbio de delegações militares. O marechal Andrei Grechko, ministro de Defesa soviético, foi a Havana, em novembro de 1969, e Raúl Castro, ministro de Defesa de Cuba, viajou a Moscou, em abril e outubro de 1970. O fluxo de armas soviéticas passou a ser mais intenso, e Fidel Castro aprovou a construção de uma base para os submarinos soviéticos em águas profundas, na região de Cienfuegos.

Até que chegou o tempo das mútuas visitas de Estado, e em 1972 Cuba se uniu ao Conselho de Assistência Econômica Mútua (CAEM), dirigido pelos soviéticos. Nesse período, Cuba se voltou para a África, como foco principal de sua política exterior revolucionária. Diferente da América Latina, seus interesses estratégicos eram os mesmos que os de Moscou.

Castro conseguiu apaziguar as relações com os soviéticos, mas manteve seu direito a estar em desacordo com algumas das políticas soviéticas, o que fazia de Cuba um sócio menor, em vez de um satélite da URSS. Tanto é assim que Castro havia tido esta posição desde o começo. Em seu discurso de apoio à invasão da Tchecoslováquia, não só criticou o “liberalismo” de Alexander Dubcek como também a política de coexistência pacífica da União Soviética com os Estados Unidos. O líder cubano se perguntou, sarcasticamente, se os soviéticos enviariam tropas do Pacto de Varsóvia para ajudar a defender Cuba de um ataque dos imperialistas ianques.

Nacionalização completa
Nesse mesmo ano, Castro iniciou o que chamou de “ofensiva revolucionária”: uma política destinada a nacionalizar totalmente a economia da ilha. O estado já havia assumido as grandes e médias empresas durante os Anos 60, mas os negócios familiares permaneceram em mãos privadas.

Depois de 16 dias de campanha, a imprensa oficial anunciou que mais de 55 mil pequenas empresas haviam sido nacionalizadas, incluindo armazéns, barbearias e milhares de comércios. A ofensiva revolucionária fez com que Cuba tivesse o índice mais alto do mundo de propriedade nacionalizada.

Segundo o economista cubano Carmelo Mesa-Lago, 31% destas pequenas empresas eram comércios varejistas de alimentos, e 26$ proporcionavam serviços de consumo, como conserto de automóveis ou de sapatos. Os restaurantes e as pequenas lanchonetes representavam 21%, e também havia 17% de lojas de roupas ou calçados. O resto (cerca de 5%) eram pequenos estabelecimentos artesanais de couro, produtos de madeira e têxteis. A metade dessas pequenas empresas eram familiares ou trabalhadas pelos próprios donos, sem empregados.

Pouco depois da nacionalização, o Estado fechou um terço das pequenas empresas. A única atividade privada que restou em Cuba foi a pequena agricultura, na que 150 mil agricultores possuíam 30% da terra em explorações de menos de 165 acres cada uma.

Um dos objetivos da ofensiva revolucionária foi fechar os milhares de bares em Cuba, tanto privados como estatais. O regime queria que encerrassem essas atividades, não devido à uma proibição às bebidas alcoólicas, mas porque acreditava que esses bares fomentavam um ambiente social pré-revolucionário, antitético a favorecia campanhas militaristas e anti urbanas contra o governo de Castro para forjar o “homem novo”.

Estas campanhas se iniciaram em 1963, quando Castro atacou a homossexualidade e o não conformismo cultural. Com a esperança de insistir na centralidade do estado na vida dos cidadãos, também perseguiu os dissidentes religiosos, incluindo as testemunhas de Jeová, católicos e seguidores da sociedade secreta afro-cubana abakuá. Os membros destes grupos foram encarcerados nas Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP), campos de trabalhos forçado estabelecidos em 1965 e dissolvidos em 1968.

A nacionalização de todas as pequenas empresas da ofensiva revolucionária também pretendia dar ao Estado um controle completo sobre a produção agrícola. Muitos dos comerciantes desapropriados compravam produtos agrícolas a preços elevados, o que reduzia a quantidade disponível para a distribuição estatal.

Além disso, concedeu ao Estado mais poder sobre a força de trabalho. O abandono do trabalho, gerado pela falta de bens de consumo, se havia transformado em um problema importante. Para combatê-lo, a direção cubana redigiu uma lei contra a desocupação, que se promulgou em 28 de março de 1971. A legislação ordenou a todos os homens adultos a trabalhar em jornada completa e estabeleceu uma variedade de castigos que iam desde a prisão domiciliar ao internamento em centros de reabilitação de trabalho forçado. Não há informações sobre sua aplicação.

A ofensiva revolucionária exemplifica o foco “idealista” super voluntarista de Castro da socialização. A política equiparava a propriedade privada em geral com a propriedade privada capitalista em particular, uma má interpretação do socialismo utópico ao socialismo científico de Friedrich Engels.

Nessa obra, Engels diferencia o capitalismo moderno, no que os capitalistas individuais se apropriam dos produtos da atividade social e coletiva, do socialismo, onde a produção e sua apropriação estão socializadas. Em consequência, o objetivo da socialização é a propriedade produtiva que implica trabalho coletivo, não o trabalho individual ou a unidade produtiva familiar, para não falar da propriedade pessoal.

Ademais desta confusão, o governo cubano não estava em condições de arcar com a questão da distribuição de bens e serviços das pequenas empresas: o programa de nacionalização piorou, em vez de solucionar a escassez de bens de consumo.

A campanha da safra de açúcar prevista, desde janeiro de 1969 até julho de 1970, é outro exemplo da orientação voluntarista de Castro. Esse esforço exagerado nunca alcançou seu objetivo. Em seu lugar, desviou recursos de produção e de logística escassos, causando graves transtornos na economia da ilha.

Como mostra a historiadora Lillian Guerra, a campanha foi muito mais que um exercício de voluntarismo ou de “idealismo”. Seu objetivo era não só “reativar o otimismo popular” dos primeiros anos da Revolução, portanto, recuperar os níveis de apoio incondicional às políticas do governo, “e ainda mais importante, demonstrar também o valor da disciplina do trabalho e impor seu cumprimento”.

Da mesma forma, Castro utilizou a ofensiva revolucionária para mobilizar a maior quantidade de mão de obra possível para a produção, particularmente na agricultura, com o fim de reforçar a disciplina, otimizar recursos e exortar os trabalhadores a aumentar a produtividade e fazer trabalho voluntário. Em abril de 1968, a confederação sindical oficial recrutou um quarto de milhão de trabalhadores para realizar tarefas agrícolas sem pagamento doze horas por dia, durante três ou quatro semanas. Cerca de 2,5 milhões de jornadas foram “doadas” pelos trabalhadores que passaram 14 semanas nas plantações de café.

Estas campanhas foram lançadas em resposta à crise econômica daquela década, que piorou qualitativamente com o criminoso bloqueio econômico dos Estados Unidos imposto no começo daquela década. Mas a administração vertical burocrática e caótica da economia gerou essa crise.

Como Andrés Vilariño, um economista do governo cubano apontou a ineficiência dos investimentos foi uma das principais causas da queda da produtividade econômica nos Anos 60. Por exemplo, uma parte da cara maquinária importada terminou se enferrujando sem sair dos portos e armazéns. Enquanto isso, o fornecimento inadequado de bens de consumo, combinado com a falta de controle dos trabalhadores do processo de produção e a ausência de sindicatos independentes, gerou um sentimento de apatia entre os trabalhadores cubanos. A falta de transparência na tomada de decisões, para não falar da inexata informação econômica procedente de pequenos gestores com medo de represálias se informavam de más notícias, produziu um mau planejamento e desperdício, agravados pelas intervenções e a caprichosa micro gestão de Fidel Castro.

Em um caso revelador, tentou-se introduzir uma nova raça de gado, contrariando a opinião dos especialistas britânicos que o próprio governo havia levado a Cuba. O projeto desperdiçou milhões de dólares.

Novos objetivos
Em 1968, Castro deteve a repressão que já estava em marcha contra os inimigos do seu governo (inclusive contra os setores críticos dentro da esquerda pró revolucionária). Em primeiro lugar, o governo eliminou algumas das formas mais duras de castigo, desativando, por exemplo, os campos de trabalho agrícola (UMAPs). Em segundo lugar, os esforços policiais do governo se centraram em qualquer expressão política e cultural que se desviasse da linha oficial do partido.

Um exemplo disso foi o do antigo líder comunista Aníbal Escalante. Em 1962, ele foi purgado do governo e do partido, e logo preso, acusado de sectarismo, por tentar acumular poder mediante a exclusão dos revolucionários que não pertenciam ao antigo Partido Comunista pró-Moscou de posições de governo. Em 1968, foi novamente purgado e preso, dessa vez acusado de formar uma microfacção dentro do Partido Comunista de Cuba, de criticar as políticas econômicas de Castro. Também foi acusado de se reunir com diplomatas do Leste Europeu, com o fim de obter seu apoio. Para Fidel – e seu irmão Raúl, responsável oficial da investigação sobre Escalante – esta microfacção colocava em perigo seus esforços para impor uma só linha no partido.

