30 de dezembro de 2019

Israel está finalmente sendo investigado por crimes de guerra

Depois de muita enrolação, o Tribunal Penal Internacional está investigando Israel por crimes de guerra contra os palestinos nos últimos cinco anos. Está muito atrasado.

Belén Fernández


A promotora-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), Fatou Bensouda, fazendo um discurso durante a 18ª sessão da Assembléia dos Estados Parte da CCI, realizada em Haia, Holanda, em 2 de dezembro de 2019. Foto: Abdullah Asiran / Agência Anadolu via Getty

Tradução / Em 20 de dezembro, o Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia anunciou que a promotora Fatou Bensouda estava “satisfeita por haver uma base razoável para iniciar uma investigação sobre a situação na Palestina”. “Há uma base razoável para acreditar que crimes de guerra foram cometidos ou estão sendo cometidos na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza. ”

Claro, isso deveria ser óbvio – e mesmo assim levou quase cinco anos (um “exame preliminar” da situação foi aberto em janeiro de 2015) para que o TPI chegasse à conclusão de que “não há razões substanciais para acreditar que uma investigação não serviria aos interesses da justiça”. E, no entanto, os palestinos estão esperando há mais de setenta anos por justiça, então, comparado a isso, talvez cinco seja até pouco.

Não que a “justiça” seja um resultado garantido nos empreendimentos jurídicos internacionais que muitas vezes equivalem a charadas torturantemente burocráticas. Tampouco, é importante ressaltar, a investigação da Palestina recebeu sinal verde oficialmente – Bensouda está primeiro buscando confirmação de que a jurisdição do tribunal se aplica ao território em questão. Enquanto a Palestina é signatária do TPI, Israel – assim como seu “BFF”, os Estados Unidos – não é.

Além disso, a investigação proposta analisaria não apenas as alegações de crimes de guerra israelenses, mas também palestinos – um fato que foi cuidadosamente ignorado na reação tipicamente escandalosa de Israel ao anúncio do TPI. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu soou o bom e velho alarme do antissemitismo, enquanto classificava a decisão do TPI como “infundada e escandalosa” e “um dia sombrio para a verdade e para a justiça”. O rival de Netanyahu, Benny Gantz, ex-chefe das forças armadas israelenses, afirmou que “o exército israelense é um dos mais morais do mundo” e que “o exército israelense e o Estado de Israel não cometem crimes de guerra”. Caso encerrado.

A investigação do TPI sobre a “situação na Palestina” remonta apenas a 13 de junho de 2014 e inclui várias alegações de crimes de guerra durante a Operação Margem Protetora de Israel, no verão de 2014, na Faixa de Gaza. Essa incursão em particular matou cerca de 2.251 palestinos em questão de cinquenta dias, a maioria deles civis; 551 eram crianças. Seis civis israelenses morreram.

Também prevista para talvez investigação, está a brutal repressão militar israelense de manifestantes palestinos que participaram da Grande Marcha do Retorno, que começou em 2018 e resultou na morte de mais de 200 pesssoas, incluindo mais de 40 crianças, e em milhares de pessoas feridas. Na opinião do TPI, há também uma “base razoável para acreditar que, no contexto da ocupação de Israel na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, membros das autoridades israelenses cometeram crimes de guerra … relacionados, entre outros, com a transferência de civis israelenses para a Cisjordânia.”

Em outras palavras, esse é um compromisso judicial relativamente suave, considerando que nas últimas mais de sete décadas o Estado de Israel constituiu – em termos de massacres e usurpação territorial – essencialmente um crime de guerra contínuo.

Em 27 de dezembro, o Jerusalem Post exibiu em sua manchete um artigo de opinião com um tom estranhamente racional “Para combater o TPI, Israel precisa de uma liderança que realmente queira a paz” – que continuou soando racional por uma fração de segundo até se descobrir que o autor da intervenção não foi outro senão o ex-primeiro ministro israelense Ehud Olmert, que comandou:


  1. A guerra de Israel no Líbano em 2006, que matou cerca de 1.200 pessoas em 34 dias, a maioria civis.
  2. A operação de Israel em Gaza em 2006 – de codinome “Chuva de Verão” – que deixou mortos pelo menos 240 palestinos em dois meses, entre eles 48 crianças.
  3. A operação de Israel em 2008- 2009 em Gaza, que resultou na morte de cerca de 1.400 palestinos em três semanas, incluindo mais de trezentas crianças.


Crimes de guerra? Conte-me mais sobre isso.

Em seu artigo errático, Olmert afirma que as ações de Bensouda estariam “baseadas em maldade, malícia, fraude e distorção, com uma pitada de sentimento anti-Israel”. Ele então admite que o estado de Israel “tem controlado a vida de milhões de palestinos por mais de 50 anos, e não há dúvida de que os palestinos não têm direitos iguais ou reconhecimento nacional na terra onde são maioria.”

Mas ainda assim, “o lado responsável por frustrar um acordo de paz” teria sido “indiscutivelmente os palestinos”. Porém, “não há como negar que nos últimos 10 anos, Israel tem sido o lado agressivo e teimoso que carece de flexibilidade, e isso é [a] principal razão pela qual não apenas um acordo de paz nunca foi alcançado, mas sequer foram iniciadas as primeiras discussões. Contudo, “somente se os palestinos estiverem preparados para tomar as medidas políticas de longo alcance, necessárias para estabelecer uma sociedade produtiva e funcional, haverá alguma chance de se alcançar a paz entre Israel e os palestinos. “

O artigo segue nessa toada – e o único ponto fundamental é que Ehud Olmert não deveria escrever artigos de opinião se ele não souber qual é a sua opinião.

Outro artigo de opinião no Jerusalem Post publicado no mesmo dia – “Recusando jogar o jogo palestino do TPI” – é bem mais seguro em suas convicções. Nele, Nitsana Darshan-Leitner discute como “o TPI e a ameaça de investigações de crimes de guerra são apenas a versão mais recente da OLP da diplomacia de galho-e-pistola [de oliveira] de Arafat [último líder da OLP]. Só estaria acontecendo porque “Bensouda estava cansada de perseguir ditadores africanos e líderes tribais brutais, e queria mostrar que o TPI é um tribunal com alcance verdadeiramente internacional”. Portanto, não haveria “nada mais sexy” para ela do que o conflito Israel-Palestina.

A biografia de Darshan-Leitner a identifica como uma “advogada israelense de direitos civis e presidente do Centro de Direito Shurat HaDin” – a instituição que é conhecida por oferecer excursões como a “Última Missão de Israel”, na qual pessoas com muita grana pra gastar podem fazer coisas emocionantes, como assistir a um “julgamento de terroristas do Hamas” em um tribunal militar israelense.

Quanto ao que a “lei” tem a ver com um país que se colocou inquestionavelmente acima dela, talvez a busca por justiça pelo “TPI”, ainda que longe de perfeita, pelo menos pode ajudar a destacar a aversão que Israel sente por esse conceito.

Sobre a autora

Belén Fernández é a autora de The Imperial Messenger: Thomas Friedman at Work (O Mensageiro Imperial: Thomas Friedman no Trabalho), Marytrs Never Die: Travels through South Lebanon (Mártires Nunca Morrem: Viagens pelo Sul do Líbano) e, mais recentemente, Exile: Rejecting America and Finding the World (Exílio: Rejeitando a América e Descobrindo o Mundo). Ela é editora colaboradora da Jacobin.

29 de dezembro de 2019

Uma década perdida para a desigualdade

Não há meritocracia sem nivelar as oportunidades

Pedro H. G. Ferreira de Souza


Crianças brincam em local próximo a restos de lixo no prédio que antes abrigava sede do IBGE na favela da Mangueira, no Rio Felipe. (Dana/Associated Press)

Os anos 2010 foram mais uma década perdida para o Brasil. Graças a uma recessão brutal e a uma recuperação anêmica, chegaremos a 2020 com PIB per capita real menor que o de dez anos atrás. Não à toa, muitos debruçam-se diariamente sobre indicadores econômicos à procura de sinais de vida.

Nosso atoleiro possui, no entanto, um lado muito menos discutido, mas tão sombrio quanto a estagnação econômica: do ponto de vista do combate à desigualdade de renda, os anos 2010 foram mais perdidos ainda. A acanhada redistribuição vivida antes não só chegou ao fim como foi revertida.

Quase todos sofreram com a crise, porém quem mais perdeu foram os mais vulneráveis. Em 2018, os 50% mais pobres ainda estavam afundados na crise, com renda menor do que em 2015, já que o crescimento do período ficou quase todo nas mãos dos 10% mais ricos.

A concentração de renda no topo segue inabalável como um dos nossos traços mais marcantes. Em todas as comparações internacionais, o Brasil permanece entre os países mais desiguais do mundo, acompanhado por nações do Oriente Médio, vizinhos sul-americanos e outros suspeitos de sempre.

Há quem diga que nada disso é um problema. A desigualdade seria irrelevante, e nosso foco deveria recair apenas na erradicação da pobreza ou na promoção da igualdade de oportunidades (bom, até o momento ninguém defende publicamente a desigualdade de oportunidades.)

O argumento é descabido porque apenas a redução da desigualdade permitiria a realização desses objetivos. No primeiro caso, os motivos são óbvios. Tributar os mais ricos e transferir recursos para os mais pobres é sempre receita segura para diminuir a pobreza —e hoje sabemos que as consequências dessas medidas para a economia são bem menos graves do que se temia há 30 anos.

Raciocínio análogo vale para as oportunidades: países mais igualitários possuem maior mobilidade social entre gerações, e vice-versa. Faz sentido: quando a desigualdade é muito alta, os recursos que os ricos investem em seus filhos são tão superiores aos dos pobres que se torna impossível falar seriamente em meritocracia. Afinal, como esperar que a educação pública nivele oportunidades quando as mensalidades das melhores escolas privadas custam mais do que o dobro do PIB per capita, como é o nosso caso?

Por que então é tão difícil reduzir a desigualdade? Há motivos históricos e econômicos, mas os principais obstáculos são políticos. É difícil impedir que o poder econômico se converta em influência política quando a concentração de renda é alta. As assimetrias de poder expressam-se na capacidade de lobbies, bancadas e corporações de pautar a agenda política, reivindicar vantagens e vetar mudanças, sempre embalando benefícios privados na retórica grandiloquente do desenvolvimento nacional.

Em algum grau, isso ocorre em todas as democracias. Nunca é fácil promover redistribuição em condições normais. Não por acaso, nove entre dez governantes apostam no crescimento para diluir os conflitos sociais, o que nem sempre dá certo, como atestam exemplos recentes. Só que nosso caso é dramático porque a desigualdade é extrema e persistente, e o crescimento é decepcionante há décadas.

Sair dessa encruzilhada é muito mais difícil do que propor políticas e programas específicos. O debate sobre reforma tributária serve como exemplo: há abundantes evidências de que podemos aumentar muito a arrecadação e a progressividade do imposto de renda e diminuir a tributação sobre bens e serviços, o que beneficiaria a maior parte da população sem prejuízo da atividade econômica.

Politicamente, no entanto, não avançamos nessa direção há décadas, pelo contrário. Nenhuma das duas (boas) propostas de reforma em discussão no Congresso toca no assunto, preocupando-se apenas com a racionalização e desburocratização dos tributos indiretos.

