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7 de julho de 2026

Nos bastidores da OTAN, a Europa está se desintegrando

Os maiores perigos estão dentro de nós.

David Broder
David Broder is an expert on European politics and the author of “Mussolini’s Grandchildren.” He wrote from Berlin.

The New York Times

Debora Szpilman

“Europeus, avante!”

Esse foi o grito de guerra de Kaja Kallas, chefe de política externa da União Europeia, na Conferência de Segurança de Munique deste ano. “Estamos chegando lá: tirando a poeira de nossas capas, calçando nossas botas e acelerando nossos motores”, disse ela à plateia. Ao retratar a União Europeia como um grupo de super-heróis, Kallas citou uma frase frequentemente atribuída erroneamente aos filmes do “Homem de Ferro”: “Heróis são feitos pelos caminhos que escolhem, não pelos poderes que lhes foram concedidos”. Mais gastos militares e um esforço pela soberania tecnológica, afirmou Kallas, fortaleceriam a determinação da Europa em um mundo cada vez mais hostil.

Suas palavras ecoaram as declarações, já habituais, sobre o “momento de independência” da União Europeia. Incomodados com a postura de confronto do presidente Trump, os líderes do continente buscam caminhar com as próprias pernas. Para o chanceler alemão Friedrich Merz, a Europa “precisa se tornar muito mais independente dos Estados Unidos em termos de política de segurança”. O presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a redução da dependência (“derisking”) da Europa em relação a todas as grandes potências, visando maior autonomia. Líderes europeus agora falam abertamente em traçar seu próprio rumo, defendendo o aumento da produção europeia de semicondutores, fontes de energia locais e até mesmo uma capacidade conjunta de dissuasão nuclear. Na cúpula da OTAN desta semana em Ancara, na Turquia, espera-se ouvir muito mais sobre a necessidade urgente de autossuficiência europeia.

No entanto, apesar de toda a discussão sobre a União Europeia se proteger de ameaças externas, os maiores perigos residem em seu interior. Há uma década, o referendo do Brexit no Reino Unido gerou temores de que o bloco se fragmentasse ainda mais. Isso não se concretizou. Hoje, porém, o bloco enfrenta profundas divisões internas. Tanto na Alemanha quanto na França — os maiores e historicamente mais importantes Estados da União —, partidos de extrema-direita estão mais próximos do poder do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial. O problema não para por aí. Em todo o continente — seja na Holanda ou na Dinamarca, na República Tcheca ou na Bulgária —, partidos que por muito tempo estiveram no centro da política europeia perderam eleitorados antes fiéis, à medida que eleitores frustrados se voltam para alternativas heterogêneas. A norma é a turbulência, não a tranquilidade.

O resultado é um paradoxo. Em nível continental, a Europa se une, com líderes exaltando a crescente resiliência do bloco. No entanto, em nível dos Estados-membros, a Europa se fragmenta à medida que a política interna se torna cada vez mais volátil. Isso ameaça mergulhar o continente no caos, prejudicando a busca da União Europeia por independência e expondo-a às investidas da extrema-direita.

Para o historiador econômico Adam Tooze, vivemos uma era de "policrise" — um acúmulo de desastres cujo impacto conjunto é pior do que a soma de suas partes. Na Europa, os efeitos persistentes da crise econômica de 2008, somados à pandemia e aos conflitos armados crônicos da atualidade, alimentam a sensação generalizada de que as coisas estão saindo dos trilhos. Os preços sobem, os salários estagnam e serviços públicos sobrecarregados precisam lidar com o envelhecimento da população e o aumento das temperaturas. Nesse cenário sombrio, a principal questão política é se os governos conseguem ir além de apenas "apagar incêndios" para transmitir segurança aos cidadãos.

A resposta da União Europeia à pandemia sugeriu que isso é possível. Após a crise financeira, os líderes europeus haviam imposto um regime rigoroso de cortes orçamentários, a um custo social e econômico elevado. Com a disseminação dos lockdowns em 2020, ficou claro que os líderes europeus não poderiam simplesmente exigir mais sacrifícios e austeridade. Em vez disso, o bloco rompeu o tabu do endividamento coletivo e destinou mais de 800 bilhões de euros — entre subsídios e empréstimos — ao programa NextGenerationEU.

Esses gastos visavam não apenas sustentar a renda, mas também fortalecer a resiliência. A maior parte dos investimentos foi direcionada à reindustrialização verde ou à digitalização. Tratava-se de apoio estatal a empresas privadas, e não de um plano de investimento público propriamente dito, mas a iniciativa marcou um rompimento com os dogmas de austeridade da década anterior. Essa mudança impactou, sobretudo, a margem de manobra fiscal dos Estados, uma vez que as regras de déficit — frequentemente aplicadas de forma seletiva e punitiva durante a crise da dívida — foram flexibilizadas.

A Espanha e a Itália, os dois países que receberam mais recursos, demonstram o que foi possível alcançar. A coalizão de esquerda liderada por Pedro Sánchez, em Madri, e o governo de direita de Giorgia Meloni, em Roma, representam orientações políticas opostas. No entanto, compartilham um denominador comum: ambos utilizaram os fundos da UE destinados ao pós-pandemia para gerar crescimento, conter a dívida pública e evitar crises políticas. Embora hoje esses líderes dividam opiniões, durante anos conseguiram manter índices de aprovação mais elevados do que a maioria de seus homólogos na UE. A Espanha obteve resultados particularmente bons na redução das contas de eletricidade e na expansão do uso de energias renováveis; a Itália ampliou sua infraestrutura ferroviária de alta velocidade.

Contudo, o alcance desses recursos teve limites. Muitas vezes, o dinheiro serviu apenas para cobrir lacunas orçamentárias, e diversos projetos de infraestrutura iniciados enfrentam atrasos ou estouros de orçamento. Em 2019, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou o Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal) como o pilar essencial para a prosperidade de longo prazo da União. No entanto, confrontado tanto pela resistência persistente de partidos céticos em relação às mudanças climáticas quanto pela pressão para ampliar a produção militar, o bloco acabou por flexibilizar suas metas, incluindo a eliminação gradual planejada dos carros movidos a gasolina. Essa postura alinhou-se à lógica dos fundos pós-pandemia, que resultaram em um progresso intermitente na diversificação das fontes de energia.

A invasão da Ucrânia pela Rússia representou um ponto de virada crucial — e mais uma oportunidade perdida. Em resposta, a União Europeia cortou laços econômicos com Moscou e buscou substituir totalmente o gás russo. Inicialmente, os líderes europeus prometeram que essa medida aceleraria a transição ecológica e levaria a uma maior independência energética. Na prática, porém, recorreram a soluções de curto prazo, como o aumento expressivo do fornecimento de gás pelos Estados Unidos; alguns países chegaram até a defender a manutenção da parceria com a Rússia. A Alemanha desativou seus reatores nucleares, enquanto outros países, como a França, seguiram o caminho oposto.

A guerra teve outro efeito negativo. Enquanto os países da UE hesitavam quanto à ajuda à Ucrânia, o rearmamento ganhou força própria. Em todo o continente, o aumento dos gastos militares tornou-se um consenso. Essa mudança é particularmente visível na Alemanha, onde, após as eleições de 2025, os principais partidos suspenderam os limites de gastos públicos — mas apenas para fins militares e de infraestrutura correlata. Em nível europeu, a defesa começou a ganhar mais destaque do que o Pacto Ecológico como principal objetivo para a captação conjunta de recursos. Programas como o ReArmEurope e o SAFE são agora o foco.

Seria isso uma forma de keynesianismo militar? Afinal, os € 150 bilhões em empréstimos do SAFE destinam-se a estimular a reindustrialização e criar empregos, em vez de apenas financiar a compra de armamentos. No entanto, os primeiros indícios pouco sustentam essas expectativas. Além disso, alguns países têm demonstrado relutância em aderir ao programa. A Polônia, maior beneficiária do SAFE, vive um impasse sobre se deve concentrar seu orçamento militar na produção europeia ou em seus atuais fornecedores dos EUA e da Coreia do Sul. Em Roma, a premiê Meloni começou a recuar em relação aos € 15 bilhões em empréstimos do SAFE previstos, alegando que a necessidade mais urgente da Itália é de ajuda para arcar com os custos de energia.

As consequências são claras. Após não conseguirem transformar os fundos do pós-pandemia em independência energética de longo prazo e em uma renovação econômica sustentável, os líderes europeus apresentaram a remilitarização como a causa unificadora e a estratégia fundamental do bloco. No entanto, ao contrário de um plano robusto de reindustrialização verde, essa medida não gera empregos em massa nem mitiga os choques de preços que tanto preocupam os cidadãos europeus. Além disso, os eleitores frustrados não parecem recompensar a postura de seus líderes como defensores da segurança. Pelo contrário: um número crescente de pessoas mostra-se cínico e alienado — e cada vez mais atraído pela extrema-direita.

Por trás de tudo isso está Donald Trump. Seus ataques à União Europeia — que sua administração menosprezou, alegando que o bloco estava à beira de um "apagamento civilizacional" — e seu apoio a partidos nativistas foram um grande catalisador para a busca pela independência europeia. Contudo, a autonomia europeia muitas vezes parece apenas um apelo para que os Estados-membros cumpram melhor a sua parte na aliança transatlântica. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte — ex-primeiro-ministro holandês —, parece convencido de que o principal dever dos europeus é manter o interesse dos EUA na aliança, mesmo que isso signifique apenas comprar armas americanas.

De forma curiosa, a hostilidade de Trump empurrou os líderes europeus para uma dependência ainda mais subserviente. Basta considerar o acordo comercial que Ursula von der Leyen firmou em julho passado, ostensivamente para garantir o compromisso contínuo de Trump com a defesa europeia. Mesmo enquanto alardeavam sua determinação de seguir seu próprio caminho, os líderes europeus aceitaram um acordo desigual, no qual se comprometeram a comprar mais gás americano, absorver tarifas e eliminar taxas sobre importações dos EUA. Após Trump ameaçar comprar a Groenlândia, o acordo foi suspenso. No entanto, em maio, o Parlamento Europeu votou a favor de dar continuidade a ele.

O episódio demonstra que, independentemente da antipatia em relação a Trump na Europa, são os Estados Unidos que dão as cartas. Afinal, os membros europeus da OTAN que se comprometeram a destinar 5% do Produto Interno Bruto (PIB) para gastos com defesa o fizeram a pedido do próprio Trump. E gastos não são tudo. Para líderes de países como a Polônia, Washington continua sendo um aliado central, especialmente diante da política imprevisível de potências europeias como França e Alemanha. O continente também permanece fortemente dependente de empresas de tecnologia, energia e sistemas de pagamento americanos. Sob essa ótica, a autonomia europeia equivale a uma renegociação do papel da Europa como parceira secundária dos Estados Unidos. Adaptando a famosa frase de Lord Ismay, que chefiou a OTAN na década de 1950, trata-se de manter os russos fora e os americanos dentro — sem se preocupar excessivamente com os rumos da Alemanha. Essa abordagem norteia fortemente a diplomacia europeia: o objetivo, acima de tudo, é não indispor-se com o Sr. Trump, mesmo que isso signifique silenciar críticas à sua postura agressiva no Caribe e no Oriente Médio.

