1 de junho de 1996

A esquerda e a política de identidade

Eric J. Hobsbawm

Minha conferência trata de um tema surpreendentemente novo[1]. Estamos tão acostumados a termos como "identidade coletiva", "grupos de identidade", "política de identidade", ou, inclusive, "etnicidade", que custa recordar que só em data recente começaram a formar parte do vocabulário ou jargão atual do discurso político. Por exemplo, se consultássemos a Encyclopedia of the Social Sciences internacional, publicada em 1968 – ou seja, escrita em meados da década de 1960 –, não encontraríamos nenhuma entrada para o termo identidade, salvo uma que trata da identidade psicossocial, redigida por Erik Erikson, preocupado principalmente por temas tais como a chamada "crise de identidade" que sofrem os adolescentes quando tentam descobrir o que são, e um fragmento geral sobre a identificação dos eleitores. E quanto a etnia, no Oxford English Dictionary de princípios da década de 1970, ainda figura só como una palavra pouco comum que indica "o mundo e a superstição pagãs" e que aparece documentada com citações do século XVIII.

Em resumo, nos ocupamos de termos e conceitos que só começaram a ser utilizados realmente na década de 1960. O seu surgimento é mais facilmente seguido nos Estados Unidos, em parte porque sempre foi uma sociedade extraordinariamente interessada em monitorar a temperatura social e psicológica, pressão arterial e outros sintomas e principalmente porque a forma mais óbvia de identidade política, mas não a única, ou seja, a etnia, sempre foi central para a política estadunidense desde que este se converteu em um país de imigração massiva procedente de todos os pontos da Europa. Preliminarmente, pode-se dizer que que a nova etnia faz sua primeira aparição pública em 1963 com Beyond the Melting Pot, de Glazer e Moynihan, e que em 1972 se converte em um programa militante com The Rise of Unmeltable Ethnics, de Michael Novak. O primeiro, eu não preciso dizer, foi o trabalho de um professor judeu e um irlandês, atualmente senador democrata sênior por Nova York; o autor do segundo era um católico de origem eslovaca. No momento, você não precisa se preocupar muito sobre por que tudo isso aconteceu na década de 1960, mas deixe-me lembrá-lo que – pelo menos no cenário dos movimentos dos Estados Unidos, onde estes eventos ocorreram – esta década assistiu também ao surgimento de outras duas variantes da política de identidade: o movimento das mulheres contemporâneo (isto é, pós-sufragista) e o movimento gay.

Não pretendo dizer que antes da década de 1960 ninguém se fazia perguntas sobre sua identidade pública. Às vezes, em situações de incerteza, houve grupos que as fizeram; por exemplo, no cinturão industrial de Lorena, na França, cuja língua oficial e nacionalidade mudou cinco vezes em um século e cuja vida rural tornou-se industrial, semi-urbana, enquanto que suas fronteiras foram alteradas sete vezes no último século e meio. Não é de se estranhar que os habitantes dessa região dizem o seguinte: "Os berlinenses sabem que são berlinenses, os parisienses sabem que são parisienses, mas quem somos nós?". Ou, para citar outra entrevista: "Sou da Lorena, minha cultura é alemã, minha nacionalidade, francesa, e penso em nosso dialeto provincial"[2]. Na verdade, este tipo de situação só levou a problemas de identidade genuína quando as pessoas foram impedidas de manter identidades múltiplas, combinadas, que são naturais para a maioria de nós. Ou, mais ainda, quando estas se encontravam desligadas "das práticas culturais antigas e comuns a todos"[3]. No entanto, até os anos 1960, esses problemas de identidade incerta foram confinados a zonas de fronteira especiais da política. Eles ainda não eram centrais.

Parecem haver adquirido uma importância fundamental a partir da década de 1960. Por quê? Sem dúvida, encontramos razões particulares na política e instituições deste ou aquele país: assim, nos procedimentos peculiares impostos pela Constituição dos Estados Unidos, que deram lugar, por exemplo, aos juízos de direitos civis da década de 1950, que em um primeiro momento tiveram como protagonistas aos negros e depois se estenderam às mulheres, proporcionando um modelo para outros grupos de identidade. Poderíamos dizer que, sobretudo em países onde os partidos competem pelos votos, constituir-se como um grupo de identidade deste tipo pode aportar vantagens políticas concretas: por exemplo, discriminação positiva a favor dos membros do grupo, cotas em postos de trabalho, etc. Os Estados Unidos são de novo um exemplo a respeito, mas não o único. Por exemplo, na Índia, onde o governo se comprometeu a garantir a igualdade social, pode resultar realmente proveitoso declarar-se membro de uma casta baixa ou de um grupo tribal indígena com o fim de desfrutar do acesso extraordinário ao emprego garantido para tais grupos.

A negação da identidade múltipla

Mas, em minha opinião, o surgimento da política de identidade é uma conseqüência dos movimentos e transformações extraordinariamente rápidos e profundos da sociedade humana no terceiro quarto deste século, que tentei descrever e compreender na segunda parte da minha história da "Era dos Extremos: O breve século XX. Esta não é uma visão apenas minha. O sociólogo americano Daniel Bell, por exemplo, argumentou em 1975 que "a separação das estruturas de autoridade tradicional e as unidades sociais afetivas anteriores - historicamente nação e classe... tornam o apego étnico mais saliente". [4]

In fact, we know that both the nation-state and the old class-based political parties and movements have been weakened as a result of these transformations. More than this, we have been living—we are living—through a gigantic ‘cultural revolution’, an ‘extraordinary dissolution of traditional social norms, textures and values, which left so many inhabitants of the developed world orphaned and bereft.’ If I may go on quoting myself, ‘Never was the word “community” used more indiscriminately and emptily than in the decades when communities in the sociological sense become hard to find in real life’. [5] Men and women look for groups to which they can belong, certainly and forever, in a world in which all else is moving and shifting, in which nothing else is certain. And they find it in an identity group. Hence the strange paradox, which the brilliant, and incidentally, Caribbean Harvard sociologist Orlando Patterson has identified: people choose to belong to an identity group, but ‘it is a choice predicated on the strongly held, intensely conceived belief that the individual has absolutely no choice but to belong to that specific group.’ [6] That it is a choice can sometimes be demonstrated. The number of Americans reporting themselves as ‘American Indian’ or ‘Native American’ almost quadrupled between 1960 and 1990, from about half a million to about two millions, which is far more than could be explained by normal demography; and incidentally, since 70 per cent of ‘Native Americans’ marry outside their race, exactly who is a ‘Native American’ ethnically, is far from clear. [7]

So what do we understand by this collective ‘identity’, this sentiment of belonging to a primary group, which is its basis? I draw your attention to four points.

First, collective identities are defined negatively; that is to say against others. ‘We’ recognize ourselves as ‘us’ because we are different from ‘Them’. If there were no ‘They’ from whom we are different, we wouldn’t have to ask ourselves who ‘We’ were. Without Outsiders there are no Insiders. In other words, collective identities are based not on what their members have in common—they may have very little in common except not being the ‘Others’. Unionists and Nationalists in Belfast, or Serb, Croat and Muslim Bosnians, who would otherwise be indistinguishable—they speak the same language, have the same life styles, look and behave the same—insist on the one thing that divides them, which happens to be religion. Conversely, what gives unity as Palestinians to a mixed population of Muslims of various kinds, Roman and Greek Catholics, Greek Orthodox and others who might well—like their neighbours in Lebanon—fight each other under different circumstances? Simply that they are not the Israelis, as Israeli policy continually reminds them.

Of course, there are collectivities which are based on objective characteristics which their members have in common, including biological gender or such politically sensitive physical characteristics as skin-colour and so forth. However most collective identities are like shirts rather than skin, namely they are, in theory at least, optional, not inescapable. In spite of the current fashion for manipulating our bodies, it is still easier to put on another shirt than another arm. Most identity groups are not based on objective physical similarities or differences, although all of them would like to claim that they are ‘natural’ rather than socially constructed. Certainly all ethnic groups do.

Second, it follows that in real life identities, like garments, are interchangeable or wearable in combination rather than unique and, as it were, stuck to the body. For, of course, as every opinion pollster knows, no one has one and only one identity. Human beings cannot be described, even for bureaucratic purposes, except by a combination of many characteristics. But identity politics assumes that one among the many identities we all have is the one that determines, or at least dominates our politics: being a woman, if you are a feminist, being a Protestant if you are an Antrim Unionist, being a Catalan, if you are a Catalan nationalist, being homosexual if you are in the gay movement. And, of course, that you have to get rid of the others, because they are incompatible with the ‘real’ you. So David Selbourne, an all-purpose ideologue and general denouncer, firmly calls on ‘The Jew in England’ to ‘cease to pretend to be English’ and to recognize that his ‘real’ identity is as a Jew. This is both dangerous and absurd. There is no practical incompatibility unless an outside authority tells you that you cannot be both, or unless it is physically impossible to be both. If I wanted to be simultaneously and ecumenically a devout Catholic, a devout Jew, and a devout Buddhist why shouldn’t I? The only reason which stops me physically is that the respective religious authorities might tell me I cannot combine them, or that it might be impossible to carry out all their rituals because some got in the way of others.

Usually people have no problem about combining identities, and this, of course, is the basis of general politics as distinct from sectional identity politics. Often people don’t even bother to make the choice between identities, either because nobody asks them, or because it’s too complicated. When inhabitants of the usa are asked to declare their ethnic origins, 54 per cent refuse or are unable to give an answer. In short, exclusive identity politics do not come naturally to people. It is more likely to be forced upon them from outside—in the way in which Serb, Croat and Muslim inhabitants of Bosnia who lived together, socialized and intermarried, have been forced to separate, or in less brutal ways.

The third thing to say is that identities, or their expression, are not fixed, even supposing you have opted for one of your many potential selves, the way Michael Portillo has opted for being British instead of Spanish. They shift around and can change, if need be more than once. For instance non-ethnic groups, all or most of whose members happen to be black or Jewish, may turn into consciously ethnic groups. This happened to the Southern Christian Baptist Church under Martin Luther King. The opposite is also possible, as when the Official ira turned itself from a Fenian nationalist into a class organization, which is now the Workers’ Party and part of the Irish Republic’s government coalition.

The fourth and last thing to say about identity is that it depends on the context, which may change. We can all think of paid-up, card-carrying members of the gay community in the Oxbridge of the 1920s who, after the slump of 1929 and the rise of Hitler, shifted, as they liked to say, from Homintern to Comintern. Burgess and Blunt, as it were, transferred their gayness from the public to the private sphere. Or, consider the case of the Protestant German classical scholar, Pater, a professor of Classics in London, who suddenly discovered, after Hitler, that he had to emigrate, because, by Nazi standards, he was actually Jewish—a fact of which until that moment, he was unaware. However he had defined himself previously, he now had to find a different identity.

O universalismo da esquerda

What has all this to do with the Left? Identity groups were certainly not central to the Left. Basically, the mass social and political movements of the Left, that is, those inspired by the American and French revolutions and socialism, were indeed coalitions or group alliances, but held together not by aims that were specific to the group, but by great, universal causes through which each group believed its particular aims could be realized: democracy, the Republic, socialism, communism or whatever. Our own Labour Party in its great days was both the party of a class and, among other things, of the minority nations and immigrant communities of mainland Britainians. It was all this, because it was a party of equality and social justice.

Let us not misunderstand its claim to be essentially class-based. The political labour and socialist movements were not, ever, anywhere, movements essentially confined to the proletariat in the strict Marxist sense. Except perhaps in Britain, they could not have become such vast movements as they did, because in the 1880s and 1890s, when mass labour and socialist parties suddenly appeared on the scene, like fields of bluebells in spring, the industrial working class in most countries was a fairly small minority, and in any case a lot of it remained outside socialist labour organization. Remember that by the time of World War i the social-democrats polled between 30 and 47 per cent of the electorate in countries like Denmark, Sweden and Finland, which were hardly industrialized, as well as in Germany. (The highest percentage of votes ever achieved by the Labour Party in this country, in 1951, was 48 per cent.) Furthermore, the socialist case for the centrality of the workers in their movement was not a sectional case. Trade unions pursued the sectional interests of wage-earners, but one of the reasons why the relations between labour and socialist parties and the unions associated with them, were never without problems, was precisely that the aims of the movement were wider than those of the unions. The socialist argument was not just that most people were ‘workers by hand or brain’ but that the workers were the necessary historic agency for changing society. So, whoever you were, if you wanted the future, you would have to go with the workers’ movement.

Conversely, when the labour movement became narrowed down to nothing but a pressure-group or a sectional movement of industrial workers, as in 1970s Britain, it lost both the capacity to be the potential centre of a general people’s mobilization and the general hope of the future. Militant ‘economist’ trade unionism antagonized the people not directly involved in it to such an extent that it gave Thatcherite Toryism its most convincing argument—and the justification for turning the traditional ‘one-nation’ Tory Party into a force for waging militant class-war. What is more, this proletarian identity politics not only isolated the working class, but also split it by setting groups of workers against each other.

O que tem, então, a política de identidade a ver com a esquerda? Permitam que o diga com firmeza o que nem deveria ser necessário dizer: o projeto político da esquerda é universalista, é para todos os seres humanos. Independentemente da forma como interpretamos estas palavras, não se trata de liberdade para acionistas ou para negros, mas para todos. Não se trata de igualdade para todos os membros do Garrick Club ou para as pessoas com deficiência, mas para todos. Não se trata de fraternidade apenas para os velhos etonianos ou para os gays, mas para todos. E a política de identidade serve, no essencial, apenas para os membros de um grupo específico, e não para todos. Isto é perfeitamente evidente no caso dos movimentos étnicos ou nacionalistas. O nacionalismo sionista judaico, simpatizemos ou não com ele, se centra exclusivamente nos judeus, e não reage, ou melhor bombardeia, o resto. Todos os nacionalismos são exclusivistas. A afirmação nacionalista que sustenta que o que se defende é o direito à autodeterminação para todos é enganosa.

