8 de outubro de 2012

Privilégios no campo

João Pedro Stédile

O Globo

Cantam-se loas ao agronegócio brasileiro. Há razões para isso? A que custo, social, econômico e ambiental, é mantido esse modelo agrícola? Será a única alternativa para o desenvolvimento?

As consequências da irracional depredação ambiental, causada pela voracidade de lucros de uma minoria de proprietários rurais, exigirão um posicionamento político que extrapole os interesses do mundo rural.

O agronegócio se vangloria de produzir riqueza para o desenvolvimento. A mídia, tanto pelo alinhamento ideológico com os grandes proprietários quanto por seus interesses econômicos, se encarrega de difundir tal versão.

A truculenta bancada ruralista inibe as possibilidades de debates e adota o discurso de catastrofismo frente as iniciativas que se opõem aos interesses do setor.

O agronegócio é exitoso na estratégia de aparecer como uma atividade moderna. O ex-presidente da Embrapa Eliseu Alves mostrou em estudo que o agronegócio representa apenas 8,2% dos proprietários rurais. São 22,1 mil, de um total de 5,2 milhões.

Esse estrato de proprietários responde pela maior parte da riqueza produzida na agricultura. São dados como este que fazem a fama do agronegócio.

Essa concentração não é mérito da eficiência do agronegócio. Ela se deve a políticas que privilegiaram essa parcela. Modernos e produtivos eram também os engenhos de cana do Nordeste nos séculos XVI- XIX. O que sobrou para a população? Produção de riqueza, por si só, não assegura desenvolvimento.

No outro extremo, há 3,8 milhões de proprietários rurais desassistidos de políticas públicas. Para essa população, o agronegócio tem somente uma preocupação: ganhar tempo para depois empurrá-los às periferias. Esse modelo expulsará 2/3 desses proprietários rurais.

A sociedade está disposta a bancar isso? Por que não logramos impor ao agronegócio restrições para proteger interesses da sociedade? Os grandes proprietários defendem um código florestal contrário à preservação ambiental. É necessária uma legislação que assegure a apropriação social da natureza, para que a qualidade de vida prevaleça sobre os interesses capitalistas.

A reforma agrária representa um ajuste de contas histórico: democratizar as terras agrícolas! Todos os governantes que se subordinaram ao latifúndio alegaram que não seria mais necessária. Essa desculpa esfarrapada escamoteia uma opção de desenvolvimento que menospreza os aspectos culturais, sociais, políticos e ambientais.

Reforma agrária é, também, assegurar vida digna para a população do campo, ter uma política de produção associada à preservação ambiental e se desafiar a promover o desenvolvimento nacional atendendo, prioritariamente, aos interesses do povo brasileiro.

4 de outubro de 2012

A participação dos partidos comunistas no governo: uma forma de sair da crise capitalista?

Herwig Lerouge

Études marxistes

Tradução / No transcurso dos últimos anos, a possibilidade que têm certos partidos comunistas (ou ex-comunistas) de participar no governo está na ordem do dia. Na Alemanha, o Die Linke participou em certos governos regionais e, com certeza, segue participando. O partido discutiu a possibilidade de participar do governo federal. Na Grécia e nos Países Baixos, a coalizão de esquerda Syriza e o Partido Socialista anunciaram claramente sua vontade de entrar no governo. A maioria suficiente do Partido Socialista Francês, durante as recentes eleições parlamentares de 2012, eliminou a dúvida sobre uma nova participação do Partido Comunista Francês no governo. O PCF e, na Itália, a Refundação Comunista e o Partido dos Comunistas Italianos, participaram em muitos governos no transcurso das últimas décadas.

Em 2008, o êxito eleitoral de alguns destes partidos levou a revista britânica de esquerda, The New Statesman, a concluir: “O socialismo, o socialismo puro, inalterado, uma ideologia considerada morta pelos capitalistas liberais, regressa com força. Por todo o continente, assistimos a tendência de que partidos de centro esquerda estabelecidos por muito tempo são desafiados por partidos indubitavelmente socialistas. Estes defendem um sistema econômico no qual os interesses dos simples trabalhadores não são subordinados aos do capital[1]”.

Desgraçadamente, estas visões sobre um brilhante futuro socialista para a Europa foram ultrapassadas pelos últimos resultados eleitorais, e, fato mais importante ainda, pela evolução política destes partidos.

A tragédia italiana

A maioria destes partidos foram criados depois da contrarrevolução de veludo de Gorbatchov. Na Itália, durante seu congresso em Rimini, em 1991, o Partido Comunista Italiano histórico (PCI) se transformou em um partido social-democrata ordinário. No mesmo ano, os comunistas italianos fundaram o Partito da Rifondazione Comunista(Partido da Refundação Comunista). No seio da Rifondazione, o debate sobre o curso estratégico do partido ficou aberto por muito tempo… Uma vez que Bertinotti ascendeu à presidência o debate se acelerou. Durante o 5º Congresso da Rifondazione, em fevereiro de 2002, Bertinotti apresenta suas 63 teses como uma coleção de “inovações”. Descobre uma “nova classe operária” nascida em Gênova em 2001; um “conceito de partido novo”. Rechaça o partido de vanguarda tornado “obsoleto”, e o substitui pelo partido concebido como uma composição de “movimento de movimentos”. Igualmente, descobre uma “nova definição do imperialismo”, segundo a qual o mundo já não está dividido entre blocos capitalistas rivais e a guerra já não é um meio de repartí-lo periodicamente. O antigo centralismo democrático é substituído pelo “direito de tendência" 2.

Depois de 36 meses de inovação, a direção da Rifondazione Comunista se declara apta para participar no governo, em companhia dos democratas cristãos de Romano Prodi e da social-democracia de D’Alema. Durante o 6º Congresso do PRC, em março de 2005, Bertinotti afirmou que seu partido deve ser a força motriz de um processo de reforma. E a participação no governo se tornou um passo necessário nesta direção. No discurso de fechamento do Congresso disse: “O governo, inclusive o melhor, não é mais que um passo, um passo de compromisso. O partido deve colocar-se em uma posição tal que possa fazer ver sua estratégia, a fim de mostrar que quer ir mais longe […] 3”. Para prevenir críticas contra o PRC, que entra em uma coalizão favorável à União Europeia com o antigo presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi, Bertinotti não encontra melhor justificativa que o velho malabarismo da social-democracia: “Devemos difundir a ideia de que os movimentos e o partido devem guardar sua autonomia em relação ao governo. O partido não deve ser identificado com o governo. Deve guardar sua própria linha e uma estratégia ativa separada deste4”.

O muito conhecido membro do grupo Bildelberg, Romano Prodi, estava presente no Congresso e percebeu muito bem o giro do dirigente da Refundação: “Há aqui um partido socialista de esquerda que aceita o desafio do governo5“.

Em menos de 10 anos, Bertinotti conseguiu colocar um importante potencial revolucionário sob o controle do sistema. Em 2007, o PRC se somava à coalizão do “Olivo”. Sem uma clara oposição de esquerda anticapitalista à participação na guerra no Afeganistão e às medidas de austeridade do governo de Prodi, a direita ocupou o vazio político e Berlusconi chegou ao poder. O PRC perdeu toda sua representação parlamentar na débâcle da esquerda eleitoral. Trata-se da experiência mais recente dos estragos que o revisionismo pode ocasionar. Atualmente, o movimento comunista italiano atravessa uma crise profunda.

França: comunistas no governo (1981, 1987)

O século 20 já provou o fracasso dos que pretendem modificar o equilíbrio de poder em favor da classe operária por maiorias no seio do parlamento burguês.

Na euforia da vitória eleitoral de Miterrand em 1981, o secretário geral do PCF, George Marchais, enviou quatro comunistas ao governo para modificar “o equilíbrio de poder”. O dirigente do PCF, Roland Leroy, explica: “Nossa presença concorda bem com nossa missão e nossa estratégia: utilizar cada oportunidade, inclusive o menor passo adiante, para construir um socialismo original mediante os meios democráticos6”.

