4 de dezembro de 2007

Jesus: Messias ou Bolchevique?

O Cristo dos Evangelhos é de fato um revolucionário – mas de um tipo mais milenarista do que propriamente político.

Terry Eagleton


Era Jesus um revolucionário?

Ele certamente mantinha companhias políticas sombrias. Uma delas, do seu círculo mais íntimo, era conhecido como Simão, o Zelote – sendo zelotes um movimento anti-imperial clandestino, empenhado em dirigir os romanos para fora do território palestino. Os zelotes desejavam um Estado judaico teocrático, mais purificado e tradicionalista; e difundiram uma ideologia não muito diferente da Al-Qaeda de hoje. Para uma audiência regular, os ensinamentos de Jesus podem ter soado como familiar propaganda Zelote. Podemos tomar como óbvio que entre as massas que rodeavam Jesus havia Zelotes e outros dissidentes, comprovando quão “politicamente correto” ele soava.

É, no entanto, pouco provável que Jesus tenha tomado partido da resistência anti-imperial. Por um lado, parece ter apoiado o pagamento de impostos (“A César o que é de César”), enquanto os zelotes não o faziam. Por outro, cruzou sabres com os Fariseus, que eram, de alguma forma e em alguma medida, algo como o que se pode dizer a ala teológica dos zelotes.

Outra razão pela qual Jesus parece não ter sido um zelote é que seus discípulos não foram presos após sua execução. Fossem eles rebeldes presumidos e as forças de ocupação imperial, muito provavelmente, teriam se movido para varrê-los do mapa. Pode ser que tenha havido uma pitada de militantes políticos entre seus discípulos, mas as autoridades romanas parecem ter enxergado claramente que o movimento de Jesus não intencionava colocar o Estado abaixo. Não foi por isso que o seu dirigente máximo foi, por fim, crucificado.

Teriam certamente soado o alerta caso Jesus tivesse se proclamado Messias; já que o Messias era visto pela maioria como um militante político disposto a colocar o Estado de Israel de pé novamente. Mas Jesus não se proclamou Messias, exceto em duas ocasiões, ambas as quais historicamente ambíguas. De qualquer forma, a ideia de que um errante carismático e sua comitiva desarmada – grande, porém não massiva – pudesse destruir o Templo, ou derrubar o Estado é absurda, assim como as autoridades judaicas e romanas devem ter reconhecido à época. Havia forças suficientes para parar-lhes os pés: milhares de guardiães templários, para já não dizer nada sobre as guarnições romanas.

Pode ser que a ação violenta de Jesus – na tentativa de varrer do Templo os usurários cambistas, navegando nas adjacências das perigosas águas da Blasfêmia – tenha sido o suficiente para que seus antagonistas o pregassem na Cruz. Pôr para correr cambistas não foi, contudo, um gesto de intenção “anti-capitalista”. Jesus teria posto de pernas para o ar as mesas de cambistas e pequenos vendilhões, e, daí, declarado o lugar como um covil de bandidos; mas o excesso retórico de tais palavras é hoje, sabidamente, um acréscimo póstumo. Ele provavelmente significava não mais do que a destruição do Templo de um modo tão-só meramente simbólico, mais do que expressão de um intempestivo desgosto, para com esse ato de ganância mercantilista.

Ele – mais provavelmente – teria sido condenado por insubordinação e entregue à lei como um perigo à Ordem pública. Pôncio Pilatos provavelmente enviou Jesus à morte como um candidato a Messias mesmo que ele, ou o próprio Jesus, não acreditasse que assim o fosse. O Messias (ou “Christos”, em grego) era considerado pelos judeus como uma figura-guerreira, da alta realeza, ao passo que a satírica entrada de Jesus em Jerusalém, montado este no traseiro de um jumento, pode ser lida como um gesto anti-messiânico por excelência, um satírico tapa na cara ao gosto de todas essas distintas noções do que é soberania militar.

Era Jesus, então, um líder “espiritual” mais do que um dirigente político propriamente dito?

Para Jesus, não poderia haver negociação alguma entre o domínio da justiça – o chamado “Reino de Deus” – e os poderes deste mundo terreno. Neste quesito, ele confrontou seus próximos com absoluta decisão. Não importava se estes fossem a favor ou contra ele, não lhes foi permitido qualquer meio-termo liberal. O que estava em jogo não era uma questão de reformas – de “servir vinho novo em velhas garrafas” –, mas todo um inimaginável novo regime o qual, na visão de Jesus, já estava vindo à tona impetuosamente neste mundo; e do qual ele se considerava tanto prenúncio como encarnação. Neste sentido muito específico, foi um vanguardista revolucionário, e não-reformador social.

