27 de abril de 2012

Ypsilanti - Vampiros rondam o Dia do Trabalho

Peter Linebaugh

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Dedicado aos estudantes, novos e antigos, do Sudeste de Michigan e Noroeste de Ohio

Drácula

Tradução / No Dia do Trabalho, em 1890, um homem inglês comum embarcou em um trem em Munique. Seu destino era um castelo na Transilvânia, um país espremido entre as Províncias da Moldávia e Valáquia. Era uma noite escura e tempestuosa quando ele chegou.

“Você não sabe que hoje à noite, quando o relógio bater meia noite, todas as coisas diabólicas do mundo terão controle de tudo?” perguntou a proprietária de um hotel nas redondezas, implorando para que ele retornasse. Então, outras pessoas comuns o avisaram que era o sabá das feiticeiras. Despreocupado, ele seguiu ao castelo onde o terror mais puro o aguardava personificado em um monstro vampiresco. Conde Drácula, era esguio, educado e persuasivo – como o Presidente Obama. Era assustador, mutante e diabólico como George W. Bush. Era um morto-vivo – um zumbi ou um lobisomem – e viveria tanto quanto pudesse desfrutar de sangue humano.

Quanto à crise de nossas próprias vidas, em 2009, Matt Taibbi culpou os bancos, declarando que a Goldman Sachs era “um grande vampiro com tentáculos que envolviam a face da humanidade, enfiando avidamente seus caninos sugadores de sangue em qualquer coisa que cheire à dinheiro”.3 O Reverendo Edward Pinkney de Benton Harbor, em Michigan, ao fazer referência à “Gestão de Crise” que envolvida a sua cidade, disse: “ela atua em favor das corporações que sugam a vida das pessoas”. Bancos, companhias de seguros e corporações pertencem ao circuito do capitalismo, que é onde se inicia o sugamento. Quando Alan Harber, o primeiro presidente do SDS [Students for a Democratic Society], falou no último inverno na livraria Crasy Wisdom e no Tea Room, em Ann Arbor, sobre sua experiência no Occupy Boston e no Occupy Wall Street. Ele concluiu suas observações lembrando a todos que “o capital é um trabalho morto, [que] como um vampiro, vive exclusivamente de sugar o trabalho alheio e, assim, quanto mais trabalho suga, mais vive”.

Como o Dia do Trabalho de 2012 se aproxima em Ypsilanti, por todos os meios, vamos narrar os rituais das flores e da fertilidade e os contos dos antigos festivais populares; e, deixe-nos, certamente, celebrar a grande batalha pela jornada de trabalho de oito horas que atingiu seu ápice em Chicago, no Haymarket, em maio de 1886, e que originou o feriado dos trabalhadores pelo planeta, de leste a oeste, de norte a sul. Como a aposta da chegada de um Gestor de Crise (GC) paira sobre Ypsilanti – com poderes para anular contratos coletivos com os sindicatos, fechar escolas, negociar ativos públicos, expropriar terras municipais, tudo com o princípio da lei – devemos também saudar tal dia com o brilho realístico que vem das incertezas sobre a saúde, a moradia, os estudos e o ganha pão. Os caninos estão posicionados para nos sugar!

Nossos verdes parques foram transformados em tóxicos terrenos desolados e nossas terras comuns foram devastadas por efeito de um suposto e não identificado tipo de “desenvolvimento”. Nossa jornada de oito horas está prolongada por múltiplos empregos intermitentes ou ainda pelo tempo consumido nos cuidados com os mais velhos sem pensões ou com as crianças sem creches. Nossas vidas estão agora suspendidas por misteriosas forças denominadas de securitização ou financiamentos. A estas, nos submetemos atônitos, em puro desamparo e, através do rubor de nossas faces, nos lembramos que tais forças não são do que mais os sugadores de sangue de outros tempos. Voltaire escreveu que “revendedores de ações, corretores e homens de negócios sugam o sangue do povo em plena luz do dia... esses verdadeiros vampiros vivem não em cemitérios, mas em palácios agradabilíssimos”.4

Estamos frente a uma crise de produção, sim, mas também frente a uma crise de reprodução. A produção pertence às fábricas, às precárias e insalubres empresas, minas e campos; é o domínio do comércio, da tecnologia e das commodities. A reprodução pertence às cozinhas, às famílias, às escolas, às comunidades; é o domínio da sociedade, dos serviços e de uma “commodity” muito especial que, de fato, não é de forma alguma uma commodity, mas antes seres humanos. A reprodução ocorre em vários ciclos e com variável duração. Pode significar a preparação cotidiana para o próximo dia ou a semana – as compras, o cozinhar, a limpeza etc. Ou pode ainda significar a preparação da próxima geração, iniciando com seu nascimento e se estendendo das fraldas à universidade. Michaela Brennan, uma enfermeira do serviço público na Packard Community Clinic, fora de Ypsilanti, suspirou quase em desespero: “Tantas pessoas precisam de cuidados!”.

O Reverendo Pinkney e a Grécia em torno de 2012

Benton Harbor está do outro lado do Estado, mas sua história também faz referência à Ypsilanti. O Reverendo Pinckney se opôs à expropriação dos parques que haviam sido transferidos à cidade centenas de anos antes, para que pertencessem a ela “para sempre”. Tais lugares são terras comuns. A Whirlpool Corporation queria a terra e então os empreendedores tinham em mente um campo de golfe para executivos e para os veranistas de Chicago. As pessoas do parque tiveram que ir e assim o fizeram. Quando eles se queixaram, um Gestor de Crises foi empurrado para a cidade. Os espaços comuns foram então privatizados, ficando reduzidos a 1 % do espaço original.

Um dos objetivos aqui é se opor aos GCs – em nome da democracia! – e, em nome das pessoas comuns, ao sistema capitalista por trás deles. Estamos sendo enganados!

Em 2007, o Reverendo Pinckney citou as escrituras para um juiz:

Maldito serás tu na cidade, e maldito serás no campo. Maldito o teu cesto e a tua amassadeira. Maldito o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e as crias das tuas vacas, e das tuas ovelhas. [...] O Senhor te ferirá com a tísica e com a febre, e com a inflamação, e com o calor ardente, e com a secura, e com crestamento e com ferrugem; e te perseguirão até que pereças (Deuteronômio 28:14-22).

O juiz considerou tais linhas ameaçadoras e ordenou que Edward Pinkney fosse preso por três a dez anos. Pinkney manteve sua luta dentro da cela, onde, apesar do ressentimento mútuo entre negros, brancos e pardos, ele coordenou cada um dos grupos e de modo coletivo conquistou melhores refeições para eles.

Um Gestor de Crises é um ditador. Na Roma antiga, Sulla era um dos patrícios que se opunha aos populares, os quais ainda estavam de luto com a morte daqueles que lhes eram próximos, do povo que era próximo aos tribunos Caius e Tibério Graco, cuja Lei Agrária redistribuiu terras dos patrícios e preservou as terras comuns para o povo, ou para o ager publicus. Sulla devastou Atenas até que o sangue corresse em suas ruas; em Roma, massacrou cinco mil prisioneiros. Em nome da crise, fez a si mesmo um “ditador” e assassinou seus amigos. Sua palavra era a lei e a lei era a morte. Ao povo romano eram oferecidos pão e circo; a nós, são oferecidos McDonald’s e golfe. Em Benton Harbor, o ager publicus foi privatizado; agora, não há mais pessoas e sim dezoito buracos.

Esse é um fenômeno global. Tomemos a Grécia, como exemplificação. De Thessaloniki, uma mulher chamada Anna escreveu-me: “Eu não sei se você está atento ao fato de que no último outono, ao invés de termos um governo eleito, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Europeu nomearam um governo emergencial para gerenciar a crise.” O gestor trabalhava para a Goldman Sachs. Ele inseriu um tubo para drenar um pouco de sangue.

Em dezembro de 2008, num bairro autônomo no centro ateniense, um estudante de quinze anos chamado Alexis Grigoropoulos foi fatalmente atingido por um tiro disparado deliberadamente por um policial. Lia Yoka, outra colega na Grécia, escreveu-me que o povo de Náuplia – uma cidade irmã de Ypsilanti naquele país – protestou, ocupando a Câmara Municipal e o Departamento de Teatro da Universidade do Peloponeso. Uma geração de jovens gregos despertou de uma década de torpor e reagiu com revolta: estudantes secundaristas e universitários, imigrantes, desempregados, trabalhadores precariados e outros ocuparam as ruas em tumultuosos protestos e os transformaram em símbolos para a população. Isso ocorreu em meio a “terapia de choque” na economia que surgiu como resposta à dívida grega. Um estado de exceção foi declarado.

O salário mínimo grego foi cortado em 25 %, sendo o mais baixo na Europa. Subsídios, benefícios e pensões foram destruídas. O desemprego entre os jovens está em 51 %. O que uma vez havia sido um estado de bem-estar social, com o Estado provendo alívio “do berço ao túmulo”, se tornou um estado penal que encarcera imigrantes e com detenções especiais criminaliza outros, incluindo aqueles jovens vestidos em moletons! Seis em cada dez lares gregos tiveram suas hipotecas cobradas em avanço; sete em cada dez estão em dívida por empréstimos; um em cada dois estão endividados por pagamentos aos cartões de crédito. Essa é uma crise de reprodução e as mulheres são as mais fortemente atingidas.

O terrorismo fiscal opera tanto emocionalmente quanto economicamente. A crise é vivida em uma multiplicidade de derrotas pessoais; culpa coletiva e auto-culpabilização se tornam um lugar comum e nem a organização dos trabalhadores nem os políticos parecem capazes de responder à altura. Um dia de greve geral, paralizações setorizadas dos trabalhadores dos metrôs, motoristas de ônibus, professores secundários, médicos, bancários e caminhoneiros também não têm sido eficazes em deter a intimidação à classe trabalhadores grega. Os suicídios aumentaram. O antidepressivo mais eficaz é a ação coletiva e, ainda assim, esta é criminalizada.

A situação realmente se assemelha ao castelo do Conde Drácula: as janelas lacradas dos bancos; as instransponíveis barreiras da securitização; os ferrolhos nas portas da financeirização; os intermináveis corredores dos Credit Default Swaps; as tortuosas escadarias das hipotecas perdidas; os pesados portões elevadiços da fiscalização. Todo ponto de vista está cercado e cada cidadão é vigiado pelo onisciente olho diabólico das câmeras de vigilância. Até mesmo o ministro do trabalho grego declarou que “haverá sangue”.5 Desejamos escapar.

Aqui, então, como se escrito por um poeta do século XIX, há uma história vampiresca de Ypsilanti; porém, esta não é uma história justa. É real, nos ensina algo e é uma história documentada que pode ser a sombra de um futuro que levará de volta ao passado. Poderia – deveria – gelar seu sangue, acelerar seu coração e aguçar sua fúria. Nós fomos enganados.

Desfazendo o engano

Howard Zinn escreveu “A people’s History of the United States” em 1980. Ainda que você possua apenas uma prateleira para seus livros e temperos, esse livro deveria estar nela, logo ao lado do sal! O que é a história radical? Zinn cita o sociólogo E. Franklin Frazier, quando este fala com estudantes negros universitários em Atlanta: “Toda sua vida, os brancos têm enganado vocês, pregadores têm enganado vocês, professores têm enganado vocês; eu estou aqui para desfazer este engano”.6

O B-24 foi construído em Willow Run a oeste de Ypsilanti. Como um jovem piloto de bombardeiro, Howard Zinn não voou no “The Liberator”, como o B-24 era chamado, mas sim em um B-17, o “Flying Fortress”. Zinn recorda que “a tripulação que voou nesses aviões [B-24s] morreu em grande número. Nós, que voamos os esteticamente mais agradáveis B-17s, sarcasticamente chamamos esses outros aviões B colisão 2 queda 4”. O B-24 era bem mais extenso e poderia carregar cargas mais pesadas, mas tendiam a pegar fogo.7 Era, a “pior peça de metal construída para a aviação que eu já vi”, de acordo com Charles Lindbergh.

Sobre a Segunda Guerra Mundial, Zinn escreveu, “Eu pensava que era uma causa justa. Portanto, soltava as bombas”. Ele foi o primeiro a soltar napalm, algo de que ele se arrependeu pelo resto de sua vida e viveu para lembrar um outro piloto que pereceu e havia dito a ele: “Você sabe, isso não é uma guerra contra o fascismo. É uma guerra por um império. Inglaterra, Estados Unidos, a União Soviética – são todos estados corrompidos, não estão moralmente preocupados com o hitlerismo, só estão querendo controlar o mundo eles mesmos. É uma guerra imperialista”. Essa casualidade desfez o engano de Howard Zinn que se tornou um dos mais influentes militantes pacifistas da segunda metade do século XX. Assim como Zinn, Albert Parsons tambem mudou de ideia. Na Guerra Civil Americana, ele havia montado a cavalaria em favor dos mestres de escravos Confederados. Parsons e Zinn distinguiram-se no que fizeram, mas, após a amarga experiência a partir da qual cada um rejeitou a falsa virtude de valores e coragem quando estavam a serviço da guerra ou da escravidão, sendo verdadeiros e íntegros quando estiveram a serviço da paz e da classe trabalhadora. É por isso, companheiros, que nós não devemos jamais desistir daqueles que discordam de nós.