Não há atalhos se quisermos ser menos desiguais. Como nem começamos a fazer o dever de casa, temos que correr contra o relógio para que os anos 2020 não sejam mais uma década perdida no aspecto distributivo.

* As opiniões aqui emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do Ipea

Sobre o autor

Doutor em sociologia (UnB), pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e autor de 'Uma História de Desigualdade: A concentração de renda entre os ricos no Brasil (1926-2013)”, ganhador do Prêmio Jabuti 2019 nas categorias 'Humanidades' e 'Livro do Ano' (ed. Hucitec/Anpocs)

28 de dezembro de 2019

Um ano de retrocessos

Se foi ruim para o povo, não foi bom para o país

Gleisi Hoffmann

Folha de S.Paulo

A presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), durante entrevista à Folha. Pedro Ladeira/Folhapress

Torço pelo Brasil. Minha militância política, assim como a trajetória do PT, foi sempre dedicada a melhorar a vida do povo brasileiro. Por isso afirmamos que 2019 não foi bom para o Brasil, porque foi ruim para seu povo.

A vida da imensa maioria piorou sob o governo da extrema-direita e sua agenda econômica neoliberal, que só é exequível impondo limites e retrocessos à democracia. O país andou para trás na renda do povo, na saúde, na educação, na defesa do meio ambiente, na liberdade.

Nada se fez para conter o agravamento da desigualdade num país que já concentra 28,3% da renda total nas mãos de 1% da população, a mais indecente taxa do mundo junto com o Qatar, segundo a ONU. São esses que festejam uma “retomada” econômica de fundamentos frágeis e imperceptível para a maioria.

No Brasil real de 2019, a renda dos mais pobres caiu, a dos mais ricos subiu e a inflação aumentou mais para o pobre que para o rico, de acordo com o Ipea.

O desemprego ficou nas alturas, e quase 90% das ocupações criadas são informais, segundo o IBGE. A taxa de trabalhadores sem registro, sem direitos e proteção social já ultrapassa 40% —sem falar dos desalentados que nem ocupação têm. São estes que sofrem com o aumento dos combustíveis e do gás de cozinha; e do abusivo preço da carne, que contamina o de todos os alimentos.

Falamos de 89,6% da população com renda domiciliar per capita de até um salário mínimo. É sobre ela que recai o fim do reajuste real do salário e a cruel taxação do seguro-desemprego. E recairá a reforma injusta da Previdência que penaliza os trabalhadores e mantém privilégios.

Não pode ser considerado bom para o país um ano em que a educação foi declarada inimiga pelo governo. Um ano em que a população perdeu os médicos cubanos, a Farmácia Popular, 10 mil vagas de agentes de saúde e termina com o anúncio de uma inédita redução nas verbas do SUS. Com um corte de R$ 2 bilhões no Bolsa Família, que não vai repor a inflação nem pagará o prometido 13º mês.

Como considerar positivo um ano em que a fome voltou a flagelar o país?

Não foi bom um ano em que o desmatamento aumentou 83%, com incentivo de um governo que dilapidou nossa imagem junto aos ambientalistas e à comunidade internacional. Em que posse, porte e uso de armas foram estimulados criminosamente; líderes indígenas e sindicalistas foram assassinados; professores e artistas, perseguidos; e mulheres, pessoas negras e LGBTs sofreram violência.

No centro desses retrocessos está a imposição de um modelo concentrador de riqueza e renda, excludente por princípio e que propõe o desmonte do Estado —não só por meio da privatização selvagem de empresas como a Petrobras e riquezas como o pré-sal, mas pela destruição dos instrumentos de construção da soberania nacional, como os bancos públicos e o fomento à ciência e tecnologia.

Assusta, particularmente, o papel do Congresso Nacional, em especial da Câmara dos Deputados, como fiadora da implantação desse modelo que não deu certo em nenhuma democracia. O ano de 2019 teria sido melhor, certamente, se as instituições como um todo tivessem reagido à deliberada destruição do país e das forças produtivas, que favorece os bancos e interesses estranhos ao Brasil, mas compromete o presente e o futuro de gerações.

Além de continuar torcendo pelo Brasil, queremos que 2020 seja o ano da reconstrução da esperança, com a anulação da sentença injusta contra Lula e a retomada plena da democracia.

Que seja um ano bom para o povo. É isso o que verdadeiramente importa.

Sobre o autor

Deputada federal (PT-PR), presidenta nacional do PT, ex-senadora (fev. a jun.2011 e fev.2014 a jan.2019) e ex-ministra-chefe da Casa Civil (2011-2014, governo Dilma)

Futebol italiano, o espelho de uma sociedade em crise

Nas décadas de 1980 e 1990, a Série A da Itália era a principal liga de futebol do mundo. Mas à medida que os interesses financeiros destituem os clubes que antes eram ótimos e as arquibancadas se tornam o lar de um abuso racista severo, o futebol italiano não se parece mais com um "jogo bonito".

Uma entrevista com
John Foot


Nikolas Spalek (R) of Brescia celebrates with Mario Balotelli after scoring his team's third goal during the Serie A match between Brescia Calcio and US Lecce at Stadio Mario Rigamonti on December 14, 2019 in Brescia, Italy. Tullio M. Puglia / Getty

Tradução / O ano que acabou foi marcado por diversos aniversários na Europa – a queda do Muro de Berlim, o saudoso Outono Quente italiano de 1969, os cem anos do primeiro Biênio Vermelho, são algumas comemorações. Entre elas, há também o nonagésimo aniversário da criação da Série A – o mais importante campeonato de futebol italiano, deleite de milhões de torcedores apaixonados em todas as religiões da Itália. A consagração da “fanática religião cívica” italiana era obrigatório todo domingo, até os jogos começarem a se espalhar para os dias da semana, a pedido dos conglomerados de TV.

Mas o futebol italiano nem sempre foi o que é agora. Uma mudança específica ocorreu com a Carta de Viareggio de 1926, um texto fundamental que anunciava a profissionalização e a criação da Série A. Este documento foi conduzido por duas forças que quase imediatamente viriam a moldar o futebol na Itália: indústria e política.

Nesse mesmo período, figuras políticas impuseram seu controle sobre um esporte que já chamava a atenção das massas. A Carta sancionou a criação de um campeonato único nacional – em sincronia com o discurso nacionalista do fascismo que acabara de se consolidar – e representou o enfraquecimento dos campeonatos regionais. Apesar das mudanças no número de times e na contagem de pontos, a divisão entre Série A e B, naquele momento, acompanhou a evolução de uma competição crescente na Itália e no mundo.

No auge das décadas de 1980 e 1990, a Série A era a principal liga de futebol do mundo, desempenhando um papel decisivo na formação do jogo moderno – com craques do mundo todo, esbanjando o equilíbrio entre times das grandes cidades e a província; apresentou as primeiras transferências milionárias, como aquela de Gianluigi Lentini para o Milan de Berlusconi em 1992. No entanto, ficou para trás de seus concorrentes estrangeiros nos últimos anos, em particular a Premier League da Inglaterra. Por tudo isso, continua sendo um espelho fascinante e distorcido da sociedade italiana, com todas as suas esperanças, contradições e sofrimento.

John Foot, autor do livro Calcio: A History of Italian Football, é um dos principais historiadores da sociedade italiana e da cultura popular. Para o professor da Universidade de Bristol, “é quase impossível compreender a Itália sem entender o futebol – e vice-versa”. No final de semana em que a final da Supercoppa Italiana foi disputada em um estádio saudita, Foot falou com Giacomo Gabbuti e Francesco Santimone da Jacobin Itália sobre como dinheiro, nacionalismo e migração criaram o esporte nacional – e como o futebol moldou a sociedade.

Vamos começar do começo. Nesse ano (2019) comemora-se também os 110 anos do nascimento da Figc, que desde a escolha da palavra “calcio”, único caso no mundo em que não adotou-se a tradução da pala “football”, em inglês, na tentativa de fazer referência e estabelecer continuidade com a pseudo-tradição do Futebol Histórico Fiorentino, deixou em evidência sua forte conotação nacionalista. Em 1909, ocorre também o primeiro jogo da seleção italiana em que, diante de uma acalorada polêmica sobre o número de jogadores estrangeiros, com o contraste entre os jogadores do Internacional, Gênova e os “Leões” do italianissimo Pro-Vercelli, a seleção escolhe entrar em campo no seu jogo de estreia com seus atletas vestindo camisas inteiramente brancas, em homenagem à equipe piemontesa. Hoje a seleção italiana vive outra polêmica: se adota ou não o kit “Renascimento”, que reutiliza a camisa verde usada unicamente em 1954 e substitui a famosa camisa azul. Estamos assistindo uma inédita separação entre futebol e nacionalismo na Itália, com um futebol consciente sobre seu papel de freio contra os novos impulsos nacionalistas? Se sim, estamos adotando métodos efetivos?

É difícil dizer. Acredito que nos últimos anos presenciamos um distanciamento dos italianos da Seleção e o aumento da lealdade com o próprio time, especialmente em relação aos clubes com maior número de torcedores: Juventus, Milan, Inter e depois Napoli e Roma. No passado, essas duas identidades costumavam coexistir de maneira bastante eficaz – a fidelidade para com o próprio time não interferia muito ao apoio à Seleção italiana, pela qual existia uma forte identificação expressa nas grandes vitórias. Mas existe a evidência de que a força de atração da Seleção caiu nos últimos anos e a falta de qualificação para a última Copa do Mundo (2018) não causou um grande trauma. Contudo, o aumento do nacionalismo da Liga, liderada por Matteo Salvini, poderia ter um efeito interessante sobre a adesão à torcida para a Seleção. Ainda é cedo para tirar conclusões, os próximos campeonatos europeus serão um primeiro teste para essa hipótese. Política, identidade e Seleção sempre foram fortemente entrelaçados na Itália, desde o fascismo até como Pertini utilizou a vitória de 1982 para fortalecer seu próprio mito. De certa forma, o futebol sempre representou um dos poucos lugares onde sempre foi aceitável envolver-se na bandeira tricolor. Aliás, após a vitória de 1982, os jornais reportaram casos de pessoas de esquerda que celebraram nas praças com velhas bandeiras esburacadas, porque tinham retirado só naquele momento o velho brasão de Saboia, depois de deixá-las décadas acumulando pó em suas casas! É interessante que hoje, o movimento das chamadas Sardinhas entoa canções como Bella Ciao e Hino de Mameli. No passado, esse “envolvimento” com a bandeira nacional no futebol demonstrou ser um fenômeno breve e não deteve as divisões políticas. Cada derrota transformou-se em polêmica contra jogadores, treinadores ou outros personagens; sempre foi fácil achar bodes expiatórios. O futebol continua sendo uma linguagem universal, utilizado pelos políticos para comunicar com as massas de torcedores.

Dos grandes “santos” do banco (o mago Herrera, Liedholm, até Mourinho) até os jogadores (os estrangeiros dos quais devemos nos “defender”, aqueles que devem ser acolhidos pela “glória da pátria”, até a segunda geração “não completamente italiana”), o futebol italiano talvez tenha antecipado a relação problemática da Itália com a imigração. É um fenômeno recente e talvez efêmero também aquele da “fuga dos cérebros”, com os nossos grandes treinadores (Ancelotti, Conte, Sarri) e nossas jovens esperanças (como Kean) saindo da Itália para procurar sucesso em outro país. Podemos utilizar a Série A para traçar a história da relação entre a Itália e a imigração? O que aprendemos com isso?

