26 de junho de 2013

Marx continua vivo

Gianni Vattimo

l' Espresso

Se tomarmos a sério o dito de Marx segundo o qual a história é a história da luta de classes, como poderemos interpretar a essa luz as múltiplas realidades conflituais que de facto a historiografia documenta e que estão ainda na ordem do dia na crónica dos nossos anos? Por exemplo, como referir à luta de classes as múltiplas lutas de libertação nacional que modificaram substancialmente o quadro do colonialismo e do eurocentrismo que durou até aos inícios do século XX? Não parece possível referir à luta de classes as rebeliões de grupos sociais como os gay e sobretudo as lutas feministas: para não falar do facto de que hoje em dia um dos sujeitos da luta de classes parece desaparecido, com o fim da fábrica taylorista e a diferenciação dos trabalhos que retiraram sentido à própria ideia de classe operária.

O propósito de Losurdo em “La lotta di classe. Una storia politica e filosofica” (A luta de classes. Uma história política e filosófica, Laterza, 383 pp., 24 euros), um livro que resume de modo emblemático toda a sua carreira de estudioso, é o de reabrir a discussão filosófica sobre a noção de luta de classes, para redescobrir aí seja a relevância do ponto de vista da historiografia, seja o seu valor para as lutas sociais que ainda decorrem. Longe de ser uma simples história do conceito de luta de classes e dos significados que foi assumindo em diferentes contextos, o livro é um grande ensaio de filosofia da história. Que começa com o destaque dado à insuficiência das visões naturalísticas dos conflitos históricos, aquelas segundo as quais sempre houve e sempre haverá uma luta entre quem comanda e quem obedece, entre forte e fracos, etc. A importância da abordagem de Marx e Engels consiste na refutação deste paradigma naturalístico, o qual no fim de contas serve apenas às classes dominantes para desencorajarem qualquer transformação. À ideia demasiado genérica duma só luta de classes, Losurdo opõe, baseado em textos de Marx, a tese de que existem múltiplas lutas de classes. E mostra de modo convincente (apoiado numa documentação vastíssima e extraordinariamente instrutiva) como este esquema permite compreender a realidade da história moderna até aos nossos dias.

Losurdo professa uma concepção globalmente racionalista da história: o confronto de classes faz sentido na medida em que, fundado em reivindicações parciais e específicas, promove finalmente a afirmação de valores humanos universais. Uma tese (talvez excessivamente metafísica) que o conduz a sublinhar a diferença radical entre uma visão marxista e autenticamente revolucionária da luta de classes e as várias formas de populismo soixante-huitard hoje em dia em circulação (Negri e Hardt; Zizek; mas antes de todos Foucault), as quais se afiguram corresponsáveis pela confusão em que hoje em dia se encontra a esquerda.

23 de junho de 2013

O espectro da austeridade

Por Prabhat Patnaik [*]

[People's Democracy] Um estudo baseado em dados e projeções do FMI para 181 países efetuado na Initiative for Policy Dialogue, Columbia University, Nova York, por Isabel Ortiz e Matthew Cummins, chegou a algumas descobertas notáveis. O estudo foca quatro períodos: o período pré crise 2005-2007; a fase um da crise abrangendo 2008-09, a qual assistiu à expansão orçamental na forma de pacotes de estímulo adotados por vários países, incluindo, numa escala modesta, os próprios EUA; a fase dois da crise abrangendo 2010-2012, a qual assistiu o início da contração orçamental por todo o mundo; e a fase três da crise abrangendo 2013-2015 (com base em projeções do FMI), na qual se assiste a uma intensificação da contração orçamental.

O referido estudo descobre que 68 países em desenvolvimento e 26 países de alto rendimento devem, segundo projeções do FMI, cortar na despesa governamental em proporção do PIB durante o período 2013-15. E a contração média na despesa governamental em proporção ao PIB ao longo deste período é de 3,7 para estes países em desenvolvimento, a comparar com a de 2,2 por cento para os países de alto rendimento. A austeridade em 2013 afetará 5,8 mil milhões de pessoas, ou 80 por cento da população mundial, e em 2014 a projeção é de que afete 6,3 mil milhões de pessoas, ou 90 por cento da população mundial.

Medidas adotadas

O estudo também examina as medidas através das quais se pretende impor austeridade. Em 100 países estas medidas assumem a forma de eliminação ou redução de subsídios, incluindo produtos alimentares, agricultura e combustível; em 80 países elas assumem a forma de racionalização e de novos ataques a redes de segurança; em 86 países assumem a forma de "reforma de pensões"; em 37 países de "reformas nos cuidados de saúde"; e em 32 países de "flexibilização do trabalho" (a qual tem o efeito inevitável de reduzir pagamentos salariais pelo governo). O que é gritante acerca do estudo é que a "austeridade" está a ser imposta numa tamanha escala maciça mesmo sobre países do terceiro mundo e não apenas sobre países europeus atingidos pela crise ou economias de países avançados.

Austeridade nesta escala, imposta à economia global como um todo, à primeira vista pareceria bizarra. A economia mundial está a cambalear sob uma crise que implicou desemprego maciço e cuja causa básica é uma deficiência da procura agregada. Esta é uma época em que governos deveriam estar a expandir a procura, uma vez que as despesas privadas permanecem esmagadas no rastro do colapso da bolha habitacional e da florescente despesa de consumo financiada a crédito. Por que é que governos exactamente nesta conjuntura estariam a adoptar medidas de austeridade, as quais só podem agravar a crise e que inevitavelmente assim o farão?

A austeridade, deveria notar-se, terá não só um efeito directo sobre a procura agregada, através de cortes em despesas governamentais, como também um efeito indirecto: uma vez que os cortes em despesa governamental assumem por toda a parte a forma de redução de apoio orçamental para os pobres e os trabalhadores, a capacidade de negociação dos mesmos afunda, o que implica uma redução (em comparação com o que aconteceria normalmente) dos seus salários; e isto tem um efeito ulterior de redução da procura. Por outras palavras, uma redução no apoio orçamental para os trabalhadores não só atinge-os directamente com também tem o efeito adicional de provocar uma modificação na distribuição do rendimento entre salários e lucros em favor destes últimos. E ambos os fenómenos têm um efeito de contracção da procura, a qual só agravará a crise. Por que então os governos estão a insistir na austeridade neste momento, quando a crise exige precisamente a insistência na política oposta?

A resposta a esta pergunta é bastante directa. O capital financeiro sempre se opôs a défices orçamentais, donde a sua advocacia da chamada "política da finança saudável" a qual sustenta que os orçamentos devem ser equilibrados. (Sua encarnação contemporânea declara que orçamentos podem apresentar um défice não superior a 3 por cento do PIB). E uma vez que o capital financeiro também se opõe, juntamente com todos os outros segmentos do capital, a maior tributação pelo governo, temendo que tal tributação incida sobre os seus próprios rendimentos maciços, ele tradicionalmente opõe-se a maior despesa governamental (excepto quando tal despesa é constituída por transferências directas para si próprio).

Mesmo quando John Maynard Keynes havia proposto maior despesa governamental, financiada por um défice orçamental, como meio de ultrapassar o desemprego na Grã-Bretanha em 1929, a City de Londres, que era a sede do capital financeiro britânico, opôs-se veementemente a isso. Assim, não há nada de novo acerca da actual oposição da finança à despesa governamental e a sua preferência pela "austeridade" orçamental.

O que é novo entretanto é o facto de ter desaparecido a capacidade do Estado para se contrapor à oposição da finança a maior despesa governamental. E isto acontece porque enquanto o Estado permanece uma nação-Estado, o capital financeiro agora é internacional, movendo-se de um país para outro "num piscar de olhos". Portanto, nenhum Estado isolado, que seja arrastado no turbilhão dos fluxos de capital globalizados, pode-se opor aos caprichos da finança – pois se o fizer então a finança perderia "confiança" naquela economia e mover-se-ia alhures, provocando-lhe uma aguda crise financeira.

