18 de setembro de 2017

Venezuela rompe com o petrodólar

Manlio Dinucci


Tradução / "A partir desta semana o preço médio do petróleo é cotado em yuan chinês", anunciou a 15 de setembro o ministro venezuelano do Petróleo. Pela primeira vez o preço de venda do petróleo venezuelano deixa de ser cotado em dólares.

É a resposta de Caracas às sanções lançadas em 25 de agosto pela administração Trump, mais duras que as da administração Obama em 2014: elas impedem a Venezuela de encaixar os dólares provenientes da venda do petróleo aos EUA, mais de um milhão de barris por dia, dólares até aqui utilizados para importar bens de consumo como produtos alimentares e medicamentos. As sanções impedem também o comércio de títulos emitidos pela PDVSA, a companhia petrolífera do Estado venezuelano.

Washington visa um duplo objetivo: aumentar na Venezuela a penúria dos bens de primeira necessidade e, assim, o descontentamento popular, sobre o qual se apoia a oposição interna (subvencionada e sustentada pelos EUA) para abater o governo Maduro; colocar o Estado venezuelano em situação de incumprimento (default), ou seja, em falência, impedindo-o de pagar as prestações da dívida externa. Isso significa por em situação de falência o Estado que tem as maiores reservas petrolíferas do mundo, quase dez vezes maiores que as dos Estados Unidos.

Dessa forma, Caracas tenta subtrair-se às garras sufocantes das sanções, cotando o preço de venda do petróleo não mais em dólares dos EUA mas sim em yuan chinês.

O yuan entrou há um ano no cabaz de moedas de reserva do Fundo Monetário Internacional (juntamente com o dólar, o euro, o yen e a libra esterlina) e Pequim está em vias de lançar contratos futuros (contratos a termo) de compra-venda de petróleo em yuan, convertíveis em ouro. "Se o novo contrato de futuros ganhar consistência, corroendo nem que seja uma parte do poder esmagador dos petrodólares, isto seria um golpe fulminante para a economia americana", comenta o diário Il Sole 24 ore.

O que está em causa para a Rússia, a China e outros países não é apenas o enorme poder do petrodólar (moeda de reserva extraída da venda do petróleo), mas a própria hegemonia do dólar. Seu valor é determinado não pela capacidade econômica real estadunidense, mas sim pelo fato de que constitui quase dois terços das reservas monetárias mundiais e a moeda com a qual é estabelecido o preço do petróleo, do ouro e das mercadorias em geral. Isto permite ao Federal Reserve, o banco central (que é um banco privado), imprimir bilhões de dólares com os quais é financiada a colossal dívida pública estadunidense – cerca de 23 bilhões de dólares – através da compra de obrigações e outros títulos emitidos pelo Tesouro dos EUA. Neste contexto, a decisão venezuelana de destacar do dólar o preço do petróleo provoca uma sacudidela sísmica que, a partir do epicentro sul-americano, faz tremer todo o edifício imperial fundado sobre o dólar.

Se o exemplo da Venezuela se estender, se o dólar deixar de ser a principal moeda do comércio e das reservas monetárias internacionais, uma imensa quantidade de dólares seria posta em circulação no mercado provocando o afundamento do valor da moeda estadunidense.

Eis o motivo real porque, na Ordem executiva de 9 de março de 2015, o presidente Obama proclamava "a urgência nacional face à ameaça inabitual e extraordinária colocada à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos pela situação na Venezuela".

Este mesmo motivo pelo qual o presidente Trump anuncia uma possível "opção militar" contra a Venezuela. Ela está em preparação no U.S. Southern Command, cujo emblema é a águia imperial que domina a América Central e do Sul, prestes a mergulhar com as suas garras sobre aquele que se rebela contra o império do dólar.

16 de setembro de 2017

Coréia - 1945-1953: Era tudo o que parecia ser?

William Blum

Information Clearing House

"Morrer por uma ideia; é inquestionavelmente nobre. Mas quanto mais nobre seria se os homens morressem por ideias verdadeiras." 
- H. L. Mencken, 1919

Como aconteceu de a Guerra da Coreia não ter sido objeto de protestos equivalentes aos que cercaram a guerra no Vietnã? Tudo que vimos no Vietnã foi verdade histórica, antes, na Coreia: o apoio dos EUA a uma tirania corrupta, as atrocidades, o napalm, os massacres em massa de civis, cidades e vilas reduzidas a escombros, a gestão planejada do noticiário, sabotagem para desmontar toda e qualquer conversação de paz. Mas os norte-americanos foram convencidos de que a guerra na Coreia teria sido caso indiscutível de um país que, sem provocação, invade outro. Caso de os bandidos atacando os mocinhos, que estavam sendo salvos por super mocinhos, sem nem vestígio da dúvida moral, histórica e política que foi o dilema do Vietnã. A Guerra da Coreia começou de um modo bem claro: a Coreia do Norte atacou a Coreia do sul, bem cedo na manhã de 25 de junho de 1950. No caso do Vietnã... sempre foi como se ninguém tivesse ideia de como, quando ou por quê a guerra começou.

E praticamente não houve acusações que falassem do "imperialismo" dos EUA na Coreia. Os EUA, afinal de contas, combatia como parte do Exército da ONU. Protestar contra o quê? E, claro, havia o macartismo, tão prevalente no início dos anos 1950, e que contribuía para inibir qualquer protesto.

Havia de fato interpretações muito diferentes a serem feitas de o que levara àquela guerra, como estava sendo conduzida, até sobre como começou, mas todas sucumbiram na febre da guerra.


Pouco depois do fim da II Guerra Mundial, União Soviética e EUA ocuparam a Coreia para expulsar de lá os japoneses derrotados. Traçou-se uma linha demarcatória entre forças russas e norte-americanas ao longo do paralelo 38. Essa linha de modo algum tinha o objetivo de estabelecer dois países, mas a guerra fria logo se intrometeria também ali.

As duas potências insistiam que o objetivo principal e desejado era a unificação de Norte e Sul. Mas, simultaneamente, também queriam ver a unificação feita nos termos e imagem ideológica de cada um dos lados; por causa disso se fixou uma rotina de proposta e contraproposta, acusação e contra-acusação, fartamente misturadas com muitos desvios e falcatruas, e nada foi obtido na direção de qualquer tipo de acordo ao longo dos anos seguintes. Embora as duas capitais Moscou e Washington e seus líderes coreanos escolhidos a dedo não desgostassem de o país estar dividido (melhor meio país que país nenhum), oficiais e cidadãos dos dois lados continuaram a defender genuinamente e sempre a unificação.

O fato de a Coreia ainda ser um só país, e de a unificação continuar a ser o objetivo, foi destacado pelo embaixador dos EUA na ONU, Warren Austin, no momento em que a guerra começou, em declaração que fez pouco depois:

"A barreira artificial que dividiu o Norte e o Sul da Coreia não tem base nem na lei nem na razão. Nem a ONU, sua Comissão sobre a Coreia, nem a República da Coreia [Coreia do Sul] reconhecem aquela linha. Agora, os norte-coreanos, em ataque armado contra a República da Coreia negam a própria realidade de tal linha." [1]

Os dois lados já há anos viviam em escaramuças, um contra o outro, na faixa do paralelo. O que aconteceu naquele fatídico dia de junho pode portanto ser visto como nada além da escalda de uma guerra civil já em curso. O governo da Coreia do Norte declarou que só no ano de 1949 o Exército da Coreia do Sul ou a polícia sul-coreana cometeram 2.617 incursões armadas em território do Norte, para ações de assassinado, sequestro, pilhagem e roubo, com o objetivo de insuflar tumultos e desordem social, e também para dar treinamento de combate aos invasores. Em algumas dessas ações, disse o governo de Pyongyang, milhares de soldados envolveram-se numa só grande batalha, como grande número de baixas. [2]

Funcionário do Departamento de Estado, o Ambassador-at-large Philip C Jessup, falando em abril de 1950, pôs as coisas nos seguintes termos:

"Há luta constante entre o Exército da Coreia do Sul e bandos que se infiltram no país vindos do norte. Há verdadeiras batalhas, envolvendo talvez mil ou dois mil homens. Quando se chega a essa fronteira, como eu cheguei (...) vê-se movimento de tropas, fortificações e prisioneiros de guerra." [3]

Vista nesse contexto, a questão de quem disparou o primeiro tiro dia 25  de junho de 1950 tem bem pouco significado. Atualmente, a versão que a Coreia do Norte dá dos eventos é que seu movimento de invasão foi provocado por dois dias de bombardeio pelos sul-coreanos, dias 23 e 24 de junho, seguidos de um ataque-surpresa pelos mesmos sul-coreanos que através da fronteira dia 25 de junho, contra a cidade ocidental de Haeju e outros pontos. Notícia do ataque por tropas do sul foi transmitida por rádio, no Norte, horas depois, na manhã do dia 25 de junho.

Ao contrário da crença geral naquele momento, nenhum grupo da ONU – nem o Grupo de Observação Militar da ONU em campo, nem a Comissão da ONU para a Coreia, em Seul, testemunharam ou declarou ter testemunhado o início das hostilidades. A viagem do Grupo de Observação por terra ao longo do paralelo terminou dia 23 de junho. O que tenha dito sobre o que teria acontecido depois dessa data é especulação ou repetição de informação que o grupo recebeu ou do governo sul-coreano ou de militares dos EUA.

Sobretudo, no início da manhã do dia 26, o Gabinete Sul-coreano de Informação Pública anunciou que forças do sul teriam tomado a cidade de Haeju, na Coreia do Norte. O anúncio informava que o ataque teria acontecido naquela manhã, mas militares dos EUA, num relatório de situação emitido no início da noite de 25 de junho, informavam que todo o território do sul a oeste do rio Imjin River havia sido perdido, numa faixa de cerca de 5 km de profundidade além da linha de fronteira, exceto na área do "contra-ataque" de Haeju.

Seja como for, tal vitória militar das forças do Sul é evento difícil de reconciliar com o relato oficial ocidental, mantido até hoje, de que o exército da Coreia do Norte assaltara o sul em ataque surpresa avassalador, tomando o controle de tudo que encontrou pela frente, e forçando as tropas sul-coreanas a evacuarem mais para o sul.

Subsequentemente, o governo da Coreia do Sul negou que tivesse capturado a cidade de Haeju, atribuindo o anúncio inicial, aparentemente, aos exageros de algum militar. Um historiador explicou o anúncio supostamente falso atribuindo-o a "erro devido às más comunicações, além da tentativa de anunciar alguma 'vitória', para com isso estimular a resistência sul-coreana". Haja o que houver por trás daquele anúncio, é evidente que pouco se pode confiar – se é que se poderia confiar – em comunicados distribuídos pelo governo sul-coreano sobre o início da guerra [4].

Houve de fato notícias na imprensa ocidental do ataque contra Haeju, que não falam do comunicado do governo da Coreia do Sul, e que parecem ser confirmações independentes, daquele evento. O London Daily Herald, em edição de 26/6, dizia que "observadores militares norte-americanos informam que forças do sul levaram a efeito contra-ataque bem-sucedido próximo à costa ocidental, avançando mais de 5 km em território do norte e tomaram a cidade de Haeju". A mesma notícia reapareceu no Guardian de Londres, no mesmo dia: "Militares norte-americanos confirmaram que tropas do sul capturaram Haeju".

Assim também o New York Herald Tribune noticiou, também dia 26/6, que "tropas sul-coreanas atravessaram o paralelo 38, que forma a fronteira, para capturar a cidade manufatureira de Haeju, ao norte da linha. Tropas Republicanas capturaram grande quantidade de equipamentos". Nenhum dos relatos informa precisamente quando aconteceu o ataque.

Dia 25, o escritor norte-americano John Gunther estava no Japão preparando sua biografia do general Douglas MacArthur. Como conta no livro, estava andando como turista pela cidade de Nikko com "dois membros importantes" da ocupação norte-americana, quando "um deles foi chamado inesperadamente ao telefone. Ao voltar, sussurrou 'Começou uma coisa grande. Os sul-coreanos atacaram a Coreia do Norte!'" Naquela noite, Gunther e sua equipe voltaram para Tóquio onde "vários oficiais nos receberam na estação, para contar com muito amplificação o que realmente acontecera (...) Não havia qualquer dúvida de que a Coreia do Norte era força agressora".

E o tal telefonema? Gunther explica: "A mensagem pode ter sido deturpada na transmissão. Ninguém sabia grande coisa no quartel general durante as primeiras poucas horas, e o pessoal foi provavelmente apanhado na corrosiva, flagrante teia de mentiras da rádio da Coreia do Norte". [5]

Há algo bem pouco crível nesse quadro de pessoal militar e diplomático norte-americanos, todos eles bem treinados anticomunistas, acabarem enganados em assunto tão importante, por mentiras de rádio comunista.