A emigração, a imigração, a identidade, são continuamente compreendidas e representadas pelo esporte. O futebol, desde sua origem, absorveu e representou com veemência as contradições presentes nesses movimentos e identidades. Basta lembrar como os jogadores do sul da Itália, durante a grande migração interna entre os anos 1960 e 1970, tornaram-se representantes de alguns dos times mais importantes na época. O futebol italiano, assim como muitas outras instituições futebolísticas, foi globalizado. Quando o pressing [é uma tática do futebol que consiste em atacar o adversário limitando a área de jogo do campo oponente] conquistou o futebol italiano, na era de Arrigo Sacchi e do futebol total, muitos fanáticos deixaram o país para jogar o seu estilo em outro lugar – foi o caso de Gianfranco Zola, Benito Carbone, Paolo Di Canio. Recentemente, o relativo declínio financeiro da Série A aumentou a importância de jogadores de nacionalidades menos presentes até o momento, como os poloneses. O racismo das arquibancadas era mais ou menos ausente no final dos anos 1980 e no início dos anos 90, mas tornou-se frequente quando o racismo político decolou a partir da metade de 1990. As autoridades não tiveram a capacidade de detê-lo nos estádios, em parte devido ao poder dos Ultras, em parte pela falta de vontade política, por uma incompreensão do que seja racismo e por fim pela completa ausência de representatividade das comunidades de migrantes no interior das estruturas do futebol e de instituições sociais em geral. Mario Balotelli é a representação emblemática de tudo isso. Nascido e crescido na Itália (e durante grande parte da sua vida com pais adotivos italianos) ele foi o primeiro italiano negro que tornou-se uma estrela de fama internacional. Foi também o jogador mais insultado da história italiana, vítima de racismo quotidiano. A gravidade do problema foi negada; chegaram a dizer que não era racismo. Aqueles que ocupam lugares de poder e liderança dentro da sociedade italiana não tem nenhuma noção do que é racismo e de como combatê-lo. Enquanto isso, a Liga de Salvini estimula a divulgação de propagandas anti-imigração nas redes sociais. A recente campanha “Antirracismo” criada pela Série A, que utilizava macacos como ilustração (!) é apenas um exemplo dessa situação, talvez o mais grotesco.

Outro aspecto da relação entre política e futebol é aquele de ordem pública. Ainda que sejam descritos em tom sensacionalista, desde o começo o futebol italiano teve episódios de violência. Como citado em seu livro, os primeiros registros são de 1905; houve um pequeno aumento com a Grande Guerra. A primeira ligação do futebol com a política ocorreu em pleno Biênio Vermelho, com as “jornadas vermelhas” de Viareggio. O autoritarismo fascista sancionou a ligação entre futebol e repressão depois da crise ligada ao assassinato de Giacomo Matteotti; a final do campeonato italiano ocorreu em Bolonha, em 1925, com um jogo muito contestado e disputado a portas-fechadas, após diversos confrontos e tiroteios. Em 1926, é decretado outro arrocho das liberdades políticas, devido ao atentado fracassado contra Mussolini por parte de Anteo Zamboni, sempre em Bolonha, durante a inauguração do Estádio Littoriale no dia do aniversário da Marcha de Roma. Antonio Gramsci foi preso poucos dias depois. Hoje temos o Daspo Urbano e o Decreto de Segurança; as políticas experimentadas nos estádios são estendidas para o conflito social. Podemos dizer que o problema não são os estádios, mas sim as práticas repressivas de gestão da ordem pública de um Estado decisivamente pouco liberal?

Os estádios italianos são uma espécie de prisão, lugares dominados por lógicas de supervisão e custódia, onde torcedores são vistos como perigosos e por isso devem ser trancafiados. O Estado entende o futebol como uma questão de segurança pública. O outro lado da moeda são os Ultras – que no passado foram uma espécie de movimento social, mas hoje são, na maior parte da Itália, um grupo criminoso e violento de extrema-direita. Os ultras se alimentam da ligação entre o estádio-prisão e as sociedades futebolísticas; vendem bilhetes ilegalmente, drogas e ameaçam as próprias sociedades. Obviamente existem exceções, como o caso do trabalho de Tobias Jones com os ultras de Cosenza; mas ainda assim, o modelo Ultras é autoritário, hierárquico e nada inclusivo. O que devemos fazer? Difícil dizer. Ninguém possui a resposta e as detenções contínuas de torcedores não parecem surtir efeitos. A organização Ultras sobrevive graças ao mundo altamente controlado do “futebol moderno”. Pode parecer um anacronismo, mas é um modelo que inspira muitos outros torcedores de outros países, como demonstra David Goldblatt no seu livro “A era do futebol” (“The Age of Football”). O Estado italiano continua a administrar o sistema futebolístico de forma desastrosa, tentando gerir um longo declínio desde as vitórias dos anos noventa. O sucesso da Seleção feminina italiana na última Copa do Mundo nos dá esperanças de que o futebol feminino irá conquistar os recursos e o reconhecimento que merece – e que meninas sejam encorajadas a jogar futebol no nível mirim (como está ocorrendo com incrível velocidade no Reino Unido). Mas devo dizer que, pessoalmente, não tenho muita esperança. A renovação que parecia possível nos tempos do Calciopoli foi sufocada.

No momento em que Arcelor Mittal iniciou um traumático braço-de-ferro contra o governo italiano para decidir o futuro do ex Ilva de Taranto, o Daily Mail reportou o interesse da família Al-Thani pelo Napoli. Em poucos anos o Inter tornou-se tailandês e depois chinês; enquanto isso, Milan, Roma, Bologna e Fiorentina passaram pelas mãos de norte-americanos. A Juve, legalmente holandesa desde 2016, corre o risco de ver sua histórica ligação com a Fiat cortada, devido a suposta aquisição da gigante automobilística pela Psa francesa. Essa tendência segue o modelo inglês, de campeonatos cada vez mais internacionalizados, projetados para uma Superliga Europeia, com a Série B tornando-se cada vez mais o “campeonato dos italianos”. O que pode nos dizer sobre o declínio econômico da Itália e o seu papel na economia global?

O futebol italiano tinha a possibilidade de dominar o mundo quando a economia italiana era forte nos anos sessenta, quando Milão era um foco do futebol global, e nos anos oitenta, com a ilusão de um segundo boom e a chegada de um pioneiro (em termos políticos, econômicos, culturais e esportivos) como Silvio Berlusconi. O Mundial de 1990 parecia apresentar uma nova era de estilo esportivo “Made in Italy”, com a fusão perfeita entre design, arquitetura, música e tradição. Mas era uma falsa largada: as bases da economia eram frágeis, assim como aquelas do sistema futebolístico. Dúzias de clubes foram à falência porque suas contas eram maquiadas. A chegada de proprietários estrangeiros não culminou no retorno do status global, parecido com aquele dos anos oitenta e noventa. Apesar disso, a “Velha Senhora” (nome dado à Juventus pelos torcedores), ainda nas mãos da família Agnelli (industriais), conseguiu manter o seu domínio, vencendo campeonato após campeonato e atraindo para território italiano craques internacionais (incluindo Cristiano Ronaldo). O futebol italiano, assim como a Itália, ainda possui centros de excelência (como os sistemas de treino ou os grandes técnicos, por exemplo) mas está vivendo uma crise profunda e complexa. Uma “crise” tão longa que a própria palavra começa a perder o seu significado.

Sobre o mapa que abre o seu livro: a Série A hoje representa um país marcado pela crise, estagnação e desigualdade – entre classes, territórios, gerações. O Sul sumiu, com times na Série C; as grandes cidades resistem, junto com o que sobra do Norte produtivo. Enquanto todo o futebol se financeiriza, a Juve tenta aproveitar suas isenções fiscais para manter Cristiano Ronaldo. O Milan, time com mais títulos da Europa, está enrolado em uma crise sem fim; sobre ele, avançam os capitais chineses, assim como avançam sobre o Atalanta, obrigado a adotar preços baixos para se vender. Os grandes times do centro-sul também são obrigados a aderir ao trading, como o caso do Roma, à deflação salarial, como o Napoli e até mesmo à repressão de greves. Contudo, parece que o retorno de grandes treinadores e craques, junto com o “Renascimento” da Seleção, clamam por uma mudança de tendência. Essa promessa de mudança é real? O que podemos esperar da Série A italiana?

A Série A continua sendo um campeonato incrível para se assistir. Ainda possui aquela combinação de táticas sofisticadas, defesa de alta qualidade e estádios (apesar de decrépitos) fascinantes. Os estereótipos de Catenaccio são ridículos, utilizados apenas por quem não assiste de verdade o futebol italiano. Mas é, de fato, difícil de assistir fora da Itália: os direitos televisivos foram administrados muito mal. Isso resultou na marginalização da Série A. Claro, é necessário que outros também vençam – um campeonato em que vence apenas a Juventus não é saudável, nem mesmo para a própria Juventus! O Atalanta fornece certa esperança e o Inter finalmente voltou a ser competitivo. Roma e Napoli parecem ter iniciado um longo declínio, e não há sinal do retorno da glória do Milan como nos tempos de Berlusconi. Quanto a Itália, o futuro não parece bom. O sistema político do país simplesmente não funciona mais; a extrema-direita é ágil, tem a confiança das pessoas e está pronta para tomar o poder e usá-lo para gerar mais raiva e conduzir uma campanha eleitoral permanente contra os imigrantes e os “bondosos” [é um termo popular que se tornou político na Itália hoje, após ser usado incansavelmente pela extrema-direita]. Como se não bastasse, a Itália não produziu um campeão de nível mundial após a aposentadoria de Andrea Pirlo. Com certeza existem ótimos jogadores que estão se formando, mas nenhum deles parece ser como foram aqueles da geração anterior. A “fuga dos cérebros” continua forte até mesmo no mundo do futebol. O futuro ainda deve ser escrito, mas, infelizmente, a continuação do declínio parece inevitável.

Sobre o entrevistado

John Foot é professor de história italiana moderna na Universidade de Bristol. Seus trabalhos incluem "The Man Who Closed the Asylums: Franco Basaglia and the Revolution in Mental Health Care" e "The Archipelago: Italy Since 1945".

Sobre os entrevistadores

Giacomo Gabbuti é estudante de doutorado na Universidade de Oxford e membro do conselho editorial da Jacobin Itália.

Francesco Santimone é ativista do ARCI Sparwasser e do sindicato FLC-CGIL.

27 de dezembro de 2019

2019: o ano do gogó na política econômica brasileira

Só a reforma da Previdência aconteceu, mas de modo diferente do previsto pelo governo

Nelson Barbosa


Jair Bolsoanro (sem partido) e Paulo Guedes (Economia) durante cerimônia de 300 dias de governo no Palácio do Planalto, em Brasília. Lucio Tavora/Xinhua

Chegamos ao final do ano, e é hora de fazer balanço da política econômica. Entramos 2019 com o governo repetindo os erros do time Temer: economia estagnada com inflação despencando, mas juro básico parado em 6,5% e, pasmem, corte de despesas abaixo do já restrito teto de gasto.