Na base da torre de água de Ypsilanti há um busto de mármore de um grego que parece grandioso, apesar de ter sido desgastado pelos oitenta e quatro anos que se passaram desde a sua instalação. Demetrios Ypsilantis olha fixamente para o céu de Michigan, com uma esplendida gola alta para segurar seu queixo, elegantemente com tranças militares que elevam seu peito, com uma elegante faixa e dragonas que alinham seus ombros.

Demetrios e seu irmão Alexander, um aide-de-camp para Alexandre I, o czar russo, foram oficiais militares do Império Russo até a primavera de 1821 quando Alexander Ypsilantis, junto a um pequeno contingente, invadiu a Moldávia a partir do leste; Demetrios entrou na Valáquia a partir do oeste. Eles lutaram, assim, as primeiras batalhas da longa década de guerras da independência grega do Império Otomano. É uma antiga história que a guerra de independência grega começou nas províncias danúbias da Moldávia e da Valáquia, a região e ambiente de Drácula. E há mais que isso: nas mesmas províncias descobrimos a gênese da transição da expropriação para a exploração que caracteriza a modernidade capitalista e a atual crise que sofremos. Confrontamos três perdas: a perda de sangue, a perda de nomes e a perda das propriedades comunais. Somente como resultado de tal confronto podemos lembrar o Dia do Trabalho e sua bela promessa. Uma beleza verde e uma promessa vermelha.

1. A perda de sangue

A Batalha de Waterloo pôs um fim a Napoleão. Por toda a Europa, as mandíbulas de uma devoradora escuridão foram abertas para a luz da liberdade. As guerras contra a Revolução Francesa finalmente estavam terminadas. Soldados aleijados e marinheiros macilentos retornaram para suas casas para assombrar e passar fome nas favelas das cidades. O campesinato expulso pelo cercamento na Inglaterra gritava por “pão ou sangue”. Os enforcadores executaram os seguidores de Ned Ludd. A mecanização da produção havia começado. Qualquer um que ousasse contestar era aprisionado. A Irlanda estava esmagada; e a fome prevalecia. Na América, senhores de escravos e assassinos de índios tinham então completo domínio.

Grandes proprietários possuíam a Inglaterra, o país do qual Percy Shelley, Mary Shelley e Lord Byron fugiram. Em uma imensa carruagem que levava sua biblioteca, seus utensilios domésticos e sua espreguiçadeira, Byron vagou pela Europa até a Suíça. Numa famosa noite de ociosidade e tédio, à margem do Lago de Genebra, esses amigos animaram-se contando histórias de fantasmas. Mary Shelley narrou seu romance de Frankenstein, e Byron contou a estória que seu médico Dr. John Polidori escreveu e publicou em 1819. Era uma história intitulada “O Vampiro”.

As histórias eram alegorias catárticas das forças históricas que consumiam Lord Byron e os Shelley: escravidão ou proletarização, mecanização ou inovação tecnológica. Esses eram os meios pelos quais cada uma das classes dominantes extraía cada gota de trabalho excedente do povo. O escravismo forçava mais pessoas a trabalharem cada vez mais, duramente. Imigrações, o tráfico de africanos, trabalho infantil, natalismo às mulheres, a expropriação da terra e da subsistência: as pessoas eram forçadas às fábricas ou às grandes plantações. E o que é isso, essa “fábrica”, se não um antigo posto de tráfico de escravos da África Ocidental e, subsequentemente, um lugar para máquinas a vapor movidas a carvão? As máquinas simplesmente faziam as coisas de forma mais barata, usando menos trabalho por unidade e produziam mais unidades em larga escala. O enorme esforço humano não estava mais posto na cornucópia, mas nos depósitos de lixo.

Como essa exploração funcionou? A alienação transformou os humanos em zumbis, em mortos-vivos. Forças monstruosas sugaram a vida das mulheres e homens: ou produziam mais-valia absoluta ou produziam mais-valia relativa. O primeiro estendeu a jornada de trabalho, enquanto o último reduziu apenas a parte que produzia valor necessário. Mas, o que é esse valor? E como é extraído? Frankenstein era o protótipo das forças ocultas da tecnologia e do orgulho faustiano da criação. O tecnocrata combina o novo, a pouco compreendida energia da eletricidade e aplica isso às partes do corpo que foram recolhidas pelos coletores de corpos e, assim, ele cria um novo tipo de criatura. O subtítulo do conto remete à Prometeu, o semideus grego que roubou o fogo dos deuses e o usou na criação da humanidade.

Frankenstein foi publicado em 1818. Um ano depois, John Polidori publicou “O Vampiro, sua versão em prosa da história de fantasma contada por Byron. Polidori partiu de um antigo conto do folclore camponês e iniciou uma tradição que atingiu seu apogeu com Drácula. O protagonista do “O Vampiro” é um fileleno – um amante da Grécia e sua cultura – que se entretem na Grécia, perambulando pelas antigas ruínas e templos. Ele, no entanto, logo se distrai com uma bela e inocente garota do campo. Ele fica encantado. Na infância, a enfermeira desta jovem a entretinha com uma história de vampiro, cuja veracidade era confirmada pelo ancião da aldeia. O vampiro atacava nos bosques. “Sobre o pescoço e peito dela, havia sangue e sobre sua garganta haviam marcas de dentes que abriram sua veia: era para isso que os homens apontaram, chorando, simultaneamente abalados e horrorizados, ‘um Vampiro, um Vampiro!’”.

O contexto socioeconômico da história é fornecido pelas expropriações da época. Tal superstição “constitui uma espécie de religião aplicável às necessidades doméstica, comuns à vida cotidiana”, como escreveu um estudioso do período.8 Na medida em que havia funcionado para proteger os lares, a história passou ao domínio da reprodução. E quase todos estavam familiarizados com ela: o que um dia foi folclore de um campesinato explorado, era agora uma verdade universal para 99% e, portanto, se tornou a fábula dos proletários do mundo. Ainda assim, em seu início, em sua primeira interação literária, o sugador de sangue apareceu como um aristocrata que passava seu tempo apostando, violando e mordendo pescoços de modo a transformar a vida em morte. A história se passa em uma floresta na Grécia e, um ano depois, as florestas reais dos Balcãs e da Grécia irromperão em revolução. Demetrios e Alexander Ypsilantis estão no centro desses conflitos.
Devemos ter em mente essas duas histórias porque uma é a fábula da tecnologia e da intensificação do trabalho e a outra é a fábula da escravidão e do alargamento da exploração.

Filelenos

No início do século XIX, o Filelenismo havia se tornado uma ideologia distinta, com poderes e efeitos duradouros na Europa e na América. Forma-se durante o alge do tráfico de escravos no Atlântico e tem por princípio a depreciação da África. O Vale do Nilo, as grandes pirâmides e o próprio Egito não eram mais considerados o berço da civilização. A intolerância cristã, o crescimento da doutrina da supremacia branca, a doutrina teleológica do progresso e o helenismo romântico, cada um deles contribuiu para o Filelenismo, que iria ajudar a justificar a expansão das plantações sem limites de algodão e da morte dos campos, um processo designado “plantations”.9

O conceito alemão de Altertumswissenschaft, ou a ciência da antiguidade, se tornou um campo de pesquisa e parte do currículo escolar. Os “Clássicos” – as línguas gregas e latinas – se tornaram o fundamento do currículo, ao mesmo tempo em que fraternidades nomeadas com referências gregas originaram organizações chauvinistas e anti-intelectuais. Esportes também se originaram na esteira da mania filelena: as 26 milhas, 285 jardas da maratona [42,19 km] é a distância que comemora a corrida de Fidípides, que correu até Atenas para noticiar a vitória grega sobre os Persas na Maratona, em 490 a.C.

As montanhas olham para Maratona
E Maratona olha para o mar;
E contemplando uma hora lá sozinho,
Eu sonhei que a Grécia ainda deveria ser livre

E então, Lord Byron refletiu (Don Juan, Canto III, 86). Após 1821 o amor à liberdade foi revivido e a Guerra pela independência grega desperta de uma prolongada resistência contra a Revolução Francesa.10 Hellas foi composto por Shelley em 1821 e publicado no ano seguinte: “Somos todos gregos. Nossas leis, nossa literatura, nossa religião, nossas artes, todos tem suas raízes na Grécia...”. O Filelenismo começou a se tornar “Hellenomania”. “Essa é a era da guerra dos oprimidos contra os opressores, e cada um daqueles líderes de gangues de privilegiados, de assassinos e vigaristas, chamados Soberanos, olham se, uns para os outros, por ajuda contra o inimigo comum e suspendem suas invejas mútuas na presença de um medo poderoso”. Bastante verdadeiro.

O movimento fileleno cresceu na Alemanha, Rússia e na Inglaterra.11 Tudo dito, milhares de voluntários foram lutar na Grécia. Eles eram em sua maioria alemães, franceses e italianos, mas estavam inclusos nessa conta 99 britânicos e 60 americanos. Byron (Don Juan, Canto VII, 18) amargou uma visão de alguns.

Lá havia estrangeiros de muito renome
De várias nações, e todos voluntários;
Não lutavam por seu país ou por sua coroa,
Mas desejando ser um dia brigadeiros;
Também para terem parte no saque da cidade;
Uma coisa agradável para jovens homens em sua idade.

O próprio Byron morreu em 1824 em Mesolóngi, lutando pela Grécia. Em 1824, Samuel Gridley Howe, um estudante de medicina de Harvard, estabeleceu um hospital gratuito. Comitês de ajuda foram formados nos Estados Unidos. Em 1826, o maior inimigo do movimento de Independência não eram nem os turcos nem os árabes, mas a fome. Em 1827, oito carregamentos com suprimentos foram vendidos para Náuplia, atualmente a cidade irmã de Ypsilanti. Aldeias foram arruinadas e dezenas de milhares massacradas. Famílias famintas foram para as montanhas e viviam de ervas, grama e vermes. O governador de Massachusetts adotou um órfão grego.

2. A perda de nomes

A cidade de Ypsilanti já teve outros nomes. “The Story of Ypsilanti” (1923) escrita pelo Rev. Mr. Harvey C. Colburn é a história dos proprietários brancos para os proprietários brancos, portanto, conta com uma ampla quantidade de documentos que a sustentam. O francês Gabriel Godfroy e seus parceiros reivindicaram expressivas áreas de terra em 1811. “Os vários tratados feitos com os indios pelo governo de St. Clair e a extinção de suas reivindicações por terras resultaram na retirada deles para o oeste”. Extinção! Reivindicações por terras! Retirada! Isso é pura enganação. Assalto, isso sim.

Em 1790, os Potowatomis viveram quatro dias rio acima de Detroit, em um lugar conhecido como Sanscrainte’s Village, entre o coureurs de bois [comerciantes de peles], os caçadores e comerciantes que desdenhavam das normas e se casavam com mulheres indígenas.12 Apesar das terras serem comuns, “as mulheres faziam todo o trabalho” de plantar ervilhas, milhos, feijões e trigo. Jean Baptiste Romain disse que Sanscrainte era um métis; isto é, parte indígena e parte não. Ele era um comerciante e intérprete na rede de caçadores de peles e comerciantes de Sauk Trail e vendeu, por exemplo, 73 barris de uísque e 170 barris de tabaco para Anthony Wayne, um comandante do Exército dos Estados Unidos. Em 1795, Sanscrainte assinou o tratado de Greenville, no qual as terras de Ohio e Michigan foram cedidas pelos nativos americanos.

Em setembro de 1819, Lewis Cass “assinou um tratado em Saginaw pelo qual o futuro condado de Washtenaw era retirado, para sempre, da posse dos nativos”. Os Potawatomis ao longo do rio Huron deixaram de colher seu milho em sua corrida para Greenville para ouvir o profeta Shawnee, que pregava pela sobriedade, pelo controle do espancamento de esposas e pela dissociação dos Long Knives13 (homens brancos). Em 1813, os seguidores de Shawnee fundaram novos povoados na parte baixa do rio Huron e um contingente de Potawatomis se estabeleceram vinte milhas rio acima. A confederação de Kickapoos, Winnebagos, Sacs, Shawnees, Wyandots, Miamis, Munsee Delawares, Potawatomis, Ojibwas, Ottawas, Senecas e Creeks de Tecumseh recuou em canoas ao Canadá com mil e duzentos guerreiros e suas famílias. Várias centenas de Potawatomis se recusaram e permaneceram em suas aldeias no Huron, sob a liderança de Main Poc, um feroz guerreiro, beberrão e antigo inimigo ferrenho dos Long Knives.

