21 de setembro de 2011

A nova “ameaça existencial”

Andrew Levine

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

A menos que a administração Obama obtenha sucesso em oferecer a Mahmoud Abbas uma oferta que ele não possa recusar – ou mesmo se ela conseguir isso, mas os eventos saírem de controle – a Assembleia Geral da ONU vai votar, em breve, a concessão do status de país-membro da ONU ao estado da Palestina, que será proclamado em breve. Uma vez que os Estados Unidos, e provavelmente também o Reino Unido e a França, irão vetar a resolução no Conselho de Segurança, aquilo que acontecer na Assembleia Geral será em grande medida simbólico – um gesto através do qual a maioria dos povos do mundo, incluindo muitos no Ocidente, expressam solidariedade com o movimento nacional Palestino. Com os EUA apoiando Israel ao máximo, a Palestina ainda estará longe de se tornar um Estado de pleno direito.

Ainda assim, o que acontecer na ONU poderá se tornar uma virada no jogo. Em conjunto com a ascensão de movimentos democráticos na região, o colapso das alianças de Israel com a Turquia e o Egito, o crescimento do movimento de boicote-desinvestimento-sanções no Ocidente, e o surgimento, em Israel, de sua própria versão da primavera árabe, existe uma sensação geral, tanto internacionalmente, quanto em Israel, de que os tempos estão mudando – e não é no sentido que confortaria os amigos do status quo.

Portanto, pode-se esperar uma nova onda de histeria e, junto com ela, uma série de declarações sobre como Israel enfrenta uma “ameaça existencial”.

Apenas recentemente é que essa expressão entrou no léxico político, graças, principalmente, à “diplomacia pública” israelense. Ela pode soar portentosa [a expressão], mas tudo o que significa, literalmente, é que a existência de alguém ou algo está em risco. Se for assim, o mundo está repleto de ameaças existenciais. Mas a expressão é raramente usada, exceto quando se refere a Israel, e seu emprego real tem muito pouco a ver com a ameaça ser realmente séria ou até mesmo real.

É neste sentido que o aspirante programa de armas nucleares do Irã ou o próprio Irã são ameaças existenciais, ao lado do “terrorismo” Palestino. Uma ameaça existencial cria um excelente casus belli, uma justificativa para guerra.

Embora vaidosamente, pode-se argumentar, pelo menos, que existe a necessidade de que Israel se defenda contra a violência perpetrada por um “estado pária” ou terroristas empenhados em causar sua destruição. Mas é difícil para qualquer um, especialmente para apologistas de Israel, aplicar um argumento similar em relação à ameaça existencial que está adiante. Afinal, conferir legitimidade a Estados incipientes é um dos mais antigos papéis das Nações Unidas sob a égide das leis internacionais, e foi justamente numa votação como essa, que dará boas-vindas à Palestina à comunidade das nações, que o nascente Estado de Israel se baseou para garantir a própria legitimidade sessenta e três anos atrás.

O que é provável que aconteça na Assembleia Geral vai perturbar os defensores do status quo e constranger os oficiais do governo israelense, pessoas não facilmente dadas ao constrangimento. É também certeza de que o fato acentue a resistência palestina à ocupação israelense. Uma terceira intifada pode irromper. É desnecessário dizer que o rolo compressor israelense é mais do que suficiente para se defender de qualquer desafio militar que os quartéis palestinos consigam conceber. Mas será necessária alguma atitude, da parte de Israel (e da parte das facções palestinas que atuam – sem intenção, mas objetivamente – como parceiros em manter o status quo no lugar) para que o conflito que está por vir tome um caminho militar. O que o governo israelense e seus amigos temem é que, desta vez, um novo levante poderá ter peso moral o bastante para influenciar a opinião pública a tal ponto que se perderá a Europa e que mesmo a carta branca dos Estados Unidos poderá ser suspensa, ao menos parcialmente.

Se assim for, os defensores do status quo estão certos em se preocupar – pelo status quo. Mas isso constitui uma ameaça existencial? É difícil dizer, porque nunca foi claro o que se supõe ser ameaçado pelas ameaças existenciais que Israel se propõe a enfrentar: é a sua existência como um estado que não pertence aos seus cidadãos, mas ao povo judeu? É a existência física dos habitantes desse estado? Aqueles que promovem a expressão apreciam sua ambiguidade. Ela serve bem aos seus propósitos.

Na realidade, é claro, não há nada à vista que possa se elevar ao nível de uma ameaça existencial, em qualquer sentido plausível do termo. Nunca houve.

Até este ponto, o entendimento comum era de que a principal ameaça existencial que Israel enfrenta viria do programa nuclear iraniano. Mas isto é claramente um absurdo. Mesmo que o Irã tivesse sucesso em construir um artefato nuclear – uma perspectiva improvável a curto prazo, já que, segundo todas as evidências disponíveis, eles estão tentando construir a capacidade, e não a arma em si – os iranianos teriam que ser suicidas para usar armas nucleares por qualquer outra razão que não seja a dissuasão. Israel, no fim das contas, está entre os Estados mais belicosos do mundo; e além de estar armado até os dentes, tem mais de duzentos ‘dispositivos de dissuasão’ prontos. Alguém pensa que, se ameaçados, os líderes de Israel seriam sensatos o suficiente para não utilizá-los?

É bom manter isso em mente, enquanto Israel busca a permissão de seu protetor americano para atacar o Irã. Qualquer um que não seja um neocon, e especialmente todos no serviço militar, sabe perfeitamente que uma guerra Israel-Irã prejudicaria os interesses americanos; seria tão prejudicial que é difícil ver como até mesmo um Congresso e administração subservientes permitiriam isso. É por isso que os falcões israelenses estão agora achando inútil retratar o Irã como uma ameaça existencial; e por isso que, na sua maior parte, eles mudaram o discurso.

