13 de janeiro de 2010

Nosso papel na situação do Haiti

Se quisermos ajudar seriamente este devastado país, temos de desistir de controlá-lo e de explorá-lo.

Peter Hallward


Tradução / Um terremoto com a intensidade daquele que, em 12 de janeiro, atingiu a capital do Haiti teria causado enormes danos em qualquer cidade do mundo. Não é contudo por acaso que uma parte tão considerável de Port-au-Prince pareça agora uma zona de guerra. Boa parte da devastação causada pelo mais recente e calamitoso desastre natural é facilmente compreensível como mais uma consequência de uma horrível sequência histórica, tipicamente um produto da ação humana.

O país teve mais do que a sua quota de catástrofes. O grande sismo de 7 de maio de 1842 matou mais de 10 mil pessoas, só na cidade de Cap Haïtien, na costa norte. Os ciclones fustigam regularmente a ilha, os mais recentes em 2004 e 2008. As tempestades de Setembro de 2008 causaram inundações na cidade de Gonaïves e destruíram boa parte das suas deficientes infra-estruturas, matando mais de mil pessoas e destruindo muitos milhares de casas. A amplitude total da destruição resultante deste terramoto só deverá ser conhecida daqui a várias semanas. Mesmo pequenas obras vão demorar anos a ficarem prontas, e o impacto a longo prazo é incalculável.

No entanto, é já muito claro que este impacto resultou de uma ainda mais longa história de empobrecimento deliberado e perda de poder. O Haiti é geralmente descrito como o "país mais pobre do hemisfério ocidental". Essa pobreza é uma herança directa daquele que talvez tenha sido o mais brutal sistema de exploração colonial da história mundial, combinado com décadas de opressão pós-colonial sistemática.

A nobre "comunidade internacional", que hoje se apressa a mandar "ajuda humanitária" para o Haiti, é largamente responsável pela dimensão do sofrimento que agora pretende reduzir. Desde que os EUA invadiram e ocuparam o país, em 1915, todas as tentativas no sentido de permitir que a população do Haiti passasse "da miséria absoluta a uma pobreza digna" (segundo as palavras do antigo Presidente Jean-Bertrand Aristide) foram violenta e deliberadamente bloqueadas pelo governo dos EUA e alguns dos seus aliados.

O próprio Governo de Aristide (eleito por cerca de 75% do eleitorado) foi a última vítima desta interferência, quando foi deposto, em 2004, por um golpe de estado, patrocinado internacionalmente, que matou vários milhares de pessoas e causou o ressentimento da maioria da população. Depois dele, a ONU tem mantido no país uma vasta força de estabilização e pacificação, cujos custos são enormes.

Hoje, o Haiti é um país onde, segundo o melhor estudo disponível, cerca de 75% da população "vive com menos de dois dólares (1,40 euros) por dia e 56% - 4,5 milhões de pessoas - com menos de um dólar (68 cêntimos) por dia". Décadas de "ajuste" neoliberal e de intervenção neo-imperial retiraram ao seu governo qualquer capacidade de investir no seu povo ou de regular a sua economia. Acordos comerciais e financeiros internacionais punitivos garantem que essa destituição e essa impotência continuarão, no futuro previsível, a ser um facto estrutural da vida no Haiti.

São essa pobreza e essa fragilidade que estão na origem da enorme escala do horror que hoje se vive em Port-au-Prince. Desde finais dos anos 1970, os ataques neoliberais à economia rural do Haiti empurraram dezenas de milhar de pequenos agricultores para subúrbios urbanos sobrepovoados. Embora não haja estatísticas fiáveis, centenas de milhar de residentes de Port-au-Prince vivem em habitações clandestinas sem o mínimo de condições, muitas delas empoleiradas em ravinas desflorestadas. A mistura de pessoas que vivem nesses locais e nessas condições não é, em si mesma, mais "natural" ou acidental do que a amplitude dos danos que sofreram.

Como destaca Brian Concannon, director do Instituto para a Justiça e a Democracia no Haiti: "Estas pessoas foram para lá porque os pais foram intencionalmente expulsos do campo devido a políticas de ajuda e de comércio especificamente destinadas a criar uma enorme força de trabalho cativa - e portanto explorável - nas cidades; por definição, são pessoas que não teriam dinheiro para construir casas resistentes a terramotos." As infra-estruturas básicas da cidade - água corrente, electricidade, estradas, etc. - continuam a ser tristemente inadequadas e, em muitos casos, inexistentes. A capacidade do governo de mobilizar qualquer ajuda para as vítimas é quase nula.

Na prática, a comunidade internacional tem governado de facto o Haiti desde o golpe de 2004. Os países que agora se apressam a enviar ajuda de emergência são os mesmos que, nos últimos cinco anos, têm persistentemente votado contra o alargamento do mandato da missão da ONU para além da sua finalidade militar imediata. As propostas no sentido de canalizar parte deste "investimento" para a redução da pobreza ou para o desenvolvimento rural têm sido bloqueadas, em conformidade com os velhos padrões que continuam a modelar a distribuição da "ajuda" internacional.

As mesmas tempestades que mataram tantos em 2008 atingiram Cuba com a mesma intensidade mas mataram apenas quatro pessoas. Cuba escapou aos piores efeitos da "reforma" neoliberal, e o seu governo mantém a sua capacidade de defender o seu povo dos desastres. Se quisermos mesmo ajudar o Haiti a sair desta mais recente crise, teremos de ter em conta este ponto de comparação. Além de enviarmos ajuda de emergência, devemos perguntar-nos o que podemos fazer para facilitar a capacitação da população e das instituições públicas do Haiti. Se quisermos mesmo ajudar, temos de deixar de tentar controlar o governo do Haiti, de pacificar os seus cidadãos e de explorar a sua economia. Depois, temos de começar a pagar, pelo menos por alguns dos danos que já provocamos.

1 de janeiro de 2010

Presidente da hipocrisia

Tariq Ali

New Left Review

Um ano depois de a presidência dos EUA ter mudado de mãos, o que mudou no império norte-americano? Durante o governo Bush, a ‘grande’ imprensa e boa parte da sessão amnésica da esquerda repetia, que os EUA estariam sob o poder de um regime aberrante, produto de praticamente um golpe de Estado aplicado por um pequeno grupo de direitistas fanáticos – combinado à corporações ultrarreacionárias –, que teria sequestrado a democracia dos EUA, pondo-a a serviço de agressões jamais vistas contra o Oriente Médio. Resposta a isso, os EUA teriam eleito um mestiço alistado no Partido Democrata, que prometia curar todas as feridas ‘domésticas’ e restaurar a boa reputação dos EUA no mundo. Esse presidente foi recebido numa onda de euforia ideológica jamais vista desde os dias de Kennedy. Outra vez, os EUA mostrariam sua verdadeira face – decididos, mas pacíficos; firmes, mas generosos; humanos, respeitosos, multiculturalistas – ao mundo. Naturalmente, como um Lincoln ou um Roosevelt de nossos tempos, o novo jovem presidente dos EUA teria de fazer concessões, como qualquer estadista. Mas, pelo menos, estaria acabado o vergonhoso interlúdio de bandidagem e criminalidade dos Republicanos. Bush e Cheney haviam interrompido a continuidade de uma liderança norte-americana multilateral que tanto bem fizera ao país durante a Guerra Fria e depois dela. Obama recuperaria esse fio dessa meada.