Se isso constituiu o remanescente dos que sobreviveram às guerras e se estabeleceram no que eventualmente se tornaria Ypsilanti, essa recente experiência é uma derrota, um recuo e uma divisão.14 A pele deve ser retirada antes que o sangue jorre. Os pais fundadores fizeram a incisão e os barões do assalto drenaram o sangue.

Em 1823 os irmãos Woodruff chegaram. Seu sono era agitado já que não estavam acostumados com o uivo dos lobos. Os índios haviam preparado seus campos para o milho e os colonizadores europeus os tomaram. O patrimônio indígena foi assim expropriado. Algumas “famílias não compravam fazendas, mas fixavam-se em pedaços de terras desocupadas, vomitavam barracos e passavam a ganhar a vida de forma casual e dúbia”.15 Esse era o bosque dos Woodruff.

Na primavera de 1825: “A terra estava livre e cercada, os jardins arrumados e as mudas plantadas... e a vida selvagem da floresta começou a desaparecer”. Augustus Brevoort Woodward – um discípulo do Presidente Jefferson, um defensor dos senhores de escravos e um expropriador dos bens comuns de Detroit – comprou as terras (612 acres!) e instalou ali um vilarejo que nomeou de Ypsilanti. Ele havia estudado grego na Universidade de Columbia e publicava sob o pseudônimo de Epaminondas, um poderoso comandante da Grécia antiga. Woodward se envolveu em uma lucrativa fraude bancária em Detroit. Ele também foi um dos fundadores da Universidade de Michigan, no caso, possuído como ele estava por um sério caso de helenomania, terminou por estabelecer uma instituição acadêmica com treze autodidatas.16 Ele chegou a cogitar a possibilidade de nomear a península superior de “Transilvânia”.

Com um machado, uma carroça e um arado “cada golpe dado por sua mão fez dele um capitalista, cada movimento edificante seu na nova comunidade fez de suas crianças damas e cavalheiros”. O que isso quer dizer? A terra foi transformada fundamento principal da reprodução social; se tornou capital constante, ou simplesmente “trabalho morto” (as clareiras das terras Potowatomi foram esquecidas) para ser revivido pelo “trabalho vivo” de uma maneira vampiresca. Em uma década, após o assombro da guerra de Black Hawk, em 1832, ter passado, foram estabelecidas as primeiras igrejas, as autuações fiscais, as ferrovias e os bancos em Ypsi. Nessa mesma década, Valáquia e Moldávia foram conectadas ao comércio de grãos do Mar Negro. As províncias do Danúbio tornaram-se assim as principais fornecedoras de Constantinopla, cujos padeiros agora dependiam daqueles boyards17 que haviam expropriado não apenas os bosques, mas os direitos dos camponeses a tais terras.

A toponímia de Michigan é estratificada, com nomes derivados de seus antigos habitantes. Sanscrainte (métis), Godfroy (francês), Woodruff (inglês), Ypsilanti (americano). Isso que é a perda de nomes. Sem dúvida o nome irá mudar novamente, mas exatamente quando mudar ou o que será o novo nome dependerá, por sua vez, da natureza dos que a ocuparem.

Devemos apressar esse dia?

Fanariotas

A família Ypsilantis era fanariota, ou gregos que dominaram a Moldávia e a Valáquia em favor do Império Otomano, como príncipes ou hospodares, investidos pelo Grande Vizir de Constantinopla como “Ungidos de Deus”.18 Os fanariotas foram nomeados devido a um farol do distrito de Fanar da Constantinopla. (Seria a torre de água da cidade de Ypsilanti inspirada por esse farol?) De qualquer maneira, eles também pertencem à Filiki Eteria, uma “sociedade de amigos” (moldada na máfia italiana e na maçonaria) que conspirou pela liderança da Guerra de Independência Grega. Os Fanariotas não eram benquistos em casa. De fato, um historiador inglês da região escreveu: “É impossível conceber uma tarefa mais desanimadora do que a de registrar em detalhes a história desses cem de anos da Valáquia e da Moldávia...”.19 Tantos nomes, tantos reis, tanta opressão.

Alexander Ypsilantis, avô de Demetrios Ypsilantis, “reformou” o código de tributação das províncias danúbias, tornando-o tão rigoroso “que um camponês poderia em algum momento matar seu gado para escapar do... tributo da vaca, ou ainda, destruir sua casa para evitar o... tributo da chaminé”. O jovem Alexander, irmão de Demetrios, encorajou suas tropas a atos de terror e, consequentemente, não surpreende que para os camponeses ele fosse identificado com a voracidade e com a extorsão, enquanto os boyards, ou senhorios, eram identificados como intrusos. As pessoas comuns tinham um provérbio contra as famílias fanariotas: “o inverno de Hângerli, o terremoto de Ypsilanti, a fome de Moruzi, e a praga de Caragea”. Embora Alexander Ypsilantis tenha inflamado a guerra, sua problemática disciplina e a força excessiva não duraram muito, e outros, incluindo os filelenos, tomaram a tocha. O próprio Alexander foi confinado em um forte em Munkács, Transilvânia!

3. A perda dos comuns

A Guerra de Independência Grega (1820-1832) carrega certas similaridades com a Guerra de Independência Americana (1775-1783): uma brilhante efusão retórica de oposição ao império e ao financiamento exterior. Estas guerras também se parecem uma com a outra de um jeito oblíquo: ambas são disputas pela propriedade das terras. Essa é uma das razões pelas quais chamamos elas de “revoluções burguesas”.

Demetrios Ypsilantis foi designado comandante por uma Sociedade de Amigos. Ele e seu irmão eram dados a realizar grandiloquentes e cerimoniosas proclamações e uma destas inaugurou a Guerra de Independência Grega. Em 1832, na trilha de duas guerras civis, múltiplas invasões, incontáveis massacres, dispersão da fome, epidemia de pestes, diplomacia internacional e enormes empréstimos bancários, a Guerra chegou ao fim.

O patrimônio comum de um vilarejo grego antes da Guerra de Independência era chamado hotar. “A maior parte do hotar consistia em prados, pastagens e bosques e esses eram usados comunitariamente por todo o povoado”. Este era o bem comum. Economicamente dizendo, as propriedades comuns eram o regime de subsistência anterior ao capitalismo. Sua desaparição pode ser rápida ou pode acontecer aos poucos, como foi o caso na Valáquia e na Moldávia. Uma petição de um aristocrata de 28 de fevereiro de 1803 evidencia isso antes que eles pudessem tomar qualquer tipo de excedente dos “comandados”, eles primeiro tinham que pedir permissão aos moradores do vilarejo. Os costumes essenciais do povo eram tradicionais e informais. “Desses costumes evidentemente nada é concedido ao povo mais que seu direito à terra, um direito que permanece inalterado pelos eventos históricos ocorridos.”20 Mas, um vampiro rondou as fronteiras do vilarejo onde estavam localizados os limites das terras comuns.

Na metade do século XVIII, alguns antigos direitos (p. ex. madeira para construção e para lenha) eram garantidos em troca de oito a doze dias de trabalho servil. Mas o que era um dia? Isso não era medido no tempo real de trabalho camponês, mas fixado “pela quantidade de trabalho que, de acordo com sua natureza, cada camponês poderia realizar em um dia. Esse parâmetro equivalia a duas ou três vezes mais do que um homem normal poderia fazer em um dia regular”.

“Os camponeses também perderam o valioso direito à madeira para a lenha e para a construção, algo do que eles desfrutavam até mesmo durante os piores períodos turcos”. A primeira tentativa de restringir o acesso dos camponeses à madeira foi em 1792. Um relatório consular britânico de 1812 recomenda categoricamente um programa comercial de exportação de madeira da floresta e a redução dos dias de jejum e de celebração para 240!21. Em 1820, o consulado britânico observou: “Talvez não exista um povo que trabalhe sob tão grande grau de opressão e mais sobrecarregados com imposições e tributos, sob efeito de um poder despótico, que os camponeses da Valáquia e Moldávia”.

O Tratado de Adrianópolis, de 1829, colocou a Rússia no comando da Valáquia e da Moldávia. Kiselev, um philosophe da escola de Voltaire e Diderot, tornou-se governador. Ele era um reformador e passou algo como uma constituição: o “Réglement Organique”. Os boyards procuraram restringir o cultivo das terras pelos camponeses, com concessões condicionadas a uma extensão dos dias de trabalho servil. O livre uso da madeira pelos comuns foi abolido e o serviço forçado teve um aumento para cinquenta e seis dias por ano. Os aluguéis triplicaram e os preços do trigo dispararam. Karl Marx estava perturbado.

De fato, foi Marx quem disse: “O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, vive apenas de sugar trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo ele suga”22. Estas palavras podem ser encontradas em “A jornada de Trabalho”, que é o décimo capítulo do primeiro volume de O Capital, certamente a mais poderosa descrição do capitalismo no século XIX.23 Parte desse poder deriva da autenticidade de sua referência ao vampirismo. Na parte quatro desse capítulo, Marx se refere ao capitalismo como “a sede vampírica por sangue vivo do trabalho”, e na parte cinco ele faz referência ao “impulso cego e desmedido, sua voracidade de lobisomem por mais-trabalho.”...”. Nos trechos que seguem ele menciona os lobos da bolsa de valores, e conclui o capítulo referindo-se mais uma vez ao vampiro.24 Marx criou este capítulo não somente com base em sua pesquisa incansável e na dedicada pesquisa de sua filha, mas ele também baseou-se nas “superstições domésticas”, no que, como um estudioso vitoriano, não acreditaria usualmente.

Se não era um homem negro, Karl Marx certamente era moreno; seus ancestrais eram portugueses e, antes disso, do Norte da África. Seus filhos carinhosamente o chamavam por “o Mouro”. O Mouro defendeu o acesso de pessoas à floresta e a seus recursos. O que aconteceu nos Balcãs iria, em breve, acontecer com os estovers do vale do rio Mosela onde os mouros se desenvolveram. (Estovers é a descrição inglesa para a madeira da qual os comuns podiam desfrutar; a palavra deriva do termo em francês estover, ou “daquilo que é necessário”). “A comunidade de muitas almas a qual eu pertenço”, escreveu Marx, “é o local ao qual pertence uma das mais lindas áreas arborizadas...”. Estatutos e decretos datados de 1816 distinguiam a madeira normalmente distribuída para a lenha e a madeira de construção utilizada nas casas e nos artigos domésticos, que não seria utilizada na construção comum ou para ajudar membros individualmente em casos de danos por incêndio etc. Foi a criminalização deste tipo de costumes que levaram Marx a desenvolver sua metodologia materialista. Inomináveis companhias de madeira que atuavam nos mercados internacionais compraram as florestas de Mosela onde os pais de Marx participavam de uma ou duas videiras. As florestas da Europa Central e Oriental foram rapidamente consumidas pelos compradores da Europa Ocidental. Marx estava tão impotente para impedir a perda destes humildes costumes de subsistência quanto Warren Kidder estaria para impedir a expropriação de sua fazenda familiar em Willow Run anos depois. Devido à angustia causada pela perda gerada por um incêndio no Mosel e em seu entorno, Marx fez planos de escrever um novo artigo: “Os Vampiros da Região de Mosel”.25 Observe com atenção e você também verá marcas de ferimentos causados por dentes no pescoço de Marx.

A coincidência temporal entre a Guerra Grega de Independência e a expropriação dos direitos costumeiros dos camponeses, ambos ocorridos na década de 1820 e tendo alcançado seu clímax em 1832, pode ser compreendida de muitas maneiras. Do ponto de vista de uma tradicional economia política, foi um exemplo do progresso e transição do “primitivismo comunista” para o “capitalismo agrário”. Do ponto de afirmação dos valores dos burgueses, a independência grega significou a liberação do Império Otomano e o renascimento de um estado-nação independente. Do ponto de afirmação do neoliberalismo, é ilustrativa da conformidade entre a independência política e as relações de mercado. De qualquer forma, para aqueles que estavam no chão da realidade foi uma emergência: floresta, pastagem e campos comuns foram perdidos para um regime de aumento do trabalho, de mais dias trabalhados e mais trabalho excedente. Embora pudesse genuinamente parecer como uma luta de libertação nacional grega ou uma transição para o capitalismo – desenvolvimento econômico e modernização – para as pessoas comuns isso era a sucção de seu sangue. A destruição do dossel verde de Michigan e da Europa Central e Oriental ocorreu ao mesmo tempo. Com o desaparecimento das florestas de Michigan “tudo mudou”, escreveu George Perkins Marsh alguns anos depois. “A face da terra não é mais uma esponja, mas uma pilha de poeira”.