A questão palestina é mais complicada – e parte da razão para tanto é o fato de que, neste caso, os Estados Unidos estão comprometidos a fazer tudo o que puderem para ver o governo de Israel resolver a situação à sua maneira. Do ponto de vista moral, a posição americana é repreensível. Também é auto-destrutiva porque ela cria uma “solução de dois estados” – indispensável, se deve haver um Estado Judeu duradouro, mas impossível de alcançar. O que os israelenses chamam de “bomba demográfica” tem a ver com isso; dadas as taxas de natalidade diferenciais, não há qualquer chance de que a maioria judia possa ser mantida por todo o mandato da Palestina. Muitos israelenses sabem disso. Mas hoje em dia eles são tão impotentes politicamente em seu próprio pais, quanto a “base” Democrata é no nosso [os EUA].

Os contornos gerais de um acordo negociado, aceitável para todos os que acreditam em uma solução de dois estados, tem sido claros ao longo de décadas. Os detalhes foram anunciados em Taba, em janeiro de 2001, durante os últimos dias do governo Clinton. Nos anos seguintes, Israel criou mais “fatos consumados” e, em parte graças à conivência americana e israelense, a Autoridade Palestina tem sido severamente enfraquecida. Mas não seria necessária uma sabedoria salomônica para trazer Taba à tona. Até mesmo Hillary Clinton poderia fazê-lo.

No entanto, será necessária uma verdadeira virada de jogo para que algo assim aconteça. Uma vez que Israel tem quase todas as cartas na mão, enquanto a Autoridade Palestina não tem quase nenhuma, o caminho a seguir – por enquanto os Estados Unidos seguem inúteis – é alterar os parâmetros legais em que o movimento palestino opera. Como as coisas estão agora, está claro que Israel não concordará em viver ao lado de um Estado Palestino viável; bantustões oficialmente autônomos são o máximo que aceitaria. Isso ocorre não apenas porque muitos israelenses aportam esperanças de uma Grande Israel, ou porque a classe política israelense é efetivamente de propriedade de um movimento de colonização religiosamente motivado. A razão mais importante é que, se houvesse uma paz justa, a razão de Israel existir enquanto um Estado do povo judeu (e, portanto, seu controle sobre judeus da “diáspora” e até mesmo sobre sua própria população) diminuiria, não abruta, mas inexoravelmente.

Os líderes do establishment político e militar israelense entendem isso. É por isso que eles conjuram ameaças existenciais e por que, independentemente do que eles dizem, eles têm repetidamente evitado buscar fazer as pazes com os palestinos. E é também por isso que eles temem o que a Assembleia Geral das Nações Unidas está prestes a fazer.

O princípio vital do movimento sionista da década de 1890 foi o de que os judeus precisam de um Estado para servir como um refúgio em um mundo em que antissemitismo é uma força da natureza. Esse pensamento nunca ganhou força antes que os nazistas tomassem o poder na Alemanha, e mesmo assim houve resistência por parte de judeus seculares, comprometidos com ideologias universalistas, e também por parte de judeus ortodoxos e reformistas, por razões teológicas e filosóficas. Com o tempo, ideologias universalistas enfraqueceram-se e o sionismo sequestrou o Judaísmo. Enquanto isso, como a assimilação judaica prosseguiu a todo vapor nos Estados Unidos e outros países ocidentais, e com o antissemitismo já não sendo mais uma preocupação tão grande, o nacionalismo israelense não fez nada senão monopolizar a política de identidade judaica no Ocidente.

Uma vez que o Judaísmo, despojado da casca sionista que tem sido imposta sobre ele, hoje é considerado algo fadado ao fracasso pela maioria dos judeus, e que o casamento entre judeus e não-judeus seja tão prevalente, está se tornando cada vez mais difícil manter um senso de identidade judaica em termos religiosos ou étnicos. Apenas Israel fica de fora. E como a sociedade israelense tem ligações históricas com o secularismo e o socialismo, Israel tornou-se algo difícil de amar ou até mesmo admirar. Não é surpresa, portanto, que tão poucos judeus da diáspora sequer pensem em viver lá, ou que tantos israelenses vivam no exterior.

Existe ainda, claro, a memória do judeocídio nazista, e sionistas exploram isso ao máximo. Mas conforme o tempo passa, esta memória se torna menos explorável; e nem todos os museus do Holocausto no mundo mantém sua eficácia. O movimento sionista conseguiu apropriar-se do capital moral da devastação causada pela Alemanha nazista sobre judeus da Europa, mas gastou o capital de forma imprudente, e não sobrou muito dele.

Entram em cena as ameaças existenciais. Quando elas não existem, como é o caso daquelas invocadas pelos líderes de Israel, elas precisam ser inventadas ou pelo menos exageradas além de qualquer proporção. Isto é o que estamos prestes a testemunhar novamente.

Sem dúvida, Obama gostaria de construir a “solução de dois estados”. Mas o fato é que ele não é capaz de fazer isso – seja porque ele não pode ou não conseguiria encarar o governo de Israel e o lobby de Israel nos Estados Unidos. Junto com tantos povos do mundo, os palestinos – e os israelenses também – agora estão pagando o preço, assim como nós, norte-americanos, pela incapacidade do nosso presidente para governar, e menos ainda para liderar.