Tal qual o socialismo para Marx, o domínio da justiça é tanto imanente no presente quanto um objetivo a ser conquistado no futuro. Mas não pode haver transição suave – do velho para o novo –, à maneira de algum socialismo evolucionário. Dada a urgência, e a severidade, de nossa condição – a que os Evangelhos se referem como o “pecado do mundo” – alcançar uma Ordem social justa envolve passar pela morte, pela condição do nada mais absoluto, pela turbulência irascível e pelo auto-despojamento radical.

Uma razão essencial para que Jesus e seus seguidores esperassem a chegada iminente do Reino dos Céus é que eles não tinham sequer a noção de que a atividade humana poderia jogar qualquer papel de auxílio em sua instauração na Terra. Para os primeiros cristãos, tal reino era, sobretudo, um dom de Deus, e não um ato histórico. Não podia haver espaço para uma tal política teológica na visão dos Evangelhos, razão pela qual Jesus não foi um revolucionário no sentido em que Lenin o fora. Ele não poderia sequer ter sonhado em ser um leninista porque não estava disponível, à época, qualquer concepção de mundo afim à auto-determinação histórica. O único tipo de conceito de história que poderia importar era a Heilsgeschichte ou, trocando em miúdos, algo como História da Salvação ou História Sagrada

O cristianismo, portanto, pode ser considerado uma visão de mundo mais pessimista que o humanismo secular, ao mesmo tempo em que é infinitamente mais otimista. Por um lado, é de um severo realismo em relação à teimosia da persistente condição humana – a perversidade do desejo humano, o prevalecimento da idolatria e/ou da auto-ilusão, o escândalo mesmo do sofrimento, a enfadonha continuidade da opressão e da injustiça, a carência de qualquer virtude pública, a insolência dos poderes, a fragilidade da bondade, e o insaciável apetite, por poder, e por interesses próprios.

Por um outro lado, sustenta que não só a redenção desta desafiante – e terrível – condição é possível mas que, surpreendentemente e, em certo sentido, já aconteceu. Nem mesmo o mais torpe mecanicista dos marxistas poderia proclamar – hoje em dia – que o socialismo é inevitável, e, muito menos, que ele já surgiu, sem que nos tivéssemos dado conta. Para a fé cristã, no entanto, o advento de tal reino é assegurado, uma vez que a vinda de Jesus do mundo dos mortos já o teria fundado. Uma nova polis – uma cidade futura – é possível em base a um corpus transfigurado. E isso é, tradicionalmente, concebido enquanto “ressurreição”.

Então, Jesus foi um revolucionário ou não? Não nos termos que um Lenin ou Trotsky o teriam reconhecido. Mas isso por que era menos revolucionário do que eles foram, ou ainda mais? Certamente menos, por que não defendia a superação da estrutura de poder que se lhe confrontava. Mas assim o fazia, entre outras razões, porque esperava que logo este seria varrido para longe por uma forma de existência mais perfeita em justiça, paz, camaradagem e exuberância de espírito do que até mesmo os camaradas Lenin e Trotsky poderiam ter sequer imaginado. Talvez a resposta desconcertante não seja que Jesus era menos ou mais revolucionário, mas que era tanto mais quanto menos.

Este é um trecho editado da introdução de Terry Eagleton para Os Evangelhos, publicado pela Verso a £ 7,99.

1 de dezembro de 2007

"Ostalgia", horror global e renovação das lutas

O 90º aniversário da Revolução de outubro de 1917

Jean Salem


No seu livro publicado em 1994 “A Era dos Extremos”, Eric Hobsbawm evoca o exemplo de um casal de jovens alemães, durante algum tempo namorados, a quem a revolução bávara dos sovietes mudou a vida: Olga Benário, filha de um próspero advogado de Munique, e Otto Braun, maestro. Olga chegou a consagrar a sua vida à organização da revolução... no hemisfério ocidental. Nada menos. Esteve ligada e depois casada com Luís Carlos Prestes, que tinha encabeçado uma longa marcha insurrecional através das selvas do interior do Brasil. Em 1935, a tentativa de insurreição fracassou e as autoridades brasileiras entregaram Olga à Alemanha hitleriana, onde encontrou a morte num campo de concentração. Otto, com mais sorte, propôs-se na mesma altura participar na revolução no outro lado do mundo, na qualidade de perito militar do Komintern na China. Foi o único estrangeiro a tomar parte na “Longa Marcha” dos comunistas chineses, antes de voltar a Moscou e finalmente à RDA. Pergunta Hobsbawm “Quando, senão na primeira metade do século XX, poderiam estas vidas interligadas ter seguido uma trajetória assim?” [1]