O líder da Coreia do Sul, Syngman Rhee, várias vezes manifestou seu desejo e a prontidão para encaminhar pela força a unificação da Península Coreana. Dia 26/6, o New York Times relembrava aos seus leitores que "em inúmeras ocasiões, o Dr. Rhee indicou que seu exército teria tomado a ofensiva, se Washington tivesse consentido". O jornal registrava também a mesma informação antes do início da guerra: "A conversa pró-guerra, estranhamente, sempre viera, quase toda, do lado dos líderes sul-coreanos".

Rhee pode ter tido boas razões para provocar guerra total, além da questão da unificação. Dia 30 de maio, houvera eleições para a Assembleia Nacional no Sul, nas quais o partido de Rhee sofrera pesada derrota e perdeu a maioria da Assembleia. Como incontáveis governantes antes dele, Rhee pode ter decidido jogar a carta da guerra para atrair apoio para seu depauperado governo. Um conselheiro para questões de trabalho ligado à missão norte-americana de ajuda à Coreia do Sul, Stanley Earl, renunciou em julho, divulgando a opinião de que o governo da Coreia do Sul não passava de "regime opressor" que "fez muito pouco para ajudar o povo" e que "teria acontecido uma rebelião interna na Coreia do Sul, contra o governo de Rhee, se as forças da Coreia do Norte não tivessem invadido". [6]

O líder soviético Nikita Khrushchev, em suas memórias, deixa absolutamente claro que os norte-coreanos consideravam há algum tempo a possibilidade de invadir o Sul, e fala da invasão real sem falar de provocação, naquele mesmo dia.

Poderia ter feito assim, apenas para se livrar dessa específica questão. Mas o capítulo de Khrushchev sobre a Coreia é todo ele relato superficial. Não é – nem foi concebido para ser – trabalho de historiador sério. Como diz o próprio Khrushev:

"Minhas memórias da Guerra da Coreia são inegavelmente esquemáticas ". (Só viria a ser líder soviético depois do fim da guerra.) O capítulo não discute qualquer combate que tivesse acontecido antes através da fronteira, nada sobre as declarações beligerantes de Rhee, nada absolutamente sequer sobre a ausência da União Soviética da ONU, crucialmente importante porque, como veremos adiante, permitiu que fosse constituído o chamado "Exército da ONU", que interveio no conflito. Mas aquelas memórias, como foram pulicadas, são versão editada e condensada das fitas que gravadas pelo próprio autor. Estudo baseado numa comparação entre a transcrição das fitas em idioma russo e o livro publicado em inglês mostra que algumas lembranças de Khrushchev sobre a Coreia eram realmente esquemáticas, mas não é o que o livro mostra. Por exemplo, lá se registra que o líder da Coreia do Norte Kim Il-sung reuniu-se com Stálin para discutir o desejo manifesto de Kim de "arrancar a Coreia do Sul com a ponta de uma baioneta". E o livro informa, sem qualquer ambiguidade: "Kim voltou para casa, para retornar a Moscou, quando já tivesse tudo planejado." Mas na transcrição, o que Khrushchev diz é: "Em minha opinião, nem a data do retorno estava marcada, ou ele nos informaria logo que tivesse posto as próprias ideias em ordem. Daí em diante, não lembro em que mês ou ano Kim Il-sung veio e explicou seu plano a Stálin" [7].

Dia 26/6/1950, os EUA apresentaram projeto de resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando a Coreia do Norte pela "agressão não provocada". A resolução foi aprovada, embora houvesse argumentos de que "é luta entre as Coreias" e devia ser tratada como guerra civil, e uma sugestão, do representante do Egito, de que se retirasse a expressão "não provocada", dadas as hostilidades entre as duas Coreias que se arrastavam há anos. {8} A Iugoslávia insistiu que "não temos informação precisa suficiente para que esse Conselho declare a responsabilidade do Norte" e propôs que a Coreia do Norte fosse convidada a comparecer e explicar seu lado da história. {9} Não aconteceu. (Três meses depois, o ministro de Relações Exteriores da URSS apresentou uma moção requerendo que a ONU ouvisse representantes dos dois lados. A nova moção foi rejeitada por 46 x 6 votos; e, por causa da "agressão" da Coreia do Norte, decidiram convidar só a Coreia do Sul.) {10}

Dia 27, o Conselho de Segurança recomendou que membros da ONU garantissem ajuda à Coreia do Sul "como pode vir a ser necessário para repelir ataque armado". Nesse momento, o presidente Truman já enviara para combate a Marinha e a Força Aérea dos EUA – entregando ao Conselho de Segurança um fato consumado {11}, tática que os EUA repetiriam várias vezes antes de a guerra acabar. – O Conselho de Segurança tomou sua decisão histórica absolutamente sem qualquer informação confiável, e a partir de informação vinda, toda ela, de um dos lados em conflito. Ato, nas palavras do jornalista, "nem honroso nem esperto".

Deve-se ter em mente que em 1950, a ONU não era absolutamente nem equilibrada nem neutra. A grande maioria dos membros dependiam pesadamente dos EUA para a recuperação econômica e para se desenvolver. Não havia bloco do Terceiro Mundo, que anos depois construiriam política muito mais independente dos EUA na ONU. E apenas quatro estados do bloco soviético eram membros da organização naquele momento, nenhum deles no Conselho de Segurança. {12}

Nem o secretário-geral da ONU, Trygve Lie, da Noruega, poderia ser considerado neutro, no clima controverso da guerra fria. Em suas memórias, Lie deixa notavelmente claro que não era outsider neutro. Seus capítulos sobre a Guerra da Coreia são pura genuflexão anticomunista e revelam o modo como manobrou a questão. {13} Em 1949, como depois se soube, Lie entrara num acordo secreto com o Departamento de Estado dos EUA para demitir de qualquer função que tivessem na ONU todos os indivíduos que Washington achasse que tivessem inclinações políticas 'questionáveis'. {14}

A adoção dessas resoluções pelo Conselho de Segurança só foi possível porque a URSS estava ausente da discussão, porque naquele momento boicotava a ONU, que se recusava a dar à China Comunista o lugar de Taiwan. Se os russos lá estivessem sem dúvida vetariam as resoluções. Essa ausência sempre foi dificuldade insanável para os que insistem que os russos estariam por trás da invasão de que os norte-coreanos são acusados. Uma das explicações mais frequentes é que os russos – como se lia num memorando da CIA – queria "desafiar os EUA, especificamente testar a firmeza da resistência que os EUA faziam à expansão comunista". {15}

Se se sabe que durante toda a existência da URSS essa mesma análise foi repetida por especialistas norte-americanos em virtualmente todos os casos em que se confrontaram EUA e as esquerdas em todo o mundo, antes e depois da Coreia, já se vê que o teste durava tempo inacreditavelmente longo. E absolutamente não se entende por que motivo os sovietes jamais chegaram a qualquer conclusão.

"O toque final" – escreveu I F Stone –, foi "pôr as forças das 'Nações Unidas' sob o comando de MacArthur, sem pôr MacArthur sob o comando das Nações Unidas. Aconteceu dia 7/7/1950, por uma Resolução apresentada conjuntamente por Grã-Bretanha e França. Supõe-se de modo geral que assim se teria estabelecido um Comando Nações Unidas. Na verdade, não aconteceu nada disso." {16} A Resolução determinava que "todos os estados membros que fornecem forças militares e outros tipos de assistência (...) tornem essas forças e outros tipos de assistência a serviço de um comando unificado sob a autoridade dos EUA". Determinava também que "os EUA designassem o comandante dessas forças". {17} Seria o temível MacArthur.

Foi concebido para ser um show norte-americano. Participaram, de um modo ou de outro, militares de 16 outros países e, exceto os da Coreia do Sul, havia poucas dúvidas sobre o real status ou função deles. Mais tarde, Eisenhower escreveu em suas memórias, que quando analisava a ideia de uma intervenção militar no Vietnã em 1954, também como parte de uma "coalizão", reconheceu que a carga real da operação recairia sobre os EUA, "mas as forças simbólicas fornecidas por essas outras nações, como na Coreia, acrescentaria real status moral a uma aventura que, de outro modo, poderia ser mostrada como exemplo de exercício brutal de imperialismo" [18].


A guerra, e foi realmente brutal, foi combatida ostensivamente como defesa do regime de Syngman Rhee. Fora dos livros publicados por vários governos sul-coreanos, é muito difícil encontrar uma palavra favorável ao homem que os EUA levaram de volta para a Coreia em 1945 depois de décadas de exílio nos EUA durante a ocupação japonesa em seu país. Levado num dos aviões de MacArthur, Rhee foi rapidamente manobrado até uma posição de destaque e autoridade pelo Governo Militar do Exército dos EUA na Coreia (ing. USAMGIK). No processo, funcionários dos EUA tiveram de pôr fim a um governo provisório, chamado República Popular Coreana, RPC, resultado de vários comitês regionais governantes criados por coreanos proeminentes e que já começara a executar tarefas administrativas como distribuição de alimentos e manutenção da ordem. Os serviços que a RPC pôs à disposição dos norte-americanos recém-chegados foram imediatamente descartados.

Apesar do nome com ecos de comunismo, a RPC incluía vários conservadores; e recebeu deles a posição de liderança. Rhee e os demais conservadores, muito dos quais ainda estavam no exterior quando foram 'nomeados', talvez nem se sentissem honrados, porque a RPC, bem examinada, era provavelmente esquerdista demais para o gosto deles, como também para os altos escalões do USAMGIK. Mas depois de 35 anos de governo japonês, qualquer grupo ou governo que prometesse desfazer os efeitos do colonialismo teria de ter algum tipo de tintura revolucionária. Na Coreia, os conservadores haviam colaborado com os japoneses; esquerdistas e outros nacionalistas haviam combatido contra os japoneses; o governo de emergência da RPC necessariamente refletia tudo isso e era, segundo todos os relatos, mais popular que qualquer outro grupo político {19}.

Fossem quais fossem as inclinações políticas da RPC, ao negar-lhe qualquer "autoridade, status ou forma" {20}, o USAMGIKregulava a vida política dos coreanos como se o país fosse inimigo derrotado, não estado amigo libertado de um inimigo comum, com direito à independência e à autodeterminação.

O significado do desmonte da RPC vai bem além disso. John Gunther, que de modo algum pode ser declarado radical, assim resumiu a situação: "Com o desmonte da RPC, a primeira e melhor chance de construir uma Coreia unida foi sumariamente jogada fora" {21}. E Alfred Crofts, membro do governo militar norte-americano naquele momento, escreveu que "o que poderia ser uma agência de unificação do país tornou-se assim um dos 54 grupos em que se dividiu a vida política sul-coreana" {22}.

Syngman Rhee seria o homem de Washington: eminentemente pró-EUA, furiosamente anticomunista, suficientemente controlável. O seu foi governo de latifundiários, colaboracionistas, ricos em geral e outros elementos conservadores que por ali abundavam. Crofts registrou que "antes de os EUA pousarem, era completamente impossível e impensável uma direita política associada no pensamento do povo ao velho governo colonial; mais pouco depois já alimentávamos pelo menos três facções de conservadores" {23}.

Comprometido com implantar o regime de livre empresa, o USAMGIK vendeu grandes quantidades de propriedades japonesas confiscadas, moradias, empresas, matéria-prima industrial e outros valores. Os que mais podiam pagar por esses bens eram colaboradores que haviam enriquecido durante o domínio japonês e outros aproveitadores. "Com metade do patrimônio nacional 'entregue para ser roubado', a desmoralização foi rápida" {24}.

Enquanto os russos procederam a rigorosa faxina entre os coreanos do norte que haviam colaborado com os japoneses, o governo militar dos EUA no sul acolhia muitos colaboradores e, de início, até os próprios japoneses, mantidos em posições administrativas e de autoridade, para grande consternação dos coreanos que haviam lutado contra a ocupação japonesa no país deles. Em certa medida, essa gente foi mantida nos antigos postos porque tinham experiência, para manter o país funcionando. Outra razão também sugerida: para impedir que a RPC assumisse qualquer fatia de poder {25}.

E enquanto o norte implementou ampla e efetiva reforma agrária e a igualdade pelo menos formal entre homens e mulheres, o governo de Rhee no sul permaneceu hostil a tudo isso. Dois anos depois aplicou uma reforma agrária limitada, que só se aplicava às antigas propriedades de japoneses. Outra lei de 1949, que cobria também outras propriedades, jamais foi executada, e o abuso do uso da terra continuou nas modalidades já conhecidas e em outras, novas [26].