Com um incrível poder de previsão, Benjamin Netanyahu tomou as medidas de Obama muito cedo, quando até mesmo a liderança do partido Republicano ainda estava tateando o seu caminho. E ele, evidentemente, tem prazer em demonstrar, de tempos em tempos, que em se tratando de Israel e da Palestina, o Comandante-em-chefe da única superpotência do mundo é tão firme quanto uma água-viva. Com implicações muito diferentes, o mundo finalmente vê o que Netanyahu percebeu há muito tempo, e parece que, em breve, ele [o mundo] vai fazer-se ouvir.

Supondo que Obama não possa barrar a votação da Assembleia Geral, o que vai acontecer em seguida não está claro. Israel, que é sempre uma ameaça existencial genuína para o povo palestino, pode cobrar um alto preço caso se sinta ameaçado, e os palestinos podem ter certeza que se uma “intervenção humanitária” for lançada, ela será dirigida, como sempre, contra aqueles que desafiam o poder americano.

Mas agora é um momento tão bom quanto qualquer outro para tentar alterar as regras que governam o status quo cada vez mais intolerável das relações Israel-Palestina e, como se diz, “quem não arrisca, não petisca.” A intransigência israelense certamente irá prevalecer por mais algum tempo, mas, em face de um mundo indignado, não pode prevalecer indefinidamente – mesmo com apoio americano. Enquanto isso, cabe aos americanos, especialmente aos judeus americanos, fazer todo o possível para minimizar esse apoio – não apenas em solidariedade com as vítimas da influência e intromissão nefastas do nosso país [os EUA], mas também, nas palavras de Thomas Jefferson, por uma questão de “respeito decente... [pelas] opiniões da humanidade”.

15 de setembro de 2011

O retorno da classe

Göran Therborn

Diálogo Global
As duas últimas décadas foram boas para as nações pobres do mundo. Desde o final da década de 1980, aquilo que organizações econômicas internacionais chamam de “Ásia em desenvolvimento”, principalmente a China, a Índia e os países da ANSA cresceram em um passo quase duas vezes maior do que o mundo em sua totalidade. Desde 2001 a África Subsaariana, trágica retardatária do desenvolvimento no último tercil do século passado, supera o globo em matéria de crescimento, incluindo as ditas “economias avançadas”. A América Latina cresce mais rápido do que o mundo rico desde 2003, e o Oriente Médio, desde 2000. Excetuando-se a Europa pós-comunista, “economias emergentes e em desenvolvimento” também enfrentaram a crise bancária anglo-saxã de modo muito melhor do que o mundo rico.

Nações e classes

Estamos experimentando uma guinada histórica, não apenas na geopolítica, como também em termos de desigualdade. O desenvolvimento internacional do subdesenvolvimento nos séculos XIX e XX significou, entre outras coisas, que a desigualdade entre seres humanos torna-se cada vez mais condicionada pelo local onde viveram, se em áreas, territórios e nações desenvolvidas ou subdesenvolvidas. Em 2000, estimou-se que 80% das desigualdade de renda familiar dependiam do país onde se vive (Milanovic 2011: 112).

Atualmente, isto está mudando. A desigualdade internacional está declinando globalmente, embora o abismo entre os ricos e os mais pobres não tenha parado de crescer. Mas a desigualdade interna das nações está, como um todo, aumentando, ainda que de modo desproporcional, negando qualquer determinismo pseudo-universal da “globalização” ou do desenvolvimento tecnológico.

Isto remete a um retorno da classe como um determinante da desigualdade cada vez mais poderoso. A classe sempre foi importante, mas, no contexto de organizações e lutas classistas predominantemente nacionais do século XX – apesar de incluir algumas redes de “internacionalismo proletário” –, a desigualdade de classes nacional foi ofuscada por abismos internacionais globais. Agora, as nações estão crescendo de forma aproximada, e as classes estão se afastando entre si.

O lado classista do novo padrão de distribuição global atingiu seu ápice nos anos 1990. Esse foi o período em que a desigualdade chinesa se elevou, ainda mais do que durante o processo de travessia capitalista da antiga União Soviética, e quando a tendência modesta pela igualdade (rural) na Índia foi revertida pelo aumento da desigualdade rural e urbana. Na América Latina, o México e a Argentina tiveram o seu choque de desigualdade neoliberal. Um estudo do FMI (2007:37) mostrou, mesmo sem maiores reflexões a respeito, que o único grupo que aumentou sua proporção de renda na década de 90, em escala global, foi o quintil dos mais ricos, em países de alta como nos de baixa renda. Todos os outros perderam, ainda que de forma não muito dramática.

As mudanças mais relevantes ocorreram no topo da distribuição da renda, entre os 1% mais ricos e o restante da população – e entre os 0,1% ou 0,01% e todos os outros. O economista americano Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel, denunciou recentemente (Vanity Fair, maio de 2011) o aprisionamento de seu país pelos um por cento mais ricos, que detêm 40% da riqueza nacional, que se apropriam de cerca de um quarto da renda nacional anual, e que virtualmente dominam todo o congresso americano. Durante a virada do ultimo século, os 1% mais ricos contabilizavam 15% da renda dos EUA, contra de 9 a 11% na Índia (Banerjee e Piketty 2003).