Em lugar de obter um socialismo original, a classe operária francesa teve que suportar um Código de trabalho desregulado, uma seguridade social reduzida e salários defasados em relação ao índice de preços. Seis anos mais tarde, em julho de 1997, a direção do PCF voltou a fazer o mesmo. Três ministros comunistas se aliam ao governo da “esquerda plural” (PS-PCF-Verdes-MDC) que chegou ao poder depois das grandes lutas de 1995. O resultado? Houve mais privatizações sob esse governo que sob as administrações de direita de Juppé e Balladur juntas. A privatização da Air France foi supervisionada pelo ministro comunista de Transporte, Jean-Claude Gayssot. Air France, France Telecom, as companhias de seguros GAN e CIC, a Sociedade Marselhesa de crédito, CNP, Aeroespacial, todas elas foram “abertas ao capital”. A direção do PCF continuava no governo de “Jospin-a guerra” quando, em 1999, a França apoiou o bombardeio da Yugoslávia pela OTAN.

Por suposição, certas concessões foram feitas às exigências sindicais, mas, como foi o caso em 1936 com o governo da Frente Popular, foram o resultado principalmente de grandes lutas que precederam ou acompanharam a vitória eleitoral da esquerda.

Pretender modificar na câmara parlamentar o equilíbrio de poder a favor do povo trabalhador é absurdo aos olhos de todos aqueles que observam o circo eleitoral, que vêm os milhares de grupos de pressão e outras comissões de experts financiados pelos grupos de negócios com o fim de influir diretamente nas decisões políticas. É como “a riqueza exerce seu poder indiretamente, mas com maior eficácia” (para retomar os termos de Engels) não há melhor lugar para mostrá-lo que os Estados Unidos. Em 2000, os 429 candidatos cujas campanhas foram mais bem financiadas ocuparam os 429 primeiros lugares no Congresso estadunidense. Só os lugares de 430 a 469 foram dados a candidatos com menos “fortuna” 7.

Se há somente uma vantagem de toda a saga do neoliberalismo, é esta: a evidência de que a influência dos grupos mais poderosos do capital sobre os Estados-nações, as instituições europeias e as organizações financeiras internacionais não foi nunca tão aberta e descarada. As decisões reais são a prerrogativa do executivo desde há numerosas décadas e o Parlamento não é mais que uma máquina para ratificar as decisões já tomadas ao nível do governo. Cada vez mais, as leis são preparadas por gabinetes ministeriais e, inclusive atualmente, por grupos de pressão de marcas importantes. Uma paz duradoura e o progresso social requerem uma sociedade socialista e uma transformação radical da sociedade. A via parlamentar até o socialismo repousa na ilusão de que o grande capital vai aceitar recuar e que vai ceder sem sua máquina de Estado à classe operária quando esta esteja suficientemente representada no Parlamento.

Naturalmente, devemos ser conscientes de que a maioria da população na Europa atualmente reconhece a ordem social atual como a única possível.

Um processo revolucionário requer flexibilidade tática, uma adaptação à realidade política, uma avaliação adequada do objetivo de cada batalha, um conhecimento exato das contradições de classe e das relações de poder, e de grandes alianças.

Lutamos por reformas, lutamos para reforçar a força política e organizacional dos trabalhadores. À população não lhe dizemos: “Vamos resolver isto por vocês”, mas lhe dizemos: “Tomai vós mesmos seu destino em vossas mãos”. Na batalha, os trabalhadores adquirem experiência e nosso dever é introduzir a perspectiva socialista no horizonte. Inclusive para as reformas, não é o Parlamento ou as eleições os que são decisivos, mas as lutas. Todo o que o movimento operário obteve resultou de um combate organizado, de fazer campanha e de criar relações de forças nas ruas.

A Esquerda europeia

Em 8 e 9 de maio de 2004, os 2 partidos já mencionados, o PRC e o PCF, foram parte dos fundadores do Partido da Esquerda Europeia. Bertinotti chegou a ser o presidente.

O Partido da Esquerda Europeia é um salto qualitativo da revolução ao reformismo (de esquerda), declarou um de seus fundadores, o presidente do Partido do Socialismo Democrático (PDS), Lothar Bisky. Em uma entrevista realizada pela revista Freitag, explica: “Para as forças políticas da União Europeia que têm como origem o movimento operário revolucionário, o Partido da Esquerda Europeia significa um novo passo qualitativo no processo de adaptação do socialismo de esquerda8”.

Nem no Manifesto da Esquerda Europeia nem em seus estatutos, é feita referência à propriedade privada dos meios de produção, as crises econômicas inerentes ao sistema, à concorrência assassina travada nas sociedades monopolistas, ou a repartição do mundo pelas principais potências imperialistas. O Partido da Esquerda Europeia promete “uma alternativa progressista”, a “paz”, a “justiça social”, um “desenvolvimento sustentável” e outras belezas que ninguém rejeitaria9.

Tudo acaba vago e inteiramente dentro dos limites do sistema e de suas relações de propriedade. É em vão a busca pela menor referência a uma estratégia da revolução social. Pelo contrário, o Partido se concentra completamente na “reforma profunda” das instituições do sistema. “Queremos fazer com que as instituições eleitas – o Parlamento Europeu e os parlamentos nacionais - tenham mais poder e possibilidades de controle10”.

Die Linke [A Esquerda]

Um partido importante no seio da Esquerda Europeia é o partido alemão de esquerda, Die Linke. Resulta da unificação, em 2007, do Partido do Socialismo Democrático (PDS, o partido que sucedeu o principal partido na RDA, o SED) e o WASG (os social-democratas de esquerda desiludidos, sindicalistas e grupos trotskistas da Alemanha Oriental).

O WASG nasceu em 2005, pelos protestos suscitados pelo governo de Gehrard Schröder e foi composto pelo Partido Social-Democrata (SPD) e pelos Verdes. Sua reforma Hartz IV, que tirava dos desempregados seus subsídios ao cabo de um ano e os colocava em um sistema de assistência social, criou um enorme setor de salários baixos. As consequências da reforma Hartz IV foram desastrosas. Um relatório das Nações Unidas11 sobre a situação social na Alemanha mostra que na atualidade 13% da população vive abaixo do nível de pobreza e que 1,3 milhões de pessoas, mesmo tendo um trabalho, necessitam de uma ajuda suplementar pois seus salários não são suficientes para sua subsistência. A pobreza infantil afeta a 2,5 milhões de crianças. Estudos mostram que 25% dos estudantes vão para a escola sem ter comido.

Somos testemunhas da pobreza em ascensão entre as pessoas de idade devido a pensões modestas e que diminuem pela redução do salário. Atualmente, 8,2 milhões de pessoas têm empregos temporários ou “mini-trabalhos” – de menos de 400 euros por mês. Dos novos empregos, 75% são precários. Tudo isso é um caldo gordo para os super-ricos. Na Alemanha, em 2010, havia 924 mil milionários, ou seja um aumento de 7,2% em três anos.

Esta “reforma” dividiu o Partido Social-Democrata e obrigou o antigo ministro social-democrata Lafontaine a abandonar o partido. Foi seguido por seções inteiras do movimento sindical alemão. Estes trânsfugas criariam o WASG. O partido unificado WASG-PDS se converteu no “Die Linke” e em 2009 obteve 11,9% dos votos nas eleições federais, ganhando 78 assentos. Seu número de membros estava em torno de 80 mil.

Mas três anos mais tarde, segundo as sondagens mais recentes, o Die Linke tem problemas para ultrapassar o limite antidemocrático de 5% que se aplica a todas as eleições, tanto nacionais como regionais. Em maio de 2012, perdeu seus assentos nos dois Parlamentos federais alemães de Schleswig-Holstein (de 6%, os votos caíram para 2,2%) e da Renânia do Norte-Westfalia (de 5,6% foi para 2,5%). O número de membros diminuiu a menos de 70 mil.

A nova social-democracia

Die Linke adotou um programa durante seu congresso em Erfurt, no ano de 2011. Apresenta-se como uma síntese entre as tendências marxistas e os realistas muito reformistas12.

“Die Linke, como partido socialista, opta por alternativas, por um futuro melhor” (p. 4). Este futuro engloba, justamente, “uma existência com seguridade social, com um salário mínimo assegurado, isento de sanções e protegido da pobreza, assim como uma proteção total contra a dependência, com uma pensão estatutária para todos, apoiando-se na solidariedade, protegida da pobreza, com seguridade de saúde e cuidado para todos os cidadãos baseada na solidariedade, com educação aceitável, gratuita, acessível para todos, com diversidade cultural e participação de todos na riqueza cultural da sociedade, com um sistema justo de impostos que reduza as cargas [tributárias] impostas aos salários baixos e médios, mas que as aumente aos altos salários, apontando substancialmente às grandes fortunas para realizar a democracia e fazer valer a lei contra o poder exorbitante das grandes companhias, com a abolição de toda forma de discriminação baseada no sexo, idade, status social, filosofia, religião, origem étnica, orientação sexual e identidade, ou baseada em incapacidades de todos os gêneros”.