O “caso Escalante” demonstra a desproporção entre a suposta ofensa e o castigo. Não só eram corretas muitas das críticas de Escalante das políticas econômicas de Castro – em especial com respeito à desastrosa “safra das dez milhões de toneladas” – senão que não havia a menor evidência de que Escalante e seu pequeno grupo estiveram conspirando para eliminar ou derrubar o governo cubano, com ou sem o apoio dos diplomatas do Leste Europeu. O grupo podia ser “antipatriota”, como acusou o governo, mas suas atividades eram pacíficas e, portanto, objeto do debate político público. Por outro lado, o regime, seguindo a tradição stalinista, o transformou num processo criminal.

Castro levou 35 dos 37 membros do grupo de Escalante a julgamento, por um Conselho de Guerra, que o governo orquestrou especialmente para impor penas severas. Escalante foi condenado a 15 anos de prisão e 34 dos seus colaboradores foram condenados a penas de entre 1 e 12 anos. Os dois membros restantes pertenciam as Forças Armadas e, portanto, foram colocados à disposição do promotor das Forças Armadas Revolucionárias para seu processamento.

Com estes procedimentos processuais paralelos, o governo reconheceu implicitamente que a maior parte do grupo de Escalante eram civis que, se supunha, deviam ser processados de forma diferente e com códigos legais menos duros que os militares. Apesar desta diferença implícita, enfrentaram a um Conselho de Guerra, onde foram ditadas sentenças mais duras do que se seria num julgamento normal.

Castro também dirigiu sua atenção aos dissidentes cubanos no âmbito cultural. Em janeiro de 1968, o governo abriu o Congresso Cultural de Habana, convidando a mais de quinhentos intelectuais de setenta países, entre eles proeminentes científicos sociais de esquerda e historiadores, como Ralph Miliband e Eric Hobsbawm, reconhecidas personalidades literárias caribenhas e latino-americanas, como Aimé Césaire, Julio Cortázar e Mario Benedetti, escritores europeus famosos, como Michel Leiris, Jorge Semprún e Arnold Wesker, assim como políticos de esquerda e vários dirigentes dos Estados Unidos. O Congresso, que se centrou no tema do anti imperialismo, desde uma perspectiva política, econômica e cultural, transcorreu ostensivamente de uma maneira aberta. Segundo observadores independentes, todas as apresentações e resoluções propostas pelos participantes foram recolhidas sem nenhuma interferência.

Graças a esta aparente abertura, nem os estrangeiros, nem muitos dos intelectuais cubanos convidados suspeitaram que um importante grupo de intelectuais e artistas cubanos negros – entre eles Rogelio Martínez Fure, Nancy Morejón, Sara Gómez, Pedro Pérez-Sarduy, Nicolás Guillén Landrián, e Walterio Carbonell – haviam sido excluídos.

Segundo o autor cubano negro Carlos Moore, o grupo esteve reunido para discutir a falta de medidas do governo cubano contra o racismo, um problema que os líderes revolucionários afirmavam ter resolvido com a abolição da segregação racial nos Anos 60. Em resposta a um rumor desses intelectuais, haviam redigido um documento programático sobre raça e cultura em Cuba, para apresentá-lo durante o Congresso. O então ministro de Educação, José Llanusa Gobe, os chamou a uma reunião privada, dias antes do evento. Depois de escutar as críticas, Llanusa os acusou de ser “sediciosos” e disse a eles que a “revolução” não permitiria criar uma “brecha” racial no povo cubano. Explicou que a ideia em si de seu “manifesto negro” era uma provocação da qual deveriam se retratar, ou enfrentar as consequências.

Depois, foram proibidos de assistir ao Congresso. Todos os assinantes do manifesto sofreram algum grau de castigo. Os mais que não quiseram se retratar ficaram com as penas mais duras, como Nicolás Guillén Landrián, sobrinho do famoso poeta nacional e então presidente da União de Escritores e Artistas de Cuba, Nicolás Guillén Batista. Depois do Congresso, ele foi detido em várias ocasiões e, mais tarde, abandonou o país como exiliado.

Walterio Carbonell, um dos líderes do grupo, também se negou a retratar sua posição. Um expoente cubano da política de Poder Negro, havia pertencido ao antigo Partido Comunista Cubano pró-Moscou. Ironicamente, havia sido expulso dessa organização por apoiar o ataque de Fidel Castro ao quartel Moncada, em 26 de julho de 1953. Depois da Revolução, foi nomeado embaixador de Cuba para a Frente de Liberação Nacional da Argélia (FLN). Em 1961, publicou seu livro “Crítica: Como surgiu a cultura nacional de Cuba”, no qual sustentava que os negros cubanos tiveram um papel importante na guerra da independência e no estabelecimento da República, um fato que a cultura racista branca e as instituições de antes da Revolução haviam apagado. Por outra parte, afirmou que a experiência cubana negra estava no coração do radicalismo da Revolução cubana: em consequência, a luta contra o racismo fortalecia em vez de debilitar a Revolução.

Como consequência destes argumentos, Carbonell sofreu diversas formas de detenção, entre 1968 e 1974, incluindo a de trabalho forçado. Segundo Lillian Guerra, depois de ser liberado, em 1974, continuou defendendo suas ideias, e por isso foi internado em vários hospitais psiquiátricos e submetido a eletrochoques e terapias com medicamentos por dois ou três anos. Depois disso, Carbonell passou seus últimos anos como um investigador pouco conhecido na Biblioteca Nacional.

Diferente do que aconteceu com Carbonell, o caso da repressão ao poeta e jornalista cubano Heberto Padilla se fez muito conhecido rapidamente. Em 1968, Padilla foi premiado com o mais prestigioso prêmio da União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC) por seu livro de poemas “Fora de Jogo”. Mas o governo se opôs ao espírito crítico e inconformista de Padilla, e condenou sua obra, obrigando a UNEAC a mudar sua posição também.

Condenado ao ostracismo e sem poder publicar em Cuba, Padilla foi preso por ter se atrevido a ler vários de seus novos poemas em público e tentar publicar uma nova novela. Em 1971, foi obrigado a confessar, de forma stalinista, seus pecados políticos. Isso provocou um escândalo internacional, e um grande grupo de conhecidos intelectuais simpatizantes da Revolução Cubana, como Jean-Paul Sartre e Julio Cortázar, protestaram. Em resposta, o regime proibiu e retirou das bibliotecas do país as obras de qualquer intelectual latino-americano e europeu que se opôs à forma como se tratou o caso de Padilla.

Em 1968, o governo começou a usar a repressão para impor uma linha cultural monolítica. Esta guinada criou as bases do que logo se chamou Quinquênio Cinza – o período entre 1971 e 1976 –, no qual o regime de Castro reprimiu brutalmente qualquer tipo de expressão inconformista. Em 1971, o Congresso Nacional de Educação e Cultura atacou brutalmente os artistas e intelectuais homossexuais, proibiu os gays de representar a Cuba no exterior em missões artísticas, políticas e diplomáticas, além de qualificar a irmandade afro cubana Abakuá afro cubana de “foco de criminalidade” e “delinquência juvenil .”Durante esses cinco anos, o governo impôs “parâmetros’ aos profissionais dos campos da educação e da cultura com a finalidade de examinar suas preferências sexuais, suas práticas religiosas e que relações mantinham com as pessoas no exterior, entre outras questões políticas e pessoais.

O falecido arquiteto cubano Mario Coyula Cowley insistiu durante anos em dizer que o Quinquênio Cinza havia sido, na verdade, “quinze anos de amargura”, porque começou, de verdade, na segunda metade dos A. A esperança de que Castro apoiasse a autodeterminação nacional da Tchecoslováquia e os acontecimentos revolucionários de 1968 para traçar um caminho independente e mais democrático para a Revolução Cubana, evaporaram rapidamente.

Sobre o autor
Samuel Farber nasceu e se criou em Cuba, país ao qual dedicou grande parte do seu trabalho de investigação nos Estados Unidos. Foi um dos dirigentes do movimento pela liberdade de expressão na Universidade de Berkeley, Califórnia, nos Anos 60, e um reconhecido ativista da esquerda socialista dos Estados Unidos.

27 de abril de 2018

A democracia revolucionária de 1917

Aqueles que traçam uma linha reta da Revolução de Outubro ao stalinismo invariavelmente ignoram a guerra civil que houve no meio.

Soma Marik

Jacobin


A assembléia soviética de Petrogrado, 1917. Kristallstadt / Wikimedia

Por quase um século, a maioria dos comentadores concordou que a Revolução de Outubro representou uma tomada antidemocrática do poder de Estado. Em vez de permitir que a democracia liberal viesse a crescer depois de fevereiro, os bolcheviques agiram rapidamente para assumir o controle.

