31 de maio de 2019

Declínio da Europa

Paulo Nogueira Batista Jr.

Jornal do Brasil

A União Europeia voltou às primeiras páginas com as recentes eleições para o Parlamento Europeu. Mas não é o que se vê normalmente. A UE não tem o destaque que recebem, por exemplo, os Estados Unidos e a China. E, no entanto, do ponto de vista econômico, a UE está em pé de igualdade com esses dois outros polos. As economias dos EUA e da UE têm aproximadamente a mesma dimensão, com participações no PIB mundial em torno de 15% a 16%; a da China, responde por 19%.

O que explica o fato de os europeus ficarem, em geral, em segundo plano? São várias as razões, nem sempre devidamente consideradas. Para começo de conversa, leitor, a China vem crescendo rapidamente em termos de participação relativa. Já a UE tende a perder peso. Isso vem ocorrendo há décadas e deve continuar no futuro visível.

Mas a questão, claro, envolve muito mais do que apenas tamanho econômico. O poder de atuação internacional de um país ou de um bloco regional depende, em larga medida, da sua coesão interna. E isso sempre fez falta à Europa, região historicamente propensa a conflitos fratricidas. As chamadas Guerras Mundiais do século XX foram, em primeira instância, guerras civis europeias, que se espalharam na sequência para o resto do mundo, ou partes do resto do mundo. A ninguém escapa que os europeus fizeram, desde a Segunda Guerra, enormes avanços na superação de suas desavenças internas – algo que não ocorreu, diga-se de passagem, entre o Japão, a China e outros vizinhos. Ainda assim, fissuras persistem dentro do bloco europeu, o que afeta inter alia a sua capacidade de projetar-se internacionalmente. Já os EUA e a China, são Estados nacionais. E a China, em especial, se notabiliza por sua coesão interna, atribuível à mão forte do partido comunista e, também, ao sucesso econômico das últimas quatro décadas.

As dificuldades do euro jogaram lenha nas divergências dentro do bloco. O pós-crise de 2008 foi traumático para a integração europeia, ao contrapor a Alemanha à periferia vulnerável do euro. A Grécia foi o caso mais difícil. Mas, a duras penas, o euro foi mantido e nem a Grécia abandonou a moeda comum. Novas crises podem surgir, mas foi possível botar certa ordem na casa.

Quando os europeus pareciam ter equacionado a crise monetária, eis que são surpreendidos pelo Brexit. Os ingleses, sempre pouco confiáveis, como bem sabia de Gaulle, aprontaram mais uma contra a Europa (e, dessa vez, contra si mesmo...). Os americanos, já lançados na aventura Trump, comemoraram discretamente o enfraquecimento da UE.

Brexit e outros acontecimentos mostram que, além das tradicionais tensões entre as nações do bloco, os europeus enfrentam os mesmos tipos de fenômenos desagregadores que aparecem do outro lado do Atlântico Norte. As elites europeias e americanas, desenraizadas e “globalizadas”, perderam o contato com os seus países de origem. Com a grande concentração de renda e riqueza nas décadas recentes, o que representou certa “latino-americanização” dos países avançados, cresceu a percepção de que as democracias são, na realidade, plutocracias, com pouco ou nenhum espaço para as maiorias. Ao mesmo tempo, as ondas de imigrantes pobres despertaram reações nacionalistas e preocupações com o risco de perda de identidade cultural.

De novo, na Europa esses novos fatores de ruptura política e social se somam à tradicional dificuldade de unir nações muito diferentes em um projeto de integração profunda. Isso gera uma certa paralisia ou, pelo menos, perda de relevância da UE como ator global.

A Europa, porém, é uma região hiperdesenvolvida e sofisticada, e não vai perder essa condição. Padrões de vida e educação elevados se associam ao domínio de tecnologias avançadas em muitas áreas para dar aos europeus vantagens ainda extraordinárias. Tudo considerado, a UE continuará a representar um dos principais polos de poder no mundo nas décadas futuras. Não terá a mesma influência que os EUA e a China, mas o declínio relativo da Europa será gradual, e o seu peso se fará sentir por muito tempo.

Ao Brasil, superadas as barbaridades e vassalagens que marcaram o governo Temer e marcam, mais ainda, o (des)governo Bolsonaro, caberia ampliar as relações com a Europa e, em especial, explorar para nosso proveito as tensões e disputas entre europeus, americanos e chineses.

Sobre o autor
Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.

Os Coletes Amarelos da França: A oportunidade se foi

Como se pode alcançar objetivos tão ambiciosos sem procurar aliados e elaborar resultados políticos concretos?

Philippe Marlière

openDemocracy

Ato 19 dos Coletes Amarelos (Gilets Jaunes) em Paris, março de 2019. Boivin Samuel / PA.

Tradução / O movimento Coletes Amarelos (Gilets Jaunes) começou em novembro de 2018. Antes das primeiras ocupações de rotatórias em toda a França, uma petição contra o aumento dos preços dos combustíveis foi publicada on-line. Aproximadamente um milhão de pessoas assinaram o texto, que foi o estopim para o lançamento do mais longo movimento social na França do pós-guerra. (Na época da publicação da petição, as manifestações semanais em toda a França ainda estavam acontecendo).

A decisão do governo, em 2017, de reduzir o limite de velocidade nas estradas do país de 90 para 80 km/h foi outro fator que corroborou para a ascensão dos coletes amarelos. As pessoas que simpatizam com o movimento consideraram um fracasso da parte do governo entender as necessidades dos residentes rurais que dependem totalmente de seus carros.

Rapidamente, o movimento fez reivindicações de natureza “progressista”, centrada em torno do alto custo de vida. Os Coletes Amarelos exigiram a reintrodução do imposto sobre a riqueza (argumentando que a taxação é injusta, pois recai sobre a classe média e a classe trabalhadora), o aumento do salário mínimo ou a implementação dos referendos da Iniciativa do Cidadão. Manifestantes imediatamente passaram a pedir a renúncia do Presidente Macron.

Não há alternativa
Além de abandonar a decisão de aumentar os impostos sobre o combustível, Macron não fez nada para responder às reivindicações dos movimentos, nem mesmo para amenizar o descontentamento público. Ele basicamente reiterou que não havia alternativa às suas políticas econômicas neoliberais e deu licença à polícia para lidar com manifestantes com extrema brutalidade.

O mais longo movimento social da história francesa (mas não o mais numeroso em termos de participantes) é também um novo fenômeno sociológico. Os coletes amarelos na maior parte são recém-chegados à militância. Eles não são membros de um partido político ou de um sindicato, a maioria não vota e rejeita a divisão esquerda/direita.

Os Coletes Amarelos estão empregados, mas eles lutam para sobreviver. Em sua maioria, são de meia-idade e vivem em áreas rurais ou semi-urbanas. As mulheres estão bem representadas entre os manifestantes, mas o movimento é esmagadoramente branco. O Coletes Amarelos é de fato um movimento “franco-francês” que não conseguiu atrair as populações de origem étnica que estão essencialmente concentradas em áreas urbanas.

A característica mais fundamental do movimento é sua aversão à democracia representativa: os coletes amarelos desprezam os políticos profissionais e os descrevem como “corruptos” e “incompetentes”. Eles também querem ficar longe de partidos e sindicatos de esquerda. Em suma, eles só acreditam em si mesmos para realizar grandes transformações sociais e políticas. Mas como alcançar objetivos tão ambiciosos sem procurar aliados e elaborar resultados políticos concretos? (por exemplo, uma aliança com forças progressistas organizadas ou a participação em eleições)
Dois círculos concêntricos

Os Coletes Amarelos abraçam o ponto de vista social altamente elegante – ainda que simplista – segundo o qual a sociedade é dividida entre “o povo” (a grande maioria dos cidadãos) e “as elites” (a fração muito pequena de 1% das classes dominantes).

A aparente repugnância para com políticos profissionais e a representação política não impediu que alguns coletes amarelos se nomeassem “porta-vozes” do movimento: Priscillia Ludosky (que iniciou a petição online em maio de 2018), Éric Drouet ou Maxime Nicolle se tornaram estrelas da mídia e nomes consagrados, muitas vezes pelas razões erradas. (Drouet e Nicolle propagaram propaganda de extrema-direita e teorias da conspiração nas mídias sociais no passado.)

Quando dois grupos dissidentes decidiram apresentar uma lista de candidatos nas últimas eleições europeias, foram imediatamente rechaçados pelo resto do movimento. Os resultados foram irrisórios: uma lista recebeu 0,7% da parcela de votos e a outra 0,5%. Quando eles votaram, a maioria dos participantes dos Coletes Amarelos escolheu o Rassemblement National de Marine Le Pen.

Isso é surpreendente? Pesquisas qualitativas mostram que há, de fato, dois círculos concêntricos de manifestantes dos Coletes Amarelos: o núcleo – que vai às ruas semanalmente – é economicamente progressivo e culturalmente tolerante. Essa é a face pública do movimento. Mas há mais do que esse componente “de esquerda”. Um círculo maior de apoiadores, menos ativos no movimento, é motivado pela defesa de interesses materiais específicos (aumento de combustível, limite de velocidade, redução da imigração). A retórica anti-sistema e anti-establishment dos Coletes Amarelos, combinada com essas preocupações materiais, foi, portanto, amplamente compatível com o discurso anti-imigração, anti-elite e anti-UE de Le Pen.
E agora?

Em suma, se o movimento apresentou propostas muito decentes no lado social e econômico, não conseguiu atrair as massas de trabalhadores assalariados (trabalhadores de colarinho azul e branco), assim como os desempregados, os jovens e populações racializadas. As razões para o eventual fracasso do movimento são claras hoje: a ideia de uma rebelião popular contra um presidente arrogante e de direita pode ter sido uma idéia romântica para a maioria dos franceses por um curto período de tempo, mas não foi suficiente para formar um verdadeiro movimento político.

As pessoas que se manifestam em toda a França, todos os sábados, acabaram representando nada além de si mesmas. Os trabalhadores franceses, em sua maioria, ficaram entediados, se não impacientes com os manifestantes, que não ofereciam soluções adequadas para a crise.

O movimento Coletes Amarelos, longe de ajudar uma esquerda francesa fraca e desacreditada, na verdade aprofundou ainda mais sua crise. Jean-Luc Mélenchon, que apoiou publicamente o movimento desde o primeiro dia, saiu-se muito mal nas eleições europeias. Seu movimento, France Insoumise, recebeu 6,3% dos votos (abaixo dos 19,6% da eleição presidencial de 2017). Le Pen está em 23,3% e Macron sitiado em 22,4%.