That is why the Left cannot base itself on identity politics. It has a wider agenda. For the Left, Ireland was, historically, one, but only one, out of the many exploited, oppressed and victimized sets of human beings for which it fought. For the ira kind of nationalism, the Left was, and is, only one possible ally in the fight for its objectives in certain situations. In others it was ready to bid for the support of Hitler as some of its leaders did during World War ii. And this applies to every group which makes identity politics its foundation, ethnic or otherwise.

Now the wider agenda of the Left does, of course, mean it supports many identity groups, at least some of the time, and they, in turn look to the Left. Indeed, some of these alliances are so old and so close that the Left is surprised when they come to an end, as people are surprised when marriages break up after a lifetime. In the usa it almost seems against nature that the ‘ethnics’—that is, the groups of poor mass immigrants and their descendants—no longer vote almost automatically for the Democratic Party. It seems almost incredible that a black American could even consider standing for the Presidency of the usa as a Republican (I am thinking of Colin Powell). And yet, the common interest of Irish, Italian, Jewish and black Americans in the Democratic Party did not derive from their particular ethnicities, even though realistic politicians paid their respects to these. What united them was the hunger for equality and social justice, and a programme believed capable of advancing both.

O interesse comum

Mas isto é precisamente o que tanta gente da esquerda esquece, à medida em que se submerge nas águas profundas da política de identidade. Tem havido, desde a década de 1970, uma tendência - uma tendência crescente - para ver a esquerda essencialmente como uma coligação de grupos e interesses minoritários: de raça, gênero, preferências e estilos de vida sexuais e culturais e até mesmo de minorias econômicas, como veio a ser a antiga classe trabalhadora industrial que antes se ocupava das tarefas sujas. Isto é compreensível mas perigoso, tanto mais que ganhar maiorias não é a mesma coisa que somar minorias.

Em primeiro lugar, deixe-me repetir: os grupos identitários vivem centrados em si próprios, para si próprios, e para mais ninguém. Uma coligação desses grupos que não se mantenha através de um conjunto comum de objetivos ou valores não terá mais do que uma unidade ad hoc, um pouco como os estados aliados temporariamente em guerra contra um inimigo comum. Se separam quando já não têm necessidade de estar juntos. Em qualquer caso, como grupos de identidade, não têm um compromisso com a esquerda como tal, mas se limitam a obter apoios para seus próprios objetivos sempre que podem. Pensamos na emancipação das mulheres como una causa intimamente associada à esquerda, como tem sido sem dúvida desde a origem do socialismo, mesmo antes de Marx e Engels. No entanto, historicamente, o movimento sufragista britânico anterior a 1914 era um movimento dos três partidos, e a primeira mulher que chegou a ser membro do parlamento pertencia, como sabemos, ao Partido Conservador. [9]

Secondly, whatever their rhetoric, the actual movements and organizations of identity politics mobilize only minorities, at any rate before they acquire the power of coercion and law. National feeling may be universal, but, to the best of my knowledge, no secessionist nationalist party in democratic states has so far ever got the votes of the majority of its constituency (though the Québecois last autumn came close—but then their nationalists were careful not actually to demand complete secession in so many words). I do not say it cannot or will not happen—only that the safest way to get national independence by secession so far has been not to ask populations to vote for it until you already have it first by other means.

That, by the way, makes two pragmatic reasons to be against identity politics. Without such outside compulsion or pressure, under normal circumstances it hardly ever mobilizes more than a minority—even of the target group. Hence, attempts to form separate political women’s parties have not been very effective ways of mobilizing the women’s vote. The other reason is that forcing people to take on one, and only one, identity divides them from each other. It therefore isolates these minorities.

Consequently to commit a general movement to the specific demands of minority pressure groups, which are not necessarily even those of their constituencies, is to ask for trouble. This is much more obvious in the usa, where the backlash against positive discrimination in favour of particular minorities, and the excesses of multiculturalism, is now very powerful; but the problem exists here also.

Hoje, quer a Direita quer a Esquerda estão sobrecarregadas de políticas da identidade. Infelizmente, o perigo de desintegração numa pura aliança de minorias é enorme à Esquerda, visto que o declínio dos grandes lemas universalistas do Iluminismo, que foram essencialmente lemas da esquerda, deixa-a sem qualquer forma óbvia de formular um interesse comum entre os limites seccionais. O único entre os denominados "novos movimentos sociais" que traspassa todas estas fronteiras é o ecologista. Mas, infelizmente, seu atrativo político é limitado e provavelmente continuará a sê-lo.

However, there is one form of identity politics which is actually comprehensive, inasmuch as it is based on a common appeal, at least within the confines of a single state: citizen nationalism. Seen in the global perspective this may be the opposite of a universal appeal, but seen in the perspective of the national state, which is where most of us still live, and are likely to go on living, it provides a common identity, or in Benedict Anderson’s phrase, ‘an imagined community’ not the less real for being imagined. The Right, especially the Right in government, has always claimed to monopolize this and can usually still manipulate it. Even Thatcherism, the grave-digger of ‘one-nation Toryism’, did it. Even its ghostly and dying successor, Major’s government, hopes to avoid electoral defeat by damning its opponents as unpatriotic.

Por que, então, tem sido tão difícil para a esquerda, e sem dúvida para a esquerda dos países de língua inglesa, ver-se como representante de toda a nação? (Aqui evidentemente me refiro à nação como comunidade de indivíduos de um país, não como entidade étnica.) Por que tem sido tão difícil até mesmo tentar? Afinal, as origens da esquerda europeia remontam ao momento em que uma classe, ou uma aliança de classes, o Terceiro Estado dos Estados Gerais franceses de 1789, decidiu declarar-se "a nação", contra a minoria da classe governante, criando assim o próprio conceito de "nação" política. Afinal, inclusive Marx previa uma transformação desse tipo no Manifesto Comunista [10]. Na verdade podemos ir mais além. Todd Gitlin, um dos melhores observadores da esquerda norte-americana, colocou de forma dramática em seu novo livro, The Twilight of Common Dreams: ‘O que é uma Esquerda se não for, pelo menos de um modo plausível, a voz de todo o povo?... Se não houver povo mas apenas povos, não há Esquerda.’ [11]

A voz abafada do Novo Trabalhismo

Houve épocas em que a esquerda não só queria ser a nação, mas que foi aceita como representante do interesse nacional, inclusive por aqueles que não tinham especial simpatia por suas aspirações: nos Estados Unidos, quando o Partido Democrata rooseveltiano desfrutava de hegemonia política, na Escandinávia desde princípios da década de 1930. De modo mais geral, quando terminou a Segunda Guerra Mundial, a esquerda representava a nação no sentido mais literal quase em toda a Europa, porque representava a resistência e a vitória contra Hitler e seus aliados. Daí a singular união entre o patriotismo e a transformação social, que dominou a política europeia imediatamente depois de 1945. O mesmo aconteceu na Grã Bretanha, onde 1945 foi um plebiscito em favor do Partido Trabalhista como partido que melhor representava a nação, frente ao conservadorismo de toda uma nação, capitaneado pelo dirigente do período de guerra mais carismático e vitorioso da cena política. O qual marcou o rumo dos próximos trinta e cinco anos da história do país. Muito mais recentemente, François Mitterrand, um político sem um compromisso natural com a esquerda, optou por presidir o Partido Socialista como a melhor plataforma para exercer a liderança sobre toda a população francesa.

One would have thought that today was another moment when the British Left could claim to speak for Britain—that is to say all the people—against a discredited, decrepit and demoralized regime. And yet, how rarely are the words ‘the country’, ‘Great Britain’, ‘the nation’, ‘patriotism’, even ‘the people’ heard in the pre-election rhetoric of those who hope to become the next government of the United Kingdom!

It has been suggested that this is because, unlike 1945 and 1964, ‘neither the politician nor his public has anything but a modest belief in the capacity of government to do very much’. [10] If that is why Labour speaks to and about the nation in so muffled a voice, it is trebly absurd. First, because if citizens really think that government can’t do very much, why should they bother to vote for one lot rather than the other, or for that matter for any lot? Second, because government, that is to say the management of the state in the public interest, is indispensable and will remain so. Even the ideologues of the mad Right, who dream of replacing it by the universal sovereign market, need it to establish their utopia, or rather dystopia. And insofar as they succeed, as in much of the ex-socialist world, the backlash against the market brings back into politics those who want the state to return to social responsibility. In 1995, five years after abandoning their old state with joy and enthusiasm, two thirds of East Germans think that life and conditions in the old gdr were better than the ‘negative descriptions and reports’ in today’s German media, and 70 per cent think ‘the idea of socialism was good, but we had incompetent politicians’. And, most unanswerably, because in the past seventeen years we have lived under governments which believed that government has enormous power, which have used that power actually to change our country decisively for the worse, and which, in their dying days are still trying to do so, and to con us into the belief that what one government has done is irreversible by another. The state will not go away. It is the business of government to use it.

Government is not just about getting elected and then re-elected. This is a process which, in democratic politics, implies enormous quantities of lying in all its forms. Elections become contests in fiscal perjury. Unfortunately, politicians, who have as short a time-horizon as journalists, find it hard to see politics as other than a permanent campaigning season. Yet there is something beyond. There lies what government does and must do.There is the future of the country. There are the hopes and fears of the people as a whole—not just ‘the community’, which is an ideological cop-out, or the sum-total of earners and spenders (the ‘taxpayers’ of political jargon), but the British people, the sort of collective which would be ready to cheer the victory of any British team in the World Cup, if it hadn’t lost the hope that there might still be such a thing. For not the least symptom of the decline of Britain, with the decline of science, is the decline of British team sports.

It was Mrs Thatcher’s strength, that she recognized this dimension of politics. She saw herself leading a people ‘who thought we could no longer do the great things we once did’—I quote her words—‘those who believed our decline was irreversible, that we could never again be what we were’. [11] She was not like other politicians, inasmuch as she recognized the need to offer hope and action to a puzzled and demoralized people. A false hope, perhaps, and certainly the wrong kind of action, but enough to let her sweep aside opposition within her party as well as outside, and change the country and destroy so much of it. The failure of her project is now manifest. Our decline as a nation has not been halted. As a people we are more troubled, more demoralized than in 1979, and we know it. Only those who alone can form the post-Tory government are themselves too demoralized and frightened by failure and defeat, to offer anything except the promise not to raise taxes. We may win the next general election that way and I hope we will, though the Tories will not fight the election campaign primarily on taxes, but on British Unionism, English nationalism, xenophobia and the Union Jack, and in doing so will catch us off balance. Will those who have elected us really believe we shall make much difference? And what will we do if they merely elect us, shrugging their shoulders as they do so? We will have created the New Labour Party. Will we make the same effort to restore and transform Britain? There is still time to answer these questions.

Notas:

[1] Este é o texto da Barry Amiel and Norman Melburn Trust Lecture, pronunciada no Institut of Education de Londres, em 02 de maio de 1996.

[2] M.L. Pradelles de Latou, "Identity as a Complex Network", in C. Fried, ed., Minorities, Community and Identity, Berlin 1983, p. 79.

[3] Ibid. p. 91.

[4] Daniel Bell, "Ethnicity and Social Change", in Nathan Glazer and Daniel P. Moynihan, eds., Ethnicity: Theory and Experience, Cambridge, Mass. 1975, P. 171

[5] E.J. Hobsbawm, The Age of Extremes. The Short Twentieth Century, 1914-1991, London 1994, p. 428.

[6] O. Patterson, "Implications of Ethnic Identification" in Fried, ed., Minorities: Community and Identity, pp. 28-29. O. Patterson, "Implications of Ethnic Identification" in Fried, ed., Minorities: Community and Identity, pp. 28-29.

[7] O. Patterson, "Implications of Ethnic Identification" in Fried, ed., Minorities: Community and Identity, pp. 28-29.

[8] Jihang Park, "The British Suffrage Activists of 1913", Past & Present, no. 120, August 1988, pp. 156-7.

[9] "Mas, porque o proletariado deve em primeiro lugar conquistar o poder político, elevar-se à condição de classe nacional, constituir-se em nação, ainda é nacional, embora de modo algum no sentido burguês"; Karl Marx e Frederick Engels, The Communist Manifesto, 1848, II parte. Na edição original (alemã) aparece o termo "classe nacional"; na tradução inglesa de 1888 figura como "a classe que lidera a nação".

[10] Gitlin, The Twilight of Common Dreams, New York 1995, p. 165.

[11] Hugo Young, "No Waves in the Clear Blue Water", The Guardian, 23 April 1996, p. 13.

[12] Citado em Eric Hobsbawm, Politics for a Rational Left, Verso, London 1989, p. 54.