O ressentimento da população contra o governo EUA/Rhee foi rapidamente despertado, por causa dessas políticas e, também, por causa da derrubada da RPC e da realização de eleições altamente duvidosas. O governo Rhee tinha tão pouco interesse em fazer eleições limpas e justas que, no início de 1950, já se convertera em grave problema para os EUA, a ponto de Washington ameaçar retirar toda a ajuda se as eleições não acontecessem e se não houvesse grande melhora na situação das liberdades civis. Aparentemente por causa dessa pressão, as eleições realizadas dia 30 de maio foram suficientemente justas a ponto de permitir a participação de elementos "moderados". Nessas eleições, como já se mencionou acima, o governo Rhee foi fragorosamente derrotado {27}.

O ressentimento manifestou-se na forma de rebeliões frequentes, inclusive com guerrilha nas colinas, desde 1946 até o início da guerra e mesmo durante a guerra. As rebeliões eram desqualificadas pelo governo como ação "inspirada por comunistas" e reprimidas violentamente, mas, como John Gunther observou, "Pode-se dizer com segurança que, aos olhos de Hodge [comandante das forças dos EUA na Coreia] e Rhee, sobretudo no começo, quase todos os coreanos que não fossem extremistas de direita eram comunistas e potenciais traidores" {28}.

O general Hodge evidentemente permitiu que soldados dos EUA participassem na repressão. Mark Gayn, correspondente doChicago Sun na Coreia, escreveu que soldados dos EUA "atiravam contra multidões, faziam prisões em massa, variam as colunas à caça de 'suspeitos' e organizavam grupo de direitistas, mercenários e policiais para raids massivos" {29}. Gayn relatou que um dos conselheiros políticos de Hodge lhe garantiu que Rhee não era fascista: "Nasceu dois séculos antes do fascismo – um puro Bourbon" {30}.

Descrevendo a campanha governamental antiguerrilheiros em 1948, o cientista político pró-Ocidente John Kie-Chiang Oh da Marquette University escreveu: "Naquelas campanhas, as liberdades civis de incontáveis pessoas eram frequentemente ignoradas. Frequentemente, moradores das vilas, completamente desamparados, suspeitos de colaborar com a guerrilha, foram sumariamente executados" {31}. Um ano depois, quando uma comissão da Assembleia Nacional iniciou uma investigação dos colaboracionistas, Rhee mandou a polícia invadir a Assembleia: foram 22 presos, dos quais 16, como adiante se comprovou, tiveram costelas e crânio quebrados ou tímpanos perfurados {32}.

Quando eclodiu a guerra, em junho de 1950, estima-se que houvesse 14 mil prisioneiros políticos nos cárceres da Coreia do Sul {33}.

Mesmo no auge da guerra, em fevereiro de 1951, escreveu o professor Oh, houve o "caso Koch'ang", novamente envolvendo suspeitos de ajudar a guerrilha, "no qual cerca de 600 homens e mulheres, jovens e idosos, foram empurrados pra um desfiladeiro estreito e dizimados a tiros de metralhadora por uma unidade do exército sul-coreano" {34}.


Durante a guerra, prosseguiu um intenso fogo cruzado de acusações dos dois lados, todos acusando o outro lado de cometer todos os tipos de barbaridades as mais atrozes, contra soldados, prisioneiros de guerra e civis, em todos os cantos do país (várias vezes aconteceu de um lado ocupar território do outro lado), todos na luta para superar o outro lado na guerra verbal de superlativos, quase tão feroz quanto o combate. Nos EUA, produziu-se assim um corpo de mitos populares e lendas urbanas, não diferente do que se viu em outras guerras amplamente aprovadas dentro dos EUA. (Diferente disso, durante a Guerra do Vietnã a tendência à proliferação dos mitos era constantemente combatida com falas e publicações de protestantes bem informados e acadêmicos dedicados a pesquisar atentamente as origens da guerra e que fiscalizavam os desdobramentos, o que lhes permitia construir versões cheias de fatos e dados, que se opunham frontalmente às versões oficiais. Essa atividade dos intelectuais antiguerra do Vietnã não raras vezes influenciou ou forçou a mídia-empresa de massas a fazer o mesmo.)

Estabeleceu-se nos EUA, por exemplo, o consenso de que toda e qualquer brutalidade que acontecesse na Península Coreana seria sempre e indiscutivelmente atribuída aos norte-coreanos. O Caso Koch'ang acima referido pode ser importante como contrapeso que equilibre aquela crença. Referindo-se a esse incidente, o professor britânico coreano Jon Halliday observou:

"Esse relato não apenas ajuda a mostra o nível da violência policial que o lado da ONU cometia, mas também dá alta plausibilidade às acusações feitas pela RPDC [República Popular Democrática da Coreia, "Coreia do Norte"] e pela oposição na Coreia do Sul, de atrocidades e execuções em massa cometidas pelas forças da ONU e do governo Rhee durante a ocupação da RPDC no final de 1950. Afinal, se civis podiam ser fuzilados em massa no sul, por suspeita de ajudar (sequer eram acusados de ser) guerrilheiros – o que dizer do que acontecesse no Norte, onde milhões podiam ser realmente declarados comunistas e militantes políticos? {35}.

O relato de Oh é apenas um de muitos relatos de massacres na Coreia do Sul contra sul-coreanos durante a guerra. O New York Times noticiou uma "onda de execuções [pelo governo sul-coreano] em Seul" em dezembro de 1950 {36}. Rene Cutforth, correspondente da BBC na Coreia, escreveu mais tarde sobre "morte a tiros de civis sem qualquer julgamento, quase sempre ao raiar do dia, ou em qualquer palmo de terreno baldio onde se pudesse cavar uma trincheira e alinhar um grupo de prisioneiros a centímetros do buraco" {37}. E Gregory Henderson, diplomata dos EUA que serviu durantes sete anos na Coreia nos anos 1940s e 1950s, disse que "provavelmente foram mortos mais de 100 mil, sem qualquer julgamento" pelas forças de Rhee no Sul, durante a guerra {38}. Depois de alguns dos massacres de civis no Sul, o governo de Rhee punha-se a atribuir os crimes a soldados do Norte.

Um dos modos pelos quais os EUA contribuíram diretamente para a brutalidade da guerra na Coreia foi a introdução de uma arma que, embora já utilizada nas fases finais da 2ª Guerra Mundial e na Grécia, ainda era novidade para quase todos os observadores e participantes da Guerra na Coreia: o napalm. Eis o que o New York Times escreveu sobre a ação e o efeito dessa arma.

"Um raid de napalm atingiu a vila há três ou quatro dias, quando os chineses estavam em avançada, e nenhum cadáver foi enterrado porque não sobrou ninguém vivo (...) Os moradores na vila e nos campos próximos foram atingidos e mortos e lá ficaram nas exatas posições em que estavam quando o napalm os atingiu – um homem com uma perna sobre a bicicleta, 50 meninos e meninas brincando num orfanato, uma dona de casa estranhamente sem qualquer ferimento aparente, tendo na mão uma página arrancada de um catálogo de Sears-Roebuck onde alguém anotou a lápis "Pedido de Correio n. 3.811.294" por uma "sedutora colcha de cama – Coral, de $2,98". Deve haver quase 200 mortos no pequeno povoado" {39}.

Os EUA provavelmente também fizeram guerra biológica contra Coreia do Norte e China [como discutido antes, no capítulo sobre a China].

Ao mesmo tempo, a CIA estava sabidamente caçando empenhadamente um único homem para exterminá-lo – o líder Kim II Sung da RPDC. Washington mandou um índio Cherokee, codinome "Buffalo", para Hans V Tofte, oficial da CIA que servia no Japão, depois que Buffalo concordou com a missão de assassinar Kim II Sung. Prometeram a Buffalo uma considerável quantia de dinheiro se a missão fosse bem-sucedida. Como não foi, nada mais jamais se falou sobre o incidente [40].


Outra crença muito disseminada nos EUA durante a Guerra da Coreia foi que os prisioneiros norte-americanos estariam morrendo como moscas nos campos da Coreia do Norte por causa da crueldade e negligência comunistas. As chamas dessa questão muito emocional eram sopradas pela tendência dos oficiais norte-americanos a inflar os números. Durante novembro de 1951, por exemplo – muito antes do fim da guerra –, comunicados militares norte-americanos falavam de entre 5 mil e 8 mil prisioneiros de guerra {41}. Contudo, estudo extensivo completado pelo Exército dos EUA dois anos depois da guerra revelou que o número total de prisioneiros ao longo de toda a guerra foi de 2.730 (dos 7.190 mantidos em campos; número desconhecido de outros prisioneiros jamais chegaram aos campos, sendo mortos onde estivessem, por causa da inconveniência de lidar com prisioneiros durante os combates, uma prática que se constatou nos dois lados em luta).

O estudo concluiu que "há evidência de que a alta taxa de mortalidade não foi efeito de maus tratos comunistas (...) mas, muito mais, pela ignorância ou insensibilidade dos próprios prisioneiros" {42}. "Insensibilidade" [orig. Callousness] refere-se aqui à falta de moral e espírito coletivo. Embora nada disso se mencione no estudo, os norte-coreanos várias vezes denunciaram que muitos prisioneiros norte-americanos também morriam nos campos de prisioneiros, por efeito do pesado bombardeio pelos aviões dos EUA.

O estudo, claro, jamais sequer se aproximou de desmentir as apavorantes manchetes servidas durantes três anos ao público ocidental. Também encobriu o fato de que número muito maior de prisioneiros comunistas morreram nos campos norte-americanos/sul-coreanos de prisioneiros – à altura de metade da guerra, o número oficial estava em 6.600 {43} –, embora aqueles campos reunissem número muito superior de prisioneiros que os campos na Coreia do Norte.

O povo norte-americano também foi convencido, e provavelmente assim continua até hoje, que os norte-coreanos e chineses faziam 'lavagem cerebral' nos soldados dos EUA. Essa história surgiu para explicar o fato de que número equivalente a 30% dos prisioneiros norte-americanos naquela guerra colaboraram, de um modo ou de outro, com o inimigo e "um homem em cada sete, ou mais de 13%, era culpado de colaboração grave – redigindo relatos desleais (...) ou aceitando espionar ou organizar grupos e serviços para os comunistas depois da guerra" {44}. Outra razão pela qual o mote da lavagem cerebral foi promovido por Washington é que aumentava a probabilidade de que a opinião pública não levasse a sério o que diziam prisioneiros que voltavam ao país com versões diferentes da versão oficial.

Nas palavras de Robert J Lifton psiquiatra de Yale, a lavagem cerebral era considerada entre as massas leigas como "método todo-poderoso, irresistível, inconcebível e mágico, de obter total controle sobre a mente humana" {45}. Apesar de a CIA ter feito experimentos, que começaram nos anos 1950s, para desenvolver tal invencível magia, nem a CIA nem os norte-coreanos ou os chineses jamais a alcançaram. A CIA começou seus experimentos de "controle comportamental" ou "controle da mente" em humanos (provavelmente em suspeitos de atuarem como agentes duplos), usando drogas e hipnose, no Japão em julho de 1950, pouco depois do início da Guerra da Coreia. Em outubro, aparentemente teriam usado prisioneiros norte-coreanos de guerra como cobaias {46}. Em 1975, um psicólogo da Marinha dos EUA, tenente-comandante Thomas Narut, revelou que seu trabalho na Marinha incluíra estabelecer um método para induzir recrutas que não fossem naturalmente inclinados a matar, a fazê-lo sob algumas determinadas condições. Referia-se a esses homens como "pistoleiros" [ing.hitmen]" e "assassinos". Narut acrescentou que assassinos condenados também foram retirados de prisões militares para se tornarem "assassinos" {47}.

Lavagem cerebral, dizia o estudo do Exército, "tornou-se palavra-coringa, usada para significar tantas coisas que já não tinha nenhum significado preciso" e "significado preciso é indispensável nesse caso" {48}.

"Os prisioneiros, na medida do que psiquiatras do Exército conseguiram descobrir, não eram submetidos a coisa alguma que se pudesse designar propriamente como lavagem cerebral. Na verdade, o tratamento que os comunistas davam aos prisioneiros, embora nem de perto atendesse às exigências da Convenção de Genebra, raramente envolveu crueldade extrema; de fato, parecia mais uma nova e ainda desconhecida mistura de leniência e pressão (...). Os comunistas raramente usaram tortura física (...), e o Exército não encontrou nenhum caso verificável em que a tortura física tivesse sido usada para o específico propósito de forçar um homem a colaborar ou a aceitar as convicções comunistas" {49}.