O século, que praticamente tinha começado com os massacres da primeira guerra mundial e com a boa nova da revolução na Rússia, tinha efetivamente distribuído o jogo de uma maneira realmente muito simples: ser revolucionário era cada vez mais ser partidário de Lênin e da Revolução de Outubro de 1917, quer dizer, ser membro ou “companheiro de estrada” de algum partido comunista no seio de um movimento mundial cujo centro se encontrava em Moscou. Os melhores, os “profissionais” deste movimento revolucionário internacional, como dizia Bertolt Brecht num poema que lhes dedicou, “mudavam de país como quem muda de sapatos”.

Um pouco de história

No século XIX, o estado russo (gosudarstvo) ainda estava representado como assunto do soberano (gosudar’) e todos os russos tinham de prestar juramento de fidelidade ao czar desde o momento da sua chegada ao poder. O imperador não era um simples césar civil, era além disso o “defensor e guardião”, uma espécie de “papa” da religião ortodoxa. É verdade que em 19 de fevereiro (3 de março) de 1861 foi promulgado finalmente pelo czar Alexandre II o “Estatuto geral dos camponeses libertos da servidão”. Porém, nos anos seguintes, sobretudo a partir da chegada de Alexandre III em 1881, a política interior russa esteve quase exclusivamente marcada pelo “triunfo da reação” [3].

Pode-se observar, a este respeito, uma constante na história das revoluções: até à própria véspera de eclodirem, tudo se passa como se os privilegiados, em vez de fazerem algumas concessões, mesmo que pequenas, o que poderia pelo menos atrasar o inevitável desenlace, se tornassem cada vez mais intransigentes perante a ideia de lhes ser retirado o mais ínfimo dos privilégios. Sob este ponto de vista, a época que estamos vivendo poderia parecer rica em promessas! Porque, se esquecermos ainda que por um instante as exibições caritativas e as palhaçadas do pretenso “comércio justo”, mal se vê quem, de entre os senhores da guerra econômica mundializada, se vai preocupar seriamente com limitar os colossais lucros das grandes empresas internacionais ou com redistribuir menos desigualmente os fabulosos benefícios que acumulam. E é curioso verificar com que encarniçamento a nobreza russa no reinado de Alexandre III (1881-1894) e inclusivamente no de Nicolau II (1894-1917) tentou restabelecer a sua situação material e insistir naquilo que os seus ideólogos denunciavam, depois da abolição da servidão, como uma intolerável “fusão de castas”. Do mesmo modo, na França do séc. XVIII, a capitação (do latim caput – imposto ‘por cabeça/pessoa’, imposto estabelecido desde 1701 e que teoricamente abrangia todos os franceses) foi rapidamente eludida pelo clero e pelos nobres, que dela ficaram isentos. De igual modo, com a talha (outro imposto direto), que acabou por recair unicamente sobre os plebeus. E também em 1786, quando a dívida ameaçava as finanças reais e Calonne ministro de Luís XVI tentou debelar a crise tornando o imposto menos injusto e chocou também ele com uma verdadeira revolta da nobreza, uma reação aristocrata que anunciava e deu impulso à Revolução Francesa.

O "ensaio geral"