Mas não se sabe com certeza se estas boas intenções serão concretizadas neste sistema capitalista ou se este sistema deve ser abolido. Em um ponto se pode ler: “Necessitamos de um sistema econômico e social diferente: o socialismo democrático” (p. 4). A “economia social de mercado” é criticada como “um compromisso entre o trabalho assalariado e o capital que nunca eliminou a exploração predatória da natureza nem as relações patriarcais nas esferas públicas e privadas”. Em outros trechos, o problema não é o sistema mas o “capitalismo sem restrições” (p. 58), o “modelo político neoliberal” (p. 56) e os “mercados financeiros desregulados” (p. 15).

O texto evoca um “grande processo de emancipação no qual o domínio do capital é substituído pelo viés das forças democráticas, sociais e ecológicas”, levando a uma “sociedade de socialismo democrático” (p. 5). Por um lado, o problema definitivo da mudança social é a questão da propriedade. “Enquanto as decisões tomadas pelas grandes companhias forem orientadas para os rendimentos mais desejados que o bem público, a política estará sujeita a chantagens e a democracia será minada”.

Por outro lado, “a propriedade pública” está limitada “aos serviços de interesse geral de infraestrutura social, às indústrias do setor energético e ao setor financeiro” (p. 5). E o programa copia a velha tese social-democrata de “a democracia que se estende à tomada de decisões econômicas e submete todas as formas de propriedade a normas emancipadoras, sociais e ideológicas. Sem a democracia na economia, a democracia permanece imperfeita […]”. Assim, esta “ordem econômica e democrática diferente” será uma economia de mercado regulada. “Submeteremos a regulação do mercado, da produção e da distribuição a um enquadramento e a um controle democrático, social e ecológico”. “O mundo dos negócios deve estar submetido a um severo controle da competência” (p. 5).

A classe operária não tem nenhum papel na conquista do poder político. É questão de “maiorias vencedoras” (p. 20) e o “socialismo democrático” poderá ser realizado no seio de estruturas “democráticas” da constituição alemã e de um “estado social de direito”.

Os serviços de inteligência deverão ser abolidos, mas um “controle democrático” do exército e da polícia será suficiente para transformá-los em ferramentas do socialismo.

A participação no governo

Segundo o programa, a participação no governo não tem sentido sem o apoio ao “rechaço ao modelo neoliberal da política”, se supõe uma mudança “sócio-ecológica” e se pode melhorar o nível de vida da população. Se tal é o caso, “o poder político de Die Linke e os movimentos sociais podem ser reforçados” e “o sentimento de impotência política que existe entre numerosas pessoas pode ser eliminado” (p. 56).

Questiona-se como esta posição pode ser adotada pouco depois da débâcle do que todavia se encontrava presente como um exemplo de vanguarda da estratégia do partido: o desastre de Berlim. Em agosto de 2010, Die Linke afundou nas eleições do Senado de Berlim. Em 10 anos de participação no governo, o partido caiu, passando de 22,3% para 11,5%.

Durante 10 longos anos, uma coalizão governamental SPD-Die Linke governou a capital alemã. Fechou numerosas creches, cortou as indenizações sociais e privatizou 122 mil apartamentos sociais. O Die Linke votou pela privatização parcial do sistema berlinês de bondes elétricos, fez campanha contra a paridade nacional de salários dos trabalhadores do setor público (que todavia ganham consideravelmente menos no Leste) e se expressou contra os esforços para devolver à propriedade pública a sociedade provedora de água em Berlim. Contribuiu igualmente para privatizar uma parte do principal hospital de Berlim – o que se traduziria em uma degradação das condições de trabalho e uma diminuição dos salários.

Mathias Behnis, cientista político e porta-voz da frente de resistência contra a privatização da sociedade berlinesa de distribuição de água, e Benedict Ugarte Chacón, cientista política e porta-voz da iniciativa berlinesa contra o escândalo bancário, fizeram um balanço particularmente negro no periódico Junge Welt de 20 de agosto de 201113. A coalizão SPD-PDS (nesse momento se tratava todavia do PDS; que mais tarde participaria da criação do Die Linke) fez saber claramente desde o início de 2002 qual rumo tomaria ao aprovar uma garantia de risco para a Bankgesellschaft Berlim. Ficou com os riscos dos fundos imobiliários criados pelo setor bancário com montante de 21,6 bilhões de euros. Desde então, a Região de Berlim administra as perdas anuais do setor bancário. O PDS esteve de acordo em garantir os lucros dos acionistas destes fundos, com a ajuda do dinheiro público.

Ao mesmo tempo, dirigiu uma política monetária estrita em detrimento, por exemplo, dos subsídios aos cegos no ano de 2003, ou das passagens sociais para o transporte público urbano em 2004, depois de que os governos federais suprimiram os subsídios. Foram necessários enormes protestos sociais para reintroduzir estes bilhetes, mas a um custo muito mais elevado.

As creches e as universidades já não foram subsidiadas. Isto fez explodir veementes protestos entre estudantes e o congresso do partido do PDS, em 6 de dezembro de 2003, no luxuoso hotel Maritim, localizado no centro de Berlim, teve que ser protegido dos estudantes pela polícia anti-motim, que evacuou a rua com brutalidade.

Em maio de 2003, os pais foram obrigados a pagar até 100 euros na compra de manuais escolares.

O Die Linke em Berlim é igualmente responsável pela deterioração da situação de milhares de inquilinos. Em maio de 2004, o governo regional de Berlim vendeu 65.700 casas da sociedade pública de alojamento GSW por um preço vantajoso de 405 milhões de euros a um consórcio ao qual pertence o Whitehall-Fund do banco de investimento Goldman Sachs e a sociedade de investimento Cerberus. Em 2010 permitiu a estas sociedades entrar na Bolsa e transformar milhares de alojamentos berlinenses em objetos de especulação.

Suprimiu igualmente os subsídios aos proprietários que alugavam sua casa a um aluguel social, sem a menor preocupação com o que ocorreria aos inquilinos. Nos antigos apartamentos anteriormente muito baratos, ocupados sobretudo por trabalhadores com baixos salários e por desempregados, os aluguéis aumentaram em 17%.

A água transformada em mercadoria

Em 1999, o antigo governo vendeu 49,9% da antiga sociedade de distribuição da água berlinense à RWE e à Vivendi (Veolia). O PDS ocupou o posto de ministro de economia em 2002, mas não fez nenhuma mudança. O preço da água aumentou em 33%. Sob o antigo governo, o PDS fez campanha contra a privatização parcial da água. Mas o ministro do PDS, Wolf, fez exatamente aquilo contra o que combatia: garantir os benefícios dos acionistas privados e beneficiar os mesmos com preços elevados da água.

No acordo de coalizão de 2006, o Die Linke e o SPD falaram de se comprometerem com o retorno da sociedade de distribuição de água à autoridade municipal. Mas nada foi feito. Pior, fizeram oposição por todos os meios possíveis a um grande movimento extraparlamentário a favor da publicação do acordo secreto de privatização da sociedade de distribuição de água. Mais de 666 mil pessoas reclamaram para que o acordo fosse objeto de um referendo. A coalizão fez campanha contra essa ação. O referendo obtido forçosamente foi aceito, mas seguem se opondo a toda iniciativa legal da população.

Tudo o que podem dizer em sua defesa é a eterna zombaria dos social-democratas: “Sem nós, teria sido pior”. Não, seria exatamente parecido, ou até melhor, pois sua participação paralisou uma parte do potencial de resistência.

Depois de haver sido eliminados nas eleições, se queixaram de não haverem tido a possibilidade de impor seus pontos de vista no SPD. Houve “restrições à liberdade do movimento”, disse o dirigente do partido Klaus Lederer. Naturalmente quando promete entrar em um governo para mudar as coisas, não deve se surpreender se as pessoas perguntam por que você mudou, afinal de contas.

Nos governos regionais de Mecklemburgo-Pomerania Ocidental e de Brandemburgo, assim como em Berlim, o partido participou nas restrições e nos fechamentos.

Contudo, o Congresso de Erfurt concluiu que a participação no governo tem sentido.