Raramente a mitologia de autopromoção – ou ingenuidade bem-intencionada – foi tão rapidamente desmascarada. Não houve qualquer rompimento fundamental na política externa, como oposta às cantigas diplomáticas, entre os governos Bush 1, Clinton e Bush 2; tampouco houve qualquer mudança importante entre os governos Bush e Obama. Os objetivos estratégicos e imperativos dos EUA continuam os mesmos; tampouco mudaram os principais teatros e os meios de operação. Desde o colapso da URSS, a Doutrina Carter – a construção de um novo pilar democrático de direitos humanos – definiu o Oriente Médio estendido como campo de batalha central para a imposição do poder norte-americano em todo o mundo. Basta olhar para cada setor, para ver que Obama é produto de Bush, como Bush, de Clinton; e Clinton, de Bush-pai, em ritmo de filiação bíblica.

Continuam a ignorar Gaza

A posição de Obama a favor de Israel já estava manifesta antes da posse. Dia 27/12/2008, o Exército de Israel [ing. Israel Defense Forces, IDF] lançou ataque mortífero, por terra e ar, contra a população de Gaza. Os bombardeiros, incêndios provocados, matança generalizada continuaram sem interrupção por 22 dias, tempo durante o qual o presidente-eleito não enunciou uma sílaba de reprovação. Conforme planos já existentes, Telavive suspendeu os ataques algumas horas antes da posse de Obama, dia 20/1/2009, para não estragar a festa. Àquela altura, Obama já nomeara um doberman ultrassionista de Chicago, Rahm Emanuel, ex-voluntário do Exército de Israel, para trabalhar em sua sala, como principal assessor da presidência. Imediatamente depois da posse, Obama – como todos os presidentes dos EUA – falou a favor da paz entre os dois povos sofredores da Terra Santa e, outra vez como todos os que o antecederam, pediu que os palestinos reconhecessem Israel e que Israel suspendesse as construções nos territórios que invadiu e ocupou em 1967. Uma semana depois do discurso de Obama no Cairo, em que se manifestou contra a criação de novas colônias israelenses na Palestina, a coalizão de Netanyahu já ampliava impunemente o roubo de terra árabe em Jerusalém Leste. No outono, a secretária de Estado Clinton dava parabéns a Netanyahu por ter feito “concessões sem precedentes”. Mark Landler do New York Times, em conferência de imprensa em Jerusalém, perguntou à secretária: “Senhora Secretária, quando esteve aqui, na primeira visita, a senhora falou duramente contra a demolição de casas de árabes em Jerusalém Leste. Mesmo assim, as demolições prosseguiram e, de fato, há alguns dias, o prefeito de Jerusalém assinou nova ordem para demolir mais casas de árabes. O que a senhora teria a comentar hoje, sobre a mesma política?” A secretária ignorou a pergunta.[1]

Um mês antes, uma comissão de investigação da ONU [ing. “UN Fact Finding Mission”] nomeada para examinar denúncias sobre a invasão de Gaza, relatou que o Exército de Israel praticara atos criminosos, que não deixavam de ser criminosos por terem sido ou provocados ou respondidos com foguetes caseiros disparados pelo Hamás. Comandada por um dos mais aplicados e reconhecidos juízes especialistas em ‘direito internacional’, o juiz sul-africano Richard Goldstone, promotor que já trabalhara em sessão pré-orquestrada do Tribunal de Haia sobre a Iugoslávia e sionista conhecido e professo, as acusações contra Israel foram reduzidas ao mínimo necessário para garantir alguma credibilidade ao Relatório. Há impressionantes diferenças entre os testemunhos que a Comissão da ONU realmente ouviu e o que se lê no relatório.[2]  Mas, desabituada de receber críticas de qualquer tipo, Telavive reagiu com fúria; e Washington ordenou a seu cliente e cabeça do complô, Mahmoud Abbas, que se opusesse ao Relatório na ONU.[3] Pareceu demais até para os seguidores de Abbas e Abbas desobedeceu; mas houve reações violentas e Abbas teve de desdizer-se, o que o desacreditou ainda mais. O episódio confirmou que o controle do AIPAC sobre Washington continua tão forte como sempre – ao contrário do que supõem alguns iludidos da esquerda dos EUA, para os quais o lobby israelense estaria envelhecido e sem força, e estaria sendo substituído por algum ramo mais ‘ilustrado’ do sionismo norte-americano.

No teatro palestino do sistema norte-americano, a ausência de novidade significativa não implica ausência de movimento. Considerada de um ponto de vista mais amplo, a política dos EUA tem sido, há algum tempo, estimular a ação de Israel na direção de criar um ou mais bantustões, o que atende perfeitamente bem seus interesses.[4] Para tanto, é claro, é indispensável eliminar qualquer possível liderança palestina legítima, ou Estado palestino real. Os Acordos de Oslo foram um primeiro passo desse processo, destruindo a credibilidade da OLP e instaurando uma ‘Autoridade Palestina’ que não passa de fachada de Potemkin para a única real autoridade nos territórios ocupados, a saber, o Exército de Israel. Incapaz de obter qualquer respeitabilidade ou autoridade, por cerimonial que fosse, a liderança da OLP na Cisjordânia passou a dedicar-se a fazer fortuna, abandonando definitivamente a luta pelos interesses do povo palestino, entregue à pobreza mais absoluta e regularmente exposto à violência dos colonos judeus. Trabalhando na direção oposta, e criando um sistema primitivo mais eficaz de bem-estar social, capaz de distribuir assistência médica, remédios e alimentos nas áreas mais miseravelmente pobres, e com creches e asilos para velhos e doentes, o Hamás conseguiu ganhar apoio popular e venceu as eleições palestinas de 2006. Europa e EUA reagiram imediatamente com o boicote político-econômico, e apoiaram a volta do partido Fatah ao poder na Cisjordânia. Em Gaza, onde o Hamás era mais forte, Israel tentou durante algum tempo inflar Mohammed Dahlan para que liderasse um golpe – Dahlan é o chefe-de-quadrilha favorito de Washington, dentro do aparelho de segurança da OLP. Ben-Eliezer, ministro da Defesa contou, em depoimento à Comissão de Negócios Estrangeiros e Defesa, do Parlamento de Israel, que em 2002, quando o Exército de Israel retirou-se de Gaza, ofereceu a Faixa a Dahlan, que desejava provocar a guerra civil na Palestina que tanto perturbava a vida dos colonos judeus. Quatro anos antes, Dahlan recebera ajuda de Washington para promover golpe militar em Gaza,[5] mas foi vencido pelo Hamás, que assumiu o controle da Faixa em meados de 2007. Depois do bloqueio como castigo político e econômico por os eleitores palestinos terem-se levantado e resistido aos expressos desejos euro-norte-americanos, veio o ataque israelense do final de 2008 –, em relação ao qual Obama "piscou".

