15 de junho de 2009

Estúpidas demais para sobreviver

por James Howard Kunstler

Clusterfuck Nation

Ao voltar do encontro anual com os New Urbanists estava aborrecido com as trapalhadas da United Airlines - duas horas de atraso, conexão perdida - quando me deparei, no New York Times Sunday Magazine desta semana, com nova evidência de que as nossas elites dominantes são estúpidas demais para sobreviverem (e talvez os EUA com elas). O artigo principal da revista era sobre o projeto de alta velocidade ferroviária da Califórnia, proposto por Jon Gertner.

O artigo começava com uma descrição do atual serviço ferroviário da Califórnia entre a Área da Baía e Los Angeles. Uma comissão de crianças de nove anos num lugar como a Alemanha poderia conceber um sistema melhor, naturalmente. Ele nunca chega no horário. O equipamento estraga constantemente. Uma parte substancial da viagem exige uma transferência para um automóvel (juntamente com a bagagem de todas as pessoas) sem banheiro. Fica-se com o quadro de um Cazaquistão sem a competência básica.

A solução proposta para isto é o mais caro programa de obras públicas da história do mundo, num momento em que tanto o estado da Califórnia como o governo federal dos EUA estão efectivamente em bancarrota. A propósito, eu não argumentaria que a Califórnia não deveria ter comboio de alta velocidade. Isto poderia ter sido lindo se, digamos, no fim do século XX, algum governador com visão a longo prazo houvesse percebido que estava a acontecer em França, na Alemanha e na Espanha mas, ai de nós... Teria sido lindo, também, se o idiota George W. Bush, ao tratar da extrema congestão aeroportuária em 2003, houvesse considerado melhorias sérias no serviço normal de comboios para as muitas cidades dos EUA que distam 500 milhas [805 km] entre si. A ideia nunca entrou no seu cérebro de noz.

A triste verdade é que agora é demasiado tarde. Mas a triste verdade, neste ponto, é que os californianos (e o público estado-unidense em geral) beneficiariam tremendamente de um serviço ferroviário normal de acordo com os padrões de 1927, quando velocidades de 100 milhas/horas [161 km/h] eram comuns e os comboios circulavam absolutamente no horário (e frequentemente, também) sem computadores (imagine isso!). Os carris ainda estão lá, à espera de serem reparados. Na nossa condição actual de tecno-grandiosidade psicótica, isto tudo é irremediavelmente estranho, não suficientemente de vanguarda, pateticamente não-"quente". O facto de que isto nem sequer seja considerado pelos editores de The New York Times, para não mencionar o governador da Califórnia, o presidente dos Estados Unidos e todos os responsáveis de agências e chefes de departamentos e gurus de think tanks e professores de engenharia de universidades, é algo fará com que os historiadores do futuro arregalem os olhos. Mas no momento tudo o que isto mostra é que somos colectivamente demasiado estúpidos para sobreviver como uma sociedade avançada.

Ironicamente, uma notícia lateral no mesmo número de The NY Times Sunday Magazine descrevia o mais recente desvario de um arquitecto para um aeroporto-do-futuro (pg. 35). Nota para os editores e arquitectos: a aviação comercial está frita (apenas não sabemos disso ainda). Estamos de volta aos US$70 por barril de petróleo, a zona da morte para companhias de aviação.

Também ironicamente, provando que a América não está sozinha na doença do tecno-triunfalismo, havia outro grande artigo na mesma revista a apresentar as fantasias neo-modernistas do presidente francês Nicolas Sarkozy para vastos novos projectos de construção em Paris. Nota para Sarko: as zonas metropolitanas do mundo estão destinadas a contracções chocantes, não a novas expansões. Sei que isto é contra-intuitivo, mas um pouco de investigação aplicada confirmará isto. E, a propósito, a última coisa que qualquer cidade sobre a terra precisa é de mais arranha-céus – isto é, edifícios que não têm oportunidade de alguma vez serem renovados quando atingirem a etapa da senilidade na sua vida útil. Para declarações realmente alucinantes, aqui está uma que o artigo estampa: "Os problemas actuais de Paris como cidade podem ter origem na própria coisa que a torna deliciosa – a sua beleza". Certo. Assim, a solução será torná-la mais parecida a Houston.