Se houvesse um Estado mundial capaz de confrontar a finança globalizada , seria concebível que as coisas pudessem ser diferente, no sentido de que um tal Estado podia avançar com políticas keynesianas de gestão da procura a fim de ultrapassar a crise e ampliar o emprego. Analogamente, se mesmo as nações-Estado existentes pudessem ter-se congregado para iniciar uma política coordenada de estímulo da procura, e portanto actuado em substituição a um Estado mundial, as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas este não e o caso: mesmo na Europa não pode haver acordo acerca de uma política coordenada devido à insistência da Alemanha em políticas que mereçam a aprovação do capital financeiro. Não é surpreendente portanto que o jugo da finança, que quer austeridade, esteja agora a pisotear o mundo como um todo, mesmo em meio a uma crise que só pode ser agravada por ela.

Pergunta mais profunda

Contudo, a pergunta mais profunda é a seguinte: por que a finança se opõe à intervenção do Estado para estimular a procura mesmo em meio de uma crise? Todo argumento teórico que é avançado contra tal estimulação é enviesado, muito embora seja aceito por vários economistas (os quais geralmente seguem a linha do capital financeiro porque sabem qual o meio pelo qual o seu pão fica amanteigado). De facto, Joan Robinson chamou o argumento para a busca perene da "finança saudável" (inclusive mesmo em meio a uma recessão) de a "impostura da finança" ("humbug of finance"). Ele não tem base teórica legítima; é apenas impostura, propalada pela finança para apoiar a sua predilecção. Isto entretanto traz-nos de volta a pergunta: por que esta predilecção?

Michael Kalecki respondeu a esta pergunta ao enfatizar que qualquer abandono da doutrina da "finança saudável" mina a legitimidade social e portanto o poder dos capitalistas. Se governos podem intervir directamente para aumentar o emprego na economia então a necessidade de estimular os "espíritos animais" dos capitalistas, de promover o seu "estado de confiança" através de toda espécie de persuasões, desaparece – o que pode mesmo encorajar pessoas a fazerem a pergunta: afinal de contas por que precisamos de um grupo de capitalistas? E o segmento de capitalistas mais vulnerável a este perigo de erosão da legitimidade social é aquele segmento, nomeadamente o financeiro, aos quais o próprio Keynes classificou como "investidores sem funções" e que não desempenham qualquer papel na organização da produção ou no progresso tecnológico. O capital financeiro portanto constitui sistematicamente o mais veemente opositor da intervenção do Estado na administração da procura, uma condição para a administração da mesma é o abandono da doutrina da "finança saudável".

Mas este argumento de Kalecki precisa ser situado dentro de uma percepção mais geral que os capitalistas têm, nomeadamente que o único meio de ultrapassar uma crise numa economia capitalista – a qual, isto é considerado como garantido, constitui o melhor de todos os universos económicos possíveis – é através do fortalecimento dos capitalistas a expensas dos trabalhadores. De facto a própria crise é ou não reconhecida de todo como uma crise, mas apenas como uma aberração temporária; ou, se reconhecida, é atribuída ao fenómeno de "salários mais altos do que o justificado" pagos aos trabalhadores. Ela nunca é reconhecida como um resultado inevitável da anarquia do sistema capitalista, como um fenómeno que é imanente ao capitalismo.

Sugere-se que se for permitido ao sistema capitalista funcionar suavemente, isto é, com completa flexibilidade de salários e preços, o que significa impor cortes salariais se houver desemprego, ele nunca experimentará qualquer desemprego involuntário. Se há desemprego involuntário, o que é muitas vezes posto em dúvida (alguns economistas americanos esforçaram-se mesmo por argumentar que o desemprego maciço na década de 1930 era todo voluntário!), então a única razão possível para isso deve ser que está a faltar a tal flexibilidade, e em particular que os salários estão "demasiado altos". E se os salários devem ser rebaixados, então o apoio orçamental para os trabalhadores, o qual melhora o seu padrão de vida (constituindo um salário social) e portanto fortalece seu poder de negociação e resistência a revisões salariais em baixa, torna-se um empecilho. A austeridade, envolvendo uma redução em tal apoio orçamental, torna-se então uma panaceia para ultrapassar a crise, ao invés de algo que agrava a crise.

Não há dúvida de que certas espécies de despesas governamentais que não implicam apoio orçamental, mas que beneficiam directamente os interesses corporativo-financeiros, mesmo sem implicar subsídios ou transferências directas, podem ser saudadas por eles. A principal dentre elas é a despesa militar e desde a década de 1930 o capital financeiro não se tem oposto a maior despesa militar do governo, a qual também tem a "vantagem" acrescida de não minar a legitimidade social dos capitalistas (desde que ela pode sempre ser dissimulada como necessária ao "interesse nacional"). Mas numa situação como a presente, em que não é o momento apropriado para qualquer acumulação militar competitiva, o espaço para aumentar tal despesa é limitado. A oposição ao apoio orçamental para os trabalhadores assume portanto a forma de oposição à despesa governamental enquanto tal.

Mas, pode-se perguntar, será que os próprios capitalistas acreditam que o sistema não tem tendência imanente em direcção a crises? O que capitalistas individualmente acreditam, contudo, é irrelevante. A visão de que o capitalismo não tem tendência imanente para crises é apenas uma extensão do "fetichismo da mercadoria" que caracteriza as percepções acerca do sistema.

Marx rastreou o "fetichismo da mercadoria" como decorrente do facto de que "uma definida relação social entre homens... assume, aos seus olhos, a forma fantástica de uma relação entre coisas". Assim, a Lei de Say, que nega a possibilidade de crises de super-produção, assim o faz porque não vê a "relação social entre homens" mas apenas "uma relação entre coisas" ou valores de uso; e coisas que são valores de uso possivelmente não podem ser super-produzidas. Se o vendedor não pode vender o que produziu então ele sempre pode utilizar o produzido por si próprio; logo, nunca pode haver qualquer super-produção generalizada. A insistência na austeridade é um aspecto deste fetichismo da mercadoria.

[*] Prabhat Patnaik is an Indian Marxist economist and political commentator. He taught at the Centre for Economic Studies and Planning in the School of Social Sciences at Jawaharlal Nehru University in New Delhi, from 1974 until his retirement in 2010. He was the Vice-Chairman of the Planning Board of the Indian state of Kerala from June 2006 to May 2011.

21 de junho de 2013

Capitalismo, democracia e eleições

Richard D. Wolff

Monthly Review

Capitalismo e democracia real nunca tiveram muito a ver um com o outro. Em contrapartida, a votação formal em eleições tem funcionado lindamente para o capitalismo. Afinal de contas, eleições raramente puseram em causa, muito menos decidiram, a questão do capitalismo: se os eleitores preferem isto ou um sistema econômico alternativo. Os capitalistas têm mantido com êxito as eleições centradas noutro lugar, sobre questões e opções não sistêmicas. Este êxito lhes permitiu em primeiro lugar igualar democracia a eleições e, a depois, celebrar eleições em países capitalistas como prova da sua democracia. Naturalmente, eleições imparciais foram e são permitidas apenas fora das empresas capitalistas. Eleições democráticas dentro delas - onde os empregados são maioria - nunca acontecem.

Democracia real significa que importantes decisões que afetam as vidas das pessoas são tomadas genuinamente e igualmente pelas pessoas afetadas. A organização capitalista das empresas portanto contradiz a democracia real. No interior das corporações que dominam o capitalismo moderno, uma minúscula minoria - os acionistas principais e os conselhos de administração que eles elegem - tomam decisões chave que afetam os que estão abaixo deles na hierarquia corporativa, os empregados. Aquela pequena minoria decide que produtos a corporação produzirá, que tecnologias serão utilizadas, onde ocorrerá a produção e como serão distribuídas as receitas líquidas da corporação. A maioria é afetada, muitas vezes profundamente, por todas essas decisões, mas não participa na elaboração delas.