Mas o resultado, agora, não é o impasse sempre regular e pontualmente lastimado pelos sonhadores que ainda sonham com “acordos de paz”. Depois de repetidos golpes, e cada vez mais isolada, a resistência palestina está sendo paulatinamente minada e enfraquecida, a ponto de o próprio Hamás – sem conseguir desenvolver qualquer estratégia coerente, nem de romper o compromisso dos Acordos de Oslo, dos quais também o Hamás tornou-se prisioneiro – começar a considerar a possibilidade de aceitar o nada que Israel oferece, paramentado com outros nadas que o ocidente oferece. Não há nenhum tipo significativo de Autoridade Palestina. Deputados eleitos pela Cisjordânia ou Gaza são tratados como enviados de ONGs de mendigos: recebem migalhas se permanecem ajoelhados e seguem o que o ocidente ordene; e castigos, se saem da linha. Racionalmente, os palestinos melhor fariam se dissolvessem a Autoridade e exigissem direitos iguais de cidadania num único Estado, apoiados em campanha internacional a favor do boicote a Israel, desinvestimento e sanções, até que se desmantelem todas as estruturas de apartheid vigentes em Israel. Na prática, há pequena ou nenhuma probabilidade de isso acontecer em futuro próximo. O que se deve prever, muito mais provavelmente, é a convergência – já promovida e elogiada no jornal Haaretz como mais brilhantemente iluminada que a de Rabin [6] – de Obama e Netanyahu, na direção de uma solução final, com várias entidades ‘palestinas’ com as quais Israel poderá conviver e nas quais morrerá a Palestina.

Harvesting Baghdad

For the moment, however, there are more pressing preoccupations: war-zones farther east have the first call on imperial attention. Iraq may have dropped from the headlines, but not from the daily security briefings in the Oval Office. In 2002, on his way up the political ladder as a low-profile state senator in Illinois, Obama opposed the attack on Iraq; it was politically inexpensive to do so. By the time he was elected President, American forces had occupied the country for six years, and his first act was to maintain Bush’s Defense Secretary, Robert Gates, long-time cia functionary and veteran of the Iran–Contra affair, in the Pentagon. A cruder and more demonstrative signal of political continuity could hardly have been conceived. In the last two years of the Republican Administration, us troop-levels were increased by a fifth, to 150,000, in a ‘surge’ that was hailed across the party spectrum as having crushed the Iraqi resistance, readying the country for a stable pro-Western, hopefully even democratic, future. The new Democratic Administration has not deviated at all from this script. The 3-year Status of Forces Agreement signed by Bush and his collaborators in Baghdad had stipulated that all us troops would leave Iraq by December 2011, although a subsequent agreement could obviously extend their stay, and the us ‘combat’ forces would quit Iraqi cities, villages and localities by June 2009. Before his election, Obama promised a withdrawal of all us ‘combat’ troops from Iraq within sixteen months of his taking office, i.e. by May 2010—adorned with a safety clause that this pledge could be ‘refined’ in the light of events. It promptly was, with the February 2009 announcement that combat troops would now leave Iraq by September 2010, while the ‘residual’ 50,000 forces could also engage in combat operations to ‘protect our ongoing civilian and military efforts’. [7]

The slaughter and devastation wreaked on Iraq by the United States and its allies, chiefly Britain, are now well known: the destruction of the country’s cultural patrimony, the brutal dismembering of its social infrastructure, the theft of its natural resources, the sundering of its mixed neighbourhoods, and above all the death or displacement of countless of its citizens—over a million dead; three million refugees; five million orphans, according to government figures. [8] Wasting no words on any of this, the Commander-in-Chief and his generals have other concerns. Can Iraq now be regarded as a tolerably secure outpost of the American system in the Middle East? They have reason to exult, and reason to doubt. Compared with the situation at the height of the insurgency in 2006, most of the country today is under the thumb of Baghdad, and American casualties are few and far between. A predominantly Shia army—some 250,000 strong—has been trained and armed to the teeth to deal with any resurgence of the resistance. Sectarian cleansing of the capital, on a scale of which the Haganah could be proud, has wiped out most Sunni neighbourhoods, for the first time giving the Maliki regime set up by Bush a firm grip on the hub of the country. To the north, the Kurdish protectorates remain staunch bastions of us power. To the south, Moqtada al-Sadr’s militias have been sent packing. Best of all, the oil-wells are returning to those who know how to make good use of them, as auctions distribute 25-year leases to foreign corporations. Some excesses may mar the scene in Baghdad, [9] but the new Iraq has the blessing of the saintly Sistani’s smile.

Yet there persists the uneasy thought that the Iraqi resistance, capable of inflicting such damage on the us military machine only yesterday, might just be biding its time after its heavy losses and the defection of an important segment, and could still visit havoc on the collaborators tomorrow, should the us pull out altogether. [10] To ensure against any such danger, Washington has put down markers in the modern equivalents—vastly larger and more hideous—of the Crusader fortresses of old. The Balad military base, within easy bomber reach of Baghdad, is a small-town American city-state. Containing an airport that is reportedly the busiest in the world after Heathrow, it can house over 30,000 us soldiers and auxiliaries—an immigrant labour force composed largely of South Asian workers who clean homes, cook food and staff Subway sandwich bars; drug-dealers are never in short supply, while mobile Eastern European prostitutes serve Balad’s other needs. Fifteen bus routes complement the airport, but commuting remains a problem for some of the service staff. [11] Another thirteen military and air-force bases are scattered throughout the country, among them Camp Renegade near Kirkuk, to guard the oil-wells, Badraj on the Iranian border, for espionage in the Islamic Republic, and a British base dating back to the 1930s at Nasiriyah, upgraded to serve American appetites. In Baghdad itself, meanwhile, the us proconsul can now enjoy the largest and most expensive embassy in the world—it is the size of the Vatican City—in the fortified enclave of the Green Zone.