Há nos nossos dias quem fale de bom grado de uma “modernização incompleta”, de uma “transição perdida”, de uma Rússia que teria estado em plena mutação desde o início do século XX e cuja evolução histórica teria sido revertida, ou quase, pela revolução bolchevique! De um czar que bem o teria querido, mas que, por falta de tempo, não conseguiu. De promessas de ampliação do papel concedido a uma assembleia (a Duma) até então condenada a ser ou o traseiro, ou... dissolvida. A eclosão desde finais do século XIX de uma burguesia que incluía desde os simples comerciantes até aos novos “reis das ferrovias”, passando pela intelectualidade urbana, o esboço de um autêntico proletariado (mais de 3 milhões de operários desde 1900) e simplesmente o largo rio tranquilo da história, tudo isso teria bastado, segundo dizem, para fazer a Rússia entrar sem demasiados sobressaltos na modernidade comparável à de outros países europeus do ocidente. Falando claramente, o poder comunista teria matado no ovo as melhores das intenções, que como se sabe apenas aguardam que as levem a cabo... Vivemos, afinal de contas, uma época de contra-revolução, uma época de Restauração e este tipo de contraverdades não deve surpreender-nos. São porém difíceis de acreditar quando lemos, por exemplo, o Diário do príncipe Metchtcherski, confidente do czar Alexandre III: “O que o povo mais teme é o chicote”, escrevia este grande liberal. “Onde existir o látego reina a ordem, desaparece o alcoolismo, o filho respeita o pai e nota-se grande prosperidade”. Quanto aos fuzilamentos e outras execuções em massa praticadas correntemente sob o ministério de Stolypin (1906-1911), não parece que tal seja típico do que normalmente se entende por “democracia”.

Um país essencialmente rural

Nas vésperas da 1ª guerra mundial, a civilização urbana era ainda um artigo de importação. As reformas de Pedro o Grande (que reinou de 1682 a 1725) tinham-na imposto e foi depois sendo aperfeiçoada com uma Rússia oficial europeizada, concentrada em Moscovo e em Petersburgo, que dominavam de longe um país predominantemente rural. Três quartos da população do Império russo dedicavam-se directamente à agricultura. Tradicionalmente, a propriedade individual da terra não existia a não ser para os nobres e alguns comerciantes. O solo cultivável pertencia às comunas camponesas (no ocidente fala-se do mir [comunidade agrícola na Rússia czarista], os russos preferem dizer obchtchina, “a comuna”). Cada família possuía a título perpétuo a sua casa, assim como o recinto onde se levantava o estábulo, o armazém e uma pequena horta, mas os campos e os prados eram comunais. Na condição de que provessem o exército de recursos, pagassem os seus impostos e fornecessem os serviços que lhes eram requeridos, os camponeses geriam-se e julgavam-se entre si. As nossas costas pertencem ao senhor, dizia um antigo provérbio russo, mas a terra é nossa. As comunas repartiam as parcelas aráveis entre as famílias proporcionalmente às necessidades e à capacidade de trabalho de cada uma. Redistribuíam-nas regularmente com o objectivo de manter a igualdade constantemente ameaçada pelo aumento ou diminuição do número de bocas a alimentar em cada lar. Marx interessou-se muito de perto por este sistema tão peculiar. Para Herzemy, mais tarde, para os populistas russos do séc. XIX, havia aí inclusivamente todas as possibilidades para um socialismo russo original. Porém, a penetração do capitalismo no campo teve como primeiro efeito decompor o mir igualitário e permitiu a um pequeno grupo de camponeses mais favorecidos, os kulaks, escaparem à pauperização da maioria. Por isso, Lenine, como marxista, considerava que num país como a Rússia, apesar deste predomínio do elemento camponês, a aliança dos operários e camponeses devia fazer-se sob a direcção do proletariado. De um proletariado por certo notavelmente menos numeroso, mas mais organizado e menos desarmado frente ao poder do dinheiro, que acabava de cair com todo o seu peso sobre um mujique todavia meio servo.

Dias Cruciais

Dez anos depois do “ensaio geral” de 1905-1907 (em 1905, Dezembro, tentativa de insurreição afogada em sangue e metralha, em Moscovo), dez anos depois desta primeira revolução russa que tinha surgido quando o exército imperial sofria derrota atrás de derrota na guerra que o governo de Nicolau II tinha desencadeado contra os “macacos” japoneses (o mesmo mote foi aplicado ao czar), apenas dez anos mais tarde, a Revolução de Outubro de 1917 teve também como marco e como causa imediata a guerra, a guerra desta vez mundial, a guerra esse incomparável “acelerador da história”, segundo a fórmula de Lênin.