Apenas que se põe [retoricamente] a discussão no seio do partido sobre a participação em governos locais e inclusive federais. A ala direita da direção inclusive aproveitou os resultados ruins recentes para reclamar que o partido renuncie a seu “desejo de permanecer na oposição”. Deve declarar abertamente sua intenção de buscar participar em todos os níveis de governo, particularmente com seu “companheiro natural de coalizão”, o SPD. Dietmar Bartsch, um de seus principais porta-vozes, é apoiado pelo partido na totalidade das cinco províncias do Leste, onde a organização tem muito mais membros. No Leste, a participação no governo virou norma.

Oskar Lafontaine, considerado como representante da esquerda do partido, nunca se opôs ao embarque do partido nas coalizões de poder – pelo contrário. É um keynesiano e sonha com um tipo de Estado providência socialmente limitado a nível nacional. O regresso aos anos 70. Ele e seus comparsas não deixam de formular os “princípios” ou as “condições” que deveriam ser seguidos para participar no governo.

“Não podemos deixar o SPD e os Verdes governar sozinhos. O social só é possível conosco”, tal era o título do principal texto da direção do partido durante seu congresso em Rostock, em 2010. “O Die Linke pode governar, inclusive melhor que os demais. E nós, no Estado federal de Mecklemburgo-Pomerania Ocidental temos ideias muito claras sobre o que se deve melhorar e como fazê-lo”, declarou Steffen Bockhahn, presidente regional do Die Linke em Mecklenburgo-Pomerania Ocidental no congresso14. “Devemos ter alternativas à coalizão CDU-FDP”, dizem os dirigentes do partido. Como se o SPD e os Verdes não estivessem de acordo em fazer os trabalhadores pagarem a crise! Já não há crítica dura contra estes partidos.

Die Linke afirma que combina os protestos sociais e políticos, elaborando alternativas possíveis e realizações políticas no marco do governo. Mas é claro que não há atualmente relações de força que tornem possível exercer sobre os governos uma pressão tal que sejam forçados a realizar importantes reformas em favor do povo. A única consequência da participação governamental é que paralisa os movimentos de massas e os integra ao sistema, como já vimos em Berlim.

As experiências da participação comunista nos governos europeus provaram que esta participação não detém as privatizações, a regressão social, muito menos a participação em guerras imperialistas. Estas experiências estremeceram a confiança nos partidos que participaram nesses governos e mostraram que não há diferença com nenhum outro partido. A participação em um governo burguês, no qual os monopólios capitalistas dominam, debilita as forças anticapitalistas.

Na Grécia

Contudo, certos partidos rechaçam aprender as lições de tais experiências. Provam que se transformaram em verdadeiros partidos social-democratas, prontos para substituir os antigos, hoje desacreditados.

Na Grécia, mesmo com mais possibilidade do que uma vitória eleitoral real, a seção local do Partido da Esquerda Europeia, o Syriza, deixou seu programa aceitável para a direção da União Europeia e para a burguesia grega. Seu programa governamental15 foi apresentado como um “plano para por fim à crise”. “O propósito é unir o povo em torno do programa governamental Syriza com o fim de liberar a Grécia da crise, da pobreza e de sua má reputação”. Em nenhum momento o sistema capitalista é mencionado como a causa da crise: esta não seria mais que o resultado da gestão “neoliberal”. O programa se apresenta como social e fiscalmente equitativo.

Promete a anulação das medidas mais insuportáveis e antissociais, o aumento do salário mínimo, a restauração do antigo nível de proteção contra o desemprego e as enfermidades. Promete suprimir os impostos especiais para os salários baixos e médios. Mas este plano só conclama a “estabilização dos gastos básicos em torno de 43% do PIB, contra 36% do memorando, e de um máximo de 46% do PIB”. Isso fará a Grécia voltar “à atual média no seio da zona do Euro”.

É um programa que não vai além do marco capitalista. “Organizaremos o relançamento da produção do país com importantes impulsos para apoiar o desenvolvimento de indústrias competitivas”. Não promete mais que congelar a privatização de entidades públicas de importância estratégica que ainda eram públicas em 2010, quando a crise estourou. Sobre a questão da dívida, o programa busca um compromisso com a burguesia no poder da União Europeia. Está muito por baixo do programa de 10 pontos do Syriza para as eleições de 6 de maio, que conclamava “uma moratória no serviço da dívida, negociações para anular certas dívidas (não a dívida, como o KKE demandava) e a regulação da dívida restante para incluir provisões para o desenvolvimento econômico e o emprego16”. Em 8 de maio, depois das primeiras eleições, Alexis Tsipras, o dirigente do Syriza, apresentou um programa de cinco pontos como base para a formação de um “governo de esquerda”. Neste não encontramos mais que “a criação de uma comissão de auditoria internacional para investigar as causas do déficit na Grécia, com uma moratória no serviço da dívida em espera da publicação dos resultados da auditoria17”.

Antes das novas eleições de 17 de junho, seu “programa de governo” se limitou a denunciar os empréstimos (negociados com a Troika) para trocar suas condições por “outras que não colocarão em dúvida a soberania nacional da Grécia e a sobrevivência econômica de nosso país. Condições tais que a prioridade no reembolso de empréstimos ou o embargo da propriedade do Estado, acordada com os credores pelo memorando, não serão aceitas sem condições…” Não há reivindicações radicais que busquem fazer pagar pela crise seus responsáveis (os burgueses gregos e europeus e outros bancos…), nem meios de impor suas medidas. Tudo será negociado. O programa não espera impor “a anulação do regime fiscal duro para os armadores e para a Igreja”, senão que “buscar um acordo” com o setor da indústria marítima para suprimir as 58 exceções. Não se diz nada sobre a criação de um governo capaz de impor suas próprias medidas. Quer “levar o nível de impostos ao nível do resto da União Europeia”, onde a totalidade da carga recai nas costas da classe trabalhadora. Em nenhuma parte está a questão do controle da administração do sistema econômico pelos trabalhadores. Quem vai controlar os patrões e os banqueiros? Nada sobre a polícia e o exército. O Syriza está nas mãos da OTAN e da UE.

As duras lições do passado

As experiências confirmam as posições de Marx, de Lênin e da Terceira Internacional a este respeito. Rechaçam toda a participação, com exceção de situações nas quais o fascismo constitua uma real ameaça, em caso de uma situação que dê lugar a uma transição a um governo realmente revolucionário, isto é em situações pré-revolucionárias com lutas de classe muito importantes e um equilíbrio de poder favorável (como no Chile em princípios dos anos 1970, Portugal em 1975,…). Nestas situações é possível selar alianças com forças que representam camadas não proletárias, mas que são igualmente oprimidas pelos monopólios ou ameaçadas pelo fascismo ou beligerâncias exteriores. Mas isto unicamente com a condição de que este poder evolua ou deseje evoluir até a democracia popular e o socialismo, até um Estado diferente controlado pelos trabalhadores. Não foi o caso do Chile, onde a reação massacrou socialistas e comunistas metendo-os no mesmo saco.

O governo dos trabalhadores, tal como propôs a Terceira Internacional, se entende como “a frente única de todos os trabalhadores e uma coalizão de todos os partidos de trabalhadores, tanto na arena econômica como na política, para lutar contra o poder da burguesia e, finalmente, para derrubá-la”.

Tal governo de trabalhadores só é possível se nasce das lutas de massas e se é apoiado pelas organizações militantes de trabalhadores18.

Dimitrov alertava contra o fato de que, “manter uma frente popular na França não significa que a classe operária vá apoiar o atual governo19 a todo custo […]. Se, por uma razão ou outra, o governo existente se mostra incapaz de fazer passar o programa da Frente Popular, adota a linha da retirada diante o inimigo, de seu país e do estrangeiro, se sua política debilita a resistência à ofensiva fascista, então a classe operária, com o propósito de reassegurar os laços da Frente Popular, provocará a substituição do atual governo por outro20 […]”.

É o que ocorreu e o PCF levou muito tempo para compreendê-lo. Em 1936, depois de uma vitória eleitoral dos partidos de esquerda, o governo Blum dos socialistas e dos radicais se formou, apoiado desde o exterior pelo PCF. Uma enorme onda de greves exerceu uma pressão sobre o governo para forçá-lo a satisfazer as reivindicações que se encontravam no programa da Frente Popular. Mas, para retomar os termos de seu chefe, este governo fixou como objetivo encontrar uma maneira de “procurar um alívio suficiente àqueles que sofrem” no marco da sociedade de então. Para Blum, a missão da Frente Popular consistiu em “moderar a sociedade burguesa” e extrair “um máximo de ordem, de bem-estar, de seguridade e de justiça”. Nestas condições, o impacto negativo da participação no governo aumentou consideravelmente. As administrações “de esquerda” presidindo sistemas capitalistas tem historicamente desmoralizado e desmobilizado a classe operária, e aberto a via a partidos e governos conservadores e inclusive de extrema direita.

