27 de dezembro de 2009

Do capitalismo como um "sistema parasita"

Zygmunt Bauman

Ñ

Tradução / Tal como o recente "tsunami financeiro" demonstrou a milhões de pessoas que acreditavam nos mercados capitalistas e na banca capitalista como métodos evidentes para a resolução exitosa de problemas, o capitalismo se especializa na criação de problemas, não em sua resolução.

Assim como os sistemas dos números naturais do famoso teorema de Kurt Gödel, o capitalismo não pode ser ao mesmo tempo coerente e completo. Se é coerente com seus próprios princípios, surgem problemas que não pode abordar; e se trata de resolvê-los, não pode fazê-lo sem cair na falta de coerência com suas próprias premissas. Muito antes que Gödel escrevesse seu teorema, Rosa Luxemburgo publicou seu estudo sobre a "acumulação capitalista" em que sugeria que o capitalismo não pode sobreviver sem economias "não capitalistas"; pode proceder de acordo com os seus princípios sempre que tiver "territórios virgens" abertos à expansão e à exploração. Mesmo quando os conquista com finalidades de exploração, o capitalismo os priva de sua virgindade pré-capitalista e dessa forma esgota as reservas que o nutrem. Em boa medida, é como uma serpente que devora o seu próprio rabo: num primeiro momento os alimentos são abundantes, mas logo se torna cada vez mais difícil comê-los, e pouco depois não resta mais nada para comer nem quem os coma...

O capitalismo é, na essência, um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante algum tempo uma vez que encontra o organismo ainda não explorado do qual pode se alimentar, mas não pode fazê-lo sem prejudicar o hospedeiro nem sem destruir cedo ou tarde as condições de sua prosperidade ou até de sua própria sobrevivência.

Rosa Luxemburgo, que escreveu em uma era de imperialismo ascendente e conquista territorial, não foi capaz de prever que as terras pré-modernas de continentes exóticos não eram os únicos possíveis "hospedeiros" dos quais o capitalismo poderia se alimentar para prolongar a sua vida e iniciar sucessivos ciclos de prosperidade. O capitalismo revelou desde então seu incrível talento para buscar e encontrar novas espécies de hospedeiro cada vez que a espécie explorada anteriormente diminuía em número. Uma vez que anexou todas as terras virgens "pré-capitalistas", o capitalismo inventou a "virgindade secundária". Milhões de homens e mulheres que se dedicavam a economizar em vez de viver do crédito foram transformados com astúcia em um desses territórios virgens ainda não explorados.

A introdução dos cartões de crédito foi o indício do que se avizinhava. Os cartões de crédito apareceram no mercado com uma consigna eloquente e sedutora: "Elimine a espera para concretizar o desejo". Deseja algo, mas não economizou o suficiente para comprá-lo? Bom, nos velhos tempos, que felizmente já ficaram para trás, era preciso postergar as satisfações (esse adiamento, segundo Max Weber, um dos pais da sociologia moderna, era o princípio que tornou possível o advento do capitalismo moderno): apertar o cinto, negar outros prazeres, gastar de maneira prudente e frugal e economizar o dinheiro que se podia separar com a esperança de que com o devido cuidado e paciência se reuniria o suficiente para concretizar os sonhos.

Graças a Deus e à benevolência dos bancos, já não é mais assim. Com um cartão de crédito, essa ordem pode ser invertida: desfrute agora, pague depois! O cartão de crédito nos dá a liberdade de manipular as próprias satisfações, de obter as coisas quando as queremos, não quando as ganhamos e podemos pagar.

Com a finalidade de evitar reduzir o efeito dos cartões de crédito e do crédito fácil a só um lucro extraordinário para aqueles que emprestam, a dívida teria que (e o fez com grande rapidez!) transformar-se em um atrativo permanente de geração de lucros. Não consegue pagar a dívida? Não se preocupe: ao contrário dos antigos emprestadores, ansiosos para recuperar o que haviam emprestado no prazo fixado de antemão, nós, os modernos emprestadores amistosos, não pedimos o reembolso de nosso dinheiro, mas lhe oferecemos ainda mais crédito para devolver a dívida anterior e ficar com algum dinheiro adicional (quer dizer, dívida) para pagar novos prazeres. Somos os bancos de quem gosta de dizer "sim". Os bancos amistosos. Os bancos sorridentes, como afirmava um dos comerciais mais criativos.

A armadilha do crédito

O que nenhum dos comerciais declarava abertamente era que na realidade os bancos não queriam que seus devedores quitassem os empréstimos. Se os devedores devolvessem pontualmente os empréstimos, já não estariam endividados. É sua dívida (o juro mensal que se paga sobre a mesma) que os emprestadores modernos amistosos (e de uma notável sagacidade) decidiram e conseguiram reformular como a fonte principal de seu lucro ininterrupto. Os clientes que devolvem com rapidez o dinheiro que pegaram emprestado são o pesadelo dos emprestadores. As pessoas que se negam a gastar o dinheiro que não ganharam e se abstêm de pedi-lo emprestado não são úteis aos emprestadores, assim como também as pessoas que (motivadas pela prudência ou por um sentido antiquado de honra) se apressam a pagar suas dívidas a tempo. Para benefício seu e de seus acionistas, os bancos e provedores de cartões de crédito dependem agora de um "serviço" ininterrupto de dívidas e não do rápido reembolso das mesmas. Pelo que a eles concerne, um "devedor ideal" é que aquele que nunca paga completamente o crédito. Pagam-se multas se se quer quitar a totalidade de um crédito hipotecário antes do prazo estabelecido... Até a recente "crise do crédito", os bancos e emissores de cartões de crédito se mostravam mais que dispostos a oferecer novos empréstimos a devedores insolventes para cobrir os juros não pagos de créditos anteriores. Uma das principais companhias de cartões de crédito da Grã-Bretanha se negou, há pouco tempo, a renovar os cartões dos clientes que pagavam a totalidade de sua dívida cada mês e, portanto, não incorriam em juro punitivo algum.

Para resumir, a "crise do crédito" não foi resultado do fracasso dos bancos. Pelo contrário, foi um resultado completamente previsível, se bem que inesperado, o fruto de seu notável sucesso: sucesso no relativo a transformar a enorme maioria dos homens e mulheres, velhos e jovens, em um exército de devedores. Obtiveram o que queriam conseguir: um exército de devedores eternos, a autoperpetuação da situação de "endividamento", ao passo que se buscam mais dívidas como única instância realista de economia a partir das dívidas em que já se incorreu.

Ingressar nessa situação ficou mais fácil do que nunca na história da humanidade, ao passo que sair da mesma nunca foi tão difícil. Já se tentou, seduziu e endividou todos aqueles que podiam se converter em devedores, assim como a milhões de outros aos quais não se podia nem devia incitar a pedir empréstimos.

Como em todas as mutações anteriores do capitalismo, também desta vez o Estado assistiu ao estabelecimento de novos terrenos férteis para a exploração capitalista: foi por iniciativa do presidente Clinton que se introduziram nos Estados Unidos as hipotecas subprime patrocinadas pelo governo para oferecer crédito para a compra de casas a pessoas que não tinham meios para reembolsar esses empréstimos, e para transformar assim em devedores setores da população que até o momento haviam sido inacessíveis à exploração mediante o crédito...

Contudo, assim como o desaparecimento das pessoas descalças significa problemas para a indústria do calçado, o desaparecimento das pessoas não endividadas anuncia um desastre para o setor do crédito. A famosa profecia de Rosa Luxemburgo se cumpriu uma vez mais: outra vez o capitalismo esteve perigosamente próximo do suicídio ao conseguir esgotar a reserva de novos territórios virgens para a exploração...

Até agora, a reação à "crise do crédito", por mais impressionante e até revolucionária que possa parecer, uma vez processada nas manchetes dos meios de comunicação e nas declarações dos políticos, foi "mais do mesmo", com a vã esperança de que as possibilidades revigoradas de lucro e consumo dessa etapa ainda não se tenham esgotado por completo: uma tentativa de recapitalizar os emprestadores de dinheiro e de fazer que seus devedores voltem a ser dignos de crédito, de modo tal que o negócio de emprestar e tomar emprestado, de se endividar e permanecer nesse estado, possa retornar ao "habitual".

O Estado de Bem-estar social para os ricos (que, ao contrário de seu homônimo para os pobres, nunca viu questionada a sua racionalidade, e muito menos interrompidas as suas operações) voltou aos salões de exposição após abandonar as dependências de serviço para onde seus escritórios haviam sido transferidos de forma temporária para evitar comparações invejosas.

O que os bancos não podiam obter – por meio de suas habituais táticas de tentação e sedução –, o fez o Estado mediante a aplicação de sua capacidade coercitiva, ao obrigar a população a incorrer de forma coletiva em dívidas de proporções sem precedentes: hipotecando o nível de vida de gerações que ainda não haviam nascido...

Os músculos do Estado, que fazia muito tempo que não eram usados com essas finalidades, voltaram a se flexionar em público, desta vez em prol da continuação do jogo cujos participantes fazem com que esta flexão seja considerada indigna, mas inevitável; um jogo que, curiosamente, não pode suportar que o Estado exercite seus músculos, mas não pode sobreviver sem ele.

Agora, centenas de anos depois que Rosa Luxemburgo tornou pública a sua intuição, sabemos que a força do capitalismo reside em seu incrível talento de buscar e encontrar novas espécies de hospedeiros toda vez que as espécies exploradas anteriormente diminuem de número ou se extinguem e no oportunismo e na velocidade, semelhante aos de um vírus, com as quais se adapta às idiossincrasias das suas novas pastagens. No número de novembro de 2008 do The New York Review of Books (no artigo "A crise e o que fazer a respeito"), o brilhante analista e mestre da arte do marketing George Soros apresentou o itinerário das empresas capitalistas como uma sucessão de "bolhas" que se expandiam para além de sua própria capacidade e estouravam com rapidez uma vez que atingiam o limite de sua resistência.

A "crise do crédito" não marca o fim do capitalismo; apenas o esgotamento de uma de suas sucessivas pastagens... A busca de uma nova relva começará logo, alimentada, assim como no passado, pelo Estado capitalista mediante a mobilização compulsiva de recursos públicos (usando os impostos em vez do poder de sedução, deficitário e temporariamente não operativo, do mercado). Buscar-se-ão novas "terras virgens" e se tentará, de um modo ou de outro, abri-las à exploração até que suas possibilidades de aumentar os lucros de acionistas e as bonificações dos dirigentes fique por sua vez esgotada.

Como sempre (como também aprendemos no século XX a partir de uma longa série de descobrimentos matemáticos desde Henri Poincaré até Edward Lorenz) um mínimo passo em falso pode levar a um precipício e terminar em uma catástrofe. Até minúsculos passos em frente podem desencadear inundações e terminar em dilúvio...

Os anúncios de outro "descobrimento" de uma ilha desconhecida atraem multidões de aventureiros que ultrapassam em muito as dimensões do território virgem, multidões que num abrir e fechar de olhos teriam que voltar correndo às suas embarcações para fugir do iminente desastre, esperando contra toda esperança que as embarcações sigam aí, intactas, protegidas...

A grande questão é em que momento a lista de terras disponíveis para uma "virginização secundária" se esgotará, e as explorações, por mais frenéticas e engenhosas que sejam, deixarão de gerar respiros temporários. Os mercados, que estão dominados pela "mentalidade caçadora" líquida moderna que substituiu a atitude de guarda-florestal pré-moderna e a clássica postura moderna de jardineiro, seguramente não vão se incomodar em colocar essa pergunta, dado que vivem de uma alegre escapada de caça a outra como outra oportunidade para adiar o momento da verdade, não importa se por um momento breve nem a que preço.

Ainda não começamos a pensar com seriedade na sustentabilidade da nossa sociedade movida a crédito e consumo. "A volta à normalidade" prognostica uma volta a vias sempre mais perigosas. A intenção de fazê-lo é alarmante: indica que nem os dirigentes das instituições financeiras, nem os nossos governos, chegaram ao fundo do problema com seus diagnósticos, e muito menos com seus atos.

Parafraseando Héctor Sants, diretor da Autoridade de Serviços Financeiros, que há pouco confessou a existência de "modelos empresariais mal equipados para sobreviver ao estresse (...), algo que lamentamos", Simon Jenkins, um analista do The Guardian de extraordinária perspicácia, observou que "foi como se um piloto protestasse porque seu avião funciona bem com exceção dos motores".

7 de dezembro de 2009

Camponeses, Mao e insatisfação na China: do Grande Salto Adiante ao presente

Dongping Han

Monthly Review

Tradução / Existem concepções erradas muito difundidas sobre vários aspectos da Revolução Chinesa. Entre eles, estão uma interpretação equivocada do Grande Salto Adiante, da Revolução Cultural, das “reformas” da era pós-Mao e da reação da imensa maior parte dos camponeses a esses movimentos. Ainda que os programas/movimentos revolucionários tenham resultado em dificuldades significativas – para a população rural (o Grande Salto Adiante, 1958-61) ou os intelectuais (a Revolução Cultural, 1966-76) – ambos produziram conquistas concretas no campo e levaram a ganhos impressionantes na produção agrícola e na vida das pessoas. Em contrapartida, as “reformas” da era pós-Mao resultaram até aqui em um grande crescimento da desigualdade na China, com a população rural sofrendo muito com a destruição do apoio público à saúde e à educação. Além disso, oficiais locais e regionais venderam terras agriculturáveis com fins de desenvolvimento, normalmente enchendo seus próprios bolsos e com compensação inadequada aos camponeses. Isso levou às atuais agitações massivas nas zonas rurais, envolvendo literalmente centenas de milhares de incidentes com protestos de camponeses.

O Grande Salto Adiante

O Grande Salto Adiante, segundo plano quinquenal da Revolução Chinesa, foi uma tentativa de desenvolver rapidamente tanto a indústria quanto a agricultura. Esse foi o período no qual as comunas foram formadas e por volta de 600.000 forjas “de fundo de quintal”, de pequena escala, foram construídas para abastecer as necessidades locais por todo o país. Essa foi também a era de grandes projetos de irrigação – de alcance local, regional e nacional – que resultariam em aumentos impressionantes nas colheitas nos próximos anos. No entanto, o trabalho extra que ele exigia aumentou o consumo de alimentos pela população, o que não foi acompanhado por uma ingestão de calorias suficiente.

A atual ampla insatisfação rural, assim como urbana, na China contrasta bastante com a relativa ausência de problemas durante o Grande Salto Adiante, em que a falta de grãos levou a fome severa em algumas partes da China rural, como o resultado de condições climáticas mais duras e de erros administrativos em vários níveis governamentais. Há discordâncias consideráveis quanto a se uma fome massiva aconteceu ou não e, se tiver acontecido, quantas pessoas morreram. No entanto, está claro que dificuldades consideráveis foram criadas pela falta de grãos e que ela foi induzida, pelo menos parcialmente, pelas políticas do Grande Salto Adiante. No entanto, durante minha pesquisa na China rural nos últimos vinte e cinco anos – incluindo entrevistas extensas com camponeses no município de Jimo, na província de Shandong – não encontrei um único camponês que acreditasse que Mao tenha perdido popularidade por causa do Grande Salto Adiante. Nem encontrei nenhum camponês que tivesse considerado se levantar contra o governo durante o Grande Salto Adiante, ou qualquer literatura mencionando que tivesse havido protestos reais de camponeses durante esse período (no entanto, um número significativo de camponeses, especialmente os mais jovens, expressa o seu desejo de se junta a uma rebelião agora, se houver uma contra o governo[1]). E, por mais difíceis que as coisas tenham sido durante o Grande Salto Adiante, os camponeses aparentemente não estavam nem muito debilitados, nem muito fracos para construir um grande número de projetos de irrigação nacionais, provinciais e locais.
O Partido Comunista e o povo

O partido comparava a sua relação com o povo chinês como a do peixe com a água. Os comunistas afirmavam que a água (o povo) pode viver sem o peixe (os membros do Partido Comunista). Mas o peixe não pode viver sem a água, apontando assim a importância do apoio popular para o sucesso da revolução. Essa relação especial entre os comunistas chineses e o povo chinês foi construída em um longo processo de tentativa e erro, que não foi sempre sem erros. E houve muitos erros durante o Grande Salto Adiante, o que levou a tentativas de retificação com a Campanha de Educação Socialista, em 1964, e a Revolução Cultural, em 1966.

O argumento de que as pessoas podem não ter tido outro recurso a não ser se envolver em tipos de resistência (ou de maneiras de lidar com a situação) individuais e cotidianas no contexto do Grande Salto Adiante parece convincente. Os camponeses chineses, como todas as outras pessoas, não assumiriam tranquilamente a tarefa de tentar derrubar o governo. Mas entre a escolha de passar fome até morrer e a revolta, escolher não deveria ser uma coisa difícil. Se o número de milhões de mortos afirmado pelos críticos do Grande Salto Adiante fosse real, então porque os camponeses chineses teriam se submetido à morte por uma fome lenta em vez de se rebelar e conquistar alguma esperança de sobrevivência?

Ainda que a sociedade civil estivesse desarmada durante a maior parte da história da China, isso não impediu os camponeses chineses de se rebelarem ocasionalmente com o que quer que tivessem nas mãos. O termo chinês jiegan erqi (se revoltar com varas de bambu) foi criado para descrever a rebelião camponesa durante a dinastia Qin, em particular, e outras rebeliões em geral nas quais camponeses, sob o peso da injustiça social, se revoltavam usando tudo que tivessem ao alcance das mãos. E no entanto, durante o Grande Salto Adiante a população chinesa estava mais armada do que nunca. Foi nessa época que Mao convocou uma organização em grande escala de unidades de milícias locais (daban minbingshi). Jovens camponeses nas equipes de produção foram organizados em pelotões de milícias. Em cada brigada de produção havia uma companhia de milícia. No nível da comuna, haviam batalhões de milícia. O departamento de assuntos militares no governo municipal tinha a tarefa de armar e treinar as milícias. Os camponeses chineses trabalhavam nos campos com seus rifles guardados bem perto durante os anos do Grande Salto Adiante[2]. Teria sido muito difícil para um camponês pegar um rifle, atirar no seu ou na sua líder e começar uma rebelião se ele assim desejasse?

Realizações passadas e metas futuras

Existem outros fatores que levaram à aceitação e à participação ampla e ativa dos camponeses nos projetos do Grande Salto Adiante. Um dos principais foi que os camponeses sabiam que os projetos beneficiariam a eles e a suas comunidades no futuro. Além disso, muitos camponeses receberam terras e outros recursos durante a reforma agrária e se sentiam responsáveis em relação ao governo. A maioria dos camponeses chineses se beneficiaram da reforma agrária da revolução. Por exemplo, no município de Jimo, os senhores de terras e os camponeses ricos, que eram 4% da população, perderam mais de 11.000 hectares de terra, 33.524 casas, 2.441 cavalos e outros animais de criação, 4.377 peças de implementos agrícolas e 6.891.715 quilos de grãos por causa da reforma agrária. Mas ao mesmo tempo, as unidades domésticas de camponeses pobres, que eram 60% da população total, conseguiram terras, animais de criação e casas como resultado da reforma agrária.
Escassez de alimentos

O Grande Salto Adiante ganhou seu nome em parte por causa da escala sem precedentes de seus projetos de irrigação. Esses projetos, que foram elaborados para aumentar a colheita de grãos, contribuíram, ironicamente, para a escassez de grãs a curto prazo durante o Grande Salto Adiante.

A maior parte das sociedades agrárias trabalha regulada pelo ciclo das estações. No norte da China, o ciclo das estações envolve o seguinte: uma temporada de plantação intensa no meio da primavera seguida por um fim de primavera menos intenso e uma temporada no início do verão, seguidos por um meio de verão intenso de colheita e plantação, seguido novamente por um final de verão e um começo de outono menos intensos, seguidos por uma temporada de colheita e plantação intensas no fim do outono e finalmente por um inverno ameno e uma temporada de início da primavera. Nessa região, menos de três meses são considerados temporadas intensas, e o resto do ano é considerado uma temporada “amena” ou “tranquila”.

Até recentemente, as unidades domésticas rurais na China contabilizavam seus estoques de grãos de acordo com o ciclo de seus trabalhos nos campos. Elas comiam mais e melhor quando tinham que trabalhar de maneira intensa nos campos, e comiam muito menor e em pior qualidade durante as temporadas amenas ou tranquilas. A maios parte dos camponeses no norte da China se levantava muito tarde no inverno e no início da primavera, e ia para a cama muito cedo para poupar energia. Comiam apenas duas refeições ao dia, e os alimentos que ingeriam eram na maior parte mingau e batatas-doces durante as temporadas amenas. Como resultado disso, o consumo de comida era mantido em um nível mínimo durante o inverno e o início da primavera. Durante as temporadas de muito trabalho, quando os camponeses tinham que realizar trabalhos manuais intensivos, eles comeriam tanto trigo e pão de milho quanto pudessem. Como resultado, o consumo de comida nessas estações intensas poderia ser três ou quatro vezes maior do que nas temporadas amenas.