Segundo o mesmo estudo, contudo, alguns aviadores norte-americanos, dos cerca de 90 que foram capturados teriam sofrido abusos físicos, com o objetivo de arrancar deles confissões sobre guerra bacteriológica. Pode ser indício de o quanto os comunistas ressentiam-se ante o uso desse tipo de arma, ou necessidade de comprovar, de algum modo, alguma coisa que já soubessem, alegação falsa ou simplesmente mentira.

Mas os soldados norte-americanos sempre eram submetidos a doutrinação política por seus carcereiros. Eis como o Exército dos EUA via o processo:

"Nas palestras de doutrinação, os comunistas frequentemente exibiam mapas terrestres com marcas nos pontos de nossas bases militares, cujos nomes eram evidentemente conhecidos pelos prisioneiros. 'Estão vendo essas bases?' perguntava o instrutor, batendo sobre o mapa com uma haste de madeira que usava para apontar. 'São bases norte-americanas – cheias de material de guerra. Vocês sabem que são bases dos EUA. E vocês estão vendo que cercam Rússia e China. Rússia e China não têm base alguma fora dos respectivos territórios. Só por isso já se vê quem é o belicista. Por que os EUA teriam essas bases e gastariam milhões para mantê-las, se não fossem parte da preparação da guerra contra Rússia e China?' Esse argumento parecia correto e plausível para muitos dos prisioneiros. Em geral, nenhum deles jamais ouvira dizer que aquelas bases mostravam não que os EUA desejassem guerra, mas que só desejavam paz, que as bases lá estavam como parte de vários tratados assinados não para conquistar, mas para impedir a agressão pelos Vermelhos" {50}.

Os comunistas chineses, evidentemente, não inventaram essa prática. Durante a Guerra Civil Norte-Americana, prisioneiros dos dois lados, do Sul e do Norte, receberam doutrinação sobre os méritos respectivos dos dois lados. E na 2ª Guerra Mundial, foram dados "cursos de democratização" nos campos norte-americanos e britânicos para prisioneiros de guerra alemães, e alemães reformados recebiam privilégios. O Exército dos EUA orgulhava-se, sobretudo, de afirmar que prisioneiros comunistas em campos norte-americanos durante a Guerra da Coreia aprendiam "o que a democracia representa {51}.

A prevista agressão chinesa manifestou-se cerca de quatro meses depois do início da Guerra na Coreia. Os chineses entraram na guerra depois que aviões dos EUA violaram seu espaço aéreo repetidas vezes, bombardearam inúmeras vezes território chinês (sempre por "lastimável erro", quando usinas hidrelétricas no lado coreano da fronteira, vitais para a indústria chinesa, corriam grave risco, e forças dos EUA ou da Coreia do Sul chegavam já à fronteira chinesa, o rio Yalu, ou em vários pontos estavam a poucos quilômetros do rio.

A pergunta que não quer calar é: quanto tempo os EUA esperariam, tentando não entrar em guerra que uma potência comunista vinda do outro lado do mundo guerreasse no México, e que invadisse e bombardeasse cidades de fronteira no Texas, que já se organizasse ao longo do Rio Grande, e fosse comandada por general que ameaçava atacar diretamente os EUA?


O poder de fogo aéreo dos norte-americanos na Coreia servia para assustar. Como aconteceria no Vietnã, foi celebrado no uso de napalm, na destruição de vilas "suspeitas de ajudar o inimigo", no bombardeio de cidades até não haver nenhuma parede em pé, para destruir barragens e diques, de modo a inutilizar o sistema de irrigação, matar os campos de arroz (...) e em expressões comoventes como "política de terra arrasada", (ing. "scorched-earth policy"), "bombardeio de saturação" (ing. "saturation bombing"), e "matador operacional" (ing. "operacion killer") {52}.

"Pode dar adeusinho àquele grupo de vilas!" exclamou o capitão Everett L Hundley de Kansas City, Kansas, depois de um raid de bombardeamento {53}.

"Eu diria que toda, quase toda, a Península Coreana é só confusão, uma terrível confusão" – testemunhou o major-general Emmett O'Donnell perante o Senado, quando a guerra já completava um ano. "Está tudo destruído. Nada há em pé, que valha o nome" {54}.

E aqui, as palavras do venerável guia militar britânico, Brassey's Annual, no livro do ano de 1951:

"Não é exagero dizer que a Coreia do Sul já não existe como país. As cidades foram destruídas, muitos dos seus meios de sobrevivência erradicados, e o povo reduzido a uma massa dependente de caridade e exposto a influências subversivas. Quando a guerra terminar não se deve esperar nenhuma gratidão dos sul-coreanos, mas deve-se esperar que a lição tenha sido bem aprendida, que de nada serve destruir para libertar. Com certeza a Europa Ocidental jamais aceitaria tal 'libertação'" {55}.

Mas o pior dos bombardeios ainda estava por vir. Começou no verão de 1952 e foi o modo de Washington para se posicionar em melhor posição para barganhar com os comunistas, em conversações que já estavam em andamento há um ano, enquanto prosseguiam os combates. As longas e amargas negociações geraram outra crença ocidental que tudo invadiu – que as conversações teriam sido frustradas e a guerra prolongada por culpa dos comunistas, de sua intransigência, duplicidade e falta de vontade de fazer a paz.

Esse é capítulo longo e tormentoso da história da Guerra da Coreia, mas não é preciso entrar muito fundo para constatar o fato de que muitas barreiras foram erguidas contra a paz também do lado dos anticomunistas. Syngman Rhee, por exemplo, opunha-se absolutamente a qualquer conclusão que não fosse total vitória, que os dois governos, de Truman e de Eisenhower traçaram planos para derrubá-lo {56}; o que não significa sugerir que os negociadores norte-americanos negociassem sempre de boa fé. A última coisa de que queriam ser acusado seria que tivessem permitido que os comunistas lhes passassem a perna. Em novembro de 1951, lia-se no New York Times:

"O modo objetivo, sem adornos, como número crescente deles [de soldados norte-americanos na Coreia] veem a situação nesse momento é que os comunistas fizeram importantes concessões, enquanto o Comando da ONU, como o veem, continua a impor mais e mais demandas (...) A equipe de negociadores da ONU criou a impressão de que mudam as próprias exigências cada vez que os comunistas dão sinais de que possam vir a concordar" {57}.

Num dado momento nesse mesmo período, quando os comunistas sugeriram que um cessar-fogo e a retirada de tropas da linha de combate poderia acontecer ainda enquanto prosseguiam as negociações, o Comando da ONU reagiu quase como se aqueles movimentos fossem ato vicioso e de beligerância "A posição dos comunistas hoje" – dizia o comunicado do Comando da ONU –, "foi virtualmente de renúncia ao que sempre defenderam, que as hostilidades deviam continuam durante as discussões do armistício" {58}.


Era uma vez, quando os EUA combateram uma grande guerra civil, na qual o Norte tentou reunificar pela força militar o país dividido. Alguma Coreia ou China ou qualquer outra potência estrangeira enviou exército para massacrar norte-americanos, e sempre culpando Lincoln pela agressão?

Por que os EUA escolheram fazer guerra total na Coreia? Apenas um ano antes, em 1949, na luta entre árabes e israelenses na Palestina, e na guerra Índia-Paquistão pela Caxemira, a ONU, com apoio dos EUA, interveio para mediar um armistício, não com envio de um exército para assumir a defesa de um dos lados e expandir os combates. E esses dois conflitos tinham ainda menos de guerra civil, que o caso na Coreia. Se a resposta de EUA/ONU tivesse sido a mesma também naqueles casos anteriores, a Palestina e a Caxemira talvez tivessem acabado num deserto de terra arrasada, como aconteceu na Coreia. O que salvou a Palestina e a Caxemira, e manteve as forças dos EUA bem longe de lá foi, apenas, que nem na Palestina nem na Caxemira o conflito envolvia um lado comunista.

Notas

1. New York Times, 1/10/1950, p. 3.

2. "The EUA Imperialists Started the Coreian War" é o subtítulo do livro publicado em Pyongyang, Coreia do Norte, 1977, pp. 109-10.

3. Comunicado por rádio, 13/4/1950, reimpresso no The Department of State Bulletin, 24/4/1950, p. 627.

4. Para uma discussão da origem imediata da guerra, ver:

a) Karunakar Gupta, "How Did the Coreian War Begin?", The China Quarterly (London) Outubro/Dezembro 1972 n. 52, pp. 699-716.

b) "Comment: The Coreian War", The China Quarterly, Abril/Junho 1973, n. 54, pp. 354-68. São réplicas ao artigo de Gupta na edição n., 52 e a tréplica de Gupta.

c) New York Times, 26/6/1950. P. 1 – Anúncio da Coreia do Sul sobre Haeju. P. 3 – Anúncio da Coreia do Norte sobre Haeju.

d) Glenn D Paige, The Coreian Decision (24-30/6/1950) (New York, 1968) passim., especialmente p. 130.

e) I F Stone, The Hidden History of the Coreian War (New York, 1952) capítulo 7 e outros.

5. John Gunther, The Riddle of MacArthur (London, 1951), pp. 151-2.

6. New York Times, 25/7/1950, p. 4; 30/7, p. 2.

7. Khrushchev Remembers (London, 1971) capítulo 11. Estudo da transcrição vs o livro: John Merrill, Book Reviews, Journal of Coreian Studies (University of Washington, Seattle) Vol 3, 1981, pp. 181-91.

8. Joseph C Goulden, Coreia: The Untold Story of the War (New York, 1982) p. 64

9. New York Times, 26/6/1950.

10. Ibid, 1/10/1950, p. 4.

11. Goulden, pp. 87-8; Stone, pp. 75, 77.

12. Para mais discussão sobre o viéz da ONU naquele momento, ver Jon Halliday, "The United Nations e Coreia", in Frank Baldwin, editor , Without Parallel: The American-Coreian Relationship Since 1945 (New York, 1974), pp. 109-42.

13. Trygve Lie, In the Cause of Peace (New York, 1954) capítulos 18 e 19.

14. Shirley Hazzard, Countenance of Truth: The United Nations e the Waldheim Case (New York, 1990), pp. 13-22. Em seu livro, p. 389, ele diz que foi o primeiro a usar essa prática.

15. CIA memorandum, 28/6/1950, Declassified Documents Reference System (Arlington, Virginia) Retrospective Volume, Document 33C.

16. Stone, pp. 77-8.

17. O texto integral da Resolução do Conselho de Segurança de 7/7/1950 pode ser lido no New York Times, 8/7/1950, p. 4.

18. Dwight Eisenhower, The White House Years: Mandate for Change, 1953-1956 (New York, 1963) p. 340.

19. Para uma discussão da política pós-guerra na Coreia do Sul ver:

a) Bruce Cumings, The Origins of the Coreian War: Liberation e the Emergence of Separate Regimes, 1945-1947 (Princeton University Press, New Jersey, 1981) passim.,

b) E. Grant Mcade, American Military Government in Coreia (King's Crown Press, Columbia University, New York, 1951) capítulos 3-5.

c) George M McCune, Coreia Today (Institute of Pacific Relations, New York, 1950) passim., pp. 46-50 (RPC). Professor McCune trabalhou com o governo dos EUA sobre problemas da Coreia durante a 2ªGuerra Mundial.

d) D F Fleming, The Cold War e its Origins, 1917-1960 (Doubleday & Co, New York, 1961) pp. 589-97.

e) Alfred Crofts, "The Case of Coreia: Our Falling Ramparts", The Nation (New York) 25/6/1960, pp. 544-8. Crofts era membro do Governo Militar dos EUA na Coreia que começou em 1945.

20. Crofts, p. 545.

21. Gunther, p. 165.

22. Crofts, p. 545.

23. Ibid.

24. Ibid, p. 546.

25. Colaboradores: Cumings, pp. 152-6; Mcade, p. 61; McCune, p. 51; mais em outros pontos dessas fontes, e també em Fleming e Crofts. Sobre japoneses e colaboradores manterem os postos para esvaziar a República Popular da Coreia: Cumings, pp. 138-9.

26. McCune, pp. 83-4, 129-39, 201-9.

27. Eleição de 1946: Mark Gayn, Japan Diary (New York 1948) p. 398; eleição de 1948: Crofts, p. 546; Halliday, pp. 117-22; eleição de 1950 e alerta dos EUA warning; Fleming, p. 594. Para uma discussão da manipulação, por Rhee, do que seriam eleições honestas em 1952 e depois, e seu governo que foi invariavelmente tirânico, ver William J. Lederer, A Nation of Sheep (W W Norton & Co, New York, 1961), capítulo 4.