After seizing Iraq as colonial prey in 1920 and installing the Hashemite dynasty as its local instrument, Britain was faced with full-scale rebellion which it suppressed only with difficulty and all-out savagery. For the next twelve years, London ruled the country as an imperial dependency, before finally relinquishing its ‘mandate’—granted by the League of Nations—in 1932. But the client regime it left behind lasted another quarter of a century, until eventually it was overthrown in the revolution of 1958. The American seizure of Iraq provoked a full-scale insurgency even more swiftly, and one that has lasted longer, against an occupation enjoying this time a mandate of the United Nations. The us empire too will leave behind a puppet regime to hold down the country into the foreseeable future. In that venture there could be few more fitting successors to Ramsay MacDonald—that earlier handsome, willowy figure who was never at a loss for uplifting words—than Barack Obama. But history has accelerated since those days, and there is at least a chance that Maliki and his torturers will meet the fate of Nuri al-Said more rapidly, in another national uprising to root out alien military bases, outsize embassies, oil companies and their local collaborators alike.

Menacing Tehran

For American elites, Iran has long posed a conundrum: an ‘Islamic Republic’ publicly breathing fire against the Great Satan while quietly extending assistance to it wherever most needed, be it collusion with counter-revolution in Nicaragua, invasion of Afghanistan or occupation of Iraq. The rulers of Israel are not the recipients of any of these benefits, and have taken a dimmer view of the rhetoric of the mullahs, directed with greater ferocity at them and at the Little Satan in London, than at their patrons in Washington. Above all, once the prospect of an Iranian nuclear programme undermining the Israeli monopoly of weapons of mass destruction in the Middle East started to loom on the horizon, Tel Aviv galvanized its assets in the United States into a campaign to ensure that Washington became committed to striking it down at all costs. Not that there was much resistance to overcome, given the degree to which Israeli objectives have long been internalized as little less than second nature by us policy-makers. Scorning overtures from the Khatami regime for an across-the-board regional deal in 2003, the Republican Administration sought instead to force Iran into compliance with the Israeli monopoly by matching Tehran’s oratorical tirades and tightening economic sanctions on it.

Without saying so too explicitly, Obama came into office allowing it to be understood that this was not the way to go about things. Much better would be to initiate a forgive-and-forget dialogue with Tehran, banking on the traditional pragmatism of the regime, and the manifest pro-Americanism of middle-class and youth layers in the population at large, to achieve a friendly diplomatic settlement in the interest of all parties, denuding Iran of a nuclear capability in exchange for an economic and political embrace. But the timing was unlucky and the calculation was upset by political polarization in Iran itself. Factional struggles in the clerical establishment escalated over the presidential election in June 2009, when a bid by its most openly pro-Western wing to take power on a wave of (mostly) middle-class protest was suppressed by an incumbent counter-strike that combined electoral fraud and militia violence. For Obama, the opportunity for ideological posturing was too great to resist. In a peerless display of sanctimony, he lamented with moist-eyed grief the death of a demonstrator killed in Tehran on the same day his drones wiped out sixty villagers, most of them women and children, in Pakistan. With the Western media in full cry behind the President, the thwarted candidate in the Iranian contest—historically one of the worst butchers of the regime, responsible for mass executions in the 80s—was converted into another icon of the Free World. Schemes for a grand reconciliation between the two states had to be set aside.

After this misadventure, the Democratic Administration has reverted to the line of its predecessor, attempting to corral Russia and China—European acquiescence can be taken for granted—into an economic blockade of Iran, in the hope of so strangling the country that the Supreme Leader will either be overthrown or obliged to come to terms. Should such pressure fail, an air-strike by Israeli or American fighter-bombers on Iranian nuclear facilities remains the back-up threat. While still unlikely, such a blitz cannot be altogether ruled out, if only because once the West at large—in this case not only Obama, but Sarkozy, Brown and Merkel—has pronounced any Iranian nuclear capability intolerable, little rhetorical room for retreat is left if this should materialize. [12] In the past, fear of Iranian retaliation against shaky American positions in Iraq would probably have been enough to deter such an assault. But Tehran’s influence in Baghdad is not what it was. Once confident that Iraq would shortly become a sister Islamic Republic, it can no longer be sure that relations between the two will be any better than between the various Sunni states in the region. For the moment, the Maliki regime knows which side butters its bread—Iran could never match the dollars and arms it gets from the us, while Sistani’s pretensions to pre-eminence over assorted divines across the border are of long standing. Whether Moqtada al-Sadr’s militias are now equally biddable remains unclear.

Still, to date the Pentagon remains opposed to any adventure that could risk stringing its forces out across a war-zone which would stretch from the Litani to the Oxus, if the Revolutionary Guards were to foment operations in Lebanon or western Afghanistan. Nor should Tehran’s threat to retaliate with conventional missiles against Israeli cities be discounted. There are also Washington’s other allies to be considered. Israel and its lobbyists may be the prime movers in ongoing agitation against Iran, but they are not alone. The Saudi monarchy, a sui generis confessional dictatorship, remains fearful that a Tehran–Baghdad combination might destabilize the Peninsula: Shia constitute a large majority in Bahrain and the oil-producing region of the Saudi state itself. But the Saudis are also aware that any direct attack on Tehran could pose an even bigger threat to their rule, provoking Shia uprisings that might engulf them. For Riyadh, an alternative route under review in Washington is preferable—inserting Turkey into the regional equation as a Sunni–nato detachment of the empire, buttressing the Saudi petrodollars offered to Syria to break with Iran. This would serve as a counter-thrust against any future Tehran–Baghdad axis and cut off Hezbollah from Damascus, softening it up for another assault by the idf.

Querem reinventar Cabul

Da Palestina passando pelo Iraque até o Irã, Obama agiu como mais um fiel servidor do império norte-americano, perseguindo os mesmos alvos que seus predecessores, pelos mesmos meios, embora com retórica mais emoliente. No Afeganistão, foi mais longe, ampliando a frente de agressão, com escalada na violência tecnológica e territorial. Quando Obama tomou posse, o Afeganistão já estava ocupado pelos EUA e forças satélites, por mais de sete anos. Na campanha eleitoral, Obama – determinado a superar Bush naquela ‘guerra justa’ – pediu mais ataques com os aviões-robôs não tripulados para esmagar a resistência afegã; e mais invasões por terra, além da invasão pelos aviões-robôs no Paquistão para interromper de vez as linhas de apoio que vinham da fronteira. Aí está promessa bem cumprida. Nesse momento, mais 30 mil soldados estão sendo mandados às pressas para o Hindu Kush. Com eles, o exército norte-americano de ocupação chegará aos 100 mil soldados, comandados por um general escolhido por Obama em razão do sucesso de suas brutalidades no Iraque, onde suas unidades formavam uma elite especializada em assassinatos e torturas. Simultaneamente, está a caminho uma massiva intensificação do terror aéreo sobre o Paquistão. No que o New York Times delicadamente designou como “uma estatística que a Casa Branca não divulgou”, o jornal informou aos leitores que “desde a posse do presidente Obama, a CIA moveu mais ataques com aviões-robôs, os drones Predator, contra território paquistanês, do que ao longo dos oito anos de governo do presidente Bush” [13].