Duvido realmente que o povo francês considere estes esquema algo mais plausíveis do que a proposta de 1924 do ur-modernista Le Corbusier de arrasar a metade da Rive Droite e substituí-la com dúzias de arranha-céus idênticos. O povo francês riu de Corbu e colocou os seus bairros pobres verticais fora do centro da cidade, mas note que nós americanos realmente fizemos isto, substituindo os nossos antigos centros de cidades em escala humana com conjuntos fálicos de tubos de vidro e aço cercados por lagoas de parqueamento. Seja como for, ninguém na OCDE terá a energia para executar qualquer coisa assim outra vez, nem mesmo a França com as suas centrais nucleares.

O que me traz de volta ao encontro anual New Urbanist da semana passada, em Denver. Dada a reunião de condições do que de diversas denominei A longa emergência ou o clusterfuck económico, eles tiveram de mudar o seu foco drasticamente. Durante anos, a sua especialidade foram os campos verdes da Nova Cidade ou o Desenvolvimento tradicional de urbanizações (Traditional Neighborhood Development, TND), uma reforma severa do desenvolvimento suburbano convencional. Aquela espécie de trabalho de reforma só era possível quando 1) a expansão contínua dos subúrbios parecia absolutamente inevitável, exigindo mitigação heróica; e 2) quando eles podiam associar-se com a produção dos construtores a fim de terem os seus projectos TND executados. Para crédito do grupo, eles perceberam que estas condições já não existem. Os subúrbios são agora abandonados, tanto como repositório de riqueza imobiliária como do ponto de vista prático da existência diária. Eles percebem que a crise de energia e todas as suas implicações são reais e que a nossa resposta a isto tem de ser hábil. Eles entendem que os recursos de capital que pensávamos ter para Grandes Projectos estão a voar para dentro de um buraco negro à velocidade da luz. Eles vêm sobretudo que o tempo para a moda de "vanguarda" com grandiosidade tecno-triunfalista está ultrapassado.

Para colocar isto directamente, o Congress for the New Urbanism (CNU) talvez seja a única sobrevivência de inteligência colectiva deixada nos Estados Unidos que está a produzir ideias consistentes com a realidade. Eles percebem que a nossa sobrevivência depende da redução de escala e da relocalização. Reconhecem a crise que enfrentaremos na produção alimentar e a necessidade desesperada de reactivar o relacionamento entre o modo como habitamos a terra e o modo como nos alimentamos. Reconhecem que a solução para a crise de combustíveis líquidos não são carros que possam circular por outros meios mas cidades passeáveis a pé e conectadas por transporte público.

É exactamente isto o não encontrará nas páginas de The New York Times ou nos corredores políticos do poder. Oh, a propósito, a administração Obama contactou um dos principais luminares do New Urbanism semanas após a possa. Ele nunca ouviu falar outra vez da Casa Branca. Imagino que não estão interessados.

PS: Alguns comentadores aqui adquiriram a ideia errada de que estou contra a "densidade urbana" ou cidades em si. Isto é uma leitura muita tola do que tenho dito muitas vezes. Sou fortemente favorável do habitat urbano a todos os níveis, desde a aldeia até a cidade, e na verdade sou a favor da concepção urbana "apertada" com definição fina. Apenas não acredito que as nossas gigantescas cidades "metroplex" continuarão a existir na sua forma actual. Elas não têm escala para as futuras realidades energéticas. As cidades podem bem re-densificar seus centros antigos mesmo enquanto se contraem em população e em área de governação total. Por que será tão difícil entender isto?

1 de junho de 2009

Tiananmen, 20 anos depois

Domenico Losurdo

Uno sguardo sulle ricerche de Domenico Losurdo

La gran prensa de "información" se dedica por estos días a recordar el vigésimo aniversario de la "masacre" de la plaza Tiananmen. Las alusiones "llenas de emoción" a aquellos acontecimientos, entrevistas de "disidentes" y editoriales "indignados" así como los múltiples artículos ya publicados o en preparación buscan cubrir la República Popular China de infamia y rendir solemne homenaje a la civilización superior del Occidente liberal. Pero, ¿qué fue lo que ocurrió realmente hace 20 años?