28. Gunther, pp. 166-7.

29. Gayn, p. 388.

30. Ibid, p. 352.

31. John Kie-Chiang Oh, Coreia: Democracy on Trial (Cornell University Press, Ithaca, New York, 1968) p. 35.

32. The Nation (New York), 13/8/1949, p. 152.

33. Gunther, p. 171.

34. Oh, p. 206; ver também New York Times, 11/4/1951, p. 4 para um relato do massacre de entre 500 e 1.000 pessoas em março, no mesmo local, que parece referir-se ao mesmo incidente.

35. Jon Halliday, "The Political Background", in Gavan McCormack e Mark Selden, editors, Coreia, North e South: The Deepening Crisis (New York, 1978) p. 56.

36. New York Times, 11/4/1951, p. 4.

37. Rene Cutforth, "On the Coreian War", The Listener (BBC publication, London) 11/9/1969, p. 343.

38. Gregory Henderson, Coreia: The Politics of the Vortex (Harvard University Press, Cambridge, Mass, 1968 p. 167.

39. New York Times, 9/2/1951, George Barrett.

40. Goulden, pp. 471-2. Essa informação deriva da entrevista que Goulden fez com Tofte.

41. New York Times, 27/11/ 1951, p. 4.

42. Eugene Kinkead, Why They Collaborated (London, 1960) p. 17; publicado nos EUA em 1959 em versão ligeiramente diferente da publicada como In Every War But One, o estudo do Exército não foi reunido em volume único, mas distribuído em vários relatórios separados. O livro de Kinkead, escrito com plena cooperação do Exército, é composto de um sumário de alguns daqueles relatórios, e entrevistas com muitos oficiais do governo e militares diretamente envolvidos no estudo ou que tinham informação sobre o assunto. Para simplificar, faço referência ao livro como se fosse o estudo. É mérito do Exército que muitos dos resultados do estudo não foram mantidos secretos; ainda assim, o estudo inclui algumas declarações anticomunistas das mais bizarras: mentira na China é punida com pena capital (...) comunistas vivem a vida como animais, da infância à velhice (...) [pp. 190-193].

43. Keesings Contemporary Archives, 5-12/1/1952, p. 11.931, anúncio dia 31/12/1951, do quartel-general do general Ridgeway.

44. Kinkead, p. 34.

45. Robert J Lifton, Thought Reform e the Psychology of Totalism; A Study of brainwashing in China (London, 1961) p. 4.

46. John Marks, The Search for the Manchurian Candidate: The CIA e Mind Control (New York, paperback edition, 1988), p. 25, baseado em documentos da CIA.

47. Sunday Times (London), 6/7/1975, p. 1. Narut nesse momento trabalhava num hospital naval dos EUA em Nápoles, Itália, e fez esses comentários numa conferência patrocinada pela OTAN em Oslo, Noruega, na semana anterior.

48. Kinkead, p. 31.

49. Ibid, pp. 17, 34.

50. Ibid, pp. 105-6.

51. Ibid, p. 197.

52. Para descrição concisa do "bombardeio do terror" de 1952-53, ver John Gittings, "Talks, Bombs e Germs: Another Look at the Coreian War", Journal of Contemporary Asia (London) vol. 5, n. 2, 1975, pp. 212-6.

53. Air Force Communique, 2/2/1951, citado por Stone, p. 259

54. Military Situation in the Far East, Hearings Before the Senate Committees on Armed Services end Foreign Relations, 25/6/1951, p. 3075.

55. Louis Heren, "The Coreian Scene", in Rear-Admiral H G Thursfield, editor, Brassey's Annual: The Armed Forces Year-Book 1951 (London, 1951) p. 110.

56. San Francisco Chronicle, 15/12/1977, p. 11, baseado em documentos liberados nos termos da Lei de Liberdade de Informação [ing. Freedom of Information Act].

57. New York Times, 12/11/1951, p. 3.

58. Ibid, 14/11/1951, p. 1.

12 de setembro de 2017

Fim das sanções

As sanções draconianas de Trump contra a Venezuela irão atingir os trabalhadores do país e os mais pobres.

Branko Marcetic


Caracas, Venezuela. Miguel "Mickey" González Azuaje / Flickr

Traduções / No que a este ponto tal atitude só pode ser considerada como parte de uma missão para inflamar o caos e a desordem em todo o mundo, a administração Trump nos últimos meses impôs uma série de sanções contra a Venezuela, um país em meio a uma crise política que já dura meses.

A justificativa oficial para as sanções são os “graves abusos dos direitos humanos” por parte do governo venezuelano, a repressão contra a oposição política, a dissolução de seu parlamento eleito e seu papel na crise humanitária do país. Mas, tendo em vista os comentários do presidente Trump de que ele poderá decidir por uma “opção militar” para resolver a crise no país, juntamente com o fato de que a Venezuela não representa uma ameaça para os Estados Unidos, é seguro assumir que tais sanções têm como objetivo fazer com que o processo de derrubada do Governo da Venezuela seja mais rápido e mais fácil.

Em julho passado, a administração de Trump tornou ilegal qualquer negociação com a PDVSA, empresa estatal de petróleo e gás natural da Venezuela, para toda e qualquer pessoa física ou empresa norte-americana. Em seguida, em agosto, a administração Trump colocou restrições à negociação de títulos que a Venezuela vende nos mercados financeiros dos EUA para levantar recursos financeiros, e proibiu a Citgo, subsidiária norte americana da PDVSA, de enviar lucros para sua matriz na Venezuela. Além disso, as sanções financeiras atingiram vinte pessoas físicas próximas ao governo venezuelano, incluindo o próprio presidente Nicolás Maduro.

Alguns já elogiaram as sanções do governo norte-americano como admiravelmente contidas.

“Se formos honestos a respeito disso, chegaremos à conclusão de que isso não terá muito efeito além do efeito político simplesmente”, escreveu Tim Worstall da Forbes. “O efeito econômico simplesmente não vai ser assim tão grande”.

Escrevendo no Miami Herald, Neil Bhatiya, do Centro para Nova Segurança Americana afirmou que “a administração norte-americana parece indicar que está ciente das armadilhas de sanções severas”, e que “tentou encontrar um equilíbrio entre aumentar a pressão sobre Maduro e, ao mesmo tempo minimizar as consequências mais severas para o povo venezuelano. “A criação de um “caos macroeconômico” no país seria simplesmente agir de maneira a ceder vantagem ao governo Maduro, argumenta ele, fazendo com que a atual crise da Venezuela pareça ser apenas um produto da intromissão norte-americana.

O New York Times, por sua vez, chamou as sanções de “limitadas” e enfatizou suas “grandes lacunas”.

É verdade que a administração norte-americana não chegou tão longe quanto poderia ter chegado. E se recusou a proibir as importações norte-americanas de petróleo bruto venezuelano, por exemplo, o que teria sido catastrófico – o Livro de Fontes da Indústria Extrativista argumenta que a “economia venezuelana é totalmente dependente de suas exportações de petróleo”. (Também não sejamos muito rápidos para louvar a presunção de misericórdia da administração estadunidense – as refinarias americanas pressionaram contra tal medida, uma vez que ela prejudicaria as companhias de petróleo norte-americanas bem como os consumidores dos EUA).

Mas é difícil acreditar que as sanções não terão um grande impacto na economia venezuelana e, mais ainda, para os venezuelanos comuns que dependem do petróleo. Embora os números exatos não sejam conhecidos, pensa-se que o petróleo represente entre 80 e 95% da receita de exportação do país e cerca de um terço do seu PIB. Para se ter uma noção de como a economia venezuelana está ligada à fortuna de seu setor de petróleo, considere que quando o preço do petróleo quase se reduziu à metade em 2014, o PIB da Venezuela contraiu-se em 10%. E os preços estão ainda mais baixos agora.

Além disso, a PDVSA é essencialmente a economia venezuelana. É a maior empregadora do país e, de acordo com a OCDE, ela existe como “um fundo extra orçamentário para gerenciar a maioria dos novos programas sociais do governo”, ela é obrigada a investir 10% do orçamento de investimento anual nesses programas. Estes programas incluem serviços vitais, como clínicas médicas, universidades e educação gratuitas, bem como centros de alimentos com descontos em áreas empobrecidas.

Portanto, mesmo sanções “restritas” na PDVSA – restringindo seu acesso ao crédito em um momento em que o país tem que pagar US$ 3,8 bilhões em dívidas nos próximos três meses – provavelmente afetarão os venezuelanos comuns, particularmente porque o país sofre uma aguda crise alimentar, que já se arrasta por mais de dois anos. Proibir que a Citgo envie lucros para sua matriz na Venezuela simplesmente não concederá a ela o que é necessário, ou seja, fará diminuir ainda mais os seus recursos financeiros, exacerbando o cenário atual.

Há indícios de que já estamos vendo as repercussões negativas disto. No início de agosto, o vice-presidente da Assembleia Nacional Constituinte da Venezuela afirmou que os esforços do governo para trazer dez navios carregados de açúcar bruto foram frustrados pelo fato de não poderem pagar pela carga. Além disso, ele disse que as sanções bloquearam o pagamento de 18 milhões de caixas de comida, o que foi corrigido somente quando os aliados da Venezuela intervieram no processo de pagamento.

É por essa razão que o economista Mark Weisbrot soou o alarme sobre as sanções, chamando-as de “sanções muito severas” das quais ele “não se lembra de alguma vez terem sido utilizadas, exceto em casos como o Irã ou a Rússia” ou a Coréia do Norte, onde foram justificadas com base nos programas nucleares desses países, algo do qual a Venezuela carece.

“Ao impedir que a economia obtenha divisas, essa ação prejudicará o setor privado, a maioria dos venezuelanos, os pobres e os vulneráveis”, escreveu ele no mês passado no Hill, acrescentando que, cortar a maioria das fontes de financiamento para o país, provocaria a queda mais acentuada das importações, levando a mais escassez.

O fim do jogo aqui não é particularmente difícil de se descobrir. Além de algumas ações pesadas do governo de Maduro, a falta de alimentos da Venezuela tem sido um dos principais contribuintes para o sentimento antigovernamental no país, juntamente com a redução dos serviços sociais diante da diminuição da receita do petróleo. Se a administração de Trump colocar um aperto adicional sobre as finanças do governo venezuelano, esse conflito só vai se inflamar ainda mais, talvez levando à expulsão de Maduro.Portanto, não acredite na afirmação de que as sanções contra a Venezuela são motivadas por preocupações humanitárias. Incentivar a miséria humana é, por objetivo, seu único propósito.

A ofensiva de outono: EUA, França e Brasil

James Petras

MR Online

Tradução / O outono de 2017 testemunhará o mais brutal assalto aos padrões de vida da classe trabalhadora e média desde o fim da II Guerra Mundial. Três presidentes e seus aliados nos congressos irão "rever" legislações trabalhistas, leis e regulamentos fiscais progressistas sobre o rendimento e efetivamente acabarão com as economias mistas na França, nos EUA e no Brasil.

Durante o verão, a opinião pública foi desviada pelas ameaças dos EUA de lançar novas guerras além-mar; pela retórica da França acerca de um pacto Berlim-Paris pós Brexit, o qual refará a União Europeia; e pela corrupção e escândalos criminais de Michel Temer, presidente do Brasil.

Estas controvérsias superficiais serão esmagadas por conflitos de classe fundamentais, os quais prometem alterar relações estruturais presentes e futuras dentro do capitalismo ocidental.

Ofensiva de outono de Trump: Lucros, guerras e epidemias

O presidente Trump propõe enriquecer capitalistas e intensificar desigualdades de classes através da sua transformação radical do sistema fiscal. Impostos corporativos serão cortados pela metade, impostos corporativos além-mar serão abolidos e trabalhadores assalariados pagarão mais por menos benefícios sociais.

Trump pode contar com o apoio da liderança republicana, dos negócios e da elite da banca assim como de setores do Partido Democrata nos seus planos para implementar uma maciça dádiva fiscal para os bilionários.

O gabinete de Trump, liderado pelo trio da Goldman Sachs e sua troika de generais garantirá que o orçamento incluirá cortes de fundos para a educação e saúde a fim de aumentar o gasto militar, expandir guerras e cortar impostos para os ricos.

Mesmo ameaças mais agressivas contra a Coreia do Norte, Rússia, Irã, Venezuela e China, maiores gastos com a guerra e com os níveis de tropas no Afeganistão e a militarização aberta do policiamento, controle de imigração e inteligência interna resultarão em cortes drásticos nos programas federais para os pobres e as classes trabalhadoras. O acesso declinante na qualidade de cuidados de saúde para trabalhadores e a deterioração nas condições de segurança no lugar de trabalho alimentarão a epidemia de vício nos opioides que levam centenas de milhares de mortes prematuras de trabalhadores por overdoses, lesões e cuidados inadequados e incompetentes.