Existe, no entanto, outra maneira. Essa versão de autossuficiência transformaria a Europa em um pilar do sistema global, servindo de exemplo para o mundo em questões de direito internacional e na transição verde. Tais iniciativas dificilmente seriam desinteressadas. Embora a Europa não consiga reduzir drasticamente as emissões globais sozinha, livrar-se da dependência de combustíveis fósseis a ajudaria a evitar choques futuros decorrentes de crises como o fechamento do Estreito de Ormuz. Além disso, as recentes sanções do governo Trump contra membros do Tribunal Penal Internacional demonstram que defender o Estado de Direito é, antes de tudo, necessário para proteger os cidadãos europeus de hostilidades.

Para caminhar com as próprias pernas, a Europa precisaria ampliar suas alianças. Nesse aspecto, houve algum progresso: a União Europeia fechou recentemente acordos comerciais com países da América Latina e com a Índia. Contudo, sua abordagem em relação à China continua sendo um problema persistente. Em maio, a Sra. Kallas falou sobre a necessidade de "morfina" ou "quimioterapia" para tratar a "doença" da dependência excessiva da China. Alguns líderes, notadamente o Sr. Sánchez, da Espanha, têm defendido uma postura mais pragmática, focada na transferência de tecnologia e em condicionantes para investimentos estrangeiros. Aliada a investimentos em áreas onde a Europa já é forte — como a produção de turbinas eólicas, tecnologias de hidrogênio limpo e bioenergia —, essa estratégia poderia ser a receita para uma renovação econômica.

Não se trata apenas de questões geopolíticas. Um caminho real para a independência contribuiria muito para unir o continente, tanto em nível nacional quanto federal, e para recompor seu contrato social desgastado. Para Bruxelas, isso significaria energia mais barata, melhores perspectivas econômicas e maior estabilidade. Não existe solução mágica: mesmo que a Europa conseguisse reduzir as contas de energia, criar empregos ou controlar a inflação, isso não faria desaparecer, da noite para o dia, os conflitos em torno de imigração e identidade. Ainda assim, poderia aumentar a confiança dos eleitores no processo democrático e ajudar a atenuar parte de sua indignação.

Uma cúpula da OTAN não é o cenário ideal para concretizar as aspirações de independência europeia. Afinal, a organização é uma aliança que inclui os Estados Unidos. Há questões complexas a serem respondidas sobre a produção militar continental, a cooperação em defesa e até mesmo a criação de um exército europeu. Ainda assim, em benefício de seus próprios cidadãos, a União Europeia precisa fazer mais do que apenas atender às expectativas de Washington. Finalmente livre da sombra dos Estados Unidos, a Europa pode proteger os fundamentos de sua economia e começar a reconquistar eleitores tentados pelo canto da sereia do nacionalismo.

Os ministros europeus não usam capas, como sugeriu a Sra. Kallas. No entanto, ela tinha razão em um aspecto. A Europa pode não ser dotada de poderes avassaladores, mas pode escolher um caminho melhor. Não é tarde demais para fazer exatamente isso.

David Broder (@broderly) é o autor, mais recentemente, de “Mussolini’s Grandchildren: Fascism in Contemporary Italy”.

3 de dezembro de 2025

Eles deveriam salvar a Europa. Em vez disso, estão condenando-a a horrores.

Governos centristas estão falhando gravemente nas principais economias da Europa, preparando o cenário para uma ascensão da extrema-direita.

David Broder
David Broder é especialista em política europeia e autor de “Os Netos de Mussolini”. Ele escreveu de Berlim.

The New York Times


Ilustração de Alvaro Dominguez/The New York Times

Há cerca de uma década, uma onda de populismo varreu a Europa. Abalados pela crise financeira, os eleitores flertaram com alternativas arriscadas aos partidos tradicionais, ameaçando tumultos na política geralmente estável do continente. Foi um período inquietante para os líderes europeus. Mas os especialistas garantiram-lhes que o risco de uma tomada de poder pela extrema-direita era exagerado. Sistemas eleitorais robustos, memórias não tão distantes de ditaduras e o fraco apoio entre os eleitores mais ricos, acreditavam eles, impunham limites rígidos ao apoio dos insurgentes.

Hoje, está claro que essa confiança era equivocada. Os partidos de extrema-direita continuaram acumulando votos, consolidaram-se nas instituições europeias, reverteram princípios fundamentais da transição verde e impuseram políticas fronteiriças mais rígidas. Eles governam na Hungria e na Itália e em breve governarão na República Tcheca; mesmo na Finlândia e na Suécia, países historicamente social-democratas, os líderes conservadores contam com o seu apoio. Eles têm um apoiador no Salão Oval e outro no topo da Casa Branca.

O pior ainda pode estar por vir. Nas principais economias da Europa, governos centristas estão fracassando miseravelmente. Na França, o governo do presidente Emmanuel Macron está em queda livre, enquanto a Reunião Nacional de Marine Le Pen domina as pesquisas. Na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz parece incapaz de afastar os eleitores do partido nativista Alternativa para a Alemanha (AfD), mesmo que o serviço de inteligência do país o tenha classificado como uma ameaça extremista. Na Grã-Bretanha, o primeiro-ministro Keir Starmer está afundando quase tão rápido quanto o partido anti-imigração Reform UK está em ascensão. O cenário está armado para uma onda de extrema-direita.

Não precisa ser assim. Em outras partes da Europa, governos pluralistas e moderados mostraram que é possível derrotar a extrema-direita — não apenas denunciando o perigo populista, mas também convencendo os eleitores de um projeto claro para o futuro. A extrema-direita atrai os alienados; ela prospera quando seus oponentes naturais perdem a esperança e param de votar. Para derrotá-la, os governos precisam construir consenso em torno de uma democracia mais forte, mais verde e mais segura, capaz de inspirar seus próprios apoiadores e reconquistar os desiludidos.

Felizmente, isso ainda é possível. Líderes centristas em Paris, Berlim e Londres insistem que a ascensão da extrema direita não é inevitável. Aliás, costumam dizer que impedi-la é uma de suas principais missões. O problema: estão falhando.

“Farei tudo para garantir que vocês nunca mais tenham motivos para votar em extremistas”, disse Macron.

Era maio de 2017 e a França acabara de elegê-lo presidente pela primeira vez. Discursando em frente ao Louvre, ele fez uma promessa aos eleitores de Marine Le Pen, insistindo que poderia sanar suas inseguranças. Nos meses seguintes, ele frequentemente alardeou seu plano para minar o apoio à Reunião Nacional. O plano se concentrava em uma reformulação econômica, transformando a França no que ele chamava de uma “nação startup” dinâmica.

Desde o início, essa era uma missão divina. Como um presidente de status elevado, acima da política comum, Macron prometeu aos franceses sofrimento agora em troca de recompensas amanhã. Muitos poderiam criticar suas políticas, desde cortes de impostos para os mais ricos até o aumento da idade de aposentadoria. Poderiam até se chocar com a repressão policial excessiva aos protestos. Mas, eventualmente, ele parecia acreditar, eles colheriam os frutos econômicos e o agradeceriam.

Não foi o que aconteceu. Em 2022, os eleitores lhe tiraram a maioria. Macron respondeu contornando o Parlamento para aprovar sua reforma da previdência e, em 2024, convocou eleições parlamentares antecipadas. Em vez de lhe conceder um mandato, os franceses o rejeitaram, resultando em um legislativo paralisado e incapaz de governar de forma estável. A França já teve cinco primeiros-ministros em dois anos. Macron pode conseguir chegar ao fim de seu mandato em 2027, mas Le Pen e a Reunião Nacional estão à espreita.

Se Macron é excessivamente enérgico a partir de uma posição de fraqueza, Starmer é excessivamente cauteloso a partir de uma posição de força. Apesar de seu Partido Trabalhista ter conquistado uma expressiva maioria parlamentar no ano passado, governou com notável timidez. Seu mantra para uma gestão econômica astuta — conter os gastos hoje e esperar crescimento amanhã — não inspirou os eleitores, e sua aura inicial de prudência administrativa se dissipou. Os cortes nos gastos com aposentados e pessoas com deficiência se mostraram tão impopulares que tiveram que ser abandonados, deixando o governo em desordem.

Não ajuda o fato de Starmer ter combinado essa falta de propósito com uma tendência repressiva. Depois de disciplinar duramente parlamentares trabalhistas por causa de votações sobre bem-estar social, ele reprimiu manifestações pró-Palestina, designando de forma absurda a organização ativista Palestine Action como um grupo terrorista. Repetidos protestos em massa contra a proibição, com imagens de senhoras idosas sendo levadas pela polícia, transformaram a liberdade de expressão em uma ferida aberta para ele.

Isso contrasta fortemente com a falha do governo em enfrentar o desafio representado pelo Reform UK e seu líder exuberante, Nigel Farage. Starmer oscilou erraticamente entre refletir sobre os perigos que a imigração representa para a coesão nacional — em uma linguagem da qual ele disse posteriormente se arrepender — e chamar as políticas do partido de racistas. Em todo esse tempo, ele falhou em combater a narrativa do Reform ou em tomar a iniciativa política em outro lugar. Não é de admirar que o apoio ao Partido Trabalhista tenha caído para apenas 18%, em comparação com os 30% do Reform.

Na Alemanha, o Sr. Merz — o mais recente dos três líderes — tem sido mais direto. Ele pode se orgulhar de uma grande inovação desde que venceu as eleições em fevereiro: a flexibilização dos limites de empréstimos governamentais para investimentos nas forças armadas. É cedo demais para avaliar os resultados, mas as apostas são altas. Os democratas-cristãos do Sr. Merz e seus parceiros de coalizão, os social-democratas, apostaram o futuro da Alemanha na remilitarização, não apenas para a defesa contra a Rússia, mas também como uma estratégia muito necessária para a revitalização industrial.

Até o momento, a estratégia não demonstra sinais de enfraquecer o crescente partido Alternativa para a Alemanha (AfD). Embora o partido tenha resistido à flexibilização dos limites de endividamento, ele também defende uma enorme expansão da indústria militar e das forças armadas — ainda que sob liderança alemã, e não europeia. O partido lamenta os planos da União Europeia para a reindustrialização verde, mas se mostra mais aberto à criação de empregos na indústria bélica.

Merz insiste que um governo bem-sucedido neutralizará o apelo do AfD. Mas o partido está se fortalecendo cada vez mais, atuando como a principal oposição e liderando regularmente as pesquisas de opinião pública. Parte de seu apoio provém de seu apelo para o corte do apoio militar alemão à Ucrânia. Contudo, sua capacidade de incorporar a principal pauta do chanceler, com a militarização como meio de tornar a Alemanha grande novamente, deveria fazer o chanceler refletir.

Esses governos são diferentes, é claro. Mas todos adotaram a antipatia de seus oponentes em relação à imigração. Na França, Macron — denunciando o “processo de descivilização” provocado pelos recém-chegados — contou com parlamentares da Reunião Nacional para limitar os direitos sociais dos imigrantes. Na Grã-Bretanha, Starmer pediu desculpas pelos “danos incalculáveis” causados ​​pela imigração em massa e introduziu mudanças drásticas nas regras de asilo. Na Alemanha, Merz aumentou as deportações e prometeu “realizar expulsões em larga escala”, retratando os imigrantes como um perigo para as mulheres.

Se a intenção era conquistar os eleitores descontentes com a imigração, não funcionou. Em vez de recompensar imitadores centristas pálidos, eles estão se voltando, cada vez mais, para a verdadeira imigração.

Ao que parece, não na Dinamarca.