En 2001 fueron publicados, y posteriormente traducidos a los principales idiomas del mundo, lo que ha dado en llamarse los Tiananmen Papers [1] que, según sus presentadores, reproducen informes secretos y actas o minutas confidenciales del proceso de toma de decisiones que condujo a la represión del movimiento de protesta. Este libro, según las intenciones expresadas por sus promotores y editores, debería mostrar la extrema brutalidad de una dirección (comunista) que no vacila en reprimir una protesta «pacífica» desatando un baño de sangre. Pero una lectura cuidadosa del libro muestra un panorama muy diferente la tragedia que se desarrolló en Pekín entre mayo y junio de 1989.Veamos algunas páginas:

"Más de 500 camiones del ejército fueron incendiados simultáneamente en decenas de intersecciones [...] En el boulevard Chang’an, un camión del ejército se detuvo por causa de un problema en el motor y 200 individuos asaltaron al chofer y lo mataron a golpes [...]En la intersección Cuiwei, un camión que transportaba 6 soldados frenó para evitar golpear a la multitud. Un grupo de manifestantes comenzó entonces a lanzar piedras, cocteles Molotov y antorchas contra el camión, que en poco tiempo comenzó a inclinarse hacia el lado derecho ya que uno de sus neumáticos se había desinflado a causa de los clavos que los revoltosos habían regado. Los manifestantes incendiaron entonces varios objetos y los lanzaron contra el vehículo haciendo explotar el depósito de combustible. Los 6 soldados murieron en medio de las llamas." [2]

Los manifestantes no sólo recurrieron a la violencia sino que también utilizaron armas sorprendentes:

"Un humo verde-amarillo se levantó súbitamente al extremo de un puente. Provenía de un blindado averiado que se había convertido así en un elemento del bloqueo de la vía [...] Los blindados y tanques que habían acudido para despejar la vía se vieron inesperadamente detenidos uno detrás de otro al extremo del puente. Súbitamente, un joven llegó corriendo, lanzó algo sobre un blindado y huyó. En cuestión de segundos, se vio salir del vehículo el mismo humo verde-amarillo mientras que los soldados salían arrastrándose, se acostaban en el suelo y se agarraban la garganta, agonizantes. Alguien dijo que habían inhalado un gas toxico. Pero los oficiales y soldados, a pesar de su rabia, lograron mantener el control sobre sí mismos." [3]

Esos actos de guerra, con uso repetido de armas prohibidas por las convenciones internacionales, se combinan con iniciativas que dejan al lector aún más pensativo, como la difusión de una "imitación de la primera plana del Diario del Pueblo" [4]. Veamos ahora, del otro lado, las directivas que los dirigentes del Partido Comunista y del gobierno chino impartían a las fuerzas militares a cargo de la represión:

"Si llegase a suceder que las tropas sufriesen golpes y heridas hasta la muerte por parte de las masas oscurantistas, o si llegasen a verse atacadas por elementos fuera de la ley con barras de hierro, piedras o cocteles Molotov, [las tropas] deberán mantener la calma y defenderse sin hacer uso de las armas. Los bastones serán sus armas de autodefensa y las tropas no deben abrir fuego contra las masas. Las violaciones [de esta orden] serán castigadas de inmediato." [5]

O sea, según un libro publicado y promocionado en Occidente, ¡quienes dan muestras de prudencia y moderación no son los manifestantes sino más bien el Ejército Popular de Liberación! El carácter armado de la revuelta se hace más evidente durante los días siguientes. Un dirigente de primer plano del Partido Comunista llama entonces la atención sobre un hecho particularmente alarmante: "¿Los insurgentes han capturado blindados y han instalado en ellos ametralladoras sólo para exhibirlas?" ¿Se limitarán a una exhibición amenazante? A pesar de todo, las directivas impartidas al ejército se mantienen sin cambio substancial: "El Mando de la Ley Marcial quiere que quede claro para todas las unidades que es necesario no abrir fuego más que en última instancia." [6]

Hasta el episodio del joven manifestante que cierra el paso a un tanque, propagandizado en Occidente como símbolo del heroísmo no violento en lucha contra una violencia ciega e indiscriminada, es visto por los dirigentes chinos, también según el ya citado libro, desde una perspectiva muy diferente, de hecho completamente opuesta:

"Todos hemos visto las imágenes de un joven que cierra el camino a un tanque. Nuestro tanque le cedió el paso varias veces, pero el joven se mantenía ahí en medio del camino, e incluso cuando trató de subirse en el tanque, los soldados se contuvieron y no le dispararon. ¡Eso es muy significativo! Si los militares hubiesen disparado, las repercusiones habrían sido muy diferentes. Nuestros soldados siguieron a la perfección las órdenes del Partido. ¡Es asombroso que hayan logrado mantener la calma ante ese tipo de situación!" [7].