Dentro das modernas corporações capitalistas típicas, a democracia real (assim como a eleitoral) está excluída. Sociedades que celebram o compromisso com a democracia e justificam políticas do governo (incluindo guerras) como promotoras da democracia também excluem a democracia dos seus lugares de trabalho. Esta contradição absoluta provoca graves problemas. Conscientemente ou inconscientemente, os trabalhadores percebem, sentem e exprimem insatisfações que refletem essa contradição.

Exemplo: os trabalhadores percebem o desrespeito que baixa das alturas do comando das corporações. Frequentemente sentem que suas capacidades e criatividades não são reconhecidas, não são utilizadas e/ou são desvalorizadas. Expressões de tais sentimentos incluem absenteísmo, tensões inter-pessoais e disfunções relacionadas com o trabalho (alcoolismo, insubordinação, furto, etc). A exclusão da democracia dos lugares de trabalho muitas vezes provoca ressentimentos dos trabalhadores e resistências que reduzem a produtividade e os lucros. As corporações desde há muito respondem com a contratação de múltiplas camadas de supervisores custosos no lugar de trabalho e proporcionando grandes orçamentos para eles. Aquelas despesas corporativas estão entre os custos que o capitalismo desperdiça: somas desviadas do investimento, do crescimento econômico, do progresso técnico e de outras utilizações sociais preferíveis.

As eleições fora do lugar de trabalho mantêm-se numa relação ambivalente com a exclusão de democracia real interna do capitalismo. Por um lado, eleições distraem o povo das suas inquietações conscientes e inconscientes com as condições de trabalho. As eleições centram-se, ao invés, em candidatos políticos, partidos e políticas alternativas em torno de questões diferentes do que capitalismo versus sistemas econômicos alternativas e diferentes também das suas respectivas condições de trabalho. Eis porque os apoiantes do capitalismo apreciam eleições. Eleições bem controladas não questionam, e muito menos ameaçam, o capitalismo. Por outro lado, elas sempre contém um risco, o potencial causar grandes problemas ao capitalismo.

Os trabalhadores a quem é negada democracia no emprego podem concluir que problemas tão cruciais como salários inadequados, segurança de emprego e benefícios e estão conscientes desta negação. Dada a enaltecida equivalência do capitalismo entre democracia e eleições, os trabalhadores podem voltar-se para eleições como um meio de responder à ausência de democracia no lugar de trabalho. Sabendo que eles incluem a maioria eleitoral, os trabalhadores podem encarar eleições como o meio para mudar as suas condições econômicas. A política eleitoral poderá tornar-se o seu caminho para desfazer as consequências de um sistema econômico capitalista. A maioria podia por em causa, numa decisão eleitoral, a escolha entre a organização capitalista e a democrática no local de trabalho. Os trabalhadores poderiam utilizar eleições fora das empresas para finalmente trazer eleições e democracia real para dentro delas. A política convencional deixa aquela possibilidade em aberto, um risco perpétuo para capitalistas ansiosos.

Dentre as soluções encontradas para este problema, capitalistas financiam candidatos e partidos nas campanhas eleitorais e entre elas. Em contrapartida, responsáveis eleitos apoiam desejos dos seus financiadores, especialmente quanto ao que é o que não é apresentado aos eleitores para decidir. Empresas capitalistas também financiam think tanks, programas acadêmicos, mass media e campanhas de relações públicas que moldam a opinião pública em favor do capitalismo. No último meio século emergiu ainda outra solução: manter o estado na defensiva não só ideologicamente como também financeiramente por meio de déficits orçamentais e dívidas.

Exemplo (obrigado a Doug Korty por este apontamento): os déficits totais do governo federal [dos EUA] de 1950 a 2009 foram de US$6,6 milhões de milhões (trillion). Durante aqueles anos, três presidentes republicanos (Bush1, Reagan e Bush 2) foram responsáveis por mais de 92% daqueles déficits. Todos os outros presidentes (Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon/Ford, Carter e Clinton) somados foram responsáveis por 12%. Os três presidentes republicanos felizes com défices foram os mais conservadores e subservientes aos principais interesses capitalistas. Todos eles aumentaram os gastos (principalmente para atividade militar e objectivos de contenção de crise) enquanto cortavam impostos (especialmente para corporações e os indivíduos mais ricos). Tais políticas obrigaram a enormes défices federais e a subidas rápidas da dívida nacional. Pelo seu enorme estímulo ao gasto e às guerras custosas não compensadas por aumentos de impostos, a administração Obama também incide em défices muito grandes e ascende a dívida nacional.

Seguem-se as previsíveis tempestades ideológicas: (1) déficits e dívidas federais foram definidos como os problemas urgentes; e (2) programas de austeridade para cortar despesas do governo eram a solução apropriada. Republicanos e democratas desempenharam os seus papéis previsíveis argumentando sobre o ritmo, dimensão e objetivos da austeridade. Todos os seus argumentos mantêm a questão do capitalismo fora da agenda para o debate popular e político apesar da crise do sistema.

Quando soluções convencionais fracassam e cada vez mais pessoas começam a questionar, desafiar e opor-se ao capitalismo, os capitalistas geralmente apoiam a polícia e a repressão militar. Em situações extrema, eles acabam com a democracia eleitoral por meio de um golpe militar, ditadura ou qualquer outro. Contudo, acabar com a democracia eleitoral habitualmente provoca ansiedade mesmo entre os capitalistas que a apoiam. A sua preocupação é de que o fim da democracia eleitoral provoque crítica social e oposição sistêmica que possa se expandir de modo a incluir um sistema de produção não democrático. Eles não desejam perder o benefício chave de eleições adequadamente controladas: distrair os trabalhadores afastando-os da questão do capitalismo em si. Tais eleições são o modo mais barato e menos perigoso para assegurar a distância que o capitalismo mantém entre ele próprio e a democracia real.

Sobre o autor
Richard D. Wolff é professor emérito da Universidade de Massachusetts-Amherst e professor visitante no Programa de Graduação em Assuntos Internacionais da New School University, Nova Yok. Autor de New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006) e do filme documentário Capitalism Hits the Fan.

14 de junho de 2013

O significado mais profundo da espionagem em massa nos EUA

A revelação de que o regime utiliza a Agência de Segurança Nacional (NSA na sigla em inglês) para espionar secretamente as comunicações de centenas de milhões de cidadãos dos EUA e do estrangeiro provocou denúncias em escala mundial.

Por James Petras

Nos Estados Unidos, apesar da cobertura generalizada dos mass media e da oposição de organizações de liberdades civis, não houve qualquer protesto em massa. Líderes do Congresso tanto do Partido Republicano como do Democrata, bem como juízes de alta hierarquia, aprovaram o programa sem precedente de espionagem interna. Ainda pior, quando as operações de espionagem generalizada foram reveladas, importantes líderes do Senado e do congresso reiteraram seu endosso a toda intrusão nas comunicações electrónicas e escritas envolvendo cidadãos americanos. O presidente Obama e seu Procurador-Geral defenderam aberta e vigorosamente as operações de espionagem universal da NSA.

As questões levantadas por este vasto aparelho de polícia secreta e sua penetração e controle sobre a sociedade civil, desrespeitando a liberdade de expressão dos cidadãos, vão para além das meras "violações de privacidade", tal como foi salientado por muitos peritos legais.