Não há mistério algum sobre a razão dessa escalada. Depois de invadir o Afeganistão em 2001, os EUA e seus auxiliares europeus impuseram lá um governo-fantoche inventado por eles mesmos, montado num encontro em Bonn, chefiado por um quadro da CIA e assessorado por um sortimento de senhores-da-guerra tadjiques, com uma coorte de ONGs que os cercam como pajens em corte medieval. Esse constructo-fantoche jamais gozou sequer de alguma mínima legitimidade local, nem aquela estreita mas legítima base com que contava o regime dos Talibã. Instalado em Cabul, os fantoches concentraram-se na exclusiva tarefa de enriquecer. Ajudas desencaminhadas e roubadas, corrupção generalizada, narcóticos – duramente reprimidos pelos Talibãs – corriam soltos. Karzai e companhia acumularam fortuna imensa: mais de 75% de todos os fundos enviados ao Afeganistão pelos países doadores acabaram diretamente dentro dos cofres dos aliados de Karzai, da Aliança do Norte ou de empresários privados usados por eles como intermediários. A construção de um novo hotel 5-estrelas e de um shopping center tornaram-se prioridades, em país que é um dos mais pobres do mundo; e os assassinatos e a tortura converteram em rotina a poucos passos do hotel e do shopping center; a base-prisão de Bagram converteu-se em câmara de horrores ante a qual Guantánamo pareceria civilizada. A produção de ópio alcançou números que jamais alcançara em todos os tempos, crescendo mais de 90% em relação aos níveis de 2001, quando estava confinada às regiões controladas pela Aliança do Norte; espalhou-se para sul e oeste, sob a batuta do clã Karzai. A massa dos afegãos mais pobres recebeu pouco ou nada dos benefícios da nova ordem imposta, exceto maiores perigos e risco de morte muito mais alto, quando as forças reorganizadas dos neo-Talibãs começaram a atacar os exércitos ocupantes, e bombas da OTAN começaram a chover sobre vilas e aldeias. A tal ponto que Karzai viu-se várias vezes obrigado a protestar. [14]

Em junho de 2009, os guerrilheiros afegãos controlavam vastas áreas do país e tinham vários agentes infiltrados na polícia e nas unidades militares oficiais. Adotando táticas de IEDs [ing. Improvised Explosive Device] desenvolvidas no Iraque para ataques em estradas e suicidas-bombas, estavam infligindo pesadas baixas na ocupação ocidental e seus colaboradores. No próprio campo imperial, crescia o desassossego e a confusão. [15] Os funcionários norte-americanos, militares e diplomatas, contradiziam-se publicamente, sem qualquer acordo sobre até que ponto os EUA deveriam servir como avalistas da farsa de democracia que Karzai encenava como se fossem eleições; uns apoiavam, outros rejeitavam. Naquele evento, depois de veementes denúncias de fraude pelo primeiro mandatário dos EUA em Washington, e depois de manifestar-se favorável a um segundo turno de eleições, Obama consumou a farsa ao congratular-se publicamente com Karzai, por uma vitória mais visivelmente fraudada, até, que a de Ahmadinejad, dois meses antes; na ocasião, o presidente Obama não economizou palavras duras. Diferente do regime em Teerã, que tem base social de legitimidade, diminuída hoje, mas ainda existente, o que se faz passar por governo em Cabul é um implante ocidental na região, que se desintegrará da noite para o dia, no instante em que for abandonado pela guarda pretoriana da OTAN que lá está para protegê-lo.

Pendurado em Islamabad, Paquistão

Desesperadamente necessitado de alguma vitória em sua ‘guerra justa’ escolhida, Obama lançou-se no clássico movimento de ‘fuga para adiante’, despachando força expedicionária ainda maior e estendendo a guerra também ao país vizinho, onde se suspeita que o inimigo encontre ‘paraísos seguros’. Desde o início de seu governo, já estava inventada uma nova zona ‘integrada’ de guerra, uma nova entidade formada de Paquistão e Afeganistão, mas rebatizada como “Af-Pak”. Uma torrente de emissários foi despachada para Islamabad para comandar o Estado paquistanês na direção das missões de repressão e violência que passavam a ser atribuição sua. [16] Os 2.460 quilômetros de fronteira entre o Afeganistão e o que é hoje o Paquistão são limite muito poroso desde que o Império Britânico demarcou a Linha Durand, em 1893. 16 milhões de pashtuns vivem no sul do Afeganistão, 28 milhões na Província Fronteira Noroeste, no Paquistão. É impossível policiar aquela fronteira, e praticamente não se vêem os deslocamentos nas duas direções, porque as várias tribos que por ali circulam falam o mesmo dialeto e muitas vezes já estão unidas em famílias comuns por casamentos intertribais, dos dois lados. Os guerrilheiros afegãos buscam e encontram abrigo em praticamente toda a região, o que não é segredo para ninguém. Para que a OTAN ou o Exército Paquistanês conseguissem deter esse fluxo, teriam de mobilizar no mínimo 250 mil soldados em campanhas de aniquilação semelhantes às de Chiang Kai-shek nos anos 30. No governo de Musharraf – e sob as ameaças do Pentágono, de que se o Paquistão não concordar, será bombardeado até ser devolvido à Idade da Pedra –, o Exército Paquistanês converteu-se, de patrão em inimigo de morte dos Talibãs no Afeganistão, mas sempre só nas camadas superficiais. O Exército Paquistanês sabe perfeitamente bem que está sendo obrigado a influenciar Cabul a favor da Índia... Índia a qual, por sua vez, não perdeu tempo e já pôs Karzai sob suas asas. Musharraf fez o máximo que pôde para satisfazer os EUA, permitindo que soldados das Forças Especiais e aviões-robôs teleguiados, os drones Predator, invadam sem qualquer restrição o Paquistão, e delatando todos os agentes da al-Qaeda de que teve notícia. Mas, de fato, Washington jamais engoliu completamente a ideia de que esse tipo de ‘segurança’ bastasse, o que, numa espécie de reação de desconfiança, faz com que, cada dia mais, aumente o desprezo que a maioria dos paquistaneses sente por quem negocie com os EUA.