O governo de Blum foi posto abaixo dois anos depois e bastaram dois anos mais para que os capitalistas franceses fizessem uma revanche e recuperassem as concessões que haviam feito. A iniciativa do Partido Socialista, o governo dirigido pelo líder do Partido Radical, Daladier, declarou o PC ilegal em 21 de novembro de 1939 e os representantes deste foram julgados. Em 7 de julho de 1940 os mesmos representantes radicais e socialistas deram sua confiança no voto ao governo traidor de Pétain.

Inclusive nos períodos em que uma participação no governo pode levar à fase da luta aberta pelo socialismo, a maior vigilância é necessária.

Em setembro de 1947, durante uma reunião na qual estavam presentes membros do novo órgão de coordenação dos partidos comunistas depois da Segunda Guerra Mundial – o Kominform21 – os participantes criticaram a linha oportunista do PCF e do PCI em sua política de frente única durante a ocupação e sua participação subsequente no governo.

Estava dentro dos interesses da burguesia cooperar com os comunistas durante e depois da guerra porque era débil. Os comunistas deveriam ter aproveitado esta situação para ocupar postos chaves, mas não o fizeram. No lugar de conquistar um apoio das massas para tomar o poder, desarmaram as massas e plantaram ilusões sobre a democracia burguesa e o parlamentarismo.

No lugar de criar uma unidade antifascista a partir das bases, com a criação de instrumentos emanados das massas, reunindo todas as tendências que estavam realmente prontas a seguir a via de luta por um poder revolucionário, os dirigentes do PCF e do PCI cometeram o erro de construir uma frente na cúpula, sob a base de uma representação igualitária dos diferentes partidos, quando o objetivo dos partidos burgueses era evitar a transformação real do país. Para colocar em prática esta política, os dirigentes do PCF e do PCI alegaram que toda reivindicação diferente da libertação nacional, toda reivindicação de mudanças democráticas radicais e revolucionárias, retirariam do lado da frente antifascista certo número de grupos sociais e de forças políticas.

A reunião criticou o PCF por haver permitido e até facilitado o desarmamento e a dissolução das forças da Resistência com o pretexto de que a guerra havia terminado e que uma ação contra a política de De Gaulle terminaria em uma confrontação com os Aliados. Esta concepção facilitou a tarefa dos imperialistas preocupados por reconquistar suas posições anteriores à guerra. Isto criou ilusões sobre a “democracia” dos imperialistas e de sua capacidade de ajudar na reconstrução, sem outros objetivos, das nações que foram liberadas do fascismo.

Globalmente, os delegados da Conferência os reprovaram por persistir nas ilusões de uma via parlamentar até o socialismo e disseminá-las entre as massas no lugar de mobilizá-las contra a política pró-estadunidense de seus governos e por uma alternativa verdadeiramente revolucionária[22].

Antes tarde do que nunca

A primeira pergunta permanece sendo: Qual é o caráter da sociedade na qual um partido comunista quer participar no governo? É um Estado capitalista. Sua base econômica é o capitalismo e sua tarefa é, por conseguinte, administrar o capitalismo, proteger e criar condições favoráveis para o êxito de seu desenvolvimento. Este Estado adotou uma constituição e leis, regras e regulamentações as quais têm como objetivo garantir a ordem constitucional, criar as condições para o desenvolvimento do capital e para evitar conflitos no seio da sociedade.

A política hostil com os trabalhadores nestes Estados não revela políticos malvados nem partidos maus com maliciosos programas. Enquanto a propriedade privada dos meios de produção reina, as empresas devem competir para sobreviver, elas devem acumular, aumentar seus lucros, reduzir os salários e negar as reivindicações sociais. A esta lei não se podem opor os “bons” políticos no governo com ideias e programas “corretos”.

O capitalismo atual já não pode, como o espera Lafontaine, voltar à época do que chamamos “a economia social de mercado” com cooperação social. Este foi um episódio que deve ser substituído pelo contexto da rivalidade ideológica entre o socialismo e o capitalismo, da força dos partidos comunistas depois do período da Resistência, quando as reivindicações podiam ser levadas em consideração a partir dos lucros da fase de reconstrução do pós-guerra.

Já não é possível e por muito já não é necessária na lógica capitalista. Os 25 milhões de desempregados oficiais na União Europeia que atualmente exercem uma pressão sobre os salários e os mercados de emprego mundialmente acessíveis reduzem o preço da mão de obra. O custo do desemprego duplica o pressuposto social: os salários em baixa fazem aportar menos renda nas caixas de seguridade social enquanto que há mais beneficiários para serem atendidos por estes fundos. A falência do sistema de seguridade social não é mais que uma questão de tempo se não há um grande combate para fazer o capital pagar impostos. Ademais, os rendimentos dos impostos em benefício das empresas estão em baixa, apesar dos lucros em alta: são necessárias reduções suplementares dos impostos para reforçar os capitalistas nacionais nos mercados internacionais.

O Estado capitalista está aí para criar as condições favoráveis para o crescimento da rentabilidade das empresas, para criar para elas novos mercados graças à privatização e a redistribuição da renda nacional a favor dos detentores do capital. Está aí para calar e reprimir a classe operária nacional e para garantir os interesses do capital em outras regiões.

Assim, a participação em governos em tais condições significa unicamente a participação na regressão social, inclusive se esta se encontra um pouco freada. Significa desarmar a resistência e dar falsas esperanças ao movimento operário.

Antigos partidos comunistas escolheram participar do poder, sabendo em detalhes que isso significa governar sob os interesses do capital e formar parte da destruição dos ganhos sociais conquistados depois de lutas por parte do movimento operário.

A participação no governo contribuiu para desmobilizar a resistência tão necessária e o desenvolvimento de um contra-poder. Atualmente, para modificar o equilíbrio das forças de classe, devemos nos unir para uma série de combates defensivos contra a regressão social, a fim de criar um movimento político independente de trabalhadores e daqueles que são impedidos de trabalhar e difundir uma consciência anticapitalista crescente no seio do movimento operário.

A debilidade dos comunistas e dos sindicatos com uma clara orientação anticapitalista é a principal causa do domínio agressivo do capital na maior parte dos países capitalistas.

Necessitamos de um programa político alternativo e devemos lutar por ele. Que compreenda reivindicações imediatas mas também o objetivo da abolição das relações capitalistas de propriedade. Estas reivindicações não devem ser dirigidas a sócios potenciais no seio de um governo de esquerda (que não existe), senão a um movimento operário organizado e a outras camadas exploradas da sociedade. Devem ser dirigidas aos sindicatos, a todo tipo de organizações populares ativas em todos os domínios da luta social, democrática, anti-imperialista e cultural.

A verdadeira pergunta é saber como os partidos comunistas se prepararão para as batalhas que virão, como se organizarão para dar envergadura e assumir eficazmente a carga das novas lutas da classe operária e do povo trabalhador em sentido amplo. A crise obriga às grandes camadas de trabalhadores a dar suas costas à social-democracia. Não devemos oferecer-lhes uma renovada social-democracia. O que é necessário é um partido revolucionário que leve em conta o atual nível de conscientização, que faça seus os problemas do povo, que fale em uma linguagem acessível, que busque a unidade com o maior grupo possível na luta. Mas que não anule seus princípios, que mantenha o rumo à sociedade onde não haverá exploração do homem pelo homem, uma sociedade sem propriedade privada dos meios de produção, uma sociedade na qual os trabalhadores serão realmente livres e com um Estado que protegerá a liberdade da vasta maioria contra a opressão da minoria.

Notas

1. "Socialism's comeback", New Statesman, dezembro de 2008.

2. Fausto Bertinotti e.a., Tesi maggioranza (tese da maioria), V Congresso Nazionale, 2002, Partido da Refundação Comunista.Todas as citações sobre o PRCI provêm da obra “A classe operária na era das multinacionais“, de Peter Mertens:http://www.jaimelago.org/node/7. (As teses em italiano: http://www.d-meeus.be/marxisme/modernes/Bertinotti63Tesi.html).