A maior parte dos libertários civis centra-se nas violações de direitos individuais, garantias constitucionais e na privação de direitos dos cidadãos. Estas questões legais são importantes e os críticos estão certos ao levantá-las. Contudo, estas críticas constitucionais-legais não vão suficientemente longe; elas deixam de levantar questões ainda mais fundamentais; elas evitam questões políticas básicas.

Por que um aparelho maciço de polícia de estado e de espionagem universal se tornou tão central para o regime dominante? Por que toda a liderança executiva, legislativa e judicial veio a público para um repúdio tão desavergonhado de todas as garantias constitucionais? Por que líderes eleitos defendem a espionagem política universal contra a cidadania? Que espécie de política exige um estado policial? Que espécie de políticas interna e externa a longo prazo e em grande escala ilegais e inconstitucionais exigem a construção de uma vasta rede de espiões internos e 100 mil milhões de dólares de infraestrutura corporativa-estatal de tecno-espionagem num período de "austeridade" orçamental com o retalhamento de programas sociais?

O segundo conjunto de questões decorre da utilização dos dados de espionagem. Até então a maior parte dos críticos questionou a existência da espionagem de estado maciça mas evitou a questão vital de que medidas são tomadas pelos mestres dos espiões quando visam indivíduos, grupos e movimentos? A questão essencial é: Que represálias e sanções se seguem à "informação" que eles coleccionaram, classificaram e tornaram operacional através destas redes maciças de espionagem interna? Agora que o "segredo" desta super-abrangente espionagem política do estado entrou na discussão pública, o próximo passo deveria ser revela as operações secretas que se seguem contra aqueles que os patrões dos espiões consideram como um "risco para a segurança nacional".

A política por trás da Polícia de Estado

A razão fundamental para a conversão do estado num gigantesco aparelho de espionagem é a natureza profundamente destrutiva das políticas interna e externa que o governo tem aplicado tão vigorosamente. A vasta expansão do aparelho de polícia do estado não é uma resposta ao ataque terrorista de 11/Set. O crescimento geométrico de espiões, orçamentos de polícia secreta e a ampla intrusão em todas as comunicações dos cidadãos coincide com as guerras por todo o globo. As decisões de militarizar a política global dos EUA exigem uma vasta redistribuição orçamental, retalhamento de despesas sociais para financiar a construção do império; triturar a saúde pública e a segurança social para salvar a Wall Street. Estas são políticas que promovem grandemente lucros para banqueiros e corporações ao mesmo tempo que impõem impostos regressivos sobre o salário e os trabalhadores assalariados.

Guerras prolongadas e extensas no exterior foram financiadas a expensas do bem-estar dos cidadãos no país. Esta política levou ao declínio de padrões de vida para muitas dezenas de milhões de cidadãos e ao aumento da insatisfação. O potencial de resistência social como evidenciado pelo breve movimento "Occupy Wall Street" foi endossado por mais de 80% da população. A resposta positiva alarmou o estado e levou a uma escalada de medidas de polícia de estado. A espionagem em massa é concebida para identificar os cidadãos que se opõem tanto a guerras imperiais como à destruição do bem-estar interno, etiquetá-los como "ameaças à segurança" é um meio de controlá-los através da utilização de poderes policiais arbitrários. A expansão dos poderes de guerra do Presidente tem sido acompanhada pelo crescimento e âmbito do aparelho de espionagem do estado: quanto o Presidente ordena ataques com drones além-mar e maior o número das suas intervenções militares, maior a necessidade para a elite política que cerca o Presidente de aumentar o seu policiamento dos cidadãos na expectativa de uma reacção popular adversa. Neste contexto, a política de espionagem em massa é tomada como uma "acção preventiva". Quanto maiores as operações da polícia de estado, maior o medo e a insegurança entre cidadãos dissidentes e activistas.

O assalto aos padrões de vida de americanos trabalhadores e da classe média a fim de financiar as séries de guerras infindáveis, e não a assim chamada "guerra ao terror", é a razão porque o estado tem desenvolvido ciber guerra maciça contra a cidadania estado-unidense. A questão não é apenas de uma violação do direito de privacidade individual: é fundamentalmente uma questão de violação dos direitos colectivos de cidadãos organizados para livremente empenharem-se na oposição pública a políticas sócio-económicas regressivas e questionar o império. A proliferação de instituições burocráticas permanente, com mais de um milhão de "coleccionadores de dados" de segurança, é acompanhada por dezenas de milhares de "operadores de campo", analistas e investigadores (inquisitors) a actuarem arbitrariamente para designar cidadãos dissidentes como "riscos de segurança" e imporem represálias conforme as necessidades políticas dos seus patrões que dirigem a política. O aparelho de polícia estatal tem as suas próprias regras de auto-protecção e auto-perpetuação; tem as suas próprias ligações e ocasionalmente pode competir com o Pentágono. A polícia de estado enlaça-se e protege os mestres da Wall Street e os propagandistas dos mass media – mesmo quando (deve) espioná-los!

A polícia de estado é um instrumento do Ramo Executivo a actuar como um veículo para a sua arbitrária prerrogativa de poderes. Contudo, em matérias administrativas, ela possui um grau "autonomia" para visar comportamento dissidente. O que é claro é o alto grau de coesão, disciplina vertical e defesa mútua, acima e abaixo na hierarquia. O facto de um denunciante (whistle-blower), Edward Snowden, emergir dentre as centenas de milhares de cidadãos espiões é a excepção, o denunciante solitário, o qual confirma a regra. Há menos desertores entre os milhões de membros da rede de espionagem dos EUA do que em todas as famílias da Máfia na Europa e na América do Norte.

O aparelho de espionagem interna opera com impunidade devido à sua rede de poderosos aliados internos e externos. Toda a liderança bi-partidária do Congresso compartilha o segredo e é cúmplice com as suas operações. Ramos relacionados do governo, como o Internal Revenue Service, cooperam proporcionando informação e perseguindo grupos políticos e indivíduos visados. Israel é um aliado além-mar chave da Agência de Segurança Nacional, como tem sido documentado na imprensa israelense ( Haaretz , June 8, 2013). Duas firmas israelenses de alta tecnologia (Verint e Narus) com ligações à política secreta israelense (Mossad) forneceram o software espião à NSA e isto, naturalmente, abriu uma janela para a espionagem israelense nos EUA contra americanos que se opõem ao estado sionista. O escritor e crítico Steve Lendeman destaca que patrões de espiões israelenses através do seu software em "companhias de fachada" têm desde há muito a capacidade para "roubar propriedade comercial e dados industriais" com impunidade. E devido ao poder e influência dos presidentes das 52 Principais Organizações Judias Americanas, responsáveis do Departamento de Justiça ordenaram que dúzias de casos de espionagem israelense fossem arquivados. Os estreitos laços israelenses com o aparelho de espionagem dos EUA servem para impedir um exame mais profundo da sua operação e objectivos políticos – a um preço muito elevado em termos da segurança de cidadãos estado-unidenses. Em anos recentes dois incidentes se destacam: "peritos" israelenses em segurança foram contratados para aconselhar o Departamento de Segurança Interna da Pennsylvania (Department of Homeland Security, DHS) na sua investigação e repressão "estilo Stasi" [NR] de críticos do governo e activistas ambientais (comparados pelos israelenses a "terroristas da Al Qaeda) – cuja descoberta em 2010 obrigou à demissão do Director do DHS James Powers. Em 2003, o governador de Nova Jersey, Jim McGreevy, nomeou sua amante, uma operacional do governo israelense e antiga oficial IDF, como chefe do Departamento de Segurança Interna do estado e posteriormente demitiu-se, denunciando a israelense, Golan Cipel, for chantageá-lo no fim de 2004. Estes exemplos são uma pequena amostra da profundidade e alcance das tácticas da polícia de estado israelense que se entrecruzam na repressão interna nos EUA.