Quando Obama chegou ao poder, dois desenvolvimentos haviam alterado essa cena. Incessantemente empurrado pelo Pentágono, entre 2004 e 2006 Musharraf mandou o Exército Paquistanês nove vezes para as Áreas Tribais de Administração Federal [ing. Federally Administered Tribal Areas (FATA)], os sete setores montanhosos não incluídos na jurisdição da Província da Fronteira Noroeste – onde a autoridade do governo central sempre foi vestigial –, para deter a infiltração dos Talibãs. Como resultado só conseguiu estimular na população solidariedade cada vez maior e desejo sempre crescente de participar da resistência afegã. Assim chegou-se a dezembro de 2007, com a formação da Tehrik-i-Taliban paquistanesa, guerrilha brutal e nativa dedicada a combater diretamente contra Islamabad e Musharraf. (Ao contrário do que supõe o ocidente, esse grupo não é subsidiário ou fruto dos neo-Talibãs afegãos, como o comprova o levante de Mullah Omar contra o ocidente. Muito claramente, Omar insistia em que o alvo não seria o Exército Paquistanês; que o inimigo real sempre foram EUA e OTAN.)

Em 2008, o próprio Musharraf foi derrubado. Foi substituído na presidência pelo infame viúvo de Benazir Bhutto, Asif Zardari, escroque conhecido e desacreditado, que se ofereceu como espantalho a serviço dos EUA. A embaixadora dos EUA, Anne Patterson – recém desembarcada depois da missão de armar o governo Uribe na Colômbia – em pouco tempo já se servia da boa-vontade de Zardari. E os frutos não tardaram a brotar. Em abril de 2009, Zardari ordenou que o Exército ocupasse o distrito de Swat na Província da Fronteira Noroeste, que dois meses antes havia sido tomada pela brutal milícia Tehrik-i-Taliban Paquistanesa (TTP). Violento assalto com armamento militar pesado empurrou os guerrilheiros TTP de volta às montanhas e criou dois milhões de refugiados expulsos de suas casas e terras. Empolgado por esse impressionante sucesso humanitário, Obama forçou Zardari a mandar o exército para a própria área tribal de administração federal, FATA, em outubro, para empurrar para o ralo os guerrilheiros Talibãs – e já pouco importava que fossem afegãos ou paquistaneses, desde que fossem empurrados para o ralo – do Waziristão Sul e Bajaur. Mais centenas de milhares de homens e mulheres e crianças das tribos daquelas regiões foram expulsos de suas casas e terras, com o ronco dos bombardeiros dos EUA explodindo sobre (literalmente) suas cabeças, enquanto corriam desesperados sem saber para onde ir.[17] Em novembro, o Exército do Paquistão anunciou “o fim da ofensiva”. A guerrilha aparentemente foi varrida da face da terra

Até que ponto pode avançar esse tipo de limpeza étnica doméstica, e a que tipo de resultados levará, ainda não se sabe. O que já se sabe é que, ao forçar o Exército do Paquistão a atirar contra as tribos paquistanesas, com as quais o Exército e todos os militares sempre viveram em bons termos, Obama obra para desestabilizar mais uma sociedade, no interesse do império dos EUA. Hoje, os ataques por homens e mulheres-bombas estão convertidos em tragédias semanais nas grandes cidades do Paquistão – vãos e desesperados atos de vingança contra a repressão na região da fronteira. Zardari e sua trupe cambaleiam, depois que a imunidade que Musharraf lhe garantira, nas acusações de corrupção, foi derrubada na Suprema Corte do Paquistão. Há boa chance de que o PPP [ing. Pakistan Peoples Party], partido já corroído pelos vermes, e desgraça que assola o país desde o segundo mandato de Benazir Bhutto, rache e desapareça depois do fim de Zardari. [18] Washington resistirá ao fim desse escroque e escroqueria, mas pode confiar plenamente nos generais estrelados do Exército para que lhe ofereçam substituto funcional à altura, como sempre aconteceu no passado. O Exército Paquistanês jamais produziu oficialato jovem patriótico capaz de eliminar o alto comando, expulsar as agências estrangeiras e impor reformas, como viu-se algumas vezes na América Latina e no mundo árabe. A subserviência do Exército do Paquistão aos EUA é estrutural, mesmo que nem sempre tenha sido total. Dependente de massivos aportes de dinheiro e equipamento norte-americanos, o Exército do Paquistão não se atreve a desafiar Washington abertamente, mesmo quando obrigado a agir contra seus próprios interesses; muito encobertamente, sempre buscou manter alguma margem de autonomia, enquanto persiste a confrontação com a Índia. Arrasará seus próprios cidadãos, se os EUA assim ordenarem, sim; mas não a ponto de incendiar irremediavelmente as áreas tribais, nem colaborará até o final para extirpar toda a resistência nas áreas de fronteira.

Duplicating Saigon?

With this expansion, what are the prospects for Obama’s ‘just war’? Comparing the American with the Soviet occupation of Afghanistan, two major differences stand out. The regime created by the us is far weaker than that protected by the ussr. The latter had a genuine local basis, however much it abused it: never just an alien graft, the pdpa generated an army and administration capable of surviving the departure of Soviet troops. The Najibullah government was eventually overthrown only thanks to massive outside assistance from the us, Saudi Arabia and Pakistan. But in that assistance lies the second decisive contrast. Unlike the fighters who entered Kabul in 1992, bankrolled and armed to the teeth by foreign powers, the Afghan resistance of today is all but completely isolated: anathema not only to Washington, but to Moscow, Beijing, Dushanbe, Tashkent, Tehran, able at most to count on a sporadic, furtive tolerance from Islamabad.

That is why comparisons with Vietnam, though they are telling in so many other respects—moral, political, ideological—in military terms are less so. At one level Obama’s arrogant escalation of the war in Afghanistan could be said to combine the hubris of Kennedy in 1961 with that of Johnson in 1965, even of Nixon in 1972, whose bombing of Cambodia bears more than one resemblance to current operations in Pakistan. But there is no draft to disaffect American youth; no Soviet or Chinese aid to sustain the guerrilla; no anti-imperialist solidarity to weaken the system in its homelands. On the contrary, as Obama likes to explain, no less than 42 countries are lending a hand to help his embarrassing marionette in Kabul dance a good show. [19] No world-historical spectacle could be more welcome than the American proconsul fleeing once again by helicopter from the roof of the embassy, and the motley expeditionary forces and their assorted civilian lackeys kicked unceremoniously out of the country along with him. But a second Saigon is not in prospect. Monotonous talk of the end of American hegemony, the universal cliché of the period, is mostly a way of avoiding serious opposition to it.

If a textbook illustration were needed of the continuity of American foreign policy across administrations, and the futility of so many soft-headed attempts to treat the Bush–Cheney years as exceptional rather than essentially conventional, Obama’s conduct has provided it. From one end of the Middle East to the other, the only significant material change he has brought is a further escalation of the War on Terror—or ‘Evil’, as he prefers to call it—with Yemen now being sighted as the next target. [20] Beyond, the story is much the same. Renditions—torture by proxy—are upheld as a practice, while their perpetrators continue to lounge at their ease in Florida or elsewhere, ignoring extradition warrants under Obama’s protection. Domestic wire-taps continue. A coup in Central America is underwritten. New military bases are set up in Colombia.