Mas quão democrático era o liberalismo russo em 1917? Formas alternativas de participação democrática - estruturadas através de sovietes, comitês de fábrica, comitês de terra camponesa e outros órgãos - estavam disponíveis? Contra o consenso geral, a história da Revolução Russa sugere que, em vez de serem antidemocráticos, os bolcheviques apoiavam as forças democráticas mais radicais de seu tempo contra as tentativas dos liberais de restringir essas forças.

Democracia na Revolução de Fevereiro

Os liberais russos queriam evitar completamente a revolução enquanto a Primeira Guerra Mundial continuasse. Quando a insurreição de fevereiro começou, eles permaneceram leais ao czar e, quando o primeiro-ministro Golytsin assinou a ordem para dissolver a Duma, eles não se opuseram.

O mais longe que os liberais iriam era formar um comitê privado de membros da Duma para se manterem informados. Somente quando a queda do czar se tornou inevitável, este comitê se tornou o Governo Provisório.

Como Tsuyoshi Hasegawa explicou há quase quatro décadas, os liberais tentaram implementar uma política impossível: legitimaram seu governo provisório com referência ao antigo regime. Embora eles tivessem aceitado a dissolução da Duma, eles ainda assim reivindicavam autoridade porque o Governo Provisório emergiu daquele corpo.

Ao lidar com o czar, eles se mostraram defensores da lei e da ordem contra a anarquia. Mesmo quando eles pediram sua abdicação, foi na esperança de evitar a revolução.

Quase tão logo o Governo Provisório se formou sob o príncipe Lvov, deixou claro seu desinteresse pela democracia. Em um padrão estabelecido pela Revolução Francesa, a criação de uma assembléia constituinte eleita acompanhou a conclusão de um levante democrático bem-sucedido, mas o Governo Provisório fez todo o possível para adiar essa votação.

Em 3 de março, declarou que as eleições seriam realizadas com base em votos universais, secretos, diretos e iguais. Esta foi uma reforma ousada considerando o sistema de votação indireta e baseado em classe da Duma czarista. Mas no dia seguinte, Pavel Miliukov, líder dos Democratas Constitucionais (o principal partido liberal), informou ao embaixador francês que estava tentando evitar marcar uma data.

O Governo Provisório também se recusou a dizer se as mulheres poderiam participar. Desde a revolução de 1905, o movimento feminista russo exigiu o sufrágio das mulheres. Agora as feministas estavam cautelosas, porque o governo não esclareceria se "universal" incluía mulheres. Alexander Kerensky, o único socialista no primeiro Governo Provisório, declarou em 11 de março que a questão dos direitos de voto das mulheres teria que esperar pela decisão da Assembléia Constituinte.

As feministas organizaram uma grande manifestação em 19 de março. Quarenta mil mulheres marcharam, incluindo um número significativo de trabalhadoras, mas rejeitaram a bolchevique Alexandra Kollontai quando ela tentou fazer um discurso.

O Governo Provisório alegou que a inclusão de votos para mulheres atrasaria as eleições. As feministas pressionaram líderes moderados nos sovietes e, em 20 de julho, o governo modificou a lei. Mas, a essa altura, os liberais já estavam planejando um golpe com um general de direita, de modo que isso dificilmente conta como uma reviravolta democrática da parte deles.

Podemos ver as tentativas menos sérias do Governo Provisório para organizar eleições democráticas quando examinamos o processo em detalhes. O governo levou três semanas para anunciar os nomes dos membros da comissão eleitoral. Então as discussões se arrastaram por mais dois meses, enquanto os comissários debatiam desde a idade do sufrágio até se os desertores e a família do czar deveriam ter direito ao voto.

Todos esses obstáculos processuais ajudaram o Governo Provisório a adiar o anúncio da data. Finalmente, em junho, durante o Primeiro Congresso dos Sovietes - enquanto a força bolchevique entre os trabalhadores de Petrogrado aumentava maciçamente e à medida que crescia o clamor para que o Congresso dos Sovietes tomasse o poder - o Governo Provisório agia. Em 14 de junho, declarou que as eleições ocorreriam em 17 de setembro.

Mas quando a maioria dos liberais se demitiu do governo no início de julho, o novo governo de coalizão insistiu que as eleições fossem adiadas para 12 de novembro. Enquanto isso, esses liberais apoiavam a conspiração do general Kornilov, que teria colocado fim a qualquer eleição democrática.

Auto-organização de classe

Em contraste com a resistência liberal do Governo Provisório à democracia, muitas instituições surgiram depois de fevereiro, que entregaram o controle político e econômico aos trabalhadores, soldados e camponeses.

Na revolução de 1905, os trabalhadores criaram sovietes sem levar em conta a afiliação política. Eles elegeram seus próprios representantes e somente concederam papéis consultivos aos líderes partidários. Em fevereiro de 1917, o chamado para eleger sovietes veio de dois setores: militantes e ativistas de esquerda, notadamente o comitê distrital de bolcheviques de Vyborg.

O Partido Operário Social-Democrático Russo (POSDR), um grupo mais conhecido como Mezhraionka, foi o primeiro a pedir sovietes, que o partido acreditava que se tornaria o verdadeiro governo revolucionário. Em contraste, os mencheviques formaram o Comitê Executivo dos Sovietes, no qual eles corrigiram o erro de 1905 colocando os líderes partidários em primeiro lugar e só então pedindo a eleição dos delegados.

No entanto, enquanto liberais e moderados socialistas esperavam que os trabalhadores e soldados seguissem o Comitê Executivo, eles nem queriam que esse grupo de elite liderasse. Em vez disso, como o internacionalista menchevique Nikolai Sukhanov escreveu em suas memórias quatro anos depois, seu partido acreditava que o governo que suplantara o czar deveria ser um governo puramente burguês.

Os trabalhadores e soldados discordavam. Para eles, uma revolução que não respondia às suas necessidades não era uma revolução, e então eles começaram a fazer exigências. Enquanto os líderes do Comitê Executivo pediam aos liberais que tomassem o poder, os soldados pediram o fim da vida militar feudal.

Eles praticamente ditaram o texto do que ficou conhecido como Ordem Nº1 a Matvey Skobelev, um líder menchevique do Soviete de Petrogrado. Este decreto pedia a eleição de comitês de soldados em unidades militares, bem como a inclusão de representantes dos soldados nos sovietes. Colocou os militares sob os sovietes, em vez do governo provisório. Os soldados concordaram em aceitar a disciplina militar enquanto estavam em serviço, mas exigiram direitos civis para os homens alistados. Finalmente, a ordem aboliu os costumes feudais no exército e entregou o controle sobre as armas aos comitês dos soldados.

O Governo Provisório tentou dar vida a instituições como a cidade de Dumas - órgãos municipais onde pessoas de todas as classes podiam votar como cidadãos - mas os sovietes emergiram como as instituições democráticas cruciais. Mesmo antes de outubro, os sovietes estavam substituindo os órgãos do governo local.

Soviets locais desenvolveram-se em Moscou, Yaroslav, Kazan, Nikolaev e Rostov-on-Don, onde subordinaram a burocracia existente ao seu controle. Sob proteção militar da cidade, essas organizações lidaram com problemas locais. Cidadãos comuns montam conselhos de fábricas, sindicatos, comitês especializados e milícias locais.

Por exemplo, os sovietes urbanos trabalhavam com organizações rurais para administrar o suprimento de alimentos. Em 5 de março, os trabalhadores de Petrogrado descobriram quase duzentos caminhões de grãos consignados a particulares. O comitê de alimentos do soviete os enviou para a Frente do Norte, ao saber que só restava um dia de comida para os soldados de lá.

O Comitê Executivo do Soviete de Krasnoyarsk enviou um telegrama ao longo da linha ferroviária da Sibéria proibindo a entrega de alimentos para fins especulativos, e os soviets de Moscou iniciaram o Congresso de Alimentação de Toda a Rússia em maio de 1917.

Soviets rurais apareceram um pouco depois. Em sua História da Revolução Russa, Trotsky registrou os padrões das lutas rurais, sugerindo que os camponeses olhavam os sovietes com ceticismo até que os conselhos começaram a refletir suas atitudes políticas. A luta anti-feudal inicialmente uniu trabalhadores agrícolas, semi-proletários rurais e camponeses a uma série de instituições.

Alguns eram patrocinados pelo Estado, como comitês executivos de municípios ou comitês de terra e alimentos. Os camponeses também formavam sovietes, mas podiam se abrigar atrás das instituições do Estado para pressionar por ação, mesmo que essas mesmas organizações estivessem se movendo para a direita em níveis mais altos.