Por duas vezes, o exército russo se lançou prematuramente na ofensiva para aliviar o exército francês, primeiro na sua retirada da Bélgica e depois quando da batalha do Marne. Foi um duplo desastre. A campanha de 1915 não foi menos desastrosa: depois da queda de Varsóvia, os alemães penetraram na Rússia branca, assim como nos países bálticos. Até Petrogrado se viu ameaçada. Bloqueada pelo Báltico e pelo Mar Negro, obrigada a abastecer-se por Vladivostok e por Murmansk, a Rússia estava submetida a um verdadeiro bloqueio. Em finais de 1916, a alta de preços alcançava conforme os sectores de 300 a 600% e os soldados “votavam com os pés”: nos últimos meses da guerra, um milhão tinha desertado! Para melhor apoiar a ideia de que, fosse como fosse, havia que assinar uma paz ainda que humilhante com a Alemanha (Brest-Litovsk, 3 de Março de 1918), ou, dito de outra maneira, para convencer que se se queria salvar a incipiente revolução era vital perder provisoriamente espaço para ganhar tempo, Lenine repetirá insistentemente esta fórmula-choque: o sangue afoga os soldados [4]. A guerra tinha que acabar o mais rapidamente possível.

Entretanto, tiveram lugar uma série de acontecimentos absolutamente extraordinários. O regime do czar afundou-se quando uma manifestação de operários por ocasião do dia internacional da mulher a 23 de Fevereiro [8 de Março] e uma paragem de trabalho massiva nas fábricas Putilov desembocaram numa greve geral seguida por 90% dos 400.000 operários de Petrogrado. A tropa recusou-se a disparar contra as pessoas e acabou por amotinar-se. Nicolau II teve que abdicar a 3 de Março e dar lugar a um “governo provisório”. Este governo (ou melhor, esta sucessão de governos) dominado primeiro pela figura do príncipe Lvov e depois, a partir de Julho de 1917, pela de Kerenski, vai ver-se obrigado de facto a partilhar o poder até à sua própria queda com uma quantidade de conselhos (soviets) surgidos espontaneamente. Os bolcheviques não obtiveram neles de imediato a maioria. A timidez da política social posta em marcha pelo governo provisório, os apelos de Kerenski para uma “ofensiva revolucionária” contra… os alemães e o desmembramento absolutamente fictício dos grandes latifúndios em benefício de fantoches e testas-de-ferro, não tardaram a tornar imensamente popular o slogan dos bolcheviques que pedia “Pão, Paz e Terra!”. No campo, os incêndios, as pilhagens e as ocupações dos grandes latifúndios multiplicaram-se: os camponeses puseram-se a cultivar, a semear e a segar sob a aprovação dos comités agrários locais. Depois, o fracasso do golpe do general faccioso Kornilov acelerou as coisas. A 23 de Outubro, o governo tentou pôr fim pela força à agitação bolchevique. Em vez disso, o que conseguiu foi uma insurreição que levou à tomada do Palácio de Inverno (26 de Outubro) e aos primeiros decretos promulgados pelo novo poder soviético: o decreto sobre a paz e o decreto sobre a terra (“a grande propriedade foi imediatamente abolida sem qualquer indemnização...”).

Enquanto Staline considerava, tal como os mencheviques, não estar a situação ainda madura, a “posição leninista” foi como escreveu Slavoj Zizek a “de se lançar, precipitar-se sobre o paradoxal da situação, aproveitar a oportunidade e intervir, inclusive podendo a situação ser ‘prematura’” (5). “Esperar para actuar, é a morte”, “há que encontrar solução a todo o custo para esta questão, esta mesma tarde ou esta noite”: foi o que Lenine disse e repetiu na noite de 24 para 25 de Outubro de 1917, quando lançou do Instituto Smolny a palavra de ordem da insurreição contra um governo provisório que pairava no vazio (6). Aos que lhe censuravam o “aventureirismo”, poderia ter respondido remetendo para Marx: “Seria evidentemente muito cómodo fazer história se só se tivesse que lançar a luta com a sorte infalivelmente a favor” (7).

Quanto à ideia de revolução, tentei formular a partir de um exame sistemático das Obras Completas de V.I. Lenine seis teses fundamentais que durante o último quarto de século muitas esquerdas “respeitáveis” calmamente apagaram, inclusivamente desautorizaram com violência ou simplesmente censuraram:

  1. A revolução é uma guerra e a política é, de maneira geral, comparável à arte militar. 
  2. Uma revolução política é também e sobretudo uma revolução social, uma alteração na situação das classes em que se divide uma sociedade.
  3. Uma revolução faz-se de uma série de batalhas. É ao partido de vanguarda que compete conferir uma palavra de ordem adaptada à situação objectiva em cada etapa e cabe-lhe reconhecer o momento oportuno da insurreição. 
  4. Os grandes problemas da vida dos povos nunca são resolvidos a não ser pela força.
  5. Os revolucionários não devem renunciar à luta em favor das reformas. 
  6. Na era das massas, a política começa onde se encontram milhões de homens, incluso dezenas de milhões. Há que notar além disso o deslocamento tendencial dos focos de revolução para os países dominados.