As tendências pela desigualdade na China e na Índia, e na Ásia em desenvolvimento em geral, mantiveram-se no novo milênio, tal como nos Estados Unidos (Luo e Zhu 2008; Kochanowicz et al. 2008; Datt e Ravaillon 2009). O crescimento econômico acelerado na Índia, por exemplo, dificilmente causou qualquer efeito positivo para a quinta parcela das crianças indianas mais pobres, dois terços das quais são subnutridas – uma condição de enfraquecimento que dura a vida toda – em 2009, como em 1995. O crescimento econômico vigoroso, nos anos 2000, daquilo que costumava ser o Terceiro Mundo não teve efeitos sobre a fome mundial. O número de subnutridos cresceu de 618 para 637 milhões de pessoas, o que correspondia a 16% da espécie humana entre 2000 e 2007 (ONU 2011: 11). Os preços dos alimentos continuam a aumentar. Na outra ponta, em março de 2011 a revista Forbes anunciou alegremente dois recordes em sua lista de bilionários de 2010, a saber: seu recorde numérico, 1.210, e sua riqueza total, 4,5 trilhão de dólares, mais representativa do que o PIB da terceira maior economia nacional, a Alemanha. 413 deles são americanos, 115 são chineses (continentais) e 101 são russos.

Contudo, não existe qualquer caráter de inevitabilidade, técnica ou econômica, no crescimento da desigualdade. De sua posição, admitidamente vulnerável, de região economicamente mais desigual do mundo, a América Latina é a única do planeta aonde a desigualdade está diminuindo (CEPAL 2010; PNUD 2010). Como esse é um efeito amplamente político (Cornia e Marorano 2010) de reação contra o neoliberalismo dos ditadores militares das décadas de 1970 e 1980 e de seus sucessores civis, eleitos de forma mais ou menos democrática, as políticas de redistribuição em andamento na Argentina, Brasil, Venezuela e outros países também refletem a importância das classes, nesse caso da ganância dos ricos oligarcas.

Outra forma de comparar as classes (de renda) das nações é calcular seu Índice de Desenvolvimento Humano, que inclui rendimentos, expectativa de vida e educação, uma operação heroica e muito complicada, com uma considerável margem de erro. Ainda assim, expressa um quadro notável da desigualdade mundial. A quinta parte mais pobre dos americanos detém um nível de desenvolvimento humano menor que, por exemplo, a quinta parte dos mais ricos da Bolívia, Indonésia e Nicarágua, menor do que 40% dos mais sortudos do Brasil e do Peru, e possuem um nível aproximado do quarto quintil da Colômbia, Guatemala e Paraguai. (Grimm et al. 2009, Tabela 1.)

A classe, ao menos enquanto referência da justiça distributiva, tende igualmente a crescer por outras razões que não a convergência econômica das nações. Desigualdades existenciais do racismo e do sexismo, mesmo que ainda poderosas aqui e ali, estão sendo claramente erodidas. Um exemplo recente importante é a queda do apartheid na África do Sul. A África do Sul democrática também nos fornece um dos mais dramáticos exemplos da desigualdade de classes após o racismo institucionalizado. Desafiando economistas do Banco Mundial, Branko Milanovic (2008: Tabela 3) e outros estimaram o Coeficiente Gini de desigualdade de renda entre famílias do globo em aproximadamente 65-70 entre os anos de 1990 e 2000. Mas em 2005 a cidade de Johanesburgo revelava o valor de 75! E isso foi medido nos termos das despesas do consumidor, que sempre fornece um retrato de desigualdade menor do que medidas de renda (ONU-Habitat 2008: 72). Mesmo considerando as margens de erro, não parece presunçoso afirmar que a cidade pós-apartheid de Johanesburgo abriga no mínimo tanta desigualdade econômica entre seus habitantes (em sua maioria nascidos na cidade) como todos os humanos do planeta.

O provável ressurgimento das classes pode tomar ao menos dois rumos muito distintos: o caminho das classes médias e o das classes operárias, cada qual com duas variantes principais. O rumo ideologicamente dominante da variante das classes médias aguarda com expectativa pela emergência de uma classe média global dominando a terra, comprando carros, casas próprias, um número infinito de aparelhos eletrônicos e bens de consumo duráveis, e gastando com o turismo internacional. Enquanto esse consumismo globalizado e atualizado pode causar pesadelos nas pessoas ecologicamente conscientes, ele faz salivar os empresários, a imprensa corporativa e as instituições de negócios. O consumismo médio-classista possui a grande vantagem, além dos rendimentos empresariais, de tanto acomodar os privilégios dos ricos quanto de garantir um horizonte tranqüilo de aspirações para as classes populares. Esses sonhos empresariais não ultrapassam os limites da viabilidade, mas tendem a subestimar o caráter socialmente explosivo da atual trajetória de distanciamento econômico e exclusão.

Na segunda alternativa, a crescente lacuna entre a classe média e a rica leva a primeira à política, antes de levar ao consumo. Em anos recentes testemunhamos algo que os europeus, pelo menos, não vivenciaram desde 1848 – classes médias se mobilizando nas ruas, e até realizando revoluções médio-classistas. Muitas dessas manifestações da classe média foram social e economicamente reacionárias, como aquelas contra Allende no Chile e contra Chavez na Venezuela ou, mais recentemente, o Tea Party americano. Contrariamente à mitologia liberal, não há nada de inerentemente democrático nas mobilizações das classes médias, como testemunham os “Camisas Amarelas” tailandeses de 2008 ou os condutores dos golpes no Chile e na Venezuela.

Outros protestos da classe média, contudo, foram hostis tanto ao capitalismo oligárquico “camarada ” quanto a políticas oligárquicas. A assim chamada Revolução Laranja na Ucrânia pode ter sido o exemplo mais próximo desse tipo ideal, mas a “Primavera Árabe” de 2011 também incluiu um componente médio-classista significante, provavelmente crucial. O capitalismo exclusivo das altas finanças ou das altas políticas, a economia política dos, pelos e para os um por cento mais ricos pode trazer ao palco político uma classe média raivosa, acarretando resultados imprevisíveis.

