11 de outubro de 2010

A propósito das "dez estratégias de manipulação de massa", atribuída a Noam Chomsky

Jean Bricmont


Um texto intitulado "As dez estratégias de manipulação de massas" atribuído a Noam Chomsky circula amplamente na internet nestes últimos dias. Já se vê, igualmente, na "grande" imprensa, em resposta a este texto, críticas a Chomsky como "adepto da teoria da conspiração" [1].
O 10º princípio reflete bem os fantasmas, frequentes na extrema esquerda, sobre o conhecimento que o "sistema" teria do indivíduo médio graças "à biologia, a neurobiologia e a psicologia aplicada", o que é muito diferente do que pensa Chomsky, o qual sabe que o conhecimento (verdadeiramente) científico do ser humano é extremamente limitado.

Como este texto me parecia ser uma simplificação e uma deformação do seu pensamento, e como não encontrei o seu equivalente em inglês, perguntei-lhe para tirar a limpo. Eis a sua resposta: "Não tenho nenhuma ideia de onde surge isso. Não fiz esta compilação, não a escrevi, não a coloquei na web. Suponho que aquele que o fez poderia pretender que são interpretações daquilo que escrevi aqui e ali mas certamente não sob esta forma nem como lista".

O êxito aparente deste texto ilustra bem a má compreensão do pensamento de Chomsky acerca da "manipulação", tanto parte de alguns dos seus partidários como dos seus adversário. Ele e Ed Herman, co-autores de A fabricação do consentimento nunca sugerem que há em algum lugar uma organização escondida que "manipula as massas". Eles mostram que existe um certo número de filtros, ligados à propriedade privada dos media, à necessidade da publicidade, à acção de grupos de influência, etc, que têm como resultado que a visão do mundo veiculada pelos media seja extremamente enviesada, mas tudo isso funciona um pouco como a ideologia em Marx, um processo sem sujeito.

Curiosamente, é de certa forma confortante pensar que existem manipuladores conscientes que, porque o dirigem, pelo menos sabem para onde vai o mundo. Infelizmente, há certamente relações de poder, mentiras e viéses ideológicos, mas não há piloto no avião.

Nota:

[1] Por exemplo, Thomas Gunzig, "L'ordre et le chaos", Le Soir (Bruxelas), 06 de outubro de 2010.

3 de outubro de 2010

Unabomber lança seu primeiro livro: "Technological Slavery"

De trás das grades, antigo acadêmico expõe a filosofia Ludista de sua campanha anti-tecnológica

Guy Adams

The Independent

Seu último trabalho publicado foi um "manifesto" de 35.000 palavras que explicava os motivos por trás de sua campanha terrorista que durou 17 anos, tornando-o a pessoa mais procurada nos Estados Unidos. Hoje em dia, não mais perturbado pelo fato de seu manifesto o ter levado à sua identificação, detenção e prisão perpétua, Theodore Kaczynski decidiu lançar seu primeiro livro.

Compilado basicamente em sua cela da prisão de segurança-máxima em Florence, Colorado, a brochura Technological Slavery (Escravidão Tecnológica) explica mais profundamente a filosofia por trás das tentativas de Kaczynski de destruir a civilização Ocidental através de uma permanente série de ataques com bombas.

O texto estranhamente coerente foi co-autorado com David Skrbina, um professor da Universidade de Michigan que durante muitos anos deu aulas sobre o manifesto do Unabomber como parte de um curso universitário sobre filosofia da tecnologia.

O livro contém uma coleção de ensaios e correspondências com acadêmicos com os quais Kaczynski expandiu suas crenças que inspiraram sua campanha: nomeadamente aquela, para citar uma passagem, que diz que "a revolução industrial e suas conseqüências tem sido um desastre à raça humana e que os avanços tecnológicos estão destruindo o planeta e corroendo as liberdades humanas".

Dr. Skrbina disse que longe de ser o delírio paranoico de um homem louco, o livro é meticulosamente elaborado. "Nele são traçados argumentos lógicos, claros e sólidos", disse. "Eu não conheci o homem pessoalmente - todos os nossos contatos foram feitos através de cartas - mas em nossos procedimentos não houve nenhum sinal de doença mental. Ele é lúcido, racional e calmo".

Esta é uma conclusão diferente daquela em que chegou os psiquiatras da corte de justiça que avaliaram Kaczynski após o FBI o ter detido em uma remota cabana na cidade de Montana no ano de 1996. Decidiram que ele era um esquizofrênico paranoico, mas que estava suficientemente apto a suportar um processo por assassinato.

A violenta campanha de Kaczynsky, na qual três pessoas foram mortas e mais de 20 feridas, começou em 1978. Antigo acadêmico e expert em matemática, ele estava aparentemente irritado pela contínua destruição do mundo natural ao redor de sua casa e começou a enviar bombas improvisadas para pessoas de companhias de aviação, professores universitários e donos de lojas de computadores. (O apelido "Unabomber" vem de "University and Airline Bomber", nome do caso registrado no FBI).

Na medida em que a campanha progredia, e os dispositivos se tornavam mais efetivos - e mortais - Kaczynski começou a ter como alvos aqueles profissionais que ele julgava serem responsáveis pela destruição do mundo natural. Suas duas últimas vítimas, ambos assassinados, foram Thomas Mosser, que fazia anúncios para a Exxon, e Gilbert Murray, um lobista que trabalhava para a indústria madeireira.

Os ataques terminaram em 1995, quando o manifesto de Kaczynski foi publicado pelo New York Times e o Washington Post. Ele entrou em contato com investigadores, através de cartas anônimas, prometendo parar com os ataques se o documento fosse impresso.

A publicação do manifesto levou à detenção de Unabomber: seu estilo de escrita foi reconhecido por seu irmão David, que prontamente contatou o FBI. Como parte de um acordo judicial, Kaczynski foi dispensado da pena de morte, mas foi sentenciado à prisão perpétua sem liberdade condicional.

Uma versão atualizada do manifesto está inclusa no Escravidão Tecnológica. De acordo com Dr Skrbina, isto fornece um insight à natureza dos códigos éticos que os terroristas usam para justificar suas campanhas.

"Tento separar seus crimes de seus argumentos acadêmicos", disse Dr Skrbina. "Estou interessado em filosofia. Agora, certamente não apoio os assassinatos que ele cometeu, mas se você está estudando ética então é importante perceber que há muitos casos em que um indivíduo pode dizer, sim, há uma base eticamente justificada para matar".

"Os governos estão, de fato, argumentando que o assassinato é justificável sempre que começam uma guerra. Em ambos, no manifesto e em suas cartas escritas para mim, que também estão impressas no livro, Kaczynski está, de fato, fazendo a mesma coisa".