O Grande Salto Adiante transformou temporadas amenas e tranquilas na china rural em temporadas e trabalho intenso. Durante o inverno e a primavera de 1958, 1959 e 1960, a população rural trabalhou para construir reservatórios, cavar poços, dragas o fundo de rios e construir canais de irrigação. Haviam projetos nacionais, provinciais, regionais e locais sendo construídos ao mesmo tempo. Alguns dos exemplos mais conhecidos de projetos desse tipo eram: o Reservatório Shisanling (Reservatório das Tumbas Ming); o Projeto do Rio Hai, que conectava cinco grandes rios no norte da China; o Projeto Sanmenxia do Rio Amarelo em Henan e na província Shanxi e o Projeto Liu Jaxia do Rio Amarelo. O mundialmente famoso Canal de Irrigação Bandeira Vermelha no município de Lin, Henan, foi iniciado durante o Grande Salto Adiante e só foi terminado dez anos depois[3].

No município de Jimo, província de Shandong, os camponeses passaram por vários milhões de dias de trabalho para construir quatro reservatórios médios e vários outros projetos de irrigação: o Reservatório Shipeng na parte sul do município de Jimo, o Reservatório Wangquan na parte central, o Reservatório Songhuaquan na parte centro-oeste, o Reservatório Yecheng no oeste e o Projeto de Irrigação Chahe no norte.

Além desses grandes projetos, houveram também vários projetos menores lançados por comunas e aldeias no município de Jimo. Entre eles estavam o Reservatório Xiazhang na comuna Wangcun, o Reservatório Fangjia na comuna Woli, o Reservatório Yushitou na comuna Duncun. Em 1959, o município de Jimo também cavou, pela primeira vez, trinta e três grandes e fundos poços de irrigação elétricos.

Houve, sem dúvidas, problemas de administração graves durante o Grande Salto Adiante. Se pedia que as pessoas participassem em projetos fisicamente exaustivos, mas não haviam porções extras de alimentos oferecidas de maneira suficiente. Sem esses projetos de irrigação gigantescos, provavelmente não teria havido fome em Jimo, e a escassez de grãos teria sido bem menos severa. Foi, no mínimo, exaltado desenvolver um investimento gigantesco de trabalho desse tipo em um tempo tão curto sem porções de alimento suficientes. Claramente, os líderes do governo no município de Jimo foram culpados de erros de cálculo e má administração de recursos humanos e financeiros durante o Grande Salto Adiante.

Retrospectivamente, os líderes poderiam responsabilizar o ambiente social de entusiasmo criado pelo governo central ou a pressão recebida por resultados maiores e mais rápidos de seus superiores nos governos de província e centrais. A palavra de ordem do momento era “duo kuai hao sheng de jianshe shehuizhuyi” (“construir o socialismo de uma maneira mais rápida, melhor e mais econômica”). Mas nos níveis de base, se supunha que os líderes conheciam suas condições locais melhor do que os níveis superiores do governo e que eram, ao fim, responsáveis pelas vidas da população local.

Se podemos criticar a administração dos líderes provinciais, não podemos criticar suas intenções. Havia um consenso entre os líderes do governo, líderes das comunidades locais e os camponeses comuns de que uma irrigação melhorada era necessária para aumentar a colheita de grãos. Assim, a maior parte dos camponeses via a ligação entre esses projetos de irrigação e uma vida melhor para eles mesmos em um futuro próximo. Ainda que eles tenham passado por muitas dificuldades na construção desses projetos na época, os camponeses disseram que não podiam negar o fato de que o objetivo era tornar as suas vidas melhores no futuro. Isso contrasta bastante com a atitude dos camponeses em relação aos projetos massivos de outras épocas, como quando eram mobilizados para construir palácios para a elite.

As táticas dos camponeses

Como sabemos que muitos camponeses praticaram atos individuais de sobrevivência durante o Grande Salto Adiante, como “moyanggong” (fingir trabalhar, sem fazer isso de fato) e chiqing (comer safras verdes antes que tenham amadurecido”. Como alguém que trabalhou em uma plantação coletiva durante muitos anos moyanggong e chiqing me parecem ser uma parte necessária de lidar com a vida diária durante o Grande Salto Adiante, mais do que formas de resistência individuais contra as políticas do governo e os oficiais. O que mais as pessoas poderiam fazer, quando estavam exaustas pelo trabalho mas não pensavam que era certo parar de trabalhar completamente enquanto outras pessoas trabalhavam? Era apropriado se envolver em moyanggong como uma forma de descansar enquanto outros camponeses continuavam o trabalho.

Chiqing era outra prática aceita e difundida durante o Grande Salto Adiante, tornada necessária pelas longas horas de trabalho e os estoques de comida escassos. Os camponeses comiam o que pudessem encontrar para satisfazer sua fome, não para demonstrar sua raiva ou resistir às políticas e funcionários do governo. Quanto trabalhei em uma plantação coletiva depois do Grande Salto Adiante, era um prática aceitável comer uma pequena quantidade de trigo, milho, batatas doces, amendoins, nabos e repolhos verdes. Às vezes cozinhávamos milho verde, soja e até mesmo batatas no campo. Camponeses em Shandong chamavam isso de shao pohuo (fazer uma pequena fogueira no campo). Depois começávamos um jogo de chi yao mohui (tentar sujar a o rosto do outro com nossas mãos cheias de cinza). Os garotos tentavam fazer isso com as garotas, e as garotas tentavam fazer isso com os garotos. Os líderes das equipes de produção participavam da brincadeira assim como os camponeses comuns. Sem entender o contexto social dessas práticas, é fácil vê-las como resistência cotidiana.

Apoio social aos camponeses

O clima social do momento também ajudava os camponeses a fazer a ligação entre esses projetos de irrigação e um futuro melhor. O governo deu grande atenção às zonas rurais durante o Grande Salto Adiante – se disse para toda a nação e para os membros do partido que deveriam ajudar a agricultura, as zonas rurais e os camponeses. Era uma prática comum que o governo local, trabalhadores das fábricas e da administração, unidades do exército e estudantes do ensino médio e do ensino superior viessem ajudar os camponeses durante as temporadas intensas.

Um velho camponês que entrevistei em Henan me contou com grande carinho como ele e seus companheiros camponeses ficaram empolgados em ver artistas nacionalmente famosos vir tocar para eles nos locais de irrigação durante o Grande Salto Adiante. Ele disse que suas horas de trabalho eram muitas e que a comida que comiam não era especialmente boa, mas os camponeses persistiam porque o Presidente Mao e o governo se preocupavam com os camponeses. “Esses artistas”, ele disse, “nos foram mandados pelo Presidente Mao”. Ele ouviu essas palavras dos artistas na época. Quarenta anos depois, ele usou essas palavras como se fossem as suas. Apenas na China de Mao artistas nacionalmente famosos iam tocar para os camponeses nas zonas de irrigação

As publicações pós-Mao taxaram essas iniciativas do governo de mandar artistas e intelectuais trabalharem com camponeses e operários como parte da perseguição maoista dos intelectuais. Mas essas iniciativas do governo serviram para aumentar a solidariedade o ânimo nacionais. Os camponeses que estavam na base da sociedade chinesa ganharam um sentido de sua importância e de empoderamento quanto funcionários do governo, professores e estudantes universitários estavam trabalhando lado a lado com eles. Mao e outros líderes nacionais trabalharam no Reservatório Shisanling em 25 de maio de 1958, mobilizando ondas de funcionários do governo para participar em atividades desse tipo[4]. Em 11 de outubro de 1959, 12.000 estudantes universitários e do ensino médio e professores da cidade de Qingdao vieram para o município de Jimo ajudar com as colheitas de outono e a plantação. Em setembro de 1960, 28.000 estudantes e professores de Qingdao vieram para Jimo para ajudar com as plantações.

Outro fator que ajuda a explicar o comportamento do camponeses chineses e sua atitude diante do Grande Salto Adiante foi o comportamento pessoal dos líderes. Por suas memórias, recentemente publicadas, sabemos que uma vez que o Presidente do Partido Comunista, Mao Zedong, percebeu a situação difícil da China rural durante o Grande Salto Adiante, ele abandonou o consumo de carne. Ele também se recusou a ouvir a sugestão das pessoas a sua volta de que deveriam deixar que suas filhas consumisse um pouco mais de comida. Alguns podem dizer que não era um grande sacrifício para Mao deixar de comer carne de porco enquanto centenas de milhares de camponeses estavam sofrendo por causa de suas políticas questionáveis e erros de administração. Mas a maior parte dos camponeses na época não poderia possivelmente saber o que Mao fazia ou deixava de fazer. O que os camponeses sabiam no momento era o comportamento dos líderes municipais, regionais e das comunas.

A liderança dos oficiais locais

Camponeses em Jimo acreditavam que a qualidade dos líderes nacionais era definida pela qualidade dos líderes nas bases ( guojia lingdai ren de pingde cong difang guanyuan de pingde zhong biaoxian chulai). Durante o Grande Salto Adiante, os líderes do município de Jimo, incluindo os líderes principais, o Secretário Municipal do Partido Xu Hua e o Chefe do Governo Regional, Li Anshi, e outros líderes regionais, estavam viajando pela região para trabalhar com o povo nos projetos de irrigação locais. Cada líder regional ou de comuna assumia a responsabilidade por pelo menos uma localidade. Os líderes visitavam e trabalhavam na localidade “de base” regularmente; os moradores os conheciam e eles conheciam bem os moradores. Mais importante, eles comam a mesma comida que os camponeses comuns em suas casas, e sempre pagavam o preço regular por sua comida, o que era normalmente maior do que o preço real da comida. Na hora do almoço, eles comiam na casa dos camponeses, escolhidos de maneira aleatória. Na época, os camponeses comiam na maior parte do tempo batatas doces, e Wang Shuchun comia a mesma comida que eles. Depois das refeições ele deixava trinta centavos e um cupom de grãos de tês liangs por sua refeição.

De fato, a maior parte dos líderes locais durante o Grande Salto Adiante eram ativamente presentes na vida cotidiana do povo. Eles trabalhavam nos locais de obras com os camponeses na maior parte do tempo, e comiam a mesma comida que os camponeses comuns.

O Secretário do Partido do distrito de Maqiao, Wu Changxing, trabalhou com os camponeses nos locais de irrigação dia e noite durante o Grande Salto Adiante. Ele se recusou a comer mais do que qualquer outra pessoa, e no fim morreu com uma combinação de exaustão e desnutrição – a única pessoa a morrer no local de construção do distrito de Maqiao. Outras pessoas, movidas pela fome, começaram a comer plantas verdes, mas ele sentia que, como um membro do Partido Comunista Chinês (PCCh) e o secretário partidário do distrito, ele não poderia se rebaixar a esse nível. Outras pessoas poderiam trapacear um pouco, tomando pausas maiores para o banheiro, mas ele sentia que, como um líder, ele deveria ser um modelo para os outros. Wu Changxing deixou dois filhos, e os camponeses de Maqiao cuidaram muito bem de seus filhos, por seu respeito em relação a seu líder honesto e trabalhador.

Em setembro de 1960, com estudantes, professores e outros, 2.100 funcionários provinciais e da cidade também vieram trabalhar com os camponeses em Jimo. A maior parte dos camponeses que entrevistei em Jimo ficaram contentes em ver funcionários do governo trabalhando lado a lado com eles. “Estávamos muito felizes de ver os oficiais do governo do povo e os intelectuais urbanos comerem a mesma comida e fazer o mesmo trabalho que nós. Sentíamos uma ligação muito próxima com eles naquela época.” Esse aspecto frequentemente ignorado da sociedade e da política chinesas é um fator importante por trás da elevada moral popular durante o Grande Salto Adiante.

Durante esse período, a maior parte das pessoas estava magra, e os líderes regionais e de comunas eram tão magros quanto todos os outros. Se baseando em seu tamanho corporal, era quase impossível distinguir esses líderes dos camponeses comuns. “O Secretário Regional do Partido Xu”, disse Zhang Yingfa, um camponês de Rio do Sul, “era tão alto quanto eu, mas definitivamente era mais magro do que eu quando veio trabalhar conosco na aldeia”. Isso, novamente, contrastava muito com a imagem tradicional dos oficiais de governo chineses. Os camponeses diziam que era muito difícil perceber esses oficiais comunistas como opressores e pessoas ruins. Eles simplesmente não causavam raiva entre os camponeses. Isso não quer dizer que não houvessem muitos oficiais ruins e corruptos na época. Mas aos olhos de muitos dos habitantes rurais de hoje, os oficiais de Mao eram drasticamente diferentes do tipo “jovem e mais escolarizado” de oficiais do governo chinês da época das “reformas” posteriores, que vinham aos povoados apenas em carros e que comiam grandes banquetes às custas dos camponeses. Um importante fator para evitar rebeliões camponesas durante um período d graves dificuldades era o estilo de liderança e a integridade pessoal dos oficiais comunistas.

Haviam muito poucas diferenças de renda ou de origem entre os líderes locais e o povo liderado. Os líderes dos povoados nos anos 1950 entendiam os camponeses pobres muito melhor do que seus antecessores e sucessores na história chinesa. Esse entendimento era a força do Partido Comunista, e teve um papel importante para evitar a decomposição do governo durante o Grande Salto Adiante. Os camponeses tendiam a seguir os líderes locais que vinham das mesmas origens socioeconômica que a imensa maioria deles e demonstrava preocupação em relação a suas necessidades. Mao se tornou o grande líder do povo chinês exatamente porque conseguia ver o potencial revolucionário dos líderes camponeses. Foram esses camponeses e líderes camponeses que realizaram os objetivos fundamentais da Revolução Chinesa e rejuvenesceram a sociedade chinesa.

Durante a Campanha de Educação Socialista de 1964, logo depois do Grande Salto Adiante, muitos líderes locais municipais foram acusados de corrupção comum e delitos leves, como comer mais do que sua cota de comida, roubar pequenas quantidades de dinheiro dos fundos coletivos e dividir pequenos números de grãos entre eles durante o Grande Salto Adiante. Aos olhos do Partido Comunista, que exigia que seus membros passassem pelas dificuldades primeiro e aproveitassem os benefícios depois (chi ku zai qian, xiangshou zai hou), esse tipo de desvio de comportamento não podia ser permitido. Mas julgando pelos padrões de hoje, ou pelo padrões da China tradicional, a corrupção dos líderes locais era pequena. É natural que, no meio de uma escassez de grão, as pessoas mais próximas da comida comessem um pouco mais para sobreviver.

Da Revolução Cultural às “reformas” agrárias

À luz da pequena corrupção difusa entre os líderes locais durante o Grande Salto Adiante, um dos mais importantes objetivos da Revolução Cultural era dar poder aos camponeses comuns para que participassem da política local[5]. A autoridade dos líderes locais foi bastante diminuída como resultado do desenvolvimento do poder dos camponeses comuns nesse período, e o governo local se tornou mais legítimo aos olhos do povo do que durante o Grande Salto Adiante. Os governos central, provincial, regional, distrital e da comuna deram muita atenção à agricultura, às zonas rurais e aos camponeses. Muitos camponeses foram selecionados para participar em todos os níveis de governo. Oficiais eram incentivados a trabalhar com os camponeses e a população urbana era incentivada a apoiar a população rural. Dezessete milhões de jovens urbanos, escolarizados, foram mandados para viver e trabalhar nas zonas rurais durante os anos da Revolução Cultural. Consequentemente, aos olhos dos camponeses o governo se preocupava com eles[6].

Distúrbios sociais atuais

A mídia chinesa está repleta de histórias de sucesso relativas à reforma agrária desde que o governo de Deng Xiaoping começou as “reformas” no início dos anos 1980. Os estudiosos chineses e ocidentais basicamente repetiram as declarações do governo sobre os sucessos dessas reformas rurais. De acordo com a versão oficial, as colheitas aumentaram dramaticamente e o luvro dos camponeses aumentou de maneira significativa (as colheitas de fatoaumentaram, em parte por causa dos projetos de irrigação, seleção de plantas e fábricas locais de fertilizante construídas durante o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural). As pessoas que estudavam a China ruram levantaram a hipótese de que o aumento da colheita de grãos se devia à mudança da produção coletiva à produção privada. Também é verdade que a China não pasou por desastres naturais graves nos últimos vinte e cinco anos e que tenham tido efeitos grandes sobre a produção agrícola, e os camponeses têm à sua disposição mais grãos do que antes. Nos povoados que visitei nas províncias de Henan e Shandong, a maior parte das famílias rurais tem por volta de 1 a 1.5 toneladas métricas (dois ou três mil jin) de grãos estocados em suas casas, o que seria normalmente o suficiente para dois anos de consumo.

De acordo com a visão padrão, as revoltas rurais que estão acotnecendo na China hoje são difíceis de explicar. Em 2001, Politics in Yue Village de Yu Jianrong foi publicado, documentando os protestos rurais contemporâneos na província de Hunan. Em 2004, dois grandes protestos na província de Sichuan envolvendo centenas de milhares de camponeses chocaram o mundo. Em um incidente, mais de cem mil camponeses cercaram os prédios do governo local por três dias; mais de uma dúzia de carros de polícia foram incendiados, e o governo mandou cem mil policiais armados conterem a multidão. Em outro incidente, uma multidão irada fez o governador da província de refém por alguns dias. Desde então, ninguém mais duvida que o governo chinês enfrenta uma crise séria nas zonas rurais.

Houve uma grande mudança nas percepções dos camponeses a respeito do PCCh desde época do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural. Como discutimos acima, os camponeses viam, então, o PCCh e os oficiais locais, regionais e nacionais como trabalhando nos seus melhores interesses. Mas quando entrevistei pela primeira vez os camponeses em Jimo sobre a sua reação à reorganização rural em 1982, a resposta mais comum era que gongchandang bu guan women la (“o Partido Comunista não se importa mais conosco”). “Women jiuyao cheng moniangde haozila” (“vamos ficar órfãos”), um velho camponês me disse na época. Essa resposta simples estão carregada de muitas implicações. Ela quer dizer que alguns camponeses consideravam a política de produção rural coletiva do governo como uma indicação de que o Partido Comunista se preocupava com as suas condições de vida. Mas como resultado das “reformas” agrária, o governo não podia mais ser visto como estando do seu lado – ele poderia, na melhor das hipóteses, ser visto como neutro. Essa mudança na percepção das políticas e ações do PCCh pelos camponeses, junto com a mudança nos estilos de liderança dos oficiais comunistas nos vários níveis de governo, tem tido um grande impacto na maneira como os camponeses percebem e interagem com o Estado.

Privatização, corrupção, desigualdade e crime

No processo da reorganização rural, alguns meios de produção de propriedade coletiva acabaram nas mãos dos antigos líderes locais. No município de Jimo, a maior parte das empresas industriais de propriedade coletiva foram primeiro concedidas a seus administradores e depois vendidas a eles. A fábrica do povoado que administrei antes de ir para a universidade em 1978 foi vendida para o seu administrador seguinte, Liu Dunxiao. Em menos de vinte anos, Liu e sua família lucraram mais de 200 milhões de yuans (mais ou menos 30 milhões de dólares). O irmão mais novo de Liu, com a sua ajuda, controla o sistema de transporte público no distrito, e tem também um patrimônio de bilhões de yuans. O mesmo processo transferiu muitas empresas de propriedade estatal e coletiva para a propriedade privada em um sistema de fisiologismo. O povo chiês agora se refere a esse processo como o pecado original da classe capitalista chinesa, classe que ascendeu desde o meado dos anos 1980. Essa aquisição de recursos de propriedade coletiva ou estatal era inconstitucional e ilegal. Ela também violava o sentido de justiça social amplamente aceito pelos camponeses chineses. Um capitalista já me disse, em entrevista, que a maior parte da classe capitalista chinesa tinha uma origem criminosa, o que é como ter uma espada pendurada sobre as suas cabeças. Muitos camponeses agora colocam em questão a legitimidade política do governo que encorajou essa aquisição criminosa de propriedades coletivas e meios de produção estatais.

Desde as reformas agrárias, os diferentes níceis do governo não organizam mais projetos de irrigação de grande escala na China e a presença do governo na vida dos camponeses se tornou mínima. Os governos municipais agora só fazem duas coisas: coletar os impostos sobre os grãos e reforçar as políticas de planejamento familiar. Os camponeses acreditam que os governos municipais só querem o seu dinheiro (impostos) e as suas vidas (planejamento familiar) (yao qian he yao ming).

O recuo do governo nacional nas zonas rurais é considerado um progresso pela mentalidade econômica liberal dos livres mercados. Parece que o Estado está dando à sociedade em geral e à população rural em particular o poder para assumir o controle de sua própria vida. Os camponeses deveriam ter recebido bem essa reorganização rural. Mas a realidade é mais complicada.