A apelação de Walker (1829) e a Monstruosidade da Raça

David Walker, um negro, bostoniano, negociante de roupas usadas, escreveu um “Apelo ao cidadãos de cor de todo o Mundo” [Appeal to the Coloured Citizens of the World] em 1829. Nele, ele desafiou a hipocrisia do apoio americano à Guerra de Independência Grega:

Mas, oh Americanos! Americanos! Eu te aviso em nome do Senhor (escolha ouvir ou se abster) se arrependa ou se reforme, se não estarás arruinado!!! Pensas que nosso sangue está escondido do Senhor, pois pode escondê-lo do resto do mundo, enviando missionários ou por suas ações de caridade aos gregos, irlandeses etc.? Ele não tornará público seus crimes nos telhados?

No Dia do Trabalho celebramos os trabalhadores do mundo: colarinhos azuis, brancos, rosas26, em vestimentas jovens ou prisioneiros do trabalho livre, esse dia pertence à classe trabalhadora inteira. Não é a cor da sua pele, mas as roupas que marcam a mulher. É o dia da agência humana. No entanto, os fatos nos lembram que a América foi construída com trabalho escravo, os seres humanos que lideraram a luta original dos trabalhadores eram afro-americanos. Walker demoliu as ridículas noções supremacistas branca de Thomas Jefferson e o fez usando uma linguagem compartilhada por todos.

David Walker nasceu de um pai escravo e uma mãe livre na Carolina do Norte em 1785. Pertenceu à Igreja Episcopal Metodista em Charleston, na Carolina do Sul, participou da conspiração de Denmark Vesey, uma revolta de escravos planejada para 1822. Os senhores de escravos ofertaram milhares de dólares por sua cabeça. Ele estudou Esparta e a igualdade das condições com Licurgo. De acordo com Walker, as artes e as ciências foram originadas no Egito e então levadas para a Grécia. Pessoas de cor “vivem as condições de existência mais miseráveis, degradantes e abjetas que jamais existiram, desde que o mundo começou”.27 “Mas eu vou lhes dizer Americanos! A menos que vocês sejam rápidos em mudar tal situação, vocês e seu país estão acabados!!!!!!”. Ele também compara os brancos a vampiros: “Os brancos sempre viveram em condições de vida injustas, invejosas, não merecidas, avarentas e sedentas por sangue, sempre perseguindo o poder e a autoridade”. Ele nos ajudou a compreender que o sistema do racismo é uma monstruosidade.

Em 1825, William Lloyd Garrison completou seu aprendizado em tipografia em Boston. Com a gola da camisa desabotoada, ao estilo de Lord Byron, ele sonhava em velejar para lutar com os gregos pela liberdade. Mas como sofria com enjoos, poupou-se da longa viagem e permaneceu por perto; só foi movido pela apelação de Walker e se tornou um dos maiores antirracistas de sua (ou de qualquer) época, provando que nem todos os homens brancos são monstros!

A classe trabalhadora americana da época era organizada em torno da cor: vermelho, branco e negro. Um exército egípcio de seis mil soldados invadiu a Grécia em 1824 em favor do Império Otomano e seu exército incluía muitas pessoas descritas como “negrões”, que derrotaram os gregos extremamente mal organizados e escravizaram aqueles que não foram mortos. Lord Byron liderou um pequeno bando de combatentes – duzentos, de acordo com algumas estimativas – bem como muitas mulheres negras que tinham sido designadas como lavadeiras e passadeiras. O próprio Byron foi guiado por um negro americano do oeste chamado Benjamin Lewis, que era noivo do poeta e responsável por cuidar de seus cavalos. Lewis se tornou amigo de duas mulheres negras que haviam sido escravas dos turcos, mas que haviam então sido libertadas e passavam fome. Ele implorou pela ajuda de Byron. “Minha determinação”, disse Byron, “é de que as crianças nascidas dessas mulheres negras, das quais você pode ser o pai, serão minha propriedade e assim eu as proverei”.28 Ainda que um mártir da libertação da Grécia, quem poderá argumentar que esse herói do romantismo era um abolicionista dos escravos?

Elijah McCoy (1843-1929) ajudou a lubrificar as engrenagens da indústria e a irrigar o verde dos subúrbios. Ele organizava uma rota de fuga através da ferrovia, empregando um vão falso nos vagões para transportar escravos fugitivos para Wyandot, de onde eles eram transportados de balsa para o Canadá. Os pais de McCoy haviam fugido do estado escravista do Kentucky cruzando o rio Ohio. Em seu caminho para o Canadá, eles avançaram e depois retornaram para Ypsilanti. McCoy passou cinco anos como aprendiz de engenheiro em Edimburgo, na Escócia; ele também retornou para Ypsi, e em 1872 obteve uma patente para um dispositivo de lubrificação automática de motores a vapor. Consagrados engenheiros chamavam o dispositivo de “The Real McCoy”, enquanto o resto deles se referia a um copo de lubrificação. Assim, Elijah McCoy lubrificou trens que carregavam o carvão e o ferro que juntos formariam as fundações da civilização industrial. Qual foi seu papel nas greves ferroviárias dos anos de 1880? Eugene V. Debs, um condutor de locomotiva, organizador sindical e socialista, uniu os condutores e os operadores da cabine de freios. Quando as autoridades governamentais tentaram mudar o feriado do dia do trabalho de 1o. de maio para setembro. Eugene Debs saiu em sua defesa. “Esse é o primeiro e único Dia Internacional do Trabalho. Pertence à classe trabalhadora e é dedicada à revolução”.29

Quanto à reprodução, lembramos Elijah McCoy por sua patente dos sistemas de irrigação [sprinkler lawn]. Seguindo a destruição da pradaria, o aspersor tornou-se um item necessário para manter atrativos os gramados do subúrbio dos anos da década de 1950, quando as casas construídas com material inferior [ticky-tacky houses] para famílias nucleares eram a última moda. McCoy morreu irritado e irascível. Podemos lembrar mais facilmente de sua esposa, Mary, que escreveu um apelo contra enforcamentos: “Justiça, está tu? Tu, Igreja do Deus Vivo, por que está sonolenta? Acorda! Acorda! E ouça o choro da Etiópia por seu povo!”.30 Assim como David Walker ou Percy Shelley, Mary McCoy profetizou lançando anátemas contra os sanguessugas, com uma voz destinada a despertar os mortos.

Vamos seguir com ela adiante. Ela resistiu ao terrorismo do monstruoso regime de trabalho criado centenas de anos antes, no início da transformação industrial mecânica. Morte por linchamento ou execução reduz o valor da vida à zero. É disso que a exploração depende, como vimos tanto em Frankenstein quanto em O Vampiro, depende do trabalho morto. Agora que identificamos as perdas de sangue, de nomes e dos comuns, devemos voltar para a bela promessa de maio.

O Verde...

Aproximando-se de Ypsilanti pelo Oeste, passa-se pela notória e fálica torre de água e lembra-se da rima tradicional,

Viva! Viva! É Primeiro de Maio!
A p**** do ar livre começa hoje!

Por todo o mundo as pessoas celebram a chegada da primavera, com seu “frutífero espírito de vegetação”. Fazemos isso em maio, que leva o nome de Maia, que na mitologia grega é a mãe dos deuses. Os gregos tinham bosques sagrados, os druidas reverenciavam o carvalho e os romanos praticavam jogos em honra de Floralia. Na Escócia, pastores populares formavam círculos e dançavam em torno de fogueiras. Os celtas iluminavam o topo das colinas com fogueiras em honra a Beltane, seu próprio deus. Em Tirol, as pessoas encorajavam seus cães a latir e faziam música com utensílios de cozinha. Na Escandinávia as fogueiras eram construídas para espantar as bruxas.

Em toda a Europa, as pessoas celebravam o primeiro de (May Day). Foram às florestas e retornaram com folhas, galhos e flores, com as quais enfeitaram seus corpos, casas e pessoas queridas. Atos de encenação com personagens como “Jack-in-the-green” e a “Queen of the May” eram realizados ao ar livre. Árvores eram plantadas e mastros enfeitados e erguidos para o Primeiro de Maio. Havia dança, música, bebidas e relações amorosas. O inverno acabara. A primavera desabrochava.

Na Valáquia e na Moldávia, lar do Drácula, bem como daqueles governantes dos quais Ypsilanti leva o nome, tinham um espírito de maio. Emily Gerar, uma folclorista inglesa que havia vagado pela região nos anos da década de 1870, descreveu: “Gana é o nome de uma bela, mas maliciosa bruxa que preside os espíritos malignos durante seus encontros na véspera do Primeiro de Maio. Gana era dita como a Senhora da Transilvânia antes da era cristã. Sua beleza enfeitiçou muitos, mas estes sucumbiam aos seus encantos e eram tentados a beber em seu chifre a urina de boi; estavam condenados”.

Apesar de suas complexidades, quer o dia de maio tenha sido observado por seus rituais sagrados ou profanos, por pagãos ou por cristãos, muçulmanos ou judeus, por magia ou não, por héteros ou gays, por mãos calejadas ou macias, sempre tem sido uma celebração de tudo que é livre, verde e vivificante no mundo. Fosse o que fosse, não era um dia de trabalho e, portanto, foi atacado por aqueles que estavam no poder.

... e o Vermelho

Não se engane, o vermelho Primeiro de Maio: começou aqui na América. Há duas estórias essenciais sobre isso; uma é Merry Mount e a outra Haymarket.

Vamos começar com Merry Mount. Puritanos melancólicos quiseram se isolar (“a cidade na colina”) e, tendo aceitado a hospitalidade dos povos nativos, iniciaram a escalada de guerras contra eles os deixaram doentes. Thomas Morton, por outro lado, chegou em 1624 e desejava trabalhar, negociar e aproveitar a vida com os nativos. Ele imaginou uma vida baseada na abundância ao invés de na escassez e três anos depois ele celebrou o primeiro dia de maio (May Day) com um grande mastro enfeitado para a ocasião: “um ótimo pinheiro com vinte metros erguido, com um par de chifres de veado fixados quase no topo”. William Bradford, que desembarcou do Mayflower em Massachusetts, pensou que os índios eram agentes do Anticristo. De Thomas Morton e sua tripulação, Bradford escreveu com total desgosto que,

eles também ergueram um mastro enfeitado e dançam juntos sobre ele por muitos dias, convidando as mulheres índias como suas consortes, dançando e se encostando, juntos como tantos encantamentos, ou fúrias, caracterizando as piores práticas. [Foi] como se eles tivessem revisitado as celebradas cerimônias dos romanos para deusa Flora, ou as práticas bestiais dos insanos Bacanais.

Myles Standish destruiu Merry Mount, como a vila de Morton era chamada, e com isso trouxe o primeiro dia de maio americano um final sangrento (vermelho). Apesar disso, lembramos Flora, os encantamentos escusos e os praticantes maliciosos.

E lembramos Haymarket. O movimento para uma jornada de oito horas de trabalho que começou na conclusão da guerra civil que aboliu a escravidão. Ira Steward da International Workingman’s Association [Associação Internacional dos Trabalhadores], junto com a National Labor Union [União Nacional do Trabalho], foi responsável por iniciar esse movimento. A American Federation of Labor (A.F. of L.) em 1884 resolveu “que oito horas devem constituir legalmente a pauta do dia primeiro de maio a partir de 1886...”

Nós queremos sentir o sol;
Queremos cheirar as flores.
Estamos certos de que Deus determinou isso.
E nós pretendemos ter oito horas.
Estamos unindo nossas forças dos
Estaleiros, lojas e moinhos;
Oito horas para trabalhar, oito horas para descansar,
Oito horas para o que quisermos.

Trabalhar – Descansar – Jogar: é um programa persuasivo, não é?

Consequentemente, uma ampla marcha foi conduzida em Chicago no Dia do Trabalho de 1886. Trabalhadores da fundição ligados a Molder’s Union [Sindicato dos Moldadores] paralisaram a McCormick Reaper Works em Chicago. A polícia matou alguns dos trabalhadores e para protestar contra as mortes um encontro foi convocado para o dia 4 de maio, em Haymarket Square. Trabalhadores militantes e a polícia entraram em confronto armado (por parte dos policiais). Uma dinamite foi lançada (ninguém sabe por quem) e então todo o inferno foi liberado. Sam Fielden, Augustus Spies, Albert Parsons, Oscar Neebe, Michael Schwab, Adolph Fischer, Geoge Engel e Louis Lingg foram acusados em um espetaculoso e injusto julgamento. Quatro deles foram enforcados em 11 de novembro de 1887, apesar de toda a campanha internacional contra o julgamento. O caminho foi assim preparado para a Era Dourada do Capitalismo americano, o Dia do Trabalho se tornou o dia da solidariedade entre os trabalhadores em todos os cantos do mundo, exceto nos Estados Unidos. Fomos enganados!

Agora que sabemos, não devemos esquecer.