1 de maio de 1996

O Vaticano, do antissemitismo dos anos trinta à recuperação-reciclagem dos carrascos

Annie Lacroix-Riz

GOLIAS

Presta-se hoje grande atenção à declaração de Pio XI, em setembro de 1938, "O antisemitismo é inadmissível; espiritualmente somos todos semitas", ou pensa-se que Pacelli, que veio a ser Pio XII, ao impor-se silêncio sobre o sofrimento das vítimas do nazismo, designadamente judeus, teria vivido "um drama interior de uma rara acutilância"[1]. Os arquivos dos anos trinta e quarenta trazem uma outra luz sobre o "antijudaísmo" da Igreja romana, do qual resumiremos aqui alguns elementos ou grandes linhas esclarecedores[2]. O seu conteúdo revela a virulência do antissemitismo clerical, que, entre muitos outros, foram testemunhados pelos casos alemão e austríaco (unificados de fato por uma adesão formal do Vaticano ao Anschluss a partir de 1918-1919 e Bento XV); as suas manifestações de antes, durante e depois da guerra, apoiadas ou suscitadas pela Cúria, levam-nos diretamente às questões:


  1. a participação nos massacres de elementos do clero apoiados e dirigidos pelos seus superiores hierárquicos, da recusa de ajuda às vítimas confirmado por circulares eclesiásticas, e mesmo da eventual pilhagem de bens de judeus;
  2. a negação direta pelo Vaticano do genocídio praticado pelos hitlerianos e os seus sequazes de diversas nacionalidades;
  3. a recuperação-reciclagem dos carrascos, operação em massa a que trabalhos, sobretudo estrangeiros, começaram a dedicar-se a partir de 1969[3].


O antissemitismo: De alguns prelados e da cúria romana antes da guerra

O núncio apostólico em Munique (desde maio de 1917), a seguir no Reich (dezembro de 1919), e depois «de facto único representante do papa na Alemanha e na Áustria», como tinham planeado os franceses desde 1920, «cardeal secretário de Estado» de «Berlim»4 (respetivamente, em dezembro de 1929 e fevereiro de 1930) cont inuou neste posto a ocupar-se do Reich, tanto como antes. Pacelli era pangermanista até à obsessão antissemita desta corrente ideológica: a sua correspondência do período pós-guerra com o Vaticano sobre a Baviera está cheia de referências carregadas de ódio ao «judeu» fulano de tal, de Eisner a Lévine, considerando o «judeu francês» como um revolucionário por natureza. Nomeou ou promoveu (ao cardinalato) todo o episcopado alemão e austríaco e rodeou-se de prelados cuja contribuição para o objetivo do nazismo e do antissemit ismo foi relevante. Traçar-se-ia o mesmo retrato do secretário de Estado (de 1914 a 1929) Gasparri, sempre em busca de causas antissemitas, por exemplo dos húngaros ou do seu querido embaixador alemão (a partir de 1920) von Bergen, cuja carreira se desdobrou entre o II Reich, Weimar e o III Reich. Recordemos até que ponto os problemas da restauração do pós-guerra enraizaram, em Roma e no conjunto do mundo clerical, a velha equação judeus=vermelhos: toda a imprensa ultramontana apoiou a Hungria branca na campanha antissemita que se seguiu à derrota de Bela Kun, parte integrante da terrífica repressão do calvinista Horthy (a quem a Cúria perdoava o seu protestantismo). A Cruz que, em 11 de novembro de 1920, assimilou «a justo título» os dois inimigos vencidos, estigmatizou «a raça conquistadora» que tinha tentado impor o bolchevismo à Hungria católica, e justificou a lei sobre o numerus clausus universitário como indispensável «para salvar a juventude católica-magiar», reduzir o poder da imprensa judia, desencadear «a renascença católica»: a Hungria ficava, assim, «moralmente curada (...) O espírito católico tornou-se o grande orientador da vida económica e da política»5 . Deste antissemitismo católico romano ou nacional citaremos apenas os exemplos significativos de alguns dignitários germânicos cuja carreira foi criada ou melhorada com o núncio Pacelli: Monsenhor Gröber, nomeado arcebispo de Friburgo, em junho de 1932, instrumento essencial das concordatas de Baden (12 de outubro de 1932) e do Reich (20 de julho de 1933) – transitado do apoio claro aos nazis, antes da sua subida ao poder, ao nazismo puro e duro, este «“membro-promotor” das SS» (förnderndes Mitglied), pagava as suas quotas mensais desde 1933. Foi rapidamente cognominado como «o bispo castanho» (der braune Bischof), e escrevia muito. Os seus trabalhos, conformes aos cânones do Santo Ofício, tornam clara a contribuição do catolicismo alemão para a «Solução final»: o seu «Manual das questões religiosas do tempo presente» (Handbuch der religiösen Gegenwartsfragen), publicado em 1935, definiu-o como o campeão do sangue e da raça, no ano das leis de Nuremberga, que o artigo «Raça» justificava assim: «cada povo carrega a sua própria responsabilidade pela manutenção da sua existência, e a contribuição de um sangue inteiramente estrangeiro representará sempre um risco para uma nacionalidade que provou o seu valor histórico. Não se pode, pois, recusar a nenhum povo o direito de manter sem perturbação a sua velha cepa racial e decidir medidas de salvaguarda para este efeito. A religião cristã apenas exige que os meios utilizados não ofendam a lei moral e a justiça natural». O propósito foi explicitado pelo artigo «Marxismo» do manual sobre o «judeu Karl Marx»; pelo artigo «Bolchevismo», «despotismo de Estado asiático, realmente ao serviço de um grupo de terroristas dirigido por judeus»; pelo artigo «Arte», sobre o judaísmo ateu e pervertido, responsável pelos «aspetos antialemães da arte posterior ao século XIX» (e pela sua carta pastoral de 30 de janeiro de 1939 contra os judeus assassinos de Jesus e animados por um imperdoável «ódio assassino»)6 .

Monsenhor Hudal, reitor de Santa Maria dell‟Anima (Igreja nacional da Áustria e da Alemanha e um dos feudos do pangermanismo em Roma) desde 1923, hoje conhecido como um dos principais responsáveis do Vaticano pela «exfiltração» dos nazis desde 1944. Hudal era o protegido de Innitzer, cardeal-arcebispo de Viena de que mais se conhecem os «Heil Hitler» a partir de março de 1938, do que o passado muito pacelliano: este «Alemão dos sudetas», nascido em 1875 em Weipert, na «Boémia alemã», fez o essencial da sua carreira em Viena, depois dos estudos em Santa Maria dell‟Anima, «colégio teutónico» de que Pacelli se tornou o «protetor» a partir de 31 de março de 1930, depois da morte de Merry del Vale (seu titular desde 8 de novembro de 1907). Innitzer foi chamado para a universidade em 1911, e escalou todos os degraus da hierarquia até ao lugar de decano e depois de reitor, em 1928-1919 – período em que assinou publicamente proclamações «reatadoras» a favor do Anschluss - , antes de se tornar ministro, em setembro de 1929. Pacelli encarregou-o da realização de duas grandes etapas da expansão alemã, o Anschluss e o seu corolário, a liquidação da Checoslováquia: entre 1929 e 1933, antes de lha confiar, reorganiza uma pequena «congregação» alemã instalada na Checoslováquia, «a ordem teutónica», «órgão de propaganda» encarregado de «prepar[ar...] as operações alemãs simultaneamente na Áustria e na Checoslováquia». Essa missão valeu-lhe uma ascensão vertiginosa: em novembro de 1932 foi nomeado arcebispo de Viena e, em meados de fevereiro de 1933, o respetivo chapéu, um dos presentes de Hitler pela sua promoção, recompensa tanto mais notada quanto se tratava de uma modesta promoção (seis eleitos para dezoito lugares vacantes) após mais de dois anos sem nomeações7.

Protetor de Hudal, seu auxiliar durante mais de dez anos e também um nazi precoce, Innitzer encontrou nele um porta-voz barulhento que também teve uma carreira pacelliana, sobre a qual coincidem os arquivos franceses dos anos trinta, os do Office of Strategic Services (OSS) da década seguinte e as pesquisas de Simon Wiesenthal. A sua ascensão romana acelerou-se quando Pacelli se tornou secretário de Estado: Hudal, mandatado pelo chanceler Schober, tinha discutido uma futura concordata austríaca com Pacelli, em 1929; «chefe da comunidade católica alemã de Roma», em 1930 foi nomeado conselheiro do Santo-Ofício, santuário da doutrina: é a este título que multiplica as «rondas de conferência[s]» na Itália e na Alemanha, pregando «a enormes multidões de católicos germanófonos» a fórmula do 30 de janeiro de 1933. Exprimia regularmente o seu fervor, como aconteceu em maio de 1933, declarando «diante de uma plateia» de diplomatas e dignitários nazis reunidos em Sta. Maria dell‟ Anima «que, nesta hora marcada pelo cunho do destino, todos os católicos alemães que vivem no estrangeiro saúdam a chegada do novo Reich, cuja filosofia está de acordo, quer com os valores nacionais, quer com os valores cristãos». Em junho de 1933 recebeu uma recompensa «rara» para um reitor de colégio, o título de «bispo titular de Ela», consagrado por uma missa celebrada em Anima por Pacelli. Hudal, depois de ter estado associado à concordata austríaca, e sem dúvida à alemã, reforçou a sua intimidade com von Papen, de quem foi conselheiro, quando os hitlerianos, depois da derrota do golpe de julho de 1934, enviaram esta «serpente» - segundo a expressão de Göbbels – para Viena. Depois do Te Deum saudando, em Sta. Maria dell‟ Anima, o plebiscito do Sarre, foi muitas vezes posto em relevo, em 1935, ano em que foi o intérprete da tentativa romana de conciliação doutrinária, de que o anticlericalismo nazi troçava como de um azar: editou em Innsbruck e mandou publicar sob a forma de um «estudo» pela Bayerische Volkszeitung a obra «Roma, o crist ianismo e o povo alemão» (Rom, Christentum und deutsches Volk) em que defendia uma aliança íntima entre «germanismo» e «cristianismo». Ele «revelou-se sobretudo depois do acordo austro-alemão» de 11 de julho de 1936, como «o filho de M. Papen» (e de Schacht) com o qual Schuschnigg entregou a Áustria à «Alemanha de Hitler»: acolheu «este ato pacificador» com «artigos lisonjeiros (...) apelando com todas as suas forças a uma estreita colaboração entre o catolicismo austríaco e o nacional-socialismo alemão, pelo progresso e pela glória da raça e do ideal germânicos». Nessa altura teorizava acerca das maravilhas da gestão futura da questão judia (Schönere Zukunft. Gedanken zur Judenfrage, junho de 1936) e sobre os aspetos gerais da colaboração católico-nazi. Em novembro de 1936, o seu livro que exaltava o nazismo e o seu trabalho ant i-semita, As bases do nacional-socialismo, foi publicado precedido de uma nota do Osservatore, segundo o qual ele «não tinha sido inspirado por nenhuma autoridade romana». Pós-datado de 1937, foi publicado em Leipzig e em Viena, com a chancela de Innitzer que «subscrev[ia] calorosamente esta “preciosa tentativa de apaziguamento da situação religiosa dos alemães”».

Matraqueava os dois tópicos do costume, «a luta contra o bolchevismo» e os judeus, exaltando as leis de Nuremberga como «uma medida necessária de autodefesa contra a invasão de elementos estrangeiros» - o direito canónico tinha excluído os judeus «até que os muros do gueto tivessem sido derrubados no século XIX pelo Estado liberal primeiro e não pela Igreja»; «os princípios do Estado moderno» fundados na regra da igualdade de tratamento perante a lei «foram criados pela Revolução francesa e não são o que de melhor há do ponto de vista do cristianismo e da nacionalidade». No Reich, coube-lhe a sorte de todos os «teóricos» clericais que desejavam que o NSDAP [Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei - abreviado NSDAP, mais conhecido como Partido Nazista], «para colaborar com o catolicismo (…), fosse expurgado previamente dos seus preconceitos anticristãos [:] os nazis rejeitaram esta proposta. Os jornais atacaram vivamente o prelado e o seu livro», anteriormente «autorizado pela intervenção pessoal de M. von Pappen», foi colocado no «índex nacional-socialista». Este conflito serviu a tese do Vaticano quanto à existência de divergências católico-nazis, mas a obra foi maciçamente difundida na Áustria – único local onde foi útil - , e Hudal recebeu «a medalha de ouro do partido». O leitor curioso pode ler por aí os pormenores das operações germano-austro-vaticanas que aderiram ao Anschluss, tão funesto para os judeus auastríacos como para os «vermelhos» cujos episcopados unidos festejaram em delírio o triunfo plebiscitário. Hudal celebrou-o em Santa Maria dell‟Anima com um Te Deum seguido do «Deutschland über Alles» e recebeu elogios de von Bergen pela sua longa contribuição para «uma Grande Alemanha» e a sua solicitude junto de «nós» (os nazistas)8.