Durante a era coletivista, os líderes das comunas viviam nas zonas rurais em que trabalhavam. Eles ia para os povoados de bicicleta. Hoje, os líderes dos governos municipais são mas escolarizados e não querem viver nas zonas rurais. Eles construíram casas luxuosas no estilo ocidental nas capitais distritais. Portanto, o governo municipal tem que comprar um carro para cada um dos quatro oficias maiores do governo: o secretário municipal do partido, o secretário distrital do partido, o líder do governo municipal e o líder do governo distrital. Eles também precisam de motoristas para levá-los para o trabalho todos os dias. Como não têm muito o que fazer, estão sempre entediados. E assim, visitam restaurantes e pontos de lazer. “Os restaurantes rurais nas áreas do entorno”, disse um camponês, “começaram a oferecer serviços de xiaojie (prostitutas) porque os líderes do governo local querem”.

Enquanto os gastos do governo local aumentam, as maneiras de extrair dinheiro dos camponeses se multiplicam, agora que o imposto agrário foi eliminado. Muitos governos locais usam o planejamento familiar como uma maneira de tirar mais dinheiro dos camponeses. Para conseguir uma permissão para ter um filho, os camponeses têm que subornar os oficiais de governo do município e do povoado. Alguns lideres municipais e dos povoados vendem permissões de parto para camponeses que têm dinheiro. Em alguns lugares, os oficiais locais chegam até a encorajar os camponeses ricos a terem mais filhos para que possam ganhar com as “multas” por eles. Em contexto social desses, os camponeses questionam a legitimidade política do governo central, assim como dos funcionários regionais e locais. Outra maneira de fazer dinheiro é o confisco de terras pelos funcionários regionais e locais, que então vendem a terra para fins de “desenvolvimento”, sem compensar os camponeses por isso – aumentando, assim, muito a tensão nas zonas rurais.

A mudança na percepção dos camponeses em relação à legitimidade do governo e ao comportamento dos oficiais transformou a interação dos camponeses com o Estado. O entrevistados no povoado Rio do Sul, no município de Jimo, me relataram que os camponeses se recusaram a saquear os reservatórios de grãos desprotegidos perto de seu povoado durante a falta de grãos no Grande Salto Adiante. Mas agora, eles começaram a se envolver em todos os tipos de atividades ilegais e ilícitas. Muitos camponeses foram presos por roubar em mercados e de outros camponeses. Eles lutam contra os fiscais do governo. Em um incidente, dois irmãos agrediram um coletor de impostos e acabaram na prisão por dois anos.

Alguns indivíduos mais ousados organizaram uma gangue de ladrões, roubando em grande escala. Eles construíram uma rede de colaboradores nas cidades grandes, que identificam os alvos: na maior parte das vezes, casas de oficiais corruptos e empresários ricos. Eles vêm à cidade grande, cometem seus crimes com precisão e então retornam para suas cidades e dividem os ganhos com seus colaboradores urbanos. Dessa maneira, conseguem viver uma “boa vida” e reduzir o risco de serem pegos. A maior parte das pessoas, até mesmo a polícia local, sabem como essas pessoas ganham a vida.

Outro grupo de camponeses organizou uma sociedade secreta que se envolve em contrabando e oferece assassinos de aluguel. Eles matam ou ferem pessoas pelo preço certo. Alguns desses camponeses, que eram tímidos e obedientes durante o Grande Salto Adiante, trabalhadores mas agressivamente ativos politicamente durante a Revolução Cultural, se tornaram bandidos, ladrões e agressores durante o período das reformas.

A sociedade chinesa durante o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural era relativamente pobre. As pessoas mal tinham o que comer e vestir. Mas muitos camponeses se lembram desses tempos com afeto. Havia uma igualdade geral das condições de vida, muito pouca corrupção, muitos poucos crimes, não haviam drogas nem prostituição.

Hoje, a maior parte das pessoas na China rural se tornaram mais ricas. No município de Jimo, a área principal de minha pesquisa, algumas pessoas têm bastante dinheiro. Alguns lares dizer ter milhões. Mas, ao mesmo tempo, a vida das pessoas está repleta de crime, corrupção, prostituição e abuso de drogas – e existe um grande abismo entre ricos e pobres.

A resposta do governo às condições rural e aos distúrbios

O governo chinês começou a admitir, pela primeira vez desde a reforma agrária dos anos 1980, que ele encaram uma séria tripla crise, quanto à agricultura, as zonas rurais e os camponeses (san nong wenti). Estudiosos e oficiais do governo começaram a discutir a crise abertamente. O livro Yucun Politics (Yuecun Zhengzhi) de Yu Jianrong descreve um incicente em Hunan e, que mais de dez mil camponeses invadiram o prédio do governo municipal. Um camponês de sessenta e dois anos quebrou seis placas do governo no prédio do governo municipal, citando as palavras de Mao Zedong: “rebelar-se é justo”. Cheng Guili e Chun Tao, em seu Zhongguo Nongmin Diacha (Investigando os camponeses chineses), registra vários casos de opressão oficial contra os camponeses.

A diretiva número um do governo central em 2004 tinha o objetivo de aumentar a renda da população rural. Para isso, o governo chinês, no verão de 2006, eliminou completamente os impostos agrícolas para a população rural.

No entanto, a crise que o governo chinês encara na China rural não simplesmente uma crise para o aumento da renda dos camponeses. É uma questão muito complexa, envolvendo a legitimidade do governo, a conduta dos oficiais e muitas outras questões. Enquanto muitas pessoas aplaudem a eliminação dos impostos agrícolas pelo governo chinês, essa ação é mais sensacional do que efetiva, e pode ser até perigosa. A eliminação dos impostos agrícolas enfraquece ainda mais a presença do governo nas zonas rurais. Mas a China rural, hoje, precisa de uma presença governamental mais forte, e não mais fraca. As zonas rurais precisam quem o governo ofereça educação gratuita e cuidados de saúde. Os camponeses precisam que o governo os proteja dos capitalistas ambiciosos – apoiados pelos oficiais locais – que tomam terras camponesas. A China rural precisa de impostos progressivos – impostos sobre os ricos para proteger os fracos e os pobres. Simplesmente eliminar todos os impostos leva a mais corrupção, porque os oficiais locais inventam outras maneiras de ganhar dinheiro.

O governo central chinês culpou os oficiais locais pelos problemas na China rural. De maneira semelhante, a mídia chinesa fez dos oficiais de governo municipais os bodes expiatórios para a tensão crescente entre o governo e os camponeses na China. Um dos oficiais de governo municipal que entrevistei me disse que sentia que era ao mesmo tempo fácil e arriscado usas os oficiais municipais como bodes expiatórios: eles eram o sintoma, e não a causa do problema, que é sistêmico e muito mais profundo do que o governo central imagina. Culpas os oficiais municipais é apenas esconder o problema real e levar a mais distúrbios sociais. E, uma vez que a população rural se levantar, eles não irão pensar cuidadosamente contra quem vão se levantar. Essa é a natureza dos levantes populares.

Olhando novamente para Mao

Depois que o III Encontro Plenário do Décimo Primeiro Comitê Central PCCh (Dezembro de 1978) passou a resolução de criticar os erros de Mao durante o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural, a mídia chinesa, controlada pelas elites anti-maoistas, não hesitou em publicar livros denunciando tanto o Grande Salto Adiante quanto a Revolução Cultural. Pelos últimos trinta anos, os sentimentos anti-Mao, anti-Grande Salto Adiante e anti-Revolução Cultural dominaram o discurso intelectual chinês. No entanto, muitas pessoas escreveram suas próprias memórias em um esforço para reunir memórias culturais e históricas do Grande Salto Adiante. Em essência, esses autores – cujos ensaios contradizem diretamente as denuncias oficiais – protestaram contra a “reescrita da história” pelos oponentes de Mao.

Em dezembro de 2006, Deng Pufang respondeu a um repórter da Reuters, dizendo que a Revolução Cultural foi desastrosa não apenas para ele e sua família, mas também para a nação chinesa. No entanto, essa caracterização quase rotineira da época disparou uma avalanche de comentários do povo chinês, gerando, em pouco mais de um mês, mais de 35.000 objeções na internet. A imensa maioria desses comentários aplaudia a contribuição de Mao para o povo chinês e criticava as graves consequências causadas pelas reformas rurais que Deng Xiaoping introduziu. Algumas pessoas comentaram que a nova elite deveria “parar de mentir sobre o Presidente Mao. As pessoas estão acordando, e não se pode mais enganar o povo com mentiras sobre o Presidente Mao”. Muitos disseram que a “história é escrita pelo povo, e não pelas elites”. Para muitos chineses, “o Presidente Mao trabalhou pelo povo chinês toda a sua vida e continua a viver no coração do povo”. Parece que os esforços do governo e das elites para desacreditar os legados de Mao saíram pela culatra, com implicações importantes para a política chinesa no futuro.

Como é possível explicar a grande estima que muitos no povo chinês têm por Mao – muito depois de sua morte – apesar do massacre oficial e semioficial a seu legado e sua imagem? As elites chinesas e os inimigos de Mao produziram várias publicações para desacreditar Mao. Mas se os sofrimentos e brutalidades supostamente impostos aos camponeses chineses pelo governo de Mao são verdadeiros, os camponeses teriam sido os primeiros a saber deles. Por que, então, muitos camponeses ainda penduram uma fotografia de Mao em suas casas, guardam suas memórias com carinho e, em alguns lugares, constroem templos para louvá-lo?

Esses camponeses me lembram de meus colegas e estudantes nos EUA, que vieram para a China comigo para os cursos de estágio mundiais de minha universidade. As longas filas fora do mausoléu de Mao na Praça Tiananmen sempre os surpreenderam. Os operários e camponeses, que perderam os benefícios que tinham conquistado com as políticas socialistas de Mao, vinham mostrar seu respeito ao seu líder, muitas vezes com lágrimas nos olhos. Essa é mais uma indicação da contínua popularidade de Mao entre a classe trabalhadora chinesa.

Conclusão

Como se explica a mudança na interação entre o Estado e a sociedade do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural à época das reformas? Mencius uma vez disse Yi shi dao shi min, sui ku er bu yuan, yi sheng dao sha ren, sui si er bu yuan (o povo não irá reclamar se o governante emprega o povo com boas intenções, e o povo não irá reclamar se o governante leva o povo a morrer com a intenção de garantir a sua sobrevivência). Isso quer dizer que, quando um governo é considerado legítimo e a conduta oficial se alinha com essa legitimidade, o povo irá seguir as políticas do governo e suportar as dificuldades. Assim, o governo irá sobreviver através dos desafios e das dificuldades. No entanto, quanto a legitimidade do governo está em questão ou a conduta oficial é repulsiva, o povo estará menos disposto a seguir as políticas do governo e, quando a crise chegar, estará mais disposto a se rebelar. A grande quantidade de distúrbios camponeses na China de hoje é o resultado de uma perda da legitimidade do governo. Para inverter essa tendência, o governo precisa fazer mais do que simplesmente aumentar a renda dos camponeses.

O governo chinês pode conter a corrupção oficial nas zonas rurais de duas maneiras. Ele pode ressuscitar os mecanismos de auto-crítica e disciplina do Partido Comunista dos velhos tempos, em que os líderes e os membros da base do partido mantém encontros regulares para examinar seu próprio comportamento e acordo com as políticas e regulações do partido. Ao mesmo tempo, o governo pode dar poder aos camponeses comuns encorajando-os a criticar os oficiais do governo e suas políticas de diferentes maneiras, incluindo os grandes cartazes que foram amplamente usados durante o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural, e se mostraram efetivos para conter a corrupção oficial. Mais importante, o governo precisa selecionar mais camponeses para posições de governo e encorajar os oficias locais a viver e trabalhar com os camponeses sempre que possível.

O abismo entre ricos e pobres se tornou um grande problema na China, especialmente nas zonas rurais, e causou muitos problemas sociais sérios, como o aumento do crime. Uma distância muito grande entre ricos e pobres irá desintegrar a sociedade chinesa e ameaçar a estabilidade da China. Práticas mais igualitárias melhorariam a coerência interna da China e tornariam possível que o país lidasse mais diretamente com seus desafios.

Notas:

[1] O alcance dos protestos rurais na China raramente é noticiado de maneira coerente pela mídia ocidental. Mas de acordo com a reportagem publicada pela agência de notícias chinesa Xinhua publicada no Diário do Povo (“China grapples with thorny issue of rural land rights”, disponível emhttp://www.gov.cn/english/2006-09/01/content_375653.htm), houveram 87.000 protestos, revoltas e outros “incidentes de massa” relacionados a perda da terra em 2005, 6% a mais do que em 2004 e 50% a mais do que em 2003. Assim, só nesses três anos aconteceram bem mais de 100.000 ações desse tipo! O artigo aponta que “antes uma base de apoio do Partido Comunista da China, que conquistou amplo apoio no campo seis décadas atrás, muitos camponeses chineses agora se sentem alienados de suas próprias terras, antes frutos da revolução”. Nos sete anos antes da notícia de janeiro de 2006 ser escrita, mais ou menos 6.7 milhões de hectares agriculturáveis (5% do território agriculturável chinês) foram convertidos para outros usos – estradas, fábricas, etc. As pessoas também protestam contra a poluição industrial do ar, da água e do solo. Em 2007, o último ano em que o governo chinês liberou dados sobre os “incidentes de massa”, protestos envolvendo mais de cem pessoas, houveram 80.000 acontecimentos do tipo.

[2] New China News Agency: “National Militia Work Conference was held in Beijing on February 8, to Discuss and Study the Experiences and Accomplishments of Large Scale Organization of Militia Divisions since 1958.” Zhonghua renmin gongheguo dashiji, The Chronology of People’s Republic of China, (Beijing: Xinhua Press, 1982), 282.

[3] The Chronology of People’s Republic of China, 209, vol. 1 (Beijing: Xinhua Press, 1982), 210-14.

[4] The Chronology of People’s Republic of China, 209, vol. 1, p. 208.

[5] Para uma discussão detalhada da mudança e do progresso nas zonas rurais durante a Revolução Cultural, ver Dongping Han, The Unknown Cultural Revolution: Life and Change in a Chinese Village (Nova York: Monthly Review Press, 2008).

[6] Ver Dongping Han, “Hukou System and China’s Rural Development,” Journal of Developing Areas, primavera de 1999, e “Impact of the Cultural Revolution on Rural Education and Economic Development,” Modern China 27, no. 1, janeiro de 2001.

Sobre o autor

Dongping Han é professor de História e Ciência Política no Warren Wilson College, Carolina do Norte. Publicou inúmeros artigos em jornais e The Unknown Cultural Revolution (Monthly Review, 2008). Vem de uma origem rural na China. A maior parte das pesquisas para esse artigo foram feitas por meio de entrevistas nas zonas rurais discutidas.

3 de dezembro de 2009

O legado de 1989 em dois hemisférios

Noam Chomsky

In These Times

Novembro marcou o aniversário de grandes eventos em 1989: "o maior ano na história mundial desde 1945", como descreve o historiador britânico Timothy Garton Ash.

Aquele ano "mudou tudo", escreve Garton Ash. As reformas de Mikhail Gorbachov dentro da Rússia e sua "renúncia ao uso da força, de tirar o fôlego," levaram à queda do Muro de Berlim em 9 de novembro e à libertação do Leste Europeu da tirania russa.

Os louvores são merecidos; os eventos, memoráveis. Mas as perspectivas alternativas podem ser reveladoras. A chanceler alemã, Angela Merkel, forneceu essa perspectiva - de forma não intencional - quando ela pediu a todos nós para usarmos "este presente inestimável de liberdade... para superarmos os muros de nosso tempo".

Uma forma de seguir seu bom conselho seria desmontar o enorme muro, encolher o muro de Berlim em escala e comprimento, que agora serpenteia pelo território palestino em violação à lei internacional.

O "muro da anexação", como deveria ser chamado, é justificado em termos de "segurança" - a racionalização padrão para tantas ações do Estado. Se segurança fosse a preocupação, o muro seria construído ao longo da fronteira e seria impenetrável.

O propósito desta monstruosidade, construída com apoio americano e cumplicidade europeia, é permitir a Israel tomar terras palestinas valiosas e os principais recursos de água da região, negando assim qualquer existência nacional viável para a população natal da antiga Palestina.

Outra perspectiva sobre 1989 vem de Thomas Carothers, um acadêmico que serviu em programas de "ampliação da democracia" no governo do ex-presidente Ronald Reagan.

Após rever o histórico, Carothers conclui que todos os líderes americanos foram "esquizofrênicos" - apoiando a democracia se ela atende aos objetivos estratégicos e econômicos americanos, como nos satélites soviéticos, mas não nos Estados clientes dos Estados Unidos.

Esta perspectiva é dramaticamente confirmada pela recente comemoração dos eventos de novembro de 1989. A queda do muro de Berlim foi acertadamente celebrada, mas pouco foi dito sobre o que aconteceu uma semana depois: em 16 de novembro, em El Salvador, o assassinato de seis importantes intelectuais latino-americanos, padres jesuítas, juntamente com a cozinheira deles e a filha dela, por um batalhão Atlacatl de elite, armado pelos Estados Unidos, recém-saído de treinamento na Escola LFK de Guerra Especial no Forte Bragg, Carolina do Norte.

O batalhão e seus comparsas já tinham reunido um histórico sangrento ao longo de uma década medonha em El Salvador, que teve início em 1980 com o assassinato, praticamente pelas mesmas mãos, do arcebispo Oscar Romero, conhecido como a "voz dos sem voz".

Durante a década da "guerra ao terror" declarada pelo governo Reagan, o horror foi semelhante por toda a América Central. O reino da tortura, assassinato e destruição na região deixou centenas de milhares de mortos. 

O contraste entre a libertação dos satélites soviéticos e o esmagar da esperança nos Estados clientes dos Estados Unidos é notável e instrutivo - ainda mais quando ampliamos a perspectiva.

O assassinato dos intelectuais jesuítas colocou um fim virtual à "teologia da libertação", o revival do cristianismo que teve suas raízes modernas nas iniciativas do papa João 23 e do Concílio Vaticano 2º, que ele abriu em 1962.

O Vaticano 2º "promoveu uma nova era na história da Igreja Católica", escreveu o teólogo Hans Kung. Os bispos latino-americanos adotaram "a opção preferencial pelos pobres".

Assim, os bispos renovaram o pacifismo radical dos Evangelhos, que foi abandonado quando o imperador Constantino estabeleceu o cristianismo como a religião do Império Romano - "uma revolução" que em menos de um século converteu "a Igreja perseguida" em uma "Igreja perseguidora", segundo Kung.

No revival pós-Vaticano 2º, os padres, freiras e leigos latino-americanos levaram a mensagem dos Evangelhos aos pobres e perseguidos, os uniram em comunidades e os encorajaram a tomar as rédeas de seu destino.

A reação a esta heresia foi uma repressão violenta. Ao longo do terror e massacre, os praticantes da teologia da libertação eram os principais alvos. Entre eles estão os seis mártires da Igreja, cuja execução há 20 anos agora é comemorada com grande silêncio.

No mês passado em Berlim, os três presidentes mais envolvidos na queda do Muro - George H. W. Bush, Mikhail Gorbachov e Helmut Kohl - discutiam quem merecia o crédito.

"Agora eu sei como os céus nos ajudaram", disse Kohl. George H.W. Bush elogiou os alemães-orientais, que "por tempo demais foram privados de seus direitos dados por Deus". Gorbachov sugeriu que os Estados Unidos precisam de sua própria perestroika.

Não existem dúvidas a respeito da responsabilidade pela demolição da tentativa de reviver a igreja dos Evangelhos na América Latina durante os anos 80. A Escola das Américas (de lá para cá rebatizada de Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança) no Forte Benning, Geórgia, que treina oficiais latino-americanos, anuncia orgulhosamente que o Exército americano ajudou a "derrotar a teologia da libertação" - assistido, certamente, pelo Vaticano, usando a mão mais gentil da expulsão e supressão.

A campanha sombria para reverter a heresia provocada pelo Vaticano 2º recebeu uma expressão literária incomparável na parábola de Dostoiévski do Grande Inquisidor, em "Os Irmãos Karamazov".

Neste conto, situado na Sevilha dos "tempos mais terríveis da Inquisição", Jesus Cristo aparece repentinamente nas ruas, "suavemente, sem se fazer notar, e, coisa estranha, todos O reconhecem" e o povo era "atraído por uma força irresistível".

O Grande Inquisidor "aponta-o com o dedo e ordena aos guardas que o prendam". Lá ele acusa Cristo de vir "incomodar-nos" na grande obra de destruir as ideias subversivas de liberdade e comunidade. Nós não seguimos a Ti, o Inquisidor admoesta Jesus, mas sim Roma e "espada de César". Nós buscamos ser os únicos governantes na Terra para que possamos ensinar às multidões de "fracos e vis" que "havemos de persuadi-los de que não serão verdadeiramente livres senão abdicando da sua liberdade em nosso favor". Então eles serão tímidos, temerosos e felizes. Então amanhã, diz o Inquisidor, "queimar-Te-ei".