A outra direção classista foca a classe operária. A era de um capitalismo industrial de vanguarda deixou de existir, em conjunto com o oponente que gerou, a saber, o movimento da classe trabalhadora, previsto por Marx em meados do século XIX, e que se materializou na Europa, sobretudo nos países nórdicos. A Europa e a América do Norte estão agora se desindustrializando, o capitalismo financeiro internacional está prevalecendo sobre setores públicos, a classe operária encontra-se dividida, derrotada e desmoralizada. A polarização econômica resultante e a crescente desigualdade interna das nações são a contribuição do Atlântico Norte ao ressurgimento global das classes (como um mecanismo estrutural de distribuição).

A classe trabalhadora industrial deslocou-se agora para a China, o centro emergente da manufatura mundial. Os operários chineses de hoje são em grande medida migrantes em seu próprio país, dado o ainda presente sistema hukou de diferentes direitos por nascimento nos meios urbano e rural. Mas o crescimento do capitalismo industrial chinês está fortalecendo o poder dos trabalhadores, o que se manifesta em protestos localizados e no aumento dos salários (Cf. Pun Ngai in Diálogo Global 1.5). O regime político da China ainda está formalmente comprometido com o socialismo, em certo sentido. Ninguém é capaz de prever o que o futuro reserva. Mas um novo round de conflitos distributivos, tocado pelo trabalho industrial, amplamente deslocado da Europa para o Leste da Ásia, não deve ser desconsiderado.

Um quarto cenário classista derivaria sua dinâmica primária das classes populares heterogêneas da África, Ásia, América Latina e, talvez, de seus correspondentes menos vigorosos do mundo rico. Graças ao aumento da educação formal e aos novos meios de comunicação, movimentos populares de classe enfrentam grandes barreiras divisórias – origem étnica, religião, e particularmente a divisão por atividades, como comércio ambulante e pequenas fábricas com condições de trabalho precárias. Mas os obstáculos à organização, mobilização e reorganização não são intransponíveis. A Índia produziu fortes organizações de empregados autônomos, o movimento dos Camisas Vermelhas das classes populares tailandesas retomou a posição de principal força política nas eleições de julho de 2011, e coalizões de classe populares geraram governos de centro-esquerda no Brasil e em outros países da América Latina.

Cada uma dessas quatro abordagens sobre a desigualdade mundial possui uma plausibilidade sociológica: o consumismo de uma classe média globalizada, o caráter de rebeldia política da classe média, a luta de classes nas indústrias – incluindo a possibilidade de acordos de classe – se deslocaram da Europa para a China e o leste da Ásia e, em quarto lugar, mobilizações de classes populares heterogêneas são lideradas pela América Latina e por movimentos do sudeste da Ásia, mas possivelmente envolvem países árabes e da África Subsaariana (Cf. Enrique de la Garza and Edward Webster in Global Dialogue 1.5). O cenário mais provável para o futuro é o de avanços em todos os quatro sentidos. Suas importâncias relativas são não somente impossíveis de prever; tende a ser igualmente controverso ponderar suas evidências, assim como avaliar seus significados e valores.

Mais evidente, porém, é que embora Estados-Nação permaneçam como organizações formidáveis, e embora conflitos de classe se manterão, em grande medida, atrelados ao Estado, o novo curso da desigualdade global significa que as classes irão ascender, e as nações decair, na determinação dos cursos humanos de vida.

Referências:

Banerjee, A., and Piketty, T. 2003. “Top Indian Incomes, 1956-2000”, B R E A D working paper, http://ipl.econ.duke.edu/bread/papers.htm.

CEPAL, 2010. La hora de la igualdad. Santiago de Chile, CEPAL.

Cornia, G.A., and Martorano, B. 2010. Policies for reducing income inequality: Latin America during the last decade. UNICEF Policy and Practice Working Paper. New York: UNICEF.

Datt, G., and Ravaillon, M. 2009. “Has India’s Economic Growth Become More Pro-Poor in the Wake of Economic Reforms?”, World Bank Policy Research Working Paper 5103, http://www.worldbank.org/.

Grimm. M. et al. 2009. “Inequality in Human Development. An Empirical Assessment of 32 Countries”, Luxembourg Income Study, Working Paper 519, http://www.lisproject.org/publications/wpapers.

IMF 2007. World Economic Outlook, October 2007. http://www.imf.org.

Kochanowicz, J., et al. 2008. “Intra-Provincial Inequalities and Economic Growth in China”, Faculty of Economic Sciences, University of Warsaw, Working Paper no. 10/2008. http://www.wne.uw.edu.pl.

Luo Xubei and Zhu Nong 2008. “Rising Income Inequality in China: A Race to the Top”, World Bank Policy Research Working Paper 4700. http://www.worldbank.org/.

Milanovic, B. 2008. “Even Higher Global Inequality Than Previously Thought”, International Journal of Health Services: 48:2.

Milanovic, B. 2011. The Haves and the Have-Nots. New York, Basic Books.

UN 2011. The Millennium Development Goals Report 2011. http://www.un.org/.

UNDP 2010. Regional Human Development Report for Latin America and the Caribbean. http://www.undp.org.

UN Habitat 2008. The State of the World Cities 2008/9. http://www.unhabitat.org/.