Uma pesquisa do IFOP (Instituto Francês de Opinião Pública) publicada em 27-28 de maio revelou números preocupantes: 38% das pessoas que votaram em Mélenchon no primeiro turno da eleição presidencial de 2017, 58% que votaram na France Insoumise nas eleições europeias e 61% que planejam votar para Mélenchon na eleição presidencial de 2022, votaria em favor de Le Pen, caso ela enfrentasse Macron no segundo turno da eleição de 2022.

Os eleitores franceses são ideologicamente e politicamente tão confusos e aborrecidos que a mudança de uma fatia significativa dos eleitores de esquerda para a extrema direita é agora uma possibilidade.

Desemprego não parece inevitável em meio às transformações do mundo atual

Para isso, é preciso estimular consumo e investimento; Brasil elegeu a direção contrária

Laura Carvalho

Folha de S.Paulo

Equipados com vários sensores, robôs são mais precisos do que chefs humanos para julgar se hambúrguer foi devidamente cozido. BBC News Brasil/Getty Images

Em reportagem de capa de sua edição de 25 de maio, a revista britânica The Economist destacou a criação recorde de empregos observada nos países ricos nos últimos anos: a taxa de desemprego no conjunto das economias da OCDE encontra-se no nível mais baixo das últimas quatro décadas, ao contrário do que previam análises baseadas nos efeitos da chamada estagnação secular e da automação crescente no mercado de trabalho.

É verdade que os diferentes membros do clube não se beneficiaram igualmente desse fenômeno. Em países da periferia europeia, como Itália, Espanha e Grécia, que sofreram mais os efeitos da crise de 2008-9 e da austeridade que se seguiu, o desemprego ainda não voltou aos patamares pré-crise.

Já no Reino Unido, no Canadá, na Alemanha, na Austrália e em outros 22 países da OCDE, o nível de emprego entre pessoas em idade de trabalhar foi o mais alto da história em 2018.

Nos EUA, a taxa de desemprego caiu para apenas 3,6%, a mais baixa em meio século.

Tais evidências levantam novos questionamentos, sobretudo se considerarmos que boa parte dos analistas sugeriu mais cautela com a realização de estímulos fiscais e monetários nessas economias desde a crise financeira global, por considerarem que havia um limite para a redução do desemprego sem gerar inflação.

Na prática, o envelhecimento populacional não impediu a continuidade do processo de crescimento econômico com geração de empregos e inflação sob controle, entre outras razões, porque aumentou também a taxa de participação na força de trabalho nesses países —das mulheres, em particular.

Além disso, o crescimento da produtividade do trabalho foi maior do que o esperado, pois respondeu ao próprio crescimento econômico pós-crise: quanto maior a demanda, mais se aproveitam as chamadas economias de escala e de aprendizado e maiores são os investimentos na compra de máquinas, softwares e equipamentos mais modernos. Isso sem falar nos novos setores e nas atividades criadas pelo desenvolvimento de tecnologias de informação e comunicação.

Nesse contexto, o que o processo de desindustrialização contribui para criar, em meio à automação cada vez maior de atividades realizadas por trabalhadores com níveis intermediários de escolaridade, não é necessariamente uma elevação do desemprego, e sim um vácuo crescente entre, de um lado, assalariados de menor qualificação, empregados majoritariamente nos setores de serviços com salários bem mais baixos, e, de outro, os de mais alta qualificação, vinculados a atividades de alta remuneração.

O problema é que a falta de empregos de níveis salariais intermediários também vem contribuindo para o fenômeno de “missing middle” na pirâmide distributiva, com consequências nefastas para as desigualdades e o próprio sistema democrático.

Felizmente, como apontou a reportagem da revista The Economist, o que as evidências mais recentes vêm mostrando é que tanto a valorização do salário mínimo quanto o próprio desemprego baixo, que aumenta o poder de barganha de trabalhadores menos escolarizados, vêm levando a um crescimento mais acelerado dos salários na base da pirâmide nos últimos anos.

Nem o desemprego, nem a estagnação tampouco o aumento da desigualdade parecem, portanto, inevitáveis em meio às transformações do mundo atual.

Livrar-se dessa armadilha depende da realização de políticas pelo lado da demanda, que estimulem o consumo de bens e serviços, o investimento e a criação de empregos, e pelo lado da oferta, visando o desenvolvimento tecnológico, a criação de empregos de maior qualidade e a qualificação da mão de obra requerida para tal.

No Brasil, elegemos a direção contrária.

Sobre a autora

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

28 de maio de 2019

O navio de assalto dos novos cruzados

Manlio Dinucci

Il Manifesto

O lançamento do navio Trieste

Tradução / Na presença do Chefe de Estado, Sergio Mattarella, da Ministra da Defesa, Elisabetta Trenta, do Ministro do Desenvolvimento Econômico, Luigi di Maio e das mais altas autoridades militares, o navio Trieste, construído pela Fincantieri, foi lançado ao mar, em 25 de maio, no Cantieri di Castellammare di Stabia (Nápoles).

É uma unidade anfíbia multi-usos e multi-funções da Marinha Militar Italiana, definida por Trenta, como “uma síntese perfeita da capacidade de inovação tecnológica do país”. Com 214 metros de comprimento e velocidade de 25 nós (46 km/h), possui um convés de voo de 230 metros para decolagem de helicópteros, decolagem curta e aterragem vertical dos caça bombardeiros F-35B e para aviões convertíveis V-22 Osprey.

Pode transportar veículos blindados no convés garagem de 1200 metros lineares. Tem uma zona inundável, com 50 metros de comprimento e 15 de largura, o que permite ao navio funcionar com os mais modernos meios anfíbios da OTAN.

Em termos técnicos, é um navio destinado a “lançar e apoiar, em áreas de crise, a força de desembarque da Marinha Militar e a capacidade nacional de projeção da Defesa, a partir do mar”.

Em termos práticos, é um navio de assalto anfíbio que, ao aproximar-se das costas de um país, ataca com caças e helicópteros armados com bombas e mísseis e, em seguida, invade esse mesmo país, com um batalhão de 600 homens transportados, juntamente com armamento pesado, em helicópteros e outros meios de desembarque.

Por outras palavras, é um sistema de armas projetado, não para a defesa, mas para o ataque, em operações de guerra realizadas no âmbito da “projeção de forças" EUA/OTAN a grande distância.

A decisão de construir o Trieste foi tomada em 2014, pelo governo Renzi, apresentando-o como um navio militar usado, principalmente, em “atividades de ajuda humanitária”. O custo do navio, a cargo não do Ministério da Defesa, mas do Ministério do Desenvolvimento Econômico, foi quantificado em 844 milhões de euros, no âmbito de uma atribuição de 5.427 milhões para a construção, além do Trieste, de mais 9 navios de guerra. Entre estes, duas unidades navais de alta velocidade para incursões das forças especiais em "contextos operacionais que exigem discrição", isto é, em operações bélicas secretas.

No momento do lançamento, o custo de Trieste foi estabelecido em 1.100 milhões de euros, com um acréscimo de 250 acima da despesa prevista. O custo final será muito maior, pois que devemos acrescentar o custo dos caças F-35B e dos helicópteros a bordo, além de outros armamentos e sistemas eletrônicos que serão instalados no navio, nos próximos anos. A inovação tecnológica no campo militar – salientou a Ministro da Defesa – “deve ser apoiada pela estabilidade dos financiamentos”.

Ou seja, pelo financiamento contínuo e crescente com dinheiro público também da parte do Ministério do Desenvolvimento Econômico, agora liderado por Luigi Di Maio.

Na cerimônia de lançamento, ele prometeu aos trabalhadores outros investimentos: na verdade, existem outros navios de guerra a serem construídos. A cerimônia de lançamento teve um significado adicional quando o Arcebispo Militar Ordinário, Monsenhor Santo Marcianò, enalteceu o fato de que os operários haviam colocado uma grande cruz na proa do navio, composta de imagens sagradas das quais eles são devotos, incluindo as do papa Wojtyla e do Padre Pio. Monsenhor Marcianò elogiou a “força da fé” demonstrada pelos operários e abençoou e agradeceu “este sinal maravilhoso que vocês colocaram no navio”.

Foi assim, lançado o grande navio de guerra, como exemplo da capacidade de inovação do nosso país, paga pelo Ministério do Desenvolvimento Econômico, com o nosso dinheiro roubado aos investimentos produtivos e despesas sociais, abençoado com o sinal da cruz como na época das cruzadas e das conquistas coloniais.

26 de maio de 2019

Acumulam-se nuvens tempestuosas de recessão

por Prabhat Patnaik

Peoples Democracy

Tradução / O índice de produção industrial, pela primeira vez desde Junho de 2013, contraiu-se em termos absolutos em 0,1 por cento no mês de Março de 2019, em comparação com um ano atrás. Isso acontece depois de um aumento de apenas 0,07% em fevereiro, um aumento de 1,7% em janeiro, um aumento de 2,6% em dezembro e um aumento de 0,3% em novembro. O crescimento industrial, em suma, vem desacelerando há algum tempo e o último dado reafirma enfaticamente essa tendência.

Dentro da produção industrial, o sector manufatureiro, que tem um peso de 77,6%, declinou 0,4% em março em comparação com o ano anterior, e isso ocorreu devido a um declínio de 8,7% nos bens de capital, uma queda de 5,1% nos bens de consumo duráveis, uma queda de 2,5% nos bens intermediários e um aumento de 0,3% em bens não duráveis. Para o ano financeiro de 2018-19 como um todo, o crescimento do índice de produção industrial foi de apenas 3,6%, inferior aos 4,4% de 2017-18; mas foi nos últimos meses do exercício que a recessão ganhou força.

Esta recessão, em certo sentido, é inevitável. É um sintoma do fato de que a economia indiana, como outras economias do mundo, está presa em um limbo, com o neoliberalismo tendo chegado a um beco sem saída e nenhum outro regime econômico baseado no mercado doméstico ter vindo substituí-lo.

A economia mundial tem assistido a uma desaceleração que agora começa a afetar economias como a Índia e a China devido a uma taxa de crescimento mais baixa das exportações. Mas a menor taxa de crescimento das exportações não é sequer parcialmente contrabalançada por qualquer aumento do crescimento do mercado interno. Ao contrário, o mercado interno também está a encolher ao mesmo tempo devido à miséria rural, devido aos efeitos secundários da desaceleração do crescimento das exportações e também por causa do crescente peso dos incumprimentos de ativos (non-performing assets), assim como inter alia do abrandamento do crescimento industrial, o qual esmaga a disponibilidade de crédito para o empreendimento de grandes despesas. O abrandamento do crescimento das exportações, por outras palavras, longe de ser contrabalançado, é ainda agravado pela contração do mercado interno.