Finalmente, entretanto, o Inquisidor cede e o liberta "nas trevas da cidade. O Preso vai". Os pupilos da Escola das Américas, dirigida pelos americanos, não praticaram essa misericórdia.

2 de dezembro de 2009

Holodomor: o novo avatar do anticomunismo "europeu"

Annie Lacroix-Riz


Desde novembro de 1917 sucederam-se sem cessar campanhas antibolcheviques tão violentas quanto diversas, mas a da «fome na Ucrânia», lançada em 1933, tem prevalecido de há 20 anos para cá. Ela foi desencadeada quando os grandes imperialismos, com a Alemanha e Estados Unidos à cabeça, ávidos desde o século XIX por pilhar os imensos recursos da Ucrânia, se julgaram em condições do o conseguir. A conjuntura sorriu ao Reich em 1932-1933, quando o Sul da URSS (Ucrânia e outras «terras negras», Norte do Cáucaso e do Cazaquistão) foi atingido por uma considerável diminuição das colheitas e o conjunto da União por dificuldades de aprovisionamento acarretando o regresso a um racionamento estrito. Grave «penúria» sobretudo durante a «transição» (entre duas colheitas), não especificamente ucraniana, segundo a correspondência diplomática francesa; «fome» ucraniana segundo os relatórios de 1933-1934 dos cônsules alemães e italianos, explorados pelos Estados ou grupos apostados na secessão da Ucrânia: Alemanha, Polônia, centro principal de agitação em Lwow, e Vaticano.

Esta penúria ou esta fome resultou de fenômenos naturais e sociopolíticos; uma seca catastrófica multiplicou os efeitos da retenção crescente dos fornecimentos (abate de gado incluído), desde a passagem dos anos 20, pelos antigos kulaques (os camponeses mais ricos), hostis à coletivização. Esta fracção, em luta aberta contra o regime soviético, constituía, na Ucrânia, uma das bases de apoio ao «autonomismo», disfarce semântico da «secessão», em benefício do Reich, da região agrícola rainha das «terras negras», para além de principal bacia industrial do país. O apoio financeiro alemão, massivo antes de 1914, intensificou-se durante a I Guerra Mundial, quando a Alemanha transformou a Ucrânia, tal como os países bálticos, na base econômica, política e militar do desmantelamento do império russo. A República de Weimar, fiel ao programa de expansão do Kaiser, continuou a financiar «o autonomismo» ucraniano. Ao chegarem ao poder, os hitlerianos anunciaram o seu plano de anexação da Ucrânia soviética, e todo o autonomismo ucraniano (os meios policiais, diplomáticos e militares convergem) aderiu entre 1933 e 1935 ao Reich, então mais discreto acerca das suas intenções sobre o resto da Ucrânia.

Nessa altura, a URSS não controlava efetivamente senão a Ucrânia oriental (Kíev-Khárkov), que tinha voltado a ser soviética em 1920, depois da secessão operada durante a guerra civil/estrangeira: grandes pedaços da Ucrânia foram espoliados ou não atribuídos, apesar da pertença étnica da sua população, das promessas francesas, em 1914, de devolver os despojos do império austro-húngaro à Rússia tsarista aliada, e da fixação da «Linha Curzon» em 1919. O imperialismo francês, um dos dois artífices (com Londres) da guerra estrangeira feita aos soviéticos, depois também do «cordão sanitário» que se seguiu ao seu fracasso, ofereceu à Roménia, logo em 1918, a Bessarábia (Moldávia, capital Kichinov), antiga parte do império russo, e a Bucóvia; a Checoslováquia recebeu de uma assentada a Ruténia Subcarpátia; a Polónia de Pilsudski, com a ajuda do corpo expedicionário francês dirigido por Weygand1, obtém, entre 1920 e 1921, a Ucrânia ocidental ou Galícia oriental, que fora há muito austríaca – capital Lemberg (em alemão), Lvov (em russo), Lwow (em polaco), Lviv (em ucraniano). E isto na altura em que a «Linha Curzon» (nome do secretário dos Negócios Estrangeiros britânico), tinha considerado, em 1919, este território «etnicamente» russo, transladando a fronteira russo-polaca 150 km para Oeste da Ucrânia russa: a «Rússia» devia receber este território dos seus aliados quando eles próprios e os Brancos tivessem escorraçado os bolcheviques, o que não aconteceu.

Esta distinção geográfica é decisiva porque Lwow tornou-se – e Lviv permanece – um centro principal do clamor alemão, polaco e do vaticano sobre a «fome na Ucrânia», que começou no Verão de 1933, isto é, após uma excelente colheita soviética ter posto fim à crise dos aprovisionamentos. Se houve fome em 1932-1933, atingindo o seu máximo durante a «transição» (entre as duas colheitas), Julho de 1933 marcou o seu fim. A campanha difundiu-se por todo o campo anti-soviético, Estados Unidos incluídos, onde a imprensa germanófila do grupo Hearst a tomou a seu cargo. A fome não foi «genocida», o que é admitido por todos os historiadores anglo-saxônicos sérios, como R. W. Davies e S. Wheatcroft, não traduzidos em francês, ao contrário de Robert Conquest, agente dos serviços secretos britânicos tornado prestigiado «investigador» de Harvard, ídolo da «faminologia» francesa a partir de 1995.[1] A campanha original nem sequer tinha brandido o «genocídio»: Berlim, Varsóvia, o Vaticano, etc. condenaram Stálin, os Sovietes ou os judeus-bolcheviques, estigmatizaram a sua ferocidade ou a sua «organização» da fome e descreveram uma Ucrânia impelida pela fome ao canibalismo. Quanto aos franceses, imputavam aos planos secessionistas do trio este bulício lançado no momento em que o Reich prometia ao ditador polaco Pilsudski, se este restituísse Dantzig e o seu corredor, entregar-lhe de bandeja a Ucrânia soviética que juntos em breve conquistariam: François-Poncet, delegado do Comitê das Forjas e embaixador em Berlim, ria-se com sarcasmo dos lamentos quotidianos vertidos pela imprensa do Reich sobre o martírio ucraniano, grande ardil com intuitos externos (anexar a Ucrânia) e internos ("difamar os resultados do regime marxista"[2]).

A abundante correspondência militar e diplomática da época exclui a tese da ingenuidade dos «palermas» pró-soviéticos, tais como Édouard Herriot, cegos às mentiras e secretismos de Moscovo, durante a sua viagem em Setembro de 1933 à Ucrânia: ou seja, a tese defendida em 1994 pelo demógrafo Alain Blum, que introduziu em França o número dos «seis milhões de mortos». Esse símbolo concorrencial, tão caro aos anti-semitas ucranianos – era preciso fazer pelo menos tão bem como os judeus, antes de fazer muito mais, 7, 9, 10, 12, até 17 milhões, que eu tenha conhecimento, (isto para um efectivo total de cerca de 30 milhões de ucranianos soviéticos) –, foi adoptado no Livro Negro do Comunismo, em 1997, por Nicolas Werth. Na altura, este ainda refutava a tese «genocida», que passou a defender quando se comprometeu, em «2000, com um projecto de publicação de documentos sobre o Gulag (seis volumes sob a égide da Fundação Hoover e dos arquivos do Estado da Federação da Rússia)».[3] Número duplamente inaceitável: em primeiro lugar, Alain Blum dedu-lo de estimativas demográficas, já que a URSS não fez qualquer recenseamento entre 1926 e 1939: ora, entre estas datas, no quadro de um boom industrial orientado desde o início da grande crise capitalista para a defesa face à ameaça alemã, ocorreram gigantescos movimentos populacionais inter-regionais, que afetaram particularmente a Ucrânia agrícola coletivizada. O fraco crescimento da população ucraniana entre os dois recenseamentos não autoriza pois a equivalência: défice demográfico igual a mortos de fome; em segundo lugar, o modo de cálculo da estimativa é absurdo: Alain Blum alinhou-se com os estatísticos russos que, em 1990, agruparam as perdas presumíveis na década de 1930, atribuindo seis milhões – ao único ano de 1933[4].
O número fatídico foi retomado por «sovietólogos» franceses, como Stéphane Courtois, ligados ou não aos campeões da «Ucrânia independente» laranja. Absurdo supremo: na Ucrânia oriental teriam portanto morrido em alguns meses tantas vítimas – ou mesmo duas ou três vezes mais – como judeus exterminados a partir de 1939, sobretudo entre 1942 e 1944, num território que se estende da França aos Urais; e isto sem deixar nenhum dos traços visíveis, fotografias ou escritos, deixados pelo genocídio nazista.
É neste contexto que se movimentaram em França grupos «ucranianos», como a associação «Ucrânia 33», que foi alojada pelo arcebispado de Lyon, tendo como presidente honorário Monsenhor Decourtray.[7] Esta organização está subordinada ao Congresso Ucraniano Mundial, sediado em Washington e presidido por Askold S. Lozynskyj, que publicou no New York Times, em 18 de julho de 2002, a seguinte correspondência: "quando os Sovietes foram obrigados a retirar perante a invasão dos nazistas, em junho de 1941, massacraram os seus prisioneiros (...) da Ucrânia ocidental, detidos e internados às dezenas de milhares em 1939 (...). Isto foi efetuado com a ajuda dos comunistas locais, sobretudo dos etnicamente judeus. Este massacre não constituiu infelizmente uma aberração das ações soviéticas na Ucrânia. Em 1932-1933, na Ucrânia oriental, os Sovietes já tinham assassinado cerca de sete milhões de homens, mulheres e crianças ucranianas por meio de um genocídio estrategicamente planificado de fome artificial. O homem escolhido por Ióssif Stáline para perpetrar este crime era um judeu, Lazar Káganovitch.

O célebre historiador britânico Norman Davies concluiu que nenhuma nação teve tantos mortos como a ucraniana. O que foi em larga medida o resultado das ações tanto dos comunistas como dos nazistas. Os russos e os alemães eram bárbaros. Mas os judeus eram os piores. Eles traíram os seus vizinhos e fizeram-no com muito zelo!"[5].

Estes anti-semitas frenéticos mostraram-se mais discretos em França, onde bajularam associações judaicas e a Liga dos Direitos do Homem em «colóquios internacionais» e debates sobre «os genocídios» (judeu, armênio, ucraniano).[6] Em 2005-2006, eles exigiram a minha exclusão da Universidade de Paris 7, primeiro ao seu presidente e depois ao Presidente da República, Jacques Chirac, acusando-me de «negacionismo» por ter enviado por Internet aos meus estudantes uma compilação crítica (citada mais à frente) de arquivos sobre as patranhas da campanha germano-vaticano-polaca de 1933-1935. Não me perdoaram sobretudo o facto de ter lembrado, em 1996, o papel que teve na Ucrânia ocupada pela Wehrmacht a Igreja Uniata[11] da Galícia oriental, submetida ao Vaticano e confiada ao bispo (de Lwow), Monsenhor Szepticky, que abençoou as matanças da divisão ucraniana SS Galícia, formada a partir dos agrupamentos do nazi uniato Stepáne Bandera.12 Acrescentemos a estes dossiers comprometedores para os arautos do «Holodomor» que eu ouso afirmar que a diabolização do comunismo e da URSS não resulta da análise histórica mas de campanhas ideológicas; que, não contente de ser marxista, sou também judia, e um dos meus avós foi morto em Auschwitz – facto que eu tornei público em 1999, frente a uma outra campanha[8], e que estes excitados conheciam[9]: a natureza de todos estes elementos mobilizá-los-ia.

Faltou concretizar-se o sonho de obter o apoio dos judeus de França a uma campanha contra uma «judia-bolchevique» travestida de «negacionista»! Este assédio, contra o qual se levantaram o Snesup e o PRCF,15 que lançou em julho de 2005 uma eficaz petição apoiada pela revista (a única) La Libré Pensée,[10] esmoreceu depois de os «ucranianos», sob a proteção da polícia do ministro do Interior, N. Sarkozy, terem homenageado, em 25 de Maio de 2006, no Arco do Triunfo, o grande pogromista Petliura. Emigrado em França, depois dos seus crimes de 1919-1920, foi abatido em 1926 pelo judeu russo emigrado Schwartzbard, tendo a defesa deste dado origem à Liga Contra o Anti-Semitismo (LICA), que se tornou LICRA17 em 1979. Foi esta última que – depois de vários avisos em vão da alegada «negacionista» Lacroix-Riz – denunciou aqueles anti-semitas de choque, em 25 de maio de 2006, através do seu presidente Patrick Gaubert. Irá o alarido dos grupelhos «ucranianos» recomeçar entre nós, estimulado pelo Parlamento Europeu?

A Ucrânia ocidental laranja, tutora (oficial) de toda a Ucrânia, ocupa de novo o centro de uma campanha que, desde a era Reagan – fase crucial do desmantelamento da Rússia iniciado a partir de 1945 pelos Estados Unidos – deve tudo ou quase tudo a Washington, da mesma forma que a precedente deveu tudo ao dinheiro alemão. Os seus campeões empilham milhões de mortos de uma Ucrânia oriental, cuja população nunca se juntou à matilha apesar de o assunto lhe dizer respeitos em primeiro lugar. Em contrapartida, a CIA foi o chefe de orquestra, apoiando-se, em primeiro lugar, nos «Ucranianos» anti-semitas e antibolcheviques, colaboracionistas eminentes sob a ocupação alemã, emigrados nos Estados Unidos, no Canadá ou na Alemanha ocidental a seguir à expulsão da Wehrmacht da Ucrânia ou depois de 1945; em segundo lugar, em certas prestigiadas universidades americanas, entre as quais Harvard e Stanford, seguidas por universidades «ocidentais» (Europa oriental incluída), as quais foram gratificadas através de financiamentos americanos (em plena miséria dos créditos públicos para a investigação) com uma profusão de colóquios e encomendas editoriais sobre «a fome genocida na Ucrânia».

O apoio financeiro e político americano engendrou a campanha "Holodomor" dos governos ucranianos – que em 2008 erigiram em herói nacional Stepáne Bandera, "chefe da organização terrorista ucraniana na Polônia"[11], pretensamente "independentista" (não do Reich), criminoso de guerra emigrado em 1945 em zona de ocupação americana, organizador, a partir da sua base de Munique, de assassinatos em massa até aos anos 50 na Ucrânia novamente soviética[12]. Sem um tal apoio, a gritaria terminaria ou perderia todo o eco internacional. O "Parlamento Europeu", ao reconhecer em 23 de Outubro de 2008 "o Holodomor (fome provocada artificialmente em 1932-1933 na Ucrânia) como 'um crime horrível perpetrado contra o povo ucraniano e contra a humanidade'", revelou a sua estrita dependência relativamente aos Estados Unidos, dos donos da Ucrânia "independente", em concorrência com a Alemanha, cuja grande imprensa manifesta um zelo pró-ucraniano igual ao da atual Polônia, herdeira dos "coronéis" Josef Beck e consortes.

Bibliografia sumária: conjuntura ucraniana germano-vaticano-polaco-americana, Annie Lacroix-Riz, Le Vatican (réf. N. 7); Le Choix de la défaite: les élites françaises dans les années 1930, Paris, Armand Colin, 2006, reed. 2007; De Munich à Vichy, l’assassinat de la 3.ª Republique, 1938-1940, mesmo editor, 2008;

e sobretudo a iminente versão final da síntese apresentada aos meus estudantes em 2004, «Ucrânia 1933, atualizada em 2008», («Sobre a “fome genocida stalinista” na Ucrânia em 1933»: uma campanha alemã, polaca e do Vaticano», www.historiographie.info), que desencadeou a fúria dos defensores do «Holodomor».

Reter da bibliografia Douglas Tottle, Fraud, Famine and Fascism. The Ukainian Genocie Myth from Hitler to Harvard, Toronto, Progress Book, 1987, esgotada mas disponível na Internet: este antigo fotógrafo mostrou que as fotos das campanhas ucranianas de 1933-1935, a partir da era reaganiana, (artigos, obras, filmes) provinham das colecções da fome de 1921-1922, resultante de sete anos de guerra, primeiro mundial depois a guerra estrangeira e civil, e desancou de forma muito bem argumentada as fontes escritas e fotográficas da principal obra de Conquest (capítulo 7, «Harvest of Deception», «A colheita de enganos», e sobretudo p. 86-90); Geoffrey Roberts, Stalin’s War: From Worl to Cold War, 1939-1953. New Haven & London: Yale University Press, 2006, que estima o balanço dos massacres perpetrados pelos banderistas em «35 mil quadros militares e do partido na Galícia oriental [soviética] entre 1945 e 1951», p. 325.

Notas:

1. Respectivamente The years of Hunger, Soviete Agriculture 1931-1933, New York, Palgrave Macmillan, 2004, e Harvest of Sorrow, New York, Oxford University Press, 1986, traduzido em 1995 (e a minha actualização na Internet, bibliografia sumária).
2. Despacho 727 para Paul-Boncour, Berlim, 5 de Julho 1933, Europa URSS 1918-1940, vol. 986, relações Alemanha-URSS, Junho 1933 – Maio 1934, arquivos do Quai d’Orsay (MAE).
3. http://www.ihtp.cnrs.fr/spip.php?article98 (site IHTP); sobre o papel anti-soviético oficial desta fundação, estreitamente ligada ao Departamento de Estado, referência da n.1.
4. Alain Blum, Naître, vivre et mourir en URSS, 1917-1991, Paris, Plon, 1994, p. 96-99 e n. 61, p. 243
5. http://zustrich.quebec-ukraine.com/new02_shmul.htm, tradução ALR. O polonófilo Davies, que obteve o seu doutoramento em Cracóvia, deve a notoriedade à sua minimização da destruição dos judeus da Polónia, que o opôs a vários historiadores americanos (Lucy S. Davidowicz, Abraham Brumberg e Theodore Rabb).
6. «Memórias partilhadas dos genocídios e crimes contra a humanidade», «colóquio internacional» do «Colectivo Reconhecimento», 28-29 de Abril 2006, ENS Lyon, etc. (documentação Internet inesgotável).
7. O Vaticano, a Europa e o Reich da I Guerra Mundial à Guerra fria (1914-1955), Paris, Armand Colin, 1996, reed. 2007, p. 414-417, e infra.
8. Quando contestaram o meu trabalho sobre a fabricação e entrega ao Reich do Zyklon B "francês" (da fábrica de Villers-Saint-Sépulcre) pela sociedade mista Ugine-Degesch, Industriais e Banqueiros Franceses sob a Ocupação: A Colaboração Econômica com o Reich e Vichy, Paris, Armand Colin, 1999, index.
9. O que foi referido regularmente nas suas prosas ao longo da sua campanha de 2005-2006.
10. Entre as organizações solicitadas não signatárias, o PCF, a Liga dos Direitos do Homem, o MRAP, diversas associações judaicas, o Comité de Vigilância dos Usos Públicos da História, a Associação dos Professores de História e Geografia (APHG), etc.
11. Despacho 30 de Léon Noël, embaixador em Varsóvia, 15 de Janeiro de 1936, SDN, vol. 2169, Polónia, dossier geral, Fevereiro-Julho de 1936, MAE.
12. Lacroix-Riz, Vatican, loc. Cit., Tottle, chap. 9-10; Mark Aarons e John Loftus, Nazis no Vaticano, Paris, O. Orban, 1992, índex Bandera; Christopher Simpson, Blowback. America’s recruitment of Nazis and its effects on the Cold War, New York, Weidenfeld & Nicolson, 1988, índex Bandera, etc.

22 de novembro de 2009

O que é o maoismo?

Bernard D'Mello

Monthly Review

Tradução / Este ensaio é dedicado à memória de meu primeiro editor, o falecido Samar Sen (Shômor Babu, como costumávamos chama-lo), editor-fundador do semanárioFrontier, de Kolkata.É também em homenagem a Subhas Aikat, cuja publicaçãoCornerstone, de Kharagpur, que mal consegue se sustentar, publica uma edição indiana da Monthly Review e livros que colocam o tipo de questões geralmente evitadas pela academia. O ensaio é meu pequeno agradecimento a todas as pessoas da Monthly Review, idas e presentes, em ocasião do seu 60º aniversário. Agradeço a Paresh Chattopadhyay, a N. Krishnaji, a John Mage, a C. Rammanohar Reddy e a P. A. Sebastian por seus comentários críticos, mas muito úteis, sobre um rascunho anterior; os avisos legais usuais se aplicam.