Embora os sovietes não aparecessem imediatamente no campo, no final de julho, cinquenta e dois dos setenta e oito gubernia (governorados) da Rússia tinham Sovietes de Deputados Camponeses. Quase metade dos 813 uyezds (condados) da Rússia também possuíam sovietes camponeses locais.

Controle dos trabalhadores

A partir de março de 1917, a luta pela jornada de oito horas uniu os trabalhadores contra os capitalistas nas fábricas, bem como nos níveis industrial, municipal e nacional. Os funcionários das fábricas queriam condições de trabalho mais democráticas, menos exploração e direitos essenciais.

Essas demandas entraram em conflito com a busca capitalista por lucros e o desejo do governo de priorizar o esforço de guerra sobre todo o resto. Essas lutas forçaram os trabalhadores a perceber que precisam de uma nova ordem - não apenas no governo, mas também no local de trabalho.

Eles começaram a eleger comitês de fábrica, que variavam em função e intenção. Dois estudos importantes - o de S. A. Smith, que é relativamente crítico dos bolcheviques, e o relato muito mais compreensivo de David Mandel - nos apresentam uma imagem clara dessas organizações.

O controle dos trabalhadores não havia figurado em nenhuma das plataformas dos partidos socialistas antes da revolução de fevereiro. Mesmo os bolcheviques, que mudaram consideravelmente após o retorno de Lênin em abril - especialmente em comparação com o apoio condicional de Kamenev e Stalin ao governo provisório - permaneceram vagos quando o poder passou para os sovietes.

Nas Teses de abril, Lênin observou que o objetivo era colocar a produção social e a distribuição de produtos sob o controle do Soviete dos Deputados dos Trabalhadores. De Carmen Sirianni a Mandel, vários estudiosos enfatizaram que o kontrol em russo tem um sentido diferente do inglês. A palavra russa implica supervisão, regulação ou supervisão - não administração completa.

Problemas práticos levaram os trabalhadores para a frente. Um dos primeiros convites foi estabelecer um regime democrático ou constitucional nas fábricas, que as comissões eleitas supervisionariam. Mas os problemas rapidamente se tornaram mais complexos. A burguesia recuou contra a demanda por um dia de oito horas. Os capitalistas alegaram que os trabalhadores estavam fazendo exigências egoístas enquanto os soldados morriam nos fronts, claramente tentando separar duas partes da classe revolucionária.

Esta campanha saiu pela culatra: em meio a esses argumentos, os trabalhadores começaram a questionar as decisões da gerência. Alguns proprietários de fábricas alegaram que a capacidade produtiva estava ociosa por causa da falta de suprimentos. Os comitês de fábrica exigiram que eles pudessem verificar essas declarações, aumentando a força do trabalhador.

Em maio, até os mencheviques de direita pensavam que os capitalistas estavam planejando um bloqueio oculto. Em 1905, um ataque coordenado do capital derrotou a luta pelo dia de oito horas, uma experiência ainda viva nas memórias dos trabalhadores.

Em meados de maio, o Soviete de Petrogrado adotou regulamentações modestas para revitalizar a economia, e o ministro do Comércio e Indústria, o dono de fábricas Alexander Konovalov, renunciou, alertando que centenas de empresas seriam fechadas em breve. Ryabushinskii, outro industrial importante, explicou que o controle estatal era impossível porque o estado estava sob controle soviético.

Em resposta a esses desafios, os trabalhadores de Petrogrado convocaram uma conferência municipal de comitês de fábrica. Em 1º de junho, a conferência votou a favor de uma resolução bolchevique pedindo a transferência total do poder do Estado para os sovietes. Os comitês de fábrica empurraram a Seção dos Trabalhadores do Soviete de Petrogrado para a esquerda. Em 31 de maio, esse órgão sugeriu que a solução real para a crescente crise econômica estava no estabelecimento do controle dos trabalhadores tanto de baixo (no nível da fábrica) quanto de cima (através do Estado).

Os Comitês de Fábrica cresceram em número e influência e foram rapidamente radicalizados. Na conferência de junho, o esquerdista socialista revolucionário V. M. Levin explicou que os trabalhadores tinham que se tornar ativos porque os industriais não eram.

Mas quando os anarquistas exigiram uma aquisição de baixo, até mesmo os bolcheviques se opuseram. Um delegado bolchevique explicou:

Controle ainda não é socialismo. (...) Tendo tomado o controle em nossas mãos, aprenderemos de uma maneira prática a trabalhar ativamente na produção e iremos direcioná-lo para a produção socialista de maneira organizada.

Em alguns casos, os comitês de fábrica assumiram funções de gerenciamento para manter seus locais de trabalho funcionando. Isso criou conflitos na direita e na esquerda. Na conferência nacional dos comitês de fábrica em outubro, David Ryazanov observou que um “membro do comitê de fábrica se transforma involuntariamente em agente do empresário”. Em uma conferência anterior, Lenin havia chamado os comitês de fábrica de “garotos de recados” dos capitalistas. Um delegado da fábrica do Novo Arsenal explicou que, se os trabalhadores não encontrassem matérias-primas, as fábricas não poderiam funcionar por muito tempo.

Essas discordâncias mostram a vitalidade e diversidade do debate democrático neste ano revolucionário. Organizações de base se uniram para resolver problemas de uma maneira que nem sempre coincidia com as ideias dos líderes partidários sobre como a revolução deveria seguir.

Outubro e depois

Mesmo historiadores liberais que aceitam a realidade dessa explosão de democracia revolucionária em 1917 tendem a argumentar que outubro acabou com tudo. A realidade é bem mais complexa.

Nenhuma insurreição é realizada após uma votação. Mas os bolcheviques, notadamente Trotsky e Yakov Sverdlov - os efetivos líderes operacionais - usaram os sovietes e comitês de soldados para conquistar a maioria da guarnição e neutralizar o resto.

Além dos soldados, o movimento operário construiu seus próprios Guardas Vermelhos. Como Rex Wade demonstrou, a liderança menchevique-revolucionária socialista imediatamente desconfiou desse projeto de classe, designando-o como uma iniciativa bolchevique. Os Dias de Julho na verdade diminuíram a influência bolchevique aberta sobre os Guardas Vermelhos, mas a luta contra Kornilov reafirmou com firmeza a hegemonia política do partido de Lênin neste campo.

Orlando Figes, um dos historiadores da revolução de direita mais lidos da atualidade, produziu um conjunto de artigos on-line cobrindo sua pesquisa. Em "Lenin e o golpe de outubro", Figes insiste que Lenin pediu ao seu partido "um golpe de Estado, que é como ele concebeu a tomada do poder". Figes não fornece evidências para essas alegações, e ele está ainda menos interessado em explicar que Trotsky e Sverdlov não seguiram a estratégia de Lênin, que pedia uma insurreição nacional.

De fato, uma instituição soviética, o Comitê Militar Revolucionário, liderou a insurreição de outubro. Logo após, o Congresso dos Sovietes tentou criar uma estrutura de poder real, aprovando decretos básicos sobre terra, paz e poder soviético. Também adotou a resolução de Julius Martov, pedindo um governo que incluísse todos os partidos socialistas.

No entanto, os mencheviques, os revolucionários socialistas de direita e de centro e até mesmo os internacionalistas mencheviques, liderados pelo próprio Martov, acabaram rejeitando qualquer governo desse tipo. Eles se recusaram a subordinar o governo ao Congresso dos Sovietes.

O Partido Socialista Revolucionário havia se dividido pouco antes da insurreição de outubro, e a facção de esquerda, liderada por Maria Spiridonova, Boris Kamkov e outros, apoiou o Congresso e se tornou a força dominante no Congresso Extraordinário de Deputados Camponeses em novembro e no regular Congresso Camponês, em dezembro. Durante vários meses, eles participaram como parceiros dos bolcheviques e desempenharam um papel importante no governo. A tendência dos historiadores de negligenciar essa fase levou-os a ignorar como essa democracia revolucionária funcionava.

O Congresso elegeu um novo Comitê Executivo Central Russo dos Sovietes, ou VTsIK. As atas desta organização mostram que debatiam questões reais e que os próprios bolcheviques discordavam sobre a abordagem correta.

Por exemplo, as atas de 1º de novembro mostram um longo debate sobre a formação de um governo totalmente socialista, no qual os bolcheviques expressaram sua disposição de incluir outros partidos no governo, desde que aceitassem o Segundo Congresso dos Sovietes como a fonte de autoridade e subordinado o novo governo ao ao VTsIK. A recusa dos socialistas moderados mostrou sua rejeição do poder soviético.

As negociações também pararam por causa da exigência dos socialistas moderados de que Lenin e Trotsky não participassem de nenhum novo governo. Alguns argumentam que este debate mostra a intransigência bolchevique, particularmente da ala leninista. Em vez disso, devemos reconhecê-lo como a intransigência dos moderados. Dispostos a colaborar com os liberais burgueses e com os generais czaristas, os socialistas revolucionários não estavam dispostos a aceitar a democracia revolucionária.