Nas eleições europeias de 2014, o Partido Popular Dinamarquês, de orientação nacionalista, obteve quase 27% dos votos — um feito histórico que prenunciava um futuro promissor. No entanto, nas eleições equivalentes de 2024, o partido conquistou apenas 6%. Em uma década em que a extrema-direita ascendeu por toda a Europa, ela retrocedeu na Dinamarca. O que aconteceu?

Para alguns, a resposta parece clara: o governo de centro-esquerda, sob a liderança da primeira-ministra Mette Frederiksen, endureceu as regras de imigração. É verdade que ela, no poder desde 2019, adotou uma abordagem severa em relação ao assunto. Tratando os recém-chegados como residentes temporários, em vez de permanentes, para que se integrem, ela pressionou os sírios a deixarem a Dinamarca, cortou a oferta de moradias sociais em áreas com grandes populações minoritárias e assinou um acordo com Ruanda para processar os migrantes em território africano. Essa abordagem, dizem seus admiradores, rendeu frutos com sua reeleição em 2022.

Essa narrativa é, na melhor das hipóteses, unidimensional e, na pior, um mito. O primeiro governo de Frederiksen, que contou com o apoio da esquerda e de um partido liberal, destacou-se não apenas por sua postura rigorosa em relação à imigração, mas também por seu ambicioso programa de reindustrialização verde. Planejou investimentos enormes em energias renováveis, estabeleceu metas avançadas internacionalmente para a redução de emissões e — o único entre os grandes produtores de petróleo — definiu uma data legalmente vinculativa para interromper a perfuração.

O governo insistiu que a transição para empregos verdes não era o fim da prosperidade dinamarquesa, mas sim o meio necessário para alcançá-la — e apoiou essa afirmação com financiamento. O intervencionismo econômico, aliado a uma narrativa convincente sobre o enfrentamento de um desafio que definiria uma era, trouxe sucesso eleitoral. Hoje, as maiores preocupações dos dinamarqueses são as mudanças climáticas e a saúde, não a imigração.

A Espanha é muito maior, mais dividida internamente e muito menos rica que a Dinamarca. Mas, se há algo que se pode dizer sobre como manter a extrema-direita sob controle, é que suas lições são mais generalizáveis. Primeiro-ministro desde 2018, Pedro Sánchez é o político de centro-esquerda mais bem-sucedido da Europa e está entre os chefes de governo com mais tempo de serviço na União Europeia. Após quase seis anos em coalizão com partidos à esquerda, seu Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) tem cerca de 30% das intenções de voto.

Como? Tomando partido. Durante a pandemia, o governo limitou os preços da energia, reconheceu os entregadores de aplicativos como trabalhadores com direitos e restabeleceu certas proteções trabalhistas. Em seguida, aumentou drasticamente o salário mínimo e tributou grandes fortunas. Ao apresentar razões sólidas para se manter fiel à causa, o partido de Sánchez contrariou a tendência de afastamento dos eleitores de baixa renda e menor escolaridade. E fez isso ao mesmo tempo em que implementava uma política migratória amplamente acolhedora.

A trajetória não tem sido fácil. Sánchez enfrentou tensões dentro de sua coalizão, um judiciário altamente politizado e conflitos sobre o separatismo catalão. Era amplamente esperado que ele perdesse as eleições de 2023 para uma coalizão de direita que incluía o partido ultranacionalista Vox. No entanto, ele frustrou a ascensão dessa coalizão aumentando a participação eleitoral — não apenas alertando sobre a ameaça da extrema-direita, mas também mobilizando os eleitores em torno das conquistas de seu governo. Ele contou aos espanhóis uma história sobre sua prosperidade futura e os perigos que ela enfrenta. E funcionou.

Ambos os primeiros-ministros têm problemas. Após a reeleição de Frederiksen, ela se voltou para aliados mais centristas e começou a perder apoio. Os principais beneficiários foram os partidos de esquerda com os quais ela já se aliou, mas pequenos grupos anti-imigração também estão crescendo. Frederiksen, cujo Partido Social-Democrata teve um desempenho ruim nas eleições locais do mês passado, claramente não é mais a força eleitoral que já foi. Ainda assim, o entusiasmo dos eleitores por outras opções progressistas mostra que o ressentimento nacionalista não é a única alternativa.

Sánchez também tem enfrentado dificuldades. Sem maioria desde 2023, ele não conseguiu aprovar um orçamento. Na ausência de novas medidas redistributivas, o apoio popular aos seus aliados de esquerda despencou, e escândalos em seu partido alimentaram pedidos furiosos por sua renúncia. As pesquisas do Vox subiram, e uma extrema-direita mais estranha, jovem e adepta de teorias da conspiração tomou forma. De forma sinistra, ela se chama Se Acabó La Fiesta.

Mesmo que esses líderes estejam mais pressionados do que antes, seu histórico demonstra o valor da ousadia política. Eles mudaram as agendas nacionais, politizando questões de justiça econômica e tributária e mostrando aos eleitores da classe trabalhadora que os partidos tradicionais estão do lado deles. Outros líderes europeus deveriam aprender a lição — e ainda podem.

Na França, isso poderia envolver um imposto sobre grandes fortunas, estabilizando o governo e arrecadando a tão necessária receita. Na Grã-Bretanha, o governo poderia elevar o padrão de vida controlando as contas de gás, tributando as gigantes do setor energético e revitalizando os planos de investimento verde. Na Alemanha, o governo poderia flexibilizar os limites de investimento para renovar a infraestrutura, de ferrovias a habitações, e fornecer um tipo diferente de estímulo econômico.

Longe de ser uma utopia, tudo isso é politicamente viável: os números estão lá no Parlamento e todos têm tempo até as próximas eleições. Embora os partidos de extrema-direita se apresentem como a voz do povo comum, a maioria dos eleitores não se deixou conquistar por sua causa e anseia por motivos para ter esperança novamente. Não seria preciso muito para que esses governos lhes dessem alguns.

E se não o fizerem? Alguns se contentam com a consolação de que, quando os partidos de extrema-direita chegam ao poder, logo perdem força.

Eles poderiam apontar para as recentes eleições holandesas, nas quais o Partido da Liberdade (FPÖ) de Geert Wilders — a maior força no governo cessante — perdeu terreno para o Partido Liberal Democrático 66. O curto e malsucedido período do FPÖ no poder conta uma história reconfortante sobre a incompetência inveterada dos populistas. Contudo, essa conclusão otimista não reflete exatamente o resultado das eleições. Embora Wilders tenha sofrido uma queda brusca, seus antigos apoiadores migraram em sua maioria para partidos semelhantes, e o voto na extrema-direita, no geral, manteve-se firme. Sua marcha pode ter sido interrompida, mas a extrema-direita continua a ganhar força.

Até 2030, há grandes chances de estarmos falando não de eleitores flertando com o populismo, mas de partidos de extrema-direita liderando os principais países da Europa. Figuras como Farage, Le Pen e Wilders poderiam exercer influência em toda a Europa. Se isso acontecer, herdarão Estados com poderes novos e perigosos. O fortalecimento das forças armadas continentais, à medida que os países aumentam os gastos militares e remobilizam jovens para o serviço militar, é um exemplo disso. O mesmo se aplica às medidas repressivas que os governos adotaram para sufocar a dissidência e os protestos, especialmente em questões de guerra e paz.

Mesmo que os governos franceses, embora de curta duração, apresentem traços da República de Weimar, isso não representa um retorno ao fascismo histórico. Os partidos de extrema-direita atuais têm maior probabilidade de incitar linchamentos virtuais do que protestos de rua em massa. Seus interesses nacionais frequentemente divergem, assim como suas ideias: alguns são mais assistencialistas, outros tecnolibertários ou teóricos da conspiração. Mas, apesar de todas as suas diferenças, eles claramente conseguem negociar com conservadores mais moderados e pró-mercado. Estão preparados para promover um novo credo de europeidade em crise, não abandonando a União Europeia, mas transformando-a por dentro.

Como seria uma União Europeia de extrema-direita? A agenda do Pacto Ecológico Europeu desapareceria, por exemplo. Em vez disso, o investimento europeu provavelmente se destinaria à reconstrução das forças armadas nacionais, à expansão do aparato de deportações em massa e ao endurecimento das fronteiras externas da Europa. A privatização gradual, especialmente da saúde, poderia ser combinada com policiamento baseado em inteligência artificial para disciplinar os pobres e os vulneráveis.

Refugiados ucranianos, como parte de uma onda mais ampla de hostilidade contra a Ucrânia, seriam tratados com suspeita, e muçulmanos e outras minorias seriam alvos de repatriações forçadas em um cruel programa de suposta remigração. Se o continente mergulhar em uma guerra declarada — uma ameaça real diante do colapso da ordem internacional — a detenção de "indesejáveis" e o recrutamento em massa dos demais não tardariam a acontecer.

Mesmo uma década de 2030 tão sombria seria diferente em aspectos importantes da década de 1930. Ainda não é o fim do século. Mas uma Europa entregue a ideólogos de extrema-direita e submissa a uma América nativista poderia sofrer seus próprios horrores. A menos que os governos centristas do continente mudem de rumo, a extrema-direita pode tomar a Europa para si. Depois disso, tudo pode acontecer.

David Broder (@broderly) é o autor, mais recentemente, de Mussolini's Grandchildren: Fascism in Contemporary Italy.

Fotografias de WPA Pool, Ludovic Marin, Picture Alliance e Geoffroy Van der Hasselt/Getty Images.

18 de agosto de 2025

As negociações entre Trump e Putin surpreenderam os líderes europeus

Neste verão, os estados europeus aumentaram os gastos militares e aceitaram um acordo comercial ruim para ganhar o apoio de Donald Trump. No entanto, as negociações do presidente dos EUA com Vladimir Putin praticamente ignoraram suas propostas.

David Broder


A cúpula com Donald Trump e Vladimir Putin no Alasca demonstrou o quão pouco a Europa conseguiu através de atos de submissão a Trump. (Colaborador / Getty Images)

No início deste verão, veículos de comunicação liberais em toda a Europa saudaram a iniciativa de aumentar os gastos com defesa para 5% do PIB. Embora essa promessa, feita na cúpula da OTAN em junho, estivesse em conformidade com uma demanda originalmente feita por Donald Trump, foi amplamente divulgada como um movimento em direção a uma maior autossuficiência europeia. Para alguns, a promessa foi até mesmo a concretização da fala do chanceler alemão Friedrich Merz sobre uma maior independência do continente — e pode até mesmo sinalizar o fim da deferência europeia a Washington.

Aparentemente, o principal objetivo da meta de 5% é fortalecer as defesas da Europa contra a Rússia. No entanto, esse compromisso conjunto dos membros europeus da OTAN (apenas a Espanha discordou) pretendia enviar uma mensagem não apenas a Moscou, mas também a Washington. Pois essa medida europeia foi concebida acima de tudo como uma forma de fortalecer o compromisso de Trump com a OTAN e a determinação dos EUA em apoiar a Ucrânia. Embora os aliados europeus de Kiev tenham fornecido mais ajuda militar do que Washington desde 2022 (pelo menos em termos de custos com equipamentos), aumentar os gastos poderia mostrar aos americanos que a Europa leva a sério a situação e manter Trump interessado em um conflito de longo prazo.

Até mesmo o acordo comercial EUA-UE do mês passado — um conjunto desequilibrado de tarifas e promessas de investimento europeu nos Estados Unidos, imposto por Trump à chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen — obedecia a esta lógica: a UE precisa ser gentil com o presidente americano para mantê-lo investido na Ucrânia. Não importa a propriedade democrática de um acordo comercial tão apressado e até mesmo não escrito, ou como o compromisso de comprar US$ 750 bilhões em gás natural liquefeito dos EUA se encaixa no plano, anteriormente emblemático, do Green Deal da Europa: ancorar os Estados Unidos na defesa europeia vem em primeiro lugar.