De von Faulhaber, cardeal-arcebispo de Munique (respetivamente, em 1921 e 1917), íntimo dos íntimos do antigo núncio, a diplomacia da «decadência» francesa9 obstinou-se nos anos trinta a fazer um “resistente” ao nazismo: os arquivos alemães e franceses ignoram esta “inteligência rara”», um pró-nazi convicto, manipulado de novo, depois da guerra, primeiro pelos Aliados americanos – franceses e ingleses depois – até à pretendida exceção que o prelado tinha instituído em matéria de antissemitismo católico alemão. Este «capelão geral dos exércitos do reino da Baviera» durante a I Guerra mundial, tão pangermanista como o exigia a sua função, entregou-se publicamente a explosões de antissemitismo no início dos anos vinte: assim aconteceu no «congresso católico» de 27-30 de agosto de 1922 em Munique, onde, depois de Pacelli, como de costume, amaldiçoou a «revolução» judeobolchevista de 1918-1919, «um perjúrio e uma alta traição (…) marcada na história do crime de Caim» e bramou contra os judeus e a «imprensa semita», «profissão de fé antirrepublicana e antissemita», que lhe valeu os «aplausos frenéticos» da assistência. Nos seus sermões do Advento de 1933, sobre os «valores morais do Antigo Testamento», o ocidente cristão, Paris incluído, reconheceu «de alguma forma o processo de antissemitismo». Em 14 de dezembro, o Osservatore elogiou a sua «corajosa afirmação doutrinária» sobre a validade do Antigo Testamento para fazer esquecer, comentou o embaixador de França Charles-Roux, o mutismo das «autoridades superiores da Igreja, guardiãs da ortodoxia católica» sobre a política antissemita de Hitler. O filossemitismo de Faulhaber não resiste aos arquivos: «a imprensa americana», disse ele num telegrama de 30 de março de 1933 enviado a Mundlein, arcebispo (alemão) de Chicago, «exagerou grandemente as violências contra os judeus»; no seu sermão de dezembro de 1933, explicou ele definitivamente em 1934, não tomava «a defesa dos judeus perseguidos pelo regime hitleriano»: «não tomou posição a respeito da questão judaica tal como ela se coloca hoje», informou ele, em 31 de agosto, o secretário da conferência israelita mundial de Genebra; em novembro, tornou público, por escrito e «do púlpito (...) o seu protesto» contra a fama de filossemita, que lhe atribuíam desde o final de 1933 «os emigrados e publicistas estrangeiros (...) em certos jornais de Praga, de Basileia e de Sarrebruck», que ele «afrouxou» especificamente10.

Dando cobertura ou promovendo prelados que estavam no seu círculo de personae gratissimae, a Cúria não fez mais do que refugiar-se atrás daqueles que, em última análise, exprimiam a sua posição profunda sobre a «judiaria arrogante» - expressão de 1936 do muito fiel monsenhor Baudrillart. A Cúria pressionava Baudrillart, defensor de um dos porta-vozes do antissemitismo da Igreja e da aliança (precária) da Polónia com o Reich hitleriano, o polaco Hlond11, arcebispo-primaz de Poznan e Gniezno, que depois se tornou cardeal (em 1926 e 1927), contra o «nacionalista» Verdier (voltar-se-á a este assunto mais adiante). Esta oposição não poupou a esfera da «questão judaica», e isto muito cedo: a Santa Sé não encontrou nada para dizer em relação à perseguição oficializada pelo boicote dos jornais judeus de 1 de abril de 1933 e as violências praticadas pelas SA e as SS. De acordo com Charles-Roux, Pacelli encarregou-se destas «precauções» em relação a Berlim: a partir do momento em que «as perseguições contra os judeus» provocaram a «indignação do mundo», censurou Monsenhor Verdier, autor de uma carta de solidariedade com o grande rabino de França, «cuja publicação foi anunciada [em abril?]: não foi publicada».

Os dossiês alemães mostram que a alegada intervenção prescrita ao núncio sucessor de Pacelli (e íntimo deste último e do papa), Orsenigo, não foi além da preocupação de deixar uma falaciosa marca por escrito. É disso testemunha um episódio do longo mas vazio folheto das «negociações» e das «notas de Pacelli» sobre a concordata de julho de 1933 – exemplo típico dos correspondência-biombo, de cujas versões oficiais a Santa Sé regurgita. Em 12 de Setembro, Pacelli reenviou ao encarregado de negócios da Alemanha no Vaticano, Klee, um «memorando em três pontos», em que o terceiro dizia respeito, designadamente, aos «católicos de origem judia»: limitou-o aos dois primeiros quando Klee argumentou que o ponto 3 «não tinha nada a ver com a concordata», objeção que reconheceu justificada. Quando Klee insistiu neste problema, «não religioso mas de raça», Pacelli recordou que este texto «tinha voltado à primeira forma a pedido do papa, que se orientava apenas pelos pontos de vista religiosos e humanos»; depois Klee «insistiu» no compromisso do Vaticano de, «desde o princípio», «não se imiscuir nos assuntos internos da Alemanha», na necessidade de eliminar a parte judia do ponto 3 e de «baixar o tom sobre o resto»: Pacelli «decidi[u então] não enviar o memorando». Dirigiu a Klee, nessa mesma tarde, uma nota em conformidade com os seus desejos e antedatada com o dia 9, (portanto, antes da ratificação da concordata com o Reich, no dia 10, tática que permite fazer crer que se continuava a negociar este texto): essa nota dedicava cinco linhas e meia «para juntar uma palavra dirigida aos católicos alemães de origem judaica», recente ou afastada, «e que por razões conhecidas do governo alemão» sofrem igualmente dificuldades económicas e sociais»12.

Resta o caso pessoal de Pio XI, germanófilo endurecido, servido por um núncio, e posteriormente secretário de Estado, pangermanista. Supondo que não tenha sido tão antissemita como o seu subordinado, mantém-se o facto de o ter protegido e promovido; que elaborou o conjunto da polít ica alemã da Santa Sé até à sua morte – e, em particular encorajou e apoiou o expansionismo germânico à custa da Europa odiada por Versalhes; que a famosa encíclica de março de 1937 Mit brennender Sorge – redigida no quadro de uma campanha de opinião internacional virada para a antiga Entente – não foi mais pró semita que antinazi: dividia-se entre a litania da «pátria» e do Reich e referências religiosas, designadamente ao Antigo Testamento, sem dizer uma palavra quanto ao destino dos judeus alemães; e que o papa, por fim, profundamente vexado com a recusa de Hitler, em maio de 1938, de lhe fazer a visita que lhe solicitou constantemente, «deix[ou]», no verão, «os judeus ao governo italiano, em troca de concessões que [acabava] de obter» para a Ação católica, depois de um novo atrito com o Quirinal sobre a questão. Perante um religioso francês, em 8 de setembro, «o papa julgou muito severamente as medidas antissemitas do governo italiano». Mas, em meados de novembro, o seu jornal ficou «mudo» quanto à «combinação» negociada no fim de agosto, sobre a interdição dos casamentos mistos: a «solução (…) encontrada» através do artigo 6 do decreto-lei permitiria à Igreja benzer uma união que, em violação do artigo 34 da concordata italiana de 1929 que atribuía valor civil ao casamento religioso, não teria «nenhum efeito civil (…). O dire ito canónico ficou salvaguardado e a legislação fascista satisfeita». O Osservatore reivindicou «o carácter universal da Igreja» e o seu apego à «igualdade das raças», e fingiu que esta rotura da concordata tinha sido decidida «sem o acordo da Santa Sé», daí a sua dolorosa surpresa; mas ele quase admitia, acrescentando: «o catolicismo é desfavorável aos casamentos mistos e desaconselha-os», pois «desconfia da mestiçagem». Em janeiro de 1939, no Avvenire d‟Italia (jornal decididamente prónazi, fundado pela Ação Católica, em setembro de 1933, no seguimento da concordata do Reich, e jornal favorito de Pacelli), o padre Gemelli, reitor da Universidade do Sagrado Coração de Milão, o «mais importante instituto católico», «figura mais visível do mundo universitário confessional de Itália, conhecido (…) por gozar da confiança e da estima do papa» - e filofascista convicto – explicita o testemunho: «os cardeais e os bispos têm sempre combatido em todo o lado o racismo estrangeiro, mas (…) este não tem nada a ver com a política racial da Itália»13.

Da guerra ao pós-guerra

Os arquivos de guerra atribuem um significado aos "silêncios" de Pio XII sobre o extermínio de judeus, que nega a tese das suas terríveis torturas morais.

A igreja e os judeus durante a guerra

Dignitários...

Se o novo papa (a partir de março de 1939) nada disse, os dignitários submetidos à autoridade pontifical falaram e agiram muito. Sabe-se muito pouca coisa sobre a Europa ocidental porque os acontecimentos do após guerra não conduziram os Estados a clarificar o papel da Igreja. À medida que vão aparecendo as descobertas dos investigadores, o balanço torna-se, entretanto, mais pesado e tende a contrabalançar, através de descobertas irrefutáveis, a intervenção corajosa, mas tardia, de alguns prelados a favor dos judeus deportados – assim foi a iniciativa aparente de Saliège, em 23 de agosto de 1942, contra «as perseguições atuais», na realidade concertadas com Gerlier, depois de uma conversa deste último com o grande rabino de França1 4 (discurso caridoso e reticências ant ialemãs que valeram a Saliège, como ao corajoso de Solages, um ódio do Vaticano post bellu que contrastava com a glória dos prelados colaboradores até ao fim: o dossiê, em França e em toda a Europa central e oriental, constitui um critério comparativo seguro das opções romanas). Daqui ressalta que, no oeste da Europa, também houve, às vezes mesmo antes da guerra, uma participação clerical na rapina económica antissemita: depois do Anschluss, em junho (?) de 1938, Eugen Haisler, secretário de Innitzer, foi a França preparar «um comité católico de amizade franco-alemã» e encontrou Rossé, chefe dos autonomistas alsacianos financiados pelo Reich, «que o encarregou de adquirir por ele, em Viena, uma tipografia judia por um preço vantajoso». Hoje dispomos de informações substanciais sobre os chefes clericais franceses da colaboração, de Suhard, sucessor de Verdier na primavera de 1940, a Braudillard, passando por Beaussart, bispo auxiliar de Paris: entre outros, Suhard «mostr[ou] um grande espírito de conciliação» aquando das buscas da Gestapo de 26 de julho de 1940 visando «provar o conluio de fogo do cardeal Verdier com os judeus» e a «conspiração urdida contra o Reich pelos emigrados polít icos e pelo arcebispado de Paris»: «na própria sede do arcebispado de Paris, a Quinta coluna t inha os seus informadores», como provou a investigação alemã que permitiu apanhar o exemplar que lá se encontrava do «relatório da[s] conversações» de Monsenhor Verdier e Benès – provavelmente sobre as alianças franco-checo-soviéticas – por ocasião do congresso católico de Praga, de 27 de junho a 1 de julho de 1935: os nazis estavam tão bem informados que a sua polícia mandou «abrir a gaveta tal, do móvel tal, situado na dependência tal, porque eles sabiam que nesta gaveta se encontrava o dossiê da missão do cardeal Verdier e o relatório» em questão15.

A informação sobre a Europa oriental é muito mais rica, porque os Estados confrontados com uma furiosa oposição da Cúria (como os seus predecessores entre as duas guerras e por razões territoriais similares, isto é, terem sido tomados territórios tidos por definitivamente alemães) tiraram maciçamente das prateleiras – na viragem dos anos quarenta e cinquenta, no quadro de grandes processos – os arquivos de Estado ou eclesiást icos (adquiridos após requisição). Segundo os diplomatas franceses, e isto em plena guerra fria em que classificavam de bom grado como «propaganda» qualquer iniciat iva dos governos comunistas de leste, trata-se de documentos originais, não truncados e credíveis. Esses arquivos apontam para pistas irrefutáveis para a Igreja católica da observação de Saul Friedlander sobre «a liberdade de atuação deixada aos bispos» que levou a atitudes confessionais muito diferentes em relação ao extermínio de judeus: enquanto o patriarca ortodoxo de Constant inopla ordenava aos seus bispos que fizessem tudo para salvar os judeus, nada de semelhante provinha de Roma16.

A Igreja teve na Rússia ocupada responsabilidades idênticas às que assumiu na Croácia de Pavelic ou na Eslováquia de Tiso, sem que o Vaticano pudesse invocar a sua ignorância dos factos: de agência de informação mais notável do globo (uma das poderosas mot ivações do interesse americano, depois do fim da I Guerra mundial, para manter uma ativa posição em Roma), o Vaticano foi, com o papa à cabeça, informado dos mais ínfimos detalhes dos acontecimentos da guerra. Falconi não conseguiu demonstrar de maneira nenhuma que, desde setembro de 1939, Pio XII ignorasse os métodos de guerra alemães, e os arquivos franceses corroboram as suas fontes polacas e jugoslavas1 7 . Não se consegue distinguir dos seus tutores clericais, padres ou laicos, as organizações terroristas, «o exército católico da Ucrânia» saído da «Organização dos ucranianos nacionalistas» (OUN) do nazista ucraniano Stefan Bandera. Ao terrorismo de antes da guerra sob a batuta do Reich seguiu-se o da guerra para esta «polícia suplementar» dos ocupantes, que massacravam os combatentes do Exército Vermelho, judeus e guerrilheiros, com um entusiasmo que fazia por vezes inveja aos alemães sequiosos da liquidação «racional» e organizada. Raul Hilberg chamou a atenção para isso, a propósito de todos os correligionários dos nazis, desde os ucranianos aos eslovacos, dos croatas aos bálticos, dos romenos aos húngaros, e não apenas dos «alemães étnicos» que se encontravam no terreno; também chamou a atenção para o veto a qualquer socorro aos judeus perseguidos pelos Einsatzgruppen, ordem dada aos seus padres pelos bispos, como o lituano Brizgys. Foi nas fileiras da polícia báltica, bielorrussa e ucraniana que se recrutaram os elementos da divisão SS Galicia, formada em 1942-1943 (com 20 000 ucranianos selecionados entre o dobro dos voluntários). Os carrascos foram escoltados pelos seus clérigos, como aconteceu depois do massacre de 6 000 judeus «que durou três dias e três noites», de que foi testemunha o jovem Simon Wiesenthal. Perpetrado no verão de 1941 pela OUN para «celebrar [o seu] regresso a Lvov» (jurisdição de monsenhor Szepticky), o massacre foi interrompido pelo toque a rebate dos sinos da igreja, com «uma voz ucraniana grit[ando]: “Chega, por esta no ite! É a hora da missa”». Isto é um exemplo banal da cobertura dada pelo clero, de cima a baixo na hierarquia, aos cruzados católicos contra os russos e os judeus, pois, apesar da lenda de que teria havido reticências por parte da Igreja, de resto posteriores a Estalinegrado, a respeito das atrocidades alemãs ou equiparadas, os bispos controlaram de muito perto esta aliança entre laicos e padres, como o velho bispo uniata de Lemberg (Lvov), monsenhor Szepticky, verdadeiro símbolo do avanço germânico em terra eslava: o seu combate antirrusso (e antipolaco) ao serviço da Áustria (antes de 1914), a seguir do Reich (depois de 1917), foi relançado pela guerra a partir de junho de 1941; a sua cruzada e o trabalho dos seus subordinados nunca fizeram distinção, de facto, entre o imperativo de «vencer de uma vez por todas o comunismo ateu e militante» e o desembaraçarem-se dos judeus locais. Como os seus pares, benzeu a divisão SS Galicia, «guiada pelos seus capelães uniatas», que se lançou ao ataque «dos bolcheviques ímpios»18.