No entanto, a alegação persiste: os bolcheviques destruíram a democracia. A guerra civil, as falhas dos bolcheviques e o papel das forças antibolcheviques devem ser examinados em outros lugares, desde que se desdobraram ao longo de vários anos. Mas devemos enfatizar a continuidade dos sovietes para além de outubro e o absurdo da afirmação de que um partido disciplinado pretendia ter todo o poder em suas mãos desde o início.

Em fevereiro de 1917, os bolcheviques contavam com cerca de 24.000. Em julho, eles haviam crescido para cerca de dez vezes esse tamanho e para aproximadamente 400.000 em outubro. Estes não eram todos leninistas endurecidos. Em vez disso, eles eram trabalhadores militantes, soldados e camponeses.

Em 1917-18, a ideia de Lênin sobre o Estado dos trabalhadores era aquela em que “qualquer cozinheiro podia governar”. Essa definição refletia um desejo genuíno de simplificar o aparato estatal. No final de 1917 e início de 1918, em um período de contínua luta de classes em que os capitalistas se recusaram a colaborar com o novo regime, o Conselho dos Comissários do Povo, o VTsIK e o Conselho Econômico Supremo realizaram pouco mais de 5% de todas as nacionalizações. Então os comitês de fábrica realizaram o resto. As instituições soviéticas continuaram em Outubro e se desenvolveram em todos os níveis.

Alexander Rabinowitch mostrou que o Primeiro Soviete Distrital da Cidade em Petrogrado criou sua própria rede de tribunais populares que substituiu o antigo judiciário. Tinha uma comissão de investigação, uma seção de assistência social, uma seção jurídica, uma seção de habitação, uma seção de cultura e educação e sua própria imprensa. Em maio e junho de 1918, organizou uma conferência que incluiu bolcheviques, revolucionários socialistas de esquerda, mencheviques, internacionalistas mencheviques e revolucionários socialistas. Como diz Rabinowitch, a reunião representou "um esforço honesto para restaurar vínculos significativos com as massas, apesar dos alvores da guerra civil".

Não podemos ignorar essa guerra se quisermos entender o fim dessa democracia revolucionária, e aqueles que traçam uma linha reta de outubro de 1917 até o stalinismo invariavelmente ignoram ou minimizam o impacto desse sangrento conflito.

23 de abril de 2018

Marx 200: Carney, Bowles e Varoufakis

Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / À medida em que o 200º aniversário do nascimento de Marx se aproxima, uma série de conferências, artigos e livros sobre o legado de Marx e sua relevância hoje estão surgindo – incluindo minha própria contribuição. O mais interessante foi um discurso na semana passada pelo governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, em sua terra natal, o Canadá.

Em seu discurso em uma “Cúpula do Crescimento” para o Fórum Público de Políticas em Toronto, Carney começou a ser provocativo e gerou manchete com uma declaração de que o marxismo poderia, mais uma vez, se tornar uma força política proeminente no Ocidente. “Os benefícios, a partir da perspectiva dos trabalhadores, da primeira revolução industrial, que começou na segunda metade do século XVIII, não foram sentidos plenamente na produtividade e nos salários até a segunda metade do século XIX. Se você substitui fábricas têxteis por plataformas, máquinas a vapor por aprendizado de máquina (inteligência artificial), telégrafo por twitter, você tem exatamente a mesma dinâmica que existia 150 anos atrás [na verdade 170 anos atrás] – quando Karl Marx estava rabiscando o Manifesto Comunista”.

Assim como quando da primeira revolução industrial, no início do século XIX, a Grã-Bretanha levou ao colapso dos empregos tradicionais e reduziu os salários reais por uma geração nas duas primeiras décadas do século XIX, também agora a longa depressão, em todo o mundo, com o advento dos robôs e inteligência artificial, uma nova revolução industrial ameaça destruir o trabalho humano e os meios de subsistência.


Em 1845, Engels escreveu A Condição da Classe Trabalhadora na Inglaterra, que expôs a miséria e a pobreza geradas pela substituição de habilidades manuais por máquinas e manteve os rendimentos reais estagnados. Agora, diz Carney, o marxismo pode voltar a ser relevante com uma nova explosão de “viés de capital” (ou seja, um aumento nas máquinas em relação à força de trabalho humana).


A automação pode não apenas destruir milhões de empregos. Para todos, exceto uma minoria privilegiada de trabalhadores de alta tecnologia, o colapso na demanda por mão-de-obra pode manter estagnados ou degradar padrões de vida por décadas.


Em tal clima, “Marx e Engels podem voltar a ser relevantes”, disse Carney. 

Sem perceber, Carney estava reiterando a lei geral de Marx sobre acumulação capitalista delineada no Volume Um do Capital (Capítulo 25), escrito há cerca de 160 anos, que a acumulação capitalista expandirá e promoverá máquinas para substituir o trabalho humano, mas isso não levará automaticamente a padrões de vida mais elevados, menos trabalho, e mais liberdade para o indivíduo, mas provocará, principalmente, uma pressão descendente sobre a renda real, não apenas daqueles que perdem seus empregos para máquinas, mas em geral. Também levaria a maios trabalho, não menos, para quem tem um emprego, deixando milhões em um estado de “trabalho precário” – um exército de reserva para o capital explorar ou dispensar, como exige o ciclo de acumulação. (ver Capital Volume One p782-3 e meu novo livro, pp32-37).

A visão de Carney sobre a revolução dos robôs levando a perdas maciças de empregos tem muito apoio empírico. No entanto, como Marx apontou em O Capital, não é um colapso unilateral nos empregos. A tecnologia também cria novos empregos, e aumenta a produtividade do trabalho e, dependendo do equilíbrio de forças na luta de classes entre capital e trabalho sobre o valor criado, a renda real também pode aumentar. Isso acontece em períodos em que a lucratividade está melhorando, e mais mão-de-obra entra no mercado.

É claro que esse lado “feliz” da acumulação capitalista é o que a economia mainstream (ou economia ortodoxa, que é hegemônica nas universidades) gosta de promover, contrariamente às preocupações de Carney. Por exemplo, Paul Ormerod, comentou a opinião de Carney sobre a relevância de Marx. Você vê, Marx “estava completamente errado em uma questão fundamental. Marx achava, corretamente, que a acumulação de capital e o avanço da tecnologia criariam um crescimento de longo prazo na economia. No entanto, ele acreditava que a classe capitalista expropriaria todos os ganhos. Os salários permaneceriam próximos aos níveis de subsistência – a “miséria da classe trabalhadora” como ele a chamava ”.

De fato, diz Ormerod, “os padrões de vida se expandiram para todos no Ocidente desde meados do século XIX. As horas de lazer aumentaram drasticamente e, longe de serem enviadas para as chaminés aos três anos, os jovens de hoje não entram na força de trabalho até pelo menos 18. “Aparentemente a prosperidade é a ordem do dia:“ cada instância de uma economia que entra no crescimento econômico sustentado das economias capitalistas orientadas para o mercado, desde a Inglaterra do início do século XIX até a China do final do século XX. Quando isso acabar, os frutos do crescimento serão amplamente compartilhados ”.

Há vários pontos aqui que ocupei em muitos posts anteriores. Primeiro, Marx não se deteve ou deixou aprisionar por uma teoria de “níveis salariais de subsistência”. Quanto ao argumento de que o capitalismo tirou todo mundo da pobreza e reduziu a labuta e a miséria, está cheio de buracos. Note-se que Ormerod fala de “todos no Ocidente”, desconsiderando e ignorando bilhões de pessoas fora do “Ocidente” que permanecem na pobreza por quaisquer definições. E contrariamente à opinião de Ormerod (como a de Keynes antes dele), o surgimento da tecnologia sob o capitalismo não levou a uma grande redução no trabalho. Mostrei que a maioria das pessoas no “Ocidente” continua a ter vidas profissionais (em horas por ano), semelhantes aquelas da década de 1880, ou da década de 1930; eles podem trabalhar menos horas por dia em média, e obter sábados e domingos de folga (para alguns), mas eles ainda trabalham por mais de 1800 horas por ano, e trabalham por mais tempo no geral (50 anos ou mais).

Ormerod também argumenta que a desigualdade de rendas e riqueza não está piorando, e que a participação do trabalho na renda nacional parou de cair, ao contrário de Carney. Bem, há uma riqueza de evidências de que a riqueza e a desigualdade de renda não estão melhorando, tanto globalmente entre nações, quanto dentro das economias nacionais.