Por algumas semanas, formadores de opinião em Bruxelas e Berlim puderam se convencer de que esses atos de submissão haviam adquirido influência sobre Trump. Em resposta ao seu anúncio de novos embarques de armas dos EUA para Kiev em julho — pagos por membros europeus da OTAN —, um importante think tank alemão elogiou o sucesso de uma "coalizão dos dispostos" europeia em reverter sua política. Até mesmo alguns progressistas se deleitaram com as explosões mercuriais do presidente americano, como quando chamou seu homólogo russo, Vladimir Putin, de "louco" ou quando ameaçou aplicar punições econômicas mais severas contra Moscou. Parecia que estávamos longe do momento em que Trump tentou humilhar o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky no Salão Oval.

No entanto, após a cúpula Trump-Putin no Alasca, é impressionante o quão pouco a Europa conseguiu com esses atos de submissão. Seus líderes certamente consideram Trump um charlatão vulgar e o elogiam apenas para manipular seu amor pela bajulação. O que sua suposta perspicácia política aparentemente nunca alcança é qualquer sucesso material em enganá-lo.

Se a UE se autointitula uma "superpotência diplomática", que iniciativas tomou em relação à Ucrânia que se afastam da sombra de Trump? O presidente dos EUA faz promessas superficiais de ouvir seus parceiros europeus, apenas para minar devastadoramente sua posição na prática. Ele fala grosseiramente a linguagem de "acordos" e "interesses", apenas para os líderes europeus reformularem impotentemente sua política em termos compatíveis com seus próprios "valores".

Isso já ficou claro com a promessa de 5% de gastos com defesa, que reformulou a demanda de Trump como uma agenda europeia. Mas considere também a questão do território ucraniano e o princípio de que as fronteiras não devem ser alteradas à força. Sem muita atenção aos sombrios precedentes recentes (da Bósnia a Israel e Azerbaijão), os líderes europeus têm amplamente apresentado isso como uma linha vermelha intransponível. No entanto, depois que Trump disse publicamente na semana passada que a Ucrânia deve estar pronta para ceder território, uma declaração de líderes europeus no sábado modificou seu princípio em termos platônicos. Eles recuaram na ficção (também expressa pelo próprio presidente dos EUA) de que essa era uma decisão da Ucrânia, como se fosse em si um ato de autodeterminação.

Líderes europeus também insistiram em um cessar-fogo imediato antes de negociar os termos de qualquer eventual acordo de paz, na esperança de ganhar tempo sem consolidar ainda mais as perdas ucranianas. Congelar o conflito, mesmo sem uma paz viável, também adiaria o momento de ter que engolir decisões desagradáveis. Eles poderiam ser gratos pelo fato de que, em suas conversas com Putin no Alasca na sexta-feira passada, Trump pelo menos evitou formalizar como seria um acordo de paz. No entanto, ele descartou a prioridade de um cessar-fogo — e abandonou seu próprio apelo anterior por sanções mais severas à Rússia caso sua liderança não concordasse com uma trégua imediata. Os europeus foram consultados, como haviam exigido, e praticamente ignorados quando Trump se encontrou com Putin.

Durante as negociações entre Moscou e Kiev em abril de 2022, que deram pequenos passos em direção às bases de uma trégua, o premiê britânico Boris Johnson teria ignorado as promessas diplomáticas de Putin; ele disse a Zelensky que as potências da OTAN apoiavam a Ucrânia e a apoiariam enquanto ela quisesse lutar por um acordo melhor. Isso não significou que os patrocinadores ocidentais de Kiev rasgassem uma oferta de paz; o corpo político da Ucrânia invadida, de qualquer forma, dificilmente estava inclinado a fazer concessões às "preocupações de segurança" de Putin. No entanto, o resultado agora pode ser pior, mutilando ainda mais a soberania da Ucrânia, mesmo depois de centenas de milhares de vidas terem sido desperdiçadas. Pode ter parecido plausível, após a defesa inicial da Ucrânia (e, de fato, antes das contraofensivas bem-sucedidas que se seguiram), expulsar a Rússia dos territórios que ela havia ocupado após 24 de fevereiro de 2022. Poucos dizem isso agora.

E quanto às futuras relações das potências europeias com Moscou? Parece que já faz muito tempo que a destituição de Putin do poder ou a "mudança de regime" foram sugeridas como condição para um acordo pacífico. No entanto, mesmo com o presidente dos EUA se encontrando diretamente com Putin, os principais países da UE (além do Reino Unido) certamente não estão pensando em détente e reaproximação, mas sim em resistir à próxima invasão. Para a Ucrânia, eles podem oferecer garantias de segurança — a serem aplicadas assim que a guerra já tiver sido declarada perdida — e um plano de regeneração econômica ainda pouco desenvolvido. Se o sul e o leste da Ucrânia forem permanentemente russos e a riqueza em seu solo for tomada como reparação aos Estados Unidos, os líderes europeus talvez se imaginem como mantenedores da paz no que resta.

Nos primeiros meses após a invasão russa de 24 de fevereiro de 2022, alguns líderes da UE falaram esperançosamente em usar a guerra para acelerar a agenda principal do bloco: o Acordo Verde de empréstimos coletivos e investimentos na transição ecológica. Isso foi considerado não apenas um movimento desejável para a indústria "verde", mas também a base necessária para a autossuficiência energética do bloco. No entanto, isso não resistiu ao seu conformismo de política externa com Washington. O resultado final, especialmente sob Trump, é mais prosaico: substituir as compras de combustíveis fósseis da Rússia por americanas. O endividamento coletivo ainda está na ordem do dia, mas agora em prol do rearmamento, com o dinamismo econômico do bloco centrado na promessa de gastos de defesa de 5%.

Na segunda-feira, líderes europeus, incluindo Merz, da Alemanha, Emmanuel Macron, da França, e o premiê britânico Keir Starmer, acompanharão Zelensky à Casa Branca, em uma aparente tentativa de convencer Trump da necessidade de uma posição de negociação mais dura. O presidente dos EUA insistiu publicamente que a decisão final será deles e não dele — uma postura retórica que também o distancia de quaisquer concessões que sejam feitas. Dado que os líderes europeus não estão tomando nenhuma iniciativa separada para encerrar a guerra, eles provavelmente acabarão tendo que assumir a paz de Trump e até mesmo pagar seus custos financeiros. A maioria dos europeus não sofreu com a guerra como os ucranianos. Mas as reivindicações dos líderes europeus por status de superpotência também são vítimas deste conflito e das propostas americanas para encerrá-lo.

Colaborador

David Broder é editor da seção Europa da Jacobin e historiador do comunismo francês e italiano.

9 de junho de 2025

Nem o mar está livre da brutalidade colonial de Israel

Os militantes a bordo do navio de ajuda humanitária Madleen não conseguiram romper o cerco a Gaza. Mas Greta Thunberg e seus camaradas chamaram a atenção para o bloqueio israelense — e a recusa do Ocidente em fazer algo contra o genocídio sionista.

David Broder

Jacobin

Greta Thunberg com parte da tripulação do Madleen antes da partida para Gaza em 1º de junho de 2025 em Catânia, Itália. (Fabrizio Villa / Getty Images)

Temíamos que a situação fosse ainda pior. A mais recente flotilha de ajuda humanitária a Gaza partiu da Sicília em 1º de junho, após a missão do mês passado ter sido aparentemente bombardeada por drones israelenses na costa de Malta. Respondendo a este último lançamento, o senador Lindsey Graham tuitou que “esperava que Greta e seus amigos soubessem nadar”, aparentemente torcendo por um novo ataque. Muitos ainda se lembrarão de quando, em 2010, lanchas e helicópteros israelenses atacaram um comboio de ajuda humanitária civil que ia à Palestina, assassinando nove ativistas.

Hoje, as Forças de Defesa de Israel (IDF) estão destruindo cada vez mais vidas e deliberadamente matando de fome cada vez mais palestinos; os planos israelenses de limpeza étnica e anexação de territórios ocupados são cada vez mais vergonhosos e descarados. Aliados ocidentais reclamam dos excessos de Benjamin Netanyahu como se fossem só dele – e continuam enviando armas à máquina de matar sionista. Ainda se pode esperar que a fama de alguns ativistas a bordo dessa flotilha humanitária possa, de alguma forma, protegê-los de serem adicionados à nova lista de vítimas.

Enquanto as forças israelenses abordavam e capturavam ilegalmente o Madleen, o navio civil à frente da flotilha, em águas internacionais, o Ministério das Relações Exteriores de Israel se gabou de estar detendo um “iate de celebridades para tirar selfies”. O ministério declarou alegremente que “o show acabou”. As autoridades israelenses também zombaram do pequeno volume de ajuda a bordo da flotilha, apresentando-a como uma ação meramente simbólica e não como uma solução para uma suposta fome generalizada.

O comboio de ajuda humanitária foi uma ação simbólica — e com razão. Pequenas iniciativas de solidariedade não conseguem alimentar milhões. Este foi um apelo para que outros agissem e quebrassem o bloqueio total de Israel à ajuda humanitária, agora em seu quarto mês. A militante climática Greta Thunberg, a parlamentar europeia Rima Hassan e seus colegas a bordo do Madleen estavam fazendo uma declaração sobre a fome que Israel causa na população de Gaza e a recusa do resto do mundo em fazer algo a respeito. Eles buscavam atenção — não a exigiam para si mesmos, mas usavam sua fama para chamar a atenção dos poderosos.

Igualmente simbólico, portanto, foi o silêncio dos governos europeus, que permanecem determinados a não fazer nada a respeito dos crimes de Israel. A resposta do governo britânico foi de pedir ajuda a Gaza, mas evitou comentários sobre o ataque ilegal a um navio de bandeira britânica. Esperava-se que as autoridades francesas e suecas representassem seus próprios cidadãos que estão em situações de perigo — agora em Israel. Limitaram-se a insistir na necessidade de representação consular, com Paris também enfatizando que havia alertado contra a missão.

Foi noticiado esta tarde que mil pessoas se juntaram a um comboio de nove ônibus da Tunísia para Gaza em mais uma tentativa de romper o cerco. Podemos imaginar que Israel reverterá a situação, se a ditadura egípcia não o fizer primeiro. Mas a mensagem de solidariedade é clara: cada vez que Israel comete seus crimes, cada vez que abate a tiros pessoas na fila para receber comida, cada vez que seus soldados invadem um barco que transportava alimentos ou remédios, é um novo chamado para que todos nós façamos mais, melhoremos e estejamos ao lado dos palestinos.

Ao longo dos últimos vinte meses, a simpatia pública por Israel despencou nos países ocidentais, mesmo naqueles cujos políticos são mais entusiasticamente pró-sionistas. Mas a mudança de opinião pública na Europa, nos Estados Unidos ou no resto do mundo não basta para deter os crimes das Forças de Defesa de Israel (IDF), e uma mudança na retórica de líderes como o francês Emmanuel Macron ou o alemão Friedrich Merz encobre um apoio prático inalterado a Israel. Entretanto, a posição deles está se tornando cada vez mais insustentável.