As consequências políticas e econômicas da espionagem de Estado

As denúncias das operações de espionagem em massa são um passo positivo, na medida em que avancem. Mas é igualmente importante a questão de o que se segue ao acto de espionar? Sabemos agora que centenas de milhões de americanos estão a ser espiados pelo estado. Sabemos que a espionagem em massa é política oficial do Executivo e é aprovada pelos líderes do Congresso. Mas temos apenas informação fragmentada sobre as medidas repressivas resultantes das investigações de "indivíduos suspeitos". Podemos assumir que há uma divisão de trabalho entre coleccionadores de dados, analistas de dados e operacionais de campo que perseguem "indivíduos e grupos de risco", com base em critérios internos conhecidos só pela polícia secreta. Os operacionais chaves da espionagem são aqueles que concebem e aplicam o critério para designar alguém como um "risco de segurança". Indivíduos e grupos que exprimem visões críticas da política interna e externa são "um risco", aqueles que actuam para protestas são um "risco mais alto"; aqueles que viajam para regiões de conflito são presumidos estarem na categoria do "risco mais elevado", mesmo que não tenham violado qualquer lei. A questão da legalidade dos pontos de vista e acções de um cidadão não entra na equação dos patrões dos espiões; nem tão pouco quaisquer questões respeitantes à legalidade dos actos cometidos pelos espiões contra cidadãos. O critério definindo um risco de segurança sobrepõe-se a quaisquer considerações e salvaguardas constitucionais.

Sabemos a partir de um grande número de casos publicados que críticos cumpridores da lei, ilegalmente espionados, foram posteriormente presos, examinados e encarcerados – suas vidas e as dos seus amigo e membros da família foram destruídas. Sabemos que centenas de lares, lugares de trabalho e escritórios de suspeitos foram invadidos de surpresa em "expedições de busca" ("fishing expeditions"). Sabemos que membros da família, associados, vizinhos, clientes e patrões de "suspeitos" foram interrogados, pressionados e intimidados. Acima de tudo, sabemos que dezenas de milhões de cidadãos cumpridores da lei, mas críticos da política económica interna e das guerras além-mar, foram censurados devido ao receio muito real das operações maciças executadas pela polícia de estado. Nesta atmosfera de intimidação, qualquer conversação crítica ou palavra falada em qualquer contexto ou difundido através dos media pode ser interpretada por espiões sem nome e sem rosto como uma "ameaça à segurança" – e o seu nome pode entrar nas listas secretas sempre crescentes de "terroristas potenciais". A simples presença e dimensões da polícia de estado é intimidatória. Apesar de haver cidadãos a afirmar que a polícia de estado é necessária a fim de serem protegidos de terroristas, quantos outros sentir-se-ão obrigados a abraçar o seu estado terroristas só para afastar qualquer suspeita, com a esperança de permanecer fora das listas crescentes? Quantos americanos com mentalidade crítica agora temem o estado e nunca dirão em público o que murmuram em casa?

Quanto maior a polícia secreta, maiores as suas operações. Quanto mais regressiva a política econômica interna, maior o medo e o ódio da elite política.

Mesmo quando o Presidente Obama e seus parceiros democratas e republicanos se jactam acerca da sua polícias de estado e da sua eficaz "função de segurança", a vasta maioria dos americanos estão a tornar-se conscientes de que o medo instilado dentro de casa serve ao interesse de travar guerras imperiais no exterior; que a covardia face às ameaças da polícia de estado só encoraja novos cortes nos seus padrões de vida. Quando aprenderão eles que revelar espionagem é apenas o princípio de uma solução? Quando reconhecerão que acabar com a polícia de estado é essencial para desmantelar o império caro e criar uma América segura e próspera? [The Official James Petras Website]

13 de junho de 2013

Prezar a liberdade, defender a escravidão

Quem faz do liberalismo a imagem dada pelos liberais terá duras surpresas ao ler esta obra magistral de Domenico Losurdo, Contre-histoire du libéralisme, que já de saída nos apresenta um extraordinário paradoxo.

Lucien Sève

Le Monde Diplomatique

Tradução / Ser liberal, em princípio, significa militar, seguindo a escola de grandes escritores como Hugo Grotius e John Locke, Adam Smith e Alexis de Tocqueville, pelas liberdades do indivíduo contra o absolutismo político, o intervencionismo econômico, a intolerância filosófica. Poderoso movimento de pensamento e ação que, do século XVI ao século XVIII, e através de três gloriosas revoluções na Holanda, Inglaterra e América, moldou toda a história contemporânea. Mas é justamente com ele que a escravidão conheceu seu maior desenvolvimento. Na América, havia 330 mil escravos em 1700, cerca de 3 milhões em 1800 e o dobro na metade do século XIX. A Holanda só aboliu a escravidão em suas colônias em 1863. Em meados do século XVIII, era a Grã-Bretanha que tinha o maior número de escravos: quase 900 mil. E tratava-se do pior tipo de escravidão, a chattel racial slavery, na qual o escravo negro é simplesmente um “bem móvel”. Não se poderia imaginar uma negação mais radical da liberdade individual. Onde está o erro?

É isso que o livro se dedica a explicar, de cabo a rabo, com uma impressionante oferta de fatos sangrentos e citações sufocantes. Não, não se trata de um erro. A doutrina liberal nasceu com duas faces e nunca as abandonou: mensagem inflamada de liberdade pessoal apenas para os cidadãos, homens brancos proprietários que formavam um Herrenvolk, um “povo de senhores” – germanismo adotado sem medo por essa ideologia amplamente anglófona; negação cínica da humanidade não apenas para os negros nas colônias, mas também para aquelas consideradas “bárbaras”, como os irlandeses e os índios americanos, e toda a massa de servos e trabalhadores nas próprias metrópoles – ou seja, para a grande maioria. Essa contra-história do liberalismo, sem negar a face luminosa, revela desde o princípio, em toda a sua extensão, o lado escuro que a hagiografia liberal não cansa de esconder. Quando, por exemplo, apenas para ficar em um detalhe, aprendemos que o grande filósofo liberal Locke era acionista da Royal African Company, grande organizadora do tráfico de negros, começamos a entender melhor muitas coisas em nossa história moderna.

Mas também entendemos que esse livro iconoclasta levou tempo para chegar até nós. E que aquilo que nossa grande mídia fala dele, mesquinhamente, revela com frequência um mau humor envergonhado. A obra é erudita demais e ao mesmo tempo muito clara para ser recusada com propriedade. Por isso é atacada por meio dos desgastados expedientes da polêmica. Questionam-se as posições do autor sobre qualquer outro assunto, quando é perfeitamente admissível não concordar com ele. Acusam-no de unilateralismo, quando ele não perde nenhuma oportunidade de mostrar a diversidade de aspectos do liberalismo, a complexidade de suas correntes, muitas vezes a ambiguidade de seus pensadores. Por fim, lança-se o golpe do “mas todo mundo já sabia!”, quando a ideologia dominante age incessantemente para dar vida, em sua grosseira parcialidade, à lenda dourada do liberalismo.

Novo Mundo, um “berço vazio”

É preciso dizer que o livro de Losurdo está cheio de citações que fazem muito mal à lenda. Como este texto de Tocqueville legitimando o extermínio dos peles-vermelhas: “A Providência, colocando-os em meio às riquezas do Novo Mundo, parecia não lhes ter oferecido mais que um curto usufruto. Eles estavam lá, de alguma forma, apenas esperando. As costas tão bem preparadas para o comércio e a indústria, os rios tão profundos, o inesgotável vale do Mississípi, o continente inteiro, tudo isso aparecia então como o berço ainda vazio de uma grande nação”. O “berço vazio”: eis como um célebre liberal legitima com sua pena leve um dos maiores genocídios da história, fornecendo por antecipação uma justificativa muito apreciada aos doutrinários da “terra sem povo” oferecida por Deus a um povo sem terra... Textos dessa seara existem em grande número, e outros ainda mais inesperados, nessa contra-história.