O que é válido para a Rússia vale para toda a Europa central e oriental, onde a hierarquia não só não protegeu as vítimas, como proibiu a sua proteção. Não se percebe por que milagre os bispos reconhecidamente antissemitas da Polónia, Hungria, Eslováquia, Roménia, que colaboraram nos países pogromistas dotados de uma severa legislação antijudia antes da guerra, que participaram ativamente na elaboração e na adoção destas leis (e que mostraram, em 1945, a sua inclinação para repetir) se tivessem de repente apiedado dos perseguidos. «É part icularmente significativo sublinhar que os lituanos não judeus foram encarregados de ir à procura de candidatos» à exterminação, observou Taylor no seu memorando de 26 de setembro de 1942 enviado ao secretário de Estado Magnioli, «no Ghetto da morte de Varsóvia (…) É uma tragédia que a população polaca esteja a ser açulada pelos alemães contra os judeus e que as relações entre os polacos e os judeus tenham sido agravadas ao último grau. Isto é particularmente grave em Lemberg» – feudo de Szepticky. Raul Hilberg desenhou, país a país, um quadro impiedoso de uma atitude em perfeita cont inuidade com um longo passado; ora, as circulares dos bispos aos padres, como a atrás citada na Lituânia e todas as outras intervenções, implicavam o aval de um núncio.

Conhece-se a importante contribuição da Eslováquia de monsenhor Tiso, antigo arcebispo de Bratislava, considerado por Hilberg como estando entre «os satélites por excelência», para as deportações de judeus. Os arquivos da altura, trazidos à luz do dia depois da guerra, provaram que a «atitude [dos bispos] a respeito do massacre dos judeus da Eslováquia [tinha sido], pelo menos, suspeita» e que não se tinham mostrado «muito desinteressados dos bens deste mundo». O cônsul de França em Bratislava, na altura do processo «por alta traição» de janeiro de 1951 de três bispos eslovacos, defensores do partido Hlinka e, depois, apoiante de Tiso (Monsenhores Vojtassak, de Spis, Buzalka, auxiliar de Bratislava e Godjic, uniata de Presov), para apresentar as confissões autenticadas pelos arquivos do Estado eslovaco dizia, amenizando a descrição: Vojtassak aprovou, entre outras decisões de Tiso, a deportação dos judeus (ata estenografada da sessão de 3 de fevereiro de 1943) e participou na pilhagem dos seus bens, «designadamente em Baldovce e em Betlanova», aumentando o seu património, do qual tirava um rendimento anual de 3 a 4 milhões de coroas.

A católica Hungria, colocada entre «os satélites oportunistas», mostrou-se igualmente fiel às suas tradições pogromistas: mesmo em 1944, quando todos os seus dirigentes, incluindo os clérigos, se esforçavam para escapar à sorte de terem de se desculpar aos olhos dos anglo-saxónicos, o primaz Seredi não pôde, na sua carta pastoral de 29 de junho, censurar a violência do seu antissemit ismo com a desculpa da sua impotência total de impedir o que quer que fosse. O seu sucessor, nomeado em 1941, o antigo bispo de Veszprem Mindszenty, Joseph Pehm de seu verdadeiro nome, alemão de «origem suábia» não tinha nada a invejar-lhe: obscuro até à sua glória do pós-guerra (dois volumes dos arquivos Hungria 1944… desapareceram do Quai d‟Orsay) lembrou o seu passado pela audácia das suas declarações antissemitas, designadamente em 1948, perante Bertha Gaster, correspondente em Viena do News Chronicle: esta filha do rabino de Whitechapel (coisa que ele ignorava) fez-lhe uma certa publicidade.

Na Croácia, a «purificação étnica» atingiu quer os sérvios ortodoxos quer os judeus: as perseguições são conhecidas há muito tempo, graças às pesquisas de Falconi nos fundos de Estado jugoslavos, perfeitamente fiáveis, apesar de Rhodes reprovar a este autor católico o ter «invalidado algumas das [suas] conclusões anticatólicas» por causa de não dominar o servo-croata e o seu recurso aos «documentos oficiais comunistas» habilmente selecionados1 9. O argumento parece tão sério como aquele que impediria os judeus de se interessarem pela Shoah e Belgrado não teve necessidade de «selecionar». O dossiê católico-croata é de uma tal crueza que resistiu às tentações revisionistas da guerra fria por parte dos diplomatas franceses. Não foi Tito que inventou os números enormes dos massacres de sérvios e judeus pelo «Estado livre da Croácia» de Pavelic, foram os arquivos de guerra que determinaram a sua avaliação: no fim do verão de 1942, um pouco mais de um ano depois da invasão da Jugoslávia, o diplomata americano Biddle, ministro junto do governo jugoslavo no exílio, considerou apenas os «atrozes massacres de sérvios» e avaliou-os, com números confirmados, em «600 000 homens, mulheres e crianças». Esses massacres prosseguiriam «com frenesim» e eram acompanhados pela «destruição de tudo o que era sérvio na Bósnia». Depois dos trabalhos de Falconi e de Aarons e Loftus, deixa de se colocar a questão de saber se Roma ignorou as atividades do Estado de Pavelic e a grande contribuição que lhe foi dada por um «clero (...) no conjunto composto por fanáticos ou homens petrificados pelo medo» de alto a baixo na hierarquia. O Vaticano, com Pio XII a chefiá-lo, apoiou o regime ustachi] até à sua queda.

Deu cobertura aos crimes dos padres, desde a participação pessoal ou adesão às organizações nazis, até aos massacres (em campos de concentração e todos os outros locais, incluindo os edifícios religiosos ortodoxos) e às pilhagens dos bens dos judeus e ortodoxos, atestados por documentos escritos por Saric (bispo de Serajevo, um dos chefes de longa data do campo antissérvio) e Rozman (bispo de Ljubljana). Ele não ignorava nada, como vários chefes da Cúria não ignoravam. Tisserant, natural de Lorena, secretário da Oriental diretamente visado no dossiê, diante do delegado de Pavelic no Vaticano, atribuiu as culpas à barbárie dos croatas, notória desde «a Guerra dos Trinta anos», em que devastaram a sua região natal. Tardini viu nas suas declarações (sem o designar claramente) «erros» de juventude. Pio XII preferiu falar dos riscos da derrota da «cruzada militar em comum contra o bolchevismo».

A «resistência» de Stepinac – candidato pró-alemão que, em 1937, tinha sucedido ao alemão Bauer em Zagreb e hoje nomeado para canonização – é uma lenda. Stella Alexander, nos seus dois livros apologéticos, não encontra na sua única fonte primária - Katolicki List, jornal do arcebispado - senão sinais de adesão ao regime: todos os documentos contraditórios são de segunda mão. Os fundos documentais franceses, o dobro do livro de Falconi, acrescentam-lhe precisões. Os arquivos ustaches, que foram simbolicamente reagrupados no palácio arquiepiscopal de Zagreb, foram descobertos pelos titistas em 1945: aí se encontravam, entre outras, muitas fotos de Stepinac fazendo a saudação ustachi (braço levantado) junto de altos funcionários; e textos, como a sua circular aos bispos, publicada no seu jornal de 29 de abril de 1941, glorificando o «Estado croata ressuscitado» e «o chefe de Estado croata» e ordenando um «„Te Deum‟ solene em todas as igrejas paroquiais». «Não existe nenhum documento dele protestando contra os crimes cometidos na Croácia pelos ustachis e os alemães». Os horrores acumulados pelo «ocupante e (…) os ustachis [, com os quais] muitos chefes [muçulmanos] colaboraram», descobertos ainda em 1945, confirmam a fusão da Igreja e do Estado de Pavelic. Pululavam os mosteiros-arsenal, como o de Siroki Bijeg (na Herzegovina), onde os franciscanos criminosos de guerra foram presos em 1945. O tesouro ustachi, encontrado no início de 1946 no convento de Kaptol, dos franciscanos de Zagreb, tinha jóias, ouro, dentes em ouro fixados em maxilares inteiros, anéis em dedos cortados, etc., provenientes da pilhagem dos ortodoxos e dos judeus assassinados em massa; uma guia de embalagem redigida para cada caixa provava a presença de funcionários ustachis em todas as operações. Não foram apenas «certos padres exaltados que foram, pelo ódio e pelo medo do comunismo, ao ponto de ajudar os ustachis e a Wehrmacht (…) durante a ocupação», mas o conjunto de um corpo dominado pelos franciscanos: a Igreja jugoslava tinha-se «comprometido a tal ponto que seria possível elaborar contra ela um processo acusatório invocando apenas testemunhos religiosos». Guy Radenac, cônsul em Zagreb, ouvia ainda esses testemunhos mais de dois anos depois da guerra, significativos do que Falconi chamou «hedionda mistura de carnificinas e de festas»: os massacres de ortodoxos, como o de Glina em (maio) de 1941, confirmado pelo relato do padre Thomas, trapista francês refugiado durante a guerra em Banja-Luka: 2 000 mortos durante a noite, homens, mulheres e crianças, assassinados e pilhados; as festividades com o ocupante, os «grandes jantares em honra dos oficiais alemães» organizados por um convento em que se serviam «bolos (sic) (sic no texto) ornamentados com cruzes gamadas» descritos pelo padre Loewenbrück, beneditino francês de Pleterje (segundo o qual «sozinhos, entre as ordens sem clausura, os dominicanos foram irrepreensíveis» mas foram todos mortos por uma bomba britânica no fim da guerra). Porque é impossível dissociar o martírio dos sérvios ortodoxos do dos judeus jugoslavos, evoquemos a «conversão forçada» dos ortodoxos, intelligentsia estritamente excluída na medida em que era considerada irrecuperável: este regresso à «Inquisição espanhola» obrigava as vítimas, quando não tinham sido massacradas de imediato, a «escolher» entre a adesão ao catolicismo e a morte. O decreto ustachi de 3 de maio (completado por muitas outras medidas) que fixava as regras, não foi apenas uma ordem ustachi, mas também um texto vaticano ratificado por Tisserant. Belgrado esperou por 1952 para fazer essa revelação num Livro Branco sobre as relações Vaticano-«Estado independente da Croácia» extraído ao mesmo tempo do «diário pessoal» de Stepinac e dos arquivos ustachis: desculpava o secretário francês da Oriental, único prelado «romano» hostil à «ata de conversão», que não tinha assinado senão «contra a sua vontade», que reproduzia os processos verbais das suas conversas tempestuosas com Rusinovic (fontes de Falconi). Os franceses, alarmados com a enormidade destas revelações, consultaram Tisserant: invocando o «papel moderador» de Stepinac, confirmou tudo, acrescentando que «a secretaria de Estado tinha sido bastante branda»20.

... na Cúria

São conhecidos desde os anos sessenta os silêncios de Pio XII sobre «o anticristianismo do regime hitleriano, as perseguições, as deportações, os métodos abomináveis de guerra e de ocupação» alemães (de Blesson). O dossiê foi definitivamente tratado por Saul Friedlander na base de documentos alemães e dos volumes III e II dos FRUS [Foreign Relations of the U.S. (FRUS): Relações externas dos Estados Unidos] de 1942 e de 1943 (que completam os fundos franceses). Dali sobressai que a Cúria foi informada ao mais pequeno detalhe pelas fontes judias, americanas (o americano Myron Taylor, «representante pessoal» de Roosevelt «junto do papa Pio XII», forneceu-lhe uma lista completa das exterminações na Polónia, em 26 de setembro de 1942) e alemãs; que ela não os denunciou mesmo quando, entre julho e outubro de 1942, «os Estados Unidos e outros governos», entre eles o da Grã-Bretanha, uniram os seus «esforços (…) para obter do papa um protesto público contra as atrocidades nazis nos territórios ocupados pela Alemanha». Os diversos motivos invocados antecipam ao mesmo tempo a negação dos crimes e a tese da inocência alemã:


  • "o papa nos seus discursos já condenou as ofensas contra a moral em tempo de guerra e que ser mais específico, atualmente, só servirá para agravar as coisas";
  • "o povo alemão, na amargura da sua derrota, censurá-lo-á mais tarde por ter contribuído, ainda que indiretamente, para esta derrota (...) é precisamente uma tal acusação que foi feita à Santa Sé pelos alemães depois da última guerra, por causa de certas frases pronunciadas e de certas atitudes adotadas por Bento XV [durante] as hostilidades" (Montini a Tittmann);
  • "chegaram igualmente à Santa Sé, através de outras fontes, relatórios sobre as medidas severas ("severe measures") tomadas contra os não-arianos mas que até ao presente não tinha sido possível verificar a sua exatidão" (Maglione, 16 de outubro de 1942, três semanas depois do relatório Taylor sobre a Polónia);
  • "a Santa Sé não podia denunciar as atrocidades particulares ("specific"), mas (...) tinha condenado muitas vezes as atrocidades em geral" e "não podia verificar os relatórios dos Aliados a respeito do número de judeus exterminados, 'et coetera'" (Maglione, 26 de dezembro, depois da condenação solene, em 17, pelas Nações Unidas "desta política bestial de extermínio a sangue-frio").