3. Partido da Refundação Comunista. VI Congresso Nacional. Relação introdutória do secretário Fausto Bertinotti.

4. Partido da Refundação Comunista. VI Congresso Nacional. Relação introdutória do secretário Fausto Bertinotti.

5. La Stampa, 4 de março de 2005, p. 7, http://www.archiviolastampa.it/.

6. Le Nouvel Observateur, 10 de fevereiro de 1984.

7. Michael Scherer, Amy Paris e.a., “Campaign inflation”, em The Mother Jones 400, março de 2001, http://www.motherjones.com/news/special_reports/mojo_400/index.html.

8. Junge Welt, 8 de abril de 2004, http://www.jungewelt.de/2004/04-08/004.php.

9. Partido da Esquerda Europeia, « Manifesto do Partido da Esquerda Europeia», 10 de maio de 2004.

10. Ibidem.

11. Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, 20 de maio de 2011. Observações Conclusivas do Comitê sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Alemanha, http://www.ag-friedensforschung.de/themen/Menschenrechte/deutsch-un.pdf

12. Programa do partido Die Linke. http://en.die-linke.de/fileadmin/download/english_pages/programme_of_the_die_linke_party_2011/programme_of_the_die_linke_party_2011.pdf.

13. Mathias Behnis e Benedict Ugarte Chacón, “Die Überflüssigen : Hintergrund. Harmlos, farblos und immer treu zur SPD. Zehn Jahre Regierungsbeteiligung der Linkspartei in Berlin — eine unvollständige Bilanz des Scheiterns”, https://www.jungewelt.de/loginFailed.php?ref=/2011/08-20/024.php.

14. Disput, junho de 2010.

15. http://transform-network.net/de/blog/blog-2012/news/detail/Blog/a-road-map-for-the-new-greece.html

16. http://hellenicantidote.blogspot.be/2012/05/oh-my-god-syrizas-10-point-plan-to-save.html

17. http://www.ekathimerini.com/4dcgi/_w_articles_wsite1_1_08/05/2012_441181

18. http://www.marxists.org/francais/inter_com/1922/ic4_01.htm

19. O governo da Frente Popular de socialistas e radicais dirigido por Léon Blum, ver mais adiante.

20. Georgi Dimitrov, Œuvres choisies, t. 2, p. 160, Sofia Presse

21. Em 1943 foi dissolvida a Terceira Internacional. Após a derrota do fascismo, foi restaurada com o nome de Kominform. Esta se reuniu somente três vezes. Durante suas sessões que ocorreram de 23 a 26 de setembro de 1947, se discutiu em detalhe a situação na França e na Itália.

22. Intervenção de Djilas em 25 de setembro de 1947. Giuliano Procacci (red.), The Cominform : Minutes of the Three Conferences 1947/1948/1949, Milão, Fondazione Giangiacomo Feltrinelli & Russian Centre of Conservation and Study of Records for Modern History (RTsKhIDNI), 1994, pp 255-257. Citado em Peter Mertens, "A classe operária na era das multinacionais": http://www.jaimelago.org/node/7.

2 de outubro de 2012

Desaparecimento de um "comunista conservador": Eric Hobsbawm. Uma análise de seu trabalho

A BBC confirmou em 1 de outubro de 2012, o desaparecimento do historiador Eric John Hobsbawm, com a idade de 95 anos. Nascido em Alexandria, em uma família judaica, em 1917 - ano da revolução russa - E.J. Hobsbawm experimentou o surgimento do nazismo, tendo crescido em Viena e Berlim, onde se juntou ao Partido Comunista aos 15 anos. Uma experiência que ele admite ter deixado um rastro indelével sobre ele; embora não apreciasse suficientemente as características específicas da instalação do poder hitlerista em relação a outros regimes fascistas da época na Europa. As características específicas de seu compromisso político não estão relacionadas a esse tipo de julgamento. Emigrou para a Grã-Bretanha onde se juntou às fileiras do Partido Comunista Britânico de 1936 a 1991 (ano de sua dissolução). Cerca de vinte de suas obras foram traduzidas para o francês, das quais a mais importante é sua tetralogia: A era das revoluções: 1789-1848; A era do Capital: 1848-1875; A era dos impérios: 1875-1914 e A era dos extremos: O breve século 20: 1914-1991. Seu trabalho não pode ser separado da sua participação no PC. Assim, ele justificou a intervenção soviética na Hungria em 1956 ou, em The Age of Extremes, ele tratou a "Revolução Espanhola" de forma a evitar em grande parte o papel do PCE, bem como da URSS e da Comintern.

Abaixo está um artigo de Enzo Traverso, publicado em 2009, que forneceu uma atualização sobre seu trabalho como historiador. Esta é a ocasião da publicação em francês do livro Império, Democracia e Terrorismo. (A l’Encontre).

Enzo Traverso


Tradução / Não cabe dúvidas de que Eric John Hobsbawm é atualmente o historiador mais lido do mundo. Esta notoriedade arranca sobretudo do êxito planetário da Era dos Extremos, sua história do ‘breve’ século XX. 1 Anteriormente ocupava já, desde logo, um lugar de primeiro plano na historiografia internacional, mas a publicação desta obra lhe permitiu conquistar um público mais vasto. Nenhuma nova interpretação do mundo contemporâneo poderá se furtar a uma confrontação com a sua, que já se converteu em canônica. Mas esta constatação leva implícito um paradoxo, pois o século XX finalizou numa atmosfera de restauração intelectual e política e foi despedido em meio a um alvoroço midiático que anunciava o triunfo definitivo da sociedade de mercado e do liberalismo. Hobsbawm, em contrapartida, não escondia suas simpatias pelo comunismo, o grande perdedor da Guerra Fria, nem sua adesão a uma concepção da história da inspiração marxista. O êxito de seu livro era uma nota discordante, introduzia uma fissura no consenso liberal em torno de uma visão do capitalismo que o apresenta como uma ordem natural sem alternativa 2. Isto é particularmente certo no caso da França, país no qual o livro de Hobsbawm só chegou às livrarias, graças a um editor belga, cinco anos depois de usa edição inglesa original e depois de ter sido traduzido a mais de vinte línguas. Em 1997, Pierre Nora explicava em Le Débat que uma obra como esta, anacrônica e inspirada numa ideologia de outra época, não seria rentável para um editor, razão pela qual havia decidido rechaçá-la na coleção que dirigia em Gallimard.3 Poucas vezes um editor e intelectual equivocou-se tanto ao formular um prognóstico, mas como teria podido acertar Nora se partir do postulado segundo o qual a sensibilidade dos leitores corresponde-se perfeitamente com a acolhida entusiasta dispensada pelos meios de comunicação a O passado de uma ilusão de François Furet (1995) e ao Livro negro do comunismo de Stéphane Courtois ( 1997)?
Uma Tetralogia

A Era dos Extremos é o último volume de uma tetralogia. Segue a três obras dedicadas à história do século XX aparecidas entre 1962 e 1987. A primeira analisa as transformações sociais e políticas que acompanharam a transição do Antigo Regime para a Europa burguesa (A era das revoluções, 1789-1848). A segunda se centra na época de esplendor do capitalismo industrial e a consolidação da burguesia como classe dominante (A era do capital, 1848-1875). A terceira estuda o advento do imperialismo e finalização com a aparição dos conflitos entre as grandes potências que fraturaram o ‘concerto europeu’ e sentaram as premissas de sua eclosão (A era dos impérios, 1875-1914). A redação destas obras não havia obedecido a nenhum plano anterior. Surgiram ao fio do tempo, sob o estímulo dos editores e como produto da evolução das investigações do próprio Hobsbawm.

A trajetória historiográfica de Hobsbawm é a de um especialista no século XX. Em 1952 fundou, com Edward P. Thompson e Christopher Hill, a revista Past and Present, uma tentativa de síntese entre o marxismo e a escola dos Annales. Dedicou considerável atenção à história social das classes trabalhadoras e das revoltas camponesas na época da Revolução Industrial. O marxismo e a formação do movimento operário se situaram no centro de seus interesses. Hobsbawm conjugava as grandes sínteses com pesquisas pioneiras. De estrutura mais clássica e escritas numa linguagem acessível ao grande público, essas grandes sínteses não constroem novos objetos de pesquisa nem solapam os enfoques historiográficos tradicionais, mas esboçam um vasto panorama do século XIX que ilumina, desde uma ampla perspectiva, as forças sociais presentes. Existe uma certa distância entre o historiador dos luditas e da resistência campesina aos cercamentos de terras no campo inglês, e das grandes sínteses sobre as ‘revoluções burguesas’ e o advento do capitalismo industrial. Esta distância não será superada pelo último volume da tetralogia, prisioneiro de uma tendência que ele sempre reprovou na historiografia tradicional do movimento operário: observar a história “por cima” sem fixar-se no que pensavam as grandes correntes, os atores situados ‘abaixo’ 4.