Presidente Emmanuel Macron: A ofensiva capitalista na França

Na França, os trabalhadores e a classe média enfrentam o mais abrangente ataque aos seus direitos de emprego e de legislação social progressista da história moderna.

O presidente Emmanuel Macron declarou o seu objectivo de transferir completamente o poder sócio-económico dos trabalhadores franceses para o capital através da remoção de todas as leis e protecções ao trabalho. Empregados terão de negociar com os seus patrões, uma fábrica e um escritório de cada vez, minando dessa forma o poder da negociação colectiva de uma classe trabalhadora unida. O patronato será livre para contratar e despedir trabalhadores sem virtualmente quaisquer restrições ou consequências. Contratos "lixo" temporários e a curto prazo proliferarão, destruindo a estabilidade do trabalhador a longo prazo. Macron eliminará os empregos de mais de 100 mil empregados da função pública enquanto corta impostos corporativos em mais de 50 mil milhões de euros.

Em contraste com cortes fiscais maciços para a burguesia, Macron propõe aumentar impostos sobre pensionistas franceses, afectando milhões de reformados. Uma vez em vigor, a agenda legislativa de Macron concentrará o poder, os lucros e a riqueza do capital enquanto aumenta desigualdades e a polarização de classe. Respondendo aos interesses económicos dos banqueiros, Macron promete reduzir o défice para 3% do PIB através de cortes maciços na saúde e educação.

Sob o pretexto de "reduzir o desemprego", Macron promoverá o emprego em tempo parcial e temporário para a juventude francesa e trabalhadores imigrantes, removendo de todos os trabalhadores franceses os seus ganhos arduamente combatidos quanto à segurança de emprego e direitos laborais. Macron justifica o seu assalto ao trabalho classificando os trabalhadores como "preguiçosos".

Brasil: A grande liquidação

Michel Temer, o presidente não eleito do Brasil, planeja privatizar 57 empresas públicas – as jóias da coroa da economia brasileira. Isto equivalerá à maior captura capitalista de ativos em dois séculos!

Estão incluídos na liquidação: campos petrolíferos, linhas de transmissão de energia, rodovias, aeroportos, assim como a cunhagem da moeda e a lotaria. A Eletrobrás, a maior produtora de eletricidade da América Latina, está disponível para qualquer um. Além disso, Temer planeja aumentar taxas de juro cobradas pelo banco de desenvolvimento de propriedade estatal, BNDES, para aumentar a fatia dos banqueiros privados na concessão de empréstimos e nos lucros.

Esta captura nua de empresas estatais lucrativas por investidores internos e estrangeiros levará à perda de centenas de milhares de empregos e à redução de salários e pagamentos de pensões. Temer começou a cortar o passivo em pensões do Estado através do aumentou da idade de aposentadoria em vários anos. Salários e benefícios sociais foram congelados no futuro previsível. Decretos presidenciais, os quais ditam os termos de contratos de trabalho, ameaçam a negociação coletiva.

A ofensiva capitalista: Resultados e perspectivas

Estes presidentes declararam sua intenção de lançar a "guerra de classe a partir de cima" em plena escala – cujas consequências estão para ser vistas. Os presidentes, os quais dominam por decreto, estão a pisar terreno frágil. Cada um deles está a enfrentar grandes desafios políticos, económicos e sociais.

Todos os três presidentes perderam apoio público desde a tomada de posse, especialmente entre seus eleitores de classe média baixa e da classe trabalhadora.

A aprovação de Macron caiu de 65% para 40%; a de Trump de 49% para 35% e a de Temer (que não foi eleito) mal retém 5% (e em queda) de aprovação pública.

Brasil: Enfrentando o abismo

Apesar das incertezas sobre a estabilidade e o futuro do regime, os investidores estrangeiros e a imprensa financeira apoiam Temer.

O isolamento de Temer em relação ao eleitorado do país enfraqueceu o seu poder no Congresso e entre a elite bancária interna e entre as corporações petrolíferas e de energia. Contudo, se o apelo de sindicatos a greves militantes generalizadas de trabalhadores manufatureiros, empregados públicos e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) for eficaz e paralisar a economia, Temer pode ser forçado a renunciar antes de o seu programa ser implementado. Enquanto isso, o presidente Temer enfrenta numerosas investigações judiciais por corrupção.

Estrategicamente, Temer pode contar com apoio internacional, especialmente do Departamento de Estado dos EUA, do Tesouro, do Pentágono e da União Europeia. Os regimes neoliberais na Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Peru, Colômbia e México exprimiram forte apoio a Temer, especialmente porque eles também receberam subornos dos mesmos oligarcas corporativos brasileiros! Sob Temer, a economia brasileira declinou em mais 5% desde a sua tomada de posse num golpe de estado legislativo. Seu défice orçamental excede os 9% e o desemprego duplicou para mais de 11%.

Apesar do apoio da elite estrangeira e interna, a presidência Temer não sobreviverá. Sob a pressão de massa e eleições a aproximarem-se, o Congresso do Brasil pode decidir permitir os tribunais de processarem Temer e bloquear a sua proposta de liquidação de ativos públicos.

Agências de classificação de crédito estão em vias de degradar a economia do Brasil para o status de "lixo", reduzindo novos investimentos. Com novas eleições no horizonte em 2018, é claro que Temer nem mesmo se candidatará à presidência e suas propostas de privatizar a principais empresas do Brasil podem não ter êxito. A recessão econômica reduziu drasticamente receitas fiscais e a possibilidade de receber qualquer impulso significativo com a privatização é dúbia. Mesmo a medida regressiva inicial de Temer – o corte de pensões públicas – atolou-se em lutas burocráticas. Entretanto, a oposição à ofensiva capitalista de Temer tem ainda de encontrar uma pancada decisiva e organizada.

A oposição no Congresso, liderada pelo partido de centro-esquerda PT, é uma minoria com muitos dos seus líderes a enfrentarem seus próprios julgamentos por corrupção. O PT é incapaz de bloquear, muito menos de expulsar, Temer. A oposição de direita no Congresso está dividida entre aqueles que apoiam Temer – com base no clientelismo – e aqueles que querem substituir Temer e ao mesmo tempo prosseguir com a sua agenda anti-trabalho. Os sindicatos, liderados pela CUT, têm efetuado protestos esporádicos e feito gestos retóricos, ao passo que o MST (os trabalhadores sem terra) e movimentos ecológicos e de sem teto organizados, aos quais falta apoio militante de massa urbana, seriam incapazes de derrubar Temer.

O ex-presidente Lula da Silva recuperou algum grau de apoio em massa de eleitores mas enfrenta acusações de corrupção, as quais podem proibi-lo de exercer cargos políticos – a menos que haja uma grande mobilização de massa.

Em suma, a ofensiva pró capitalista da direita no Brasil é abrangente – oferecendo ativos públicos e lucros privados – mas fraca em apoio institucional e de fundamentos econômicos.

Um grande impulso da esquerda poderia minar a base política para a equipe econômica de Temer, entretanto não está claro qual partido ou líderes o substituiriam.

França: Bonaparte no palácio, trabalhadores nas ruas

Quando o presidente Emmanuel Macron foi eleito presidente da Quinta República ele trouxe consigo uma base eleitoral de massa bem como o apoio das principais organizações de negócios e da banca francesa. Contudo, nas vésperas do lançamento da sua ofensiva capitalista a base de massa evaporou-se. A desaprovação eleitoral está a ascender rapidamente. A ala militante dos sindicatos (CGT) prepara-se para lançar uma greve geral. Sua agenda fiscal regressiva alienou vastos sectores da pequena burguesia, especialmente empregados do sector público.

A concentração do poder executivo de Macron (seu complexo bonapartista) voltou seus aliados de direita contra ele.

O resultado da ofensiva de Macron é incerto.

Em primeiro lugar, Macron desfruta de maioria no Congresso francês. A economia está em crescimento e investidores estão exuberantes. Grupos de pequenos negócios com consciência fiscal estão felizes. O trabalho está dividido com os colaboracionistas de classe da CFDT e FO a recusarem-se a aderir à oposição sindical.

A União Europeia está unida, até certo ponto, no seu apoio a Macron. Igualmente importante, Macron está determinado a esmagar protestos de rua e greves esporádicas parciais com apelos demagógicos através dos mass media corporativos, com coerção e repressão sem rodeios por parte do estado.

Os partidos de oposição política, liderados pelos socialistas de esquerda e pelos nacionalistas, estão divididos. O Partido Socialista mal existe. Pensionistas e estudantes opõem-se a Macron, mas não foram às ruas. Poucos entre a classe profissional e a academia liberal mantém quaisquer ilusões acerca do "novo presidente centrista" mas não estão desejosos de confrontar activamente o novo Bonaparte.

Macron moldou uma formidável aliança entre o aparelho de estado e a classe dominante dos negócios para esmagar a oposição dos trabalhadores. Mas a oposição popular está a crescer e está furiosa quanto à agenda e insultos. "Eles (trabalhadores franceses) já tiveram quanto baste..." Para derrotar Macron, devem unir a oposição e construir uma estratégia de guerra de classe prolongada.

Macron não cederá diante de greves transitórias. Se a ofensiva capitalista de Macron tiver êxito, haverá enormes implicações para a classe trabalhadora francesa, especialmente os direitos de trabalhadores e empregados assalariados para organizar e lutar. Uma vitória em favor de Macron minará profundamente a estrutura e a militância de organizações populares, agora e no futuro. Além disso, uma derrota dos trabalhadores franceses repercutirá através da UE e além dela. Inversamente, uma vitória do trabalho poderia disparar lutas de massa por toda a Europa.

Os Estados Unidos

Uma oposição poderosa poderia confrontar a ofensiva capitalista do presidente Trump, mas não será liderada pelos sindicatos altamente burocratizados que representam menos de 8% da força de trabalho do sector privado. Os inimigos de Trump entre a elite dos Partidos Democrata e Republicano etiquetaram os apoiantes de Trump da "classe trabalhadora" como "adeptos da supremacia branca e neo-nazis". As preocupações dos trabalhadores americanos foram banalizadas e marginalizadas pela política divisionista da "identidade", tão descaradamente utilizada por ambos os partidos. A ofensiva capitalista de Trump a favor de cortes fiscais regressivos pró corporativos e do estripamento do bem estar social (saúde, educação, habitação, ambiente e segurança do trabalhador) não conseguiu provocar oposição social sustentada e unificada. Nos EUA, as elites pró negócios dominam e ditam as agendas tanto do regime Trump em vigor como das "forças de oposição da elite".

A "oposição anti-Trump oficial", a qual auto-denomina-se como uma "resistência", promove interesses "identitários" ligados à representação da elite política. Ela trabalha arduamente para minar qualquer possibilidade de unidade da classe trabalhadora com base em interesses sócio-económicos comuns ao centrar-se em questões marginais e divisivas. Em meio à pobreza em massa, declínio da expectativa de vida e de uma epidemia de suicídios e mortes por overdose de drogas, as forças de "resistência" da oposição de elite concentram-se em conspirações estrangeiras fabricada ("Russia-gate") e em questões de estilo de vida (transgéneros nas Forças Especiais dos EUA) para o derrube do regime Trump. Elas não têm intenção de forjar quaisquer alianças de classe que possam ameaçar a agenda capitalista regressiva de Trump.

A luta nos EUA neste Outono não será entre trabalho e capital. Ela porá em destaque a contradição entre o que resta da agenda proteccionista dos negócios de Trump e as políticas neoliberais de livre comércio dos democratas. A ofensiva capitalista contra o trabalho nos EUA já foi determinada por defeito. Os sindicatos oficiais estado-unidenses são actores marginais e inconsequentes, incapazes e não desejosos de politizar, educar e mobilizar os trabalhadores.

A ofensiva capitalista de Trump apela a investidores e promove o mercado de acções. A maior parte da sua equipe económica está ligada a banqueiros da Wall Street contra os assim chamados nacionalistas económicos. A retórica descuidada e chauvinista de Trump para o populacho é abertamente desprezada pelos plutocratas dentro do seu próprio gabinete, os quais se queixam de terem sido criticados por "fascistas e anti-semitas" (referindo-se à base eleitoral deplorável e irada de Trump).

Os Estados Unidos são o único país no mundo industrial a lançarem uma ofensiva maciça e sustentada sem uma oposição anti-capitalista. A classe trabalhadora americana é abertamente "deplorada" pelos principais elementos da oposição de elite e descaradamente manipulada pelo seu falso "campeão", Trump.