A novidade de 2019 foi o "gogónomics" do time Bolsonaro, que prometeu reforma relâmpago da Previdência, privatização a jato e reforma tributária também rápida. Passados 12 meses, só a reforma da Previdência aconteceu, mas de modo diferente do previsto pelo governo (ainda bem).

Segundo o discurso inicial da equipe econômica, a reforma da Previdência instauraria o regime de capitalização, poupando R$ 1 trilhão. As privatizações gerariam outro trilhão e, do lado tributário, teríamos desoneração total da folha de pagamentos, compensada por megatributação permanente de transações financeiras, mas que não podemos chamar de CPMF.

Como na prática a teoria é outra, o Congresso e o próprio presidente Bolsonaro souberam conter os excessos do monetarismo de museu que hoje ocupa o Ministério da Economia.

A reforma da Previdência saiu sem capitalização, a super-CPMF caiu antes de ser enviada ao Congresso, e a privatização relâmpago ficou nas intenções, pois o processo requer avaliação criteriosa dos ativos. Apesar desses freios, as ambições do governo voltaram a crescer neste fim de ano, devido à melhora da economia e à valorização de ativos no mercado financeiro.

Depois de três anos de lento crescimento, qualquer melhora da renda e do emprego é bem-vinda, mesmo que sob Bolsonaro. Porém, para que a melhora se consolide, é preciso ter avaliação objetiva da situação para não desapontar, pela terceira vez, a expectativa de que cresceremos mais de 2% no ano que vem.

Pois bem, por que economia está melhorando? Porque no meio do ano o Banco Central finalmente abandou a covardia da gestão anterior e resolveu arriscar na redução de juros. Parabéns ao Banco Central.

Também no meio do ano, até a equipe de ideologia econômica do governo se convenceu de que o arrocho estava muito forte e adotou estímulo de demanda, via liberação de FGTS e descontingenciamento de gasto baseado na receita esperada do petróleo. Parabéns ao Ministério da Economia, ainda que o estímulo keynesiano tenho sido envergonhado para não pegar mal em Chicago.

E, neste fim de ano, o cenário externo desanuviou, derrubando prêmios de risco mundo afora, de junk bonds nos EUA ao CDS do Brasil. Essa melhora puxada por fatores externos gerou autocongratulação na Faria Lima, mas é final de ano e até "limers" têm direito de comemorar. Se não fomos tão bem quanto outros países emergentes, pelo menos jogamos de igual para igual com os europeus, que também devem ter crescimento de 1% em 2019.

Em 2020, a melhora pode se consolidar se houver recuperação do investimento público, mas por enquanto tudo indica que isso não acontecerá devido ao teto de gasto. Assim dependeremos mais e mais do estímulo monetário, cujos efeitos totais ainda não se materializaram na economia.

O recente repique inflacionário pode barrar novas reduções de juro no curto prazo, mas as ações já tomadas devem contribuir para a aceleração da renda e emprego até meados de 2020.

No mais, espero que o pragmatismo do Congresso e do Planalto continue a prevalecer sobre os arroubos do Ministério da Economia, que o cenário internacional favorável seja eterno enquanto dure e, mais importante, que o crescimento econômico seja menos desigual em 2020. Feliz Ano-Novo!

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

23 de dezembro de 2019

O colapso do neoliberalismo

A longa ideologia dominante trouxe-nos para sempre guerras, a Grande Recessão e a extrema desigualdade. Boa leitura.

Ganesh Sitaraman

The New Republic

Paul Volcker, presidente do Conselho Consultivo de Recuperação Econômica, e o presidente Obama durante uma reunião em 2009. (Saul Loeb / AFP / Getty Images)

Tradução / Com a Grande Crise Financeira de 2008 e a Grande Recessão, a ideologia do neoliberalismo perdeu a sua força. A abordagem neoliberal da política, do comércio global e da filosofia social que definiu uma era não levou a uma prosperidade sem fim, como anunciava, mas sim a um desastre total. O “Laissez-faire acabou”, declarou o presidente francês Nicolas Sarkozy. O presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, admitiu em testemunho perante o Congresso que a sua ideologia estava errada.

Numa declaração extraordinária, o primeiro-ministro australiano Kevin Rudd declarou que a Grande Crise Financeira “pôs em causa a ortodoxia económica neoliberal dominante nos últimos 30 anos – a ortodoxia que sustentou os quadros regulatórios nacionais e globais que tão espetacularmente falharam em evitar o caos económico a que se chegou”.

Para alguns, e especialmente para aqueles da geração milenar, a Grande Recessão e as guerras no Iraque e no Afeganistão iniciaram um processo de reflexão sobre o que a era neoliberal tinha proporcionado. Falar de desapontamento seria um eufemismo: falar dos destroços completos da vida económica, social e política seria mais preciso e correto para caracterizar a situação atual. Em cada uma dessas arenas, olhando para os resultados que o neoliberalismo produziu, cada vez mais se questiona a própria visão do mundo.

Comecemos pela economia. Ao longo da era neoliberal, as economias em todo o mundo tornaram-se cada vez mais desiguais. Nos Estados Unidos, o grupo dos 1% mais ricos levou para casa cerca de 8,5% do rendimento nacional em 1976. Após uma geração de políticas neoliberais, em 2014 eles capturaram mais de 20% do rendimento nacional. Na Grã-Bretanha, o grupo dos 1% capturaram mais de 14% do rendimento nacional – mais do dobro da quantia que levaram para casa no final da década de 1970. A história é a mesma na Austrália: Os primeiros 1% capturaram cerca de 5% do rendimento nacional nos anos 70 e duplicaram-no para 10% no final dos anos 2000.

Enquanto os ricos ficam mais ricos, os salários dos trabalhadores estagnam desde o final dos anos 70. Entre 1979 e 2008, 100% do crescimento do rendimento nos EUA foi para os primeiros 10% dos americanos. Na verdade, os 90% de rendimentos mais baixos viram um declínio no seu rendimento.

Durante a era neoliberal, a diferença de riqueza entre raças não se mostrou muito melhor. Em 1979, o salário médio por hora de um negro nos EUA era 22% inferior ao de um homem branco. Em 2015, a diferença salarial tinha aumentado para 31 por cento. Para as mulheres negras, a diferença salarial em 1979 era de apenas 6%; em 2015, tinha saltado para 19%.

A compra de casa própria é uma das formas centrais das famílias construírem riqueza ao longo do tempo, mas as taxas de gente com casa própria entre afro-americanos em 2017 eram tão baixas quanto antes da revolução dos direitos civis, quando a discriminação racial era legal.

Também vale a pena colocar em perspetiva a Grande Crise Financeira de 2008 – tanto histórica como global. Entre 1943 e meados da década de 1970, o número de falências bancárias no país foi mínimo – nunca ficando acima de um único dígito em qualquer ano. A desregulamentação das Caixas de Aforro e Crédito (as Saving and Loans) teve como consequência falências e resgastes financeiros generalizados em menos de uma década. A desregulamentação de Wall Street trouxe o épico colapso financeiro de 2008 em menos de uma década.

Isso não deveria ter sido uma grande surpresa, já que as políticas neoliberais já tinham causado estragos em todo o mundo. Olhando para a crise financeira asiática de 1997, o economista Joseph Stiglitz comenta que “a liberalização excessivamente rápida dos mercados financeiros e de capitais foi provavelmente a causa mais importante da crise”; ele também observa que, após a crise, as políticas austeritárias do Fundo Monetário Internacional “exacerbaram as recessões económicas”.

Os neoliberais impulsionaram a rápida privatização na Rússia após a Guerra Fria, juntamente com uma política monetária restritiva. O resultado foi uma economia de permuta crescente, exportações baixas e despojamento de ativos, enquanto oligarcas em ascensão compravam empresas estatais e depois transferiam o seu dinheiro para fora do país.

Apesar do seu suposto compromisso com a concorrência de mercado, a agenda económica neoliberal trouxe, ao invés disso, o declínio da concorrência e o aumento do poder monopolístico em vastas faixas da economia: farmacêutica, telecomunicações, linhas aéreas, agricultura, bancos, indústrias, comércio a retalho, serviços públicos e até mesmo cerveja.

Um estudo do The Economist constatou que, entre 1997 e 2012, dois terços das indústrias tornaram-se mais concentradas. Mesmo os grupos de reflexão centristas como a Brookings Institution reconheceram a perigosa ascensão dos monopólios e argumentaram que a concentração do poder económico traz consigo preços mais altos para os consumidores, maior desigualdade económica e uma economia menos dinâmica.

O aumento da desigualdade económica e a criação de megacorporações monopolistas também ameaçam a democracia. Estudo após estudo, cientistas políticos demonstraram que o governo dos EUA é altamente sensível às preferências políticas das pessoas mais ricas, das grandes empresas e das associações comerciais – e que em grande medida não responde às opiniões das pessoas comuns.

As pessoas mais ricas, grandes empresas e os seus grupos de interesse participam mais na política, gastam mais em política e fazem mais lobby junto dos governos. Cientistas políticos líderes declararam que os EUA já não são caracterizados como uma democracia ou uma república, mas como uma oligarquia – um governo dos ricos, pelos ricos, e para os ricos.

O abraço neoliberal do individualismo e da oposição à “sociedade coletiva”, que Margaret Thatcher defendia, também teve consequências perversas para a vida social e política. Os humanos são animais sociais. Mas o neoliberalismo rejeita tanto a abordagem medieval de ter classes sociais fixas baseadas na riqueza e no poder como a abordagem moderna de ter uma identidade cívica única e compartilhada baseada na participação numa comunidade democrática.

O problema é que no meio da corrida de ratos individualistas do neoliberalismo, as pessoas continuam a precisar de encontrar sentido em alguma coisa das suas próprias vidas. E assim tem havido um recuo a favor do tribalismo e de grupos identitários, com as associações cívicas a serem substituídas por filiações religiosas, étnicas ou outras filiações culturais.

É certo, raça, género, cultura e outros aspetos da vida social sempre foram importantes para a política. Mas o individualismo radical do neoliberalismo tem levantado cada vez mais dois problemas que estão interligados. Primeiro, quando levado ao extremo, a fratura social em grupos identitários pode ser usada para dividir as pessoas e impedir a criação de uma identidade cívica partilhada. A autonomia de governo requer a união através dos nossos pontos em comum e a aspiração de alcançar um futuro partilhado.

Quando os indivíduos se voltam para clãs, tribos e o nós por oposição às suas identidades, a comunidade política fragmenta-se. Torna-se mais difícil para as pessoas verem-se mutuamente como parte desse mesmo futuro compartilhado.

Os demagogos dependem dessa fratura para inflamar antagonismos raciais, nacionalistas e religiosos, o que só alimenta ainda mais as divisões dentro da sociedade. A guerra do neoliberalismo à “sociedade”, empurrando para a privatização e mercantilização de tudo, facilita assim indiretamente um recuo para o tribalismo que mina ainda mais as condições prévias para uma sociedade livre e democrática.