Göran Therborn é Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Lund (Suécia) e, desde 2006, professor-emérito (atualmente aposentado) e diretor de pesquisa na Universidade de Cambridge. Nos anos 1970 e 1980, publicou uma série de obras teóricas marxistas, mas desde o início da década de 1990 seu trabalho foca-se principalmente nos estudos sobre modernidades comparadas, sociedade europeia e processos globais.

5 de setembro de 2011

"Deixem os bancos pagarem as suas próprias contas"

Merkel pressiona pela ditadura da banca na Eurozona

Mike Whitney

counterpunch
O Bundestag terá uma oportunidade de travar o plano de Angela Merkel de proporcionar centenas de bilhões para bancos da UE que estão debaixo da água devido às más apostas que fizeram em títulos soberanos. Se o parlamento germânico deixar de bloquear Merkel no dia 23 de setembro, então - sob os "poderes expandidos" do European Financial Security Facility (EFSF) - os bancos insolventes serão salvos e os custos serão transferidos para os contribuintes da zona do euro.

Apesar da sua palração populista ("Nós não seremos intimidados pelos mercados"), Merkel é uma eurófila devota comprometida com uma união fiscal dominada por banqueiros e possuidores de títulos, uma ditadura da banca. Actualmente ela está a fazer tudo o que pode para acelerar o processo antes de guardiões hostis dos títulos irritarem os mercados e levarem o sistema bancário da UE ao crash. Isto é o que diz a revista Der Spiegel.

Numa situação de pânico no mercado, o EFSF tem de actuar rapidamente", disse Holger Schmieding, economista chefe do Berenberg Bank, ao Financial Times Deutschland. "Pode acontecer da noite para o dia ou num fim de semana". Guntram Wolff, do think tank Bruegal com sede em Bruxelas, concorda. A aprovação parlamentar "não deve levar demasiado tempo. ("Parliamentary Influence over Euro Bailouts Naive'", Der Spiegel )

Soa familiar? O secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, utilizou a mesma estratégia após o colapso do Lehman Brothers em 2008 a fim de chantagear o Congresso por causa de US$800 mil milhões através do salvamento TARP. Mais uma vez, o medo de um colapso financeiro está a ser invocado para extorquir dinheiro de modo furtivo do povo trabalhador. Aqui está um extracto de outro artigo na Der Spiegel:

Os bancos estão de facto numa situação má. A maior parte deles ainda tem um bocado de títulos soberanos espanhóis, italianos, portugueses e irlandeses nos seus balanços e não está totalmente claro se estes acabarão por ser plenamente reembolsados. Isso por sua vez está a alimentar a desconfiança entre as próprias instituições financeiras e muitas cessaram de emprestar dinheiro umas às outras. Elas estão a ser mantidas vivas apenas porque o Banco Central Europeu (BCE) está a disponibilizar um montante ilimitado de dinheiro para elas e está a aceitar como colateral títulos que muitos investidores já não consideram seguros.

Melhor capitalização para os bancos podia aliviar esta desconfiança, porque mais situação líquida significa que os bancos poderiam absorver melhor perdas do seu negócios de dívida soberana. Aquelas instituições que não são suficientemente fortes para por si próprias levantarem o dinheiro no mercado teriam de ser ajudadas com dinheiro público. Dificilmente haverá uma instituição mais adequada para essa tarefa do que o EFSF. ("The Euro Rescue Fund Needs More Powers", Der Speigel)

Este excerto está errado sob muitos aspectos, é difícil saber por onde começar. O EFSF foi estabelecido para impedir o incumprimento de nações, não de bancos. A ideia de que especuladores de títulos podem ser comparados a governos representativos é risível. Os bancos estão em perturbação porque tomaram decisões más e agora devem enfrentar penosos haircuts nos seus investimentos. Accionistas serão eliminados e dívidas terão de ser reestruturadas. Isso não é o fim do mundo.

O que Merkel e companhia querem fazer é virar o sistema de pernas para o ar e transformar o EFSF num SPV (Special Purpose Vehicle) permanente fora do balanço autorizado a distribuir dinheiro público a bancos fracassados. E isto tudo está a ser feito para impedir seus banqueiros amigos de perderem dinheiro. Assim, por trás de toda a conversa fiada acerca de "unidade fiscal" e "consolidação das finanças do estado", espreita a feia verdade de que a eurozona é um sistema em duas camadas cuja arquitectura financeira é idêntica à da Enron. Não há nada de democrático num sistema que premeia elites perdulárias enquanto despeja as perdas para os trabalhadores. Isso é exactamente a velha cleptocracia.

A chanceler alemã é apoiada nesta luta pelos colegas no BCE e no FMI. De facto, a recém nomeada chefe do FMI, Christine Lagarde, está a liderar o movimento pelo Euro-TARP, o que pode explicar porque o seu processo de nomeação foi acelerado depois de Dominique Strauss Kahn ter renunciado enquanto aguardava investigação sobre acusações de violação em Nova York.

De qualquer modo, madame Lagarde já mostrou que está mais do que desejosa de fazer qualquer trabalho pesado que seja preciso para alcançar seus objectivos e obsequiar suas clientelas ricas. Eis como The Guardian resumiu o curriculum de Lagarde: "Christine Lagarde apoia a protecção dos grandes bancos ... ela é a mais pró salvamento bancário de todos". ("IMF under growing pressure to appoint non-European head", The Guardian )

Realmente. De modo que Lagarde lançou o seu peso em favor de salvamentos bancários, também conhecidos como recapitalização da banca. Ela também advoga fervorosamente "institucionalizar um governo económico europeu", o que significa que pretende estabelecer um regime controlado por banqueiros e possuidores de títulos, a Bancotopia. Ao mesmo tempo, ela insiste em que este novo corpo governativo tenha o poder para intervir no processo orçamental dos [estados] soberanos da eurozona a fim de "manter nossos esforços para expandir o âmbito da vigilância económica de modo a incluir défices governamentais e públicos bem como a dívida do sector privado, se necessários através da imposição de "penalidades políticas".