El hecho que los manifestantes utilizaran gases asfixiantes o tóxicos, y sobre todo la edición pirata del Diario del Pueblo, demuestra claramente que los incidentes de la Plaza Tiananmen no son una cuestión exclusivamente interna. Otros detalles aparecen en el libro tan celebrado en Occidente: "[La radio gubernamental estadounidense] Voice of America hizo un papel poco glorioso con su manera de echar leña al fuego." De manera incesante, The Voice of America: "transmite noticias infundadas y estimula los desórdenes". Además: "Desde Estados Unidos, Gran Bretaña y Hong Kong llegaron más de un millón de dólares de Hong Kong. Una parte de los fondos fue utilizada en la compra de tiendas de campaña, alimentos, computadoras, impresoras rápidas y material sofisticado para las comunicaciones." [8]

Otro libro, obra de dos autores orgullosamente anticomunistas, permite deducir lo que querían Occidente y Estados Unidos. Estos autores recuerdan que, en aquella época, Winston Lord –ex embajador en Pekín y consejero de primera línea del futuro presidente Bill Clinton– no había dejado de repetir que la caída del régimen comunista en China era «cuestión de semanas o de meses». Aquella predicción parecía basarse en el hecho que la figura de Zhao Ziyang se destacaba cada vez más en la cúpula del gobierno y del Partido. Y los dos autores estadounidenses subrayan que Zhao Ziyang debe ser considerado "probablemente el líder chino más proestadounidense de la historia reciente" [9]. En estos días, en entrevista concedida al Financial Times, Bao Tong, ex secretario de Zhao Ziyang y actualmente bajo arresto domiciliario en Pekín, parece deplorar el fracasado golpe de Estado al que aspiraban ciertas personalidades y círculos importantes en China y en Estados Unidos en 1989 mientras que el «socialismo real» se caía a pedazos. Pero, «ni un soldado prestó atención a Zhao», los soldados «seguían a sus oficiales, los oficiales a sus generales y los generales a Deng Xiaoping» [10]. Vistos retrospectivamente, los acontecimientos de hace 20 años en la Plaza Tiananmen tienen todos los ingredientes de un golpe de Estado abortado y de un intento fracasado de instauración de un Imperio mundial dispuesto a desafiar los siglos, etc.

Otro aniversario de aquellos acontecimientos tendrá lugar dentro de poco. En diciembre de 1989, sin haber sido precedidos ni siquiera por una declaración de guerra, los bombarderos estadounidenses desataban su fuego contra Panamá y su capital. Como demuestra el trabajo de reconstrucción de un autor, también estadounidense, la población de barrios [panameños] densamente poblados fue sorprendida en plena noche por una lluvia de bombas y fuego. Quienes perdieron la vida fueron principalmente «civiles pobres y de piel oscura». Más de 15 000 personas se vieron súbitamente sin techo. De hecho se trata del «episodio más sangriento» en toda la historia de Panamá [11]. Podemos dar por seguro que los diarios que tanto empeño ponen en llorar por lo sucedido en Tiananmen, apenas mencionarán el aniversario de la agresión [estadounidense] contra Panamá. En todo caso, ese ha sido su comportamiento a lo largo de todos estos años. Los grandes órganos de «información» son, en realidad, grandes órganos de selección de la información y de orientación y control de la memoria.

Notas:

[1] The Tiananmen Papers, documentos presentados pr Andrew J. Nathan, Perry Link, Orville Schell y Liang Zhang, PublicAffairs, 2000, 513 pp. Publicado en francés con el título Les Archives de Tiananmen, presentado por Liang Zhang, éditions du Félin, 2004, 652 pp.

[2] Op. cit., p. 444-45.

[3] Op. cit., p. 435.

[4] Op. cit., p. 324.

[5] Op. cit., p. 293.

[6] Op. cit., p. 428-29.

[7] Op. cit., p.486.

[8] Op. cit., p. 391.

[9] The coming Conflict with China, por Richard Bernstein y Ross H. Munro, Atlantic Books, 1997 (245 pp.), p. 95 et 39.

[10] «Tea with the FT: Bao Tong», por Jamil Anderlini, in Financial Times, 29 de mayo de 2009.

[11] Panama. The Whole Story, por Kevin Buckley, Simon & Schuster, 1991 (304 pp.).