Hobsbawm concebeu o projeto de uma história do século XX depois da queda do muro de Berlim. Foi dos primeiros em interpretar aquele acontecimento como o signo de uma mutação que não só punha fim na Guerra Fria mas que, a uma escala mais vasta, encerrava um século. Nasceu então a ideia de um século XX ‘breve’ enquadrado entre as grandes inflexões da história europeia, a Primeira Guerra Mundia e o afundamento do socialismo real, que se opunha a um século XIX ‘longo’ que iria da Revolução francesa às trincheiras de 1914. Se a guerra foi a autêntica matriz do século XX, a revolução bolchevique e o comunismo lhe deram um perfil específico. Hobsbawm situa-o inteiro sob o signo de Outubro de 1917. O esgotamento da trajetória da URSS, ao final de um prolongado declive, sinaliza sua conclusão.

Hobsbawm, nascido em Alexandria em 1917 pai inglês e mãe austríaca, define-se como um rebento de dois pilares da Europa do século XIX: o Império britânico e o Império austro-húngaro. Fez-se comunista em Berlim, em 1932, aos quinze anos. Esta opção não seria abandonada no curso das décadas seguintes, nas quais estudaria primeiro, e depois ensinaria nas melhores universidades britânicas. O século XX foi sua vida e admite, com toda honestidade, sua dificuldade para dissociar história e autobiografia. A contracorrente de uma ilusória neutralidade axiológica, nosso autor declara com claridade, já nas primeira páginas do livro, sua condição de ‘espectador comprometido’: não parece provável que quem tenha vivido durante este século extraordinário possa abster-se de expressar um juízo. A dificuldade baseia-se em compreender” (pág. 15).

O impacto da Era dos Extremos foi tão mais forte na medida que, ao finalizar assim sua tetralogia, Hobsbawm validava ou ratificava uma inflexão em nossa percepção do passado. Procedia a historicizar uma época que se havia considerado até esse momento como presente vivido e que agora se percebia já como cumprida, passada, encerrada, numa palavra: como história. A Guerra Fria saia das crônicas de atualidade e convertia-se em objeto de uma narração histórica que a situava numa sequência mais ampla, que se remontava a 1914. A ideia do século XX ‘breve’ entraria na esfera pública, e posteriormente na percepção comum dos povos.

A visão de um século XIX ‘longo’ não é nova. Em A grande transformação (1944), Karl Polanyi esboçou já o perfil de uma ‘paz dos cem anos’ que se estendia desde o Congresso de Viena, ao final das guerras napoleônicas, até o atentado de Saravejo de 1914 5. O século XIX, que se construiu sobre o equilíbrio internacional entre as grandes potências com Metternich como arquiteto, foi cenário da eclosão das instituições liberais e de um gigantesco crescimento econômico, baseado na estruturação dos mercados nacionais, que se consolidaria com a adoção do padrão ouro (gold standard). Por seu lado, Arno J. Mayer caracterizou o século XIX como uma época de ‘persistência do Antigo Regime’. No plano econômico a burguesia já era a classe dominante, mas sua mentalidade e seu estilo de vida denotavam sua submissão aos modelos aristocráticos que – com a exceção de alguns escassos regimes republicanos, como França depois de 1970 – seguiam sendo claramente pré-modernos. Em 1914, uma segunda Guerra dos Trinta Anos punha fim à agonia secular deste Antigo Regime prorrogado 6. Hobsbawm parece chegar a conclusões análogas. No primeiro volume de sua tetralogia definia à ‘grande burguesia’ da indústria e das finanças como a ‘classe dominante’ da Europa do século XIX 7. Depois no segundo volume, matiza sua análise e sublinha que na maior parte de países a burguesia não exercia o poder político, mas tão só uma ‘hegemonia’ social, se bem o capitalismo era reconhecido como a forma insubstituível do desenvolvimento econômico8. Esta distinção ou separação entre dominação social burguesa e poder político aristocrático – a qual se faz referência, mas sem entrar numa explicação mais profunda – constitui sem dúvida, como sublinharam alguns críticos, a principal limitação dos três primeiros volumes da tetralogia 9. Este hiato inexplorado entre hegemonia social burguesia e ‘persistência do Antigo Regime’, ademais, põe também em questão uma determinada concepção marxista tradicional das ‘revoluções burguesas’, entre 1789 e 1848, cuja crítica mais fecunda ficará em mãos de outros pesquisadores 10.

O ‘longo século XIX” delineado por Hobsbawm é cenário de uma grande transformação do mundo da qual a Europa, no apogeu do imperialismo, foi ao mesmo tempo centro e motor. Todas as correntes políticas aceitavam sua missão civilizadora, encarnada numa raça e numa cultura ‘superiores’. A ideia de progresso – um progresso moral e material ilustrado pelas conquistas da ciência, o aumento incessante da produção e da expansão das ferrovias que uniam à totalidade das grandes metrópoles do continente e que na América iam de costa a costa – passou a ser um artigo de fé imóvel, que não se apoiava já nas potencialidades da razão, mas nas forças objetivas e irresistíveis da sociedade. As páginas mais poderosas de A era dos extremos são as do primeiro capítulo, nas quais Hobsbawm descreve o começo do século XX num clima apocalíptico que literalmente acaba com todas as certezas de uma era anterior de paz e prosperidade. O novo século abre-se como uma ‘era das catástrofes’ (1914-1945) marcada por duas guerras totais devastadoras e aniquiladoras: três décadas nas quais a Europa assistiu à destruição de sua economia e suas instituições políticas. Enfrentado ao desafio da revolução bolchevique, parecia que o tempo do capitalismo se acabara, enquanto as instituições liberais eram como vestígios de uma época pretérita pois se decompunham a olhos vistos, às vezes sem oferecer a mínima resistência, ante o avanço dos fascismos e as ditaduras militares na Itália, Alemanha, Áustria, Portugal, Espanha e em numerosos países da Europa central. O progresso se revelou ilusório. Europa havia deixado de ser o centro do mundo. A Sociedade das Nações, o novo encarregado de manter em pé o esquema, era impotente, estava marcada pela imobilidade. Em comparação com estas décadas catástróficas, os das pós-guerra – “a idade de ouro” (1945-1973) e “o colapso” (1973-1989) – parecem dois momentos distintos de uma só e mesma época que coincide com a história da Guerra Fria. A idade de ouro é a que dos Trinta Gloriosos, com a difusão do fordismo, a expansão do consumo de massas e o advento de uma prosperidade generalizada aparentemente inesgotável. O colapso (landslide)começa com a crise do petróleo em 1973 que põe fim ao boom econômico e prossegue com uma prolongada onda recessiva. No Oriente anuncia-se com a guerra do Afeganistão (1978) que pressagia a crise do sistema soviético e o acompanha até sua decomposição. O colapso vem depois da descolonização – entre a independência da Índia (1947) e a guerra do Vietnã (1960-1975)- durante a qual a maré dos movimentos de libertação nacional e das revoluções antiimperialistas se entremescla com o conflito entre as grandes potências.
Eurocentrismo