Pio XII usou um duplo argumento em 30 de dezembro de 1942, pouco depois da mensagem de natal que apresentou a Tittmann, «encarregado de negócios dos Estados Unidos», como sendo uma resposta aos desejos de todos os que o pressionavam para «expressar uma palavra („some word‟) de condenação das atrocidades nazis». Este longo texto insignificante, dividido em «cinco pontos fundamentais para a pacificação da Sociedade humana» tinha, no quinto ponto, uma alusão «a centenas de milhares de pessoas que, sem terem nenhuma culpa, pelo simples facto da sua nacionalidade ou da sua origem étnica, foram votados à morte ou a uma progressiva extinção»: quatro linhas e três palavras em 13 páginas na tradução francesa, a que ninguém prestou atenção, nem mesmo Berlim:


  • invocou «um certo exagero para fins de propaganda» nos «relatórios dos Aliados
  • sobre as atrocidades»;
  • «explicou que, sempre que falasse de atrocidades, não podia mencionar os nazis sem mencionar ao mesmo tempo os bolcheviques, o que (…) poderia não agradar verdadeiramente aos Aliados»21 .


Nem sempre mudos, Pio XII e L‟Osservatore «condenaram os bombardeamentos de Roma» com paixão até ao verão de 1944 (depois de terem tentado evitá-los desde 1940), e os que, depois de 1942, foram lançados contra as cidades do Reich. Os seus gritos foram muito mais notados na medida em que o papa se quedou mudo quanto às deportações em massa dos judeus, como as que tiveram lugar «debaixo das [su]as janelas» na Roma ocupada pelos alemães, desde os meados de outubro de 1943. Tinha confiado a Hudal a tarefa de discutir com o general Stahel, comandante geral de Roma, esta «questão delicada [e] desagradável para as relações germanovaticanas », mas que foi «liquidada», segundo von Weiszäcker – novo embaixador do Reich, chegado a partir do início de julho de 1943, para preparar com a Cúria e os anglo-saxónicos o melhor futuro possível para a Alemanha – em menos de dez semanas: esta missão por si mesma constitui uma confissão, tendo em conta o antissemitismo do nazi austríaco Hudal e o seu contacto em Roma com Walter Rauff, «chefe dos serviços de espionagem das SS», «responsável pelo programa das câmaras de gás móveis» de 1941 no leste (enviado na primavera de 1943 em Roma por seis meses por Martin Bormann, Rauff foi destacado em setembro «para uma unidade SS que operava na região de Génova-Milão-Turim» com a mesma missão). Ainda menos se ouviu de Pio XII sobre as deportações de 1944, designadamente as dos judeus húngaros, que se tornaram de massas a partir de maio22.

A recuperação-reciclagem dos carrascos

A partir deste momento, e na perspetiva de uma «viragem das alianças» que se mostrava impossível do ponto de vista militar geral, mas progrediu em marcha forçada no plano político, Washington e o Vaticano tinham começado a recuperação-reciclagem dos carrascos: o primeiro, designadamente através de Taylor, e o símbolo eclesiástico da «mina de ouro» americana em Roma desde 1925, monsenhor Spellman, financiou em grande parte esta operação de massas, realizada essencialmente graças à rede eclesiástica do cont inente, que consegue dar sentido aos «silêncios» de Pacelli23.

Da guerra...

Walter Rauff, chefe da «secção anticomunista», foi, durante as negociações da rendição separada do Exército alemão de Itália, reveladas em março-abril de 1945, «o principal interlocutor» de Allan Dulles, um dos dois irmãos (com Foster) do célebre escritório de advogados de negócios Dulles, Sullivan e Cromwell, ligados ao banco Schroeder, sustentáculo de Hitler, e executores, após 1919, da liquidação doce de Versalhes. As conversações falharam aparentemente – a capitulação em Itália precedeu não em muito (2 de maio) a capitulação geral – mas salvaram «os oficiais nazis que lá se juntaram» como Karl Wolff, «chefe do estado-maior pessoal de Himmler» e de um «grupo de intervenção SS» na URSS, «pessoalmente comprometido no assassinato de 300 000 pessoas», condenado em 1949 a quatro anos de prisão, de que não cumpriu mais do «que uma semana». Estas negociações tinham tido por mediador o Vaticano, onde, entre 1943 e 1944, Rauff e Hudal criaram a «rede de evasão» dos criminosos de guerra, coberta pelos anglo-americanos (e os franceses), em funcionamento muito antes de maio de 194524.

O que nós sabemos das relações entre Hudal e Pio XII infirma a tese dos historiadores oficiais da Cúria, como o P.e Graham, segundo o qual «“Monsenhor Hudal não desempenhou nenhum pape l” no seio da Comissão pontifical de assistência»; e aponta para a tese de Ladislas Farago, que afirma que o papa içou Hudal «ao nível mais alto da hierarquia da Santa Sé» e o tornou o principal adjunto de Montini (futuro Paulo VI) na «operação de exfiltração dos nazis». Hudal aparece nas investigações dos últimos decénios como o pivô, com os monsenhores Montini, Riberi e Siri, arcebispo de Génova, do dispositivo montado em Roma e em toda a Europa ocupada, financiado pelos tesouros nazis e equiparados, «branqueados» e engrossados pelo mercado negro e os fundos aliados. Em 23 de agosto de 1944, com a cobertura de «ação caritativa a favor dos prisioneiros de guerra», a Santa Sé pediu às autoridades aliadas o envio de um «representante» acompanhado por um secretário, para levar «aos prisioneiros católicos uma assistência religiosa normal». Depois da concordância americana, em 2 de dezembro, reclamou para o «diretor espiritual dos alemães, residente em Itália» - Hudal – o direito de «visitar em Itália os internados civis de língua alemã». Hudal encetou assim a sua missão nas Rat Lines (nome de código anglo-saxónico das fileiras da evasão), com Rauff e Riberi, igualmente encarregado, em novembro de 1944, «de se ocupar oficialmente, em nome do Santo Padre, dos alemães detidos em Itália pelos Aliados»: «a comissão pontifical de Assistência» assim criada, «instrumento eficaz da política americanovaticana », subtrairia em massa ao castigo os criminosos alemães, croatas, húngaros, eslovacos, ucranianos, bálticos, franceses, etc., com o apoio permanente, entre outros, de Taylor e do RP Carroll, segundo sucessor, desde o final de 1940 (depois de monsenhor Hurley), de Spellman em Roma.

Trabalhos alemães, anglo-saxónicos, cartas do Quai d‟Orsay de todas as proveniências infirmam as conclusões da equipa de historiadores franceses aos quais Monsenhor Decoutray confiou o exame dos arquivos eclesiásticos para estudar o papel da Igreja na salvação do ex-miliciano Touvier, exemplo típico dos criminosos de guerra mascarados de refugiados aniquilados pelo destino: alguns prelados franceses inconscientes ou mal informados teriam, por caridade, socorrido um carrasco que tomaram por vítima, sem estarem mandatados ou apoiados. Uma parte da Igreja francesa comprometeu-se na realidade como todos os seus homólogos numa operação de Roma. Desde novembro de 1944, Tardini, da secretaria de Estado, justificou perante o diplomata francês Guérin o apelo feito pelos «quatro padres americanos» à secretaria de Estado «pela importância crescente dos negócios» comuns, de auxílio às necessidades da correspondência em inglês «em particular da organização do socorro», que implicavam cooperação. Em fevereiro de 1945, «os diversos organismos», as duas comissões pontificais de Assistência aos refugiados e aos repatriados, foram agrupadas «numa única obra, a comissão pontifical de Assistência», financiada pela «UNRRA [United Nations Relief and Rehabilitation Administration (UNRRA)]» - os Estados Unidos - «por intermédio do Vaticano». Na viragem de 1944, funcionava em Roma e em toda a Itália, através «dos centros diocesanos paroquiais» e no estrangeiro, para as suas várias missões, «algumas das quais se renderam na Alemanha, na Áustria e na Hungria». Os «refugiados políticos» chegados de Itália «são dirigidos ao padre Faller», residente na Piazza Cairoli, «religioso alemão que se ocupa do centro de acolhimento destinado a todos os refugiados que se encontram na Itália. Este centro, que teve uma atividade particular em 1944 e 1945, recebeu indiscriminadamente os refugiados de todas as nacionalidades vindos da Europa Central e part icularmente da Alemanha». Faller «põe-nos em contacto com o padre [francês] Blondeau», do hospital Fato Bene Fratelli, na ilha do rio Tibre. Blondeau, pivô de uma rede de «conventos cujo pessoal era parcialmente francês», «comunicalhes o endereço de um convento em Roma suscetível de os albergar». Faller envia-os também a Riberi, via Pó, que «lhes entrega um cartão que dava acesso a uma messe pontifical». «A comissão», que trabalhava «em coordenação com as autoridades italianas ou aliadas e com a UNRRA», a partir de 1944, serviu «três milhões de refeições» no refeitório pontifical da Via Pó. Blondeau «envia por fim a cada um, consoante a sua situação, uma soma em dinheiro» para a compra de roupas e objetos de primeira necessidade. Últ ima etapa: «alguns refugiados obtiveram passaportes para se dirigirem à América do Sul»: a Cruz Vermelha internacional, a pedido dos anglo-saxões muito influentes na Suíça, enviou a Hudal, para Santa Maria dell‟Anima, esses passaportes cujo fluxo aumentaria a partir de maio de 1945. Grandes peixes tinham já escapado da rede: Bormann, considerado por Hilberg como morto em 1945 durante «a batalha de Berlim», «teria deixado a Alemanha a 10 de maio de 1945 pelo Tirol e para a Argentina, alguns meses depois de segredo romano sob a proteção de monsenhor Hudal», segundo Jen-Pierre Blancpain, e de Rauff (Werner Brockdorff); a transferência deste protegido da Cúria verificou-se, segundo Paul Manning, em 1948, tendo-lhe sido entregue uma grossa fatia da «reserva
financeira do Deutsh Bank»25 .

... até ao pós-guerra

A ideologia da inocência alemã que, nos discursos do papa, tinha evoluído depois do tempo da derrota assegurada, foi, no decorrer dos anos da guerra fria oficial, libertado de toda a autocensura. Era parte visível do iceberg da prática, uma vez que a salvação dos criminosos de guerra prosseguiu durante muito tempo sob a batuta de Hudal, cuja obra póstuma de 1976 (Römische Tagebücher. Lebensbeichte eines alten Bischofs) [Diários romanos. Confissões de um velho bispo] reivindica um nazismo intacto e «a sorte de ter podido visitar, nas suas masmorras e nos campos, tantas vítimas do pós-guerra para as consolar, ajudar e prover de falsos documentos que lhes permitissem fugir para um país mais feliz». Entre eles figurava Franz Stangl, antigo comandante dos campos de Sobibor e depois de Treblinka, que ele acolheu desta forma: «O senhor deve ser Franz Stangl. Já estava à sua espera»; alojou-o no Germanicum antes de lhe enviar o «seu novo passaporte (...) da Cruz-Vermelha».

O empreendimento, que mobilizou todos os episcopados, implicou a Suíça, sede do Comité Internacional da Cruz Vermelha, controlado de facto por Washington, submetida a uma pressão à qual o seu estatuto de refúgio dos interesses entrecruzados de capitais e os seus laços diretos com o capital a lemão tornavam sensível. A França foi, no outono de 1945, o primeiro alvo da campanha incansável do CICR [Comité Internacional de la Croix Rouge, em francês, Comité Internacional da Cruz Vermelha] a favor da proteção dos «prisioneiros alemães [que] os franceses mata[va]m à fome». Em agosto, o núncio de Roncalli (futuro João XXIII), em Paris recebeu do Quai d‟Orsay o livre acesso a todos os campos. Visitou-os assiduamente, com o pretexto de levar «palavras de reconforto e encorajamento de ordem espiritual» aos prisioneiros de guerra em geral e aos seminaristas em particular, de Chartres a Monpellier, passando por Noisy-le-Sec. Na viragem de 1945, os campos franceses sob autoridade americana, tais como os da Normandia, de Brienne-le-château e Mailly, eram passadores de alemães e «Jugoslavos»: os prisioneiros de guerra vestiam sobre os seus fatos de prisioneiros, com o distint ivo POW (prisoner of war) [prisioneiro de guerra] um «uniforme americano sem nenhuma marca particular»; «nenhuma medida de precaução particular» era tomada em relação aos «criminosos de guerra (...) reconhecidos», munidos de falsos documentos26 pelos franceses da «Mão Vermelha» (organização clandestina de extrema direita).