“[Um] marxismo sem sua essência revolucionária é uma contradição em termos, que não tem razão de existir nem forças para sobreviver.” 
– Paul M. Sweezy

Anuradha Ghandy (Anu, como a chamávamos) era uma dos membros do Comitê Central do Partido Comunista da Índia (Maoista) [CPI (Maoist) / PCI (Maoista)]. Desde o início, ela desenvolveu um sentimento de obrigação para com os pobres; ela se uniu a eles em suas lutas pelo pão, uma luta por uma vida mais rica e feliz para todos. Tragicamente, a malária a tirou de nós em Abril do ano passado. O que era esse espírito que fez com que ela adotasse de maneira generosa as lutas dos condenados da terra na Índia – a luta dos explorados, oprimidos, dominados – como se fosse a sua própria luta? Os riscos de se juntar à grande marcha maoista parecem muito perigosos para a maior parte das pessoas, mas não foram para ela, com seu jeito ousado, corajoso e decidido – e ainda assim gentil, acolhedor e atento. Talvez os dias dela estivessem contados, como estava listada nos arquivos dos aparelhos repressivos do Estado indiano como uma das mais procuradas “extremistas de esquerda”. Essa estrutura brutal e opressora tem conduzido uma estratégia de contrainsurgência extremamente violenta – pensada para manter a ordem estabelecida – contra o movimento maoista na Índia. O que está levando o Estado indiano a tentar desesperadamente destruir e prejudicar o espírito que inspira pessoas como Anu? Praticamente todo o regime indiano – do semifascista Partido Bharatiya Janata até a principal figura da esquerda eleitoral indiana, o Partido Comunista da Índia (Marxista) – se coloca contra o movimento maoista, apoiando uma imensa mobilização planejada de milícias paramilitares e policiais, com o apoio logístico dos militares, para acabar com os rebeldes. Parece que grupos do capitalismo monopolista – incluindo empresas como ArcelorMittal, o Grupo Essar, a Vedanta Recursos, Aços Tata, POSCO e o Grupo Jindal Sajjan – deram um ultimato aos governos estaduais e ao governo federal dizendo que irão abandonar seus projetos de mineração e industrialização se as resistências locais aos seus planos de negócios não for destruída de uma vez por todas.

A indignação “de direita” contra o “extremismo de esquerda” chegou a um ponto alto, alimentada por setores da mídia comercial, com imagens e perfis (oferecidos para a mídia por esquadrões antiterroristas) de revolucionários capturados como uma fonte de agitação para a audiência da TV. Um ano e meio atrás, meu filho – magro, desarrumado e com o cabelo bagunçado – chegou da escola um dia nos dizendo que o professor havia chamado ele de naxalita (é como popularmente os maoistas são chamados). Eu perguntei a ele, “Como você reagiu?”, e ele me respondeu “Papai, quem são esses caras, os naxalitas?”. Eu respondi “Bem, eles são rebeldes que lutam contra as grandes injustiças que são feitas contra os pobres.” Ele respondeu, “Bem, então eu me sinto orgulhoso de ser chamado de naxalita”. Meu garoto ainda é muito novo, mas ele logo vai chegar naquele maravilhoso momento na vida em que a necessidade de entender o que está acontecendo no país e no mundo não pode ser segurada. Mais recentemente, propagandas vingativas e mal intencionadas do Ministério Civil nos jornais chamavam os maoistas de “criminosos de sangue-frio”. Então, talvez seja o momento de eu pensar em como responder à pergunta do meu filho: o que é o maoismo?

Uma resposta para uma pergunta dessas exige que ela seja dada em partes, para respondermos antes a perguntas como: o que é o marxismo? O que é o leninismo? O que é o stalinismo? Só depois, então, poderemos entender qual é o sentido do maoismo. Porque, afinal de contas, o marxismo de Mao sem sombra de dúvidas vem da escola leninista; ele aplicou o marxismo, o leninismo (o pensamento marxista na fase do imperialismo) e o stalinismo (uma forma decomposta de leninismo, que ele também lutou para superar e ir além), como um método de análise da realidade social da China. Mas mais do que isso, ele fez uma intervenção na realidade chinesa com uma ação social e política consciente, guiada pela teoria marxista e, do final dos anos 1920 ao fim dos anos 1960, sempre em relação com os acontecimentos da sua realidade, tornando, assim, possível enriquecer a teoria original.

O que veio a ser conhecido como maoismo teve as suas origens materiais no subdesenvolvimento da China, nas práticas erradas do Partido Comunista Chinês (PCCh) nas áreas urbanas nos anos 1920 e no posterior movimento de camponeses e guerrilheiros nos campos do país. Teoricamente e na prática, o marxismo de Mao foi enriquecido ao superar e ir além da interpretação mecânica de Stalin da teoria da história de Marx. E Mao constantemente aplicou a “dialética materialista” de Marx para ajudá-lo a entender e resolver as várias contradições – conflitos internos que tendiam a dividir o que estava unido – em que o resultado saía das ações dessas tendências opostas uma sobre a outra. É a fusão de tudo isso com o marxismo e o leninismo originais que compõe o maoismo. Como o marxismo, na sua melhor parte, ele é uma visão de mundo, um método de análise e não um conjunto de dogmas. O que então significa o ditado maoista de “aprender a verdade a partir da prática”?

Com essa introdução, agora podemos ir adiante. Logo de início, me deixem dizer que ainda que eu fale só por mim mesmo, eu não tenho nenhuma pretensão de originalidade. Escrevi esse artigo como uma tentativa de esclarecer a mim mesmo e então o mandei para a publicação na esperança de que ele ajudasse outras pessoas como eu, tentando aprender sobre questões que não são acadêmicas.

O que é o marxismo?
Procurando responder essa pergunta, não posso fazer nada melhor do que o que a Monthly Review me ensinou. Nas palavras do editor-fundador:

“O marxismo é, acima de tudo, uma visão de mundo compreensiva, aquilo que os alemães chamam de uma Weltanschauung – ou seja, um conjunto de princípios filosóficos, econômicos, políticos, sociológicos e científicos, todos relacionados e formando juntos uma estrutura de pensamento autônoma e independente. Ele é um guia para a vida e a prática sociais, e a sua validade só pode ser avaliada pelos seus resultados”.[1]

Nessa visão de mundo, antes do capitalismo a civilização era impossível sem a exploração; a produção excedente apropriada era 

“concentrada nas mãos de poucos, de modo que o luxo, as riquezas e a civilização, por um lado, vinham sempre junto da pobreza, da miséria e da degradação, por outro”[2]
Foi em um mundo como esse que o capitalismo surgiu, incomparavelmente a sociedade mais produtiva e, nesse sentido, a mais progressista, que já havia surgido. De fato, pela primeira vez, ele tornou possível uma sociedade em que a exploração e a concentração de excedente nas mãos de poucos não era mais a condição necessária para a civilização. 
Nesse momento, a humanidade encarava um problema completamente novo. Ela iria adiante, para uma nova forma de exploração superior e sem exploração, ou a exploração da maioria por uns poucos continuaria a ser a maneira de viver a vida? 
Marx acreditava que o capitalismo nunca conseguiria usar as forças produtivas da sociedade para o bem dos operários, que ele pensava que estavam se tornando a maioria da população. Cedo ou tarde, os operários se tornariam conscientes de seus verdadeiros interesses como uma classe, se organizariam como uma força revolucionária poderosa, tomariam o poder dos capitalistas e começariam a transição para uma sociedade comunista em que a exploração e as classes seriam finalmente abolidas. 
Não foi assim que as coisas aconteceram. Os operários nos países capitalistas mais desenvolvidos conseguiam ganhar o suficiente lutando no interior do sistema para evitar que desenvolvessem uma consciência revolucionária. Uma parte significativa desses ganhos era feita às custas dos países dependentes e explorados do Terceiro Mundo, que eram impedidos de usar os seus recursos para o seu próprio desenvolvimento independente. Como resultado disso, o centro da luta revolucionária se mudou das partes avançadas para as partes atrasadas do mundo capitalista.

Neste ponto, devemos dizer que se por um lado os marxistas compartilham uma concepção da realidade, eles se dividem em muitos aspectos na hora de explicar e analisar o mundo. Além disso, a estrutura intelectual criada pelos fundadores do marxismo – Marx e Engels – tem sido modificada e adaptada de maneiras significantes, e com certeza é assim que deve ser, com os avanços no conhecimento e no entendimento humanos e com o desenvolvimento do capitalismo em um sistema global. Mas, obviamente, a sua validade científica deve ser julgada em primeira instância por suas contribuições e sua habilidade de explicar a realidade.

No entanto, há uma exigência ainda maior – no longo prazo, o marxismo deve ser avaliado pelos resultados de seu projeto de levar a humanidade adiante no caminho da igualdade, da cooperação, da comunidade e da solidariedade. Deveríamos ter analisado este ponto antes, mas agora podemos focar nesse ponto crucial para o marxismo, um ponto que, seguindo Sweezy, sugerimos no início deste artigo. O objetivo de construir e reconstruir a sua estrutura intelectual própria para compreender o mundo foi e ainda é que essa atividade construa as bases para transformar a sociedade para melhor. É isso que Marx declara de maneira mais resumida nas Teses sobre Feuerbach, de 1845: “Os filósofos até agora apenas interpretaram o mundo, mas o que importa é transformá-lo”. Mas integrar a teoria e a prática (desenvolver uma estratégia e um conjunto de táticas para transformar o mundo para melhor e realizá-las) é um projeto bem mais difícil e trabalhoso.

Marx e Engels escreveram o Manifesto comunista em dezembro de 1847 e janeiro de 1848, mas nunca tentaram definir, menos ainda oferecer qualquer plano, para uma sociedade de transição (que os seus seguidores chamaram de socialismo) que com o tempo – era isso que se esperava – iria certamente evoluir para o comunismo. Como Sweezy disse, na concepção de Marx e Engels a sociedade de transição (“socialismo”) deveria começar a sua existência “primeiramente como uma negação do capitalismo, e se desenvolveria com a sua própria identidade positiva (comunismo) através de uma luta revolucionária em que o proletariado deve reconstruir a sociedade e, nesse processo, reconstruir a si mesmo”[3].

Mas, francamente, o proletariado dos países capitalistas desenvolvidos, por razões já mencionadas, estava cada vez mais perdendo a sua qualidade de força e de portador da prática revolucionária. O desenvolvimento da classe trabalhadora, o avanço da capacidade humana – sempre no centro das forças produtivas – não foi percebido pelos trabalhadores como estando limitado pelas relações de produção capitalistas; aliás, estas últimas não eram vistas como intoleráveis por parte dos trabalhadores enquanto eles conseguiam conquistar melhores condições de vida em suas lutas contra o capital feitas nos limites permitidos pelo sistema (greves, etc.). Por que os trabalhadores deveriam assumir o risco de perder tudo o que estavam ganhando no momento enquanto o que poderia ganhar com uma revolta contra o sistema era muito incerto e só viria em um futuro distante? Em outras palavras, Marx e Engels não culpavam os trabalhadores pela falta de uma consciência revolucionária; as condições objetivas não estavam lá para que ela se desenvolvesse.

O que dizer, então, do primeiro momento do marxismo (ele não era chamado de marxismo no tempo de Marx, mas o chamamos dessa maneira por facilidade) em relação à sua esperança equivocada (retirada principalmente da análise das condições de vida e trabalho da classe operária no livro de Engels A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, escrito em 1844 e da lógica de Marx no famoso Prefácio de 1859 da Contribuição à crítica da economia política) de que a classe operária nos países capitalistas avançados mais cedo ou mais tarde iria se revoltar e se emancipar? As lutas – no início espontâneas e mais tarde organizadas – dos trabalhadores, lideradas pelos partidos de esquerda, eventualmente conseguiram forçar a classe dominante e seus representantes políticos a criar e implementar várias leis para as fábricas e para a sociedade, o que convenceu os trabalhadores de que as coisas poderiam melhorar nos limites do capitalismo. Nisso, sem dúvida, o lucro extraído dos trabalhadores nas colônias/neocolônias/semicolônias/países dependentes (a “periferia”), e que foi dividido não apenas entre as elites locais e as classes dominantes no “centro” mas também (em menor medida) entre as classes trabalhadoras do “centro”, ajudou a criar parte do amortecimento dos impactos do capitalismo. Como resultado disso, o capital no “centro” também se tornou mais forte mais rico.

Max e Engels não levaram todos esses desenvolvimentos em conta e, assim, se enganaram em suas expectativas de uma Europa socialista. Mas, para seu grande crédito, Marx analisou de maneira brilhante – além da expropriação em massa na Inglaterra com o cercamento dos campos – a pilhagem do capitalismo do que mais tarde seria chamado de “periferia” ou terceiro mundo durante o período do mercantilismo, na Parte VIII do volume 1 de O capital, que tem o título de “A assim chamada acumulação primitiva”. Marx também não ignorou a “troca desigual”, que sugava uma parte do lucro criado na produção através de financiamentos usados pela classe dominante para o comércio de mercadorias (capital mercantil), entre o centro e a periferia na fase competitiva do capitalismo. Basicamente, o capital mercantil teve um papel crucial na periferia, ainda que ele fosse um apêndice do capital industrial no centro[4]. Marx não teve a oportunidade de reorientar sua teoria da acumulação para levar em conta o que havia acabado de começar no fim da sua vida, o surgimento do capitalismo como um sistema global e com a aceleração do capitalismo monopolista mundial. Mas sabemos, segundo Sweezy[5], que ele estava atento da relação causal entre o desenvolvimento do capitalismo e o “centro” na Europa e o desenvolvimento do subdesenvolvimento da “periferia”. O primeiro período do marxismo, no entanto, se mostrou inadequado para elaborar uma teoria da acumulação em escala mundial que explicasse o funcionamento do capitalismo como um sistema global. De todo modo, Marx criou um método de analisar o capitalismo – analisar como o capital consegue as suas riquezas através da pilhagem da “periferia”, da expropriação pelos cercamentos (privatização), da mais-valia dos trabalhadores e da aquisição de unidades menores e mais fracas de capital; analisar como a superestrutura (o Estado, o sistema legal, a ideologia dominante e a cultura) é adaptada e modificada para facilitar isso tudo e com que potenciais. Esse método era o “materialismo histórico”, que foi aplicado pelos melhores de seus seguidores – dois dos quais foram Lenin e Mao – para compreender um mundo que sempre está em transformação e para intervir nele com o objetivo de transformá-lo.

Enquanto isso, os partidos que lideravam os vários movimentos da classe trabalhadora na Europa, membros da Segunda Internacional, continuaram a defender da boca para fora a causa da revolução proletária. Mas logo eles foram expostos como o que eram na realidade, quando, em 1914, eles apoiaram seus governos nacionais na Primeira Guerra Mundial, uma atitude que demonstrava nada mais, nada menos do que a destruição do internacionalismo dos trabalhadores e de muitas esperanças de revoluções proletárias. Com a possibilidade de que os trabalhadores fizessem ganhos econômicos, sociais e políticos suficientes nos limites do capitalismo nos países do “centro”, o marxismo foi “revisado”, deformado por Eduard Bernstein e outros para que ele fosse esvaziado de seu conteúdo revolucionário. Obviamente, isso não era mais marxismo, mas nas condições objetivas da Europa essa teoria “revisionista” tomou o lugar da teoria revolucionária de Marx.

O que é o leninismo? O que é o stalinismo?
Foi nesses tempos ruins que Lênin, um marxista consistentemente ortodoxo, tocou em um ponto central na estratégia política com seu texto Imperialismo: o último estado do capitalismo (1916), explicando a guerra que então acontecia em termos de uma divisão do mundo em diferentes esferas de influência nas lutas entre capitalistas para uma redistribuição destas esferas. O objetivo de Lênin se limitava principalmente a explicar a natureza da guerra que acontecia no momento e o que deveria ser feito pelos socialistas que dirigiam a classe trabalhadora. Lênin insistia em que mais do que combater e matar uns aos outros nessa guerra imperialista, os trabalhadores deveria ser convencidos a converter a guerra imperialista em uma guerra civil para derrubar as suas respectivas burguesias. O impacto da acumulação em escala mundial na formação do “subdesenvolvimento” da “periferia” e, em contrapartida, a acumulação de capital no “centro” – assim como a consciência da classe trabalhadora ali – não eram o foco.

Ao invés disso, na visão de Lênin, os super-lucros do capital monopolista eram, entre outras coisas, usados para comprar uma camada superior da classe trabalhadora – criando assim uma “aristocracia” do trabalho – e alguns líderes dos movimentos de classe. Assim, Lênin acusava as lideranças políticas dos partidos social-democratas que lideravam os movimentos de suas respectivas classe trabalhadoras e a sua traição da maioria de seus proletariados nacionais. O fato de que as condições objetivas da Europa haviam mudado, o que atrasou a difusão da consciência revolucionária pelos trabalhadores no continente, o atordoava. Mas devemos dizer – em geral – sobre Lênin e os bolcheviques que ao longo da sua prática eles resgataram o marxismo dos seus defensores que, de maneira errada e mecânica, interpretavam Marx como um “determinista histórico”.

Tenho que explicar aqui a posição marxista. Uma maneira “determinista” de pensar diz que a história e as condições dadas que existem em um local determinam exclusivamente o que vai acontecer no futuro. No outro extremo, um ponto de vista “voluntarista” defende que quase tudo pode acontecer se for modificado pela vontade e pela determinação firme de líderes eficazes e do forte apoio que recebem de seus seguidores. Na minha perspectiva, o marxismo não é nem “determinista”, nem “voluntarista” – na sua concepção, em um dado momento, existe um conjunto de possibilidades, determinado tanto pela história quanto pelas condições e o contexto do momento. O resultado final desse conjunto de possibilidades depende da atividade social. Ou seja, de qual for o objetivo intermediário que os líderes escolherem nesse conjunto de possibilidades (“estratégia”) e dependendo de se os seus apoiadores vão decidir tentar atingir este objetivo com as táticas adequadas e se vão responder “corretamente” ao curso dos acontecimentos que vão se desenvolver. Claramente, Lênin – e Stalin, e Trotsky, poderíamos acrescentar – colocou muito peso nos problemas da liderança – a direção centralizada de uma vanguarda revolucionária. Mao não discordava disso, mas a partir da experiência ele deu importância à necessidade de uma relação mútua honesta e correta entre a base do partido e as massas.

Stalin chamou o leninismo de “o marxismo da era do imperialismo” e “ditadura do proletariado”. Mas ele traz um sentimento de angústia para muitos socialistas. Por um lado, ele era o único entre os líderes bolcheviques que veio do meio dos condenados da terra (seu pai era um sapateiro pobre e sua mãe era de uma família de camponeses pobres), com a sorte de ter sido educado em um seminário religioso; foi com a sua liderança que a União Soviética e o seu Exército Vermelho venceram a potência das forças armadas da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, protegendo a humanidade do fascismo. E enquanto Stalin viveu foi possível acreditar (de maneira errada, para alguns) na existência de um movimento mundial coordenado que estava em um conflito revolucionário com o capitalismo e o imperialismo. Mas, por outro lado, ele entregou o leninismo e o socialismo à morte – o que não é democrático, nunca pode ser socialista. De fato, como Harry Braverman[6] coloca:

“A destruição do antigo Partido Bolchevique fechou inúmeras possibilidades para a União Soviética, e é difícil imaginar todas elas. [E ele acrescenta em uma nota,] Stalin não parou com a aniquilação das oposições de esquerda e direita, dirigidas respectivamente por Trotsky e Bukharin. Ele se voltou contra seu próprio grupo, e, como Kruschev disse no XX Congresso, executou 98 de 139 (70%) do Comitê Central selecionado para o XVII Congresso em 1934.”

Além disso, penso que deveríamos levar em conta o que foi chamado de “o último combate de Lênin” – um combate para avisar do grave perigo do crescimento de uma burocracia dominante e da “brutalidade” de Stalin. Além disso, me parece, e passei a acreditar nisso, que dada a existência de classes, do patriarcado, do racismo (e das castas, poderíamos acrescentar) por milênios, o poder e a obsessão estão profundamente enraizados na realidade social; de fato, eles já se tornaram parte da condição humana herdade (mas não imutável), o que leva a defender de maneira bastante forte direitos civis liberdades e democráticas (e essas coisas foram conquistadas com lutas históricas dos de baixo) que não deveríamos permitir que fossem retirados de maneira nenhuma.