Defesa e consolidação da Revolução

1917: não se trata de um trono que simplesmente se desmorona, não é um regime monárquico que vai ser substituído por um regime parlamentar, não são estas ou aquelas reformas que se vão levar a cabo, para o povo russo foi, como escreveu Pierre Pascal, “uma imensa revolta contra todas as iniquidades, as opressões, as crueldades, as hipocrisias, contra o grande escândalo da guerra, uma imensa aspiração à felicidade de todos os homens. Os poderosos serão arrancados das suas sedes e os pobres serão exaltados!” (8). Paz para todo o universo! “Alegrai-vos”, escrevia já em abril de 1917 o poeta Serguey Esenin. “A terra prepara-se para um novo batismo!” [9].

O novo regime manteve-se graças à existência de um partido comunista centralizado e disciplinado, integrado por 600.000 membros. Era além disso o único que podia evitar a desintegração de uma Rússia ameaçada de perder o essencial da sua coesão, como aconteceu com outros antigos impérios multinacionais (Austro-húngaro, Turquia). Por outro lado, a revolução permitiu ao campesinato tomar posse da terra. E as intervenções externas (britânica, americana, japonesa, polaca, etc.) e a contra-revolução branca? Conseguiu resistir-lhes vitoriosamente, não sem a ajuda da formidável onda revolucionária que nessa altura varria o planeta (em Berlim, na Hungria, mas também no México e, em menor grau, na Argentina, na Indonésia…). Foi suficientemente sólida para conseguir repelir e finalmente esmagar, 25 anos mais tarde, a invasão dos exércitos nazis, que cometeram espantosos massacres e causaram a morte a 30 milhões de cidadãos soviéticos.

Alcance da Revolução Soviética

Este 90º aniversário confirma-o: vivemos numa época de dupla impostura. A primeira consiste em apresentar o anticomunismo como uma análise da URSS. Alain Besançon, antigo comunista e “sovietólogo” como tantos outros, dizia: “O problema do especialista em questões soviéticas não é principalmente, como acontece noutros domínios, actualizar conhecimentos. A grande dificuldade está em considerar verdadeiro o que alguns têm como inverosímil, em acreditar no inacreditável” (10). A segunda das imposturas consiste, na expressão de Moshe Lewin, em “estalinizar” o conjunto do fenômeno, o qual, não teria sido mais do princípio ao fim que um imenso gulag, uniforme e contínuo (11). Mais um passo e chega-se a assimilar comunismo e nazismo utilizando a muito grosseira noção de “totalitarismo”, do que resulta nas cabeças de galinha norte-americanas que 40% dos jovens estejam convencidos segundo se diz que a segunda guerra mundial opôs os EUA... à URSS! Em nome desta ideia rasteira, deste tosco espantalho, um antigo comunista avisou-me, muito a sério, que tínhamos de desconfiar do Movimento dos Sem Terra... Criminalização do ideal comunista, autofobia de antigos comunistas que não vêem inconveniente em se julgarem atores de uma história da qual o menos que se pode sentir é... vergonha: são estas entre outras as consequências do desaparecimento do campo socialista e a inaudita arrogância dos vencedores do momento. Esta farsa sinistra tem consistido em fazer passar pela mesma mistificação os mais generosos sonhos de dezenas e dezenas de milhões de homens e mulheres através do planeta, sonhos que, durante décadas, acompanharam a existência do “socialismo real”, em reduzi-los ao mesmo nível dos obscenos arrebatamentos daquelas multidões que os fascistas só galvanizaram à custa de apelos ao ódio e incitamento à selvajaria, e em fazer-nos admitir que a vulgaridade neoliberal é um mal menor e que portanto deve ser este o único horizonte.