Ormerod está certo, no entanto, em questionar o modelo unilateral do capitalismo de Carney. A parcela do valor total criado pelo trabalho pode aumentar ou diminuir em períodos diferentes, dependendo do equilíbrio das forças de classe e do impacto da acumulação; e o próprio gráfico de Carney mostra que os salários reais não apenas estagnaram na primeira revolução industrial ou agora, mas também nas décadas de 1850 e 1860; e no primeiro quartel (vinte e cinco anos) do século XX. Portanto, há mais fatores nesta questão da variação da desigualdade social do que a tecnologia. A atual estagnação dos salários reais no Reino Unido e nos EUA é mais um produto da longa depressão dos últimos dez anos, do que da incoroporação robôs ou inteligência artificial, que mal começaram a ter impacto ainda (o crescimento da produtividade se mantém baixo, ou desacelerando na maioria das economias). A rentabilidade do próprio capital, e a força social dos trabalhadores na batalha pela apropriação do valor criado são mais relevantes.

Infelizmente, não são apenas os economistas ortodoxos dominantes que distorcem ou rejeitam a teoria econômica de Marx. Em um artigo para Vox, o eminente e veterano economista marxista Sam Bowles escreve sobre o legado das idéias econômicas de Marx a fim de descartá-las. Ele concorda com a opinião de Keynes de que o capital é “um livro-texto econômico obsoleto [que é] não apenas cientificamente errôneo, mas sem interesse ou aplicação ao mundo moderno” (Keynes, 1925). E ele concorda com o guru econômico da década de 1960, o juízo de Paul Samuelson de que: “Do ponto de vista da teoria econômica pura, Karl Marx pode ser considerado um pós-ricardiano menor… que por sua vez foi“ o mais superestimado dos economistas ”(Samuelson 1962).

Bowles considera que a teoria do valor-trabalho de Marx era “pioneira, mas inconsistente e ultrapassada”. De acordo com Bowles, a teoria do valor de Marx, como uma representação de um sistema geral de troca, e sua teoria da tendência da baixa tendencial da taxa de lucro “não resolveram os mais notáveis problemas teóricos de sua época, mas anteciparam problemas que mais tarde seriam abordados, matematicamente. Bowles sugere que a economia mainstream, em particular o marginalismo neoclássico, avançou na solução dos fracassos de Marx, substituindo sua teoria do valor. E isso também levou a abandonar a idéia de propriedade social dos meios de produção para substituir o capitalismo. “A economia pública moderna, o mecanismo de design e a teoria da escolha pública também desafiaram a noção – comum entre muitos marxistas dos últimos dias, embora não originários do próprio Marx – de que a governança econômica sem propriedade privada e mercados poderia ser um sistema viável de governança econômica”.

Aparentemente, tudo o que resta do legado de Marx é o que Bowles chama de “despotismo no trabalho”, a natureza exploradora da produção capitalista; que não é devido à exploração da força de trabalho pela apropriação de mais-valia; mas a “estrutura de poder”, onde proprietários e gerentes dominam sobre os servos trabalhadores. Assim, somos reduzidos a uma teoria política (e mesmo isso não é muito em comum com a teoria política de Marx), já que as ideias econômicas de Marx são “ultrapassadas” ou falsas.

Bem, todos os argumentos de Bowles (e os de Keynes e Samuelson) foram retomados por mim em vários posts no passado, e mais completamente em meu novo livro, Marx 200. Em resumo, podemos mostrar que a teoria do valor de Marx é lógica, consistente e, empiricamente, fundamentada. Ele até fornece uma explicação convincente dos movimentos de preços relativos no capitalismo, embora esse não seja seu objetivo principal. Seu principal objetivo é mostrar a forma particular que o modo de produção capitalista adquire ao explorar o trabalho humano para obter lucro; e por que esse sistema de exploração tem contradições inerentes que não podem ser resolvidas sem sua abolição.

Além disso, a crítica marxista do capitalismo baseia-se na economia e leva à ação política revolucionária; por isso, não é (apenas) uma crítica moral do “despotismo” no local de trabalho ou em qualquer outro lugar. A economia de mercado (capitalismo) não pode proporcionar o pleno desenvolvimento do potencial humano, porque o despotismo no local de trabalho é um produto da exploração do trabalho pelo capital.

Yanis Varoufakis reconhece isso em seu longo artigo sobre o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels para promover sua nova introdução a essa obra-prima. Varoufakis escreve um artigo exuberante, embora exageradamente floreado, enfatizando uma grande mensagem de Marx e Engels neste Manifesto: que o capitalismo é o primeiro modo de produção que se tornou global. Varoufakis vê este processo como sendo apenas completado com a queda da União Soviética e outros estados “comunistas” que bloquearam a globalização até então. Isso é provavelmente um exagero. O capitalismo desde o início visava expandir globalmente (como Marx e Engels explicam no CM). Após o fim da depressão de 1870 e 1880, houve uma surpreendente expansão do capital mundial, agora denominado imperialismo, baseado nos fluxos de capital e comércio.

Embora reconhecendo corretamente o efeito poderoso (feliz?) do capitalismo globalmente, Varoufakis também enfatiza o lado sombrio: da alienação, exploração, imperialismo e despotismo: “Enquanto celebravam como a globalização deslocou bilhões de pobreza abjeta para pobreza relativa, veneráveis jornais ocidentais, personalidades de Hollywood, empresários do Vale do Silício, bispos e até financiadores multibilionários todos lamentam algumas de suas ramificações menos desejáveis: desigualdade insuportável, ganância descarada, mudança climática e o seqüestro de nossas democracias parlamentares por banqueiros e ultra-ricos.

E, ao contrário da visão convencional dominante, Varoufakis argumenta que Marx e Engels estavam certos de que a luta de classes sob o capitalismo pode ser resumida a uma batalha entre capital e trabalho. “A sociedade como um todo”, argumenta, “está cada vez mais dividida em dois grandes campos hostis, em duas grandes classes diretamente frente a frente”. Como a produção é mecanizada, e a margem de lucro dos donos de máquinas torna-se a força de impulso e sentido de nossa civilização, a sociedade divide-se entre acionistas que não trabalham e trabalhadores assalariados não-proprietários. Quanto à classe média, é o dinossauro na sala, pronto para a extinção.

E ele vê que o capitalismo deve ser substituído, não modificado ou corrigido por suas falhas. “É nosso dever acabar com a antiga noção de meios de produção privados e forçar uma metamorfose, que deve envolver a propriedade social de maquinaria, terra e recursos. Somente abolindo a propriedade privada dos instrumentos de produção em massa e substituindo-a por um novo tipo de propriedade comum que trabalhe em sincronia com as novas tecnologias, diminuiremos a desigualdade e encontraremos a felicidade coletiva ”.

Varoufakis reconhece a “irracionalidade” do capitalismo como um sistema para o progresso e a liberdade humanos, mas este “marxista errático”, como ele próprio confessa sobre si mesmo, não apresenta a explicação material para essa irracionalidade, além da crescente desigualdade, e incapacidade de usar novas tecnologias para beneficiar a todos. O capitalismo também sofre de crises regulares e recorrentes de produção que destroem e desperdiçam valor criado pelo trabalho humano. Essas crises são de “superprodução”, exclusivas do capitalismo e, regularmente, lançam o desenvolvimento humano para trás. Esse aspecto da irracionalidade do capitalismo está faltando no artigo de Varoufakis, embora tenha sido expresso, vividamente, por Marx e Engels no Manifesto Comunista. Vejamos a notável passagem do Manifesto, onde Marx e Engels começam explicando que “a necessidade de um mercado em constante expansão para seus produtos persegue a burguesia sobre toda a superfície do globo” e termina com “abrir caminho para crises mais extensas e destrutivas, diminuindo os meios pelos quais as crises são evitadas”.

E uma teoria das crises é importante. As pessoas podem viver com a crescente desigualdade, com pobreza relativa, até guerras, etc., desde que, para elas, as coisas melhorem gradualmente a cada ano sem interrupção. Mas a melhoria gradual nos padrões de vida não é possível, porque o capitalismo tem quedas regulares e recorrentes na produção, investimento e emprego embutidos em seu sistema, que podem durar por uma geração em depressões – como mostram os gráficos de Carney. Esse é um caráter fundamental da irracionalidade do capitalismo.

As teorias econômicas de Marx são muitas vezes destruídas ou contestadas – o que parece razoável e justo em um debate sobre a verdade. Mas quando cada argumento crítico é analisado, ele merece ser considerado fraco, na minha opinião. As leis de Marx do movimento do capitalismo: a lei do valor; a lei da acumulação e a lei da lucratividade ainda fornecem a melhor e mais convincente explicação do capitalismo e suas contradições inerentes. E estou deixando de lado a grande contribuição que Marx e Engels deram à compreensão do desenvolvimento histórico humano – a concepção materialista e a história da luta de classes – que estão na base das ações humanas. “Os homens fazem sua própria história, mas não fazem o que querem; eles não o fazem sob circunstâncias auto-selecionadas, mas sob circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas do passado “.