Isso fica claro pelo facto de o sector de bens de consumo duráveis ter encolhido e o sector de bens de consumo não duráveis ter permanecido praticamente estagnado em abril em relação ao mês de abril anterior. E a contração na produção de bens de capital, que ocorre no topo de uma contração que já ocorrera em fevereiro, sugere que o investimento na economia está em queda.

O Reserve Bank of India já anunciou duas vezes cortes na Repo Rate, de 25 pontos base cada; mas é improvável que isso faça grande diferença. O que está a atrasar o desembolso de crédito não é tanto o custo do crédito mas a sua disponibilidade, que ficou prejudicada por estar bloqueada pelos ativos não cumpridos. Naturalmente, mesmo que o crédito estivesse facilmente disponível não está claro quanta diferença faria isso, mas com a própria disponibilidade de crédito sujeita a alguma rigidez, um mero rebaixamento das taxas não aumentará o desembolso de crédito em qualquer medida significativa.

O que é necessário é a expansão orçamental, mas aqui chegamos ao cerne da questão. Nesta época de eleições, vários partidos políticos prometeram maiores transferências para os pobres das áreas rurais, o que certamente expandiria o mercado interno e causaria algum reavivamento da produção industrial. O orçamento do governo de Modi havia prometido 6000 rupias per capita anualmente para cerca de 120 milhões de pessoas pertencentes a pequenas famílias camponesas. O [partido do] Congresso foi muito além no seu manifesto eleitoral. Ele prometeu sob seu esquema NYAYA dar 6000 rupias por mês, ou seja, 72.000 rupias por ano, para o quintil mais baixo das famílias, o que representa cerca de 50 milhões de lares.

Embora esses esquemas, especialmente o do NYAYA, que é muito mais ambicioso, ajudem a expandir o mercado interno, a questão é como os recursos para isso podem ser levantados. A tributação dos ricos, especialmente através da tributação da riqueza, que é praticamente inexistente na Índia e que, portanto, pode gerar receitas substanciais precisamente porque não existe na Índia, é a maneira óbvia de mobilizar recursos; mas isso será resolutamente combatido pelo capital financeiro internacional. Manmohan Singh havia dito diplomaticamente, quando o esquema do NYAYA estava a ser lançado, que não deveria haver problemas quanto ao levantamento dos recursos; mas encontrar recursos para isso dentro de um regime neoliberal será extremamente difícil.

Da mesma forma, se o esquema for parcialmente financiado por um aumento do défice orçamental, então a magnitude do défice orçamental ultrapassará sua meta de 3,4% do PIB, e isso provavelmente levará a um rebaixamento da classificação de crédito da Índia, tornando extremamente difícil financiar o défice em conta corrente na balança de pagamentos. Este problema se tornará ainda mais agudo se a Índia aceder à exigência americana de parar de comprar petróleo do Irão, o qual é mais barato do que os preços spot do petróleo que a Índia teria de pagar. O governo de Modi já indicou sua disposição de aceder à exigência americana; se retornar ao poder, ele simplesmente reiterará esta posição. 

Os preços do petróleo já se estão a firmar, o que ampliará o défice atual; se as sanções dos EUA contra o Irão também forem consideradas, então o défice atual aumentará ainda mais. E se, além disso, o montante do défice orçamental exceder sua meta, então a entrada de recursos financeiros secará à medida que a classificação de crédito da Índia cair e haverá pouca esperança de enfrentar este défice de modo normal.

Estamos portanto numa situação bizarra. Se o governo tentar superar a recessão crescente, terá dificuldade em atender ao défice em conta corrente; por outro lado, se nada fizer para combater a recessão, então a situação do desemprego, que já é sombria, se tornará ainda mais sombria.

A severidade da situação de desemprego tem sido ocultada da opinião pública porque o governo simplesmente se recusou a publicar quaisquer dados sobre o desemprego durante mais de dois anos. Mas um relatório que escapou do Gabinete de Estatística do governo coloca a taxa de desemprego em 6,1%, a mais alta dos últimos 45 anos. O Centro de Monitoramento da Economia Indiana colocou a taxa de desemprego nos 7,6% em abril. Deve-se notar que enquanto os movimentos na taxa de desemprego dão uma indicação da direção do movimento do desemprego, a taxa em si não captura a magnitude do problema. Isso se verifica porque o racionamento de empregos na Índia assume a forma de a maior parte das pessoas serem empregadas apenas uma parte do tempo, ao invés de algumas estarem plenamente empregadas e outras estarem plenamente desempregadas.

Claramente, portanto, o governo terá que fazer alguma coisa para melhorar o desemprego; mas fazer qualquer coisa irá desestabilizar a balança de pagamentos dentro do paradigma neoliberal. Em suma, as galinhas neoliberais estão finalmente a voltar a casa para se empoleirarem.

Como o próprio neoliberalismo está a entrar num beco sem saída, este deveria ter sido o momento ideal para se desvincular dele através da introdução de controles de capital e de comércio [exterior]. Como os Estados Unidos já estão introduzindo controles de comércio, a Índia poderia ter introduzido tais controles à sombra da ação dos EUA. E com tais controles em vigor, poderia ter introduzido um imposto sobre a riqueza e um imposto sobre heranças. Ele poderia então cumprir sua promessa de efetuar pagamentos de transferências para as famílias pobres e, dessa forma, expandir o mercado interno, seguindo-se os passos necessários para aumentar a taxa de crescimento da produção de cereais. O estancamento dos influxos financeiros em tal situação não teria feito grande diferença para a capacidade do país de financiar seu défice em conta corrente, o qual teria diminuído de qualquer modo devido aos controles comerciais.

Mas o governo Modi parece ter pouca consciência do fato de o neoliberalismo ter chegado a um beco sem saída. E o partido do Congresso, que foi o arquiteto das reformas neoliberais da Índia, apesar de prometer o esquema do NYAYA, não terá a temeridade de atuar em conformidade. A recessão industrial, portanto, é provável que se acentue.

Crise global: o gatilho do comércio e da tecnologia

Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / Apesar de toda a conversa otimista do presidente Trump sobre o estado da economia dos EUA, os dados mais recentes sobre a atividade econômica e a produção industrial sugerem que os EUA estão se unindo à Europa e ao Japão em uma desaceleração acentuada quando entrarmos no segundo semestre de 2019. E isso ocorre em um momento em que a guerra comercial e tecnológica entre os EUA e a China avançou mais um pouco e ameaça, assim, desencadear uma recessão mundial total antes do fim do ano.

Os economistas do JP Morgan informaram que os chamados PMIs de maio para os EUA, Europa e Japão do G-3 apontam para um declínio de 0,7 ponto percentual, consistente com apenas 2,5% de crescimento anual do PIB global. Os índices dos gerentes de compras (Purchasing Managers Indexes - PMIs) são pesquisas das visões da empresa sobre suas vendas e compras atuais e futuras. Eles provaram serem guias razoáveis para a produção real. E o crescimento de 2,5% globalmente é considerado a "velocidade base" para a economia mundial, abaixo da qual é indicada uma recessão.


O JP Morgan acha que a produção global está sofrendo mais – chegando a quase 50 no PMI (qualquer coisa abaixo de 50 significa contração). Mas os serviços, que constituem 70-80% da maioria das principais economias (pelo menos na definição oficial), também estão caindo em direção aos níveis da mini recessão de 2015-6.


O mais preocupante é que “as medidas globais de expectativas de manufatura e serviços parecem prestes a cair em 2 pts em maio e pressionariam os índices abaixo dos mínimos estabelecidos no início de 2016” (JPM).


Como outros analistas, a Perspectiva Econômica da OCDE, publicada na semana passada, prevê um crescimento mais lento este ano do que o último na maioria das grandes economias - em alguns casos, muito mais lento. Além disso, mesmo em 2020, o crescimento global não retornará ao ritmo alcançado nos últimos anos. Angel Gurría, seu secretário-geral, disse: "A economia mundial está em um lugar perigoso".

Até agora, foi na Europa e no Japão que os sinais de uma desaceleração e até mesmo uma recessão foram visíveis. Mas agora a economia dos EUA pode estar se juntando a eles. O PMI da Manufatura dos EUA caiu para 50,6 em maio, implicando quase estagnação. Foi a leitura mais baixa desde setembro de 2009, quando os novos pedidos caíram pela primeira vez desde agosto de 2009, enquanto a produção e o emprego subiram menos.

PMI de manufatura dos EUA


O setor de serviços também recuou. O indicador econômico geral mostrou a expansão mais fraca do setor privado desde maio de 2016. Então, na semana passada, tivemos dados reais sobre bens duráveis fabricados nos EUA. Em maio, os novos pedidos caíram 2,1% em relação a abril de 2019. O setor de transporte, também abaixo nos últimos três meses, impulsionou a queda. A estimativa do modelo GDPNow do Fed de Atlanta (um indicador muito confiável de crescimento futuro) coloca o crescimento real do PIB dos EUA no segundo trimestre de 2019 em apenas 1,3%.


Quando chegamos à Europa, o número mais recente da locomotiva europeia, a atividade manufatureira alemã, torna a leitura particularmente desanimadora. A leitura de maio apontou para um quinto mês de contração no setor manufatureiro, com os novos pedidos continuando a cair drasticamente em grande parte devido à menor demanda em toda a indústria automobilística e aos efeitos da desova dos estoques dos clientes. Além disso, a taxa de perda de empregos acelerou de forma mais rápida desde janeiro de 2013.

PMI de manufatura alemã


Mesmo com o setor de serviços se mantendo, a atividade geral na Alemanha parece muito fraca. E a pesquisa de moral dos negócios está no menor nível em quase cinco anos. A atividade na zona do euro como um todo também está em uma baixa de quase cinco anos.

PMI composto da zona euro


A economia do Japão está "piorando" pela primeira vez em mais de seis anos, de acordo com um dos principais indicadores do governo. O índice de condições econômicas compilado pelo Governo do Japão caiu 0,9% de fevereiro a março. Isso levou os estatísticos do governo a reduzir sua avaliação da economia de "enfraquecimento" para "piora" - o menor dos cinco níveis. A última vez que o governo usou o grau mais baixo para descrever a economia foi em janeiro de 2013. O economista do Barclays, Kazuma Maeda, disse que o rebaixamento "mecânico" na avaliação não implica necessariamente que uma desaceleração está em perspectiva. Mas ele acrescentou: "Dito isso, há uma crescente preocupação com uma recessão econômica".

O crescimento da atividade nominal no Japão, que pode ser visto como uma proxy atualizada para o PIB nominal, vem caindo desde o final de 2017, uma vez que a queda no crescimento real do produto foi maior do que o aumento da inflação. Na medida da atividade nominal do núcleo, a taxa de aumento caiu agora para cerca de 0,5%, abaixo do nível do choque deflacionário de 2016.