Expor a hipocrisia deles é vital para a própria democracia. E se, como afirmam as autoridades israelenses, a flotilha foi “simbólica” e um “truque”, ela expressou seu ponto de vista de forma brilhante. Quando Thunberg alcançou a fama, líderes europeus a bajularam, associando-se à “vibe moral” da preocupação com o clima, enquanto ignoravam suas críticas. Agora que ela e seus companheiros de viagem estão confrontando a política ocidental em Gaza, não há sequer uma tentativa de cooptar sua mensagem.

Em vários países, o apelo pela liberdade palestina “do rio ao mar” é habitualmente apresentado como discurso de ódio pró-Hamas. Diante dos recentes ataques israelenses à navegação, podemos nos perguntar quão livre é o próprio mar.

A IDF também poderiam ter usado a “manobra” da flotilha para fazer um golpe de propaganda próprio: deixar entrar algum pequeno grupo com sua ajuda para fingir que não havia cerco. Mas mesmo isso se provou demais. Os Keir Starmers, Macrons ou Merzes deste mundo poderiam ter ficado gratos se Israel tivesse feito essa concessão, permitindo-lhes retratar este local onde mandam apoio militar sob uma luz mais humana. Encorajado por décadas de impunidade, Israel nem sequer lhes daria tanto.

Colaborador

David Broder é editor da Jacobin na Europa e historiador do comunismo francês e italiano.

8 de dezembro de 2024

O Die Linke da Alemanha pode se reerguer?

Em outubro, o Die Linke elegeu uma nova liderança, que promete se reconectar com os eleitores da classe trabalhadora. Com as eleições alemãs planejadas para o início de 2025, eles enfrentam uma corrida contra o tempo para mudar a cultura do partido.

David Broder

Jacobin

Os líderes do Die Linke anunciam os principais candidatos do seu partido para as próximas eleições do Bundestag em 10 de novembro de 2024, em Berlim, Alemanha. (Fabian Sommer / picture alliance via Getty Images)

O Die Linke da Alemanha já foi a luz brilhante da esquerda europeia. Criado em 2007 como uma fusão entre o Partido do Socialismo Democrático (PDS) pós-comunista e uma dissidência pró-trabalhista do Partido Social Democrata (SPD), em sua primeira década o Die Linke se tornou uma grande força na política nacional. No Leste, ele representava jovens e aposentados deixados para trás e chamava a atenção para as desigualdades legadas pela reunificação. Nas cidades, era o lar político óbvio para estudantes de esquerda, sindicalistas radicais e ativistas de todos os tipos. Em seu auge, ele rotineiramente marcava cerca de 10% nacionalmente e quase 30% em muitos antigos estados do leste, chegando até mesmo a entrar no governo lá.

No entanto, hoje o quadro está longe de ser otimista. Com os social-democratas e os verdes de centro-esquerda no governo nacional desde 2021, presidindo uma queda nos padrões de vida, estagnação econômica e apoio aparentemente ilimitado à guerra no exterior, pode parecer que o partido de oposição Die Linke está bem posicionado para tirar vantagem. No entanto, hoje está em crise, depois de anos atolado em uma crise de identidade. Obteve menos de 3% nas eleições da União Europeia (UE) deste ano, saiu de um parlamento estadual do leste e agora corre o risco de perder seu grupo no Bundestag federal. Então, o que deu errado?

O problema de Wagenknecht

Para muitos dentro e fora do Die Linke, tudo se resume a um nome: Sahra Wagenknecht. Sem dúvida, o declínio do Die Linke é evidente desde que Wagenknecht, na década de 2010 seu representante mais proeminente, começou a desrespeitar publicamente a linha do partido. Isso começou com pontos de discussão anti-imigração duvidosos por volta de 2018 e sua tentativa frustrada de lançar um movimento no estilo "Gilets Jaunes" sob seus auspícios (não do Die Linke) em 2019. Nos últimos cinco anos, o destino do Die Linke parecia intimamente ligado às escolhas raramente responsáveis ​​de sua figura pública mais famosa. Para ativistas mais jovens, mais educados e urbanos, a questão era como domesticá-la — ou fazê-la desistir. A abordagem de Wagenknecht de "ela vai-ela-não vai" para começar uma organização rival manteve seu nome nas manchetes. Em sua primeira década, o Die Linke frequentemente conseguia definir a agenda política no parlamento e ganhar atenção da mídia.

O Die Linke há muito tempo contava com uma estrutura de governança amorfa baseada em uma colaboração diplomática entre diversos grupos internos. Havia mais “reformistas” voltados para o governo no antigo Leste, pós-trotskistas, anti-imperialistas, pacifistas, não poucos apoiadores de Israel e autonomistas “movimentosistas”. Quando a questão era direitos trabalhistas ou aluguéis, eles geralmente conseguiam se entender; até mesmo alguns ativistas mais “revolucionários” apoiavam campanhas de uma única questão ou assumiam cargos para parlamentares do Die Linke. Este pacto de não agressão não estava, no entanto, bem preparado para lidar com um líder de alto perfil se tornando desonesto em questões de guerra cultural divisivas. Mesmo a facção considerável que criticava abertamente Wagenknecht era essencialmente impotente para forçá-la a sair. Enquanto eles a criticavam como “avermelhada”, ela os ridicularizava como “a esquerda do estilo de vida”, irremediavelmente fora de contato com eleitores regulares e obcecada por questões como pronomes.

A ironia é que esta situação reflete o papel de seu marido no SPD do final dos anos 1990, levando à criação do Die Linke. Um ex-ministro, Oskar Lafontaine, insistiu por muito tempo que não deixaria o SPD enquanto construía sua presença na mídia como um dissidente público e, eventualmente, escolhia o momento certo para fundar outra coisa. Ele eventualmente ajudou a criar Die Linke; agora Wagenknecht foi ainda mais longe no exercício de marca pessoal, em janeiro de 2024 criando um novo partido chamado Sahra Wagenknecht Alliance (BSW).

Dias passados

Comparando a Alemanha a países com sistemas de votação diferentes, como a Grã-Bretanha, pode parecer óbvio que seu modelo de representação mais proporcional ajudaria a esquerda. Dado um sistema em que (quase) todos os votos contam, os desafiantes da social-democracia neoliberal teriam muito mais facilidade para construir uma base eleitoral votando nas políticas que desejam. Nos primeiros anos de existência do Die Linke, ele pareceu provar esse ponto, pois rotineiramente elegia dezenas de parlamentares para o Bundestag. Ainda assim, o cenário volátil do partido também criou outros desafios.

A década após a formação do Die Linke foi sua era de ouro, pois parecia representar tudo o que o SPD havia abandonado. Ele ganhou força pela primeira vez em meados dos anos 2000 com a mobilização contra as chamadas reformas de bem-estar Hartz IV do SPD, que cortaram os benefícios de desemprego. Deste período até a crise financeira de 2008, questões como bem-estar e mercado de trabalho foram centrais para a agenda política nacional, inclusive sob a chanceler democrata-cristã (CDU), Angela Merkel.

Não só o Die Linke "resistiu" às reformas antitrabalhadores, mas em seus primeiros anos também teve uma certa credibilidade devido à proeminência de Lafontaine, um ex-ministro das finanças que se separou do SPD por essas questões. Da oposição, o Die Linke constantemente levantou a questão de um salário mínimo federal até que foi relutantemente introduzido pelo governo de "grande coalizão" CDU-SPD em 2015. O Die Linke foi o mais forte crítico do papel da Alemanha na crise da zona do euro e do regime de austeridade imposto à Grécia. Em sua primeira década, o Die Linke frequentemente conseguiu definir a agenda política no parlamento e ganhar atenção da mídia.

Mas as coisas começaram a mudar com a introdução da Alternative für Deutschland (AfD) no cenário eleitoral. Fundado em 2013, o AfD conseguiu entrar em todas as legislaturas estaduais, exceto duas, até 2017, o mesmo ano em que entrou no Bundestag com 12,6% de apoio. A AfD certamente enfrenta grande oposição, com seus avanços rotineiramente provocando enormes protestos de rua em todo o país. O meio do Die Linke (particularmente em Berlim e cidades orientais como Leipzig e Dresden) sempre foi uma força ativa nessas manifestações, vendo a oposição antifascista ao AfD como o cerne de sua identidade. Ele se orgulhava de estar em contato com movimentos sociais e — em uma frase agora clichê — se via como um partido com "um pé no parlamento" e "um pé nas ruas".

No entanto, enquanto nas principais cidades o Die Linke construiu um perfil socialmente liberal e antirracista, ele também continha elementos que se envolveram em uma retórica anti-migração "econômica" que era obcecada pela competição pelos empregos dos alemães. Desde o início, alguns dos porta-vozes mais importantes do partido claramente tinham visões conservadoras sobre esse assunto, e isso acabou se tornando uma bomba-relógio. Mesmo muito antes de Wagenknecht se tornar um pária no Die Linke por tais visões por volta de 2018, Lafontaine já havia provocado controvérsia em 2005 por dizer algo bastante semelhante. Ele se desculpou por usar um termo da era nazista para trabalhadores estrangeiros (Fremdarbeiter), mas menos controvérsia pública foi levantada sobre comentários em seus livros do mesmo ano, onde ele disse que apenas os "dez mil superiores" da sociedade alemã apoiavam a imigração, uma vez que estavam protegidos de suas "consequências" na forma de competição por moradia e empregos, ou escolas primárias sobrecarregadas com crianças estrangeiras. Mas ao longo dos anos que se seguiram, a questão foi desvalorizada em prol da unidade do partido, em um contexto político nacional onde não era o tópico central.

Por um tempo, esse equilíbrio pôde se manter. No entanto, a mudança na atenção do governo e da mídia para a imigração após a chamada crise de refugiados de 2015 logo significou que essas contradições não podiam mais ser ignoradas. O problema não era apenas a variedade de posições. O Die Linke basicamente não tinha estruturas para resolver diferenças e manter uma aparência de unidade partidária quando confrontado com membros importantes fazendo movimentos obstinados.

Declínio

Este problema piorou ao longo do tempo, à medida que outras crises testaram até a destruição a tendência do Die Linke de adotar posições evasivas. O partido não foi visto como tendo uma linha clara sobre os bloqueios da COVID-19 ou as controvérsias da vacinação, nem sobre a guerra na Ucrânia. Anteriormente, a base moral por trás da oposição do Die Linke às vendas de armas não era contestada em suas fileiras, mas esse consenso tênue mascarava uma grande variedade de desacordos internos ao partido. Depois de 24 de fevereiro de 2022, quando o público alemão apoiou fortemente a ajuda à Ucrânia, o neutralismo do Die Linke foi facilmente classificado como "pró-Rússia". Sem nenhuma influência real sobre a narrativa dominante — ainda hoje, conforme o clima está mudando e os partidos maiores estão discutindo negociações de paz — até mesmo a relativa consistência do Die Linke lhe rendeu pouco favor. Ainda mais confusa é a posição sombria do Die Linke sobre a Palestina: enquanto alguns membros importantes são vocais sobre a necessidade de acabar com as exportações de armas para Israel, o partido abriga um número considerável de ativistas firmemente pró-Israel, e seu manifesto para as eleições da UE de junho não mencionou a guerra. Os eleitores que queriam expressar apoio a Gaza tiveram que procurar em outro lugar. O Die Linke não foi visto como tendo uma linha clara sobre os bloqueios da COVID-19 ou as controvérsias da vacinação, nem sobre a guerra na Ucrânia.