Emulating Wilson

Still, it would be a mistake to think that nothing has changed. No Administration is exactly like any other, and each President leaves a stamp on his own. Substantively, vanishingly little of American imperial dominion has altered under Obama. [21] But propagandistically, there has been a significant upgrade. It is no accident that a leading columnist—and one of the more intelligent—could, only half ironically, list the five most important events of 2009 as so many speeches by Obama. [22] In Cairo, at West Point, at Oslo, the world has been treated to one uplifting homily after another, each address larded with every egregious euphemism that White House speech-writers can muster to describe America’s glowing mission in the world, and modest avowal of awe and sense of responsibility in carrying it forward.

‘We must say openly to each other the things we hold in our hearts’ is the characteristic tone. ‘Our country has borne a special burden in global affairs. We have spilled American blood in many countries on multiple continents. We have spent our revenue to help others rebuild from rubble and develop their own economies. We have joined with others to develop an architecture of institutions—from the United Nations to nato to the World Bank—that provide for the common security and prosperity of human beings’. ‘The struggle against violent extremism will not be finished quickly, and it extends well beyond Afghanistan and Pakistan . . . Our effort will involve disorderly regions, failed states, diffuse enemies’. ‘Our cause is just, our resolve unwavering. We will go forward with the confidence that right makes might’. In the Middle East, there are ‘tensions’ (the term recurs nine times in his address to Mubarak’s claque at al-Azhar), and a ‘humanitarian crisis’ in Gaza. But ‘the Palestinians must renounce violence’, and ‘the Iraqi people are ultimately better off’ for American actions. In Oslo: ‘Make no mistake: evil does exist in the world’. ‘To say that force may sometimes be necessary is not a call to cynicism—it is a recognition of history; the imperfections of man and the limits of reason.’ In Cairo: ‘Resistance through violence and killing is wrong’. In short: if the us or Israel wage war, it is a regrettable moral duty. If Palestinians, Iraqis or Afghans resist them, it is an immoral dead-end. As Obama likes to say, ‘We are all God’s children’, and ‘This is God’s vision’. [23]

If sonorous banality and armour-plated hypocrisy are the hallmarks of this Presidential style, that does not make it less functional for the task of servicing and repairing the imperial institutions over which Obama and Clinton now preside. Nothing grated more on international opinion than the lack of requisite unction with which Bush and Cheney all too often went about their business, exposing allies and audiences otherwise well-disposed towards American leadership to inconvenient truths they would have preferred not to hear. Historically, the model for the current variant of imperial Presidency has been Woodrow Wilson, no less pious a Christian, whose every second word was peace, democracy or self-determination, while his armies invaded Mexico, occupied Haiti and attacked Russia, and his treaties handed one colony after another to his partners in war. Obama is a hand-me-down version of the same, without even Fourteen Points to betray. But cant still goes a long way to satisfy those who yearn for it, as the award to Obama of what García Márquez once called the Nobel Prize for War has graphically shown. After lying enough to voters—promising peace and delivering war—Wilson was re-elected to a second term, though it did not end well for him. In more combative times, Johnson was forced to step down in ignominy for his warmongering, without being able to gull the electors again. Twelve years later, a debacle in Tehran helped sink Carter. If the recent setbacks for Democrats in West Virginia and New Jersey—where Democratic voters stayed at home—become a pattern, Obama could be a third one-term President, abandoned by his supporters and mocked by those he tries so hard to conciliate.

Notas:

[1] ‘Remarks with Israeli Prime Minister Binyamin Netanyahu’, Jerusalém, 31/10/2009, em http://www.state.gov/secretary/rm/2009a/10/131145.htm.

[2] Em entrevista à Rádio do Exército de Israel, em hebraico, a filha do juiz Goldstone, Nicole Goldstone, disse: “Meu pai aceitou esse trabalho, porque acreditava que estaria trabalhando pela paz para todos, também para Israel. (...) Não foi fácil. Meu pai não esperava ver e ouvir o que viu e ouviu”. E disse ao entrevistador que, dependesse de seu pai, o relatório teria sido muito mais duro. Deve-se acrescentar que, não fosse pela participação de uma advogada paquistanesa, Hina Jilani, na mesma missão de investigação, o relatório teria sido muito mais ‘macio’.

[3] Os israelenses impuseram a sanção máxima: se Abbas endossasse o Relatório Goldstone, cancelava-se o negócio de telefonia com uma empresa israelense, e o pessoal da OLP perderia empregos e comissões.

[4] Deve-se registrar que ambos, o Bispo Tutu e Ronnie Kasrils, ex-ministro de Defesa do governo de Mandela, discordam veementemente dessa analogia. Para ambos, as condições nas quais vivem os palestinos nos territórios ocupados é muitas vezes pior do que a dos negros nos bantustões

[5] Ver ROSE, David, ‘The Gaza Bombshell’, Vanity Fair, April 2008.

[6] Por exemplo, ver Ari Shavit, ‘Netanyahu is Positioning Himself to the Left of Rabin’, Haaretz, 6/12/2009.

[7] Obama speech at Camp Lejeune, North Carolina, 27 February 2009.

[8] Cultural Cleansing in Iraq: Why Museums were Looted, Libraries Burned and Academics Murdered, edited by Raymond Baker, Shereen Ismael and Tareq Ismael, London 2009, contains detailed figures and sources, amongst which the fact that from 2003–07, Washington only allowed 463 refugees, mainly professional Iraqis of Christian origin, into the United States. For an illuminating survey of the history of Iraqi oil and the privatized looting now under way, see Kamil Mahdi, ‘Iraq’s Oil Law: Parsing the Fine Print’, World Policy Journal, Summer 2007.

[9] Here is the Economist: ‘Old habits from Saddam Hussein’s era are becoming familiar again. Torture is routine in government detention centres . . . Iraqi police and security people are again pulling out fingernails and beating detainees, even those who have already made confessions. A limping former prison inmate tells how he realized, after a bout of torture in a government ministry that lasted for five days, that he had been relatively lucky. When he was reunited with fellow prisoners, he saw that many had lost limbs and organs. The domestic-security apparatus is at its busiest since Saddam was overthrown six years ago, especially in the capital. In July the Baghdad police reimposed a nightly curfew, making it easier for the police, taking orders from politicians, to arrest people disliked by the Shia-led government.’ See ‘Could a Police State Return?’, 3 September 2009.

[10] General Petraeus recently announced that attacks on us forces in Iraq were down to ‘only’ 15 a day: Financial Times, 2 January 2010. Not Maliki but Muntadhar al-Zaidi, the Baghdad shoe-thrower, represents the sentiments of most Iraqis, regardless of ethnic or confessional origin.