Ao passo que as verdes e vivificantes celebrações eram carnavalescas – mas com o tempo viraram as classes econômicas e as relações de poder mundiais de ponta cabeça -, as manifestações vermelhas tentavam transformar o Dia do Trabalho em uma revolução que tinha como objetivo a abolição dos sistemas de classes. Mesmo vermelho e verde estando juntos em oposição à avareza e à privatização, existiam maneiras de diferentes de manifestação. O Dia do Trabalho Verde está relacionado ao reino dos comuns (a localização da subsistência a partir do solo), enquanto que o Dia do Trabalho Vermelho está relacionado à esfera pública (formada na relação das instituições com o Estado). Os comuns tendem a ser invisíveis até que sejam levados, enquanto o domínio público é mais visível como um espetáculo de não mais que compra e venda. Um homem Ypsi chamado Oakley Johnson era os dois: um homem simples do Verde e um revolucionário do Vermelho.

Oakley Johnson aprende a “ir com calma”

Oakley Johnson nasceu em 1890 em uma cabana no Condado de Arenac, Michigan. Ele partiu madeira, pescou e adormeceu à noite ao som de sapos e bacuraus. Na escola ele leu Esopo, história antiga e Darwin. Ele frequentou igrejas batistas, metodistas e congressionais, mas após ler Tom Paine e Colonel Ingersoll (“o grande agnóstico”) ele começou a duvidar de que “Jesus era o único filho de Deus” e foi convidado a não retornar às aulas de estudo da Bíblia.

Johnson havia aprendido “The Desert Village”, o longo poema de Oliver Goldsmith sobre o roubo das terras comuns inglesas e irlandesas pela classe dominante. Goldsmith (1730-1774) era irlandês e investigou o assunto.

Mal arrisca a terra, ao apressar o infortúnio de uma presa,
Onde a riqueza é acumulada e os homens se degradam.

Debilitação, bebedeiras e depressão espera pelo 99 %. Assim como para o 1%,

... O homem de valor e orgulho,
Toma um espaço que muito homens pobres proveram;
Espaço para seu lago, e as cercas que estendem os limites de seu parque,
Espaço para seus cavalos, equipagem e cães de caça;
A vestimenta que envolve seus membros em tecido de seda,
Roubou os campos da comunidade de metade de seu crescimento.

Não apenas arrancou o sustento das terras comunais e as esculpiu em vistas pitorescas, como o rico proprietário também monopolizou o jogo (coelhos, faisões, veados) e aumentou os alugueis para poder comprar seus luxos.

... aqueles campos sem cercas que os filhos da riqueza dividem,
E até mesmo os que estão desgastados são negados.

E se os humildes se opusessem, como frequentemente o faziam rebelando-se, caçando ilegalmente e até mesmo jogando futebol, o terrorismo da punição do capital poderia aguardá-los.

...enquanto os orgulhosos exibem suas pompas intermináveis,
Lá estava a forca melancolicamente no caminho.

Certamente, Oakley comparou sua notável memória (é um longo poema!) à sua própria experiência de vida, que incluiu passar uma temporada em um vilarejo de Ojibway próximo de Harbor Springs. Lá, ele teria pensado sobre os comuns, que naquele momento era objeto de debate mundial. Em 1912, ele frequentou o que hoje é a Ferris State University, onde se tornou um revolucionário socialista.

Em Davenport, Iowa, ele participou de reunião de rua dos Industrial Workers of the World (“Wobbly”) e conheceu Frank Little a quem ele perguntou sobre como obter conhecimento em sabotagem. “Não defendemos a destruição dos produtos de nosso trabalho, isso seria tolice”, disse Little, cuja mãe era nativa da América.

Mas, se as condições não permitem que abandonemos o trabalho, podemos trabalhar mais vagarosamente, não podemos? Isso seria impressionante no trabalho. Os trabalhadores europeus chamam isso “Ca Canny”, ou “Take it Easy” [“Vá com calma”]. Se os patões se recusam a nos pagar por um dia inteiro, por que deveríamos dar a eles um dia inteiro de trabalho?

Em 1995 Ypsilanti se tornou a sede da I.W.W. a partir de um escritório montado na 103 West Michigan Avenue.

Frank Little foi linchado em Butte, Montana, em 1917 por agentes dos patrões do ramo do cobre. Johnson se inscreveu para substituí-lo e passou a trabalhar na Michigan School, a qual permanece em frente à Torre de Água e ao busto de mármore branco de Demetrios Ypsilantis. Johnson então assumiu o cargo de diretor na Grant High School em Ypsilanti. Em meio ao ano escolar, Johnson foi retirado de sua classe por representantes do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que o levaram para Grand Rapids e para um interrogatório sobre sua nacionalidade e para entender por que ele havia contribuído com dinheiro para o fundo de defesa legal estabelecido pelo Wooblies que estava sob acusação. Johnson recusou a intimidação e no dia seguinte convocou uma assembleia na escola na qual contou toda a estória.

“A partir desse dia, a atmosfera mudou”, lembrou Johnson mais tarde.

Os estudantes e fazendeiros estavam ao meu lado. Em junho, um dia antes da graduação, um bando de fora da cidade cercou a escola para me pegar, mas meus estudantes foram generosos e eu e minha jovem esposa saímos pelos fundos, onde os fazendeiros que estavam em automóveis nos resgataram e nos hospedaram. No próximo dia, o professor Hoyt fez o discurso de formatura e fui avisado de que ele lamentou que o bando do dia anterior teve que ir embora para casa de mãos vazias. Meus estudantes formandos se recusaram a sentar no palco porque eu não estava lá. Eles pegaram seus diplomas depois, depois que os “exames” haviam terminado.

Em outubro de 1920 Johnson começou a ensinar na University of Michigan, onde permaneceu até 1928.

Dia do Trabalho 1934 e o Curriculum

No Dia do Trabalho, em 1934, na capa do jornal The New Masses, o Partido Comunista na América emitiu um chamado poético por “Joe Hill” de autoria de Alfred Hayes:

Às ruas no Dia do Trabalho!
No estrondo de Square!

Hayes lança seu olhar de volta para Haymarket Square. Para nós o “roaring square” é uma analogia com a Praça Tahir no Cairo, onde as pessoas colocaram em movimento os momentâneos eventos de 2011, que retornaram e floresceram em fenômenos como Occupy Ypsilanti. Hayes está convocando o povo a marchar para a Union Square em Manhattan.

Agitem as torres do centro!
Quebrem o ar do centro!

Lembramos e lamentamos a perda dos três mil companheiros de trabalho na catástrofe do World Trade Center em 2001.

Venham com uma tempestade de cartazes,
Venham com um passo de terremoto,
Sinos, transcendam seus campanários,
Bandeira vermelha, ultrapasse seu vermelho!
Fora das lojas e fábricas,
Acima com a foice e o martelo,
Camaradas, essas são as nossas ferramentas,
Um canto e um cartaz!

O martelo e a foice representam a aliança da indústria e da agricultura, ou os assalariados camponeses e trabalhadores.

Balancem a música, do oceano de seus corações,
Cartazes, levante-os acima e sejam livres;
Música e cartaz juntos,
Abaixo a burguesia!
Jogamos a bomba brilhante do sol,
E a lua como granada de mão.

Esse poema foi composto muito antes de Hiroshima, Nagasaki, Three Mile Island, Chernobyl e Fukushima.

Despejem como uma segunda inundação!
Trovejem na curva do ar!
Os metrôs rugem aos nossos milhões-
Camaradas, para o Square!

Apesar de suas limitações, essa tentativa de comparar a energia dos 99 com forças terrestres e cósmicas pode ser um desafio para o nosso próprio movimento e sua criatividade. No Egito, Madrid e Oakland, como podemos traduzir a energia do Square em sua beleza inicial?

Na mesma edição do The New Masses, Oakley Johnson publicou dois artigos abordando o tema “Education Under the Crisis”. Ele descreveu como milhares de pós-graduados estavam procurando por trabalho, milhares de professores haviam sido demitidos e milhares de estudantes que “normalmente” trabalhavam durante a universidade não poderiam fazê-lo; muitos que regularmente pagavam mensalidades não teriam mais como pagar. Ele escreveu “não há empregos...”. As taxas escolares foram aumentadas em 25 % na Columbia. Trabalhadores de colarinho branco – químicos, engenheiros, médicos – também estavam sem trabalho.

As pessoas ansiavam compreender sua situação econômica; estavam sedentas por conhecimento em geral. A circulação de livros aumentou de trinta e três milhões para quarenta e três milhões em apenas um ano, enquanto os orçamentos para a educação caíram de onze milhões para oito milhões de dólares. Langston Hughes puniu os líderes das universidades negras com políticas reacionárias e metade dos professores dessas instituições acreditou na noção de inferioridade inerente dos afro-americanos. Além disso, esperava-se que os assistentes de pós-graduação trabalhassem “por nada”.

Administradores acreditavam que a “educação” poderia ser um paliativo para as injúrias causadas pelo desastre econômico, que trataria dos depressivos como se não tivessem mais Valium, Prozac ou Wellbutrin. Dos “pobres famintos” esperava-se que fosse ao turno escolar noturno e passivamente ingerissem aulas de autoajuda. Reitores e presidentes das universidades recomendaram que os pós-graduados desempregados criassem grupos de discussão e que praticassem caminhadas na natureza tal como os escoteiros. Escolas médicas eliminavam qualquer aplicação que carecesse de uma “personalidade graciosa”. Estavam temerosos da “nova ociosidade”; pessoas ociosas devem ter hobbies. Em Lansing, a “People’s University” era organizada pela YMCA; seus instrutores eram homens de negócios e suas reuniões ocorriam em um banco. Alunos se empoderando em piquetes? Satisfazendo sua fome em lanchonetes? Aulas canceladas para marchar no Dia do Trabalho? Negros e brancos dançando juntos? Não, não, não e não!

“O gigantesco ataque às Universidades”, escreveu Johnson,

encoberta pela capa da “depressão”, é, em verdade, um ataque aos intelectuais como classe, - um ataque aos profissionais de classe média e aos trabalhadores de colarinho branco. É uma tentativa não só de reduzir o padrão de vida de professores-intelectuais, mas também de reduzir a necessária produção de intelectuais, atacando assim o ensino superior.

Ele foi adiante: “... estudantes, professores e trabalhadores devem resistir ao ataque. Particularmente os professores universitários precisam sobreviver, acordar e argir, organizem-se para a luta”.

Em um artigo anterior, “A Five Inch Shelf os Books”, Johnson tentara criar uma resposta revolucionária para o presidente da Harvard University, Charles William Eliot, filelenista dos enganos em The Harvard Classics. Escrita teórica requer estudo e Johnson avisou que “a inquirição e o mais novo radicalizado intelectual deve estar atento a esse passo”. Seu estudo da política econômica é essencial para sua investigação e não deve ser adiado. Johnson recomendou Socialism: Utopian an Scientific de Friedrich Engels, um trabalho que apresentou um dos ensaios sobre os comuns (“The Mark”). Ele também sugeriu o estudo de Alexandre Trachtenberg History of May Day, e o Imperialism de Lenin, que por si mesmo precisa agudamente de um reaparecimento.

Bob Marley também desfez o engano do problema:

O sistema da Babilônia é o vampiro, um império decadente
Sugando o sangue dos sofredores,
Construindo Igreja e Universidade,
Enganando as pessoas continuamente.

Entre 1923 e 1928 o Negro-Caucasian Club foi formado por jovens estudantes em Ann Arbor, na Michigan University. Oakley Johnson, então professor de literatura inglesa e de retórica na universidade, era o suporte do Club no departamento universitário, assim como incentivador de suas danças. Junto com sua esposa, ele hospedou o grupo em sua casa. As ações do Club foram iniciadas por razão de Lenoir Smith, uma estudante do Mississippi. Um dia, seguindo uma noite e manhãs agitadas por palestras, provas e artigos, Smith saiu para um rápido almoço na lanchonete, em meio a seu cansaço foi surpreendida ao ter o serviço recusado no local. O Club foi em sua ajuda e ocupou o restaurante. Foi o primeiro caso desse tipo? Deve Ann Arbor, guiada pelo Ypsilanti Oakley Johnson, reivindicar sua prioridade no movimento de ocupação de lanchonetes?

O grupo também se esforçou para integrar as faculdades de dança, assim como a piscina e o ginásio da Universidade, que não poderiam ser frequentados por estudantes negros, mas não obteve sucesso. O Reitor – que era “mais que hostil” e ostentava mais que seu avô que havia possuído escravos na Virginia – insistiu que “o nome da Universidade não deveria ser relacionado as atividades do Negro-Caucasian Club”.31 Dentre os oradores que foram convidados para falar no Club e que foram levados à cidade estavam, Alain Locke, W.E.B. DuBois, Jean Toomer e Clarence Darrow.

Willow Run e o nascimento de Ypsituck

Ypsilanti é às vezes chamada por Ypsituck. Eis o porquê.

Willow Run foi construída em 1940 e se tornou a maior fábrica no mundo; tinha uma milha de comprimento e produzia um bombardeiro por hora. Um quarto de milhão de pessoas se mudara para o sudeste de Michigan, “algumas centenas de hillbillies, sindicalistas do CIO (Congress of Industrial Organizations) e trabalhadores sazonais dos confins do continente”. Ford recrutou do Tennessee e do Kentucky, estabelecendo em “Ypsitucky” uma divisão cultural dentre essa classe trabalhadora. Em seu auge, em 1943, empregou mais de quarenta mil trabalhadores. Contudo, havia cinquenta e seis chuveiros disponíveis na fábrica, nenhuma provisão foi feita na habitação dos trabalhadores. Aqui houve uma crise de produção e reprodução.