Oferecendo-nos muito a aprender, o autor ainda mais nos dá a pensar. Por exemplo, e de maneira central, exibindo a proposição de um George Washington ou de um John Adams verdadeiramente reveladora a respeito da Revolução Norte-Americana realizada no fim do século XVIII por colonos liberais proprietários de escravos, absolutamente conscientes de serem “súditos britânicos brancos e nascidos livres”, no último grito contra os ingleses da metrópole que os oprimia: “Não queremos ser seus negros!”. O que logo salta aos olhos aqui é que o pensamento liberal nunca foi autenticamente universalista. As liberdades exigidas “para o indivíduo” não são, em absoluto, para todos os seres humanos, mas apenas para o pequeno número de eleitos, no duplo sentido bíblico e cívico do termo.

“Há homens nascidos para a servidão”

E esse particularismo agressivo é fundador. Hugo Grotius, um dos pais da doutrina liberal no século XVII, legitima sem reservas a instituiçãoda escravidão (“há homens nascidos para a servidão”, escreveu, reivindicando Aristóteles), chama os cidadãos das colônias holandesas de “bestas selvagens” e, qualificando sua religião de “rebelião contra Deus”, justifica a mais cruel “punição dos culpados”. Não há, portanto, desvios da prática: é a própria ideia liberal que traz em si um aristocratismo antropológico diretamente segregador e desumanizador.

O francês Alexis de Tocqueville, aristocrata-democrata, tem muitos pensamentos bastante parecidos. Losurdo cita a seguinte afirmação: “A raça europeia recebeu do céu ou adquiriu por seus esforços uma tão incontestável superioridade sobre todas as outras raças que compõem a grande família humana, que aquele entre nós que esteja no último nível da escala social, por seus vícios e sua ignorância, será ainda o primeiro entre os selvagens”. Muitos hoje se surpreendem com a arrogância de casta ostentada por vários membros, homens ou mulheres, dos meios dirigentes; lendo essa contra-história, entendemos que, mais que um traço psicossocial dos indivíduos, essa é uma característica fundamental da própria doutrina liberal e da postura prática que ela sempre comandou. Liberalismo e democracia nunca foram sinônimos.

A conclusão de Losurdo é que “se trata de um discurso inteiramente centrado naquilo que, para a comunidade dos homens livres, é o espaço sagrado restrito” – espaço sagrado tal como o legitima uma cultura ético-religiosa protestante fundamentalmente nutrida pelo Antigo Testamento. E basta fazer intervir na análise o “espaço profano” (os escravos das colônias e os servos da metrópole) para perceber o caráter inadequado e enganoso das categorias habitualmente utilizadas para traçar a história do Ocidente liberal: primado absoluto da liberdade individual, antiestatismo, individualismo. A Inglaterra dos séculos XVIII e XIX é o país da liberdade religiosa? Sobre a Irlanda, o liberal Gustave de Beaumont, companheiro de Tocqueville durante sua viagem à América, fala de uma “opressão religiosa que supera qualquer imaginação”.

Acompanhar o liberalismo em sua longa história implica também interessar-se, pelo menos de maneira secundária, por aquilo que veio a contestá-lo, ou até combatê-lo. Através do livro de Losurdo, vemos formarem-se as diversas figuras de um universalismo, segundo ele, católico e monárquico, de um Jean Bodin, no século XVI, ao radicalismo anticolonial e abolicionista algumas vezes alcançado pelos liberais avançados do século XIX, e até a crítica fundamental de Karl Marx, que se destaca em revelar o “caráter conservador da revolução inglesa”. A emancipação política burguesa foi na verdade o sinal de um furor social não apenas contra os povos coloniais, mas também contra o próprio campesinato inglês, antes de atacar o proletariado urbano incrivelmente maltratado das workhouses − uma análise que Losurdo, no entanto, não segue integralmente, esboçando uma visão de conjunto pessoal das revoluções liberais latino-americanas e europeias.

Porém, por mais significativas que sejam essas posições antiliberais, mais concretamente produtivos foram os movimentos dos próprios povos, entre os quais Losurdo coloca em primeiro lugar a revolta de Santo Domingo, com a figura de proa de Toussaint Louverture, verdadeiro tiro de canhão no concerto dominante da época – um povo negro tem a inacreditável audácia de querer ser livre! –, uma revolta que, ao mesmo tempo que a Revolução Francesa, provocou uma virada decisiva na independência crioula e na abolição da escravatura na América Latina. Cento e vinte e cinco anos depois, um poderoso impulso no mesmo sentido foi dado pela Revolução de Outubro na Rússia. “Tudo bem considerado, foram a revolta de Santo Domingo e a Revolução de Outubro que colocaram em crise, respectivamente, a escravidão e o regime terrorista de dominação branca”: dois capítulos históricos “majoritariamente odiados pela cultura liberal da época”.

Sem abordar a história recente do neoliberalismo, Losurdo termina questionando-se sobre a responsabilidade do liberalismo nas “catástrofes do século XX” e, de modo totalmente convincente, considera-a pesada. Evocando a tese de Hannah Arendt, que parte “das colônias do Império Britânico para explicar a gênese do totalitarismo do século XX”, ele lembra que os campos de concentração e outras instituições antidemocráticas “começaram a ser esboçadas bem antes do fim da chamada Belle Époque”, citando, por exemplo, as “deportações sangrentas e repetidas dos índios, a partir daquela colocada em prática pelos Estados Unidos de Jackson (designado por Tocqueville como um modelo de democracia)”.

Com o tratamento infligido aos negros do Novo Mundo, alcançaram-se em matéria de desumanização “picos difíceis de igualar”. Na Jamaica britânica, “um escravo foi obrigado a defecar na boca do escravo culpado, que foi então costurada durante quatro ou cinco horas”. Nos Estados Unidos, crianças em idade escolar podiam ganhar um dia de folga para assistir a um linchamento. O título de um livro publicado em Boston em 1913 evoca a “solução final” (ultimate solution) da questão negra. Um pesquisador norte-americano, Ashley Montagu, escreveu sobre o racismo e o nazismo que “o monstro que conseguiu saltar livremente para o mundo é em grande parte nossa criação [...], e somos responsáveis pela forma horrenda que ele tomou”.

Está errado o autor, portanto, em pedir o fim da falsa hagiografia do liberalismo, administrada em altas doses por três décadas desde o início do reinado de Margaret Thatcher?

4 de junho de 2013

Como destruir o futuro

Noam Chomsky

The Guardian

O que o futuro trará? Uma postura razoável seria tentar olhar para a espécie humana de fora. Então imagine que você é um extraterrestre observador que está tentando desvendar o que acontece aqui ou, imagine que és um historiador daqui a 100 anos - assumindo que existam historiadores em 100 anos, o que não é óbvio - e você está olhando para o que acontece. Você veria algo impressionante.

Pela primeira vez na história da espécie humana, desenvolvemos claramente a capacidade de nos destruirmos. Isso é verdade desde 1945. Agora está finalmente sendo reconhecido que existem mais processos de longo-prazo como a destruição ambiental liderando na mesma direção, talvez não à destruição total, mas ao menos à destruição da capacidade de uma existência decente.

E existem outros perigos como pandemias, as quais estão relacionadas à globalização e interação. Então, existem processos em curso e instituições em vigor, como sistemas de armas nucleares, os quais podem levar à explosão ou talvez, extermínio, da existência organizada.

A pergunta é: O que as pessoas estão fazendo a respeito? Nada disso é segredo. Está tudo perfeitamente aberto. De fato, você tem que fazer um esforço para não enxergar.