A missão pontifical de Socorro

Em outubro de 1945, Montini, interlocutor privilegiado dos americanos (principal agente do Vaticano e chefe das Rat Lines, segundo Aarons e Loftus) fez, em Maritain, umas semi-confissões sobre os caminhos da evasão sul-americana, «a missão pontifical de Socorro» para a «Áustria e a Alemanha», dirigida por monsenhor Chiarlo, antigo núncio na América do Sul e com posto em Francoforte (na zona americana): «os seus colaboradores pertencem a todas as nacionalidades da Europa central e levarão até às diversas populações, especialmente refugiados e fugitivos, „assistência espiritual e também uma ajuda material‟». Monsenhor Chiarlo e Gawlina (capelão do exército polaco) esquadrinhavam, desde novembro de 1945, as zonas americana e britânica (os franceses ainda lhes vedavam a sua) para «visitar o maior número possível de antigos prisioneiros de guerra, presos políticos e sobretudo refugiados de todas as nacionalidades» - germânica sobretudo. Em dezembro, o dispositivo estava pronto e, nos dias 5 e 6, reuniram em Berlim cinco prelados encarregados do Leste, com delegados das organizações de socorro e acolhimento dos refugiados alemães. Lot, representante do nazismo episcopal, apesar da lenda de «resistente» do seu presidente, von Preysing, arcebispo de Berlim (e um dos três cardeais da primeira promoção alemã do pós-guerra, com von Galen e Frings) – lenda por falta de informação, porque o seu dossiê de guerra, em que os investigadores dos anos sessenta tinham interesse, desapareceu. Na reunião que ele convocou para 21 de maio de 1947, na sua residência de Trèves, o bispo Bornewasser foi claro quanto ao papel dos seus na fuga dos nazis: «é atualmente dever absoluto e também do interesse da Igreja conduzir o povo alemão para se lembrar ainda com orgulho da sua nobre origem alemã. É a juventude que terá toda a nossa solicitude, organizaremos cursos noturnos onde os nossos jovens terão a possibilidade de se aperfeiçoar no conhecimento de línguas estrangeiras, de preferência o espanhol e o inglês, para que, os que o desejem ou tenham de fazê-lo, emigrar para a América do Sul possam aí mostrar o rosto do “verdadeiro germanismo”. Devem educar a juventude no sentido de uma Alemanha “total e nacional”».

O organismo «pontifical» tomou forma definitiva em maio de 1946, em que monsenhor Munch, bispo germano-americano de Fargo, se tornou «representante da Santa Sé» na Alemanha e chefe da «missão vaticana da Assistência aos refugiados» - no lugar de Chiarlo, nomeado núncio no Brasil (grande centro de acolhimento). Nascido no Wisconsin «de cepa alemã», despachado pelo «departamento de Guerra», Munch chegou em agosto de 1946 a Berlim, «num avião militar americano». «Capelão das forças alemãs de ocupação», sucedeu a Spellman, que mantinha a supervisão de «todos os assuntos importantes» e se reuniria em breve ao clã dos favoritos «de Pio XII e de monsenhor Tardini». Em março de 1947, quando Pio XII, perante o diretor para Itália da Associated Press, Guptill, «reivindic[ou] a liberdade da Santa Sé, dos bispos e das associações católicas do mundo inteiro» de prestar «ajuda aos que dela necessitam», sobretudo «aos emigrados e refugiados», o trabalho estava já muito avançado. O número das «sopas populares» servidas via Pó tinha passado dos três milhões em 1944 para 28 771 150 em 1945 e para 40 731 750 em 1946. Os movimentos financeiros eram dirigidos para as zonas de fuga, em coordenação com as Pie Opere di Religione. Depois de outras cartas, as franceses confirmam o aspeto tentacular de uma ação que Blondeau atribuiu, em março de 1947, aos «deveres de caridade» sem convencer Maritain, informado de que «pessoas gravemente suspeitas ou condenadas por contumácia conseguiram passar para o estrangeiro»27 .

Do refúgio suíço às associações católicas

De leste a oeste a Igreja participou no processo. A Suíça, submetida no segundo semestre de 1945 à «intervenção americana» permanente, suplantou, no virar de 1945, a UNRRA na «ajuda às populações» da Alemanha e da Áustria e aos alemães expulsos, com o pretexto «de lutar contra a propaganda soviética». Desde a «Dádiva Suíça» para «Socorro às crianças» e a Caritas até à «Central sanitária suíça» da Cruz Vermelha, as ajudas e socorros à «Europa» reunidos pelos meios financeiros de Zurique a Basileia (com a indústria química ligada à IG Farben à cabeça) cingiram-se cada vez mais estritamente aos germânicos. Solicitada para reabilitar o clero protestante alemão, questão da mais alta importância para o branqueamento dos quadros, a Suíça foi também mobilizada no seu feudo germanófilo católico. O Vaticano encontrou executantes em muitas dioceses: em Friburgo, monsenhor Besson (morto em 1944 e substituído pelo cónego Charrière) onde «as ideias e o nível intelectual [de] uma importante fração d[o] clero e [dos] fiéis (…) estavam tão paralisados como o poderiam estar os de uma diocese bretã sob a Ordem moral»; na abadia beneditina de Einsiedeln, «posto de escuta aberto a muitas mensagens»; no galófobo Tessin, cujo bispo Jelmini transformou o «sanatório» de Agra, perto de Lugano, de instituição «de notoriedade pública» em «plataforma reguladora para a evasão dos nazis para a América do Sul» (função banal dos sanatórios suíços, como Davos, depois de 1945). Jelmini salvava ali os alemães e os seus aliados, como o abade Jassédé, «excelente francês», disse ele, a quem confiou, em 1947 «a paróquia de Agra» e o posto de capelão do «sanatório», incluindo «a educação moral e religiosa» das crianças do Sarre recolhidas: este «antigo agente da Gestapo (…) condenado por colaboração» foi procurado em 1946 pela polícia de Orleães28.

Destes traidores e criminosos, a Europa oriental forneceu o grupo mais conhecido, com a sua gigantesca rede movimentada do lado ucraniano por Monsenhor Bucko, um dos chefes da cruzada antirrussa. A Croácia aprendia com o exemplo, uma vez que o auxílio do padre Draganovitch, secretário de Saric, camarada de guerra de Magnioli, Montini e Pio XII, tinha subtraído ao castigo cerca de 30 000 criminosos croatas, no qual se incluíam Pavelic, Saric e Rozman: a «placa giratória [romana] da operação», «o Instituto San Girolamo» (São Jerónimo), recolhia, antes da sua partida (de Génova), estes homens reagrupados pelo arcebispo de Zagreb, os conventos e outras instituições croatas (incluindo a Cruz Vermelha), colocados sob a tutela de Stepinac, que estava no seu lugar na altura da derrocada; depois pelo altoclérigo da Áustria e a «missão pontifical» de Salzburgo; e por fim pela Cúria, o arcebispo de Génova, «a polícia italiana» e muitos chefes da Democracia cristã (incluindo Gasperi). Não foi senão «com a cumplicidade das autoridades ocupantes», que «antigos ministros» e responsáveis do regime de Tiso se safaram da zona americana da Alemanha para Roma. A Santa Sé tratava-os aí com toda a consideração, no início de 1946: Karel Sidor, ant igo delegado de Tiso e legislador da perseguição dos judeus para a Eslováquia «ainda autónoma», entre janeiro e março de 1939, abrigava uma trintena de emigrados no seu palácio romano, entre os quais Durkansky, o pai de Polakovic, subdirector da Propaganda, e o professor Miskovic, antigo presidente da «Prol» (sokols católicos) que, antes da sua partida, tinha deixado à «Juventude Hlinka» o seu «enunciado de instruções» contra o novo regime.

Na primavera de 1946, l‟Unità conduziu uma campanha contra a Pax Romana, antiga «confederação das associações católicas» sediadas antes da guerra em Friburgo, que tinha «alargado os seus quadros e ampliado os seus objetivos». Pilar da reconstrução das «Internacionais católicas», atuando entre Salamanca, Friburgo e Roma (onde os jesuítas «desempenhariam um papel importante»), concedia falsas «bolsas de estudos» e verdadeiros falsos passaportes aos «criminosos de guerra notórios». Madrid tinha como delegado em Itália o jornalista Ruiz, «homem de confiança do ministro dos Negócios estrangeiros, Artajo, [com o objetivo] de reagrupar e organizar os (…) fascistas fugit ivos» da Hungria, Bulgária, Roménia, Jugoslávia e Polónia para os transferir para Espanha. Este fluxo, financiado pelos Estados Unidos, arrastou a criação em Madrid, nos anos cinquenta, de uma quantidade de organismos «católicos» para «refugiados políticos».

O papel da Pax Romana, desment ido pelo Popolo, foi confirmado pelos franceses que, incluindo os católicos, desconfiavam de uma organização cujos congressos acolhiam, desde 1946, «delegações da Croácia, Eslováquia, Lituânia, Boémia, Hungria e Polónia» compostas «por jovens refugiados da Europa central». Segundo Radenac, «os meios ustachis de Zagreb» divulgavam ainda em 1947 os endereços conhecidos dos conventos que acolhiam fugitivos, sustentados por bolsas da «Pax romana». Ele mesmo sabia através «de fonte direta» que o filho mais novo de Radic, refugiado mais de seis semanas em Roma no «convento de São Jerónimo», acabava de dar «esse endereço a um amigo». A Caritas desempenhava o mesmo papel, assegurando o socorro às famílias dos emigrados e de ustachis terroristas no terreno. Os processos iugoslavos definiram mais precisamente a amplitude do auxílio: o regime, apoiado em «factos reais», provou que os culpados, como, em 1952, os franciscanos de Mostar, acusados entre outras coisas de «receptação de ouro e de objetos preciosos pilhados pelos ustaches e descobertos numa das suas igrejas de Zagreb (...) e de cumplicidade na fuga de exustaches perseguidos pelos seus crimes durante a guerra», tinham agido «segundo as diretivas do Vaticano»29.

Os que escaparam à barbárie nazi tiveram pior sorte do que os seus carrascos : saído de Roma em 13 de julho de 1945, Hlond, assim que entrou na sua diocese de Poznan, organizou com os seus pares os pogroms desencadeados no sul, em Sapieha, Cracóvia (designadamente em 11 de agosto). A exemplo do «governo» de Londres que Papée cont inuava a representar, no Vaticano, a «resistência» de extrema-direita (NSZ) foi encarregada de liquidar os raros sobreviventes judeus (80 000), que tinham fugido da Polónia em 1939 para se refugiarem na URSS e eram considerados como o símbolo do inimigo russo (ao ponto de, desde abril de 1946, 50 000 terem de novo fugido e assim cont inuavam). Promovido a arcebispo de Varsóvia em abril de 1946, Hlond, como Sapieha, rematou o trabalho noticiando com uma conferência de imprensa em 12 de julho, o pogrom de Kielce do dia 4, o mais importante (80 mortos, uma centena de feridos, «a maior parte gravemente»), organizado com a cumplicidade do bispo local Kaczmarek: esta «monstruosa infelicidade» não devia nada ao «racismo», «o clérigo de Kielce cumpriu o seu dever», os polacos salvaram a vida de judeus durante a guerra, etc.: «a culpa tem de ser imputada aos judeus que ocupam na Polónia postos dirigentes e tentam impor ao país um regime cuja maioria da população não deseja»; não podia dar uma opinião sobre o NSZ, pois «está proibido de abordar» os problemas políticos relativos à «Polónia interior»; a uma pergunta sobre o motivo da não condenação pública, pelo clero, do antissemitismo depois da libertação, respondeu que um inquérito tinha demonstrado a inut ilidade do primeiro pelo desaparecimento do segundo: um outro pogrom matou então trinta judeus na via-férrea Kielce-Czestochowa. Nesta atmosfera cultivada pelo «Mikolaczik de sotaina» (alcunha de Hlond) a esquerda denunciou «a mão do Vaticano “protector dos alemães”». Hlond não disse uma palavra sobre o pogrom de Kielce, o que também fez a grande imprensa americana, demasiado obcecada pelo anticomunismo para largar este terreno – enquanto os diplomatas franceses no terreno ferviam de indignação.

Outro indício do sentido dos «silêncios» dos pacellianos: os prelados mais colaboracionistas – por vezes não dissociáveis dos criminosos de guerra – conheceram em 1945 uma glória que contrastou com os rigores reservados aos audaciosos da guerra: tornado cardeal, porque Pio XII foi obrigado a nomeá-lo em 1945 – Paris tinha advertido que recusaria em caso contrário qualquer nomeação francesa – , Saliège, submetido, como de Solages, a muita humilhação, testemunha-o eloquentemente30 .

As Atas e Documentos da Santa Sé relativos à Segunda Guerra mundial (ADSS), documentos oficiais cujas primeiras publicações foram suscitadas pelo escândalo em torno da peça de Rolf Hochhuth, O vigário, puseram o acento tónico na vontade profunda, mas sempre autocensurada ou congelada em estado oficioso, de o Vaticano se opor à «destruição dos judeus da Europa». Face aos «silêncios», é grande a tentação de investigar os traços do que se poderia ter passado se... A recente obra, de resto escrupulosa, de Georges Passelecq e Bernardo Suchecky, A encíclica escondida de Pio XII. Uma oportunidade falhada da Igreja face ao antissemitismo (Paris, La Découverte, 1995), revela, uma vez mais, os limites metodológicos de uma investigação que parte do princípio da presunção de inocência apoiada numa documentação no essencial não original: a consulta dos dossiês originais coloca o acento tónico sobre a recusa de auxílio da Igreja romana, precocemente acompanhada da negação ou da desvalorização dos massacres feita pelo Vaticano e, nos terrenos nacionais, de práticas de perseguição que a Cúria, na hipótese menos desfavorável, não reprovava. Os arquivos originais colocam-nos mais vezes na lógica do antissemitismo, particularmente profundo difundido antes da guerra – e depois, por muito tempo – por parte da instituição católica.