Como o Manifesto diz (e Varoufakis ecoa em seu artigo), o capitalismo elevou as forças produtivas do trabalho humano a níveis sem precedentes, mas, dialeticamente, também trouxe novas profundidades de depravação, exploração e guerras em escala global. O legado de Marx é mostrar por que isso acontece e por que o capitalismo não deve durar, para que a sociedade humana avance para o “livre desenvolvimento de cada um” como a “condição para o livre desenvolvimento de todos”. As ideias de Marx permanecem mais relevantes no século XXI do que no século XIX. Mas a compreensão não é suficiente.Como está inscrito no epitáfio no túmulo de Marx no cemitério de Highgate em Londres, das Teses de Marx sobre Feuerbach: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de várias maneiras; a questão é mudá-lo”.

Setenta anos de sujeição aos EUA e à OTAN

Manlio Dinucci


Tradução / Luigi Di Maio: “Se alguém pensa desligar a Itália dos nossos aliados históricos, que são o Ocidente e os países da OTAN, então encontrar-me-á sempre em oposição a isso. Acima de tudo, a Itália e o Movimento 5 Estrelas, nunca disseram que se querem afastar dos nossos aliados históricos”: esta declaração do candidato a Primeiro Ministro (à Otto e mezzo su La7, 16 abril) levanta uma questão fundamental que vai para além do atual debate político. Qual é o balanço dos setenta anos de ligação da Itália aos seus "aliados históricos"?

Em 1949, com o 5º governo De Gasperi (Democracia Cristã - PLI-PSLI-PRI), a Itália tornou-se membro da NATO, sob comando USA. Logo depois, segundo os acordos secretos assinados por De Gasperi em Washington, em 1947, começou a instalação das bases e das forças dos EUA, com cerca de 700 armas nucleares. Durante 40 anos, na estratégia USA/NATO, a Itália está na vanguarda do confronto com a URSS e com o Pacto de Varsóvia, e sacrificável em caso de guerra (os EUA também têm preparadas no nosso território, minas atómicas de demolição). Acabada a Guerra Fria, com a dissolução do Pacto de Varsóvia e da URSS, em 1991, inicia-se em Itália, não um período de paz, mas uma série contínua de guerras na peúgada do seu principal “aliado histórico”. Em 1991, com o 6 ° Governo Andreotti (DC - PSI - PSDI - PRI - PLI), a República Italiana participou no Golfo, sob comando USA, na sua primeira guerra, violando o artº. 11 da Constituição. Em 1999, com o governo D’Alema (ULIVO - PDCI - UDEUR), a Itália desempenha um papel fundamental, com as suas bases e os seus caças-bombardeiros, na guerra da NATO contra a Jugoslávia. Em 2003, com o 2º governo Berlusconi (Força Itália - AN - LN - CCD-CDU), a Itália iniciou a sua participação (ainda em curso após 15 anos) na guerra USA/NATO, no Afeganistão. Também em 2003, com o mesmo Governo, participa na invasão do Iraque, inserida na coligação sob comando USA.

Em 2011, com o 4º governo Berlusconi (PDL, LN, MPA), a Itália desempenha um papel de primordial importância na guerra da NATO contra a Líbia, na qual participa com 7 bases aéreas, caças-bombardeiros e unidades navais. De 2014 a 2018, com o governo Renzi (Partido Democrático, NCD, SC, UCD) e com o governo Gentiloni (a mesma coligação), a Itália participa da escalada USA/NATO contra a Rússia, enviando tropas para a Letónia e bombardeiros para a Estónia. Ao mesmo tempo, estes e outros governos, cedem o nosso território ao Pentágono, que o utiliza como uma ponte de comando e de lançamento para operações militares numa vasta área geográfica.

O Comando das Forças Navais USA Europa-África, em Nápoles-Capodichino, às ordens do mesmo almirante americano que comanda a Força Conjunta Aliada, em Lago Patria, cobre metade do Oceano Atlântico e os mares que banham toda a Europa, Rússia e quase toda a África. As bases americanas de Aviano, Vicenza, Camp Darby, Gaeta, Sigonella e a estação MUOS em Niscemi, destinam-se a operações militares no Médio Oriente, África e Europa Oriental. Ligada aos EUA, directamente e através da NATO - onde os EUA ocupam, desde 1949, a posição de Comandante Supremo Aliado na Europa e em todos os outros comandos-chave - a Itália está privada de poder soberano, no que diz respeito à política externa. As novas bombas nucleares B61-12, que os EUA irão instalar em Itália a partir de 2020, vão expor-nos a riscos ainda maiores. Luigi Di Maio assinou o Compromisso ICAN de adesão da Itália ao Tratado ONU sobre a Proibição das Armas Nucleares, portanto, para retirar de Itália as armas nucleares americanas. Será que vai manter esse compromisso ou quebra-lo-á para não “desvincular a Itália” do seu principal “aliado histórico”?

22 de abril de 2018

A América Latina na era Trump

James Petras*

Introdução

The Official James Petras Website

Tradução / O Presidente Trump cancelou sua participação na reunião da Cúpula das Américas com todos os 35 presidentes da região, destinada a debater e formular uma política comum. Trump mandou o vice-presidente Pence em seu lugar. Pence, um insignificante com experiência zero e ainda menos conhecimento das relações América Latina-EUA, revela o desdém e a falta de interesse do regime Trump pela oitava reunião da Cúpula trienal.

O presidente Trump não se sentiu obrigado a comparecer porque a agenda, as decisões e os resultados já haviam sido decididos em função dos interesses do império. O ex-secretário de Estado Tillerson deixou claro que a América Latina é o quintal de Washington: a Doutrina Monroe está viva e passa bem.

O renascimento da Doutrina Monroe é um work in progress – um esforço coletivo que precedeu o regime de Trump e que está hoje totalmente evidente.

O Monroismo é uma joint venture envolvendo construtores de impérios de Washington e oligarcas latino-americanos, congressistas golpistas, narcotraficantes presidenciais e bandidos militares e paramilitares. Para entender a ascendência da doutrina de quase duzentos anos de idade é preciso que examinemos o processo – os meios e métodos pelos quais se instalaram os sátrapas (governadores das províncias na antiga Pérsia) de Trump.

Caminhos diferentes, resultados comuns

O século XXI começou com uma série de reviravoltas que desafiaram os estados clientes neoliberais estabelecidos e instalaram uma série de regimes de centro-esquerda que aumentaram os gastos sociais e declararam sua independência dos EUA. Os políticos progressistas escreveram certidões de óbito para a Doutrina Monroe um pouco prematuras, pois eram coassinadas por banqueiros locais, generais e oligarcas. Em outras palavras, a América Latina experimentou uma série de reformas temporárias apoiadas em alicerces oligárquicos.

Ao final de uma década e meia, o regime de Trump proclamou a ressurreição do Monroismo: fantoches, pilhagem e saques tornou-se a nova ordem em toda a América Latina. Legisladores de aluguel planejaram com sucesso uma série de golpes, derrubando presidentes eleitos no Brasil , no Paraguai e em Honduras, substituindo-os por autênticos sátrapas aprovados pelos EUA.

O Secretário-Geral da Organização dos Estados (Colônias) Americanos, Luis Almagro, ex-ministro das Relações Exteriores de um regime de centro-esquerda no Uruguai, abençoou os porta-vozes de Washington.

Eleições fraudulentas no México e na Guatemala garantiram a Washington um par de lacaios confiáveis.

Esquadrões da morte e o narcopresidente Santos na Colômbia forneceram ao Pentágono sete bases militares e aos investidores americanos, muitos campos de petróleo.

Vigaristas e fraudadores com laços íntimos com Wall Street assumiram o poder na Argentina e no Peru. Um ex-esquerdista no Equador, Lenin Moreno apelou ao povo para ganhar a eleição e, uma vez empossado, passou a trabalhar para os oligarcas.

Em outras palavras, por meio de diversos caminhos que combinaram eleições fraudulentas e violência política, os presidentes Bush e Obama prepararam o terreno para o presidente Trump herdar uma comitiva servil de sátrapas autoproclamados democráticos.

O Presidente Trump não precisa ir à América Latina para participar da Cúpula, já que foram seus escribas que escreveram o programa e as políticas a serem seguidas.

No período que antecedeu a Cúpula, os presidentes latino-americanos usaram seu tempo demonstrando sua lealdade à versão atualizada por Trump da Doutrina Monroe.

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, ao assumir o poder, pagou seis bilhões de dólares a um especulador de Wall Street; contratou uma dívida de 100 bilhões de dólares junto a banqueiros dos EUA e do Reino Unido; baixou e/ou eliminou impostos corporativos para os agroexportadores; quadruplicou as tarifas de gás, eletricidade e água para residências e pequenas e médias empresas; privatizou minas e campos de petróleo; demitiu milhares de profissionais de saúde e educação do setor público, empobrecendo os serviços de saúde e educação; ampliou as bases militares dos EUA em todo o país e liberou a entrada de empresas químicas poluidoras no campo.