Como um aparte, vale a pena notar que o Japão é supostamente o garoto propaganda da política fiscal e monetária keynesiana. O Banco do Japão tem taxas de juros negativas e comprou praticamente todos os títulos do governo disponíveis dos bancos, bem como dívidas corporativas e ações, através de injeções de crédito maciças nos últimos dez anos. E tem consistentemente gerido déficits orçamentários para tentar impulsionar a economia; tanto que a dívida do governo em relação ao PIB é a mais alta do mundo. Mas o crescimento nominal do PIB e os preços continuam estagnados.

Aqueles que apoiam a Teoria Monetária Moderna devem tomar nota. Sim, você pode administrar déficits orçamentários permanentemente e aumentar a dívida pública sem consequências para a inflação ou mesmo para a moeda em uma economia como o Japão. Mas você não pode obter um impulso permanente para o crescimento se as corporações do Japão não investirem ou o governo também não. Criar dinheiro não cria necessariamente valor. A ironia é que o primeiro-ministro Abe planeja elevar o imposto sobre vendas no final deste ano para tentar reduzir os déficits e os índices de endividamento em consonância com a política neoliberal. A última vez que ele fez isso, o Japão entrou em recessão.

Fora dos blocos imperialistas, as chamadas economias do "mercado emergente" também estão desacelerando. Turquia, Argentina e Paquistão já estão em recessão. Brasil e África do Sul estão à beira. E os fluxos de capital para essas economias do bloco imperialista estão secando, enquanto o investimento do setor público quase parou.

O investimento público líquido nos países de mercados emergentes caiu abaixo de 1% do PIB pela primeira vez, aumentando os temores de ampliação das lacunas de infraestrutura. A participação dos governos de países em desenvolvimento na produção nacional, investindo em ativos como escolas, hospitais e infraestrutura de transporte e energia, caiu de 3,3% em 1997 para apenas 0,9% no ano passado, segundo dados do FMI. Isso está bem abaixo do que o FMI acreditava ser necessário para atender às necessidades básicas e permitir que estes países rompam as lacunas de infraestrutura que estão retardando o ritmo de desenvolvimento. De fato, se você excluir a China, então o crescimento do investimento está caindo no resto das economias do G20. Apenas os EUA e a Índia estão mantendo o investimento positivo. Se eles vacilarem, como o investimento é o motor, uma recessão global se seguiria.


Se a China for retirada dos dados, a média ponderada para o resto do mundo emergente é de 3,9% do PIB, marcadamente inferior aos 4,8% registrados em 2010. Os 49 países de baixa renda em desenvolvimento, principalmente na África, mas também o Vietnã, Bangladesh e Moldávia, estão ainda mais mal posicionados, com o FMI calculando que eles precisam investir 7,1% do PIB adicional por ano até 2030 em estradas , eletricidade e água. Com a saúde e a educação adicionadas, isso chega a um colossal 15,4% do PIB, ou US $ 528 bilhões por ano.

A baixa rentabilidade explica, acima de tudo, por que o investimento das empresas tem sido tão fraco desde 2009. Quanto dos lucros obtidos foram transformados em especulação financeira: fusões e aquisições, recompras de ações e pagamento de dividendos. Além disso, houve algum acúmulo de dinheiro pelas grandes corporações. Tudo isso porque a lucratividade do investimento produtivo permanece historicamente baixa.

O outro fator-chave na longa depressão foi o aumento da dívida, particularmente da dívida corporativa. Com baixa rentabilidade, as empresas têm mais dívidas para financiar projetos ou especular. As grandes empresas como a Apple ou a Microsoft podem fazer isso porque têm dinheiro para voltar a usar se algo der errado; as empresas menores só conseguem administrar essa espiral da dívida porque as taxas de juros permanecem em níveis mais baixos e, portanto, o serviço da dívida ainda é viável - desde que não haja uma queda nas vendas e nos lucros.

Quando fundamentos como lucratividade e endividamento se tornam azedos para o capital, qualquer coisa pode provocar uma queda. Cada crise tem um gatilho diferente ou causa imediata. A recessão internacional de 1974-5 foi desencadeada por um aumento acentuado dos preços do petróleo e o fim do padrão ouro-dólar. A queda de 1980-82 foi desencadeada por uma bolha imobiliária na Europa e uma crise de produção nas principais economias. A recessão de 1990-2 foi desencadeada pela guerra do Iraque e pelos preços do petróleo. A recessão branda de 2001 foi o resultado do estouro da bolha do ponto.com. E a Grande Recessão começou com o colapso da bolha imobiliária nos EUA e com a consequente crise de crédito provocada pela diversificação internacional dos derivativos de crédito. Mas, subjacente a cada uma dessas crises, havia um movimento descendente na lucratividade do capital produtivo e, eventualmente, uma desaceleração ou declínio na massa de lucros. (O nexo de investimento de lucro).

Parece agora possível que a guerra comercial entre os EUA e a China possa ser um novo gatilho para uma recessão global. Certamente, o banco de investimentos norte-americano Morgan Stanley levantou esse risco. “Enquanto uma escalada temporária das tensões comerciais poderia ser navegada sem muito dano, um colapso duradouro infligiria uma dor séria. Se as negociações travarem, nenhum acordo é acertado e os EUA impõem tarifas de 25% sobre os restantes cerca de US $ 300 bilhões de importações da China, vemos a economia global caminhando para a recessão ”, disseram os analistas do banco em nota.

A OCDE também destacou o perigo decorrente da guerra comercial. Segundo a OCDE, o comércio internacional desacelerou abruptamente. Sua taxa de crescimento caiu de 5,5% em 2017 para o que a OCDE acredita que será de 2,1% e 3,1% neste ano e no próximo, respectivamente. Isso é menor do que o crescimento econômico projetado, o que significa que o comércio está diminuindo como parcela da atividade econômica global. Desde 2009, a desaceleração do crescimento dos investimentos levou a uma desaceleração do crescimento do comércio; e o FMI estimou que três quartos da desaceleração do crescimento do comércio poderiam ser atribuídos à fraca atividade econômica, especialmente no investimento. Mas agora a bota parece estar no outro pé.


Os números da OCDE sobre o investimento agregado são corroborados por dados mais refinados. A maior parte dos gastos de investimento das grandes empresas dos EUA, conforme relatado nos registros regulatórios, estagnou drasticamente. Uma investigação do Wall Street Journal sobre 356 empresas do S & P 500 descobriu que gastaram apenas 3% a mais em capital no primeiro trimestre do ano; para baixo de uma taxa de crescimento de 20 por cento um ano antes. Para os maiores gastadores de capital, o investimento caiu totalmente. As fricções comerciais parecem ser a causa principal - diretamente para empresas particularmente dependentes da demanda chinesa, como os produtores especializados de chips, bem como indiretamente através do aumento da incerteza que se espalha pela economia. Outra pesquisa descobriu que muitas empresas norte-americanas que operam na China também estão evitando investimentos.

O Morgan Stanley também alertou para não subestimar o impacto das tensões comerciais de várias maneiras. Em primeiro lugar, o impacto sobre o setor corporativo dos EUA seria mais difundido, uma vez que a China poderia criar barreiras não-tarifárias, como a restrição de compras. Dada a desaceleração do crescimento global que se seguiria, os lucros das operações internacionais das empresas seriam atingidos e as empresas não seriam capazes de repassar integralmente os aumentos de tarifas para os consumidores.

O que torna provável que a guerra comercial não seja resolvida amigavelmente para evitar uma recessão global é que a batalha entre os EUA e a China não é apenas sobre “comércio injusto”, é muito mais uma tentativa dos EUA de manter sua superioridade sobre atecnologia global face à rápida ascensão da China para competir. O ataque à Huawei, organizado globalmente pelos EUA, é apenas um começo.

Uma reação em cadeia está ocorrendo e gigantes da indústria se preparam para um choque violento. O banco de investimentos dos EUA, Goldman Sachs, observou que, desde 2010, o único local onde os lucros corporativos se expandiram está nos EUA. E isso, de acordo com Goldmans, é ocorre somente para as empresas de supertecnologia. Os lucros globais fora da área de tecnologia são apenas moderadamente maiores do que eram antes da crise financeira, enquanto os lucros da tecnologia subiram acentuadamente (refletindo principalmente o impacto das grandes empresas de tecnologia dos EUA).


A desaceleração do crescimento está sendo impulsionada pelo baixo investimento e lucratividade na maioria das economias e na maioria dos setores. Apenas as grandes empresas de tecnologia nos EUA têm resistido a essa tendência, ajudadas por uma recente bonança de lucros das "reformas" de imposto de Trump. Mas agora a guerra tecnológica com a China também vai atingir os lucros da tecnologia - mesmo que os EUA e a China cheguem a um acordo comercial.

O FMI está muito preocupado. Nova economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, comentou: "Embora o impacto sobre o crescimento global seja relativamente modesto neste momento, a mais recente escalada pode afetar significativamente o sentimento do mercado financeiro e dos negócios, interromper as cadeias de fornecimento globais e colocar em risco a recuperação projetada no crescimento global em 2019." Roberto Azevêdo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, disse que a guerra comercial EUA-China está prejudicando a economia global. A OMC foi contornada pelos EUA, enquanto o governo Trump visa seus ataques diretamente à China. Roberto Azevêdo, diretor geral da Organização Mundial do Comérico, disse que: “US $ 580 bilhões de medidas restritivas foram introduzidas no ano passado, sete vezes mais do que no ano anterior. Isso está atrasando os investidores, isso está impedindo os consumidores e, é claro, está tendo um impacto na expansão da economia global. Todos perdem... todos os países vão perder a menos que encontremos uma solução para isso.”

De fato.

A geografia invisível da raiva da classe trabalhadora

Christophe Guilluy

Entrevistado por Guido Caldiron


Uma instalação por Cathy Wilkes

Tradução / O sociólogo Christophe Guilluy, que se tornou uma controvertida estrela do debate político e intelectual com sua La France périphérique (Flammarion, 2015), quando propôs uma interpretação da nova geografia social globalizada do Ocidente, publicou agora No Socety (Taurus, Madrid, 2018) La società non existe em sua versão italiana), que analisa a origem e efeitos do que descreve como “o fim das classes médias ocidentais”. De acordo com Guilluy, a atual onda populista não é, neste sentido, mais que a ponta do “iceberg” de um difundido ressentimento da antiga classe trabalhadora, privada de seu papel e status e marginalizada, inclusive geograficamente, dos centros das metrópoles globais.

Guido Caldiron: O populismo de direita se alimenta da ideia de que Europa se encaminha para um declive inevitável. Enquanto descrevem um colapso do continente em termos indenitários, você traça um quadro de crise de um ponto de vista social, e fala sobre o “fim da classe média ocidental”. O que sucedeu exatamente?

