12 de outubro de 2000

A burguesia, essa desconhecida

Sociologia de uma classe dominante

por Alain Bihr


Há já mais de quinze anos que Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot começaram a escrever um livro de sociologia sobre a classe social ao mesmo tempo mais importante (por seu poder) e, paradoxalmente, mais desconhecida: a burguesia. [1] Num pequeno volume que acaba de sair, Sociologie de la bourgeoisie (Sociologia da burguesia)[2], encontraremos uma síntese e uma introdução aos seus trabalhos anteriores. Nessa introdução, Monique Pinçon-Charlot e Michel Pinçon nos lembram que se o poder dessa classe fundamenta-se inicialmente na posse dos meios de produção, o que lhe garante a capacidade de explorar o trabalho alheio e proporciona a seus membros renda e, principalmente, patrimônio fora do comum, ele não se limita apenas a essa dimensão.

Parece ser também essencial aquilo que, referindo-se a Pierre Bourdieu, nossos autores chamam de "capital social", que é medido pela extensão e reciprocidade das relações entre os membros da classe. Essa aparente "vida mundana", que é praticada na discrição dos "bairros chiques", clubes privados, recepções em castelos e casarões que servem de segunda residência, uma série de ocasiões em que se tramam alianças matrimoniais como se fossem negócios, é o verdadeiro modo de manutenção de sua coesão social. A esse capital social une-se necessariamente um capital cultural, que não se limita aos diplomas de prestígio, mas inclui coleções de obras de arte ou a frequentação assídua de teatro ou ópera. Tudo culminará com a aquisição de um capital simbólico, a posse de uma marca de prestígio, atestada, por exemplo, pela citação no Bottin Mondain ou pela participação em qualquer cenáculo ou companhia de alta reputação.

Mas o que caracteriza a burguesia, de acordo com Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot, é que, mais do que qualquer outra classe, ela possui uma alta consciência de seus interesses e manifesta uma intensa mobilização, ao mesmo tempo individual e coletiva, visando a garantir sua realização e, por meio dela, a perpetuação de sua situação dominante. Entre outras práticas, temos como exemplo o cuidado que existe na transmissão do capital acumulado, na pluralidade de suas dimensões. O que leva a gerar dinastias e aproxima a burguesia da antiga aristocracia, com a qual, aliás, ela se fundiu em grande escala ao longo dos dois últimos séculos.

Desse ponto de vista, o estudo anterior que os autores consagraram aos "novos patrões" — esses indivíduos que, ilustrando o mito do "self made man", conseguiram nos últimos vinte anos se introduzir nessa classe — é particularmente interessante. [3] Esse estudo poderia trazer como subtítulo: "Da dificuldade de se tornar burguês". Se o sucesso empresarial é uma condição necessária, não é suficiente. Para se integrar à burguesia, ser reconhecido e aceito, não basta fazer fortuna. O "novo patrão" apresenta ainda dois defeitos que é preciso corrigir. Por um lado, paradoxalmente, o de ser ainda apenas um patrão, ou seja, de dever sua posição social unicamente ao seu sucesso econômico, um sucesso baseado no esforço pessoal e em uma relação visível com a exploração do trabalho alheio. Por outro lado, o de ser um "novo" burguês, cuja fortuna ainda não goza da legitimidade que só o tempo, ao longo das gerações, permitirá adquirir. O que encontramos aqui é a necessidade de fundar uma dinastia. Esta é uma exigência para a qual nem todos os "novos patrões" estão prontos, devido ao fato de a ideologia meritocrática — que é tanto mais espontânea quanto mais justifique sua própria trajetória — entrar em contradição com os privilégios de nascimento que a lógica dinástica tende a impor.

Essas obras lembram aos sociólogos a necessidade que existe, para aqueles que afirmam querer compreender o funcionamento da sociedade, de se voltar o olhar para o topo dela.

Notas:

1. Dans les beaux quartiers, Le Seuil, Paris, 1989 ; La Chasse à courre, ses rites et ses enjeux, Payot, Paris, 1993 ; Grandes fortunes. Dynasties familiales et formes de richesse en France, Payot, Paris, 1996.

2. Sociologie de la bourgeoisie, La Découverte, Paris, 2000.

3. Nouveaux patrons, nouvelles dynasties, Calmann-Lévy, Paris, 1999.