O segundo problema é que os neoliberais de direita e de esquerda às vezes utilizam a política identitária como escudo para proteger as políticas neoliberais. Como argumentou um comentador: “Sem a base da política de classe, a política identitária tornou-se um programa do neoliberalismo inclusivo, na qual os indivíduos podem ser acomodados, mas em que a luta contra as desigualdades estruturais não pode”.

O que isto significa é que alguns neoliberais colocam num ponto alto a bandeira da inclusão de género e de raça e, portanto, afirmam ser reformadores progressistas, mas depois fecham os olhos para as mudanças sistémicas na política e na economia. Os seus críticos argumentam que isso é “política identitária neoliberal”, e isso dá aos seus proponentes o espaço para perpetuar as políticas de desregulamentação, privatização, liberalização e austeridade. Naturalmente, o resultado é deixar no lugar estruturas políticas e económicas que prejudicam os próprios grupos que os neoliberais de inclusão afirmam estar politicamente a apoiar.

As aventuras de política externa dos neoconservadores e dos internacionalistas liberais não se têm saído muito melhor do que a política económica ou a política cultural. Os EUA e os seus parceiros de coligação estão atolados na guerra do Afeganistão há 18 anos e continuarão a estar. Nem o Afeganistão nem o Iraque são uma democracia liberal, nem a tentativa de estabelecer a democracia no Iraque levou a um efeito dominó que varresse o Oriente Médio e reformasse os seus governos para melhor.

Em vez disso, o poder no Iraque passou dos ocupantes americanos para milícias sectárias, para o governo iraquiano, para terroristas do Estado islâmico e de volta para o governo iraquiano – e mais de 100.000 iraquianos estão mortos.

Ou tomemos a intervenção liberal internacionalista de 2011 na Líbia. O resultado não foi uma transição pacífica para uma democracia estável, mas sim uma guerra civil e instabilidade, com milhares de mortos à medida que o país se separava e porções eram invadidas por grupos terroristas. Com base na promoção da democracia, é bem difícil dizer que estas intervenções foram um sucesso. E para aqueles motivados a expandir os direitos humanos em todo o mundo, é difícil justificar estas guerras como vitórias humanitárias – e contando só com a morte dos civis.

De facto, os pressupostos centrais de ancoragem do establishment da política externa americana têm-se mostrado errados. Os formuladores da política externa assumiram em grande parte que todas as coisas boas se iriam verificar em conjunto – democracia, mercados e direitos humanos – e por isso pensaram que a abertura da China ao comércio levaria inexoravelmente a que ela se tornasse uma democracia liberal. Eles estavam errados.

Eles pensavam que a Rússia se tornaria liberal através de uma rápida democratização e privatização. Eles estavam errados.

Achavam que a globalização era inevitável e que a liberalização do comércio em constante expansão era desejável, mesmo que o sistema político nunca fosse corrigido para os vencedores e perdedores do comércio. Eles estavam errados.

Estes não são erros menores. E para ser claro, Donald Trump não teve nada a ver com eles. Todos estes fracassos eram evidentes antes mesmo das eleições de 2016.


Apesar destes fracassos, a maioria dos decisores políticos não tinha uma nova ideologia ou uma visão do mundo diferente através da qual pudessem compreender os problemas desta época. Assim, em geral, a resposta coletiva não foi a de abandonar o neoliberalismo.

Depois do Grande Colapso Financeiro de 2008, os neoliberais ficaram irritados com as tentativas de aplicar fortes programas keynesianos de despesa pública para estimular a procura. Os conselheiros do presidente Barack Obama reduziram o tamanho do pacote de estímulo pós-crise por medo de que parecesse grande demais para o consenso neoliberal da era – e, além disso, comprometeram o seu conteúdo. Cerca de um terço do estímulo acabou sendo um corte nos impostos, o que tem um efeito menos estimulante do que a despesa pública direta.

Depois de os republicanos retomarem o controlo do Congresso em 2010, os EUA foram forçados a uma situação de sequestro, através de um programa de austeridade plurianual que cortou nos orçamentos em todo o governo, mesmo quando o país estava apenas a começar a sair da Grande Recessão. O chanceler do Partido Trabalhista Britânico disse, após o crash de 2008, que os cortes planeados pelos trabalhistas nos gastos públicos seriam “mais profundos e duros” do que os cortes impostos por Margaret Thatcher.

Quando se tratou de uma política afirmativa e voltada para o futuro, o quadro neoliberal também se manteve dominante. Veja-se a legislação de Obamacare sobre cuidados de saúde. Os democratas queriam aprovar um programa nacional de cuidados de saúde pelo menos desde a presidência de Harry Truman. Mas com a tentativa fracassada de Clinton no início dos anos 1990, quando os democratas assumiram o comando da Câmara, do Senado e da presidência em 2009, eles adotaram uma abordagem diferente.

O programa Obamacare foi construído sobre um modelo baseado no mercado que a conservadora Fundação Heritage ajudou a desenvolver e que Mitt Romney, governador republicano de Massachusetts, havia adotado. Vale a pena sublinhar que a característica central do Obamacare é um mercado privado no qual as pessoas podem comprar os seus próprios cuidados de saúde, com subsídios para os indivíduos que estão perto da linha de pobreza.

Não havia um sistema de pagador único, e centristas como o senador Joe Lieberman bloquearam a criação de uma opção pública que pudesse coexistir e competir com opções privadas nos mercados. Com medo de perderem os seus lugares, os centristas sacaram essas concessões dos progressistas. De pouco lhes serviu.

O partido do presidente quase sempre perde lugares em eleições intercalares, e desta vez não foi diferente. Por sua culpa, os centristas perderam os seus lugares e impuseram aos americanos menos e piores opções em termos de cuidados de saúde. Talvez o maior choque tenha sido que os políticos progressistas corajosos que também perderam nos seus distritos ditos de linha vermelha, como Tom Perriello, da Virgínia, na verdade fizeram melhor do que os seus cautelosos colegas.

À direita, a resposta ao crash foi bem para além da cegueira típica das avestruzes em face do falhanço das hipóteses com que sustentavam as suas visões das políticas públicas. Na verdade, a maioria dos conservadores aproveitou o momento para repetir as abordagens fracassadas do passado. O programa do Partido Republicano em 2012, por exemplo, apelou para um relaxamento seja da regulamentação financeira imposta até aí a Wall Street, seja da regulação ambiental e de segurança dos trabalhadores; apelou igualmente a impostos mais baixos para as grandes empresas e para os indivíduos ricos; e uma maior liberalização do comércio. Pediu a abolição dos empréstimos federais aos estudantes, além da privatização das linhas de caminho-de-ferro, das terras do Oeste, da segurança nos aeroportos assim como a privatização dos correios. Os republicanos também continuaram a apoiar o corte dos cuidados de saúde e da segurança na reforma. Após 40 anos de avanços nessa direção – e com isso falhando em cada mudança política – pode-se pensar que eles mudariam as suas opiniões. Mas os republicanos não mudaram, e muitos ainda agora não mudaram.

Embora o neoliberalismo tivesse pouco a oferecer, na ausência de uma nova estrutura ideológica, ele pairava sobre a presidência Obama – mas agora sob uma nova forma. Muitos no centro-esquerda adotaram o que poderíamos chamar de “ideologia tecnocrática”, uma versão rebatizada do minimalismo político dos anos 90 que substituiu os fundamentos táticos e pragmáticos do minimalismo por fundamentos científicos.

O próprio termo é algo oximoro, pois os tecnocratas parecem ser o oposto de ideólogos. Mas uma ideologia é simplesmente um sistema de ideias e crenças, como liberalismo, neoliberalismo ou socialismo, que molda a forma como as pessoas veem o seu papel no mundo, na sociedade e na política. Como ideologia, a tecnocracia sustenta que os problemas do mundo são problemas técnicos que requerem soluções técnicas.

Vale a pena ressaltar o que isso implica: Primeiro, significa que a estrutura do sistema atual não está falhada nem é defeituosa; assim, a maioria dos problemas são relativamente menores e podem ser corrigidos fazendo pequenos ajustamentos no sistema.

Em segundo lugar, os problemas não são uma função de conflitos morais profundos que requerem a persuasão das pessoas a um nível religioso, emocional ou moral. Em vez disso, são problemas de ciência e factos, nos quais podemos conhecer respostas “certas” e descobrir o que funciona porque há consenso sobre quais são os objetivos finais. Em conjunto, o resultado é que a ideologia tecnocrática aceita amplamente o status quo como aceitável.

A ideologia tecnocrática preserva o status quo com uma variedade de táticas. Podemos chamar à primeira de “boato da complexidade”. Os tecnocratas gostam de dizer que setores inteiros das políticas públicas são muito complicados e, portanto, ninguém pode propor reformas ou mesmo compreender o setor sem entrar no sacerdócio da tecnocracia.

As utilizações mais frequentes desta tática são em setores que os economistas passaram a dominar – comércio internacional, anti trustes e regulamentação financeira, por exemplo. O resultado dessa mentalidade é que as reformas estruturais profundas são postas de lado e mudanças altamente técnicas são adotadas em seu lugar.

A regulação financeira é um caso particularmente claro, dado o grande colapso de 2008 e a Grande Recessão. Quando chegou o momento de estabelecer um novo regime regulatório para o setor financeiro, não houve uma reestruturação massiva, apesar de estarmos perante o maior colapso financeiro dos últimos 70 anos.

Em vez disso, na sua maior parte, a Lei Dodd-Frank foi classicamente tecnocrática. Mantinha o setor basicamente na mesma, com alguns ajustes aqui e ali. Não houve nenhuma tentativa de reestruturar completamente o sector financeiro. Os esforços para separar seriamente os bancos não deram em nada.

Nenhum alto executivo da finança foi parar à cadeia. Com exceção da criação do Gabinete de Proteção Financeira ao Consumidor, a maioria das reformas foi relativamente menor: maiores exigências de capital para os bancos ou aumento dos mandatos de apresentação de relatórios. Quando os proponentes afirmaram que estavam a fazer algo de ousado, afinal a lei Dodd-Frank ainda estava presa da ideologia tecnocrática.

A Regra Volcker, por exemplo, procurou proibir os bancos de especularem por conta própria. Mas ao invés de fazer isso através de uma simples e límpida regra de separação de atividades (como a decretada sob o antigo regime Glass-Steagall), a Regra Volcker estava sujeita a uma infinidade de exceções e foram esculpidas medidas que os reguladores federais eram então obrigados a explicar e a implementar com centenas de páginas de regulamentos técnicos.

A lei Dodd-Frank também ilustra um segundo princípio da ideologia tecnocrática: As falhas da tecnocracia podem ser resolvidas por mais tecnocracia. Sempre que soluções tecnocráticas falham, a resposta raramente é questionar a estrutura do sistema como um todo. Ao invés disso, é exigir mais e melhores tecnocratas.

Aqueles que reconhecem que votar a favor da Guerra do Iraque foi um erro lamentaram não ter melhores serviços de informações e melhor planeamento para o pós-guerra. Rara foi a pessoa que questionou o esforço de querer policiar vastas regiões do mundo simultaneamente com pouco conhecimento dos povos, costumes ou cultura locais. Tudo o que era necessário era um melhor planeamento do pós-guerra, disseram eles: Era um problema técnico e burocrático.