Quer isto dizer que não se passou nada? Que não se cometeu nenhum crime? Que Evguenia Guinzbourg não descreveu em páginas pungentes a loucura da vida num regime de concentração que não a fez mudar de ideal? Que o terror não pesou sobre o país durante pelo menos largos anos como uma esmagadora chapa de chumbo? De modo nenhum. Apenas pergunto se, à força de pretender que é indecente fazer contas ao Grande Comandante quanto ao terror, haverá fundamento para proferir acusações mais desmedidas que qualquer número determinável e assim banalizar os montes de dentes de ouro armazenados nos campos de extermínio nazis, as cabeças ressequidas de prisioneiros utilizadas como pisa-papéis pelos senhores das SS, os quebra-luzes de pele humana, as diabólicas experiências de médicos saídos do inferno, etc. Exijo, antes de como muitos fizeram me entregar sem mais à autoflagelação dos vencidos, nós que do comunismo conhecemos sobretudo a rectidão, as esperanças luminosas e o heroísmo que caracterizava os nossos maiores, exigimos que se nos diga de forma algo mais precisa de quê nos estão a falar, qual a escala dos crimes em questão. Porque, quando tinha 15 anos, em 1968, quer dizer 45 anos depois dos factos, os historiadores falavam de 3 ou 4 milhões de mortos nas duas grandes vagas de repressão dos anos 30 (anos 1930-33 e 1935-38), ao passo que a partir de 1975 começaram a circular os números mais demenciais (100 ou mesmo 140 milhões de vítimas!).

Um mundo sem União Soviética

No plano internacional, tal como escreve A. Badiou, os Estados socialistas provocaram suficiente medo aos Estados imperialistas para “os obrigar, tanto externa como internamente, a cautelas cuja falta tanto sentimos hoje” (13). Evidência cada dia mais clara: a simples existência desse campo de enfrentamento, isso a que um presidente norte-americano não teve vergonha de chamar “império do mal”, impediu durante mais de 70 anos o “mundo livre” de revelar tão abertamente como o faz hoje as suas verdadeiras normas: guerras, miséria, desemprego em massa, prostituição, tráfico de droga e armas, empobrecimento absoluto e lobotomização generalizada das grandes massas, etc. O domínio absoluto do capitalismo vem trazendo grandes sofrimentos a centenas de milhões de pessoas, tanto no interior como no exterior dos países ex-socialistas. Como nos parecem distantes aquelas incríveis declarações dos anos 91-92, segundo as quais o desaparecimento da União Soviética constituía uma oportunidade para os revolucionários do mundo inteiro! Uma hipoteca menos para os “puros”, aquelas almas nobres que, ao fim e ao cabo, tinham desejado a revolução mas… sem prejudicar nem ofender ninguém, o progresso social mas sem essa União Soviética, sempre demasiado “branda” ou demasiado “dura” aos seus olhos altaneiros, para todos aqueles que clamavam e ainda hoje clamam por uma revolução... sem revolução.

De facto, ao contrário do que se pensa, a URSS em 1991, por muito “bloqueada” ou ofegante que estivesse, não “caiu por si”! Não terão o princípio da “guerra fria” e o seu desfecho final, depois do intermezzo de trégua da “distensão” dos anos 72-80, estado marcados por dois avisos militares dos mais explícitos? Foram ameaças não apenas de guerra, mas de guerra total ou aniquilamento: a destruição de Hiroshima e Nagasaki decidida por Truman e o programa da “guerra das estrelas” lançado por Ronald Reagan (14). Ninguém, ou quase ninguém dos que descreveram o fim da URSS como uma simples “desintegração”, como um simples falhanço, como uma avaria mecânica, se terá dado conta de que um dos objectivos da Iniciativa de Defesa Estratégica (IDS), lançada em 1983 pela equipa de Reagan, era “pôr de joelhos a potência soviética”, quebrá-la para depois a arruinar através do relançamento desenfreado da corrida aos armamentos. Por isso, nos parece absolutamente evidente o carácter mistificador das categorias que pretendem definir como processo puramente espontâneo e interno uma crise que não se pode separar da formidável pressão exercida pelo campo contrário. E a categoria de “implosão” ou de “colapso”, assim como todos os seus sucedâneos enumerados acima, poderia portanto participar perfeitamente de uma mitologia apologética do capitalismo e do imperialismo. Conforme escreve Losurdo, já não serve para mais do que “coroar os vencedores” (15).

Hoje

Concluamos. Talvez se tenha notado que nada dissemos até agora sobre uma população cada vez mais empobrecida, humilhada, forçada a recorrer ao plano B para sobreviver, nem sobre a diminuição da esperança de vida na Rússia, nem sobre o fato da pequena tela ter chegado a ser ócio predominante nesse país coberto até nas mais afastadas aldeias por uma vasta rede de teatros e cinemas, associações artísticas e desportivas, conjuntos musicais e bibliotecas.