Houveram uma gama de reações. Têm aqueles que estão tentando ao máximo fazer algo em relação à essas ameaças, e outros que estão agindo para aumentá-las. Se olhar para quem são, esse historiador futurista ou extraterrestre observador veriam algo estranho. As sociedades menos desenvolvidas, incluindo povos indígenas, ou seus remanescentes, sociedades tribais e as primeiras nações do Canadá, que estão tentando mitigar ou superar essas ameaças. Não estão falando sobre guerra nuclear, mas sim desastre ambiental, e estão realmente tentando fazer algo a respeito.

De fato, ao redor do mundo - Austrália, Índia, América do Sul - existem batalhas acontecendo, às vezes guerras. Na Índia, é uma guerra enorme sobre a destruição ambiental direta, com sociedades tribais tentando resistir às operações de extração de recursos que são extremamente prejudiciais localmente, mas também em suas consequências gerais. Em sociedades onde as populações indígenas têm influência, muitos tomam uma posição forte. O mais forte dos países em relação ao aquecimento global é a Bolívia, cuja maioria é indígena e requisitos constitucionais protegem os “direitos da natureza”.

O Equador, o qual também tem uma população indígena ampla, é o único exportador de petróleo que conheço onde o governo está procurando auxílio para ajudar a manter o petróleo no solo, ao invés de produzi-lo e exportá-lo - e no solo é onde deveria estar.

O presidente Venezuelano Hugo Chávez, que morreu recentemente e foi objeto de gozação, insulto e ódio ao redor do mundo ocidental, atendeu a uma sessão da Assembléia Geral da ONU a poucos anos atrás onde ele suscitou todo tipo de ridículo ao chamar George W. Bush de demônio. Ele também concedeu um discurso que foi interessante. Claro, Venezuela é uma grande produtora de petróleo. O petróleo é praticamente todo seu PIB. Naquele discurso, ele alertou dos perigos do sobreuso dos combustíveis fóssil e sugeriu aos países produtores e consumidores que se juntassem para tentar manejar formas de diminuir o uso desses combustíveis. Isso foi bem impressionante da parte de um produtor de petróleo. Você sabe, ele era parte índio, com passado indígena. Esse aspecto de suas ações na ONU nunca foi reportado, diferentemente das coisas engraçadas que fez.

Então, em um extremo têm-se os indígenas, sociedades tribais tentando amenizar a corrida ao desastre. No outro extremo, as sociedades mais ricas, poderosas na história da humanidade, como os EUA e o Canadá, que estão correndo em velocidade máxima para destruir o meio ambiente o mais rápido possível. Diferentemente do Equador e das sociedades indígenas ao redor do mundo, eles querem extrair cada gota de hidrocarbonetos do solo com toda velocidade possível.

Ambos partidos políticos, o presidente Obama, a mídia, e a imprensa internacional parecem estar olhando adiante com grande entusiasmo para o que eles chamam de “um século de independência energética” para os EUA. Independência energética é quase um conceito sem significado, mas botamos isso de lado. O que eles querem dizer é: teremos um século no qual maximizaremos o uso de combustíveis fóssil e contribuiremos para a destruição do planeta.

E esse é basicamente o caso em todo lugar. Admitidamente, quando se trata de desenvolvimento de energia alternativa, a Europa está fazendo alguma coisa. Enquanto isso, os EUA, o mais rico e poderoso país de toda a história do mundo, é a única nação dentre talvez 100 relevantes que não possui uma política nacional para a restrição do uso de combustíveis fóssil, e que nem ao menos mira na energia renovável. Não é por que a população não quer. Os americanos estão bem próximos da norma internacional com sua preocupação com o aquecimento global. Suas estruturas institucionais que bloqueiam a mudança. Os interesses comerciais não aceitam e são poderosos em determinar políticas, então temos um grande vão entre opinião e política em muitas questões, incluindo esta. Então, é isso que o historiador do futuro veria. Ele também pode ler os jornais científicos de hoje. Cada um que você abre tem uma predição mais horrível que a outra.

A outra questão é a guerra nuclear. É sabido por um bom tempo, que se tivesse que haver uma primeira tacada por uma super potência, mesmo sem retaliação, provavelmente destruiria a civilização somente por causa das consequências de um inverno-nuclear que se seguiria. Você pode ler sobre isso no Boletim de Cientistas Atômicos. É bem compreendido. Então o perigo sempre foi muito pior do que achávamos que fosse.

Acabamos de passar pelo 50o aniversário da Crise dos Mísseis Cubanos, a qual foi chamada de “o momento mais perigoso na história” pelo historiador Arthur Schlesinger, o conselheiro do presidente John F. Kennedy. E foi. Foi uma chamada bem próxima do fim, e não foi a única vez tampouco. De algumas formas, no entanto, o pior aspecto desses eventos é que a lições não foram aprendidas.

O que aconteceu na crise dos mísseis em outubro de 1962 foi petrificado para parecer que atos de coragem e reflexão eram abundantes. A verdade é que todo o episódio foi quase insano. Houve um ponto, enquanto a crise chegava em seu pico, que o Premier Soviético Nikita Khrushchev escreveu para Kennedy oferecendo resolver a questão com um anuncio publico de retirada dos mísseis russos de Cuba e dos mísseis americanos da Turquia. Na realidade, Kennedy nem sabia que os EUA possuíam mísseis na Turquia na época. Estavam sendo retirados de todo modo, porque estavam sendo substituídos por submarinos nucleares mais letais, e que eram invulneráveis.

Então essa era a proposta. Kennedy e seus conselheiros consideraram-na - e a rejeitaram. Na época, o próprio Kennedy estimava a possibilidade de uma guerra nuclear em um terço da metade. Então Kennedy estava disposto a aceitar um risco muito alto de destruição em massa afim de estabelecer o princípio de que nós - e somente nós - temos o direito de deter mísseis ofensivos além de nossas fronteiras, na realidade em qualquer lugar que quisermos, sem importar o risco aos outros - e a nós mesmos, se tudo sair do controle. Temos esse direito, mas ninguém mais o detém.

No entanto, Kennedy aceitou um acordo secreto para a retirada dos mísseis que os EUA já estavam retirando, somente se nunca fosse à publico. Khrushchev, em outras palavras, teve que retirar abertamente os mísseis russos enquanto os EUA secretamente retiraram seus obsoletos; isto é, Khrushchev teve que ser humilhado e Kennedy manteve sua pose de macho. Ele é altamente elogiado por isso: coragem e popularidade sob ameaça, e por aí vai. O horror de suas decisões não é nem mencionado - tente achar nos arquivos.

E para somar um pouco mais, poucos meses antes da crise estourar os EUA haviam mandado mísseis com ogivas nucleares para Okinawa. Eram mirados na China durante um período de grande tensão regional.

Bom, quem liga? Temos o direito de fazer o que quisermos em qualquer lugar do mundo. Essa foi uma lição daquela época, mas haviam outras por vir.

Dez anos depois disso, em 1973, o secretário de estado Henry Kissinger chamou um alerta vermelho nuclear. Era seu modo de avisar à Rússia para não interferir na constante guerra Israel-Árabes e, em particular, não interferir depois de terem informado aos israelenses que poderiam violar o cessar fogo que os EUA e a Rússia haviam concordado. Felizmente, nada aconteceu.

Dez anos depois, o presidente em vigor era Ronald Reagan. Assim que entrou na Casa Branca, ele e seus conselheiros fizeram com que a Força Aérea começasse a entrar no espaço aéreo Russo para tentar levantar informações sobre os sistemas de alerta russos, Operação Able Archer. Essencialmente, eram ataques falsos. Os Russos estavam incertos, alguns oficiais de alta patente acreditavam que seria o primeiro passo para um ataque real. Felizmente, eles não reagiram, mesmo sendo uma chamada estreita. E continua assim.