Mas talvez o problema mais profundo fosse a ideia de preencher um espaço político "vago". Quando um partido visa ocupar uma lacuna no mercado eleitoral — neste caso, um partido amplo à esquerda da social-democracia — certamente há uma tentação de se amontoar neste espaço, com todos os seus diferentes matizes, em vez de fornecer uma liderança política clara com base em um programa de governo. Construído sobre ativistas de muitas e variadas forças neste espaço de esquerda, de ex-SPDers a aqueles que se autodenominam "revolucionários", o Die Linke optou por estruturas que permitiam a máxima diversidade interna. O que isso não o preparou foi para estabelecer uma agenda para o poder. Onde esteve no cargo, por exemplo, nos últimos oito anos à frente do governo estadual da Turíngia, sua prática lenta muitas vezes chocava-se bizarramente com o radicalismo externo expresso por suas filiais nas principais cidades.

No entanto, neste contexto, a luta pela falta de responsabilização de Wagenknecht — uma estrela de TV que falava o que pensava — também se tornou uma cobertura enganosa para outros males. Nos últimos cinco anos de conflitos internos, muitos comentaristas do partido pareciam contar com a ideia de que a eventual saída de Wagenknecht daria ao partido uma nova imagem, purificada aos olhos dos eleitores. Nessa visão, a criação do partido rival de Wagenknecht deixaria Die Linke como uma verdadeira voz de esquerda para os Verdes e Social-democratas descontentes. Este foi o tom de um congresso destinado a revigorar o partido em novembro de 2023, que também adotou um tom "anticapitalista" mais forte. Isso foi um alimento reconfortante para os ativistas, mas não ajudou o Die Linke a reconstruir sua base. Nem os vários protestos de rua otimistamente chamados de “movimentos sociais” forneceram a solução mágica. O maior na Alemanha este ano — os comícios de centenas de milhares de pessoas contra a AfD, após revelações sobre seus planos de deportar alemães de minorias étnicas — ajudaram, no mínimo, a conduzir os eleitores progressistas de volta ao campo do governo, por medo de uma reviravolta para pior.

Quem comanda o navio?

O Die Linke frequentemente se baseou em um conjunto de compromissos de menor denominador comum: justiça social, o sentimento de que o SPD era cada vez mais neoliberal e a suposição de que um eleitorado sólido de eleitores desejaria algum tipo de alternativa de esquerda. Os alemães certamente ainda estão votando com base em preocupações econômicas, bem como em questões de guerra e paz. Mas é menos claro que o Die Linke projetou um modelo econômico alternativo convincente, ou que já o fez. Em vez disso, o BSW de Wagenknecht está agora prosperando ao expressar uma espécie de redux do antigo pacto social da Alemanha Ocidental — uma agenda cuja plausibilidade deve à sua reivindicação de retornar à "normalidade" — e descarregar a culpa pelas condições cada vez piores dos alemães em ambientalistas irritantes, migrantes e na atual guerra na Ucrânia.

Na verdade, enquanto os ativistas do Die Linke acreditavam que eram o núcleo do partido e que melhorariam seus votos quando o dissidente Wagenknecht tivesse ido embora, parece que grande parte da base de eleitores, especialmente nas regiões onde era mais forte, acreditava que ela era o núcleo e os ativistas eram a franja dissidente. Seu BSW superou 10 por cento em todas as três eleições estaduais do leste da Alemanha em setembro, superando facilmente o Die Linke, mesmo onde governava anteriormente.

Se o Die Linke é hoje galvanizado pela ideia de unidade partidária, não está totalmente claro qual mecanismo poderia solidificar isso. Mesmo após a divisão, a ideia de disciplina partidária dificilmente figura. Nesse sentido, o Die Linke também enfrenta um problema cultural visível no Partido Trabalhista da era Corbyn, e não compartilhado por seus sucessores Starmerite: uma falta de crueldade, por medo constante de ser rotulado como autoritário. Em parte um sucessor do antigo partido governante da Alemanha Oriental (cujos antigos quadros superiores foram fortemente expurgados após a queda do Muro de Berlim), o Die Linke enfrenta a acusação rotineira de usar métodos stalinistas, mas responde continuamente por meio de uma indecisão constitutiva.

Alguma esperança vem da nova liderança do Die Linke, com os copresidentes Ines Schwerdtner (ex-Jacobin) e Jan van Aken eleitos no congresso do partido em outubro. Schwerdtner pediu que o Die Linke abordasse mais especificamente os interesses da classe trabalhadora, ouvindo as preocupações dos eleitores por meio de exercícios de campanha em massa. Essas são certamente etapas positivas para superar a distância cultural com muitos grupos de eleitores e talvez deixar para trás o culto aos focos preferidos dos próprios membros do partido. No entanto, esta é uma tarefa árdua, e com eleições nacionais antecipadas planejadas para 23 de fevereiro — com o Die Linke pós-divisão correndo o risco de cair do parlamento — os resultados não podem vir em breve o suficiente.

Trinta e quatro anos depois que o Oeste engoliu o Leste, faixas dos "novos estados" da República Federal estão hoje coloridas em azul AfD. Em setembro, o partido de extrema direita venceu sua primeira eleição estadual, na Turíngia — um estado oriental até então liderado pelo Die Linke. Com certeza, os eleitores do AfD são mais propensos a vir da direita tradicional, ou de antigos abstencionistas, do que mudar diretamente da Esquerda. Mas quando o AfD é chamado de uma resposta aos fracassos da reunificação, poderíamos facilmente esquecer que nos anos 2000 a Esquerda continuamente acumulou votos nessas mesmas áreas, incluindo as rurais. Ela poderia alegar ser a voz antiestablishment não apenas de muitas correntes de ativismo, mas da juventude da classe trabalhadora que perdeu na transição para o capitalismo. Recuperar esse espírito insurgente é vital, não apenas para conter a maré do AfD, mas para preservar uma Esquerda digna desse nome.

Este artigo foi publicado na última edição impressa da Tribune.

Colaborador

David Broder é editor da Jacobin na Europa e historiador do comunismo francês e italiano.
Julia Damphouse é historiadora do socialismo europeu. Ela é membro do conselho editorial das Obras Completas de Rosa Luxemburgo em inglês.

4 de dezembro de 2024

O macronismo está moribundo

A moção de censura ao governo de Michel Barnier destaca o fracasso do projeto neoliberal de Emmanuel Macron. Longe de reviver o centro liberal, o presidente lançou a França em uma crise política histórica.

David Broder

Jacobin

O presidente francês Emmanuel Macron participa de uma sessão de trabalho no âmbito da Cúpula do G20, no Rio de Janeiro, Brasil, em 19 de novembro de 2024. (Wagner Meier / Getty Images)

Na semana passada, quando os deputados de esquerda da França tentaram reverter a reforma emblemática do segundo mandato de Emmanuel Macron — o aumento da idade de aposentadoria de 2023, amplamente impopular —, os apoiadores do presidente se organizaram para evitar que a votação acontecesse. Nas eleições gerais convocadas para o verão, os esquerdistas e pouco mais da metade da base de Macron votaram estrategicamente nos candidatos uns dos outros para bloquear a extrema direita. No entanto, desde que o novo parlamento se reuniu, o reduzido grupo de deputados de Macron não fez nenhum sinal de concessão ao maior bloco, a aliança de esquerda Nouveau Front Populaire (NFP). Diante de um desafio à reforma das aposentadorias de Macron, seus apoiadores simplesmente usaram o obstruccionismo para impedir a aprovação do projeto.

Essas intervenções salvaram o plano de Macron de adiar a idade de aposentadoria. Mas, logo após a metade de seu segundo mandato, esse ex-ícone do centrismo liberal parece pronto para a aposentadoria. Depois de perder sua maioria no parlamento em 2022 e de cair ainda mais nas eleições de snap que ele próprio convocou em junho, Macron passou a contar, desde setembro, com um governo minoritário, unindo seus deputados aos conservadores dos Républicains, sob o comando do primeiro-ministro Michel Barnier e figuras da direita radical como o ministro do Interior Bruno Retailleau. Mesmo essa coalizão tinha apoio minoritário e dependia do favor do Rassemblement National de Le Pen para não se juntar à esquerda em moções de censura. Mas na quarta-feira, Le Pen também votou pela queda do governo.

Em entrevista ao programa TF1 Info na noite anterior à votação decisiva que derrubou seu governo, Barnier condenou a escolha imperdoável de Le Pen. A moção de censura, repetiu várias vezes, havia sido escrita pela “extrema esquerda” e, mais especificamente, insistiu, por Jean-Luc Mélenchon. Se “Madame Le Pen” é uma líder “respeitosa” e “responsável”, como poderia ela votar na moção do “grupo da extrema esquerda”? Para Barnier, esse foi um erro grave: “Por trás da moção,” advertiu, estava a “decisão recente do grupo da extrema-esquerda de propor a abolição do crime de justificar o terrorismo, poucos dias após o aniversário dos ataques do Bataclan [em 13 de novembro de 2015]”.

Ligando os partidos da NFP ao espectro do extremismo islamo-esquerdista, Barnier virou contra Le Pen a sua própria retórica. Sua alegação específica era falsa: a proposta da esquerda não visava legalizar a “justificação do terrorismo”, mas restaurá-la ao código legal relativo à imprensa, como era antes de 2014. De qualquer forma, isso era tangencial à verdadeira questão por trás da moção de censura, que era o orçamento de Barnier. Ele alegava que, ao tentar estabilizar as contas públicas, foi sitiado por uma combinação de populistas irresponsáveis. Na sua versão dos fatos, Le Pen foi culpada de extremismo porque ela, como a esquerda, se opôs ao campo governista; o líder dos Républicains, Laurent Wauquiez, a classificou como parte do partido da “desordem”.

Ao apresentar a moção de censura das partes da NFP na tarde de quarta-feira, o deputado de France Insoumise, Éric Coquerel, insistiu que não se tratava apenas de um voto contra o governo minoritário de Barnier. Ele prometeu: “Hoje, soamos o sino da morte de um mandato — o do presidente.” Macron pode não sair de cena ainda, já que é improvável que o parlamento o impeça, e os eleitores ainda não terão a oportunidade de decidir sobre seu substituto antes de 2027. Mas se o presidente convocou uma eleição antecipada em junho prometendo um retorno à estabilidade, ele apenas acelerou o colapso de sua autoridade.

Teto de vidro?

Nos últimos dias, Barnier fez várias concessões políticas a Le Pen, com o objetivo de suavizar sua oposição ao plano orçamentário e aos cortes de gastos e aumentos de impostos de 60 bilhões de euros. Isso mostra o quanto os planos do campo de Macron dependem, ao menos tacitamente, de um pacto com a extrema direita, já que Barnier não fez ofertas semelhantes à NFP — com até mesmo deputados de esquerda moderada como Jérôme Guedj lamentando como foram amplamente ignorados.

No entanto, o partido de Le Pen não se deixou seduzir. O Rassemblement National criticou o plano orçamentário de múltiplas maneiras. Ele queria tanto explorar o descontentamento popular com as medidas de austeridade propostas quanto tranquilizar os eleitores de classe média de que não planejava aumentos de impostos. Assim, apresentou uma contraproposta, incluindo tanto aumentos nos compromissos de gasto — como indexação das aposentadorias para protegê-las da inflação — quanto uma redução mais acentuada do déficit, cortando o que o porta-voz do partido, Julien Odoul, chamou de “programas governamentais desperdício de dinheiro” e o “escritório de assistências a imigrantes”. Isso soava como uma política para todos, unindo uma rede de proteção para os franceses com o espírito de corte da burocracia de figuras como Ramaswamy, Musk e Milei.