Não creio na noção de declive. Europa continua sendo o continente mais rico do planeta. A questão é outra, contudo, tem a ver com o fato de que devemos lidar com modelo econômico que já não integra as categorias mais modestas que costumavam formar a base da classe média ocidental. São trabalhadores diaristas, trabalhadores de escritório, agricultores, proprietários de pequenos negócios, que, todavia constituem a maioria, mas que não encontraram seu lugar dentro do modelo neoliberal.

Sem necessariamente deslizar para a pobreza, essas categorias ficaram socialmente debilitadas, e, portanto, creem que o modelo econômico proposto pelas classes dominantes não resultou vantajoso para eles.

Guido Caldiron: Por que esse “desclassamento” para baixo traduziu-se em um sentimento de ressentimento que tem como consequência um choque entre “os de baixo” e “os de cima”, em lugar de adotar a forma tradicional de conflito social?

Embora a globalização – e seu corolário, a divisão internacional do trabalho – tenha possibilitado o surgimento de uma classe média chinesa ou na Índia, ela destruiu ao mesmo tempo os empregos industriais das classes trabalhadoras ocidentais. Por todo o Ocidente, os empregos das classes trabalhadoras ou desapareceram ou se converteram em precários.

Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho está polarizado, e agora se divide entre empregos de altas capacidades e bem pagos, e empregos precários, “trabalhos de merda” que aprisionam as classes populares em uma forma de instabilidade permanente.

Por esta razão, falo sobre um lento processo de “abandono da classe média”, que começou com os trabalhadores, em seguida com os agricultores, e hoje já alcançou aos empregados e aos auto empregados, que são cada vez mais precários.

Esta situação explica o retorno de um conflito social entre as precárias classes trabalhadoras ocidentais e as demais, as classes mais altas, que se integraram no sistema.

Guido Caldiron: Seu livro se inicia com uma citação de Margaret Tacher, que declarou em 1987 que “a sociedade não existe”. Trinta anos depois da estreia das políticas neoliberais encarnadas pela dama de Ferro e Reagan, se converteu em realidade tão sinistro pensamento?

Esse “a sociedade não existe” de Tacher descreve um processo global que tendeu a encolher o estado de bem estar e os serviços públicos. A ideia de que a classe trabalhadora não deveria esperar nada do Estado se viu logo acompanhada por outro ponto de inflexão de envergadura: A “secessão das elites” que já foi identificada por Christopher Lasch nos anos 80. “Esta secessão” não implica somente à classe das elites, mas também ao conjunto das classes mais altas, as que se beneficiam do modelo econômico que foi imposto gradualmente, e que se concentram nas grandes metrópoles globalizadas.

Guido Caldiron: No Society, constitui a culminação do projeto de investigação que começo com La France périphérique, na qual você descrevia o êxodo da classe operária para zonas cada vez mais marginalizadas em termos de serviços, empregos e oportunidades. Está se produzindo este mesmo fenômeno no conjunto do Ocidente? E qual relação existe entre este fenômeno e a exclusão social dos bairros periféricos?

Quer se trate da França, os Estados Unidos, ou o Reino Unido, a criação de empregos e riqueza se concentra, em média, nas metrópoles globalizadas. Tornam-se cada vez mais ricas e gentrificadas. E se converteram nas novas cidadelas do século XXI. Pela primeira vez na historia, a maioria das classes trabalhadoras já não vive onde se criam empregos, mas em cidades pequenas, cidades desindustrializadas de tamanho médio ou zonas rurais, nas quais o emprego é cada vez mais escasso e onde vemos uma “retirada” dos serviços públicos. O contexto dos bairros periféricos, começando pelas banlieules francesas, é diferente. Essas zonas pobres se encontram agora dentro de metrópoles cada vez mais ricas, e ilustram perfeitamente o funcionamento da cidade globalizada, na qual as desigualdades estão constantemente em aumento.

São de fato pontos de recolhimento de uma força de trabalho destinada ao emprego de baixas capacidades e mal remunerados, que necessita a burguesia da metrópole (sobretudo na construção, nos serviços pessoais ou de alimentação). Trata-se de um modelo potencialmente explosivo, porque nestes terrenos a divisão social oculta a separação étnica.

Guido Caldiron: Qual relação existe entre a crise do mundo da classe trabalhadora, logo da classe média, e o ascenso do populismo de direita? Você pode traçar um tipo de geografia social do fenômeno?

Em todos os países desenvolvidos, o populismo se manifesta dentro da mesma categoria sociológica (as classes baixas) e na mesma geografia (zonas rurais, cidades pequenas, pequenas urbes descentralizadas). A Norte américa da periferia foi a que elegeu Trump, e a periferia do reino unido a que decidiu a favor do Brexit. E embora o contexto nacional, social e econômico seja distinto, a dinâmica que implica é mais ou menos a mesma.

Na região Norte – Paso de Calais, antigo bastião da esquerda, as classes trabalhadoras, e especialmente os trabalhadores diaristas e a população rural votam agora no Rassemblement National de Marine Le Pen.

Guido Caldiron: Neste contexto social, surgiu na França o movimento dos gilets jaunes (coletes amarelos). Em sua opinião, o que representa e que peso poderia ter o resultado das eleições em seu país?

Creio que este movimento representa a encarnação concreta do conceito “da França da periferia”. O mapa dos primeiros protestos nas rotundas de tráfico em novembro, onde tudo começou, se corresponde de modo preciso com a geografia da França dispersa, onde encontramos a todos os grupos sociais mais vulneráveis, os que permaneceram submetidos a uma situação frágil em função do atual modelo econômico; tanto trabalhadores diaristas, como empregados rurais, jovens e pensionistas.

Deste ponto de vista, os gilets jaunes representam um sinal positivo da recomposição de uma classe, algo que atualmente está em processo. Contudo, é importante advertir que este movimento não é de esquerda nem de direita, mas que representa as classes trabalhadoras do século XXI, as quais, ainda que representem uma maioria, já não parecem crer na dualidade direita – esquerda.

Para além da questão do populismo, estamos vendo um êxodo desde a “sociedade líquida” de baixo, pelas classes populares.

Guido Caldiron: Você fala do crescimento da “paranoia da identidade” que acompanha ao desenvolvimento do individualismo. Em sua opinião, as classes dominantes promovem a abertura aos migrantes porque sabem que podem manter inalteradas as “fronteiras invisíveis” – tanto sociais como urbanas – que lhes separam dos estrangeiros, algo a que as classes trabalhadoras não podem aderir. Em sua opinião de quais anticorpos poderemos dispor contra o racismo?

Eu creio que as classes dominantes e a nova burguesia exploram e instrumentalizam aos migrantes. Por essa razão falo da hipocrisia da “burguesia cool”, que apoia as ideias de uma “sociedade aberta”, mas vive na realidade em cidadelas segregadas, não nas vizinhanças onde se concentra a imigração. Assim, é necessário deixar uma coisa clara: a proporção de racistas é exatamente a mesma entre as classes trabalhadoras e entre os burgueses.

Se as classes altas e formadas deslizam para o populismo é somente porque possuem meios para erigir sua “barreira invisível”.

Esta é a razão pela qual questionar sobre esta questão constitui um requisito prévio para reduzir as tensões.

Em meu trabalho introduzi o conceito de “insegurança cultural”, tratando de mostrar que, sobretudo, em um entorno de classe trabalhadora, não é tanto a relação com o “o outro” o que suscita problemas, mas a instabilidade demográfica é a que leva ao temor de converter-se em minoria e perder um capital social e cultural que se atribui grande importância.

É um temor que aflige a todas as classes trabalhadoras, independentemente de suas origens.

Guido Caldiron: Na conclusão de seu livro, você diz que o desafio já não se coloca em “gerir o declive social”, mas sim em refazer a sociedade de novo.

Creio que é a única educação possível. Mas, não podemos “refazer a sociedade” sem integrar as classes populares que representam a maioria da população. Os protestos populares não serão detidos, e os gilets jaunes e os partidários do Brexit seguirão existindo durante os próximos cem anos se nada muda. Por esta razão, as classes dominantes – incluindo aqui os partidos políticos – deveriam revisar seus programas. Torna-se necessário responder a novas necessidades sociais e culturais, tendo em conta que as pessoas não vão desaparecer.

Sinais do risco

A democracia começa a ficar fora de controle

Janio de Freitas


O presidente Jair Bolsonaro (PSL). Pedro Ladeira/Folhapress

As palavras, a forma, variam um pouco. O motivo é invariável. "A democracia está em risco?" / "resistirá por quatro anos?" / "vão esperar que aconteça o quê?"

As perguntas são também respostas preliminares, como expressões de um sentimento que se espraia e se aprofunda. Indagações inquietas são percebidas até em parlamentares vividos que se apresentaram, no início da legislatura, dispostos a apoiar Bolsonaro.

Enganam-se os que difundem as sucessivas derrotas de Bolsonaro e Sergio Moro no Congresso como represália, por falta de toma lá dá cá, ou falha de coordenação no governismo. Bolsonaro tentou. Mas as promessas de mais ministérios para mais nomeações e, ainda melhor, de R$ 1 bilhão para destinação pelos parlamentares não evitaram as derrotas dele e de Moro.

Bolsonaro é adepto confesso de ditadura. Os contatos que seus emissários têm buscado, no exterior, são com os governantes opressores, na Hungria, na Polônia, na Itália, em Israel. Não é à toa, claro. Tanto pode ser para uma rede de apoios mútuos do direitismo extremado, como —o mais provável— para coleta de vitoriosos modelos de avanço sobre o Legislativo e o Judiciário.

Não falta quem esteja atento, na Câmara e no Senado brasileiros, para os atos de desgaste que Bolsonaro lhes dirige. Agora adotados também por Paulo Guedes, com sua ameaça, recebida como chantagem política, de deixar o governo se a "reforma" da Previdência não sair do Congresso ao seu agrado. O provável é que Paulo Guedes se surpreenda com a resposta prática à ameaça.

A liberação da posse armas, inclusive de fuzis no decreto original, recebeu várias explicações. Fora delas, eis a recomendável: é, no mínimo, uma provocação, de variados alcances. O que não exclui outros objetivos possíveis. O argumento de que Bolsonaro cumpriu o que disse na campanha só é aplicável por bobos e cínicos. E aceito por bobos e distraídos. Bolsonaro disse também, por exemplo, que ia retirar o Brasil da ONU. Onde está a palavra dada nessa e em tantas outras maluquices de igual quilate? Ocasiões para cumpri-la não faltaram, em seus cinco meses de tanta enrolação e nenhum momento produtivo.