No momento, a questão nuclear está regularmente nas capas nos casos do Irã e da Coréia do Norte. Existem jeitos de lidar com esse crise contínua. Talvez não funcionasse, mas ao menos tentaria. No entanto, não estão nem sendo consideradas, nem reportadas.

Tome o caso do Irã, que é considerado no ocidente - não no mundo árabe, não na Ásia - a maior ameaça à paz mundial. É uma obsessão ocidental, e é interessante investigar as razões disso, mas deixarei isso de lado. Há um jeito de lidar com a suposta maior ameaça à paz mundial? Na realidade existem várias. Uma forma, bastante sensível, foi proposta alguns meses atrás em uma reunião dos países não alinhados em Teerã. De fato, estavam apenas reiterando uma proposta que esteve circulando por décadas, pressionada particularmente pelo Egito, e que foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU.

A proposta é mover em direção ao estabelecimento de uma zona sem armas nucleares na região. Essa não seria a resposta para tudo, mas seria um grande passo à frente. E haviam modos de proceder. Sob o patrocínio da ONU, houve uma conferência internacional na Finlândia dezembro passado para tentar implementar planos nesta trajetória. O que aconteceu? Você não lerá sobre isso nos jornais pois não foi divulgado - somente em jornais especialistas.

No início de novembro, o Irã concordou em comparecer à reunião. Alguns dias depois Obama cancelou a reunião, dizendo que a hora não estava correta. O Parlamento Europeu divulgou uma declaração pedindo que continuasse, assim como os estados árabes. Nada resultou. Então moveremos em direção a sanções mais rígidas contra a população Iraniana - não prejudica o regime - e talvez guerra. Quem sabe o que irá acontecer?

No nordeste da Ásia, é a mesma coisa. A Coréia do Norte pode ser o país mais louco do mundo. É certamente um bom competidor para o título. Mas faz sentido tentar adivinhar o que se passa pela cabeça alheia quando estão agindo feito loucos. Por que se comportariam assim? Nos imagine na situação deles. Imagine o que significou na Guerra da Coréia anos dos 1950’s o seu país ser totalmente nivelado, tudo destruído por uma enorme super potência, a qual estava regozijando sobre o que estava fazendo. Imagine a marca que deixaria para trás.

Tenha em mente que a liderança Norte Coreana possivelmente leu os jornais públicos militares desta super potência na época explicando que, uma vez que todo o resto da Coréia do Norte foi destruído, a força aérea foi enviada para a Coréia do Norte para destruir suas represas, enormes represas que controlavam o fornecimento de água - um crime de guerra, pelo qual pessoas foram enforcadas em Nuremberg. E esses jornais oficiais falavam excitadamente sobre como foi maravilhoso ver a água se esvaindo, e os asiáticos correndo e tentando sobreviver. Os jornais exaltavam com algo que para os asiáticos fora horrores para além da imaginação. Significou a destruição de sua colheita de arroz, o que resultou em fome e morte. Quão maravilhoso! Não está na nossa memória, mas está na deles.

Voltemos ao presente. Há uma história recente interessante. Em 1993, Israel e Coréia do Norte se moviam em direção a um acordo no qual a Coréia do Norte pararia de enviar quaisquer mísseis ou tecnologia militar para o Oriente Médio e Israel reconheceria seu país. O presidente Clinton interveio e bloqueou. Pouco depois disso, em retaliação, a Coréia do Norte promoveu um teste de mísseis pequeno. Os EUA e a Coréia do Norte chegaram então a um acordo em 1994 que interrompeu seu trabalho nuclear e foi mais ou menos honrado pelos dois lados. Quando George W. Bush tomou posse, a Coréia do Norte tinha talvez uma arma nuclear e verificadamente não produzia mais.

Bush imediatamente lançou seu militarismo agressivo, ameaçando a Coréia do Norte - “machado do mal” e tudo isso - então a Coréia do Norte voltou a trabalhar com seu programa nuclear. Na época que Bush deixou a Casa Branca, tinham de 8 a 10 armas nucleares e um sistema de mísseis, outra grande conquista neoconservadora. No meio, outras coisas aconteceram. Em 2005, os EUA e a Coréia do Norte realmente chegaram a um acordo no qual a Coréia do Norte teria que terminar com todo seu desenvolvimento nuclear e de mísseis. Em troca, o ocidente, mas principalmente os EUA, forneceria um reator de água natural para suas necessidades medicinais e pararia com declarações agressivas. Eles então formariam um pacto de não agressão e caminhariam em direção ao conforto.

Era muito promissor, mas quase imediatamente Bush menosprezou. Retirou a oferta do reator de água natural e iniciou programas para compelir bancos a pararem de manejar qualquer transação Norte Coreana, até mesmo as legais. Os Norte Coreanos reagiram revivendo seu programa de armas nuclear. E esse é o modo que se segue.

É bem sabido. Pode-se ler na cultura americana principal. O que dizem é: é um regime bem louco, mas também segue uma política do olho por olho, dente por dente. Você faz um gesto hostil e responderemos com um gesto louco nosso. Você faz um gesto confortável e responderemos da mesma forma.

Ultimamente, por exemplo, existem exercícios militares Sul Coreanos-Americanos na península Coreana a qual, do ponto de vista do Norte, tem que parecer ameaçador. Pensaríamos que estão nos ameaçando se estivessem indo ao Canadá e mirando em nós. No curso disso, os mais avançados bombardeiros na história, Stealth B-2 e B-52, estão travando ataques de bombardeio nuclear simulados nas fronteiras da Coréia do Norte.

Isso, com certeza, reacende a chama do passado. Eles lembram daquele passado, então estão reagindo de uma forma agressiva e extrema. Bom, o que chega no ocidente derivado disso tudo é o quão loucos e horríveis os líderes Norte Coreanos são. Sim, eles são. Mas essa não é toda a história, e esse é o jeito que o mundo está indo.

Não é que não haja alternativas. As alternativas somente não estão sendo levadas em conta. Isso é perigoso. Então, se me perguntar como o mundo estará no futuro, saiba que não é uma boa imagem. A menos que as pessoas façam algo a respeito. Sempre podemos.

1 de junho de 2013

Definindo austeridade

Yanis Varoufakis



A mais espantosa defesa da austeridade é que ela não está sendo praticada. E se não está sendo praticada, como pode alguém pretender que falhou? Os austeritários apontam os altos déficits na Grã-Bretanha, Espanha, etc. como prova de que, na verdade, a austeridade estava só nos olhos observadores e não na política praticada. Não posso pensar em nenhum exemplo melhor de ignorância econômica interessada em meio a esta Crise. O objetivo desta curta nota é deixar as coisas claras.

Austeridade não se refere a déficits baixos. Déficits baixos são um fim, um objetivo. Austeridade é uma política; um meio para um fim, em que o fim são déficits baixos. Austeridade é portanto definida como a tentativa de reduzir o déficit cortando despesas e aumentando impostos.

Agora, o perturbador com a austeridade é que, quando executada num período de desalavancagem do setor privado (isto é, quando firmas e famílias estão lutando para cortar despesas e reduzir seu endividamento) a austeridade é auto-derrotante pois ela reduz receitas fiscais mais depressa do que (ou tão rápido quanto) ela contrai despesas. Assim, o resultado da austeridade pode frequentemente resultar em altos déficits e invariavelmente fracassa quanto à redução geral dos níveis de dívida! Precisamente o que está acontecendo na Espanha, no Reino Unidos, por toda a parte onde tem sido praticada desde o Crash de 2008.

Para resumir: os austeritários apontam déficits e níveis de endividamento constantes como prova de que a austeridade não foi praticada. A realidade é precisamente o oposto: A persistência de déficits e dívidas é o resultado da austeridade que foi executada energicamente e fracassou espetacularmente - tal como previsto.