Certo. Assim, este novo governo trans-UE será capaz de exigir obediência a estados erráticos que aprovam orçamentos que servem os interesses do seu povo ao invés dos interesses do grande capital. Enquanto isso, o Superestado UE de Lagarde continuará a impor as mesmas políticas que tem aplicado desde o princípio da crise financeira; privatização em grande escala de activos e serviços do estado e programas de aperto de cinto que mantenham a economia num estado de Depressão permanente. Será isto o que está destinado à Eurozona?

Recordar que os bancos já estão a obter salvamentos através do programa de compras de títulos do BCE que mantém os preços dos títulos artificialmente altos e evitar um incumprimento soberano. O facto de que Lagarde está a pressionar agressivamente por injecções de capital directas sugere que a condição dos bancos é muito pior do que qualquer pessoa tenha imaginado, razão porque – de acordo com o Wall Street Journal – "Ela sugeriu que o fundo de salvamento soberano já existente na UE (ESFS) podia ser utilizado para esta finalidade". Isto é um exemplo clássico de dissimulação (bait and switch).

Os parlamentares alemães têm oportunidade de por um ponto final de uma vez por todas nesta insensatez. Ao vetar Merkel, o Bundestag pode assegurar que o povo trabalhador da eurozona não será roubado em centenas de milhares de milhões de dólares ou sujeito ao domínio autocrático de banksters parasitas. Deixem os bancos pagarem suas próprias contas.

Não ao EuroTARP!

4 de setembro de 2011

Um ponto de vista: A revolução do capitalismo

John Gray


Tradução / Como efeito colateral da crise financeira, mais e mais pessoas estão começando a pensar que Karl Marx estava certo. O grande filósofo, economista e revolucionário alemão do século XIX acreditava que o capitalismo era radicalmente instável.

Ele tem uma tendência intrínseca de produzir avanços e fracassos cada vez maiores, e no longo prazo, ele estava destinado a se autodestruir.

Marx saudava a autodestruição do capitalismo. Ele era confiante que uma revolução popular ocorreria e daria origem um sistema comunista que seria mais produtivo e muito mais humano.

Marx estava errado sobre o comunismo. Aquilo sobre o que ele estava profeticamente certo era a sua compreensão da revolução do capitalismo. Não era somente a instabilidade endêmica do capitalismo que ele compreendia, embora neste sentido ele fosse muito mais perspicaz do que a maioria dos economistas da sua época e da nossa.

Mais profundamente, Marx compreendeu como o capitalismo destrói a sua própria base social - o meio de vida da classe média. A terminologia marxista de burguês e proletário tem um tom arcaico.

Mas quando ele argumentava que o capitalismo iria arrastar as classes médias a algo parecido com a existência precária dos sobrecarregados trabalhadores de sua época, Marx previu uma mudança na maneira como vivemos à qual só agora estamos lutando para nos adaptarmos.

Ele via o capitalismo como o sistema econômico mais revolucionário da história, e não pode haver dúvida de que ele se diferencia daqueles que vieram antes dele.

Os caçadores e coletores persistiram nesta forma de vida por milhares de anos, enquanto as culturas escravagistas permaneceram assim por quase o mesmo tempo, e as sociedades feudais sobreviveram por muitos séculos. Em contraste, o capitalismo transforma tudo que ele toca.

Não são só as marcas que estão mudando constantemente. As empresas e as indústrias são criadas e destruídas em um fluxo incessante de inovação, enquanto as relações humanas são dissolvidas e reinventadas em novas formas.

O capitalismo foi descrito como um processo de destruição criativa, e ninguém pode negar que ele foi prodigiosamente produtivo. Praticamente qualquer um que esteja vivo na Grã-Bretanha hoje tem uma renda real maior do que eles teriam se o capitalismo nunca tivesse existido.

Retorno negativo

O problema é que entre as coisas que foram destruídas no processo está o estilo de vida do qual o capitalismo dependia no passado.

Defensores do capitalismo argumentam que ele oferece a todos os benefícios que, na época de Marx, eram desfrutados somente pela burguesia, a classe média estabelecida que possuía capital e tinha um razoável nível de segurança e liberdade em suas vidas.

No capitalismo do século 19, a maioria das pessoas não tinha nada. Elas viviam de vender o seu trabalho, e quando os mercados entravam em queda, eles enfrentavam tempos difíceis. Mas à medida que o capitalismo evolui, seus defensores dizem, um número crescente de pessoas pode se beneficiar dele.

Carreiras bem-sucedidas não serão mais a prerrogativa de uns poucos. As pessoas não terão dificuldades todo mês para subsistir com base em um salário inseguro. Protegidos pelas economias, pela casa que possuem e uma pensão decente, eles serão capazes de planejar suas vidas sem medo.

Com o crescimento da democracia e a distribuição da riqueza, ninguém precisará ser privado da vida burguesa. Todo mundo poderá ser da classe média.

Na verdade, na Grã-Bretanha, nos EUA e em muitos outros países desenvolvidos nos últimos 20 ou 30 anos, o contrário vem ocorrendo. A segurança do emprego não existe, as atividades e as profissões do passado em grande parte acabaram e as carreiras que duram uma vida inteira são meramente lembranças.