[11] ‘It takes the masseuse, Mila from Kyrgyzstan, an hour to commute to work by bus on this sprawling American base. Her massage parlour is one of three on the base’s 6,300 acres and sits next to a Subway sandwich shop in a trailer, surrounded by blast walls, sand and rock’, writes Marc Santora: ‘Big us Bases Are Part of Iraq, but a World Apart’, New York Times, 8 September 2009.

[12] In Illinois in 2004, I watched Obama interviewed on network television in the run-up to the Senate election he subsequently won. Asked whether he would back Bush if he decided to bomb Iran, the future President did not hesitate for a moment. He put on a warlike look and said that he would.

[13] David Sanger, ‘Obama Outlines a Vision of Might and Right’, New York Times, 11 December 2009.

[14] Most recently on 27 December when a us black-ops unit killed 10 civilians on the same day as Ahmadinejad’s militias killed 5 demonstrators in Tehran.

[15] See the letter from Matthew Hoh, a former Marine captain who served as a political officer in Iraq and subsequently Afghanistan, and resigned in September 2009. ‘The Pashtun insurgency, which is composed of multiple, seemingly infinite, local groups, is fed by what is perceived by the Pashtun people as a continued and sustained assault, going back centuries, on Pashtun land, culture, traditions and religion by internal and external enemies . . . In both rc East and South, I have observed that the bulk of the insurgency fights not for the white banner of the Taliban, but rather against the presence of foreign soldiers and taxes imposed by an unrepresentative government in Kabul . . . If honest, our stated strategy of securing Afghanistan to prevent al-Qaeda resurgence or regrouping would require us to additionally invade and occupy western Pakistan, Somalia, Sudan, Yemen, etc.’ See Ralph Nader, ‘Hoh’s Afghanistan Warning’, CounterPunch, 4 November 2009.

[16] Inter-Risk, the Pakistani subsidiary of us defence contractor DynCorp, was recently raided by local police, who seized ‘illegal and sophisticated weaponry’. The company’s boss, a retired Captain Ali Jaffar Zaidi, informed reporters that us officials in Islamabad had ordered the import of prohibited weapons ‘in Inter-Risk’s name’, promising that payment would be made by the us embassy. Anwar Abbasi, ‘Why the us security company was raided’, The News, 20 September 2009.

[17] For the estimated number of refugees in Swat and fata, see Mark Schneider, ‘fata 101: When the Shooting Stops’, Foreign Policy, 4 November 2009. Schneider is Senior Vice President of the impeccably Establishment International Crisis Group.

[18] The us-brokered deal that allowed Zardari and his late wife to return to the country during the Musharraf period was pushed through via a hurriedly concocted ‘National Reconciliation Ordnance’ pardoning politicians charged with various crimes. Last November, the National Assembly in Pakistan refused to vote in favour of renewing the Ordnance. The re-instated Chief Justice did the rest. On 16 December 2009, a cold, crisp winter afternoon in Islamabad, the full bench of the Supreme Court of Pakistan—sixteen senior judges and the Chief Justice—declared the Ordnance null and void. Few doubt that the Zardari interregnum is almost over. This particular us drone can now be returned safely to base in Dubai or Manhattan.

[19] In Oslo Obama could duly congratulate the Nobel Peace Prize committee on the Norwegian troop contingent in Afghanistan, along with those from Albania, Armenia, Australia, Austria, Azerbaijan, Belgium, Bosnia and Herzegovina, Bulgaria, Canada, Croatia, the Czech Republic, Denmark, Estonia, Finland, France, Georgia, Germany, Greece, Hungary, Iceland, Ireland, Italy, Jordan, Latvia, Lithuania, Luxembourg, Macedonia, the Netherlands, New Zealand, Poland, Portugal, Romania, Singapore, Slovakia, Slovenia, Spain, Sweden, Turkey, Ukraine, the United Arab Emirates and the uk.

[20] On 27 December 2009 Obama announced the doubling of us military expenditure on Yemen. The Economist noted that ‘On his [Obama’s] watch American drones and special forces have been busier than ever, not only in Afghanistan and Pakistan but also, it is reported, in Somalia and Yemen’: 30 December 2009.

[21] Hence in part the disenchantment of many erstwhile Obama partisans, which has surfaced with striking rapidity compared to the relatively long liberal love affair with Bill Clinton. Nonetheless, their explanations have tended to blame structural constraints rather than the incumbent himself: Garry Wills sees the well-meaning president as caught in the cogs of the us imperial state apparatus (‘The Entangled Giant’, New York Review of Books, 8 October 2009), while Frank Rich has angrily attacked lobbyists for undermining Obama’s ‘promise to make Americans trust the government again’ (‘The Rabbit Ragu Democrats’, New York Times, 3 October 2009). For Tom Hayden, the ‘expedient’ decision to boost force levels in Afghanistan is ‘the last in a string of disappointments’, despite the fact that Obama had pledged to do so in his campaign; but though Hayden is removing his bumper sticker, he will still be ‘supporting Obama down the road’ (‘Obama’s Afghanistan Escalation’, Nation, 1 December 2009).

[22] Gideon Rachman, ‘The Grim Theme Linking the Year’s Main Events’, Financial Times, 23 December 2009.

[23] ‘Remarks by the President on a New Beginning’, Cairo, 4 June 2009; ‘Remarks by the President to the Nation on the Way Forward in Afghanistan and Pakistan’, West Point, 1 December 2009; Nobel Peace Prize acceptance speech, Oslo, 11 December 2009; ‘Remarks by the President to the Ghanaian Parliament’, Accra, 11 June 2009. The tropes of ‘imperfect man’ and ‘limited reason’ are borrowed from the vapourings of Reinhold Niebuhr, pastor of Cold War consciences, for whom see Gopal Balakrishnan, ‘Sermons on the Present Age’, below. Niebuhr could, however, on occasion be less of a humbug than his pupil. Rather than pious guff about the ‘two suffering peoples’, he had the honesty to call a Zionist spade a spade: in 1942, observing that ‘the Anglo-Saxon hegemony that is bound to exist in the event of an Axis defeat will be in a position to see to it that Palestine is set aside for the Jews’, he argued that ‘Zionist leaders are unrealistic in insisting that their demands entail no “injustice” to the Arab population’. The latter would have to be ‘otherwise compensated’. (‘Jews after the War—ii’, Nation, 28 February 1942.)

Postagem em destaque

Novo modelo de renda básica exige superar armadilhas do passado, dizem especialistas

Programa mais abrangente que o Bolsa Família pode substituir auxílio emergencial depois da pandemia VÁRIOS AUTORES (nomes ao final do tex...