Dodd-Frank criou o Conselho de Supervisão da Estabilidade Financeira, um órgão governamental encarregado do que é chamado de regulamentação macroprudencial. Isto significa que os reguladores governamentais devem monitorizar toda a economia e virar um pouco os mostradores da regulação para cima e para baixo para manter a economia longe de outro colapso. Mas perguntem-se isto: Porque haveríamos de acreditar que eles poderiam fazer uma tal coisa ? Sabemos que esses mesmos reguladores não conseguiram identificar, alertar ou agir em relação à crise de 2008. Sabemos que os mercados são dinâmicos e diversificados e que os reguladores não podem ter informações completas sobre eles. E sabemos que os reguladores são tão susceptíveis como qualquer outra pessoa de serem apanhada em comportamentos de exuberância irracional ou de serem capturados pelo setor financeiro. Em vez de estabelecer regras estruturais para atividades financeiras permissíveis, mesmo que sejam um pouco em excesso ou em falta, Dodd-Frank, mais uma vez, coloca a sua fé e os nossos destinos nas mãos de tecnocratas.


Não devemos ficar surpreendidos com estas dinâmicas. A evolução do neoliberalismo seguiu um padrão comum na história. No primeiro estágio, o neoliberalismo ganhou força na sequência das crises dos anos 70. É fácil pensar no Thatcherismo e no Reaganismo como fenómenos que aparecem aos nossos olhos como totalmente formados, brotando da cabeça de Zeus tal como a deusa Atena. Mas vale a pena lembrar que Thatcher por vezes dava verdadeiras punhaladas nesta visão do sistema neoliberal. Retoricamente, ela defendia as causas da ala direita. Mas praticamente, as suas políticas ficavam muitas vezes aquém da grande visão neoliberal desta mesma linha política. Por exemplo, ela recusou-se a permitir qualquer tentativa de privatizar o Royal Mail e os caminhos-de-ferro. Ela preferiu até utilizar a palavra desnacionalização à privatização, achando este termo antipatriótico e demasiado radical. O problema central, como observou nas suas memórias, era que “havia ainda uma revolução a ser feita, mas muito poucos revolucionários”.

Uma história semelhante pode ser contada sobre Ronald Reagan. Em parte, porque ele enfrentou uma Câmara dos Deputados democrática, os radicais conservadores ficaram ocasionalmente desapontados com a medida em que a administração Reagan defendia os seus objetivos. Sob Ronald Reagan, William Niskanen escreve, “nenhum programa federal importante … e nenhuma agência foi abolida”. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas foi criado durante o governo Reagan, e o presidente Reagan assinou uma variedade de leis ambientais. Os primeiros líderes não eram tão ousados ideologicamente como os mitos posteriores nos podem levar a crer.


Na segunda fase, o neoliberalismo normalizou-se. Persistiu para além das personalidades fundadoras – e, em parte por causa da sua longevidade no poder, cresceu tanto que o outro lado do espetro político o adotou. Assim, quando os Tories expulsaram Thatcher e a substituíram por John Major, sem querer, tornaram possível o Thatcherismo. Major queria oferecer à Grã-Bretanha um “Thatcherismo de face humana”, e propôs-se suavizar as arestas ásperas. O resultado foi consolidar e fazer avançar o projeto neoliberal na Grã-Bretanha. Quando Major foi eleito por direito próprio, em 1992, obteve mais votos do que Thatcher alguma vez teve – e mais do que Tony Blair recebeu em 1997. Como o próprio Major observou, “1992 matou o socialismo na Grã-Bretanha… Essa nossa vitória significou que entre 1992 e 1997 os trabalhistas tiveram que mudar”.

A história americana é semelhante. Reagan passou o facho a George H. W. Bush. Embora Bush não fosse do campo político de Reagan dentro do Partido Republicano (ele tinha concorrido contra Reagan para a presidência em 1980 e foi visto com ceticismo pelos verdadeiros crentes), Bush moveu-se para assumir o Reaganismo nos seus compromissos de campanha eleitoral. Ao mesmo tempo, com as perdas de Carter em 1980, Walter Mondale em 1984 e Michael Dukakis em 1988, os democratas começaram a pensar que tinham de abraçar o neoliberalismo como um caminho para sair do deserto político em que se encontravam.

Finalmente, porém, a ideologia neoliberal estendeu os seus tentáculos a todas as áreas da política e até mesmo da vida social, e na sua terceira etapa, de forma excessivamente alargada. O resultado na política económica foi o Grande Colapso de 2008, a estagnação económica e a desigualdade que atingiu os mais elevados níveis do século. Na política externa, foi a desastrosa Guerra do Iraque e o caos e incerteza em curso no Oriente Médio.

A quarta e última etapa é o colapso, a irrelevância e uma busca errante quanto ao futuro. Com o mundo em crise, o neoliberalismo já não tem nem mesmo soluções plausíveis para os problemas de hoje. Como resposta aos problemas de desregulamentação, privatização, liberalização e austeridade, ele oferece mais do mesmo ou, na melhor das hipóteses, “variações” incrementais e de natureza tecnocrática. As soluções da era neoliberal não oferecem ideias sérias de como enfrentar o colapso da classe média e a disseminação da insegurança económica generalizada.

As soluções da era neoliberal não oferecem ideias sérias de como lidar com a corrupção da política e com a influência dos interesses do dinheiro em todos os aspetos da vida cívica – dos media de notícias à educação, passando pela política e regulamentação. As soluções da era neoliberal não oferecem ideias sérias de como reconstituir o tecido social frágil, no qual as pessoas são cada vez mais tribais, divididas e desligadas da comunidade cívica.

E as soluções da era neoliberal não oferecem ideias sérias de como enfrentar a fusão do capitalismo oligárquico e do autoritarismo nacionalista, que agora capturou grandes governos por todo o mundo – e que procura invadir e minar a democracia a partir de dentro.


Em 1982, quando a cortina neoliberal estava a ser levantada, o governador do Colorado Richard Lamm observou que “a vanguarda do Partido Democrata deve reconhecer que o mundo dos anos 30 mudou e que um novo conjunto de apropriadas respostas em termos de políticas públicas é necessário”. Hoje, as pessoas em todo o mundo reconheceram que o mundo dos anos 80 mudou e que é hora de uma nova abordagem na política. A questão central do nosso tempo é o que é que vem a seguir.

Sobre o autor

Ganesh Sitaraman é professor da Vanderbilt Law School e autor de The Great Democracy: How to Fix Our Politics, Unrig the Economy, and Unite America.

20 de dezembro de 2019

Bernie é o candidato que pode vencer Trump. Aqui está o porquê.

Você quer ver Donald Trump derrotado em 2020? Claro que você quer. O candidato que está melhor posicionado para fazer exatamente isso: Bernie Sanders.

Meagan Day e Matt Karp


David McNew / Getty Images

Tradução / Na corrida pela nomeação do partido Democrata, uma figura se destaca: a grande, laranja e deformada imagem do presidente Donald Trump. O trauma da vitória chocante de Trump em novembro de 2016, e o reino de ganância, brutalidade e arrogância que se seguiu – aparentemente impermeável à oposição organizada – tem dado a Trump uma proeminência especial entre os democratas.

As pesquisas são unânimes: uma maioria considerável dos eleitores nas primárias dos democratas (entre 60% e 65%) dizem que é mais importante encontrar um candidato que possa vencer Trump do que um que eles concordem com as pautas. Isso não é um padrão para eleitores que fazem oposição a um presidente em exercício. Na prévia da sua campanha de reeleição em 2004, por exemplo, menos da metade de todos os democratas diziam o mesmo sobre George W. Bush.

Ao longo das primárias, Bernie Sanders e muitos de seus apoiadores têm argumentado que não é suficiente vencer Trump: precisamos nos organizar para transformar as condições econômicas abismais que produziram Trump também. E isso é extremamente verdadeiro.

Mas, enquanto isso, existem eleições para vencer. Os EUA não podem suportar outra vitória de Trump nas urnas, ou outros quatros anos da avareza de um governo de extrema-direita. Para prevenir este pesadelo, nós devemos convencer eleitores ansiosos que Sanders pode e irá derrotar Trump na eleição geral.

A verdade é que os democratas gostam genuinamente de Bernie: ele tem as maiores taxas de popularidade nas primárias, e entre os eleitores democratas que priorizam “pautas” Sanders lidera o conjunto – isto é, o que um presidente pode de fato tentar fazer no cargo. No entanto, o establishment hostil do partido e uma mídia nada amigável parecem ter convencido muitos dos eleitores que Sanders é “muito radical” ou “muito à esquerda” para vencer uma eleição geral.

E enquanto Sanders ganha fôlego nas primárias nos Estados, você pode esperar que os consultores de Beltway e âncoras de TV vão pegar ainda mais pesado nesses alertas. Muito do trabalho é feito por analogia, com Sanders associado a George McGovern, Jeremy Corbyn, ou qualquer personagem histórico distante ou líder estrangeiro longínquo que pareça conveniente.

Claro, nós não precisamos atravessar oceanos ou gerações para encontrar contra exemplos: essa é a mesma hegemonia do partido Democrata que engendrou a mais desastrosa e humilhante derrota eleitoral na história norte-americana, quatro anos atrás. Entretanto, você dificilmente pode culpar os experts centristas do partido ou filiados por escolher esta linha de ataque. Eles não entendem que sua marca política desbotada não fala com as necessidades, desejos ou esperanças dos eleitores. A única coisa que os restou foi o medo. E a perspectiva de outra vitória de Donald Trump pode ser assustadora o suficiente para convencer milhares de eleitores a engolir qualquer pílula amarga que a liderança do partido os sirva.

Contudo, na temporada das primárias, democratas ansiosos deveriam acreditar em seus instintos. Acontece que o candidato que eles mais gostam, Bernie Sanders, é também o candidato com a melhor chance de varrer Trump da Casa Branca.

Ao passo que qualquer outro confronto nas eleições gerais pareça desembocar no sombrio e confuso embate de 2016, uma disputa entre Sanders e Trump apresentaria aos eleitores norte-americanos uma escolha sólida: um populista que quer te garantir plano de saúde e quitar suas dívidas, ou um idiota rico que não se importa se você vive ou morre contanto que seu chefe tenha lucros.

A verdadeira fraqueza eleitoral de Trump não é sua grosseria, sua mitomania, ou mesmo seu caráter corrompido. É a sua função como instrumento dos homens ricos do partido Republicano e seu flagrante desinteresse em tornar a vida melhor para a grande parte dos americanos que vivem apenas de salário em salário.

Ao longo dos últimos 40 anos, nenhum político nos EUA focou tão francamente ou incansavelmente nas dificuldades econômicas enfrentadas por pessoas comuns como Bernie Sanders. Essa ênfase arroz-com-feijão é parte daquilo que faz Sanders o candidato presidencial mais popular nas pesquisas, especialmente entre eleitores independentes. E em uma eleição geral – em uma escala muito mais ampla do que qualquer disputa nas primárias – ninguém está melhor preparado do que ele para usar essa arma econômica popular para aniquilar Donald Trump.

De Obama a Trump e Sanders

Para democratas ainda marcados pela memória de novembro de 2016, é fácil imaginar que Donald Trump seja um titã eleitoral, dotado de poderes ocultos e incríveis. Mas a verdade está mais próxima do oposto: Trump é um líder historicamente impopular que teve uma vitória apertada no colégio eleitoral concorrendo com um rival igualmente impopular.