Notas:

1 Gérard Cholvy e Yves-Marie Hilaire et alii, Histoire religieuse de la France, Toulouse, Privat, 1984-1986, t. 3, p. 57, e Xavier de Montclos, Les chrétiens face au nazisme et au stalinisme. L'épreuve totalitaire, 1939-1945, Bruxelas, Ed. Complexe, 1991, p. 278 e 34, etc.

2 Tudo a que aqui aludimos é longamente exposto em diversos capítulos (onze, sobretudo 4 e de 7 a 11) da nossa obra Le Vatican, l'Europe et le Reich de la Première Guerre mondiale à la Guerre froide, a publicar, Armand Colin, setembro de 1996: todas as referências se encontram aí, com as suas cotas precisas.

3 Werner Brockdorff, Flucht vor Nürnberg. Pläne und Organisat ion der Fluchtwege der N-S Prominenz im "Römischen Weg", Verlag Welsermühl, Munich-Wels, 1969; ver também Mark Aarons e John Loftus, Des nazis au Vatican, Paris, O. Orban, 1992.

4 Notas, 10 de fevereiro, 10 abril de 1920 (sublinhado no texto), Saint-Siège 1918-1940 (mais à frente nome de país + ...), vol. 13 e 2 e carta n.° 6470 de Tirard, Coblence, 20 de agosto 1920, Alemanha..., vol. 370, arquivos do MAE, Quai d'Orsay (fonte de todos os fundos originais aqui citados).

5 Emma Fattorini, Germania e Santa Sede: le nunziature di Pacelli tra la grande guerra e la Reppubblica di Weimar, Laterza, 1992, p. 105-106, e passim, Hungria..., vol. 42-43, e O Vaticano..., cap. 4.

6 Gunther Lewy, The Catholic Church and Nazi Germany, Londres, Weidenfeld e Nicolson, 1964, p. 45-46, 275, 277 , Gordon Zahn, German Catholics and Hitler's wars, New York, Sheed e Ward, 1962, p. 123 sq., e fundos do MAE citados, O Vaticano..., cap. 7.

7 Correspondência de 1928 a 1938, Santa Sé..., vol. 47, Canet, vol. 33, 40, 41, Áustria..., vol. 82, 83, 190.

8 Correspondência de 1935 a 1938, Áustria..., vol. 190, 191, 198, 199, 200, Alemanha..., vol. 692, Itália..., vol. 264; ficha OSS, setembro 1944, Mark Aarons e John Loftus, Des nazis..., p. 49; Gunther Lewy, The Catholic..., p. 165, 281, 211-218, von Bergen, 25 maio 1938, Documents on German Policy (Documents...), series D, vol. I, p. 1039 et 1042 e cap. 7 e 8 de O Vaticano....

9 Jean-Baptiste Duroselle, Politique étrangère de la France, la décadence 1932-1939, Paris, Le Seuil, 1983.

10 Setembro de 1922, Allemagne..., vol. 367, Canet, vol. 56, e Jacques Nobécourt, "Le Vicaire" et l'histoire, Paris, Le Seuil, 1964, p. 138-140. 1933, Allemanha..., vol. 700 et 689, Canet, vol. 36; Gunther Lewy, p. 275, et chap. 9-10, 1934, Allemanha..., vol. 691. Documentos... e fundos do MAE.

11 Expressão de Baudrillart no seu comentário dos planos de aliança antirrussa de Hlond, publicados in extenso (entrevista, 19 dezembro de 1936) no boletim do seu «comité católico das Amizades francesas no estrangeiro», Polónia..., vol. 328 (e o jogo contra Verdier, O Vaticano..., cap. 9).

12 Charles-Roux n° 233, 19 junho de 1933, Alemanha..., vol. 689, setembro-outubro de 1933, Documentos..., C, vol. I, p. 782-786, 789-790, 793-794 (sublinhado por nós), p. 927 -928. Courriers-paravents, O Vaticano..., passim.

13 1938, Alemanha..., vol. 697-698, 700, Canet, vol. 40; Gitta Sereny, Au fond des ténèbres. De l'euthanasie à l'assassinat de masse: un examen de conscience , Genève, Ed. Famot, 1977 (trad. de Into that Darkness, London, 1974), p. 374; fevereiro, março, maio, Documentos..., D, vol. I, p. 1022, 1023, 1036-1039; Itália..., vol. 264, 267, Santa Sé..., vol. 38, Canet, vol. 42 (e O Vaticano..., cap. 7 à 9).

14 Outubro 1943, agosto 1944, Guerra 1939-1945 Londres-Argélia (Argel...), vol. 1373 e 1374; Jean-Louis Clément, Mgr Saliège, archevêque de Toulouse, 1929-1956, Paris, Beauchesne, 1994, cap. 9 e12; Jean-Marie Mayeur, «Les églises devant la persécution des juifs en France», Georges Wellers et al., ed., La France et la question juive 1940-1944, Paris, Ed. Sylvie Messinger, 1981, p. 156-170, e Christian Terras, «La véritable histoire des évêques sous l'Occupation», Golias, n° 29, primavera 1992, p. 35-154.

15 Agosto-setembro 1940, Vichy Europa..., vol. 559; sobre Suhard depois de 1940 e Baudrillart, morto em maio de 1942, Rita Thalmann, La mise au pas. Idéologie et stratégie sécuritaire dans la France occupée, Paris, Fayard, 1991, p. 86-95, 155-156, 237, C. Klein, «Le clergé et les chrétiens de France tels que les voyaient certains dirigeants nazis sous l'occupation», Eglises et chrétiens dans la IIè Guerre mondiale, la France, Lyon, PUL, 1982 (colóquio de Grenoble), p. 383-399, Philippe Burrin, La France à l'heure allemande 1940-1944, Paris, Le Seuil, 1995, p. 30, 80, 224, 226-232, 411-413; 1943, Vichy Europa... vol. 553, julho 1952, Polónia 1944-1960 (mais à frente nome de país + 1944...)..., vol. 135, O Vaticano..., cap. 10; e nota (alemã), serviços de Alsácia-Lorena, 19 julho 1938, Canet, vol. 40.

16 Saul Friedlander, Pie XII et le IIIè Reich, Paris, Ed. du Seuil, 1964, p. 138.

17 Carlo Falconi, Le silence de Pie XII 1939-1945, essai fondé sur des documents d'archives recueillis par l'auteur en Pologne et en Yougoslavie , Monaco, Ed. du Rocher, 1965, Santa-Sé..., vol. 40, depois de setembro-outubro 1939, e Pologne..., vol. 329, Léon Papeleux, Les silences de Pie XII , Bruxelles, Vokaer, 1980, 3ª parte, e O Vaticano..., cap. 10.

18 Raul Hilberg, La destruction des juifs d'Europe, Paris, Gallimard, 1991, 2 vol. (reed.), passim depois o cap. VII (exemplo, vol. 1, p. 266); Wiesenthal, Mark Aarons e John Loftus, Des nazis..., cap. 8; Hansjakob Stehle, Eastern Politics of the Vatican 1917-1979, Athens, Ohio, 1981, p. 219-220 (na base dos ADSS, vol. 3), e o Vaticano..., passim.

19 Foreign Relations of the United States (FRUS) 1942, vol. III, p. 776: Raul Hilberg, La destruction..., passim depois o cap. VII, janeiro 1951, Checoslováquia 1944..., vol. 154, e julho 1948, Hungria 1944..., vol. 18. Anthony Rhodes, The Vatican in the Age of Dictators 1922-1945, London, Hodder and Stoughton, 1973, p. 327, cuja exposição infirma em parte a desconfiança, p. 323-336.

20 9 setembro, FRUS 1942, vol. III, p. 812-813, maio 1949, Jugoslávia 1944..., vol. 36, e n° 5 do Serviço de Imprensa 10 junho 1941, Guerra 1939-1945, Vichy-Europa (Vichy-Europa...), vol. 548, Le Vaticain..., cap. 8, 10, 11, Stella Alexander, The triple myth: a life of Archbishop Alojzije Stepinac, New York, Columbia University Press, 1987, cap. VI-VIII, Church and State in Yugoslavia since 1945, Cambridge, Cambridge University Press, 1979, cap. 1; Carlo Falconi, Le silence..., passim; dezembro 1945, setembro 1946, Jugoslavia 1944..., vol. 34, setembro 1948, setembro 1954, ibid., vol. 36 e 107, janeiro, fevereiro 1946, ibid., vol. 34, agosto 1947, ibid., vol. 36; agosto 1952, ibid., vol. 105.

21 Blesson, outubro 1943, Argel..., vol. 1373; FRUS 1942, vol. III, p. 772, 777, FRUS 1942, vol. I, p. 70, FRUS 1943, vol. II, p. 911-912; dezembro 1942, Vichy-Europa..., vol. 551; FRIEDLANDER S., Pie XII..., passim.

22 Bombardeamentos, ver sobretudo FRUS 1942, vol. III, p. 800, FRUS 1943, vol. II, p. 910-953, FRUS 1944, vol. IV, p. 1274-1314; 2, 4, Vichy-Europa..., vol. 551, e O Vatican..., cap. 10; sobre os judeus, Saul Friedlander, Pie XII..., p. 190-205 (especialmente 193-194), Gunther Lewy, The Catholic..., p. 301-302 (et 269-308), Werner Brockdorff, Flucht..., p. 71 sq. e passim, Mark Aarons e John Loftus, Des nazis..., p. 52-53, 273, e Raul Hilberg, La destruction..., p. 577.

23 Prós e contras da estratégia americana, Le Vatican..., sobretudo cap. 2, 3, 5 e 9 a 11.

24 Setembro 1944, Santa Sé 1944..., vol. 8, julho 1945, Estados-Unidos 1944..., vol. 171, Mark Aarons e John Loftus Des nazis.., p. 57-60, 275, 343, p. 958 (e indíce, Wolff); Mark Aarons e John Loftus, p. 317-329 (sobre os franceses, cap. 11 e p. 316), Werner Brockdorff, Flucht..., loc. cit.

25 L. Farago, Aftermath, Londres, Pan, 1976, p. 210 sq., Mark Aarons e John Loftus, Des nazis.., p. 50-69; Léon Papeleux, L'action caritative du Saint-Siège en faveur des prisonniers de guerre (1939-1945), Bruxelles, Instituto histórico belga de Rome, 1991 , p. 170 e 268-269, novembro 1944, Etats Unis 1944..., vol. 200, agosto, fevereiro, março, Santa Sé 1944..., vol. 9; René Rémond (dir.) e alii, Paul Touvier et l'Eglise, Paris, Fayard, 1992, passim, Raul Hilberg, La destruction..., p. 942 (e índice), Jean-Pierre Blancpain, «Amérique latine et nazisme. De l'immigration juive au mythe du IVè Reich (1933-1945)», L'information historique, n° 5, vol. 53, 1991, p. 176, Mark Aarons e John Loftus, p. 326 (Manning), Werner Brockdorff, Flucht..., loc. cit., 83, e passim.

26 Le Vatican..., cap. 10-11; J.-P. Blancpain , «Amérique (...)», p. 174-175, Gitta Sereny, Au fond..., p. 17, 320, 323, 336-337; julho, outubro, agosto 1945; visitas, novembro, dezembro 1945, fevereiro, abriljunho; nota DU n° 7 63, 15 março 1946, Alemanha 1944..., vol. 22.

27 Mark Aarons e John Loftus, Des nazis..., passim; outobro 1945, Santa Sé 1944..., vol. 8, setembro, dezembro 1945, Alemanha 1944..., vol. 67, outubro 1946, maio 1947, ibid., vol. 68; Gordon Zahn, German..., p. 119- 120, Gunther Lewy, The Catholic..., p. 219 e 227, Annie Lacroix -Riz, «Politique scolaire et universitaire en Allemagne occupée», Gabriele Clemens, ed., Kultur im besetzten Deutschland 1945-1949, Franz Steiner Verlag, Stuttgart, 1994, p. 133-136; maio, agosto 1946, janeiro 1947, Alemanha 1944..., vol. 68, agosto 1946, Uruguay 1944..., vol. 6, agosto, março 1947, janeiro 1948, Santa Sé 1944..., vol. 9.

28 Janeiro, fevereiro 1946, dezembro 1945, fevereiro, julho 1946 (e 1946-1949), Suíça 1944..., vol. 30; março 1946, outubro 1945, julho, novembro 1948, ibid., vol. 17, dezembro 1948, ibid., vol. 30, e novembro 1946, Estados-Unidos 1944..., vol. 173.

29 Mark Aarons e John Loftus, Des nazis..., 1ª e 2ª partes, Werner Brockdorff, Flucht..., passim; março, maio 1946, Checoslováquia 1944..., vol. 47, abril 1946, Espanha 1944..., vol. 63, outobro 1946, Suíça 1944..., vol. 21, agosto 1947, Santa Sé 1944..., vol. 9, março 1952, Roménia 1944..., vol. 88; junho 1946, agosto 1948, Santa Sé 1944..., vol. 11 e 7; agosto, novembro 1947, janeiro 1948, Jugoslávia 1944..., vol. 36, e julho 1952, ibid., vol. 105.

30 Julho 1945, a litania dos pogroms de setembro 1945 a julho 1946, Polónia 1944..., vol. 52, Marc Hillel, Le massacre des survivants en Pologne, 1945 -1947, Paris, Plon, 1985, p. 287 e passim; Le Vatican..., chap. 11 e a nossa comunicação «Le Vatican, la France et l'Allemagne après les deux guerres mondiales», Georges-Henri Soutou e Rainer Hudemann, Le rôle des tiers dans les relations franco-allemandes, Atas do colóquio de Paray-le-Monial, 6-8 octobre 1994, a publicar, 1996.