Warren Kidder foi expropriado em Willow Run.

“O recrutamento de nossa terra pelo governo nos expulsou de nossa fazenda...”. Com o rugido das escavadeiras ecoando em seus ouvidos, o celeiro foi queimado, as florestas foram devastadas e os tocos das árvores deixados pelo chão. “Os horrores do que estava ocorrendo comigo e com minha família deixaram cicatrizes e forças ocultas abaixo da superfície da terra e, em minha mente aquele tempo nem mesmo poderia cessar”.

Herry Bennett era diretor de pessoas e pistoleiro. Ele dominava “com sua coleção de mafiosos Purple Gang e políticos conciliadores” e destilava o terror por toda a hierarquia de gestão da Ford.32 Sua “teoria de supervisão” consistia na crença de que “‘o trabalhador nunca está certo’”. Guardas armados supervisionavam a produção nas fábricas que sofriam alta rotatividade (como estimativa, em alguns anos, de até 100 %). Entre as principais reclamações dos trabalhadores fabris estava a de que “Não havia lugar para ficar”, até mesmo, em alguns casos, após terem trabalhado na fábrica por anos; outra reclamação era de que estavam “quase sem dinheiro”.33 O roubo de ferramentas era outro problema (como poderiam construir um barraco?), assim como o absenteísmo (e quando teriam tempo para construí-lo?).

Essa insuficiência de habitações aos trabalhadores resultou na “pior bagunça dos Estados Unidos”. A habitação que existia era precária, barracas, barracos de papelão ou trailers com banheiros ao ar livre.
A menos que o marido tivesse construído um vestíbulo – proibido nos acampamentos do governo –, sapatos enlameados e impermeáveis deixavam um rastro da boa e velha lama de Michigan na sala de estar, depois de cada chuva – primavera, verão, outono ou inverno. Era sempre dia de limpeza do trailer para as esposas e mães.

O trabalho de uma mulher não acabava nunca.

A solução do governo para a ausência de moradias foi construir a primeira “free-way” (uma estrada do governo sem pedágio) nos Estados Unidos. Um deslocamento desse tipo permitiu aos trabalhadores viverem tão longe quanto possível de seus trabalhos, como em Detroit, por exemplo.

Rosie a Riveter, uma composição fantasmagórica que se proliferou na música e nos impressos, era, de fato, a representação de milhões de mulheres.34 Em 1942 Betty Oelke, de dezoito anos, uma garota do campo recentemente casada, trocou um vestido por calças, apertou o relógio e foi trabalhar. Ela ficava em pé nove horas por dia, seis dias por semana, construindo bombas na Willow Run. “Eu devia perfurar o dia todo e outra garota inseria os rebites”, ela disse. O trabalho era repetitivo e seu patrão era homem e mau. “Eles deveriam permanecer lá e cronometrar você”. Em retrospecto ela reconheceu “foi o início da libertação das mulheres”.

A libertação das mulheres tomaria algum tempo – duas ou três décadas. Nesse meio tempo, logo após a guerra, mulheres foram expulsas das fábricas e um processo de segregação racial se desenvolveu nas políticas habitacionais de Willow Village. Um relatório de 1967 de Alan Haber para o governo federal declarou que a comunidade negra sofria ódio, ódio a si mesma, apatia, hostilidade e desesperança, empregos infrutíferos e uma vida em família na comunidade estéril dos enriquecimentos e oportunidades variadas para prazer e crescimento que são dadas como garantidas na afluente comunidade branca. Os brancos, também são frequentemente deformados pelo racismo, identificando os Negroes como um grupo inimigo, que é visto como uma ameaça ao seu status, segurança e bem-estar físico.

Um campo de golfe dividia a comunidade branca da negra. Em 1965 um projeto de ação da comunidade havia planejado mobilizar as pessoas pobres em seu próprio favor, “com a máxima participação possível”, essa era a frase do dia. Porém, esse projeto falhou. O relatório alcançou duas importantes conclusões para justificar essa falha. Primeiro, “não havia quase nenhum ‘pensamento utópico’” e, segundo, “o projeto sofreu com a falta de senso histórico”.35 Tais palavras foram escritas há quase quinze anos atrás, anteciparam tanto a história do povo de Howard Zinn quanto nossos sonhos inspirados com o Occupy Wall-Street.

X2: Ou, uma Digressão Teórica

Começamos por invocar duas estórias de horror que foram concebidas em momentos de crise mundial. Uma delas nos guiou ao nome Ypsilanti e nos ajudou a desenvolver uma perspectiva internacional. Ambas as estórias contribuíram para o entendimento das duas malignas estruturas da vida social: primeiro, a circulante destruição do capitalismo para o corpo e a alma, e, segundo, a monstruosidade do racismo. O primeiro drena o corpo e a vida e o último perverte a alma. Se pudéssemos retornar às estruturas de pensamento das culturas camponesas de onde a história dos vampiros se origina, a solução para esse mal apareceria magicamente: alho ou uma estaca no coração. Podemos até sonhar com tais significados simbólicos desses antigos remédios. O espírito do Dia do Trabalho, no entanto, exige que tomemos ações mais práticas.

Qual é a relação entre as escavadeiras destruindo casas em Willow Run e a construção da maior fábrica do mundo? Qual é a relação entre a vila deserta de Goldsmith na Irlanda, a vila indiana de Sanscraite e os proletários comunistas de 1934? Qual a relação ente o campo de golfe em Benton Harbor e a austeridade econômica em Ypsilanti? E quanto à perda de direitos na Transilvânia e a expansão do escravismo nos Estados Unidos? Aqui nos encontramos em um pântano de enganamento!

Qual é a relação entre a perda dos comuns – sua expropriação, tão frequentemente alcançada, de acordo com o Mouro, através de cartas de sangue e fogo, o que para nós significa drones, Programas de Ajuste Estruturais, invasões, guerras civis, violência “sectária”, violência “étnica” e o fechamento de escolas, de fábricas, embargos e aprisionamentos – e os subsequentes cortes de nossos ganhos e instituições sociais? Nossas escolas, livrarias, clínicas de saúde, parques públicos, segurança médica e trabalho foram cortados. Com a expansão de nossa jornada de trabalho obrigatória e a contração de nossas férias, nossas jornadas de trabalho, nossa carga de trabalho – nossa vida de trabalhadores! – tudo isso foi prolongado!

Eu chamo esse fenômeno de “X ao quadrado” para mostrar que a exploração compõe a expropriação. Para o economista David Harvey, X2 significa “exploração pela desapropriação”. Se você se recusa a aguentar essa falcatrua (astuciosamente chamada de “empreendedorismo”) o que o aguarda é estagnação salarial, pobreza ou prisão.

Como podemos relacionar o X2 às crises de produção e reprodução? Expropriação, assim como vimos, refere-se ao roubo de nossos direitos e bens comuns. Nossa reprodução depende da terra comum assim como da ação coletiva. Até mesmo o governo como algo comum seria possível como a Nobel Elinor Ostrom mostrou. Quando tudo está dito e feito, entretanto, a solução para nossa crise de reprodução é a descoberta, seguida pela reivindicação, do que é comum; do que é nosso.

Você não precisa ser um ávido seguidor do movimento Occupy para saber que no condado de Washtenaw as crises de habitação e educação estão na cabeça de todos. Embargo é expropriação, enquanto as taxas da educação superior e a enorme dívida estudantil constituem exploração. Em Ypsilanti, o orçamento das escolas é excedente com o enfraquecimento do fundo estadual para a educação, o que significa a eminente designação de uma Gestão Financeira de Emergência. A crise de habitação resulta nesse tipo de coisas tais como Camp Take Notice, uma comunidade de desabrigados, sem teto, vivendo em barracas fora de Ann Arbor. Uma cidade na qual seu próprio grupo Occupy devotou suas energias para o estabelecimento de vinte e quatro horas/ sete dias por semana de um “centro de aquecimento” para os sem casa que tremem. Essa iniciativa falhou, assim como ocorreu com os planos de estabelecer os comuns no topo da estrutura histórica do estacionamento subterrâneo ao lado da divisão central da Biblioteca pública de Ann Arbor.

A criatura produzida pelo tecnocrata Dr. Frankenstein perambulou por toda a face da terra, sem nenhuma consideração pelas fronteiras nacionais. Da mesma forma, o vampiro ignora diferenças nacionais, sexuais e raciais contanto que o sangue seja vermelho! A fome capitalista por mais-valia é internacional e atinge seus objetivos mais sanguinários realocando plantas, equipamento, genes, dados e pessoas da maneira que melhor lhe serve. Quando o Fundo Monetário Internacional se reuniu em outubro de 2011 em Náuplia, os sindicatos organizaram uma enorme demonstração contra isso sob a seguinte ordem:

sua riqueza, nosso sangue!
Sanguessugas são internacionais, mas nós também somos, se nós apenas...
Despertamos! Acordarmos! Levantarmos! Ocuparmos pelo Dia do Trabalho

O sugador de sangue não é apenas simbólico. Ao virar a esquina da Toledo University, onde eu trabalho, há três lojas que compartilham um estacionamento: uma loja de plasma, uma loja de compensação de cheques e uma loja de bebidas alcoólicas. Elas se mantiveram de pé e, aparentemente prosperaram, enquanto muitos presidentes da Universidade foram e vieram, e eles convenientemente possibilitam o ciclo de vida patentemente americano pelo qual um homem vende seu sangue, desconta seu cheque e então fica embriagado.

Terra de zumbis! Casa dos mortos vivos. Oh, que vergonha!

O ditador Sula era inteiramente tentado a matar e nenhum santuário dos deuses ou lar ancestral poderia ser uma defesa contra a sua ira. Mas Sula também chegou a um fim sangrento. De acordo com Vidas Paralelas, de Plutarco, foi mais ou menos assim: seus intestinos foram ulcerados (“sua própria carne estava poluída”) e até mesmo sua pele atraía piolhos, os quais nenhuma quantidade de extração ou banhos poderia destruir. Tendo sido avisado que um magistrado havia permitido a alguém adiar o pagamento de uma dívida,

Sula censurou o homem e o estrangulou. Mas seus gritos e esforços geraram muita tensão e com ele “o imposthume [abscesso ou cisto] se rompendo, perdeu uma grande quantidade de sangue” e morreu. Mesmo assim, como David Graeber nos lembra, crédito e débito sempre foram suportados pela violência, é raro que os dias de um ditador terminem tão poeticamente, expirando por seu próprio remédio.36 Lembre-se de Sula!

“E perdoe nossas dívidas, assim como perdoamos os nossos devedores”, alertou o filho de um carpinteiro. Vamos ainda lembrar David Walker, Karl Marx, Mary McCoy e Albert Parsons.
Não nos esqueçamos de Howard Zinn, Oakley Johnson, Mary Shelley e o Reverendo Pinkney.

Haverá um teste!

Não nos esqueçamos dos ingleses românticos, dos anarquistas de Chicago ou dos comunistas de Nova Iorque. Trouxemos ao fim um tipo de escravidão: a escravidão racial nas plantations. Trouxemos ao fim um tipo de punição capital: linchamento por bandos. Podemos trazer a um fim as vampirescas ditaduras de corporações e suas Gestões Emergenciais? Ou vamos simplesmente lamentar a jornada de oito horas e a morte de nossos direitos e bens comuns?

Haverá um teste!

Embora pensemos como os 99 %, poucos americanos se identificam como “classe trabalhadora”. Em nosso país esse termo tem sido seriamente comprometido, apesar do fato de o mundo ansiar pela solidariedade que pode derrubar os príncipes e os atuais hospodares, CEOs, Césares e Sulas, Gestores de Emergência e o resto do 1 %. Mais do que nunca, muitos e muitos de nós se transformam em proletários – sem meios de subsistência.

O Dia do Trabalho é o dia que percebemos novamente quem nós somos e o que nós queremos. Ao dissolver o “eu” em “nós” nesse glorioso e revolucionário dia de unidade, pelas nossas palavras e ações, decidiremos que tipo de união desejamos construir. União sindical, união por ofício, união industrial, união por casamento, união por laços familiares, união nacional e tribal, uma grande união, ou até mesmo união de classe: essas são as uniões da produção e da reprodução. O Primeiro de Maio é um dia prático. Ao descobrirmos quem são nossos irmãos e irmãs forjaremos a solidariedade. É assim que criaremos o futuro: com coletividade e cooperação.