Para o nosso objetivo nesse texto, no entanto, seria pertinente mencionar brevemente a maneira de pensar de Lênin sobre a revolução na Rússia capitalistas “atrasada” em que, na sua análise, a burguesia e os seus representantes políticos eram incapazes de realizar uma “revolução democrático-burguesa” – derrubando o czarismo e confiscando e distribuindo as terras dos senhores feudais – fazendo com que fosse uma necessidade absoluta que a classe operária, em aliança com os camponeses, assumisse essa tarefa, mas apenas para se mover adiante para a próxima fase, a da revolução socialista. Em tudo isso, a aliança operária e camponesa deveria ser dirigida pelo partido de vanguarda. A concepção que Lênin tinha de um partido desse tipo se tornou clássica – o seu objetivo era organizar politicamente e levar ideias revolucionárias à classe trabalhadora e, mais geralmente, às massas, e liderar a revolução para construir uma “ditadura do proletariado”. Marx já havia pensado a ditadura do proletariado como um sistema em que, logo depois da tomada do poder, esse seria o regime em que o proletariado iria “não apenas exercer o tipo de hegemonia exercido até aqui pela burguesia”, mas uma “forma de governo em que a classe trabalhadora realmente governa, realizando muitas das tarefas que até aqui cabiam ao Estado”, e Lênin assumia integralmente essa perspectiva[7]. Obviamente, no pensamento de Lênin a ditadura do proletariado deveria ser exercida pelos trabalhadores sob a direção do partido de vanguarda. Este último se desenvolveu ao longo do tempo – nas condições exigidas pela ilegalidade, a organização no interior do partido era diferente em 1902 da que surgiu depois de 1905, e em fevereiro de 1917, quando um partido de massas defendendo o “centralismo democrático” foi percebido como o necessário. O centralismo democrático foi pensado como um princípio organizativo para o interior do partido em que os vários grupos dentro do partido deveriam aderir estritamente à orientação de “liberdade de discussão, unidade de ação​. Ao final, o que aconteceu na prática foi a subordinação do elemento democrático; em 1921, as tendências internas foram virtualmente proibidas, uma coisa da qual se diz que Stalin tirou vantagem para conquistar sua dominação no partido​. Em paralelo, a ditadura do proletariado – concebida como uma ditadura sobre as antigas classes dominantes, mas um modelo democrático no que dizia respeito às massas – passou a ser ”amplamente associada com a ditadura do partido e do Estado sobre toda a sociedade, incluindo o proletariado[8], o que foi associado com o stalinismo.

O stalinismo – uma versão decomposta do leninismo, associada intimamente com o regime na União Soviética desde o final dos anos 20 ao momento da morte de Stalin em 1953 – tem que ser visto, como Ralph Miliband corretamente enfatizava, no contexto da história russa. No entanto, dados os limites da brevidade, podemos na melhor das hipóteses apenas listar as suas principais características, baseados em grande parte – mas não de maneira acrítica – em Miliband[9]:

  • a perspectiva de que é possível construir o “socialismo em um só país”;
  • a opinião de que no socialismo deve haver um Estado bastante forte;
  • a visão de que a luta de classes se intensifica com o avanço do socialismo;
  • o culto da personalidade, com um foco obsessivo na vontade do líder supremo;
  • coletivização forçada e industrialização acelerada;
  • supressão agressiva dos dissidentes, da inteligência crítica e da discussão livre no interior do partido;
  • os expurgos e julgamentos “políticos”, e a exclusão da maior parte das figuras importantes da revolução bolchevique
  • os campos de trabalho forçado, em que milhares de pessoas ruins passaram por grande miséria
  • a oposição ao fascismo e a contribuição decisiva à vitória aliada contra ele;
  • o descrédito do marxismo-leninismo por uma interpretação mecânica dele e a sua formulação como ideologia de Estado oficial para legitimar o poder das elites;

Apesar disso, tudo indica que as expectativas e as visões de Lênin quanto a um Estado socialista – tal como dito em O Estado e a Revolução, escrito no verão de 1917 – depois da tomada do poder foi inspirado pelo elogio da Comuna de Paris de 1871 por Marx, retirando dela lições sobre o futuro “Estado” socialista. Marx foi enfático quanto ao fato de que a classe trabalhadora, depois de tomar o poder, não deveria simplesmente assumir o controle da estrutura existente, das instituições e da maquinaria do velho Estado, que deveria ser completamente “destruída” e substituída por um Estado de tipo radicalmente novo. Como Miliband coloca[10] a descrição de Marx da fórmula da Comuna, que mais tarde Lênin parece ter aceitado, e o papel do partido imaginado por ele em O Estado e a Revolução:

“[Todos os oficiais] deveriam ser eleitos, estariam subordinados à revogação em qualquer momento e o seu salário seria fixado no nível do salário dos operários. Instituições representativas seriam mantidas, mas os representantes seriam controlados de perto e constantemente por seus eleitores e submetidos à possibilidade de revogação. Com efeito, a maioria proletária não deveria apenas dominar, mas de fato governar em um regime que chegaria a exercer um poder popular semi-direto.
Um traço muito importante de O Estado e a Revolução, dada a importância que Lênin sempre atribuiu ao papel do partido, é o papel bastante subsidiário que é atribuído a ele nessa instância.” 

Mas a visão de Lênin de um Estado socialista “não sobreviveu à tomada do poder pelos bolcheviques”. Ainda assim, ele “nunca renunciou formalmente às perspectivas que haviam inspirado O Estado e a Revolução”. Podemos, assim, concluir que Lênin queria a “criação de uma sociedade na qual o Estado seria estritamente subordinado ao poder e ao autogoverno no povo”[11]? O contraste entre a teoria e a prática, nesse caso, não poderia ter sido mais claro. Francamente, temos que distinguir entre o que se diz e o que se faz. Afinal de contas, o que aconteceu no Congresso dos Sovietes – sovietes que tinham o potencial para ser os órgãos de autogoverno dos operários e camponeses – que surgiram quase espontaneamente no movimento de Fevereiro de 1917? Ao fim do verão de 1918, os sovietes não tinham muito mais do que uma existência formal. A principal instituição da ditadura do proletariado, os Sovietes de Deputados Operários e Soldados (independente de qualquer partido), assumiu o banco de trás, com a liderança do partido no volante[12]. De fato, a ditadura do proletariado foi julgada como sendo impossível a não ser pela direção de um partido único; o pluralismo socialista também foi preterido. Mas, para sermos honestos, é importante notas que Lênin, em seus últimos escritos, expressou a necessidade de criar as bases para o autogoverno popular, pelos quais, ele sentia, deveria ser desenvolvida uma revolução verdadeira em que a cultura florescesse entre o povo. Ele, neste momento, falava a favor de uma “revolução cultural”, coisa que Mao desenvolveu na China em 1966 com o objetivo de “evitar a restauração capitalista”[13]?

Maoismo: Evolução e desenvolvimento
Milênios são muito longos. Disputemos sobre manhãs e tardes.
– Mao Zedong, 1963

O senso comum do dia apresenta Mao como uma espécie de “monstro”, por exemplo no livro de 2005 de Jung Chang e Jon Halliday, Mao a história desconhecida, que em uma tentativa obcecada de rebaixar Mao, está bem menos preocupado com os fatos conhecidos sobre o homem (ver o livro de Mobo Gao, capítulos 4 e 5[14]). De fato, em A vida privada do Presidente Mao de Li Zhisui, ele é apresentado como um “devasso monstruoso” por um médico que tem como objetivo difamar Mao, vergonhosamente distorcendo os fatos[15]. É evidente que está acontecendo uma “batalha pelo passado da China”, com os intelectuais das elites liderando o ataque. Estes são chineses que foram vítimas, reais ou imaginárias, diretas ou indiretas, da Revolução Cultural, e alguns são as referências mais importantes no campo dos “Estudos Chineses” pelo mundo, que sempre tiveram a tendência de mudar de orientação dependendo da direção dos ventos políticos em Washington. Por exemplo, as suas posições mudaram de “depreciativas” durante o período de hostilidade da Guerra Fria, para “contrariadamente complementares” depois da tranquilidade China-EUA no início dos anos 1970, e depois para “Mao estava completamente errado; a culpa é de Mao” com o grande retrocesso na China no período pós-Mao, quando a visão oficial se tornou anti-maoista e a ideologia neoliberal passou a dominar.

A cartilha da objetividade que é repetidamente invocada é um mito. Não é surpreendente que em um mundo em que “as ideias da classe dominante em cada época são as ideias dominantes”, a visão daqueles que foram beneficiados pela Revolução Cultural, os camponeses e operários — que ganharam em termos de educação, serviços de saúde e outros aspectos do bem-estar social, e também com a “voz” que conquistaram nos campos, nas fábricas e na arena política – não estão sendo ouvidas[16].

Com essa pontuação necessária para o lado ao qual eu tendo, quero chegar às origens do maoismo, que conquistou espaço na vida com o resultado imediato da rejeição da linha desastrosa de uma “frente única feita de dentro” (levando a limitações à independência organizativa, que foi literalmente imposta ao PCCh (Partido Comunista da China) pela Terceira Internacional (a Comintern) em 1923. Essa última afirmou que o Kuomintang (KMT), liderado por Chiang Kai-shek (desde a morte de Sun Yat-sen em 1925), representava a “burguesia nacional revolucionária” da China. Essa aliança supostamente produziria uma libertação nacional uma revolução democrático-burguesa (revolução liderada pela burguesia em aliança com camponeses e operários), mas só levou a uma derrota desastrosa para os comunistas nas mãos da contrarrevolução de Chiang em 1927, levando à uma guerra civil (1928-35).

Mas até na derrota houve um lado positivo: sem dúvidas, o KMT liderado por Chiang controlava a parte principal das forças armadas; mas o Quarto Exército desertou em agosto de 1927 para se juntar aos comunistas, o que levou à fundação do Exército Vermelho. A nova liderança do PCCh gradualmente começou a se consolidar em torno de Mao; no entanto, foi só por volta de 1932 que essa florescente autoridade “maoista” ganhou legitimidade e que o PCCh formulou, e refinou com o tempo, sua própria estratégia e caminho para conquista os objetivos da “nova revolução democrática” (NRD).

Para o nosso objetivo aqui, temos que mencionar que a Comintern tinha estendido mecanicamente a análise histórica de Marx da transição do feudalismo ao capitalismo na Europa para as colônias/semicolônias/neocolônias, só acrescentando que nelas o imperialismo havia se aliado aos feudalistas para consolidar seu poder. Se assumia como pressuposto que a burguesia nacional assumiria a liderança na luta contra o imperialismo e o feudalismo/semifeudalismo, e que portanto era dever dos comunistas nessas regiões agrupar as massas para apoiar este projeto, porque ele levaria à independência nacional e à democracia burguesa, sem as quais a luta pelo socialismo teria que ser indefinidamente adiada. Mas, como vimos, essa política levou a uma derrota desastrosa dos comunistas na China em 1927. A chamada burguesia nacional provou não ser nada além de uma aliada do imperialismo contra os comunistas.

Foi o PCCh, com Mao, que desafiou mais efetivamente a linha da Comintern se recusando a entregar o controle e a liderança àqueles com quem não se poderia contar para levar até o fim a luta por uma verdadeira independência nacional ou a luta contra o feudalismo/semifeudalismo. A qualidade da liderança era especialmente importante[17]. Ela adotou a estratégia de uma guerra popular prolongada (GPP), que se apoiava nos camponeses, construindo áreas de base, e entrega “a terra para quem a cultiva” além de promover outras políticas sociais (por exemplo, lidar com a questão de gênero pela mobilização das mulheres camponeses) nessas áreas (governadas democraticamente como governos autônomos independentes), construindo assim uma base política de massas no campo para, no fim, cercar e capturar as cidades.

Aqui, temos que enfatizar que foi apenas durante a resistência anti-japonesa (1937-45), quando a contradição entre o imperialismo japonês e a independência nacional se tornou a principal (assumindo o papel dominante), empurrando a luta entre o feudalismo e as massas para uma posição secundária e subordinada, que o PCCh conseguiu mudar progressivamente a opinião nacionalista em seu favor. Foi nesse período que ele superou o seu isolamento nas áreas rurais para passar a uma fase nacional, estendendo a GPP e conquistando a imaginação popular. O PCCh não teria tido sucesso em capturar as cidades sem uma mobilização nacionalista de massas ao longo da resistência anti-japonesa, que se voltou de maneira decisiva a seu favor em função do seu manejo correto da unidade e da luta entre nacionalismo e anti-imperialismo, levando ao sucesso e à realização da NRD.

No núcleo da NRD estava a oposição à transformação da sociedade sob a liderança da burguesia e de seus representantes políticos. A NRD – sem dúvidas liderada pelo PCCh – suprimiu a grande burguesia porque, ainda que ela tenha mantido empresas capitalistas privadas, ela significava principalmente criar as condições para o socialismo.

No coração do caminho da NRD, de 1927 a 1949, estava a construção de áreas de base que envolviam[18]

  1. conquistar a vitória na luta política, estabelecendo assim as bases para gerir um governo em miniatura na área de base; 
  2. vencer na luta econômica – terra para quem trabalha nela, investigação da condição das terras, incentivo à ajuda mútua e à cooperação, e conseguir o desenvolvimento das forças produtivas (os meios materiais de produção e capacidades humanas) na agricultura e na indústria leve; e 
  3. continuar a luta cultural e ideológica, com um grande nível de conexão entre as três.

Tudo isso – seja político, econômico, ou cultural e ideológico – exigia que fosse seguida a “linha de massas”, um traço característico do maoismo. Ela é um método de envolver as massas em como, por exemplo, cada uma das tarefas acima deve ser executada, e então implementar o que foi decidido com a participação das massas. Os líderes do partido, com isso, entendiam corretamente as opiniões do povo e assim elaboravam as políticas exigidas de uma maneira que as massas iriam apoiar e ativamente implementar. Mao resumiu esse ponto de maneira breve como “das massas, para as massas”. De fato, no processo de participar da “terra para quem trabalha nela”, da investigação da terra, das lutas ideológicas, o povo compreendia a estrutura de classe local e as ideias e instituições que sustentavam a ordem estabelecida[19].

Isso nos traz às três dimensões centrais da teoria e da prática maoistas em sua tentativa de enriquecer o processo democrático no partido de vanguarda leninista, nas organizações de massas e na sociedade. Na concepção maoista do partido de vanguarda, assim como na de Lênin, a direção centralizada de uma vanguarda revolucionária é central, e essa liderança é composta de intelectuais, operários e camponeses, com a diferença de que se deve buscar que operários e camponeses, ao longo do tempo, seja representados em maior proporção. O que, no entanto, é característico do esforço consciente de Mao para fundir o princípio organizativo intrapartidário do centralismo democrático (“liberdade de discussão, unidade de ação”) com a linha de massas (“das massas, para as massas”), são as organizações de massa sob a direção do partido estabelecendo a ligação crucial entre os dois. Talvez devamos dar aqui uma palavra a respeito da afirmação do partido de vanguarda liderado pelo proletariado. Aqui, como Benjamin Schwartz[20] explica, no maoismo o termo “proletário” se refere também a um conjunto de qualidades éticas – “autocontrole, sacrifício ilimitado às necessidades da coletividade, autoconfiança guerrilheira, energia incansável, disciplina de ferro, etc.” – como norma de um comportamento coletivista. A liderança proletária, então, é constituída de intelectuais, operários e camponeses que se superam nessas exigências morais.

Estamos, assim, começando a compreender algumas das características próprias do maoismo – a concepção da NRD, em oposição à revolução democrático-burguesa; GPP; “áreas de base” e a maneira pela qual são estabelecidas; a contradição principal (que pode mudar com o tempo) como a que deve orientar a trajetória da GPP; o centralismo democrático mais a linha de massas. Agora, então, é o momento de introduzir o que pode até ser a diferença específica do maoismo, o que pode ser feito de modo melhor ilustrando a prática maoista na China. Já indicamos a ideia de que o caminho para o socialismo na China já havia sido iniciado e as lutas para persistir nesse caminho se iniciaram logo no início da fase democrática da própria revolução. Dissemos que a grande burguesia foi suprimida durante a NRD para estabelecer as pré-condições para o socialismo. Por que?

Os socialistas, mais do que outras pessoas, sabem bem que existem limites claros para a compatibilidade de capitalismo e democracia, pelo menos se esta última for entendida como um governo de acordo com o desejo do povo[21]. Mas de um ponto de vista capitalista, uma democracia desse tipo é aceitável e considerada viável apenas se a maioria continuar a acreditar que o sistema capitalista é o melhor de todos ou que não existe alternativa além de viver nele. No momento em que essa crença se decompõe, a democracia se torna um perigo em potencial para o capitalismo, o que é melhor ilustrado para o caso do Chile em 1970, logo depois da vitória e da posse de um partido que afirmava estar decidido a começar a transição para o socialismo, enquanto a grande burguesia colaborava com Washington e os militares assumiram para salvar o capitalismo[22]. Para bloquear essa possibilidade, um novo tipo de democracia (“nova democracia”) tem que ser criado, um tipo que não impeça a transição ao socialismo se a maioria o quiser, e pelo qual a grande burguesia tem que ser suprimida. Com efeito, a NRD não supera o capitalismo, mas confisca a propriedade dos imperialistas e da grande burguesia – aqueles que estão no topo da riqueza, do poder e do privilégio – e com isso destrói a oposição antidemocrática a socialismo com seus representantes e apoiadores.

Mas temos que avançar na compreensão da ideia maoista de passos no interior da nova fase democrática, passos na transição ao socialismo e passos no interior do próprio socialismo, e na compreensão de que as pré-condições para um passo/fase posterior no processo de transformação devem ser criadas no interior do passo/fase anterior. O programa de reforma agrária que levou passo a passo para as comunas pode ser usado como uma ilustração importante. Será melhor partirmos dos livros de William Hinton, Fanshen: A Documentary of Revolution in a Chinese Village (1966) e Shenfan: The Continuing Revolution in a Chinese Village (1983), que juntos oferecem um testemunho ricamente documentado da reforma agrária na vila Arco Longo da província de Shanxi durante 1946-48, levando à formação de equipes de ajuda mútua e, a partir de 1953, o agrupamento destas equipes em “cooperativas básicas”, e daí em diante em cooperativas avançadas e depois em comunas, detalhando estes desenvolvimentos até 1971. Os livros relatam muitos fatos, inclusive alguns que contradizem a posição do autor, mas é difícil propor outro quadro interpretativo para avaliar todos esses acontecimentos sociais. No entanto, afortunadamente, depois disso Hinton ajudou a elaborar um quadro interpretativo desse tipo[23], ainda que ele também tenha revisto a sua posição sobre a Revolução Cultural depois da da publicação de Shenfan[24]

Talvez fosse melhor começarmos no ponto em que Fanshen se conclui: 

“A reforma agrária, criando igualdade básica entre os produtores rurais, apenas apresentou os produtores com uma escolha entre caminhos diferentes: a propriedade privada da terra, que leva ao capitalismo, ou a propriedade coletiva que leva ao socialismo.”

O livro, no entanto, realmente nos faz pensar e não posso evitar colocar esses pensamentos. Como se sabe, a primeira narrativa de Hinton sobre Arco Longo nos oferece um “microcosmo” das movimentações que derrubaram o semifeudalismo no interior da China. Por um lado, ele esclarece o que um camponês pobre tem que passar em um ano ruim e como ele ou ela se sentem quando não há excedente para pagar os impostos, os juros e amortizações, e também como ele ou ela têm que entregar os grãos que teriam mantido para salvar suas famílias da fome, e sabem que o mesmo senhor de terras e/ou agiota e comerciante colaboraram com a invasão japonesa em 1937-45. Por outro lado, podemos entender como se desenvolveu um laço profundo entre o camponês pobre e o quadro de base do partido quando o camponês sabe que o quadro se considera responsabilizável diante da liga de camponeses pobres e do congresso do povoado.

Há mais uma percepção importante que podemos tirar de Fanshen – a de que quando se extrai renda e juros, e o que é perdido na “troca desigual” da produção líquida da unidade produtiva de uma família de camponeses pobres, especialmente em um ano ruim, o que sobre é ainda menos do que um trabalho assalariado teria pago, ou seja, se alguém fosse atribuir os salários respectivos para o trabalho familiar dos camponeses. Isso sugere uma exploração em um grau ainda maior sob o semifeudalismo do que sob o capitalismo atrasado, ainda que ambos estejam no mesmo nível tecnológico. Marx também se referiu a isso, ainda que em um contexto diferente, quando discutiu a exploração dos camponeses irlandeses.

Isso nos coloca em oposição aos estudiosos, incluindo Benjamin Schwartz[25]que sustentam que o PCCh, ainda que tenha conseguido chegar ao poder essencialmente pela força de sua organização entre os camponeses, e não do proletariado urbano, inaugurou na China a “decomposição” do marxismo que Lênin começou na Rússia, e assim, é o oposto da inovação importante que alguns atribuem a ele. Dadas as indicações de Marx sobre os camponeses irlandeses, duvido que teria concordado com essa perspectiva.