Se as pessoas têm qualquer riqueza, isto está nas suas casas, mas os preços dos imóveis nem sempre crescem. Quando o crédito fica restrito como agora, eles podem ficar estagnados por anos. Uma minoria cada vez menor pode contar com uma pensão com a qual pode viver confortavelmente, e não são muitos os que tem economias significativas.

Mais e mais pessoas vivem um dia de cada vez, com pouca noção do que o futuro pode reservar. As pessoas da classe média costumavam imaginar as suas vidas desdobradas em uma progressão ordenada. Mas não é mais possível olhar para uma vida como uma sucessão de estágios em que cada um é um passo dado a partir do último.

No processo da destruição criativa, a escada foi afastada, e para um número cada vez maior de pessoas, uma existência de classe média não é mais sequer uma aspiração.

Assumindo riscos

Enquanto o capitalismo avançava, ele devolveu as pessoas a uma nova versão da existência precária do proletariado de Marx. As nossas rendas são muito maiores, e em algum grau nós estamos protegidos contra os choques por aquilo que resta do Estado de bem-estar social do pós-guerra.

Mas nós temos muito pouco controle efetivo sobre o curso das nossas vidas, e a incerteza na qual vivemos está sendo piorada pelas políticas voltadas para lidar com a crise financeira.

As taxas de juros a zero em meio a preços crescentes querem dizer que as pessoas estão tendo um retorno negativo de seu dinheiro, e ao longo do tempo o seu capital está se erodindo.

A situação de muitas das pessoas mais jovens é ainda pior. Para adquirir os talentos de que precisa, a pessoa tem de se endividar. Já que em algum ponto será necessário se reciclar, é preciso tentar economizar, mas se a pessoa está endividada desde o começo, esta é a última coisa que ela poderá fazer.

Não importa a sua idade, a perspectiva que a maioria das pessoas enfrenta é de uma vida de insegurança.

Ao mesmo tempo em que privou as pessoas da segurança da vida burguesa, o capitalismo criou o tipo de pessoa que vive a obsoleta vida burguesa. Nos anos 80, havia muita conversa sobre valores vitorianos, e propagandistas do livre mercado costumavam argumentar que ele traria de volta para nós os íntegros valores de outrora.

Para muitos, as mulheres e os pobres, por exemplo, estes valores vitorianos podem ser bastante ilógicos em seus efeitos. Mas o fato mais importante é que o livre mercado funciona para corroer as virtudes que mantêm a vida burguesa.

Quando as economias estão se perdendo, ser econômico pode ser o caminho para a ruína. É a pessoa que toma pesados empréstimos e não tem medo de declarar a insolvência que sobrevive e consegue prosperar.

Quando o mercado de trabalho está altamente volátil, não são aqueles que se mantém obedientemente fiéis a sua tarefa que são bem-sucedidos, e sim as pessoas que estão sempre prontas para tentar algo novo e que parece mais promissor.

Em uma sociedade que está sendo continuamente transformada pelas forças do mercado, os valores tradicionais são disfuncionais, e qualquer um que tentar viver com base neles está arriscado a acabar no ferro-velho.

Vasta riqueza

Olhando para um futuro no qual o mercado permeia cada canto da vida, Marx escreveu no 'Manifesto Comunista': "Tudo que é sólido se desmancha no ar". Para alguém que vivia na Grã-Bretanha no início do período vitoriano - o Manifesto foi publicado em 1848 -, isto era uma observação incrivelmente perspicaz.

Naquela época, nada parecia mais sólido que a sociedade às margens daquela em que Marx vivia. Um século e meio depois, nos encontramos no mundo que ele previu, onde a vida de todo mundo é experimental e provisória, e a ruína súbita pode ocorrer a qualquer momento.

Uns poucos acumularam uma vasta riqueza, mas mesmo isso tem uma característica evanescente, quase espectral. Na época vitoriana, os muito ricos podiam relaxar, desde que eles fossem conservadores com a maneira como eles investiam seu dinheiro. Quando os heróis dos romances de Dickens finalmente recebem sua herança, eles nunca mais fazem nada na vida.

Hoje, não existe o porto seguro. As rotações do mercado são tais que ninguém pode saber o que terá valor dentro de alguns anos.

Este estado de inquietação perpétua é a revolução permanente do capitalismo, e eu acho que ele vai ficar conosco em qualquer futuro que seja realisticamente imaginável. Nós estamos apenas no meio do caminho de uma crise financeira que ainda deixará muitas coisas de cabeça para baixo.

As moedas e os governos provavelmente ficarão de ponta-cabeça, junto de partes do sistema financeiro que nós acreditávamos estar a salvo. Os riscos que ameaçavam congelar a economia mundial apenas três anos atrás não foram enfrentados. Eles foram simplesmente deslocados para os Estados.

Não importa o que políticos nos digam sobre a necessidade de controlar o déficit. Dívidas do tamanho das que foram contraídas não podem ser pagas. Elas quase que certamente serão infladas - um processo que está destinado a ser doloroso e empobrecedor para muitos.

O resultado só pode ser mais revoltas, em uma escala ainda maior. Mas isto não será o fim do mundo, ou mesmo do capitalismo. Aconteça o que acontecer, nós ainda teremos que aprender a viver com a energia mercurial que o mercado emitiu.

O capitalismo levou a uma revolução, mas não a que Marx esperava. O feroz pensador alemão odiava a vida burguesa e queria que o comunismo a destruísse. E assim como ele previu, o mundo burguês foi destruído.

Mas não foi o comunismo que conseguiu esta proeza. Foi o capitalismo que eliminou a burguesia.