Fora um núcleo de republicanos ferrenhos, a maioria dos norte-americanos não gosta de Trump. Desde os seus primeiros meses no gabinete, a taxa de aprovação dele pairou entre 38% e 42%, que o tornam, de longe, o presidente dos EUA mais impopular da história moderna. George H.W. Bush e Jimmy Carter, os últimos dois titulares a perder uma eleição, apresentavam números bem melhores do que Trump em seus primeiros três anos na Casa Branca.

Mesmo nos principais Estados onde ele derrotou Hillary Clinton – Wisconsin, Michigan, e Pensilvânia – a taxa de aprovação de Trump tem sido subaquático há mais de um ano.

Trump pode ser vencido e o caminho para realizar isso envolve conquistar três grupos de eleitores no campo de batalha do Cinturão da Ferrugem: primeiro, os democratas e independentes que apoiaram Obama duas vezes antes de voltarem-se para Trump; segundo, eleitores de Obama que não votaram em 2016; e terceiro, o grupo ainda maior de norte-americanos que tipicamente não vota de jeito nenhum.

Existem razões para acreditar que em termos puramente pragmáticos no terreno eleitoral, Sanders é o democrata com mais chances de reconquistar os apoiadores decepcionados de Obama no Cinturão da Ferrugem. Pesquisas direcionadas a eleitores de Obama-Trump mostram Sanders e Joe Biden com uma margem significante sobre Elizabeth Warren em Michigan e Wisconsin; mesmo que Biden ainda pareça mais forte na Pensilvânia, as diferenças são pequenas.

Entretanto, o verdadeiro salto está nos 206 distritos que elegeram Obama em 2008 e 2012, e Trump em 2016, onde Sanders tem superado as arrecadações de todos os seus competidores – por uma margem alta. Por volta de setembro de 2019, ele saltou de 81.841 doadores individuais para 33.185 doadores nesses mesmos distritos oscilantes. Isso é aproximadamente três vezes mais do que Biden, Warren ou Pete Buttigieg.

Esse alto volume de pequenas doações individuais em distritos Obama-Trump mostram que Sanders tem suporte das bases nesses lugares – o que faz sentido, visto que sua mensagem política é dirigida para pessoas cujas vidas tem se tornado pior na medida em que as elites enriquecem. Isso captura a experiência de muitas pessoas da classe trabalhadora no Cinturão da Ferrugem desindustrializado, abandonado por corporações que buscam mão de obra barata e lucros maiores em outros lugares.

O mais detalhado estudo sobre essa oscilação eleitoral decisiva foi realizado por dois cientistas políticos de John Hopkins que confirmaram recentemente o que outros analistas já haviam entendido faz um tempo: a “ansiedade econômica” teve, de fato, um papel crucial nas eleições de 2016. Um olhar mais atento aos dados da Pesquisa Eleitoral Americana Nacional mostrou que eleitores Obama-Trump, em 2016, estavam, em média, mais preocupados sobre sua “atual situação financeira” do que os eleitores Romney-Trump ou Obama-Clinton.

Eleitores Obama-Trump também acreditavam que “os ricos estão comprando as eleições” e apoiavam taxação de grandes fortunas. E eles eram muito mais dispostos a se opor a acordos de livre comércio que custam que caiam sobre o lombo dos trabalhadores norte-americanos.

Trump cortejou e conquistou esses eleitores de Obama, concluem os autores de John Hopkins, com uma combinação de “trem da alegria do fanatismo” com “populismo econômico”. Em 2020, os republicanos com certeza tentarão reativar a máquina de fanatismo novamente. Se os democratas não responderem com uma agenda econômica alternativa confiável – uma que implique mudança real – eles estão condenados a perder esses eleitores mais uma vez – e, consequentemente, provavelmente a eleição.

Apesar de sua popularidade residual entre os democratas que vem da época do Obama (atualmente em declínio), Joe Biden não consegue entregar essa mensagem.

Ele faz forte oposição à taxação dos ultra ricos; não é coincidência que ele tem mais doadores bilionários do que qualquer outro candidato na disputa, inclusive Trump. O pior de tudo é que Biden não tem credibilidade como um economista populista: ele dedicou muito se sua vida política apoiando o livre comércio, incluindo NAFTA e o Acordo Trans-Pacífico.

Em uma eleição geral, o histórico de longa data de Biden como amigo de bancos e empresas de terceirização – para não mencionar os serviços lucrativos de seu filho a bordo de uma companhia de gás ucraniana – irá certamente sufocar qualquer tentativa dos democratas de lutar contra Trump no terreno econômico. Ao invés disso, uma disputa Biden-Trump tem todas as chances de oferecer uma sequência do espetáculo insólito ao enigma de 2016 que pôs Trump na Casa Branca. Dos dois candidatos que apresentam oscilações nas pesquisas dos Estados no Cinturão da Ferrugem, apenas Bernie Sanders pode realizar o debate econômico que os democratas precisam fazer para vencer.

Voltar às urnas por Bernie

Tão importante quanto os eleitores Obama-Trump são os milhões de eleitores de Obama que não compareceram às urnas em 2016. Qualquer boa autópsia das últimas eleições presidenciais enfatizará que o comparecimento dos votantes nos principais Estados foi uma decepção. Em Wiscosin, por exemplo, foram votar menos de 3% dos previstos para 2016, e em Ohio foram menos que 4%. Para vencer, essas margens precisam ser recuperadas ou excedidas pelos oponentes de Trump nestas eleições.

Alguns analistas são velozes em atribuir a pequena presença nas urnas em 2016 às leis restritivas de votação, insinuando que nada pode ser feito para trazer eleitores de volta às urnas. Mas então como explicar o fato de que 1,7 milhões de pessoas depositaram cédulas incompletas nesses e outros Estados, recusando votar por qualquer candidato presidencial – muito mais do que em 2012? Em Michigan, Donald Trump venceu com cerca de 10 mil votos, enquanto 75 mil pessoas votaram, mas decidiram não registrar preferência para presidente. Enquanto isso, aproximadamente 3 milhões de eleitores válidos sequer se importaram em ir aos colégios eleitorais.

O Pew Research Center descobriu que, mundialmente, a maior razão para a abstenção dos votos em 2016 foi que eles “não gostaram dos candidatos e suas campanhas”. Mais de 25% dos ausentes citaram aversão a ambos os candidatos como justificativa para ficar em casa, comparado com apenas 13% em 2012 e 8% em 2000. A verdade é que muitas pessoas nos Estados oscilantes – incluindo muitos eleitores democratas fieis – não estavam suficientemente animados com Hillary Clinton, alguém que eles associavam corretamente à política-como-negócio. E a “ansiedade econômica” que ajudou a levar eleitores brancos de Obama à Trump, como o relatório de Malaika Jabali demostra, ajudou a dissuadir muitos eleitores negros de Obama de comparecerem às urnas, especialmente em campos de batalha como as cidades de Milwaukee, Detroit e Philadelphia.

Os eleitores de Obama que ficaram em casa em 2016, uma pesquisa mostrou, são extremamente preocupados com questões de sobrevivência (café-com-pão), com uma larga fatia (64%) enfatizando economia, plano de saúde, Medicare, e segurança social do que os eleitores registrados como um todo (55%) ou mesmo os sabidamente eleitores indecisos Obama-Trump (58%).

Se você acha que isso sugere que esses eleitores críticos podem ser receptivos às mensagens de Bernie Sanders sobre planos de saúde, educação e bom trabalho para todos, você está certo: a preferência de Bernie entre esse grupo (+38%) supera em muito a de Elizabeth Warren (+16%) e excede a de Joe Biden (+35%).

Acordando o gigante adormecido

Contudo, o argumento mais robusto para defender Bernie Sanders diz respeito a um grupo muito maior do que qualquer fatia de eleitores decepcionados de Obama: os 10 milhões de pessoas, cerca de 40% do país, que geralmente não vota nas eleições presidenciais.

Os não votantes, incluindo os ausentes em Estados centrais, são desproporcionalmente jovens, não-brancos e da classe trabalhadora. Bernie é distintamente popular entre todos esses grupos, sugerindo que ele é de longe a melhor chance de mobilizar esse vasto exército adormecido em uma eleição geral contra Trump.

Nas primárias de 2016, mais pessoas abaixo dos 30 votaram em Sanders do que em Trump e Clinton juntos. Hoje, Sanders é o favorito nas primárias do partido Democrata entre os jovens. A taxa de aprovação de Trump entre pessoas abaixo de 30 é patética, mas, conforme aprendemos quatro anos atrás, isso não é garantia que todo jovem que menospreza Trump irá aparecer para votar contra ele.

Os democratas têm uma escolha: ou eles nomeiam um desafiante que energiza pessoas jovens e pode contar com seu apoio em massa, ou nomeia alguém que não os motiva, lubrificando as engrenagens para a vitória de Trump.

Eleitores latinos e jovens negros estão especialmente entusiasmados com Bernie. Nos Rstados oscilantes do Cinturão da Ferrugem e no Cinturão do Sol, a margem crucial de vitória pode estar atrelada à habilidade do candidato democrata de trazer eleitores jovens afrodescendentes que tipicamente são menos inclinados a votar. Não há nenhum político nos EUA em melhor posição para fazer isso do que Sanders.

E, finalmente, uma categoria guarda-chuva: Sanders é o candidato da classe trabalhadora, que engloba a maioria dos jovens e não-brancos, mas também muitas das pessoas brancas mais velhas.

Seus apoiadores têm menor probabilidade de possuírem um diploma universitário dentre todos os outros candidatos democratas nas primárias. Nas primárias, Sanders recebe a maior parte das doações individuais de enfermeiros, professores, trabalhadores do varejo, servidores, técnicos, caminhoneiros e trabalhadores da construção civil.

Em contraste, Biden recebe a maior quantia de doações de presidentes de companhia, advogados, grandes proprietários e investidores.

Pessoas que trabalham por um salário mínimo são a maioria da população norte-americana, e trabalhadores com baixos salários compõem a maioria das pessoas que não vota. Quase 3/4 dos ausentes em 2016 tem uma renda familiar de menos de U$ 75.000.

Se quisermos que os eleitores ocasionais – ou os que nunca votam – dos estados oscilantes compareçam, o candidato precisa ser bem quisto pela classe-trabalhadora. E esse candidato é Bernie Sanders.

Sanders tem vencido Trump em enquetes de confronto direto por anos, e sua liderança é especialmente forte entre eleitores de baixa renda e frequência eleitoral. Uma pesquisa recente do SurveyUSA mostrou que em uma disputa contra Trump, Bernie possui alguns pontos a mais do que Biden (e muitos mais do que Warren) entre eleitores que ganham menos de $80.000 por ano, e entre eleitores que descrevem a si mesmos como “pobres” ou “da classe trabalhadora”. E essas são apenas as pessoas que já são registradas. Dos candidatos democratas mais importantes, Sanders claramente tem a maior chance de acordar o gigante adormecido da juventude e da classe trabalhadora que não vota e de trazê-los para o eleitorado.