Tanto quanto a Bolsonaro, a liberação de armas põe em questão os quase incontáveis militares do governo: nem um só foi capaz de uma atitude, uma palavra ao menos, em favor do bom senso e da vida civil. Há meia dúzia de meses, o Exército estava ainda como interventor no Estado do Rio e em operação no Rio Grande do Norte contra ataques de quadrilhas. Essas ações do Exército confirmam a responsabilidade que assume pela segurança da população. Responsabilidade inconciliável com a medida que não diminui a insegurança, só pode aumentá-la. Ainda assim, aceita e avalizada pelo silêncio dos generais que, não adiantam as negações, representam o Exército no governo mais do que o próprio Ministério da Defesa.

A democracia começa a ficar fora de controle. Com ela, Bolsonaro nunca teve compromisso, nem quando congressista. Se os generais representantes do Exército e o Ministério da Defesa aceitam medida contrária à segurança pública que a Constituição lhes atribui, o risco vai mais longe. É também institucional: os militares expõem a possibilidade de sua maior concordância com Bolsonaro do que a democracia suportaria. É uma hipótese em aberto. Clareada em um ou em outro sentido, servirá de base para uma resposta objetiva àquelas perguntas iniciais.

No que a democracia depender de Bolsonaro, o já indiscutível é sucinto: estamos diante de uma aberração.

Sobre o autor

Jornalista.

25 de maio de 2019

Projeto de reforma tributária enfrentará enormes resistências

Criação do Imposto sobre Bens e Serviços vai na direção correta de tentativas anteriores de reforma

Nelson Barbosa

Folha de S.Paulo

Plenário da Câmara dos Deputados durante a finalização da votação da Medida Provisória 870, que define a organização administrativa do governo Bolsonaro. Pedro Ladeira/Folhapress.

A agenda legislativa de 2019 inclui reforma da Previdência, autonomia do Banco Central e reforma da tributação indireta. Três medidas estruturais, sendo a última uma iniciativa dos parlamentares, liderados pelo deputado Baleia Rossi (MDB-SP), baseada em sugestões do economista Bernard Appy.

A reforma Rossi-Appy tem vários pontos positivos, mas enfrentará enormes resistências, como acontece com qualquer proposta tributária. Vejamos algumas.

​​Rossi e Appy propõem juntar cinco tributos cobrados pela União (IPI, PIS e Cofins), pelos estados (ICMS) e pelos municípios (ISS) em um único imposto nacional, o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços). Trata-se, portanto, de grande simplificação para o contribuinte.

A alíquota do IBS terá três componentes —federal, estadual e municipal—, mas sua arrecadação e fiscalização ficará a cargo de um conselho nacional, não de cada ente federativo. O modelo reproduz o conselho do Supersimples, mas em escala maior do que acontece hoje, pois a nova instituição centralizará a tributação indireta de todas as empresas, não só de micro e pequenos negócios.

A centralização é tecnicamente correta, mas ela pode acabar delegando o ônus da tributação a um grupo de burocratas em Brasília, que fixará “alíquotas de referência”, caso estados e prefeituras não o façam.
Como político não gosta de cobrar imposto, a tentação de deixar o abacaxi para Brasília será grande. Prefiro manter os tributos federais, que financiam a seguridade social, separados como “contribuição sobre bens e serviços” (CBS).

Na proposta Rossi-Appy, cada ente federativo será livre para fixar sua alíquota de IBS, que deverá ser única para todos produtos e contribuintes em seu território. Assim, não haverá mais desoneração ou regime especial para o produto X ou Y (ou contribuinte A ou B). Todos pagarão a mesma taxa, pobres e ricos, siderúrgicas e jornais.

Trata-se de outra simplificação louvável, mas que enfrentará grande resistência dos lobbies que criaram os regimes tributários especiais existentes.

Para não punir os mais pobres, a proposta Rossi-Appy inclui compensação para famílias de baixa renda, após comprovação do gasto tributário com produtos básicos. Por exemplo, a pessoa primeiro pagará o imposto sobre a cesta básica, depois receberá o dinheiro de volta. Outra medida correta, quase escandinava, mas com sistema operacional que demora para ser construído.

O IBS também será arrecadado no destino, no ponto de venda do produto, de modo que cada prefeito ou governador decidirá somente quanto cobrar dos seus contribuintes, não quanto exportar de desoneração para seus vizinhos. Trata-se de mudança crucial e necessária, mas que enfrentará oposição de empresas e regiões (exemplo: Manaus) que se beneficiam de incentivos fiscais.

Por fim, a proposta Rossi-Appy segue o princípio do crédito financeiro, isto é, qualquer compra de insumo gerará crédito tributário para pagar o imposto devido nas vendas. Como o IBS não incidirá sobre investimento e exportação, o tributo recairá apenas sobre o consumo final de bens e serviços. A medida está corretíssima, mas ainda assim enfrentará forte lobby do setor de serviços, hoje subtributado.

Juntando os pontos, a criação do IBS vai na direção correta de tentativas anteriores de reforma. A novidade é a amplitude da proposta, pois ela concentra problemas federais, estaduais e municipais em uma mesma batalha.

Seria menos difícil e arriscado reformar PIS, Cofins e IPI, de um lado, e ICMS e ISS, do outro, pois tributação nunca é uma questão somente técnica.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

24 de maio de 2019

Tornando o mundo mais igualitário

Jonathan Power

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Princeton University Press

Talvez, afinal, haja um argumento para dizer que o mundo precisa de mais violência, e não menos, se quisermos tornar suas sociedades mais iguais. Esta é uma conclusão que pode derivar do novo livro de Walter Scheidel, The Great Leveler.

Ele parte do que todos sabemos até agora: as 62 pessoas mais ricas do mundo possuem tanta riqueza líquida quanto a metade mais pobre da humanidade. É um número que poderia caber dentro de um ônibus de dois andares de Londres.

Essa desigualdade parece piorar a cada ano, embora, se voltarmos a 1929, tenha sido aproximadamente a mesma. Dois mil anos atrás, na época dos romanos, os mais ricos tinham fortunas em torno de 1,5 milhão de vezes a média dos cidadãos, aproximadamente a mesma proporção que Bill Gates e o americano médio.

Platão, escrevendo no século IV a.C., ficou irritado com o fato de que “não havia um, mas dois estados, um dos pobres e outro dos ricos”. Mais tarde, Jesus abordou temas semelhantes, como o papa faz hoje. Não pode haver justificativa no cristianismo, islamismo, budismo ou judaísmo para a concentração de riqueza pessoal e o contínuo mal-estar dos pobres.

Qualquer membro dessas religiões que justifique sua riqueza é, de fato, um apóstata.

O argumento de Scheidel é que nada muda sem um grande choque. A peste negra foi um deles. Ele eliminou tantos trabalhadores que os proprietários de terras tiveram que aumentar os salários substancialmente a fim de atrair trabalhadores.


Surpreendentemente, as guerras não são grandes niveladoras, exceto em circunstâncias específicas. Até a época da Primeira Guerra Mundial, a disputa era geograficamente localizada. Não penetrava profundamente na sociedade.

Por outro lado, a Segunda Guerra Mundial, que envolveu grande parte da sociedade britânica, forçou a mão das classes mais abastadas e tiveram que aceitar as reformas sociais, incluindo cuidados de saúde universais, que um governo trabalhista apresentou como um “reembolso” aos soldados rasos que haviam sido os mais afetados pelos combates.

Remontando-se ao longo dos séculos, revoltas camponesas e guerras civis contribuíram pouco para o nivelamento. Inclusive a Revolução Francesa.


A reforma agrária liderada pelos comunistas na China foi uma exceção. Mas a revolução de Mao Zedong foi derrubada por Deng Xiaoping e um grande processo de nivelamento acabou. Só havia surgido por causa da revolução profundamente enraizada. Funcionou melhor quando foi associado à violência ou à ameaça de violência.

Então, e os movimentos não violentos? A única evidência segura de alcançar o nivelamento sem violência é o caminho que a maioria da América Latina percorreu no início dos anos 2000. Mas seu alcance tem sido bastante modesto. Isso se sustentará?

No Brasil, o legado do presidente Lula do Partido dos Trabalhadores está ameaçado pelo novo presidente de direita, Jair Bolsonaro. No México, no entanto, o novo presidente socialista deve impulsionar a reforma.

Hoje, no mundo pós Guerra Fria, vemos que os sindicatos foram domados nos EUA e no Reino Unido, as maiores taxas de imposto foram suspensas em alguns países e a globalização está prejudicando os trabalhadores mal treinados. A desigualdade está piorando. A Guerra Fria não foi uma guerra que penetrou profundamente em nossas instituições sociais.

Com o fim do comunismo, a Rússia, a China e a Europa Oriental tornaram-se sociedades muito mais desiguais; na Rússia e na China, por essa razão.

Um mito esperançoso deve ser questionado: em geral, a introdução da democracia por si só não produziu sociedades mais igualitárias, embora tenha incentivado o crescimento econômico e ajudado a melhorar os salários, a educação, a saúde e o bem-estar das classes mais pobres.


Importa se o mundo tem desigualdade? Sim, importa. Estudos após estudos, incluindo aqueles publicados pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial, demonstraram que a desigualdade impede o crescimento econômico.

Mas, o que pode ser feito? A era da mobilização de massa acabou. Muito poucos de nós querem ver revoluções sangrentas e pessoas como Robespierre, Mao ou Guevara. Como Thomas Piketty e Steven Pinker provaram em livros recentes, o mundo está se tornando um lugar menos violento.

A probabilidade de morte por causas violentas vem declinando há séculos. As sociedades que envelhecem - Europa, Rússia, Japão e China - tendem a se tornar menos violentas, já que as pessoas mais velhas são mais tolerantes ou menos atraídas por isso como uma solução política.

A resposta a esta pergunta, escreve Scheidel, é: não muito. No futuro “Será um desafio para as democracias sociais da Europa continental manter e ajustar sistemas elaborados de alta tributação e extensa redistribuição ou as democracias mais ricas da Ásia preservar sua alocação extraordinariamente equitativa dos rendimentos antes dos impostos para conter a crescente onda de desigualdade, que só pode crescer ainda mais à medida que a globalização e as transições demográficas sem precedentes aumentam a pressão”.

Ao longo da história, a maioria das tentativas de melhorar a igualdade de renda só trouxe tristeza. Devemos ter cuidado com o que desejamos.

23 de maio de 2019

Onze teses sobre a Venezuela

A política dos EUA em relação à Venezuela não é motivada por uma preocupação com a democracia ou os direitos humanos. E sua intervenção arrogante está agravando ainda mais a crise humanitária do país.