Vamos prosseguir, então, para Shenfan. No próprio ano de 1948, os camponeses haviam começado a formas equipes de ajuda mútua em que um pequeno número de unidades domésticas compartilhava recursos que não a terra (ferramentas, melhorias do solo, planejamento, e ocasionalmente trabalho), mas ainda cultivava a terra em uma base individual. Então, em 1953, a formação de cooperativas elementares se desenvolveu, nas quais a terra, assim como os outros recursos, era compartilhada, mas os direitos de propriedade individuais eram mantidos. Os ganhos eram baseados parcialmente na propriedade e parcialmente no tempo de trabalho dedicado à produção cooperativa em proporções estabelecidas de maneira a ganhar a maioria do apoio da população local. Aqui, os lucros tinham que ser pagos baseado nas posses, incluindo a terra, que eram disponibilizadas pelos camponeses, mas as queixas dos camponeses médios e ricos eram de que esses lucros não eram tão grandes quanto os que eles teriam se as coisas não fossem assim, ou seja, se eles tivessem cultivado a sua propriedade individual contratando trabalho de outros. Mas quando a colheita começou a aumentar em função do uso mais intensivo do trabalho na modalidade cooperativa, o conflito sobre como dividir os lucros entre o trabalho contribuído e a propriedade se tornou mais forte[26]. A resolução geralmente assumiu a forma de um deslocamento de uma divisão de trabalho ao capital de 40/60 a uma de 60/40, já que, com o tempo, era o trabalho vivo que criava o excedente em relação às propriedades. Chegaria então um tempo em que os excedentes criados pelo trabalho excederiam em muito as posses originais compartilhadas no momento da formação das cooperativas, quando se tornaria possível abolir a parte do capital no luco líquido, ou seja, para que se avançasse em direção às “cooperativa avançadas”.

Estas significavam um avanço socialista definitivo, implicando em que todas as unidades domésticas camponesas nestas cooperativas de produção, com a propriedade comum dos recursos produtivos. Como Hinton[27] coloca: 

“Quando o novo capital criado pelo trabalho vivo ultrapassa e finalmente domina o antigo capital com o qual o grupo começou, então o lucro dos antigos investidores e seus pagamentos desproporcionais se tornam exploração, uma transferência de riqueza daqueles que a criaram pelo trabalho duro para aqueles que têm a propriedade dos investimentos originais e podem, normalmente, não trabalhar”.

É claro que, com mais um passo adiante no caminho da coletivização, as cooperativas avançadas foram transformadas em unidades maiores de economia e governo coletivos – as comunas. O ponto, no entanto, é que em cada passo no caminho para a coletivização as pré-condições para o próximo passo foram estabelecidas e ajudaram a resolver as antigas contradições, tornando mais fácil a transição para o próximo passo.

Mas, costuma ser dito, a estratégia no Grande Salto Adiante (GSA) (1958-61), a organização das comunas populares e os desvios de esquerda desse período levaram a uma fome massiva em que se diz que 30 milhões de pessoas morreram (números contestados por Utsa Patnaik[28] e Joseph Ball[29]). E, além disso, teriam acontecido a violência e as tragédias pessoais excessivas da Revolução Cultural (RC). Por ambas as tragédias, Mao e o maoismo foram apontados como sendo inteiramente responsáveis. Hinton, no entanto, discorda. Para chegar à verdade, ele explica o contexto – o de uma “guerra política prolongada”[30]. A NRD foi uma revolução de novo tipo, nova porque ela deveria criar as pré-condições para uma via socialista, ao contrário das revoluções democrático-burguesas que abriram o caminho para o capitalismo. Depois de 1949, no entanto, a resolução das contradições com o semifeudalismo e o imperialismo levou a contradição entre o capitalismo e o povo trabalhador chinês para a posição dianteira – e esta se tornou a contradição principal. Desde o momento do começo da NRD, o PCCh se dividiu em duas tendências majoritárias – uma “proletária”, dirigida por Mao, e uma “burguesa”, dirigida por Liu Shaoqi e Deng Xiaoping; antes da libertação a tendência maoista tinha bases nas áreas liberadas e a outra nas cidades controladas pelo KMT. Depois da libertação de 1949, as duas tendências “se fundiram organizativamente, mas nunca se fundiram ideologicamente”[31]. Isso levou a uma divisão fundamental no que dizia respeito à da estratégia de desenvolvimento e da política desde que Mao conduziu a China em uma via decisivamente socialista. Foi na véspera do GSA que Mao declarou, em 27 de fevereiro de 1957 (“Sobre a justa resolução das contradições no seio do povo”): “[…] a questão de quem vencerá, o socialismo ou o capitalismo, ainda não está decidida”. E como Hinton coloca: “Nenhuma política poderia, de nenhum dos dois lados, ser aplicada sem que fosse contestada”, ou seja, havia uma tensão extrema entre as duas tendências. Ele continua: “Culpar Mao, então, pela luta que se seguiu e por seu resultado, é injustificável, irrealista e anti-histórico. Mao fez o que precisou fazer dada a sua base social [os camponeses pobres e os operários na aliança que ele cultivou], assim como Liu fez o que precisou fazer com a base social que tinha. Depois de uma década de conflito, as coisas chegaram em um cume na Revolução Cultural […]. Mao, politicamente, tinha a vantagem. Ele conseguia falar diretamente com as massas e mobilizar centenas de milhões de camponeses e operários. Mas Liu tinha a vantagem organizativamente […] em 1958, […] graves problemas […] em conjunto com um péssimo clima em 1959, ‘60 e ‘61 levaram à escassez da colheita e fome. As iniciativas de Mao falharam temporariamente, mas estavam corretas. […] Durante a Revolução Cultural extremos parecidos se colocaram. […] No entanto, o movimento como um todo foi uma grande inovação criativa na história. Ela não era um complô, nem um expurgo, mas uma mobilização de massas em que as pessoas eram incentivadas a intervir, a vigiar e a supervisar os seus dirigentes e a formar comitês populares para exercer o controle de baixo para cima. […] A contradição principal do momento era a luta de classes entre a classe trabalhadora e a classe capitalista que se exprimia no interior do partido […]; a não ser que ela fosse resolvida a favor da classe trabalhadora, a revolução socialista iria naufragar. […] O método deveria ser a mobilização das pessoas comuns, para que elas tomassem o poder desde baixo para estabelecer órgãos de direção, democraticamente eleitos, e era […] resumido com a frase ‘bombardear o quartel-general’ […], o alvo da Revolução Cultural [eram] ‘os quadros do partido em posição de autoridade que tomavam a via capitalista’”.

Basicamente, para resolver a contradição entre a “via proletária” e a “via burguesa” no partido a favor da primeira, os maoistas na RC tentaram plantar as sementes para uma fase posterior do socialismo na fase atual, acabando assim com uma separação mecânica entre as duas fases e se concentrando em suas inter-relações[32]. As duas fases do socialismo, que supostamente se seguem cronologicamente, são a fase em que a distribuição do produto social se dá de acordo com o princípio “de cada um segundo suas habilidades a cada um segundo seu trabalho” seguido pela fase da distribuição segundo a norma “de cada uma segundo suas habilidades a cada um segundo suas necessidades”. Magdoff[33] explica que os maoistas se focam nas inter-relações entre os dois, e com isso enfatizam a necessidade de criar as pré-condições para a transição no interior da própria fase anterior, os pré-requisitos principais sendo a maneira como o produto social é distribuído e a mudança nas relações entre as pessoas. Se não for feito isso, as desigualdades produzidas e reproduzidas na fase atual irão levar ao surgimento e a consolidação de uma nova elite privilegiada que irá gradualmente se transformar em uma nova classe dominante. E eles tiram a sua justificativa para isso com uma referência à Crítica do programa de Gotha de Marx, com a sua descrição descrição enérgica necessária persistência da desigualdade em uma sociedade socialista (mas não comunista). Podemos entender, assim, porque as principais preocupações durante a RC eram “as medidas que tendiam a reduzir as diferenças que surgiam da divisão do trabalho entre cidade e campo, trabalho intelectual e manual, e administração e trabalhadores”, sabendo muito bem que a realização completa dessas medidas estava “em um futuro distante e envolvia muitas disputas políticas nos anos do futuro próximo”[34].

Está claro, então, que os maoistas rejeitam a interpretação mecânica do Prefácio de 1859 à Contribuição à crítica da economia política de Marx como uma teoria determinista da história feita por Stalin. Mao acusava Stalin de enfatizar apenas as forças produtivas (os meios de produção e a capacidade de trabalho humana) e negligenciar as relações de produção (relações de trabalho e relações de propriedade que garantem o controle das forças produtivas e dos produtos) e a superestrutura (instituições como o Estado, a família, a religião, a educação, o direito, a cultura e a ideologia). Mesmo no campo das forças produtivas, Stalin – diz Mao – negligenciou de uma maneira relativa o crescimento do potencial humano, que deveria constituir o centro das forças produtivas. Novamente, Stalin via a direção causal como essencialmente operando em um único sentido, da mudança nas forças produtivas para uma alteração das relações de produção e daí refazendo a superestrutura[35].

Ao invés disso, Mao defendia que os elementos da superestrutura só se transformam com um atraso considerável; a velha cultura permanece por muito tempo depois que a base da economia for radicalmente alterada. Mas, se um esforço consciente for feito para transformar os elementos da superestrutura, isso, por sua vez, afeta a base econômica (as forças produtivas e as relações de produção). Assim, Mao buscava impulsionar as comunas populares mesmo antes da modernização da agricultura, porque elas, na sua perspectiva, ao transformar as relações de produção e os elementos da superestrutura (estas últimas com algum atraso), iriam, por sua vez, impulsionar as forças produtivas. Por isso também a ênfase e a pressão nos efeitos econômicos sufocantes da estrutura de classe dominante nas fábricas durante a RC, ou na dominação dos senhores de terras e os capitalistas “compradores/burocráticos” no período anterior à liberação, ou nos efeitos libertadores da destruição da superestrutura (por exemplo, a cultura confucionista[36]. O quanto abertas são, aparentemente, as inter-relações entre as forças produtivas, as relações de produção e a superestrutura na concepção de Mao da teoria marxista da história?

Juntando os vários ramos

Vimos neste ensaio que, em sua melhor forma, o marxismo nos leva a esperar uma relação interna entre teoria e prática; onde uma delas for empobrecida, a outra estará em grande desvantagem. O maoismo, claramente, privilegiou a prática em relação à teoria – ele vê a prática como o ponto de fundação da teoria. Em seu ponto alto, e se lermos o fundamental Sobre a prática de Mao, escrito em julho de 1937, ele ataca tanto os dogmáticos quanto os empiristas, os oportunistas “de direita” e os “esquerdistas”. Como diz: “Prática [‘luta de classes, luta política e conquistas artísticas e científicas’], conhecimento, novamente prática e então conhecimento. Essa forma se repete em ciclos sem fim, e com cada ciclo o conteúdo da prática e do conhecimento se eleva a um nível superior”. E em seu excelente ensaio de agosto de 1937, Sobre a contradição, ele defende que as contradições – a luta entre opostos unidos funcionalmente – causa a mudança contínua. O desenvolvimento vem da resolução das contradições e a estratégia envolve a escolha da forma de luta mais adequada para resolver uma contradição. Mas a transformação qualitativa desejada só pode ser realizada através de uma série de fases, em que a fase atual é preparada com as sementes híbridas da fase posterior, dissolvendo assim as contradições mais fortes de um estágio no outro. O marxismo de Mao era da linhagem de Lênin, ainda que tendendo para perto de sua versão stalinista (que, como vimos, era uma versão decomposta do leninismo), mas lutando para superar e ir além do stalinismo.

Pintamos um quadro amplo com pinceladas grosseiras, indo do marxismo ao leninismo, e daí à sua revisão stalinista, e então para o maoismo nos termos de sua evolução e desenvolvimento na China do fim dos anos 1920 ao fim dos anos 1960, focando nas suas diferenças específicas. Vimos que essas foram:

  • os camponeses pobres no interior de uma sociedade capitalista atrasada ou semifeudal, mais do que o proletariado urbano, constituíram a base de apoio de massas do movimento;
  • a teoria da revolução por estágios, assim como a da revolução contínua, implicando uma relação próxima entre estágios sucessivos;
  • o estágio da NRD, que tornou o capitalismo muito mais compatível com a democracia, assim auxiliando a transição para o socialismo;
  • o caminho e a estratégia da GPP, que se sustenta nos camponeses, constrói zonas de base rurais, executa uma reforma agrária e outras políticas sociais nessas zonas (geridas democraticamente, como governos autossuficientes e independentes), construindo com isso uma base política de massas no campo, para, no fim, cercar e capturar as cidades;
  • a concepção das “zonas de base” e da maneira de criá-las;
  • “capturar” as cidades (ganhar o apoio das massas nelas) mostrando uma forma de nacionalismo que fosse verdadeiramente anti-imperialista, reorientando assim o movimento nacionalista de massas (durante a resistência anti-japonsa, em 1937-45) a favor da NRD;
  • o centralismo democrático mais a linha de massas, garantindo que a “democracia” não seja subordinada ao “centralismo” e garantindo que as pessoas estivessem envolvidas na construção das políticas e em sua implementação;
  • a ideia central de que as contradições – a luta entre opostos funcionalmente unidos – em cada fase levam o processo de desenvolvimento no sentido do socialismo, que deve ser implementado em uma série de estágios, em que o estágio atual, no momento correto, é preparado com as sementes do estágio seguinte, dissolvendo assim as contradições principais do atual e levando ao posterior;
  • relações abertas entre as forças produtivas, as relações de produção e a superestrutura;
  • a ideia de que os que detém o poder político, administrativo e burocrático se tornam uma nova elite dominante e que, dado um período de tempo, assumem a posição de uma nova classe exploradora, e que o povo deve ser constantemente mobilizado para lutar contra essa tendência.

A “dialética materialista”, como uma maneira de pensar e guiar a prática, foi uma ferramente poderosa nas mãos de Mao, mas suas fraquezas talvez estivessem relacionadas com as suas forças; ao fim, o próprio método levou Mao a superestimar o ritmo da mudança e a subestimar os obstáculos contra a mudança. Marx também caiu na mesma armadilha quando seu próprio método de análise o levou a acreditar que a revolução estava próxima, subestimando muito as grandes barreiras contra uma mudança progressiva. Será que a própria aplicação do método da dialética materialista leva os que a praticam a cair para o lado do “voluntarismo” em sua prática?

Se olharmos para os tempos posteriores a partir do ano de 1969 – o ano que marca o início do fim do período maoista – o grande retrocesso do socialismo para o capitalismo[37] nos espera logo adiante. Mas 1969 também nos oferece uma boa perspectiva dos anos anteriores. Pode ajudar começar contando um incidente da infância de Mao, quanto ele estava na escola, que o mesmo contou ao jornalista americano Edgar Snow em 1972. Um dia ele e seus colegas estudantes viram as cabeças decapitadas de rebeldes penduradas nos portões de uma cidade como aviso. Os rebeldes tinham liderado camponeses famintos em uma insurreição para conseguir comida. A repressão selvagem da rebelião foi imediata, e o incidente deixou uma impressão profunda no garoto, impressão que ele nunca esqueceu, se ressentindo profundamente com o tratamento dado aos rebeldes. Claramente, desde muito jovem, Mao passou a enxergar a ordem social dominante como simplesmente intolerável e a esperar uma onda revolucionária mais cedo ou mais tarde. “Uma única centelha pode incendiar a pradaria”, ele disse aos seus camaradas mais próximos em janeiro de 1930; vinte anos depois, se diz que ele declarou: “O povo chinês se levantou!”. Há também uma história emocionante sobre a entrada triunfal de Mao em Pequim que vale a pena contar[38]:

“Havia um milhão de chineses presentes para recebê-lo. Um grande palco, de quatro metros de altura, foi construído no fim de uma grande praça, e enquanto ele subia os degraus do fundo do palco, o topo da sua cabeça apareceu e gritos de boas-vindas saíram de um milhão de gargantas, aumentando e aumentando enquanto a figura solitária se levantava e aparecia toda. E quando Mao [...] viu a grande multidão, ele parou por um momento, e então subitamente cobriu o seu rosto com as duas mãos e chorou.”

Mas nos anos depois de 1949, e mesmo no meio dos anos 1960, como vimos, a questão de se a China seria capitalista ou socialista não estava decidida. Aos 72 anos de idade, o guerrilheiro em Mao se levantou de novo – melhor queimar do que entrar em declínio. O como Jerome Ch’en[39], citando Mao, o poeta, colocou:

“A Revolução Chinesa estava em uma encruzilhada. Ela poderia ‘olhar para o fundo do precipício’ e recuar ou ‘chegar à altura do nono céu’ e então ‘retornar à felicidade com canções de triunfo’. A escolha, de acordo com o poeta, dependia inteiramente do ‘desejo de ir mais alto’.”

Quatro anos depois, o que permanecia eram as brasas – havia chegado o tempo de simplesmente se retirar. Não muito depois, seus camaradas mais próximos, Zhou Enlai e Zhu De, morreram. A ideia de Shakespeare de que “todo o mundo é um palco” se tornou um clichê, mas certamente foi um dos maiores prazeres da vida de Mao ter estado no mesmo palco que estes dois. Havia chegado o momento para que um dos maiores revolucionários marxistas de todos os tempos subisse às estrelas para se juntasse a Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Stalin, os 20 milhões de soldados do Exército Vermelho que morreram na guerra contra o fascismo e os vários guerrilheiros camponeses do Exército Popular de Libertação que sacrificaram suas vidas na grande marcha por um mundo melhor.

O maoismo, no entanto, deve ser chamado à responsabilidade: por que os camponeses e operários não resistiram aos grandes retrocessos para o capitalismo na China e na União Soviética, às contrarrevoluções? A verdade só pode ser bastante desapontadora, pelo menos se julgarmos o maoismo, como é justo, pelos frutos de seu projeto de levar a humanidade adiante no caminho para a igualdade, a cooperação, a comunidade e a solidariedade. Na própria China, o maoismo não venceu neste ponto – todas as ações unificadas dos operários e camponeses pobres, toda a educação de massas do período maoista não parece ter levado o desenvolvimento intelectual das massas a um ponto em que, quanto foi necessário confrontar os “que tomavam a via capitalista” depois de 1978 para defender as ideias de igualdade e cooperação contra a hierarquia e a competição, elas teriam feito o necessário. O maoismo falhou em oferecer um modelo vitorioso e funcional de socialismo no século XX. E, o que é pior, enquanto Mao estava em seus últimos anos de vida, a China Popular entrou em uma acomodação com o imperialismo norte-americano contra a União Soviética – Sobre a contradição de Mao foi manipulado para justificar o acordo. Em uma violação de uma importante orientação maoista, o nacionalismo subordinou o anti-imperialismo quando, em 1974, Deng Xiaoping usou a chamada “teoria dos três mundos” para racionalizar a virada “à direita” da política internacional chinesa. Mas apesar desses limites, não pode haver dúvida de que em um longo período, do fim dos anos 1920 ao fim dos anos 1960, o maoismo fez uma coisa sem precedentes na história da humanidade – ele realizou uma drástica redistribuição de renda e riqueza na China, transformou radicalmente a maneira como o excedente econômico da sociedade chinesa era produzido e utilizado, e isso para melhor.

O legado de Mao e o futuro do maoismo
Chegou o momento, então, de falar do legado de Mao. Como vimos, o maoismo tem uma visão definida de como chegar ao socialismo, e do que precisa ser feito para satisfazer as necessidades básicas de todos em um país pobre. O desenvolvimento deve ser conquistado em bases igualitárias – estamos todos nele juntos e todos ascendem juntos. O que fazer então do legado de Mao, o maoismo? Certamente, isso está em aberto para todos os que compartilham sua visão de mundo, seu método de análise – a dialética materialista –, seus valores, sua visão e decidem embarcar juntos na grande marcha para o socialismo, sabendo desde o início que a jornada está repleta de perigos consideráveis. O que dizer, então, do maoismo na Índia[40], poderíamos perguntar? A China maoista fez o seu melhor para alimentar, vestir e abrigar a todos, mantê-los saudáveis e educar a maior parte deles. Basta comprar isso com as condições deploráveis da Índia no fim dos anos 1960 e mesmo hoje – a tragédia de uma Índia governada por sua própria grande burguesia – e podemos compreender porque alguns na Índia veem o modelo maoista de desenvolvimento como o caminho para uma vida mais rica e plena para todos. Anu – com quem começamos este artigo – era um deles.

No entanto, enquanto podemos ter um grande respeito por essas pessoas, devemos colocar uma questão: o caminho básico e a estratégia revolucionária que foram necessários na China dos anos 1930 e 1940 são corretos para a Índia do século XXI? Bem, a Índia é muito diferente da China daqueles tempos, e mais ainda em sua história, geografia, estrutura social e de classes, tradições, e na natureza de seu capitalismo atrasado/“semifeudal”, na acomodação da grande burguesia com o imperialismo, na força do aparato repressivo do Estado, na questão das nacionalidades e daí em diante. E, isso é importante, enquanto a história chinesa está repleta de rebeliões camponesas difusas e periódicas, a história indiana, em um sentido comparativo, tem poucas dessas rebeliões, o que talvez possa ser explicado nos termos das castas[41], fundamentalmente opostas a qualquer unidade significativa dos explorados e oprimidos. Lembremos que Mao adaptou seu marxismo-leninismo à realidade da história da China, às potencialidades da China; “aprendam a verdade a partir da prática” era a sua mensagem. Certamente, um partido [PCI (maoista)] que veio de uma tendência política que, nos últimos 40 anos, fez o seu melhor para levar adiante a revolução na Índia deve reavaliar profundamente o abismo que é a Índia – sua história, suas potencialidades.