Quais são as responsabilidades nesse Dia do Trabalho? Devemos preservar as assembleias gerais do 99 %. Juntos devemos ocupar o espaço comum, os parques, os monumentos, as ruas, as livrarias, as fábricas, as escolas e os centros comerciais que foram privatizados ou simplesmente abandonados? E que tal as terras roubadas e transformadas em campos de golfes em Benton Harbor? Deveríamos encher as ruas e fazer nossas presenças serem percebidas pelo outro pela visão, som e toque. Somos Muitos, eles são Poucos.

Devemos ter um mastro enfeitado para o Dia do Trabalho. Devemos preservar as propriedades públicas de Ypsilanti. Devemos encher as ruas para que possam ver que realmente somos os 99 %. Devemos saudar aqueles que são como nós, mas que ainda não conhecemos. Devemos dirigir a estaca através da monstruosidade da supremacia branca. Devemos evitar ditaduras ainda que as mascaradas por pseudônimos. Devemos mirar um futuro sem prisões para nossos filhos. Devemos desfazer os enganos que lhes são oferecidos na escola. Devemos fazer com que os campos desolados se tornem verdes novamente. Devemos recuperar e criar alguns novos de tudo aquilo que nos é comum. Ninguém pode realizar isso sozinho. Vamos garantir para nós mesmos que juntos, em comunidade, nós podemos, apenas se nós

Despertarmos! Acordarmos! Levantarmos!
Ocuparmos pelo Dia do Trabalho!

Esse texto está disponível como panfleto para o Occupy Ypsilanti.

Notas:

1 Publicado originalmente em . 27 abr. 2012. Nota do Editor: a padronização do artigo segue o original. 
2 Professor de História na Universidade de Toledo, Ohio (EUA).
3 TAIBBI, Matt. The Great American Bubble Machine. Rolling Stone, 5 Apr. 2010. Disponível em: . Acesso em: 28 ago. 2018. Este artigo originalmente foi publicado em julho de 2009. 
4 VOLTAIRE (François-Marie Arouet). Philosophica Dictionary. 1764. [Dicionário Filosófico. São Paulo: Editora Atena, 1954].
5 Sou especialmente grato a dois artigos de “Children of the Gallery”, um coletivo grego; a saber: “The Rebellious Passage of a Proletarian Minority through a Brief Period of Time” e “Burdened with Debt: ‘Debt Crisis’ and Class Struggles in Greece”, em VRADIS, Antonis; DALAKOGLOU, Dimitris (an Occupied London Project). Revolt and Crisis in Greece: Between a Present Yet to Pass and a Future Still to Come. Oakland, CA, USA: AK Press, 2011. Também sou grato pela mensagem de Anna em Thessaloniki.
6 ZINN, Howard. The politics of History. Boston: Beacon Press, 1970.
7 ZINN, Howard. The Greatest Generation? The Progressive, Oct. 2001. Disponível em: . Acesso em: 28 ago. 2015. Veja também: ______. Failure to Quit: Reflections of an Optimistic Historian. Maine: Common Courage Press, 1993; ______. You Can’t Be Neutral on a Moving Train: A personal History of Our Times. Boston: Beacon Press, 1993. [Você não pode ser neutro num trem em movimento: uma história pessoal dos nossos tempos. Curitiba: L-Dopä, 2005.]
8 WILKINSON, William. An Account of the Principalities of Wallachia and Moldavia. London: Longman, 1820.
9 BERNAL, Martin. Black Athena: The Afrosiatic Roots of Classical Civilization. Vol. I.: The Fabrication of Ancient Greece, 1785-1985. New Brunswick: Rutgers University Press, 1987.
10 CLAIR, William St. That Greece Might Still Be Free: The Philhellenes in the War of Independence. London: Oxford University Press, 1972.
11 STAVRIANOS, Leften Stravos. The Balkans, 1815-1914. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1963.
12 WOODRUFF, Jim. Across Lower Michigan by Canoe 1790. Bentley Historical Library, 2004. Mimeo. Este é um conto de uma viagem de canoa moderna seguindo a rota tomada em 1790 por Hugh Heward, conforme descrito em seu diário. Veja também: WILLIAMS, Karl. Gabriel Godfroy Wasn’t the First. Ypsilanti Gleanings, Ypsilanti, 9 Apr. 2009. Disponível em: . Acesso em: 30 ago. 2018.
13 Long Knives termo utilizado pelos nativos norte-americanos para designar, inicialmente, os colono ingleses, estendendo-se posteriormente a todos os brancos estadunidenses (NT).
14 SUGDEN, John. Tecumseh. New York: Henry Holt, 1993. pp 148 e 362.
15 COLBURN, Harvey C. The Story of Ypsilanti. Ypsilanti: Ypsilanti Committee on History, 1923. pp. 35, 37 e 40.
16 WOODFORD, Frank B. Mrs. Jefferson’s Disciple: A Life of Justice Woodward. East Lansing: Michigan State College, 1953.
17 Uma ordem da aristocracia na Europa Oriental.
18 WILKINSON, op. cit. pp. 155-166.
19 SETON-WATSON, Robert William. W. A History of the Roumanians from Roman Times to the Completion of Unity. Cambridge: Cambridge University Press, 1934.
20 MITRANY, David. The Land & the Peasant in Rumania. London: Oxford University Press, 1930.
21 SETON-WATSON, op cit. pp. 7, 9, 19 e 141.
22 Esta passagem refere-se à versão brasileira em MARX, Karl. O capital. Crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. 2. ed. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2017. p. 307.
23 Certa vez, me deparei com evidências de que foram os trabalhadores ferroviários de St. Louis, Missouri, os primeiros a traduzirem esse enorme capítulo para o inglês. No entanto, desde então, tenho sido inábil em encontra-las novamente.
24 NEOCLEOUS, Mark. The Political Economy of the Dead: Marx’s Vampires. History of Political Thought, v. 24, n. 4, inverno 2003. Disponível em: , Acesso em: 30 ago. 2018. Também recomendo: POLICANTE, Amadeo. Vampires of Capital: Gothic Reflections between Horror and Hope. Cultural Logic, 2010.
25 MARX, Karl. Rheiische Zeitung [Gazeta Renana], 15 Jan. 1843.
26 As cores aqui citadas referem-se à categorização de trabalhadores por suas vestimentas típicas, nas primeiras décadas do século XX. “Colarinhos Azuis” era o uniforme da classe trabalhadora que realizava trabalhos manuais. “Colarinhos brancos” eram as carreiras que hoje são típicas do que seria a “classe média”, escriturários, do setor administrativo, gerenciais, serviços especializados. Os “colarinhos rosas” referem-se aos trabalhadores da indústria que realizavam serviços como vendas, limpeza e outros que envolvem a relação direta com pessoas.; no final dos anos da década de 1990, referia-se a empregos tipicamente ocupados por mulheres.
27 HINKS, Peter J. To Awaken My Afflicted Brethren: David Walker and the Problem of Antebellum Slave-Resistance. Pennsylvania: Pennsylvania State University Press, 1977.
28 McCARTHY, Fiona. Byron: Life and Legend. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2002, p. 507. A escravidão racial europeia começa com os ciganos [Romany people, or Gypsies].
29 FONER, Philip S. May Day: A Short History of the International Workers’ Holiday. New York: International Publishers, 1986, p. 77.
30 MARSHALL, Albert P. The “Real McCoy” of Ypsilanti. Ypsilanti: Marlan, 1998.
31 Negro History Bulletin, v. 33, n. 2, Feb. 1970. Disponível em: . Acesso em: 04 set. 2018. Ou: Michigan Quarterly Review, v. 8, n. 2, spring 1969. Disponível em: . Acesso em: 04 set. 2018. Ver tabém “Trying to Live ‘Really Human’”, uma autobiografia datilografada escrita por Oakley Johnson para seus netos, localizada em uma pasta marcada como “Other Papers” no Box 2 da Johnson Papers, Labadie Collection, University of Michigan.
32 KIDDER, Warren Benjamin. Willow Run: Colossus of American Industry. Berlin: KLF Publishing, 1995, pp. 39-41. Os mafiosos Purple Gang eram os capangas do trabalho, assim como haviam sido os Cleaners and Dyers War de 1927.
33 CARR, Lowell; STERMER, James. Willow Run. New York: Harper, 1952, pp. 9, 36, 104 e 208.
34 Arquivos da Ypsilanti Historical Society. Willow Run Collection, pasta “Rosie the Riveter”.
35 HABER, Alan. The Community Organization Approach to Anti-Poverty Action: An Evaluation of the Willow Village Project. Report to the Office of Economic Opportunity, University of Michigan, 1967, pp. 53, 313 e 315. Mimeo.
36 GRAEBER, David. Debt: The First 5,000 years. Brooklyn: Melville House, 2011.

Leituras de interesse para os Occupiers

BOAL, Iain; STONE, Janferie; WATTS, Michael; WINSLOW, Cal. (eds.) West of Edem Communes and Utopia in Northern California. Oakland, Calif.: PM Press, 2012.
BRECHER, Jeremy. Strike! Boston: South End Press, 1972.
CAFFENTZIS, George. On the Notion of a Crisis of Social Reproduction: A Theoretical Review. In: COSTA, Mariarosa Dalla; COSTA, Giovanna F. (eds). Women, Development and Labor of Reproduction: Struggles and Movements. Trenton, NJ: Africa World Press, 1999, p. 153-187.
FEDERICI, Silvia. Revolution at Point Zero: Housework, Reproduction, and Feminist Struggle. New York: Common Notions, 2012.
GRAEBER, David. Debt: The First 5,000 Years. Brooklyn: Melville House, 2011.
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HARVEY, David. The New Imperialism. Oxford University Press, 2003.
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HAWTHORN, Nathaniel. The Maypole of Merry Mount. Twice-Told Tales. Boton: American Stationers Co., 1837.
LINEBAUGH, Peter. The Magna Carta Manifesto: Liberties and Commons for All. Berkeley: University of California Press, 2008.
MARSH, George Perkins. Man and Nature: Or, Physical Geography as Modified by Human Action. New York: Charles Scribner, 1864.
MARX, Karl, Capital: A Critique of Political Economy, volume one, trans. Ben Fowkes. London: Penguin Books, 1976.
[MARX, Karl. O capital. Crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. 2. ed. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2017.]
McNALLY, David. Monsters of the Market: Zombies, Vampires and Global Capitalism. Leiden, Netherlands: Brill, 2011. Historical Materialism Book Series, vol. 30.
MORTON, Thomas. The New English Canaan. London, 1637.
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STOKER, Bram. Dracula (1897). Edited by Nina Auerbach and David J. Skal. New York: W. W. Norton & Co., 1997.
TRACHTENBERG, Alexander. History of May Day. New York: International Publishers, 1947.
VRADIS, Antonis; DALAKOGLOU, Dimitris (eds.). Revolt and Crisis in Greece: Between a Present Yet to Pass and a Future Still to Come. Oakland, Calif. and London: AK Press and Occupied London, 2011.
WALKER, David. Appeal to the Coloured Citizens of the World. 1829.
ZINN, Howard. A People’s History of the United States. New York: Harper & Row, 1980.

Agradecimentos

Sou grato a Kate Hutchens da Labadie Collection da biblioteca da University of Michigan; a Ypsilanti Historical Society; Constantine George Caffentzis; Kate Khatib da AK Press; Professor Ronald Grigor Suny; Anna of Thessaloniki; Lia Yoka de Thessaloniki; Jeffery Pollock e a Eric Albjerg da University of Toledo; Michaela Brennan e Riley Linebaugh.

Sobre o autor

Peter Linebaugh ensina história na University of Toledo. Suas obras incluem The London Hanged e The Many-Headed Hydra: the Hidden History od the Revoltionary Atlantic (com Marcus Rediker), sendo o último publicado no Brasil com o título “A hidra de muitas cabeças: marinheiros, escravos, plebeus e a história oculta do Atlântico revolucionário pela Companhia das Letras, 2008). Seu ensaio da história do Dia do Trabalho está no Serpents in the Garden. Seu último livro é o Magna Carta Manifesto.

26 de abril de 2012

Após a Guerra Fria

Eric J. Hobsbawm sobre Tony Judt

Eric J. Hobsbawm


Tradução / Minhas relações com Tony Judt datam de longo tempo, mas sempre foram curiosamente contraditórias. Éramos amigos, embora não amigos íntimos e, apesar de ambos sermos historiadores politicamente comprometidos, e de os dois preferirmos usar roupa de trabalho, em vez do uniforme regimental de historiadores, sempre marchamos ao som de diferentes toques de tambor. No entanto, nossos interesses intelectuais tinham algo em comum. Ambos sabíamos que o século XX só podia ser plenamente compreendido por aqueles que se tornaram historiadores, pois viviam nele e compartilhavam sua paixão básica: a crença de que a política é a chave para as nossas verdades assim como para nossos mitos. Apesar de nossas diferenças, tanto Marxism and the French Left de Tony, como meu recente How to Change the World são dedicados ao mesmo livre pensador, o falecido George Lichtheim. Dávamos-nos bem, em termos pessoais – mas Tony era homem generoso, fácil de gostar. Tinha em boa conta o meu trabalho, como escreveu em seu último livro. Apesar disso, lançou contra mim um dos mais implacáveis ataques que recebi, numa passagem que, imediatamente, se tornou citação obrigatória, sobretudo para os ultras da extrema direita da mídia nos Estados Unidos. A crítica resumia-se ao seguinte: para a esquerda, basta declarar em confissão pública que seu deus fracassou e bater no peito; fácil assim, a esquerda já conquista o direito de ser levada a sério; não se deve dar ouvidos a ninguém que não pense e escreva que “socialismo é Gulag”. Nunca duvidei da sinceridade de Judt ao abraçar essa figura de retórica, numa polêmica em que discutia com comunistas. Por sorte, a prática, em Judt, pouco teve a ver com a teoria.