Gabriel Hetland

Jacobin

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, fala durante uma manifestação do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) no Palacio de Miraflores em 20 de maio de 2019 em Caracas, Venezuela. Eva Marie Uzcategui / Getty

1

A Venezuela está passando por uma profunda crise humanitária. Qualquer tentativa de negar isso é abominável, pois ignora o enorme sofrimento do povo venezuelano.

2

A crise praticamente obliterou os ganhos sociais inegáveis ​​e impressionantes alcançados entre 2003 e 2013, quando a Venezuela viu reduções maciças na pobreza e na desigualdade e melhorou dramaticamente os padrões de vida. A crise também corroeu severamente os ganhos políticos igualmente impressionantes e inegáveis ​​do chavismo, como o empoderamento significativo (embora desigual) de setores da sociedade anteriormente excluídos da política. Devemos reconhecer essas perdas sem nos render à narrativa que proclama que o chavismo estava fadado ao fracasso desde o começo. Essa narrativa deve ser rejeitada não apenas porque é falsa, mas também porque faz parte de um projeto reacionário mais amplo de demonização do chavismo e do projeto da esquerda de construir um mundo melhor. Devemos também rejeitar a narrativa de que o chavismo está “morto”. Apesar de severamente maltratados, os movimentos populares que são o coração pulsante do chavismo não desapareceram: esses movimentos continuam a lutar e serão de vital importância para determinar o futuro da Venezuela.

3

As origens da crise são complexas e envolvem uma mistura de fatores de longo, médio e curto prazo, incluindo: a secular dependência do petróleo, que por sua vez é um legado da ordem mundial capitalista e da posição periférica da Venezuela dentro desta ordem; medidas governamentais falhas, particularmente relacionadas à política monetária, que fomentou corrupção estimada em mais de centenas de bilhões de dólares; a repressão governamental de protestos e dissidências pacíficas em meio a um afastamento mais amplo da democracia política e em direção ao governo autoritário; ações de oposição, como açambarcamento especulativo de bens, morte de civis e funcionários do governo e danos intencionais à infraestrutura e recursos públicos, incluindo instalações médicas e alimentos armazenados; ações do governo dos EUA, incluindo apoio manifesto e encoberto para os setores mais violentos da oposição, e os efeitos diretos e indiretos das sanções, que desde pelo menos 2015 privaram o governo de fundos significativos, principalmente ao negar acesso a mercados internacionais de crédito.

4

As recentes ações dos EUA - particularmente as sanções impostas em agosto de 2017 e janeiro de 2019 - exacerbaram severamente a crise e devem ser vistas como uma das principais causas imediatas da terrível situação enfrentada por milhões de venezuelanos. Um relatório recente estima que as sanções de agosto de 2017 causaram um adicional de 40 mil mortes na Venezuela até o fim de 2018. Embora seja impossível confirmar esse número, que pode ser muito alto ou muito baixo, é ilógico e repugnante negar que as sanções dos EUA produziram um aumento maciço do sofrimento na Venezuela.

5

A política dos EUA em relação à Venezuela não é motivada por uma preocupação com a democracia, os direitos humanos ou o humanitarismo. Washington há muito tempo apóia regimes com históricos políticos e de direitos humanos que são frequentemente muito piores do que o governo de Maduro, incluindo a Arábia Saudita, a Colômbia (onde ser um organizador muitas vezes é uma sentença de morte), Brasil, Honduras e Haiti. Vários desses países realizaram recentemente eleições profundamente fraudulentas ou abertamente fraudulentas que são, no entanto, reconhecidas pelos EUA. A falta de preocupação real de Washington sobre o sofrimento dos venezuelanos também é patentemente óbvia: de que outra forma interpretar a disposição dos funcionários de Trump de brincar sobre o impacto debilitante das sanções, por exemplo, comparando-o com o aperto mortal de Darth Vader? Ou considere a recente decisão dos EUA de encerrar todos os vôos para a Venezuela, que até mesmo o New York Times observa que pode aprofundar significativamente o nível já catastrófico de sofrimento humano.

6

Além de ser imoral, ilegal e hipócrita, o apoio aberto dos EUA à mudança de regime tem sido extremamente ineficaz. Apesar de quase quatro meses de agressão aos EUA, Maduro continua no cargo, aparentemente com sólido apoio dos escalões superiores dos militares e do Estado. As ações dos EUA também parecem ter solidificado o apoio de Maduro entre os setores populares da Venezuela: segundo os organizadores chavistas de base, havia crescente mobilização do setor popular contra Maduro no início de janeiro de 2019, mas desde a auto-proclamação de Juan Guaidó como presidente em 23 de janeiro, líderes chavistas se uniram em torno de Maduro, apesar de suas ferozes críticas (e até repugnância) à sua liderança.

7

Os EUA têm repetidamente solapado tentativas de resolver a crise da Venezuela de maneira pacífica, por meio de negociações com a oposição do governo. Ao fazê-lo, Washington aumentou as chances de que a crise seja resolvida por meio da violência.

8

As ações de Juan Guaidó tornaram a situação na Venezuela mais perigosa sob vários aspectos: aumentando a probabilidade de ação militar dos EUA, que ele solicitou abertamente; enfraquecendo os setores moderados da oposição mais abertos a negociações e ao diálogo; casando a oposição com os EUA, o que reduz a possibilidade de que a oposição delineie medidas positivas para reverter a crise da Venezuela e possa apelar mais diretamente aos setores populares críticos a Maduro, mas cautelosos com a oposição e os EUA; não condenando a perigosa vingança de seus simpatizantes mais próximos, como seu "embaixador nos EUA" Carlos Vecchio, que proclamou que estava cortando a eletricidade da embaixada venezuelana em Washington DC para dar aos ativistas do "Colectivo de Protección de la Embajada" um pouco da experiência de morar na Venezuela ”; e não condenando a violência recente da oposição, como o saque e incêndio criminoso da "sede da Comuna Indio Caricuao, no sudoeste de Caracas", que aconteceu após a tentativa desesperada e cômica de 30 de abril.

9

A popularidade de Juan Guaidó na Venezuela parece ter caído, mas evidências disponíveis sugerem que ele continua popular e desfruta de algum apoio do setor popular. Para alguns, e particularmente para os setores populares, o apoio a Guaidó provavelmente está relacionado mais à sua estatura de opositor mais proeminente de Maduro do que ao apoio às políticas pró-mercado de extrema-direita de Guaidó.

10

Pessoas razoáveis podem discordar sobre a adequação e a eficácia tática de criticar abertamente (ou apoiar) Maduro, mas não deve haver debate sobre a necessidade urgente de que os estadunidenses se oponham a sanções e ameaças de guerra sob todas as formas, incluindo: pressionar representantes e senadores a apoiar ou co-patrocinar a HR 1004 e a SJ Res. 11, Prohibiting Unauthorized Military Action in Venezuela Act; pressionar os democratas progressistas a tomar uma posição mais firme contra o intervencionismo dos EUA; opor-se aos esforços de Guaidó e seus associados para anular as esperanças de negociações, assumindo ilegalmente postos diplomáticos venezuelanos; e marchar e se engajar em outras ações de protesto para se opor à guerra e às sanções dos EUA.

11

Tentativas de encerrar o debate sobre a Venezuela ou de apoiar (ou se opor) a Maduro, como uma prova de fogo para se opor ao intervencionismo dos EUA, devem ser combatidas por três razões. Primeiro, por princípio. A esquerda deve defender o debate aberto e o respeito pelas diferenças de opinião. Em segundo lugar, por razões substantivas. A Revolução Bolivariana inclui um rico conjunto de lições positivas e negativas do que a esquerda deveria e não deveria fazer. Algumas dessas lições são óbvias: políticas que reduzem a pobreza e a desigualdade e empoderam a maioria podem ser politicamente muito populares e devem ser apoiadas; interesses nacionais e estrangeiros poderosos se oporão a tais políticas, e a esquerda deve pensar sobre como lidar com isso. Outras lições são menos óbvias: como podemos evitar os erros que assombraram revoluções passadas, incluindo políticas econômicas disfuncionais, um afastamento das bases, do poder popular e a burocracia e a corrupção dentro do Estado? E como fazemos isso ao mesmo tempo em que nos defendemos das agressões externas e domésticas? Descobrir as respostas para essas e outras questões urgentes é crucial. A única maneira de fazer isso é através do debate honesto e aberto. Finalmente, há a questão da estratégia. Gostemos ou não, o movimento de solidariedade venezuelana e antiimperialista mais amplo inclui pessoas e grupos com uma série de pontos de vista sobre Maduro e a Venezuela. Insistir que todos compartilhem da mesma perspectiva é uma receita para manter o movimento pequeno e irrelevante. Fazer isso também é uma má política: podemos e devemos evitar o sectarismo sem renunciar a princípios fundamentais como o igualitarismo, o antiimperialismo, o anti-racismo, o feminismo e um compromisso compartilhado para construir um mundo inclusivo, profundamente democrático, não-capitalista e ecologicamente sustentável.

Sobre o autor

Gabriel Hetland ensina na Universidade de Albany e escreveu sobre política venezuelana para a Nation, NACLA, Qualitative Sociology, e Latin American Perspectives.

A economia espera sentada

Não adianta achar que o empresário vai investir com base em elemento místico de confiança

Laura Carvalho

Folha de S.Paulo

Diego Padgurschi/Folhapress

A queda brutal das projeções de crescimento e as evidências de uma nova recessão no primeiro trimestre de 2019 trouxeram à tona o círculo vicioso causado pela insuficiência de demanda na economia brasileira.

As vendas fracas geram capacidade ociosa nas empresas e desestimulam, assim, investimentos em novas máquinas e unidades, o que, por sua vez, impede a expansão do produto e da renda das famílias e trava a retomada do consumo e das próprias vendas...

Para agravar o quadro, empresas e famílias endividaram-se ao longo dos anos de crescimento que precederam a crise, gerando o fenômeno que o economista Richard Koo convencionou chamar de "recessão de balanço".

Nesse tipo de crise, prevalece uma falácia da composição: consumidores e firmas cortam seus gastos visando reduzir suas dívidas passadas e tornar seus balanços mais saudáveis, mas acabam com isso causando um efeito agregado de redução do produto, da renda e do emprego, o que contribui para fragilizar ainda mais a sua situação financeira inicial.

Reativar uma economia que se encontra em tal cenário não é nada fácil. De pouco adianta, por exemplo, tentar estimular o crédito, pois empresários e famílias não estão interessados em tomar mais empréstimos: ao contrário, estão buscando saldar as dívidas existentes.

Já a queda da taxa de juros pode até contribuir para reduzir as despesas financeiras com as dívidas acumuladas, diminuindo um pouco a necessidade de cortar gastos com consumo e investimento, mas não é capaz por si só de estimular uma retomada.