Os EUA possuem uma das menores presenças nas urnas do mundo. Dada a alienação política da classe trabalhadora aqui, nenhuma eleição isolada vai nos pôr a par com nações como Bélgica ou Suécia, onde mais de 80% da população em idade votante comparece às urnas, comparado como nossa insignificante 55% de presença nas eleições presidenciais de 2016. Mas é precisamente porque a proporção de ausentes é tão grande nos EUA, que mesmo uma subida tímida no comparecimento de pessoas que geralmente não votam poderia ser um fator decisivo em 2020.

Bernie Sanders pode incitar pessoas que normalmente não votam a saírem de suas tocas. Algo que ninguém poderá fazer.

Política de classe em alta escala

Nosso entusiasmo com um possível ringue Sanders vs. Trump não se resume à previsão vitoriosa do candidato socialista. A possível derrota Trump tem enormes implicações para o futuro da política norte-americana.

Primeiro, devemos lembrar de uma simples questão de proporção, fácil de esquecer se você acompanha a política como uma vocação ou obsessão: eleições gerais são muito, muito mais amplas do que as primárias.

Cerca de 31 milhões de pessoas votaram nas primárias dos democratas em 2016, uma das disputas mais acirradas na história dos EUA. Mais de 136 milhões de pessoas votaram nas eleições gerais. A mesma variação se aplica aos gastos eleitorais: juntos, Hillary Clinton e Bernie Sanders gastaram em torno de U$ 445 milhões nas primárias. Nas eleições gerais, Clinton e Trump gastaram cerca de U$ 1.8 bilhões.

Utilizando as primárias de 2016 como plataforma, Sanders foi capaz de demonstrar que ideias “radicais” de esquerda como Medicare For All [Sistema de Saúde Para Todos], universidades gratuitas e um salário mínimo de U$ 15/h teve uma enorme base de apoio, mais do que qualquer nicho de autodeclarados progressistas. Essa revelação já deixou uma marca profunda no partido Democrata – que absorveu muito do programa de Sanders, de fato ou retoricamente – e provavelmente vai moldar a política norte-americana nos próximos anos.

Uma campanha para as eleições de gerais de Sanders apresentaria uma oportunidade da mesma natureza, mas em uma escala quatro vezes maior, no mínimo.

Grande parte dos norte-americanos, que não são atentos à política primária, de repente passariam a considerar os elementos básicos da política de Sanders pela primeira vez: o retrato cru que ele traça na guerra entre o 1% e os 99%; sua devoção à entrega de planos de saúde de qualidade, educação e emprego a todos os cidadãos ao custo dos lucros corporativos, bônus de CEOs e retorno de acionistas.

Esse tipo de política de classe – e de plataforma social democrata simples – estava ausente do partido Democrata por mais de meio século, e silenciada na mídia televisiva e impressa por quase o mesmo período. Mas se Sanders for o nomeado pelo partido, esses argumentos serão apresentados para o público em uma larga escala.

O que acontece quando um candidato fala não apenas para viciados em política, mas para 136 milhões de eleitores – ou 200 milhões de eleitores em potencial – e a mensagem é um novo tipo de “sim, nós podemos”: não um “sim, podemos eleger um candidato novo inspirador para o cargo”, mas “sim, podemos garantir dignidades fundamentais para cada cidadão”, e “sim, podemos fazer isso destruindo o estrangulamento tirânico da classe bilionária”?

Bernie vs. os milionários

Talvez a característica mais promissora desse cenário, contudo, seja o contraste binária entre Sanders e Trump. (Sim, outros candidatos podem concorrer, mas a estrutura bipartidária do nosso Estado, e a atual profundidade da polarização partidária, os dirija rapidamente à insignificância).

Por causa dessa ênfase política no conflito de classe, uma disputa Trump-Sanders promete nãos ser apena um choque de valores, mas um referendum sobre o papel dos ricos e do resto da sociedade, com cada candidato representando lados diferentes nessa divisão.

Sanders já nos deu uma prévia do que pode acontecer. Quando lançou sua campanha em março, ele contrastou sua formação com a de Trump, dizendo, “eu não tive um pai que me deu milhões de dólares para construir arranha-céus luxuosos, casinos e clubes privados. Eu não venho de uma família que me deu U$ 200,00 de mesada todo ano desde que tinha 3 anos de idade”.

Ele continuou, “ao contrário de Trump, que paralisou o governo e deixou 800 mil funcionários federais sem pagamento para quitar suas dívidas, eu sei o que é viver em uma família que vive de salário em salário”.

Em um floreio retórico que ressalta as implicações sociais da especulação de Trump, Sanders acrescentou, “eu não venho de uma família que me ensino a construir um império corporativo a partir da especulação imobiliária. Eu protestei contra a especulação imobiliária, fui preso por protestar contra a segregação escolar”.

Com Trump, os democratas têm nas mãos uma oportunidade de ouro para incendiar uma agitação contra os ultra ricos, personificados pelos bilionários que conseguiram pavimentar um caminho direto para dentro da Casa Branca. Mas eles vacilam repetidamente, concentrando-se nas papagaiadas de Trump.

As recentes audiências do impeachment – focadas estritamente nas armações de Trump na Ucrânia, ao invés de seus esforços obscenos em se enriquecer e proteger sua classe – exemplificam os limites dessa estratégia. A ênfase política dos democratas falha no mirar o ponto fraco de Trump: a forma que sua administração tem funcionado, como toda outra administração republicana, como uma máquina para transferir riquezas dos trabalhadores para os patrões.

Na campanha de 2016, Clinton deixou de lado as questões materiais e escolheu travar uma guerra no tabuleiro do Trump. Desde então, a hegemonia democrata e seus aliados midiáticos tem colocado temperamento, caráter e estabilidade no centro de sua estratégia de oposição. Se você limitar seu olhar ao MSNBC, você tem a impressão de que os maiores problemas com a ameaça laranja é que ele é um convidado excepcionalmente desagradável para o jantar, ao invés de um plutocrata em um país controlado por plutocratas.

Líderes hegemônicos e especialistas tem se habituado a alfinetar Trump por ser menos rico que ele diz ser, implicando que ele é um mal empreendedor. Eles se comprazem chamando-o de perdedor, quando a carreira de Trump é, de fato, uma imagem vitoriosa em um sistema feito para concentrar riqueza no topo e transformá-la, alquimicamente, em poder político.

Trump é o símbolo perfeito da perversidade em nossa economia capitalista falida, seu mandato é a coisa grotesca e mais bem-acabada produzida por uma ordem política asquerosa. E ninguém pode deixar isso mais explícito do que Bernie Sanders.

Enquanto Bidden nostalgicamente brada pelas normas abandonadas, e Warren celebra a sacralidade das normas, Sanders deixa o rei nu. Sua independência dos financiadores torna possível que ele faça o que Clinton não fez e que Biden não fará: emparedar a presidência de Trump entre as corporações bipartidária pró-establishment.

Essa estratégia tem potencial não apenas para uma vitória a curto prazo, mas para longo, com uma dose saudável de antagonismo de classe para o discurso político. E isso é justamente o que precisamos para construir uma luta real contra o sistema econômico e político que produziu Trump.

É hora da briga

Você não saberia isso através dos analistas nos principais veículos de comunicação, mas Sanders tem pegado relativamente leve com seus oponentes nas primárias. Isso porque as regras das primárias são diferentes das eleições gerais. Candidatos das primárias correm o risco de alienar os seus possíveis apoiadores com críticas pesadas sobre seus oponentes de uma forma que candidatos de eleições gerais tipicamente não encaram.

Em uma eleição geral, nós esperamos que Sanders se comporte um pouco mais como ele fez durante sua primeira corrida eleitoral ao Senado contra o republicano mega milionário Rich Tarrant.

Em 2006, Vermont seguia claramente uma tendência democrata, mas seis anos depois, o senador republicano Jim Jeffords se reelegeu por 40 pontos de diferença. Sentindo a oportunidade, Tarrand injetou milhões de seu próprio dinheiro na disputa, tentando etiquetar Sanders – que ainda era uma curiosidade socialista no palco nacional – como um radical fora de alcance de Burlington.

Mas Bernie também cerrou os punhos contra “Richie Rich”, ativando sua base de pequenos doadores e criticando os esforços do seu oponente de comprar as eleições como um sintoma de aparelhamento econômico. Na campanha ao Senado mais cara da história de Vermont, Sanders venceu por 33 pontos de vantagem.

Se Sanders trouxer esse tipo de energia irrestrita para uma eleição geral contra Donald Trump, seria o equivalente ao maior espetáculo de alto nível sobre o conflito de classe na história moderna das eleições políticas.

A campanha se escreveu praticamente sozinho na história. Na Nova York de 1940, dois garotos nasceram apenas alguns anos e quilômetros afastados.

Um, o filho de um magnata imobiliário, cresceu em uma mansão de pilares brancos, e traçou sua rota no banco de trás da limusine de seu pai.

O outro, filho de um imigrante sem um tostão no bolso cuja família foi morta no Holocausto, cresceu em um apartamento apertado no Brooklyn, dormindo em uma cama barulhenta na sala de estar.

Um, educado pelas melhores escolas privadas que o dinheiro pode pagar, devotou sua vida a perseguir lucro e poder, abusando de inquilinos, enganando trabalhadores e ostentando sua riqueza nos círculos da alta sociedade novaiorquina.

O outro passou a vida trabalhando nas trincheiras em prol da grande maioria – protestando contra a segregação em Chicago, protegendo os inquilinos pobres de Burlington, lutando por trabalhadores em Washington e tendo como alvo a elite mimada que controla a economia de suas coberturas.

Essa é uma dinâmica que nunca vimos antes em uma eleição presidencial. Raramente vimos algo parecido com isso na história dos EUA, de tão submersa que a política de classe esteve, abaixo do consenso bipartidário pro-corporações e suas falácias sobre meritocracia e as delicias do livre mercado capitalista.

O bilionário egoísta contra o militante da classe trabalhadora: seria potente, sonora e emblemático, de uma profunda cisão econômica que as pessoas entendem intuitivamente, mas não possuem linguagem para ela ainda. Seria o tipo de rivalidade simbólica na qual você imagina as pessoas tomando um lado pela primeira vez em suas vidas.

Quando as pessoas dizem que Sanders é um risco, elas geralmente querem dizer que sua campanha e sua retórica estão muito fora do conforto do mainstream político dos democratas. Entretanto, essa conjuntura na história coloca o conforto versus o risco. A direita tem tido vantagem em usar o apetite do público por transformação para enriquecer os bilionários. Seus oponentes terão que usar o mesmo apetite para fazer exatamente o oposto.

A ambiciosa agenda de Sanders representa uma dramática ruptura do consenso neoliberal entre os democratas e isso é exatamente o que precisamos para triunfar. Se queremos vencer Trump e construir uma força de compensação capaz de se apropriar do sistema e das instituições que o produziram, não podemos pagar o preço de não nomear Bernie Sanders.

Sobre os autores

Meagan Day faz parte da equipe de articulistas da Jacobin.

Matt Karp é professor assistente de história na Universidade de Princeton e editor na Jacobin.

Postagem em destaque

Forte presença militar no Estado reflete fragilidade da democracia no Brasil

Na redemocratização, arranjo instável entre civis e Forças Armadas chegou ao auge com governo Bolsonaro, analisa professor Jorge Zaveruc...