O partido de Le Pen tem, nos últimos anos, se aproximado de posições econômicas mais convencionais de direita, abandonando ideias como o Frexit, que arriscariam destruir as economias familiares, ao mesmo tempo em que defendem cortes significativos de impostos e um reembolso do orçamento da União Europeia. Essa mudança, voltada para atrair eleitores de classe média, vem sob o slogan do Rassemblement National de “ordem nas contas públicas e nas ruas”. No entanto, segundo os padrões da União Europeia, a França é um país com considerável mobilização do movimento trabalhista e uma oposição de esquerda considerável. Isso exige que até Le Pen encontre algumas respostas para a “questão social,” mais matizadas do que as propostas de austeridade de outras forças de direita, como a coalizão de Giorgia Meloni na Itália.

Antes da votação de censura, o Le Figaro citou uma fonte próxima a Macron, afirmando que Le Pen havia exposto suas próprias contradições. Sua jogada imprudente para derrubar Barnier, insistiu a fonte, endureceria o “teto de vidro” que a impede de conquistar o eleitorado moderado do centro-direita. Mas isso é provavelmente simplista demais, especialmente porque a decisão desnecessária de Macron de convocar eleições antecipadas em junho é amplamente culpada por mergulhar a França na crise política. Uma pesquisa antes da votação de quarta-feira sugeriu que a maioria dos eleitores franceses (63%), incluindo uma minoria notável dos que apoiam o partido de Macron (27%), achavam que ele deveria renunciar se o governo de Barnier caísse, permitindo novas eleições presidenciais.

Macron não pode convocar novas eleições antecipadas para o parlamento (um concurso separado) até o verão de 2025, e ele tem poucas rotas para uma maioria. Após as eleições de verão, os partidos da NFP propuseram a servidora pública Lucie Castets como primeira-ministra em uma coalizão minoritária de esquerda, mas Macron descartou a ideia de imediato. Se ele cogitou nomear Bernard Cazeneuve — um ex-socialista, centrista pró-negócios — para liderar uma coalizão de centro/direita, ele abandonou a ideia quando Cazeneuve propôs emendas à reforma das aposentadorias. Seu nome ressurgiu agora, embora, antes da votação de censura de quarta-feira, o líder socialista Olivier Faure tenha considerado a proposta impossível. O mais provável é que seja nomeado um governo tecnocrático provisório até que as eleições possam ser realizadas.

Na terra de tais arranjos incomuns — a Itália — a chegada de tecnocratas frequentemente preparou o caminho para sucessores de extrema-direita. Em 2021-2022, diante do governo de “unidade nacional” de Mario Draghi, o Fratelli d’Italia de Meloni foi o único grande partido de oposição, mas também prometeu seguir a maioria dos planos de gastos pós-pandemia financiados pela União Europeia. Isso deu ao Fratelli d’Italia uma plataforma para o triunfo eleitoral. A situação atual na França oferece uma imagem talvez ainda pior para os blocos centristas. Aqui, ao contrário da Itália, o governo nacional financiou mais da metade dos gastos de recuperação pós-COVID, e como as autoridades da UE agora pressionam os Estados membros a cortar déficits, a dívida da França está sob pressão especialmente severa.

Após Barnier

E a Esquerda — aquela que nunca buscou compromissos com Macron? Ao longo de sua presidência, o France Insoumise resistiu de forma inflexível à sua agenda e conseguiu até pressionar os outros partidos de esquerda a formar uma aliança amplamente vinculada ao seu próprio programa. Sua defesa firme dos interesses populares e sua agenda política desenvolvida pressionaram até mesmo a maioria dos Socialistas e Verdes a adotar posturas mais oposicionistas. Mas a NFP é uma aliança de partidos frequentemente hostis, e enfrenta uma tarefa difícil para moldar o que acontece a seguir — ou ser uma força real nas próximas eleições presidenciais. Apesar dos problemas legais de Le Pen, que podem impedi-la de concorrer na eleição prevista para 2027, seu campo está em uma posição dominante, rotineiramente obtendo mais de um terço dos votos e ganhando terreno entre o eleitorado tradicional do centro-direita.

Há também um problema político mais amplo. Mesmo que as alianças eleitorais de esquerda recentes tenham, em grande parte, adotado o programa do France Insoumise, pouco resta da crítica sistemática desse movimento à arquitetura institucional da União Europeia, aos seus meios antidemocráticos de moldar as políticas dos governos nacionais e à sua imposição (ainda que inconsistente) de diktats “pró-mercado”. Havia uma boa razão para esses problemas se afastarem do foco à medida que a austeridade rígida do meio da década de 2010 diminuiu e as autoridades da UE afrouxaram sua camisa de força fiscal no período da pandemia. No entanto, essas questões fundamentais estão ressurgindo, e pode ser que uma França fortemente endividada e cheia de crises seja o epicentro dos problemas do bloco nos próximos anos.

Os fracassos dos centristas não alimentarão automaticamente uma resposta solidária e de esquerda. Na maioria dos países europeus, eles não alimentaram, e a Esquerda geralmente é mais fraca do que após a crise de 2008. A Comissão Europeia, em conjunto com os mercados financeiros e outros poderes, pode resistir seriamente a uma política anti-austeridade em um Estado membro fortemente endividado. Para grande parte da França de cidades pequenas, incluindo os grupos de classe média, a marca chauvinista de desvalorização interna do Rassemblement National — menos impostos, menos moradia social, menos benefícios para imigrantes — ao menos promete descarregar os custos da crise sobre outra pessoa. O partido de Le Pen pode, de fato, lucrar eleitoralmente ao fundir uma versão de austeridade com a defesa de partes selecionadas do estado de bem-estar social.

A Esquerda, ao menos, ainda está na disputa. Vez após vez dada como inelegível e extrema, o France Insoumise conseguiu carve-out um espaço distinto para si e estabelecer uma posição forte dentro de um amplo campo de esquerda. Isso nunca irá integrar figuras de esquerda neoliberalizada como François Hollande ou Raphaël Glucksmann, que têm uma agenda oposta. Mas unir os partidos de esquerda e seus 25 ou 30% de votos é, de qualquer forma, um objetivo limitado demais. Para criar um governo alternativo possível, a Esquerda precisa oferecer um caminho credível para sair da austeridade e mostrar que a prisão da dívida não é apenas uma força da natureza. Isso também significa enfrentar com franqueza a resistência que sua política enfrentaria, tanto na França quanto na União Europeia.

Contribuidor

David Broder é editor da Jacobin na Europa e historiador do comunismo francês e italiano.

22 de novembro de 2024

É hora de acabar com a guerra na Ucrânia

A posição militar da Ucrânia está piorando, e há sinais de fadiga na frente doméstica. Uma escalada de retaliação entre Washington e Moscou seria desastrosa para os ucranianos e para todos nós.

David Broder

Jacobin

Uma mulher olha para um buraco em sua casa danificado pelo bombardeio russo na cidade de Kostiantynivka, Ucrânia, em 22 de novembro de 2024. (Diego Herrera Carcedo / Anadolu via Getty Images)

"Seja razoável." Depois que o governo de Joe Biden autorizou as forças ucranianas a usar mísseis de longo alcance dos EUA para atacar alvos dentro da Rússia esta semana, o presidente da França, Emmanuel Macron, pediu a Moscou que não exagerasse. As autoridades russas afirmaram que os ataques usando mísseis ATACMS devem ter dependido do envolvimento operacional direto dos EUA, e o Ministro das Relações Exteriores Sergei Lavrov falou de uma mudança “qualitativa” na guerra — sugerindo que isso poderia até mesmo empurrar Moscou para o uso de armas nucleares. O apelo de Macron por “razão” dificilmente foi tranquilizador. Ele se baseia na esperança de que, ao contrário de alegações anteriores sobre a “loucura” da liderança russa, ela possa silenciosamente se abster de incinerar mais ucranianos, ou outros, em resposta.

ATACMS — ridiculamente pronunciados como "ataque 'ems" — ataques em território russo foram apresentados de forma restrita por autoridades do governo Biden como uma mudança tática, em resposta à mobilização relatada de soldados norte-coreanos para desalojar tropas ucranianas do Oblast de Kursk, na Rússia. Isso não é convincente. Biden há muito tempo lançou tais ataques como uma linha a não ser cruzada para provocar retaliação russa — uma postura agora abandonada no final de seu mandato. Este movimento também é claramente sobre a transição de um governo dos EUA para o outro: nos termos de Anatol Lieven, forçar Donald Trump a não abandonar a Ucrânia ou, visto de uma forma mais benigna, tentar fortalecer a mão da Ucrânia nas esperadas negociações de paz.

Relatos na quinta-feira sobre o uso pela Rússia de um míssil balístico de alcance intermediário (IRBM) contra a Ucrânia minaram qualquer ideia de que a política do governo Biden castigaria Vladimir Putin, em vez disso, insinuando do que os militares russos são capazes, felizmente ainda não com uma carga nuclear. A ideia de que a posição de negociação da Ucrânia está sendo reforçada também parece distante da realidade. Falando à Fox na quarta-feira, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky recuou de sua posição desafiadora anterior sobre a necessidade de expulsar as tropas russas de todo o território ucraniano, comentando que "dezenas de milhares de nosso povo não poderiam perecer" pelo bem da Crimeia. Anexada em 2014, a península pode, ele disse, ser recuperada por meio de "diplomacia" — na verdade, chutando a perspectiva para o mato alto.

Uma luta por todos nós?

A estratégia de Zelensky há muito tempo é internacionalizar, ou pelo menos ocidentalizar, a guerra, enquadrando-a como uma luta existencial para a Ucrânia, mas também para a Europa e os Estados Unidos. No entanto, há sinais de fadiga ocidental. Alguns funcionários da UE discutem a remilitarização e, portanto, compensar a folga se Trump deixar de ajudar a Ucrânia — mas essa dificilmente é uma visão unânime. Antes das eleições da Alemanha esperadas para fevereiro, o chanceler sem brilho Olaf Scholz parece estar suavizando sua posição. Seu telefonema para Putin na sexta-feira passada — o primeiro em dois anos — foi amplamente visto como uma resposta aos apelos para pôr fim à guerra, um sentimento que hoje impulsiona o apoio à extrema direita Alternative für Deutschland, bem como ao partido eclético de Sahra Wagenknecht. Atolado em dramas orçamentários, Scholz busca uma posição entre essas forças dissidentes e liberais mais agressivos.

A política ocidental, de forma mais ampla, está dividida entre aumentar os fundos para Kiev, cortar o fornecimento ou mesmo usar a guerra contínua como um meio de dar início à reindustrialização. Mas mesmo na Ucrânia, há sinais consideráveis ​​de que a resiliência que impulsionou a mobilização contra a invasão de fevereiro de 2022 não pode durar para sempre ou para todos. Se há uma lista decrescente de homens ainda a serem mobilizados, os números desertando, recusando-se a se alistar ou deixando de atualizar seus dados com as autoridades militares também apontam para um mal-estar mais profundo. Milhões de ucranianos lutaram admiravelmente pela defesa de seu país e trabalharam para manter unida uma sociedade ofendida e ferida. Mas se, como diz Zelensky, "dezenas de milhares" não devem morrer pela Crimeia, muitos aparentemente duvidam que valha a pena pelas aldeias ocasionalmente trocadas no Donbas.