A exploração do homem pelo homem, o desemprego, a pilhagem capitalista das enormes riquezas da União Soviética (nada se soube disto durante décadas) são os sinais mais tangíveis da situação que se seguiu à contra-revolução e afundamento da URSS. Nada dissemos sobre essa inegável nostalgia (ost-algia, dizem os alemães referindo-se à Alemanha de Leste) sentida por muitos de entre os menos jovens pelos tempos passados.[1] O direito a um trabalho fixo, a jornada de 7 horas, ou mesmo 6 horas (instaurada em 1956), assim como a semana de 5 dias, o direito a ensino gratuito, aos cuidados sanitários e à protecção social, a alugueres de baixo custo, a reforma fixada aos 55 anos para as mulheres e aos 60 para os homens, tudo isto resulta da revolução de Outubro. O regime que saiu de Outubro de 1917 estabeleceu além disso os fundamentos da abolição da discriminação e opressão das mulheres. Aliviou-as de numerosas responsabilidades familiares, criando um sistema gratuito de serviços sociais geridos pelo Estado. Desde o primeiro momento da sua criação, tentou fazer recuar preconceitos, alguns milenares. O poder soviético soube gerir o seu imenso território praticando uma espécie de “internacionalismo interno” como nunca o fez nenhuma outra potência com as suas colónias, levantar um sistema internacional através dos primeiros planos quinquenais de antes da guerra e, quando era o caso, reformar-se. São outros tantos factores que testemunham avanços muito espectaculares em relação com a antiga Rússia.

Podemos dizer que a questão do balanço do período histórico iniciado com a Revolução Soviética e com a chegada de Lenine ao poder continua a estar manifestamente em aberto. Podemos dizer que regressará em breve uma reabilitação mais que parcial de Outubro de 1917 e do “socialismo real” com a renovação das lutas e a restauração da esperança.

Notas:
1. E. J. Hobsbawm, “L’Âge des extrêmes. Le Court XXe siècle, 1914-1991”, Éditions Complexe / Le Monde diplomatique, p. 109.

3. Tomo esta expressão de um livro já muito antigo de B. Mouravieff : “La Monarchie russe [A monarquia russa]”, Paris, Payot, 1962, p. 186.

4. V. I. Lenine, “Relatório à sessão do Comitê executivo central da Rússia de 23 de fevereiro de 1918.”

5. S. Zizek, “Vous avez dit totalitarisme?” [Disse totalitarismo?], Paris, Éditions Amsterdam, 2005 ; rééd. 2007: p. 120.

6. V. I. Lenine, “Carta aos membros do Comitê Central”, Outubro (6 de Nov.) de 1917.

7. Cf. V. I. Lenine, Prólogo à tradução russa das cartas de K. Marx a L. Kugelmann [1907], igualmente a carta de Marx a Kugelmann de 17 de Abril de 1871

8. P. Pascal, “Civilisation paysanne en Russie” [Civilização camponesa na Rússia], Lausanne, L’Âge d’homme, 1969, p. 121.

9. S. Essenin, “Apelo cantando:

Радуйтесь !
Земляпредстала
Новой купели !

10. A. Besançon, “Court traité de soviétologie à l’usage des autorités civiles, militaires et religieuses” [Breve tratado de sovietologia para uso das autoridades civis, militares e religiosas] (Préface de R. Aron), Paris, Hachette, 1976, p. 19.

11. Cf. M. Lewin, "Dix ans après la fin du communisme. La Russie face à son passé soviétique" [Dez anos após o fim do comunismo. A Rússia face ao seu passado soviético], in Le Monde diplomatique, dezembro, 2001.

12. Cf. GINZBURG, E.S., “El vértigo” [A vertigem], Barcelona. Galaxia Gutenberg, 2005 e El Cielo de Siberia, Barcelona, Argos Vergara, 1980

13. BADIOU (A.), “De quoi Sarkozy est-il le nom?” [Sarkozy é nome de quê?], Paris, Lignes, 2007, p. 125.

14. Cf. LOSURDO (D.), “Fuir l’histoire?” [Fugir da história?], Paris, Le Temps des cerises, 2000 ; rééd. Paris, Delga, 2007: p. 31.

15. Ibid., p. 32.