Os maoistas deve manter em mente que a validade científica do maoismo que defendem será julgada em primeiro lugar, na Índia, por suas contribuições para explicar corretamente a realidade social indiana. Há muitas coisas em que eles foram importantes nesse sentido, por exemplo, ao enfatizar a dependência parasitária do capital indiano do Estado para garantir a sua expansão, o que é exprimido na noção da capital burocrático. Ou enfatizando o forte papel do Estado na própria formação da grande burguesia indiana (é claro, o fortalecimento das classes dominantes pelo “Estado”, muito mais do que o inverso, chega até os tempos antigos, como percebeu o grande historiador D. D. Kosambi). Os maoistas também nos ajudaram a ver as “reformas agrárias” oficiais do pós-1956 como tendo levado a uma fusão parcial das antigas classes de proprietários rurais em um novo e mais amplo estrato de proprietários rurais ricos, todos aqueles que não colocam suas mãos no arado, incluindo uma parte dos antigos arrendatários, que, apesar de sua participação nos mercados, ainda têm que se livrar de várias práticas “semifeudais” e de elementos culturais pré-capitalistas. Além disso, são os maoistas que, em sua prática, corretamente não tentam diferenciar os pobres rurais em “proletariado agrário” e “camponeses sem terra”, sabendo muito bem que a mesma unidade doméstica pobre pode ser categorizada em uma ou outra posição em diferentes momentos no tempo. E, organizando o “proletariado agrário”/”campesinato sem terra” junto com os camponeses pobres e médios e uma fração dos camponeses ricos, eles insistem em colocar a questão de castas, apesar de saberem como isso pode ser altamente problemático e dolorosamente difícil. São também os maoistas que, mais do que outros, primeiro compreenderam o caráter brutal das classes dominantes e dos líderes de partidos políticos que cooptaram, as mesma categorias cujos antecessores assumiram o poder em nome da não-violência de Ghandi. Todo esse conhecimento é essencialmente derivado da prática; e, não precisamos dizer, se alinhando com o legado de Mao, o conteúdo da prática e o conhecimento têm que ir continuamente sendo elevados.

O partido [PCI (maoista)] tem sido muito condenado por suas atividades violentas, incluindo mortes. A violência, no entanto, tem que ser vista no contexto da guerra civil não declarada que acontece nas áreas sob sua influência, por exemplo, em Dantewada, no estado de Chattisgarh[42]. O governo está implementando uma política bárbara de contrainsurgência, que inclui alimentar uma rede de informantes e combatentes entre a população civil, desde o nível das aldeias até os níveis mais amplos – uma suposta resistência popular apoiada e financiada pelo Estado [chamada Salwa Judum (SJ)] contra os maoistas. Aldeias inteiras foram evacuadas e os aldeões jogados forçadamente em campos de refugiados, e isso em circunstâncias de aquisição de terras em larga escala por corporações privadas em uma região rica em minerais. Os últimos quatro anos viram ataques violentos, saques, destruição, intimidação, estupro e assassinatos em uma escala sem precedentes, principalmente da parte dos SJ; na verdade, este último tem até mesmo recrutado de maneira forçada os desabrigados para suas fileiras. Sem dúvidas, as mortes são causadas por ambos os lados, mas a grande diferença é que os maoistas, em geral, quando tomam como alvo representantes específicos do Estado ou mesmo informantes, eles primeiro os avisam para desistir da atividade anti-povo que estão desenvolvendo. Os culpados de estupro, tortura, assassinatos de reféns ou responsáveis por mortes em “encontros” são atacados diretamente pra que os outros, com medo dessas represálias, desistam de fazer o mesmo. No que diz respeito aos representantes do SJ, qualquer pessoa que se juntar a eles pode se tornar alvo, não por alguma inimizade pessoal, mas por causa do papel que o SJ tem assumido nessa guerra civil não declarada.

Mais geralmente, a violência também tem que ser cista no contexto da relação real de fato entre o poder político e o econômico nos níveis locais e regionais; as classes dominantes, por vários meios, exercem controle sobre a polícia e o judiciário, o que aumenta as chances de confronto violento entre as classes em conflito[43].

Aqueles que deliberada e falsamente apresentam os maoistas como “devotos da violência” escolhem ignorar o fato de que a violência dos oprimidos (e neste momento os maoistas os lideram) sempre foi precedida e provocada pela violência dos opressores (e pelo Estado e as forças militares privadas que os apoiam). Afirmar, como alguns liberais fazem, que a violência dos oprimidos é “moralmente equivalente” à dos opressores é defender um Estado reacionário que, de fato, apoia os opressores. E nessa época de controle da opinião pública, a “programação” do que o público pensa, vê e lê, os “fatos” que são disseminados são artificialmente separados de toda uma imensa série de fatos relevantes, nunca permitindo que o público perceba o presente “real”.

Mas, ainda que reconhecendo que as contradições antagônicas entre organizações de classes inimigas irá chegar à violência, é um princípio maoista que as ações de guerrilha devem ser subordinadas a uma política de “linha de massas” – as guerrilhas maoistas têm que assumir como principal ganhar as massas do povo em suas zonas de base e, como consequência, nas áreas próximas – trabalhar para um equilíbrio (“proporcionalidade”) melhor do que nunca entre meios e fins. No que diz respeito ao recurso à violência na revolução, para estender o que compreendi de suas obras, seria justo dizer que Marx e Engels não teriam discordado do uso de métodos violentos pelas forças revolucionárias na Índia de hoje. Nunca se poderia esperar que as classes dominantes entregassem sem poder sem lançar mão de todo o poder repressivo que têm. É importante, talvez, lembrar que a resposta de Marx às “acusações de crimes e crueldade” contra os “rebeldes hindus” em 1857 foi formulada para responder à violência diária “à sangue frio” da dominação britânica na Índia[44].

Quanto à afirmação falsa de que os maoistas não têm apoio de massas em suas áreas de influência, temos apenas que ouvir os observadores independentes, perceptivos e sensíveis, que conhecem a situação local. As forças do Estado são muito maiores (no que diz respeito aos armamentos e números) do que as guerrilhas maoistas, e ainda assim os camponeses tribais apoiam as últimas. Por que estes camponeses assumem o risco de apoiar os mais fracos, mesmo quando sabem que as guerrilhas não estão mais no local e que eles, como seus apoiadores, estarão vulneráveis às forças do Estado e irão, muito provavelmente, ser mortos? Se, contra o risco da própria morte, os camponeses escolhem as guerrilhas, certamente deve haver alguma coisa mais importante se passando ali.

Além da Índia, o maoismo é uma força política considerável no Nepal[45], nas Filipinas[46] e no Peru[47]. Os líderes maoistas nepaleses foram imaginativos – as suas ideias sobre uma combinação dos modelos chinês (vitória no campo e difusão pelas cidades) e russo (vitória nas cidades e difusão para o campo) de revolução e sobre uma “democracia do século XXI” (competição multipartidária enquanto todos estiverem de acordo com os objetivos da “nova democracia”) são instigantes. Mas essas teorias estão sendo colocadas a provas severas na prática. O Partido Comunista Unificado do Nepal (maoista), dada a sua relativa força diante dos “inimigos” da democracia e de seus aliados e senhores no exterior das fronteiras de seu pequeno país (especialmente na Índia), busca utilizar a república burguesa como um estágio para concentrar as forças das massas empobrecidas e das camadas nacionalistas médias para se mover no sentido de uma NRD[48].

O que dizer então do futuro do maoismo e da renovação do socialismo que ele promete? Francamente, “as chances de que as revoluções do século XX nos dariam modelos funcionais de socialismo” passaram há muito tempo; “nos dizem que o socialismo foi tentado e fracassou”[49]. Mas, como Marx foi o primeiro a mostrar, os obstáculos para um futuro melhor não podem ser resolvidos pelo capitalismo. O desafio, então, é reviver e renovar o legado do socialismo. O maoismo pode iluminar o caminho nesse sentido?

O maoismo tem suas raízes em Marx, que era, acima de tudo, defensor de uma democracia radical – ele exigia a reconstrução da comunidade e da solidariedade de massas; ele sonhava com a comunhão dos seres humanos e da natureza; ele reforçava a dialética da libertação; ele olhava para o futuro, para uma sociedade justa que possibilitasse uma “individualidade rica”; e, como Paresh Chattopadhyhay[50] lembra, ele insistia na abolição da circulação mercantil, da divisão do trabalho e do Estado… Mas Lênin também, em seu O Estado e a Revolução, era um democrata até o fim, ainda que tenha introduzido em sua concepção do socialismo elementos que se opõem à “livre associação dos indivíduos” – o trabalho assalariado e o Estado[51].

Mao e os maoistas chineses também se mostraram democratas revolucionários, ainda mais se levarmos em contra as 20 milhões de pessoas marchando pelas ruas em várias cidades chinesas na última semana de maio de 1968, os manifestantes gritando especialmente a palavra de ordem “viva a herança revolucionária da grande Comuna de Paris!”. De fato, a interpretação de Marx da Comuna de Paris foi assumida como importante para a retomada da revolução na China, fato que encontrou um lugar nos famosos “Dezesseis Pontos” de 8 de agosto de 1966[52]. “Quem cem flores cresçam, que cem escolas disputem” não era apenas uma política para o incentivo do progresso nas artes e nas ciências, mas uma impulsão para o florescimento de uma cultura socialista, pelo menos era essa a afirmativa.

Assim, dada a corrente democrática radical que corre de Marx a Mao, a melhor coisa que o maoismo poderia fazer é se dedicar à promessa de uma democracia radical; afinal de contas, se por um lado é verdade que não pode haver liberdade em nenhum sentido significativo sem igualdade, uma vez que os ricos seriam certamente mais “livres” (teriam mais opções de vida) do que os pobres, por outro não pode haver igualdade sem liberdade, uma vez que alguns teriam mais poder político do que outros.

Até aqui, as revoluções inspiradas por Marx tiveram apenas a participação de uma minoria significativa. Será que o comprometimento com uma democracia radical no desenvolvimento da luta poderia contribuir para mobilizar a maioria? Os meios serão, então, cuidadosamente escolhidos para que nunca possam subordinar a orientação socialista?

Notas:
[1] Paul Sweezy, “What is Marxism?” Monthly Review, Vol. 36, Nº 10, Março de 1985, pp. 1-6.

[2] Paul Sweezy, “What is Marxism?” Monthly Review, Vol. 36, Nº 10, Março de 1985, pp. 3-4.

[3] Paul Sweezy, “Marxism and Revolution 100 Years after Marx”, Monthly Review, Vol. 34, nº 10, Março de 1983, pp. 2-3.

[4] Ver Geoffrey Kay, Development and Underdevelopment: A Marxist Analysis, (Londres: Macmillan).

[5] Paul Sweezy, “Notes on the Centennial of Das Kapital”, Monthly Review, Vol. 19, No 7, dezembro de 1967, pp 1-16.

[6] Harry Braverman, “Lenin and Stalin” in Monthly Review, junho de 1969, pp 45-55.

[7] Ralph Miliband, “Dictatorship of the Proletariat” in Tom Bottomore (ed) Dictionnary of Marxist Thought, 2000, pp 151-52.

[8] Ralph Miliband, “Dictatorship of the Proletariat” in Tom Bottomore (ed) Dictionnary of Marxist Thought, 2000, p. 152.

[9] Ralph Miliband, “Stalinism” in Tom Bottomore (ed) Dictionnary of Marxist Thought, 2000, pp. 517-520.

[10]Ralph Miliband, “State and Revolution” in Tom Bottomore (ed) Dictionnary of Marxist Thought, 2000, pp. 524.

[11]Ralph Miliband, “State and Revolution” in Tom Bottomore (ed) Dictionnary of Marxist Thought, 2000, pp. 525.

[12] Ralph Miliband, “The State and Revolution”, in Paul M Sweezy & Harry Magdoff (ed): Lenin Today: Eight Essays on the Hundredth Anniversary of Lenin’s,1970.

[13] George Thomson, “From Lenin to Mao Tse-tung”, in Paul M Sweezy & Harry Magdoff (ed): Lenin Today: Eight Essays on the Hundredth Anniversary of Lenin’s Birth , 1970, pp. 115-25.

[14] Mobo Gao, The Battle for China’s Past: Mao and the Cultural Revolution . Londres: Pluto Press. 2018.

[15] Mobo Gao, The Battle for China’s Past: Mao and the Cultural Revolution , capítulo 6.

[16] Mobo Gao, The Battle for China’s Past: Mao and the Cultural Revolution .

[17] Paul Sweezy, “Socialism in Poor Countries”, Monthly Review, Vol. 28, No. 5, outubro de 1976, pp 1-13.

[18] John G. Gurley. China’s Economy and the Maoist Strategy , p. 70-71. New York: Monthly Review Press. 1976.

[19] John G. Gurley. China’s Economy and the Maoist Strategy , p. 72-73. New York: Monthly Review Press. 1976.

[20] Benjamin Schwartz, “The Philosopher”, in Dick Wilson (ed): Mao Tse-tung in the Scales of History: A Preliminary Assessment Organized by the China Quarterly (Cambridge: Cambridge University Press), pp 9-34.

[21] Paul Sweezy, “Capitalism and Democracy”, Monthly Review, Vol. 32, No. 2, junho de 1980, pp 27-32.

[22] Paul Sweezy, “Capitalism and Democracy”, Monthly Review, Vol. 32, No. 2, junho de 1980.

[23] William Hinton.“Mao, Rural Development, and Two-Line Struggle”, Monthly Review, Vol 45, No 9, fevereiro de 1994, pp 1-15; China: An Unfinished Battle—Essays on Cultural Revolution and Further Developments in China . Kharagpur: Cornerstone Publications. 2002; “On the Role of Mao Zedong”, Monthly Review, Vol. 56, No. 4, setembro de 2004, pp. 51-59.

[24] Dave Pugh, “William Hinton and the Cultural Revolution”, Monthly Review, Vol 56, No 10, março de 2005, 33-42.

[25] Benjamin Schwartz, Chinese Communism and the Rise of Mao . Cambridge: Cambridge University Press. 1955.

[26] William Hinton, Shenfan: The Continuing Revolution in a Chinese Village , p. 6-7. New York: Vintage Books. 1983.

[27] William Hinton, “Mao, Rural Development, and Two-Line Struggle”, Monthly Review, Vol 45, No 9, fevereiro de 1994, pp. 6.

[28] Utsa Patnaik, “The Republic of Hunger”, Social Scientist, Vol 32, No 9/10, setembro/outubro de 2004, pp 9-35.

[29] Joseph Ball, “Did Mao Really Kill Millions in the Great Leap Forward?” Monthly Review, setembro de 2006, em https://monthlyreview.org/0906ball.htm.

[30] William Hinton, “On the Role of Mao Zedong”, Monthly Review, Vol 56, No 4, setembro de 2004, 51-59.

[31] William Hinton, “On the Role of Mao Zedong”, Monthly Review, Vol 56, No 4, setembro de 2004, p. 54.

[32] Harry Magdoff, “China: Contrasts with the USSR”, Monthly Review, número especial “China’s Economic Strategy: Its Development and Some Resulting Contrasts with Capitalism and the USSR”, Vol 27, No 3, julho-agosto de 1975, pp. 12-57.

[33] Harry Magdoff, “China: Contrasts with the USSR”, Monthly Review, número especial “China’s Economic Strategy: Its Development and Some Resulting Contrasts with Capitalism and the USSR”, Vol 27, No 3, julho-agosto de 1975, pp. 53-54.

[34] Ibidem.

[35] Mao Tse-tung. A Critique of Soviet Economics. New York: Monthly Review Press. 1977.

[36] Christopher Howe & Kenneth R Walker. “The Economist”, in Dick Wilson (ed): Mao Tse-tung in the Scales of History: A Preliminary Assessment Organized by the China Quarterly, pp 176-177. Cambridge: Cambridge University Press. 1977. John G. Gurley China’s Economy and the Maoist Strategy, capítulo 2. New York: Monthly Review Press. 1976.

[37] Hari P. Sharma. Critical Perspectives on China’s Economic Transformation: A “Critical Asian Studies” Roundtable on the book China and Socialism by Martin Hart-Landsberg and Paul Burkett. Delhi: Critical Asian Studies and Daanish Books. 2007.

[38] Esse episódio foi contado por Zhou Enlai a Charlie Chaplin em Genebra, durante a crise coreana, quando o primeiro veio negociar um fim à Guerra da Coréia e Chaplin viabilizou uma exibição de Luzes da Cidade ao visitante. Charles Chaplin: My Autobiography , p. 526, 530. New York: Pocket Books. 1966.

[39] Jerome Ch’en &d Mao Tse-tung, “An Unpublished Poem by Mao Tse-tung”, The China Quarterly, No. 34, abril-junho de 1968, pp 2-5.

[40] Sumanta Banerjee, In the Wake of Naxalbari: A History of the Naxalite Movement in India . Calcutta: Subarnarekha. 1980. Tilak D. Gupta, “Maoism in India: Ideology, Programme and Armed Struggle”, Economic & Political Weekly, número especial “Maoist Movement in India”, Vol 41, No 29, julho de 2006, 22, pp. 3172-76. Mohan Ram Maoism in India . Delhi: Vikas Publications. 1971

[41] Barrington Moore Jr.: Social Origins of Dictatorship and Democracy: Lord and Peasant in the Making of the Modern World , capítulos 4, 6 e 9. Londres: Penguin. 1967

[42] PUDR, When the State Makes War On Its Own People: A Report on Violation of People’s Rights During the Salva Judum Campaign in Dantewada, Chhattisgarh. Delhi: People’s Union for Democratic Rights. 2006.

[43] Além disso, religião, etnicidade e nacionalidade foram cartas decisivas usadas pelos principais partidos políticos e seus representantes com o objeivo de dividir as massas trabalhadoras em nível local no subcontinente indiano. A criminalidade endêmica de mobilizações comunalistas-religiosas e os pogroms executados contra a principal minoria religiosa da Índia têm sido os resultados mais trágicos desse tipo de política semifascista num passado recente.

[44] Karl Marx, “Investigation of Tortures in India”, New York Daily Tribune, 17 de setembro de 1857, em http://www.marxists.org/archive/marx/works/1857/09/17.htm.

[45] Baburam Bhattarai, “The Royal Regression and the Question of the Democratic Republic”, Monthly Review, março de 2005, em https://monthlyreview.org/0305commentary.htm. Baburam Bhattarai & WPRM-Britain,“Nepal: Interview with Baburam Bhattarai”, 26 de outubro de 2009, World People’s Resistance Movement, em http://www.wprmbritain.org:80/?p=926. John Mage & Bernard D’Mello, “The Beginnings of a New Democratic Nepal?” MRZine, 16 de março de 2007, em http://mrzine.monthlyreview.org/md160307.html. Hisila Yami Parvati, “People’s Power in Nepal”, Monthly Review, Vol 57, No 6, novembro de 2005, pp 19-33.

[46] Jose Maria Sison, The Philippine Revolution: Leader’s View . New York: Crane Russak, Taylor & Francis Group. 1989. Jose Maria Sison, “‘The Guerrilla is Like a Poet…’—Professor Jose Maria Sison in Conversation with Bernard D’Mello”, Frontier, 30 de março – 5 de abril de 2003, pp 3-5.

[47] Hobart A. Spalding, “Peru on the Brink”, Monthly Review, Vol. 43, No. 8, janeiro de 1992, pp 29-43. Hobart A. Spalding, “Peru Today: Still on the Brink”, Monthly Review, Vol. 44, No. 10, 1993, pp 31-39. Gary P. Leupp, “Peru on the Threshold: A Reply to Hobart A Spalding”, Monthly Review, Vol. 44, No. 10, 1993, pp 25-30.

[48]Baburam Bhattarai & WPRM-Britain,“Nepal: Interview with Baburam Bhattarai”, 26 de outubro de 2009, World People’s Resistance Movement, em http://www.wprmbritain.org:80/?p=926.

[49] Paul M. Sweezy, “Socialism: Legacy and Renewal” Monthly Review, Vol 44, No 8, janeiro de 1993, pp 1-9.

[50] Paresh Chattopadhyay, “Worlds Apart: Socialism in Marx and in Early Bolshevism”, Economic & Political Weekly, Vol. 20, No. 53, dezembro de 2005, pp 5629-34.

[51] Paresh Chattopadhyay, “Worlds Apart: Socialism in Marx and in Early Bolshevism”, Economic & Political Weekly, Vol. 20, No. 53, dezembro de 2005, pp 5629-34.

[52] Meisner, Maurice, “Images of the Paris Commune in Contemporary Marxist Thought”, The Massachusetts Review, Vol. 12, No. 3, verão de 1971, pp 479-97. Joan Robinson. The Cultural Revolution in China. Harmondsworth: Penguin. 1970.

Sobre os autores

Editor adjunto da Economic & Political Weekly, membro do Comitê para a Proteção dos Direitos Democráticos de Mumbai, autor de “India after Naxalbari: Unfinished History”.

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