Dificilmente podemos propor que paz mutilada os ucranianos devem engolir, principalmente devido ao provável precedente sombrio de território conquistado pela força. Não há razão, em princípio, para preferir “conversar” em vez de “lutar”, diante de uma apropriação de terras descaradamente imperialista. Mas devemos duvidar que aqueles no Ocidente que pregam a guerra até o fim estejam apenas “levantando vozes ucranianas”. Obter até mesmo uma noção da vontade popular é obviamente difícil, particularmente dada a queda drástica da população durante a guerra, os quase sete milhões de refugiados em outros países (mais de um milhão na própria Rússia) e o fato de que ainda mais milhões vivem sob ocupação russa. No entanto, a pesquisa Gallup fornece um instantâneo de uma tendência: sugere que, onde nos dois primeiros anos da guerra uma grande maioria dos ucranianos priorizava a vitória total em vez do fim da guerra, agora metade favorece negociações imediatas.

Isso certamente não é porque eles imaginam que as negociações trarão algum tipo de compromisso esclarecido e coexistência pacífica. Isso é um produto de uma sociedade castigada pela guerra e pelo medo do pior. As conversas não serão sobre resolver diferenças, mas sobre a lógica do poder, neste caso a imposição da vontade do estado russo sobre seu vizinho, presumivelmente envolvendo muitas humilhações e uma soberania profundamente comprometida. Se, nas palavras de Zelensky, Kiev não "reconhecerá legalmente" a mutilação de seu território pós-1991, esta fórmula parece projetada para abrir espaço para soluções temporárias ambíguas. A liderança russa pode muito bem se contentar em transformar a Ucrânia em uma zona inviável de "conflito congelado", a falta de uma paz final também garantindo turbulência permanente na política interna da Ucrânia.

Os especialistas ocidentais que pedem uma escalada cada vez maior não são afetados pela retaliação resultante, que cai sobre a própria Ucrânia. O fato de isso ser culpa do Kremlin não torna este um curso de ação viável. Aqui na Alemanha, o partido cuja base está menos disposta a se juntar ao exército — os Verdes — é o mais agressivo em relação à Ucrânia. Ao olhar pela janela para um bloco de apartamentos pré-fabricados em Berlim Oriental, posso esperar que ele não seja atingido por um IRBM antes de eu terminar este artigo. No entanto, a escalada retórica e militar tem uma lógica própria, e a ostentação sobre esta guerra, mesmo falando de nós mesmos como "cobeligerantes", nos empurrou para compromissos que poucos querem assumir. A guerra testou até a destruição a ideia de que o Ocidente poderia estrangular o imperialismo russo por controle remoto, e tornou mais prováveis ​​guerras futuras e mais quentes.
Dissidência

Diante da sombria escalada militar, seria bom celebrar o poder rival das pressões democráticas de baixo. No entanto, elas existem apenas em formas dispersas e longe das dimensões de revolta e derrubada. Nas sociedades mais diretamente envolvidas, os milhões que fugiram do conflito não exatamente "votaram com os pés", dadas as muitas razões possíveis para a saída. Ainda assim, esta tem sido uma válvula de pressão, ou uma fuga necessária de uma situação terrível. Certamente há dissidência antiguerra dentro da Rússia, mas ela luta para assumir qualquer dimensão de massa e não cruzou caminhos com algum tipo de crise fundamental do regime; quanto a divisões na elite do poder, até mesmo uma escapada como a tentativa de golpe de Yevgeny Prigozhin em junho de 2023 parece distante hoje.

Autoridades ucranianas propuseram eleições em algum momento em 2025: certamente mais democráticas na forma do que um exercício semelhante na Rússia, mas dificilmente apresentarão boas alternativas. As dificuldades mencionadas nas pesquisas de opinião se aplicam também ao próprio processo eleitoral, e a repressão política daqueles chamados traidores também é um mau presságio para a probidade democrática. Eleger um presidente de guerra em condições em que a Ucrânia é militarizada, parcialmente ocupada e pendurada em uma corda por seus patronos ocidentais é um exercício evidentemente limitado de soberania popular. Isso permitiria, pelo menos, que a maior parte dos ucranianos tivesse alguma palavra mensurável e reconhecida sobre o que deveria acontecer a seguir, embora qualquer tipo de consenso pareça longe de ser provável. Qualquer governo que busque negociações de paz pode esperar resistência considerável, até mesmo violenta.

A escolha de Biden de autorizar o uso do ATACMS não foi apenas uma escolha dos EUA, respondendo a um chamado do próprio governo de Zelensky. Muito mais questionável era a sabedoria, ou propriedade democrática, de um presidente que está em fim de mandato lançando uma reviravolta histórica na política externa que ainda poderia sair do controle. Tal espetáculo e as consequências temidas parecem improváveis ​​de fortalecer a determinação pública dos EUA ou do Ocidente em apoio a mais ajuda à Ucrânia. Há forças, na Europa Oriental e nas capitais da UE em geral, que prometem uma luta até a vitória, até mesmo se apresentando como capazes de preencher o lugar caso o apoio dos EUA a Kiev se torne mais condicional sob Trump. Mas a pesquisa, não mais atualizada no site do Parlamento da UE, sugere que as variadas forças de dissidência, pacifismo, apatia e fadiga corroeram esse suposto consenso.

Biden, um homem da geração de políticos da Guerra Fria, talvez já tenha esquecido a lógica do terror equilibrado que antes levava as lideranças ocidentais a se absterem de entrar em conflito muito diretamente com Moscou. Ainda assim, as populações na Ucrânia (particularmente aquelas de renda mais baixa e idade para lutar) e na UE estão talvez mais alertas para o que uma nova escalada pode significar. Se esta guerra é de fato uma "luta existencial" sobre o Ocidente e seus valores, então suas atitudes e interesses não podem ser descartados. Precisamos de mais do que apenas implorar para que Putin seja "razoável" em sua resposta ao partido da guerra ocidental. Isso significa um plano acionável sobre como a Europa pode sair desta guerra, e rápido.

Colaborador

David Broder é editor europeu da Jacobin e historiador do comunismo francês e italiano.

9 de novembro de 2024

Torcedores israelenses falavam sério quando gritavam "morte aos árabes"

Torcedores do time Maccabi Tel Aviv causaram um tumulto em Amsterdã enquanto gritavam slogans como "não há escolas em Gaza, pois não há mais crianças". Embora a mídia tente esconder ou amenizar dizendo que são apenas provocações, seus slogans dizem a verdade sobre os objetivos da guerra israelenses contra os palestinos.

David Broder


Torcedores do Maccabi Tel Aviv fazem uma manifestação com cantos genocidas antes de uma partida contra o Ajax em Amsterdã, Holanda, em 7 de novembro de 2024. (Mouneb Taim / Anadolu via Getty Images)

Tradução / Após os acontecimento de quinta-feira passada em Amsterdã, muitos comentaristas estavam notavelmente desinteressados ​​na verdade do que havia realmente acontecido. Os confrontos entre hooligans israelenses, torcedores holandeses e cidadãos locais, muitas vezes de minorias étnicas, se transformou rapidamente em um incidente internacional — e era óbvio o suficiente qual lado a maioria dos nossos líderes e mídia escolheria. A linguagem do “antirracismo” e “anti-semitismo” foi mobilizada para nos dizer quem era culpado e quem era bonzinho.

Joe Biden descreveu uma onda de “ataques antissemitas… ecoando momentos sombrios da história”. O rei holandês falou sobre como seu país falhou com os judeus “durante a Segunda Guerra Mundial”. A palavra “pogrom” se espalhou pela mídia, com a maioria dos veículos suprimindo fatos básicos sobre os acontecimentos.

A violência é ruim e não tem lugar dentro ou ao redor de um estádio de futebol. Felizmente, ninguém foi realmente “sequestrado”, como foi relatado inicialmente. Responder à provocação é frequentemente uma péssima ideia, e quaisquer casos de alguém sendo assediado por causa de sua nacionalidade ou religião devem ser examinados. Ainda assim, é difícil lembrar de uma ocasião semelhante em que hooligans apareceram procurando briga e depois são tratados como heróis. Foi isso que pelo menos várias centenas de torcedores do Maccabi Tel Aviv fizeram em Amsterdã.

Muitos passaram o último dia provocando brigas com pessoas que viam como muçulmanas, pedindo o assassinato coletivo de árabes, arrancando bandeiras da palestina e até protestando contra um minuto de silêncio pelas vítimas da enchente da semana passada em Valência, Espanha. Este último incidente, no estádio, foi transmitido ao vivo pela TV; toda a história foi amplamente documentada nas redes sociais bem antes de muitas das manchetes sensacionaistas e declarações políticas sérias.

Muitos jornalistas ignoraram informações básicas sobre o que os torcedores israelenses fizeram em Amsterdã. Talvez isso tenha acontecido porque os hooligans estavam cantando a verdade e, consequentemente, revelaram o que realmente pensam sobre a guerra em Gaza, que os governos ocidentais apoiam e financiam.

Slogans como “Deixem as IDF [exército israelense] vencerem, fodam-se os árabes” não devem, neste momento, ser considerados piadas ou provocações extremistas. Esses slogans são a realidade do que Israel está fazendo e o que é apoiado pela maioria da sociedade israelense, exceto por uma corajosa minoria de críticos. Até mesmo uma figura como o ministro da defesa recentemente demitido Yoav Gallant — esta semana amplamente apresentado como um raro “moderado” no governo de Benjamin Netanyahu — rotulou os inimigos de Israel de “animais humanos” e insistiu que um “cerco completo” deveria cortar “eletricidade, combustível e comida” dos palestinos.

Um dos slogans mais vis cantados pelos torcedores do Maccabi Tel Aviv foi de que “não há escolas em Gaza, pois não há mais crianças”. Orgulhosa de sua intenção genocida, essa fala é parcialmente verdadeira. De acordo com a UNICEF, cerca de 625.000 crianças palestinas já passaram mais de um ano sem ir às aulas. Seiscentos e vinte e cinco mil. Quarenta e cinco mil alunos do primeiro ano, ou pelo menos crianças que deveriam estar no primeiro ano, não começaram o ano letivo em setembro; graças a Israel, milhares nunca começarão. Uma minoria de crianças está morta (pelo menos dezenas de milhares estão).

Mas Israel danificou ou destruiu cerca de 90% das escolas de Gaza. Com o bombardeio em massa de casas e a limpeza étnica de faixas inteiras de território, até mesmo os prédios que ainda estão de pé são usados ​​pelos deslocados como um simples refúgio.

Nossos líderes políticos poderiam ter dedicado mais palavras a esse vasto e inconcebível sofrimento. Talvez os jornalistas que se apresentam como combatentes contra as “notícias falsas” e a “desinformação” pudessem ter pesquisado outras fontes além das contas governamentais do Twitter/X.

Mas a boa notícia é que menos pessoas estão comprando a narrativa israelense. Só na semana passada, 100 funcionários da BBC criticaram as reportagens tendenciosas e infundadas de seu próprio empregador por repetirem sem crítica as alegações israelenses sobre a guerra e desumanizarem os palestinos. Mesmo na Alemanha, cuja classe política está entre as mais extremas do mundo em seu apoio a Israel, mais cidadãos não confiam nas reportagens da mídia sobre a guerra.

Os torcedores do Maccabi Tel Aviv mostraram aos telespectadores comuns e usuários das redes sociais quem eles realmente são. Ouça-os e acredite neles.

Colaborador

David Broder é historiador do comunismo francês e italiano. Ele está atualmente escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.

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