Na realidade, os juros têm conhecido efeito assimétrico: embora o aumento do custo do crédito possa atuar para desaquecer uma economia em expansão, reduzindo os incentivos ao consumo e ao investimento, sua queda não é capaz de convencer famílias e empresas a gastar mais em um cenário de crise.

Tal assimetria tornou-se conhecida pela metáfora utilizada por um diretor do banco central americano durante a Grande Depressão dos anos 1930: não se pode empurrar uma corda ("you cannot push a string").

A única forma de quebrar o atual círculo vicioso é a expansão de algum componente autônomo da demanda. E, ao contrário do que se imagina, a recuperação dos investimentos das empresas nunca vem primeiro, pois não é autônoma, é induzida pelo grau de utilização da capacidade existente e pelas próprias expectativas de crescimento das vendas.

Ou seja, não adianta achar que os empresários vão investir em novos equipamentos com base em algum elemento místico de confiança enquanto houver capacidade ociosa: só vai haver estímulo ao investimento se as empresas se depararem com uma evidência concreta de aceleração das vendas de seus produtos.

As exportações poderiam ser esse motor, mas a desaceleração global em meio à escalada da guerra comercial entre EUA e China não ajuda. Já o caminho das concessões para o investimento privado em infraestrutura foi tentado, com pouquíssimo sucesso, pelos governos Dilma e Temer: parece haver pouco interesse dos investidores estrangeiros em investimentos de longo prazo com retorno incerto em meio à estagnação.

Só resta, portanto, a política fiscal. O retorno do investimento público direto em infraestrutura ao patamar pré-crise teria alto poder de estímulo, mesmo que fosse inteiramente coberto pela eliminação de desonerações, subsídios e outras despesas com multiplicador mais baixo sobre a geração de empregos e renda e/ou pela alta de impostos sobre a renda dos mais ricos. Ou seja, a economia brasileira, pelo visto, vai continuar esperando sentada.

Sobre a autora

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

22 de maio de 2019

Ciclo vicioso: O Pentágono cria gigantes tecnológicos e depois compra os seus serviços

T.J. Coles

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Fonte: DoD, foto do Primeiro Sargento Ken Hammond, Força aérea dos EUA. Domínio público.

O orçamento inflacionado do Departamento de Defesa dos EUA, juntamente com o capital de risco da CIA, ajudou a criar gigantes da tecnologia, incluindo a Amazon, a Apple, o Facebook, o Google e o PayPal. O governo, então, contrata essas empresas para ajudar as suas operações militares e de inteligência. Ao fazê-lo, torna os gigantes da tecnologia ainda maiores.

Nos últimos anos, as tradicionais empresas bancárias, de energia e industriais da Fortune 500 vêm perdendo terreno para gigantes da tecnologia como a Apple e o Facebook. Mas a tecnologia da qual eles dependem surgiu da investigação e do desenvolvimento financiados pelos contribuintes em décadas anteriores. A internet começou como ARPANET, uma invenção da Honeywell-Raytheon, que trabalhava com um contrato do Departamento de Defesa (DoD). Os mesmos satélites que permitem as comunicações modernas pela internet também permitem que os jatos dos EUA bombardeiem os seus inimigos, assim como o GPS, que permite que os retalhistas online forneçam produtos com alta precisão. A tecnologia touchscreen da Apple foi criada como uma ferramenta da Força Aérea dos EUA. Os mesmos drones que gravam vídeos de tirar o fôlego são versões modificadas de Reapers e Predators.

A investigação do DoD, financiada por impostos, é a espinha dorsal da economia moderna e de alta tecnologia. Mas essas tecnologias são de uso duplo. As empresas que muitos de nós tomamos como garantidas – incluindo a Amazon, a Apple, o Facebook, o Google, a Microsoft e o PayPal – estão conectadas indiretamente, e às vezes muito diretamente, com o complexo militar e de inteligência dos EUA.

Um relatório recente da Open the Government, uma organização bipartidária defensora da transparência, revela a extensão dos contratos da Amazon com o Pentágono. Fundada em 1994 por Jeff Bezos, a empresa é agora avaliada em US $ 1 trilhão, dando a Bezos uma fortuna pessoal de US $ 131 000 milhões. Quem abrir o relatório da Open the Government observa que grande parte do governação dos EUA “agora, é executada na Amazon”, tanto que a gigante da tecnologia vai abrir uma filial perto de Washington, DC. Os serviços fornecidos pela Amazon incluem contratos na nuvem, inteligência artificial e sistemas de dados biométricos. Mas, mais do que isso, a Amazon está pronta para realizar um lucrativo contrato de TI [Tecnologia da Informação] do Pentágono com o programa Joint Enterprise Defense Infrastructure, de US $ 10 000 milhões, ou JEDI. O Pentágono diz que espera que a tecnologia da Amazon “apoie a letalidade e melhore da eficiência operacional”.

O relatório revela o que pode, mas muita coisa está afastada do escrutínio público, sob os véus gêmeos da segurança nacional e do sigilo corporativo. Por exemplo, foi pedido a todas as possíveis cidades que viessem a albergar a segunda sede da Amazon que assinassem contratos de confidencialidade.

Mas isto não termina aqui. De acordo com o relatório, a Amazon forneceu software de vigilância e de reconhecimento facial ao Departamento de Segurança Interna e lançou a culpa da alegadamente imprecisa e preconceituosa tecnologia, quanto à raça e ao género, ao Departamento de Segurança Interna para as suas operações de contraimigração. Dez por cento dos lucros da subsidiária da Amazon Web Services respeitam a contratos com o Governo. Os Departamentos incluem o Departamento de Estado, a NASA, a Administração da Alimentação e Medicamentos e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Em 2013, a Amazon ganhou um contrato de US $ 600 milhões do Commercial Cloud Services (C2S) com a CIA. O C2S permitirá a inteligência artificial profunda e dados sobre impressões digitais. A segunda sede da Amazon será construída na Virgínia, o estado natal da CIA. Apesar dos repetidos pedidos, a empresa recusa-se a divulgar de que forma os seus dispositivos pessoais, como o Amazon Echo, se conectam com a CIA.

Mas a Amazon é apenas a ponta do iceberg.

Dez por cento dos lucros da subsidiária da Amazon Web Services respeitam a contratos com o Governo. Os Departamentos incluem o Departamento de Estado, a NASA, a Administração da Alimentação e Medicamentos e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Em 2013, a Amazon ganhou um contrato de US $ 600 milhões do Commercial Cloud Services (C2S) com a CIA. O C2S permitirá a inteligência artificial profunda e dados sobre impressões digitais. A segunda sede da Amazon será construída na Virgínia, o estado natal da CIA. Apesar dos repetidos pedidos, a empresa recusa-se a divulgar de que forma os seus dispositivos pessoais, como o Amazon Echo, se conectam com a CIA.

Mas a Amazon é apenas a ponta do iceberg.

De acordo com um artigo de investigação completo: em meados dos anos 90, os futuros fundadores da Google, Larry Page e Sergey Brin, usaram indiretamente o Pentágono e outros fundos do governo para desenvolver rastreadores da Web e aplicações de classificação de páginas. Na mesma época, a CIA, agência de Inteligência e de Segurança Nacional – sob os auspícios da National Science Foundation – financiou o programa Massive Data Digital Systems [Sistemas de dados digitais em massa] (MDDS). Uma publicação de Sergey Brin reconhece que recebeu financiamento do programa MDDS. Segundo o professor Bhavani Thuraisingham, que trabalhou no projeto, “A comunidade de inteligência… trabalhou essencialmente para o capital-semente [1] de Brin, que foi complementado por muitas outras fontes, incluindo o setor privado”. A parte do Query Flocks do sistema patenteado PageRank, do Google, foi desenvolvida como parte do programa MDDS. Dois empresários, Andreas Bechtolsheim (criador da Sun Microsystems) e David Cheriton, que já haviam recebido dinheiro do Pentágono, tinham sido anteriormente investidores no Google.

Tal como Bezos, os dois empresários, Brin and Page tornaram-se bilionários.

O Project Maven do Pentágono (ou Equipe Multifuncional de Guerra Algorítmica) foi lançado em 2017, como uma forma de aplicação de inteligência artificial para ajudar drones a diferenciar humanos de objetos. A tecnologia e o pessoal foram fornecidos pelo Google, muitos dos quais desistiram em protesto depois de ter sido revelado que o projeto tinha como alvos iraquianos e sírios.

Em 1999, a CIA criou uma empresa de capital de risco, a Peleus; mais tarde In-Q-Tel. Uma das empresas da In-Q-Tel foi a empresa de mapeamento Keyhole, comprada pelo Google em meados dos anos 2000 e desenvolvida no Google Earth. Em poucos anos, os militares estavam a usar o Google Earth para atacar locais no Afeganistão. Em 2005, a In-Q-Tel investiu US $ 2,2 milhões no Google. Em 2010, a CIA e o Google investiram na Recorded Futures, uma empresa de rastreamento dos média sociais.

Outro bilionário, Peter Thiel, criou o PayPal e o Palantir. Com US $ 2 milhões de investimento da In-Q-Tel, Palantir foi lançado em 2004 e forneceu análise de dados para a CIA, no Afeganistão e no Iraque. Recentemente, foi testado em Nova Orleães como parte do programa de “policiamento preventivo” da polícia local. A Palantir cria redes digitais de cidadãos, cujos dados pessoais são obtidos de várias fontes. As teias de Palantir mostram imagens policiais de possíveis supostos futuros suspeitos, juntamente com legendas como “Colega de…”, “Vive com…”, “Dono de…”, “Irmão de…” e “Amante de…”. O Palantir também é usado pelas autoridades de imigração dos EUA. Apesar de todas as acusações de interferência russa nas eleições dos EUA e no referendo do Brexit, no Reino Unido, os grandes média ocidentais subestimaram o papel dos funcionários da Palantir, que trabalharam com o Facebook para criar perfis psicográficos de potenciais eleitores.

Estes e outros exemplos mostram que, além de tentar formatar o mundo no interesse das elites americanas, a intenção seguinte do Pentágono é financiar a indústria de alta tecnologia para estimular novas economias. Essa mesma alta tecnologia, que existe num chamado sistema de “livre empresa”, não só cria monopólios, como o faz com dinheiro do contribuinte. Espionado e manipulado pelas tecnologias que financia, o público, como consumidor, paga pelos serviços prestados por esses gigantes da tecnologia. Podemos falar num ciclo vicioso...

João Cândido, um brasileiro

Saiu da Baixada para morrer no Hospital Getúlio Vargas Flávia Oliveira O Globo Há 50 anos, morria João Cândido Felisberto. Ele foi...