As consequências estão pré-determinadas. A ofensiva capitalista não pode perder; ambos os lados capitalistas "vencem". Sob o presidente-homem de negócios Trump, as corporações multinacionais garantirão impostos mais baixos e degradarão padrões de vida da classe trabalhadora e benefícios sociais. Acordos bi-partidários assegurarão que os bancos sejam completamente desregulamentados. A oposição de elite anti-Trump assegurará que os "seus" capitalistas obtêm acordos comerciais neoliberais favoráveis, garantindo o seu acesso ao trabalho imigrante barato e a uma força de trabalho não sindicalizada a que é negada segurança no lugar de trabalho e regulamentações ambientais.

Enquanto a França e o Brasil enfrentam guerra de classe real, os "sem classe" dos EUA rumam desengonçadamente para a guerra nuclear. Macron confronta sindicatos militantes, Temer enfrenta a fúria de vastas alianças sociais e Donald Trump marcha atrás dos "seus generais" para a conflagração nuclear. Ele invade propriedades diplomáticas russas, aponta armas nucleares a Moscovo e Pequim, efectua maciços exercícios ofensivos, estaciona mísseis THAAD na fronteira da Coreia do Norte e escala forças operacionais de terra e ar numa guerra perdida de 16 anos no Afeganistão.

Trabalhadores na Europa e América Latina optam por combater capitalistas em defesa dos seus interesses de classe, aos passo que trabalhadores dos EUA tornaram-se espectadores passivos diante da possibilidade que avança de guerra nuclear, quando não estão num estupor induzido por receitas de opióides. Derrotando a ofensiva capitalista em França e no Brasil pode avançar a causa da justiça social e assegurar benefícios concretos para os trabalhadores e as massas populares; mas a ofensiva capitalista e militar de Trump enviará nuvens de cinzas nucleares por todo o mundo.

11 de setembro de 2017

Rússia e China contra o império do dólar

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Um vasto arco de tensões e conflitos se estende da Ásia oriental à central, do Oriente Médio à Europa, da África à América Latina.

Os “pontos quentes” ao longo deste arco intercontinental – Península Coreana, Mar do Sul da China, Afeganistão, Síria, Iraque, Irã, Ucrânia, Líbia, Venezuela e outros – têm história e características geopolíticas diversas, mas são ao mesmo tempo ligados a um único fator: a estratégia com que o “império americano do Ocidente”, em declínio, tenta impedir a emergência de novos sujeitos estatais e sociais.

O que Washington teme se compreende com a Cúpula dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), realizada de 3 a 5 de setembro em Xiamen, na China. Exprimindo “as preocupações dos BRICS sobre a injusta arquitetura econômica e financeira global, que não tem em consideração o crescente peso das economias emergentes”, o presidente russo Putin sublinhou a necessidade de “superar o excessivo domínio do número limitado de moedas de reserva”. Clara referência ao dólar dos EUA, que constitui quase dois terços das reservas monetárias mundiais e a moeda com que se determina o preço do petróleo, do ouro e de outras matérias primas estratégicas. Isto permite aos EUA manter um papel dominante, imprimindo dólares cujo valor se baseia não na real capacidade econômica estadunidense mas no fato de que são usados como moeda global.

Contudo, o yuan chinês entrou há um ano na cesta de moedas de reserva do Fundo Monetário Internacional (juntamente com o dólar, o euro, o yen e a libra esterlina) e Pequim está para lançar contratos de compra de petróleo em yuan, convertível em ouro. Os BRICS demandam também a revisão das cotas e portanto dos votos atribuídos a cada um no interior do Fundo Monetário: os EUA, sozinhos, detêm mais do dobro dos votos do conjunto dos 24 países da América Latina (incluindo o México) e o G7 detém o triplo dos votos do grupo dos BRICS. Washington vê com crescente preocupação a parceria russo-chinesa: o comércio entre os dois países, que em 2017 deverá somar 80 bilhões de dólares, está em forte crescimento; aumentam ao mesmo tempo os acordos de cooperação russo-chineses nos campos energético, agrícola, aeronáutico, espacial e no da infraestrutura.

A anunciada compra de 14% da empresa petrolífera russa Rosneft por parte de uma empresa chinesa e o fornecimento de gás russo à China na quantidade de 38 bilhões de metros cúbicos por ano através do novo gasoduto de Sila Sibiri, que entrará em funcionamento em 2019, abrem às exportações de energia russa a via para o Leste enquanto os EUA buscam bloquear a Oeste, para a Europa. Perdendo terreno no plano econômico, os EUA lançam sobre um dos pratos da balança a espada da sua força militar e sua influência política.

A pressão militar dos EUA no Mar do Sul da China e na Península Coreana, as guerras dos EUA/OTAN no Afeganistão, Oriente Médio e África, o golpe dos EUA/OTAN na Ucrânia e o consequente confronto com a Rússia, estão dentro da mesma estratégia de confronto global com a parceria russo-chinesa, que não é somente econômica, mas geopolítica. Isto inclui também o plano de minar os BRICS por dentro, instalando a direita no poder no Brasil e em toda a América Latina.

Isto o confirma o comandante do Comando Sul dos EUA, Kurt Tidd, que está preparando contra a Venezuela a “opção militar” ameaçada por Trump: em uma audiência no Senado, acusa a Rússia e a China de exercitar uma “influência maligna” na América Latina, para fazer avançar também aqui “a sua visão de uma ordem internacional alternativa”.

10 de setembro de 2017

A virada da América para o fascismo e suas contradições

Prabhat Patnaik

Tradução / O fato de elementos fascistas nos EUA terem começado a erguer suas cabeças sinistras e de Donald Trump ter começado a mostrar sua simpatia aberta por tais elementos é confirmado por vários incidentes recentes. No sábado 12 de agosto, num comício de adeptos da supremacia branca e neo-nazistas em Charlottesville, Virgínia, pacíficos manifestantes anti-fascistas foram atacados pelos fascistas; um homem conduziu um caminhão sobre eles matando o ativista de direitos civis Heather Heyer e ferindo pelo menos 19 outros; e um professor afro-americano, De Andre Harris, foi espancado desapiedadamente com uma barra de metal apenas a poucos metros da sede da polícia de Charlottesville. A resposta inicial de Trump foi condenar a violência "de ambos os lados" mas evitou criticar adeptos da supremacia branca. Dois dias depois, devido ao protesto público sobre a sua ambivalência, ele afrouxou um pouco e criticou especificamente os adeptos da supremacia branca, mas mais uma vez na terça-feira ele recuou e insistiu que "havia culpa de ambos os lados". Estas últimas observações, não surpreendentemente, foram saudadas pelo antigo líder da Ku Klux Kan, David Duck, que agradeceu Trump pela sua "honestidade". E agora os adeptos da supremacia branca estão a planejar comícios em várias cidades dos EUA.

Menos de duas semanas depois, em 25 de agosto, Trump concedeu um perdão presidencial ao antigo xerife do Arizona, Joseph Arpaio, o qual fora condenado por criminoso desacato ao tribunal pelo fato de persistir com o "perfilamento racial" ("racial profiling") de imigrantes latinos apesar de uma ordem do tribunal contra isto. Trump considerou-o mesmo um "patriota americano". Este "patriota" aparentemente dirigia seu "campo de concentração" pessoal, uma prisão ao ar livre em Phoenix, onde detinha latinos em condições desumanas, condições em que as temperaturas no complexo atingiam mesmo os 63º C. Um perdão presidencial a este racista notório é um sinal claro aos adeptos da supremacia branca e neo-nazistas de que Trump está com eles.

Uma virada não surpreendente

A América está claramente a virar-se rumo ao fascismo, um fato que não é surpreendente em si mesmo. A globalização provocou grandes dificuldades à classe trabalhadora branca e isto tem sido agravado pela crise capitalista. Enquanto o economista Joseph Stiglitz mostrou que a taxa de salário real de um trabalhador americano médio masculino em 2011 foi ainda menor do que em 1968, o economista Angus Deaton mostrou que a atual taxa de mortalidade entre trabalhadores homens brancos era comparável à da Rússia após o colapso da União Soviética, a qual ela própria fora um recorde moderno para tempos de paz. Apesar de políticos liberais burgueses como Hillary Clinton raramente reconhecerem tais fatos, Trump, na ausência de qualquer oponente progressista (uma vez que Bernie Sanders se havia retirado da competição), obteve uma certa simpatia do povo trabalhador por pelo menos reconhecer os seus apuros – e o seu apoio ajudou a colocá-lo na Casa Branca. Mas o culpado que ele lhes apresentou como sendo responsável pelos seus apuros não foi o sistema do capitalismo neoliberal, mas sim o "outro", nomeadamente os imigrantes, os muçulmanos, os negros e os "estrangeiros".

Não surpreendentemente, ele foi logo "adotado" pelo capital financeiro estadunidense o qual encarou-o como um baluarte contra possíveis "desordens" e um aliado que, sendo aceitável para o povo, faria avançar a agenda do capital financeiro. Trump, por sua vez, retribuiu o apoio do big business ao rechear seus postos econômicos com um conjunto de executivos de topo dos negócios, prometendo uma redução substancial da taxa tributária das corporações, de 35 para 15 por cento, e escolhendo como presidente do seu Conselho Econômico Consultivo não um economista acadêmico, como geralmente acontecia antes, mas um executivo da Goldman Sachs chamado Gary Cohn.

Entretanto, o que é interessante é que vários destes executivos agora se demitiram do Conselho Econômico Consultivo de Trump em protesto contra a sua não manifestação contra os adeptos da supremacia branca de uma maneira mais direta. Muitos observadores na Índia, impressionados por este dilúvio de demissões, contrastaram a oposição dos negócios à brandura de Trump em relação aos adeptos da supremacia branca com o silêncio dos negócios na Índia sobre a brandura de Modi em relação aos gau rakshaks e outros grupos de vigilantes.

A razão que tipicamente é avançada para estas resignações nos EUA é que a consciência dos executivos não lhes permitiria fazerem parte de uma administração que está acariciando aqueles que tendem a dividir o país. E isto, vamos conceder, poderia bem ser verdade para muitos dos executivos que se demitiram e mesmo todos eles em certa medida. Mas há um fator adicional de importância que se deve notar.

Os vários grupos da supremacia branca e neo-nazistas ainda têm pouco poder legislativo nos EUA. Se legislação favorável às corporações tiver de ser aprovada, se uma proposta orçamental para baixar impostos das corporações tiver ser aprovada, então Trump tem de confiar no apoio de legisladores no Congresso e no Senado. E nem todos, mesmo no seu Partido Republicano, apesar da sua forte inclinação à direita em anos recentes, estão desejosos de apoiar os adeptos da supremacia branca e os neo-nazistas. Assim, se medidas favoráveis às corporações tiverem de ser tomadas por eles, então Trump tem de cortejar os legisladores em ambas as casas [do parlamento], pelo que ele tem de manter uma certa distância dos seus apoiadores fascistas. O destino da sua recente tentativa de abolir o Obamacare (as medidas de cuidados de saúde postas em vigor por Barack Obama), que enfrentou a oposição inter alia do líder republicano John McCain, é um indicador neste contexto. McCain, juntamente com vários outros líderes republicanos, também tem sido crítico da brandura de Trump em relação aos fascistas e eles poderiam facilmente resistir às tentativas de Trump de cortejá-los. O mundo corporativo portanto gostaria que Trump se distanciasse um pouco dos grupos da direita mais extremista a fim de promover a sua agenda pró corporativa.

Por outras palavras, há uma contradição subjacente à posição de Trump. Embora ele tenha uma perspectiva fascista e uma afinidade com elementos fascistas, ele foi eleito como o candidato não de um partido fascista mas do Partido Republicano, o qual apesar de ser de direita e ter talvez vários fascistas nas suas fileiras, não é em si um partido fascista. A implementação da sua agenda pró corporativa exige portanto um grau de distanciamento da sua base fascista. A demissão de vários executivos do seu conselho consultivo é um meio através do qual é aplicada pressão sobre ele a fim de criar tal distanciamento.

Abordagem dual para com Trump

É interessante que seus apoiadores corporativos estão a adotar uma abordagem dual para com Trump. Enquanto alguns deles demitiram-se das suas posições de conselheiros, outros permaneceram, mesmo com o apoio tácito daqueles que se demitiram. Assim, Gary Cohn, que declarou publicamente também estar a contemplar a demissão, não o fez, a fim de ser capaz de "servir o país"; e também declarou que sua decisão de não se demitir era apoiada por muitos que haviam optado por se distanciarem da administração Trump devido à sua brandura em relação a grupos fascistas. Por outras palavras, enquanto alguns executivos demitiram-se como meios de pressionar Trump a adotar posições que tornariam possível a implementação de um agenda pró corporações, outros permaneceram na sua administração a fim em primeiro lugar de realizar uma tal agenda pró corporações.