Em troca, Trump ignorou as fraudes de Macri e suas contas bancárias no exterior e elogiou as medidas de seu estado policial.

O presidente do Brasil, Michel Temer, foi instalado na presidência por meio de um golpe legislativo prometendo privatizar os setores de transporte público, infraestrutura, mineração, petróleo e elétrico, bem como o sistema financeiro e bancário. Temer e seus aliados no Congresso e na Justiça asseguram que as alianças militares e diplomáticas servirão aos esforços de Washington para derrubar os governos venezuelano, cubano e boliviano. Temer e seus aliados na Justiça prenderam o principal candidato à presidência da oposição, Lula.

Os sátrapas de Trump nas forças armadas brasileiras se juntaram aos EUA no policiamento do continente.

Em troca, Temer, que tem 95% de desaprovação popular e corre o risco de ir preso, obteve do presidente Trump garantia de asilo em Miami assim que deixar o cargo – junto com um título do clube de golfe frequentado pelo presidente americano.

O presidente do México, Peña Neto, privatizou o patrimônio nacional – campos de petróleo, minas e bancos. Neto colaborou com grupos policiais, militares e paramilitares, matando dezenas de estudantes da oposição, jornalistas críticos e trabalhadores de direitos humanos. Neto permitiu que traficantes de drogas, banqueiros e empresários lavassem bilhões de dólares em contas no exterior para sonegar impostos. O presidente Peña Neto tem sido ainda um ativo apoiador das políticas internacionais de Washington, em particular de seus esforços para isolar e derrubar o governo venezuelano.

A subserviência de Peña Neto a Washington permitiu que o presidente Trump fizesse ainda mais exigências, como o controle da fronteira mexicana e da imigração e o policiamento interno.

A Colômbia, com os presidentes Uribe e Santos, forneceu sete bases militares aos EUA. O presidente Santos assinou um acordo de paz com as FARC, desarmou e matou mais de 50 ex-guerrilheiros das FARC e ordenou a prisão e a extradição de um de seus líderes, Jesús Santrich.

O presidente Santos autorizou lucrativas concessões de petróleo às empresas dos EUA e a companhias multinacionais.

O recém-eleito presidente equatoriano, Lenin Moreno, acompanhou os presidentes brasileiro, mexicano, peruano, argentino e chileno na entrega de recursos naturais estratégicos para multinacionais dos EUA.

Todos esses clientes políticos apoiaram os esforços americanos para excluir o presidente venezuelano Maduro da Cúpula das Américas por se opor aos golpes, a Trump e à Doutrina Monroe.
Os oligarcas apoiam os esforços de Washington para deslegitimar as eleições venezuelanas de maio de 2018 e para paralisar sua economia a fim de derrubar o presidente eleito.

O Triunfo do Neo-Monroismo

Trump preside as Américas, com exceção de Cuba, Venezuela e Bolívia. Washington orquestrou, com sucesso, a conversão da América Latina em um importante centro de lançamento político, militar e diplomático da dominação global dos EUA.

Nenhum dos regimes tem qualquer legitimidade. Todos chegaram ao poder por meios ilícitos – em eleições impulsionadas por corrupção, força, violência e com a cumplicidade americana.

As Américas recebem 42% das exportações de produtos manufaturados dos EUA (principalmente México e Canadá) e são um importante mercado para armas e produtos agroquímicos americanos. No entanto, Washington está perdendo a competição econômica com a China no resto da América Latina – e, por isso, Trump tenta pressionar seus clientes a reduzir estes laços, acusando a China de práticas "imperialistas". Os governantes da América Latina, no entanto, querem servir às duas potências – os EUA politicamente e a China economicamente.

Conclusão

O Presidente Trump abraçou a Doutrina Monroe em sua busca pelo domínio da América Latina. Washington conta com a submissão dos oligarcas e nem dissimula a necessidade de consulta: simplesmente dita suas políticas via emissários norte-americanos.

Sob a tutela do presidente Trump, os súditos latino-americanos negociam os termos de sua renúncia à soberania para garantir uma parcela da pilhagem econômica para seus oligarcas, além da proteção militar dos EUA.

O presidente Trump está particularmente orgulhoso de que o domínio dos EUA seja praticamente sem custos nem esforços. Os oligarcas latinos não exigem nenhuma ajuda econômica ou militar: os clientes pagam pelo policiamento do império, contratando economistas neoliberais para entregar seu patrimônio público.

Os clientes latino-americanos fazem discursos que ecoam as políticas intervencionistas de Trump.

Os oligarcas latino-americanos ignoram as crises domésticas de Trump e a instabilidade política, bem como sua ameaça de guerra nuclear na Síria e as sanções contra a Rússia.

Em uma área, a oligarquia latino-americana não segue as ordens de Washington: elas se recusam a boicotar a China, uma vez que as principais exportações de commodities agrícolas de Argentina, Chile, Peru e Brasil dependem de Pequim – que também se tornou uma fonte fundamental de empréstimos e investimento estrangeiro.

Washington assegurou o domínio político (ou "hegemonia", como dizem alguns especialistas mais polidos), mas quer mais!

O presidente Trump exige uma força militar conjunta para derrubar o governo venezuelano, com a instalação de um regime cliente. Trump pode contar com o chefe da OEA, Luis Almagro, para fornecer a retórica, mas seus clientes também precisam dos militares para garanti-los no poder.

O presidente Trump pede a seus clientes latino-americanos que isolem e diminuam os laços com a China. No entanto, eles temem alimentar a oposição das elites domésticas. No máximo, Washington pode contar com os clientes em Honduras, Paraguai e Argentina para obedecer Trump.

Trump garantiu o apoio de Peña Neto para atualizar o NAFTA a fim de aumentar as vantagens comerciais dos EUA, permitir maior controle americano sobre a fronteira e aumentar o fluxo de dinheiro lavado para os bancos dos EUA. O México assume os custos de colaborar com o regime de Trump.

Até agora, o regime de Trump conseguiu controlar as províncias latino-americanas do império a preço de banana. Tanto que Trump ignorou seus clientes e os relegou ao quintal de Washington. Trump, Wall Street e os apoiadores no Pentágono estão razoavelmente satisfeitos com a forma como ele comanda as Américas: eles estão colhendo empréstimos e pagamentos a juros altos; tomando o controle de milhares de empresas públicas por uma ninharia; ganhando bases militares gratuitas, incluindo portos e bases aéreas; e têm os flexíveis generais-clientes à sua inteira disposição.

O que e quem pode estragar a festa imperial de Trump na América Latina?

A Venezuela realiza as eleições. O Presidente Maduro vence, derrota tramas golpistas e consegue diversificar a economia e os mercados, reduz a inflação e inicia uma recuperação econômica.

Cuba renova seu programa revolucionário e seu papel de liderança; democratiza sua economia e socializa seus sistema político.

Os sindicatos e os movimentos sociais brasileiros organizam greves gerais, paralisam a economia, liberam Lula. Ele é reeleito para levar a luta muito além dos tribunais desonestos e do sistema eleitoral corrupto.

A Argentina explode; os sindicatos, os desempregados e os sem teto desencadeiam greves gerais e enfrentam a polícia; eles tomam o palácio presidencial e o presidente Macri foge para o exterior; parando no Panamá e nas Bahamas para fazer movimentações em suas contas ilícitas.

O México tem uma eleição livre e democrática e a Andrés Manuel López Obrador (AMLO) vence, toma posse e acaba com a corrupção. Trump paga pelo muro.

Paraguai, Honduras e Colômbia persistem – esquadrões da morte florescem, forçando guerrilheiros pacificados a retornarem à luta e os camponeses a ocuparem as plantações.

A mídia de massa dos EUA afirma que tudo não passa de conspiração russa. Putin é acusado de estar por trás dos preços baixos da carne em Buenos Aires e da fuga de capitais de São Paulo.

A embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, afirma que Bashar al-Assad está organizando conflitos árabes na fronteira entre a Bolívia e o Chile, além de estar por trás do tráfico no Paraguai e da corrupção no Brasil.

Trump tuita: a resistência populista é 'fake news' e falsa trama. Denuncia os oligarcas latinos que se opõem à sua guerra comercial como defensores do imperialismo chinês. Ele elogia nossos próprios oligarcas, já que são apenas bandidos assinando acordos comerciais!

Trump organiza um churrasco para os oligarcas do seu quintal. Só lavadores de dinheiro são convidados.

* James Petras é professor emérito de Sociologia da Universidade de Binghamton, em Nova York, e professor adjunto da Universidade de Saint Mary, Halifax, Nova Escócia, Canadá.

O partido do medo

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