Para a maioria de nós, a imagem hoje dominante é a coragem com que enfrentou a doença degenerativa que o acometeu, e a morte. Houve uma espécie de grandeur romana em sua recusa a aceitar o inevitável da doença, que quase convoca elogios clássicos. Não só a decisão de levar o jogo até o xeque-mate, mas a atitude de provocar a morte, demonstrando até o final seu talento de grande professor, debilitado, mas nunca derrotado. É uma imagem comovente, mas temos de resistir: estimular a construção de mitos não é atitude digna em historiadores. Tony foi apresentado ao mundo como um novo George Orwell. É uma ideia errada, porque embora ambos fossem homens de dotes excepcionais e ativos polemistas, eram muito diferentes. Faltava a Tony a combinação de vários tipos de preconceitos que havia em Orwell, que tomava o Velho Testamento, simultaneamente olhado como se fosse passado e futuro, como profecia e como denúncia imaginativa. Judt jamais escreveria 1984 ou Animal Farm. E Orwell, escritor muito mais poderoso, não tinha nem uma fração da monumental gama de conhecimentos de Tony, nem seu talento, nem sua agilidade e versatilidade intelectuais. Orwell nunca teria sobrevivido como intelectual acadêmico.

Mas a comparação com Orwell também é perigosa, porque não se trata só de dois escritores, mas de uma era política que já deveria estar hoje superada por bem: a Guerra Fria. A reputação de Orwell foi erguida como poderoso lança-foguetes intelectuais contra os soviéticos; e mesmo hoje, quando o resto de Orwell já emergiu ou reemergiu, é nome que permanece congelado na década de 1950. Tony foi, é claro, tão anti-Stálin quanto qualquer outro, e crítico amargo dos que não abjuraram o Partido Comunista, mesmo que se tenham provado satisfatoriamente anti-stalinistas e, como no meu caso, já estejamos lentamente nos livrando da esperança original de outubro de 1917. Como os sionistas que se opuseram a encenações de Wagner em Israel, Tony foi dos que deixam a antipatia política atravessar-se à frente do prazer estético, descartando o poema de Brecht sobre quadros do Comintern, An die Nachgeborenen [Os Admirados por Tantos], como poema “repulsivo”, não em termos literários, mas porque inspirava pensamentos maléficos aos crentes. Mas é evidente, desde Thinking the 20th Century, que sua preocupação básica durante a fase aguda da Guerra Fria, não era a ameaça soviética contra o “mundo livre”, mas as discussões dentro da esquerda. Seu tema sempre foi Marx – não Stálin e o Gulag. É verdade que, depois de 1968, passou a ser mais um liberal de oposição militante contra a Europa Oriental, admirador dos turistas acadêmicos de direita que forneciam praticamente tudo que se publicava sobre o fim dos regimes comunistas na Europa Oriental. E isso o arrastou – e se esperaria coisa melhor dele – a criar, com outros, o conto de fadas das “revoluções de veludo” e “revoluções coloridas” de 1989 em diante. Essas revoluções jamais existiram. Foram, todas, diferentes reações à decisão dos soviéticos de sair de lá. Os verdadeiros heróis daquele período foram Gorbachev, que destruiu a URSS, e homens do velho sistema, como Suárez na Espanha de Franco e Jaruzelski na Polônia, que efetivamente conseguiram garantir uma transição pacífica e foram execrados pelos dois lados. De fato, nos anos 1980s, o liberalismo essencialmente social-democrata de Tony foi rapidamente infectado pelo neoliberalismo econômico sem regras à Hayek, de François Furet. Não creio que esse fogo-fátuo da Guerra Fria tenha sido essencial para o desenvolvimento de Tony, mas sem dúvida contribuiu para dar mais corpo e profundidade ao seu impressionante Pós-guerra.

O modo como andou pela segunda metade do século é sui generis. Até fixar-se em New York na década de 1980 e começar a escrever para a New York Review, não era historiador de grande destaque, sequer entre os especialistas anglófono sem história da França, talvez porque se tenha deixado arrastar por tempo demais pelos infindáveis debates sobre a natureza da esquerda francesa. Antes da década de 1980, Tony só era encontrado nas margens da história social, autor de um excelente estudo do socialismo na Provence entre 1871 e 1914. Sua fase francesa combinava erudição impressionante com, em minha opinião, resultados historicamente triviais: rapidamente foi convertido em assunto para torneios acadêmicos no mundo marginal e sem efeitos da Rive Gauche. Mas o que acontecia no “Les Deux Magots” e no “Flore”, embora culturalmente prestigiado, era politicamente irrelevante, comparado ao que acontecia no outro lado do boulevard St. Germain, na “Brasserie Lipp”, onde se reuniam os políticos. A política de Sartre consistia em “tomar posição”, porque nada mais havia que pudesse fazer; e De Gaulle sabia disso. Em qualquer caso, a esquerda raras vezes chegou ao poder, e provavelmente os únicos intelectuais que chegaram a primeiro-ministro foram Léon Blum em 1936 e – ou, pelo menos, foi uma boa imitação – Mitterrand. Mediante as mais fantásticas acrobacias intelectuais, cujo absurdo Tony não precisou trabalhar muito para demonstrar, intelectuais de esquerda faziam o que podiam para dar conta de uma situação nacional única, e do seu próprio isolamento, no país que inventou a palavra “obreirismo” [orig. “ouvrierisme”], quer dizer: operários que absolutamente não acreditavam em intelectuais.

Quatro coisas modelaram a história francesa nos séculos XIX e XX: a República nasceu da Grande Revolução incompleta; o estado napoleônico centralizado; o papel político crucial atribuído a uma classe trabalhadora pequena demais e desorganizada demais; e o longo declínio da França, da posição que tivera antes de 1789, como o Império do Meio da Europa, tão confiante quanto a China na própria superioridade cultural e linguística. Foi a “capital do século XIX”, sobretudo aos olhos estrangeiros, mas depois de Waterloo, deslizou lenta e não continuamente, mas sempre para baixo, em termos de força militar, poder internacional e centralidade cultural. Sem um Lênin e privada de Napoleão, a França recolheu-se como um último – e esperemos, indestrutível – reduto, o mundo de Astérix. A moda pós-guerra para pensadores parisienses mal disfarçava a retirada coletiva para uma introversão de Hexágono e para dentro da última fortaleza da intelectualidade francesa, o pensamento cartesiano e suas arrogâncias adjuntas. Não havia qualquer outro modelo na educação superior e nas ciências, no desenvolvimento econômico, nem – como se vê pela penetração tardia das ideias de Marx – na ideologia da Revolução. O problema dos intelectuais de esquerda foi como se entenderem com uma França essencialmente não revolucionária. O problema, para os de direita, muitos dos quais ex-comunistas, foi como fazer as exéquias do evento fundacional e da tradição formativa da República, a Revolução Francesa, tarefa equivalente, na dificuldade, à de escrever a Constituição Americana a partir da história dos Estados Unidos. É missão impossível. Não podia ser feito, nem por operadores muito inteligentes e poderosos como Furet; nem Tony, mesmo que sobrevivesse, poderia ter restaurado a social-democracia que sempre fora seu ideal.

Tony tinha feito seu nome como um brutamontes da acadêmica. Sua posição padrão era de legista: não de juiz, mas de advogado, cujo objetivo não é nem a verdade nem a verossimilhança, mas ganhar a causa. Não é crucialmente importante investigar as próprias possíveis fraquezas, embora seja o que deva fazer o historiador de grandes espaços, longos períodos e processos complexos. Mas nem as décadas formativas, como intelectual de acusação, impediram que Tony se transformasse em historiador maduro, atento e bem informado. Seu grande trabalho nessa condição foi, sem dúvida, o gigantesco calço, Pós-guerra: Uma História da Europa desde 1945. Era e é um livro ambicioso, embora um pouco desequilibrado. Não estou convencido de que a perspectiva do livro parecerá adequada aos que o leiam agora pela primeira vez, sete anos depois da publicação. Apesar disso, garanto, por experiência pessoal, que grandes trabalhos de síntese histórica baseados em fontes secundárias e na observação da história contemporânea só podem ser escritos na maturidade. Bem poucos historiadores têm jeito para atacar objeto tão imenso, ou para levá-lo até uma conclusão. O livro é um impressionante trabalho. Se por mais não for, porque qualquer trabalho que tome a narrativa até o momento presente já carrega em si a própria obsolescência e tem futuro incerto. Mas talvez tenha maior sobrevida como referência de trabalho de narrativa crítica, porque é escrito com verve, garra e estilo. Pós-guerra fixou Tony, pela primeira vez, como figura de destaque na profissão.

Mas ele, então, já estava parando de operar como tal. No século XXI, sua posição já era menos de historiador, que de “intelectual público”, brilhante inimigo do auto-engano enfeitado com jargão de teoria, com o pavio curto do polemista natural, comentarista independente e crítico sem medo dos assuntos mundiais. Pareceu ainda mais original e radical, por ter sido defensor muito ortodoxo do “mundo livre” contra o “totalitarismo” durante a Guerra Fria, sobretudo na década de 1980. Frente a governos e ideólogos que liam vitória e dominação mundial na queda do comunismo, Tony foi suficientemente honesto consigo mesmo para reconhecer que as velhas verdades e os velhos slogans tinham de ser detonados, depois de 1989. Provavelmente, só nos sempre nervosos Estados Unidos uma tal reputação poderia ter sido construída tão rapidamente, só à base de uns poucos artigos em publicações de circulação modesta, dirigidas exclusivamente a intelectuais de academia. As páginas dos grandes veículos da mídia estavam há muito tempo abertas a Raymond Aron na França (bem claramente, uma das inspirações de Tony), ou a Habermas na Alemanha, e o impacto que pudessem ter já estava há muito tempo neutralizado. Tony estava bem consciente dos riscos pessoais e profissionais que corria, atacando as forças combinadas da empreitada de conquista americana global, dos neoconservadores e de Israel, mas foi homem bem servido do que Bismarck chamou de “bravura civil” (Zivilcourage) – qualidade notável que faltava a Isaiah Berlin, como o próprio Tony observou, talvez com alguma ironia. Diferente de escolásticos e burocratas da Rive Gauche que, como disse Auden dos poetas, “nada faziam acontecer”, Tony entendeu que uma luta contra tais novas forças faria alguma diferença. E lançou-se, ele mesmo, contra elas, com evidente prazer e engenho. Essa foi a figura que veio a ser depois do final da Guerra Fria, alargando sua perícia de acusador de corte de justiça, para vergastar os Bushs e Netanyahus e assemelhados, mais do que algum absurdo no 5ème Arrondissement ou algum professor emérito em New Jersey. Foi performance magnífica, ato de primeira classe; foi louvado por seus leitores, não só pelo que disse, mas por dizer o que muitos deles jamais teriam a coragem de dizer. Foi ainda mais eficaz, porque foi, simultaneamente, homem “de dentro” e homem “de fora”, insider e outsider: britânico, judeu, francês, eventualmente americano, mas plurinacional, mais que cosmopolita. E, sim, conhecia bem os limites do que estava fazendo. Como ele mesmo diz, os mais bem-sucedidos na tarefa de dizer a verdade ao poder não são os colunistas, mas os repórteres e fotógrafos, na onipresente mídia.

Até o início dos anos 2000 Tony tinha presença internacional, pelo menos no mundo de língua inglesa. Duraria mais que os canônicos 15 minutos de Warhol? Afortunadamente, graças aos anos de sua doença final, é possível responder a pergunta. O trabalho de Tony sobreviverá, porque, depois que adoeceu, ele pela primeira vez deixou de ver-se como acusador num tribunal e tentou formular o que realmente sabia, sentia e pensava. Thinking the 20th Century não é um grande livro ou sequer capítulo de um grande livro – e como seria, dado o modo como foi escrito? – mas é leitura essencial para quem queira saber o que historiadores contemporâneos têm a nos dizer. Ele também é um modelo de discurso civilizado na aldeia global acadêmica. Mostra que historiadores podem questionar os próprios pressupostos, examinar as próprias certezas e ver como a própria vida é modelada e remodelada pelo seu século. E, não menos importante, é um valioso memorial de um homem notável e da vida que decidiu viver.

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