Em suma, o que estamos a testemunhar é um complexo processo de negociações entre Trump e o big business. Segundo Michal Kalecki, o famoso economista marxista polaco, o fascismo era caracterizado pelo fato de que "a maquinaria do Estado está sob o controle direto de um partenariado do big business com fascistas recém chegados". Entretanto, a observação de Kalecki refere-se a uma situação em que um Estado fascista passou a existir. Mas em países como os EUA que estão a voltar-se em direção ao fascismo, para a criação de um Estado fascista, se chegar a ocorrer, ainda há um longo caminho pela frente. O partenariado entre fascistas recém chegados e o big business ainda está em processo de formação; a captura do pode exclusivo do Estado por este partenariado ainda não está à vista. Este partenariado, em suma, está a ser formado dentro da estrutura de um Estado burguês ainda não fascista, o qual faz as negociações sobre a formação deste "partenariado" muito mais complicadas e difíceis. A diversidade de respostas de executivos corporativos às posições da administração Trump é um reflexo na natureza complicada de tais negociações.

Se bem que a virada dos EUA rumo ao fascismo seja inequívoca, as contradições associadas a esta virada, e a complexidade do processo de formação do partenariado entre o big business e fascistas recém chegados dentro da estrutura de um Estado burguês não fascista, são claramente visíveis.

7 de setembro de 2017

A esquerda depois de Charlottesville

A esquerda não pode se deixar consumir pelo debate sobre antifascistas. Precisamos de um programa proativo e de uma organização paciente.

Robert Greene II

Jacobin

Chokwe Lumumba anuncia sua candidatura para prefeito de Jackson, Mississippi, em maio. Créditos: The Link Mississippi.

Tradução / Os acontecimentos de Charlottesville permaneceram nas manchetes nas últimas semanas por diversas razões. Surpresa pela audácia da procissão de tochas dos neonazistas, simpatizantes da Ku Klux Klan e ultradireitistas em uma cidade americana, somada ao assassinato da ativista Heather Heyer durante um contraprotesto, incendiaram a cobertura inicial. A resposta abominável do Presidente Trump à tragédia e às lutas locais contra estátuas dos Confederados a manteve efervescente. E os frequentes debates obtusos sobre os méritos dos antifascistas têm jogado ainda mais oxigênio.

Mas seria um erro para a esquerda americana ver isso como um ponto decisivo de mudança histórica ou confundir os portadores de tochas fascistas com uma força de massas. Ao contrário: ser consumida por debates sobre o apoio aos antifascistas em confrontos de rua contra neonazistas faz perder-se no panorama político mais geral.

Os momentos pós-Charlottesville exigem mobilizações antirracistas e é encorajador que as organizações de esquerda tenham entrado em ação e visto seus números crescerem. Enfrentando-se contra a ultradireita – particularmente quando feito de forma eficaz e em massa, como em Boston – pode incentivar as pessoas que estão frustradas e desencantadas devido à administração Trump. Mas é preciso se vincular a uma organização política tangível que vá além da defesa e do simbolismo.

As discussões sobre o antifascismo também são importantes. Entrevistas feitas com contra-protestantes nas ruas de Charlotterville deixaram claro que estes eram mais do que alegres antifascistas que estavam ali para ajudar. Na verdade, Cornel West lhes agradeceu por terem salvo sua vida.

Mas o debate sobre o antifascismo não pode estar no centro da discussão política de esquerda. Estou menos preocupado em ser assassinado por neonazistas do que com a falta de acesso a um sistema de saúde de qualidade. Estou mais preocupado com a restrição dos direitos políticos e o perigo que isso causa à democracia hoje e no futuro do que com a simples dano representado por uma estátua confederada. Isso não é ignorar o esforço em derrubar estátuas confederadas. O que está nos espaços públicos comuns, afinal, precisa representar o tipo de país que queremos que os Estados Unidos sejam. Mas não podemos permitir que este conflito obscureça nossa visão.

Resumindo, as lições pós-Charlottesville são as lições que deveríamos ter aprendido mais cedo neste ano. Não podemos simplesmente reagir a Trump e à alt-right. Ser proativos, avançar em um programa claro que possa mobilizar e galvanizar uma faixa ampla do povo – esta deve ser a característica da esquerda americana. Caso contrário, a raiva genuína contra Trump e o partido republicano será perdida e desperdiçaríamos nossa chance de construir um tipo de esquerda com bases amplas que, ao final, é o melhor bastião contra a ultradireita.

A política que precisamos

A maioria da base da plataforma da esquerda que precisamos já está pronta, esperando para ser usada para estimular debates e ações genuínos na sociedade americana. Dois pontos em particular deveriam encabeçar a agenda da esquerda.



O primeiro é a assistência de saúde universal: Medicare para todos. A oferta arbitrária dos republicanos em eliminar a Affordable Care Act [Lei de Saúde Acessível – em tradução livre] mostrou que mesmo uma versão extremamente defeituosa de cobertura “universal” ainda é popular suficiente para evitar tentativas de revogação. Agora, de acordo com recente pesquisa, o apoio popular ao sistema de cobertura dos gastos de saúde pelo governo, financiado pelos impostos (o chamado sistema single-payer – NT) está crescendo. Mesmo democratas centristas, como Kamala Harris, estão declarando apoio. Depois de décadas de luta, a cobertura universal está, senão na esquina, pelo menos em um horizonte próximo.



Crucialmente, a demanda pelo Medicare para todos também oferece um sentido para construir laços de solidariedade. Como o escritor de Atlantic, Vann R. Newkirk, recentemente apontou, Martin Luther King Jr. e outros ativistas dos direitos civis viram a cobertura de saúde universal como um componente crítico para sua luta por uma sociedade justa e igualitária. O mesmo é verdade hoje. Entre os movimentos – seja pelas vidas negras ou pelo salário mínimo de quinze dólares [por hora] ou pelo direito dos imigrantes – a assistência médica universal é uma demanda que unifica.



Existe outra razão para priorizar o impulsionamento por assistência médica universal. Organizações de ultradireita, como o partido dos trabalhadores tradicionalistas, começaram a fazer propostas a brancos pobres em locais como Appalachia com conversas sobre empregos e acesso à saúde de qualidade. Não podemos permitir que uma tendência a favor da saúde de qualidade ou um argumento a favor de bons empregos, sejam usados como uma porta o fascismo.



Direitos eleitorais universais deveriam ser a segunda demanda para qualquer plataforma imediata de esquerda. Nosso sistema político e econômico não pode ser mudado, radicalmente e no longo-prazo, por meio de eleições. Mas um número incontável de pessoas está sendo atingido pelo sistema que existe hoje e um aumento substancial na participação de eleitores é um pré-requisito para vencer em reformas que irão melhorar a vida dessas pessoas em curto prazo.



Os conservadores entendem a importância de direitos eleitorais. Em anos recentes, diversos estados controlados pelo partido republicano têm aprovado leis que restringem direitos políticos, seja por meio de requisitos de identificação ou prazos mais curtos para registro de eleitores. Eles sabem que uma menor e desmoralizada base eleitoral torna mais difícil eleger candidatos de esquerda.



No passado, a era Populista dos anos 1890 parou em parte por conta das Leis Jim Crow e as novas constituições estaduais no Sul que limitaram severamente os direitos eleitorais para afro-americanos (e muitos brancos pobres também). Pelo contrário, o surgimento de uma forte base eleitoral no Norte urbanizado, que incluiu sindicalistas e afro-americanos, impulsionada pelo avanço do New Deal, deu à social democracia na América algumas de suas mais antigas e importantes vitórias – apesar da oposição dos republicanos conservadores e democratas sulistas.



Mais recentemente, resultados em nível local comprovaram o poder duradouro de um eleitorado mobilizado. As vitórias de Chokwe Lumumba em Jackson, no pleito de prefeito do Mississipi e Khalid Kamau em South Fulton, na eleição da Câmara de Vereadores, foram possíveis pela presença de ativistas políticos de esquerda em campo. O fato que estas vitórias ocorreram no interior sulista e com larga participação política de afro-americanos também desmente concepções comuns sobre o que a Esquerda aparenta ser e onde pode competir.



Lumumba e Kamau reuniram pessoas onde estavam, enquanto também esboçaram uma visão reflexiva. O que me traz a outra parte importante das ferramentas da esquerda pós-Charlottesville: educação política.



O debate sobre monumentos e bandeiras confederadas é a oportunidade perfeita para mudar o pensamento americano não apenas sobre o mundo em que vivemos, mas em que tipo de mundo podemos viver se a esquerda tiver a oportunidade de governar. Além de considerar quais estátuas derrubar, poderíamos discutir quais estátuas colocar em seus lugares. Porque não ter mais monumentos, por todo o país, dos batalhões compostos majoritariamente por negros (e também povos indígenas) dos Estados Unidos ou de Harriet Tubman? Mas não devemos apenas falar sobre estátuas e história pública, por mais importantes que sejam para moldar os debates futuros sobre o destino do país.



A educação política deve atingir um número superior de americanos, para expandir sua concepção do que é possível e aprender como enxergar o mundo. Educação de esquerda, acima de tudo, deveria ser uma via de mão dupla. Pode ter várias formas – desde um estande em um evento comunitário ou organizar um seminário em uma sede de um sindicato para simplesmente assegurar que organizações socialistas estão abertas ao público, o quanto for possível.



Exemplos de educação política, como as que descrevi, já existem. Em meu estado adotivo, Carolina do Sul, o SC Progressive Network oferece anualmente a “Escola Modjeska Simkins” para ativistas iniciantes. Nomeado em homenagem a um dos maiores defensores dos direitos humanos, o seminário ensina história assim como táticas de protesto e ativismo. Outro esforço educacional como esse pelo país, são os netos espirituais da Escola Highlander Folk nos anos 1930, 40 e 50.



Finalmente, protestos massivos contra a supremacia branca continuarão a ser táticas cruciais para avanço. O ato em Boston no último mês, onde um punhado de neonazistas se depararam com trinta mil contra-protestantes, foi uma enorme vitória para os progressistas e a esquerda e demonstrou o poder da solidariedade profunda e publicamente.



Mas tais ações devem também ser atreladas a tipos de programas e táticas políticas acima – usando-as como oportunidade não somente para reunir todos aqueles que se opõem à supremacia branca, mas para falar com as pessoas sobre as formas que a guerra de classes vinda dos poderosos, a de gênero, a discriminação racial e o revanchismo político, atingem virtualmente todos diariamente.



Não podemos deixar que narrativas sobre “brancos pobres” determinem o discurso sobre o racismo na sociedade americana. Os supremacistas brancos que marcharam em defesa da estátua de Robert E. Lee incluem muitos brancos ricos e com ensino superior que não teriam escrúpulos ao destruir as vidas dos brancos americanos pobres. Eles também destroem as vidas e aspirações de afro-americanos, judeus, latinos, imigrantes e da comunidade LGBT.



Ao desafiar estas narrativas e vinculá-las a demandas concretas para um futuro melhor, podemos alcançar pessoas que se uniram por Charlottesvile mas não sabem o que fazer a seguir.



Freando a supremacia branca



Estas recomendações não são politicamente populares. Não parecem ser o material da revolução. Mas são materiais que, necessariamente, melhoram as condições políticas para um futuro próximo – que devem ser feitas antes de podermos trabalhar para mudanças mais transformadoras. Educação política, por exemplo, será crucial para ressuscitar o movimento trabalhista, para evitar mais derrotas como as sofridas pelas campanhas de sindicalização do sindicatos dos motoristas da planta da Boeing em Charleston, Carolina do Sul ou da planta da Nissan em Canton, Mississipi.



Uma esquerda forte expande a esfera pública, oferece uma concepção mais ampla do que é possível atingir politicamente. Oferece às pessoas uma política não de bode expiatório ou de austeridade, mas uma saúde pública universal e uma atuação democrática. Historicamente, é o antídoto mais poderoso para combater a ultradireita.



Mas também devemos lembrar que a vitória nas batalhas de rua não é igual a uma vitória política duradoura. Nem, por outro lado, ver um parlamento democrata em 2018 ou um democrata na Casa Branca em 2020 é a medida final da vitória. Os problemas da América de Trump são, sem surpresa alguma, bem parecidos com os problemas da América de Obama. E da América de Bush. E da América de Clinton.



Uma esquerda efetiva pós-Charlottesville terá que se preocupar, como sempre, com um plano a longo prazo e uma organização paciente. Esta é a única forma que finalmente interromperá o retorno de políticas de ideologia branca – a única ideologia política que sempre esteve realmente no poder na América.