A periodização que propõe Hobsbawm é a força de sua tetralogia e ao mesmo tempo revela seus limites. O volume dedicado às ‘revoluções burguesas’ passa muito por cima das guerras de libertação na América Latina durante a década de 1820. O próximo descreve a guerra civil norte-americana, mas dá um tratamento muito superficial à revolta Taiping, o maior movimento social do século XIX que afetou profundamente a China entre 1851 e 1864. Precisamente o último volume, ao restituir o perfil de um século globalizado, mostra o caráter problemático do eurocentrismo em todo caso do ocidentecentrismo que impregna toda a obra. As demarcações históricas selecionadas por Hobsbawm não são generalizáveis. É legítimo considera 1789 ou 1914 como grandes inflexões ou viragens na história da África? O Congresso de Berlim (1884) e os anos de descolonização (1960) seriam, sem sombra de dúvida, balizas mais pertinentes. Vistas desde Ásia, as grandes rupturas do século XX – a independência da Índia (1947), a guerra da Coreia (1950-1953), a guerra do Vietnã (1960-1975) – não coincidem necessariamente com as da história europeia. A Revolução Chinesa de 1949 transformou em profundidade as estruturas sociais e as condições de vida de uma porção da humanidade consideravelmente mais vasta que Europa, mas os décadas compreendidos entre 1945 e 1973 – marcados pela guerra civil, o ‘Grande Salto Adiante’ e a Revolução Cultural – não foram nenhuma ‘idade de ouro’ para os habitantes desse imenso país. No transcurso desde mesmo período, os vietnamitas e os cambojanos sofreram bombardeios mais intensos que devastaram a Europa na Segunda Guerra Mundial, os coreanos conheceram os horrores de uma guerra civil e duas ditaduras militares, enquanto indonésios sofreram um golpe de estado anticomunista de dimensões literalmente exterminadoras (500.000 vítimas). Apenas o Japão vive uma época de liberdade e prosperidade comparável à ‘idade de ouro’ do mundo ocidental. América Latina, por sua parte, se bem acusou o impacto de 1789 -Toussaint Louverture e Simón Bolívar foram filhos da Revolução francesa no continente – ficou, não obstante à margem das guerras mundiais do século XX. Conheceu duas grandes revoluções – a mexicana (1910-1917) e a cubana (1959) – e sua era da catástrofe se situa melhor entre o início da década de 1970 e final dos anos 1980, quando o continente se viu dominado por ditaduras militares sangrentas, já não populistas e desenvolvimentistas, mas neoliberais e terrivelmente repressivas.

Ainda que rechaça toda atitude condescendente e etnocêntrica com relação aos países ‘atrasados e pobres’, Hobsbawm postula sua subalternidade como uma obviedade que evoca por momentos a tese clássica de Engels (de origem hegeliano) sobre os “povos sem história”11.A seus olhos, estes países conheceram uma dinâmica “derivada, não original”. Sua históra se reduziria essencialmente as tentativas de suas elites ‘de imitar o modelo do qual o Ocidente foi pioneiro”, ou seja, o desenvolvimento industrial e tecnocientífico, ‘numa variante capitalista ou socialista’. Com um argumento similar, Hobsbawm parece justificar o culto à personalidade instaurado por Stalin na URSS, considerando isso bem adaptado a uma população campesina cuja mentalidade corresponderia a das plebes ocidentais do século XI. Estas passagens relativizam consideravelmente o alcance das revoluções coloniais, que descreve como rupturas efêmeras e limitadas. No fundo, a A Era dos Extremos não percebe na revolta dos povos colonizados e sua transformação em sujeito político na cena mundial um aspecto capital da história do século XX.

Esta constatação remete à distância sublinhada anteriormente entre dois Hobsbawm: de um lado, o historiador social que se interessa pelos ‘de baixo’ e recupera sua voz; de outro lado, o autor das grandes sínteses históricas nas quais as classes subalternas voltam a ser uma massa anônima. Entretanto, o autor de A Era dos Extremos é o mesmo que escreveu Rebeldes Primitivos (1959) e Bandidos (1969), para quem a aquisição de consciência política pelos camponeses do mundo colonial ‘fez de nosso século o mais revolucionário da história’ 12. Os representantes dos subaltern studies, especialmente Ranahit Guha, reprovaram seu colega britânico que considere as lutas campesinas basicamente como ‘pré-políticas’ por causa de seu caráter ‘improvisado, arcaico e espontâneo’, criticando que seja incapaz de captar a dimensão profundamente política, embora irredutível aos códigos ideológicos do mundo ocidental, desses movimentos. 13. Esta crítica é aplicável, desde logo, mais a sua tetralogia que a seus estudos de história social. Segundo Edward Said, esta representação das sociedades não-ocidentais como lugar de uma história ‘derivada, não-original’ é um ‘ponto cego’ (blindspot) de todo surpreendente num pesquisador que se distinguiu por haver criticado o eurocentrismo da historiografia tradicional e estudado ‘a invenção das tradições’ 14.

Numa resposta a seus críticos, Hobsbawm reconhece o enfoque eurocêntrico de seu livro, afirmando que sua tentativa de ‘representar um século complicado’ não é incompatível com outras interpretações e outras periodizações ou delimitações históricas 15. Não faltam os exemplos neste sentido. Em 1994, Giovani Arrighi publicava O longo século XX, uma obra que se inspira ao mesmo tempo em Marx e Braudel e que propõe uma nova periodização da história do capitalismo. Propõe considerar quatro séculos ‘longos’ que se estenderiam ao longo de 600 anos e que correspondem a diferentes ‘ciclos sistêmicos de acumulação’, ainda que suscetíveis de se supor uns a outros: um século genovês (1340-1630), um século holandês (1560-1780), um século britânico (1740-1930) e, por fim, um século americano (1870-1990). Este último, que se esboça com posterioridade à guerra civil, alcança o apogeu com a industrialização do Novo Mundo e declina nos anos 1980, quando o fordismo se viu substituído por uma economia globalizada e financeirizada. Segundo Arrighi, atualmente entramos num século XXI ‘chinês’, ou seja, num novo ciclo sistêmico de acumulação cujo centro de gravidade se situa tendencialmente no Extremo Oriente.

Michael Hardt e Toni Negri, por sua vez, teorizaram o advento do ‘Império’: um novo sistema de poder sem centro territorial, qualitativamente distinto dos antigos imperialismos baseados no expansionismo dos estados mais além de suas fronteiras. Enquanto que o imperialismo clássico se apoiava numa capitalismo mais do tipo fordista (a produção industrial em série) e promovia formas de dominação de índole disciplinar (a prisão, o campo de concentração, a fábrica), o Império desenvolvia redes de comunicação as quais corresponde uma ‘sociedade de controle’, ou seja, uma forma de ‘biopoder’, em sentido de formas externas da democracia representativa. Falta saber se este ‘Império’ é uma tendência ou um sistema já consolidado que teria convertido que teria convertido aos estados nacionais em peças de museu. Diversos autores parecem duvidar deste último e o debate está longe de ter-se resolvido. 16

Em sua obra, ‘L’Empire, la démocratie et le terrorisme’, Hobsbawm volta-se sobre a história dos impérios para concluir que sua época ficou definitivamente para trás. Estados Unidos dispõe de uma potência militar esmagadora, mas não está em condições de impor sua dominação sobre o resto do planeta. Não representa o núcleo de uma nova ordem mundial comparável à Pax Britannica do século XIX, e pode dizer-se que entramos numa ‘forma profundamente instável de desordem global tanto a escala internacional como no interior dos estados’17.

Adotando uma perspectiva contemporânea, o século XX poderia aparecer também como um ‘século-mundo’. O historiador italiano Marcello Flores data o começo em 1900, ano que marca simbolicamente uma tripla mutação. Em Viena, Freud publica A interpretação dos sonhos, obra inaugural da psicanálise: nos prolegômenos do capitalismo fordista, o mundo burguês opera uma retirada para sua interioridade análoga à ‘ascese intermundana’ que segundo Weber a reforma protestante pôs a serviço do capitalismo nascente. Na África do Sul, a guerra dos bôeres dá lugar às primeiras formas de campos de concentração, com alambrados e barracões para o internamento de civis. Este dispositivo de organização e gestão da vioência projetará sua sombra sobre todo o século XX. Na China, a revolta dos Boxers [1899-1901] foi sufocada pela primeira intervenção das grandes potências coligadas (Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália, Áustria-Hungria, Rússia, EUA e Japão). Depois viriam outras muitas expedições (punitivas, ‘humanitárias’, ‘pacificadoras’, etc.). Segundo Flores, o século XX é a era do ocidentalismo, que comporta a expansão a escala planetária do sistema de valores, os códigos culturais e os modos de vida ocidentais. Desde este ponto de vista, o século XX prossegue, não se esgotou, embora hoje se veja confrontado com novos desafios.

Numa passagem impactante de A era dos Extremos, Hobsbawm escreve que para 80% da humanidade a Idade Média finalizou subitamente nos anos 1950. A partir daquela inflexão vivemos num mundo em que o desenvolvimento dos meios de comunicação suprimiu as distâncias, a agricultura já não é a fonte principal de riqueza e a maioria da população habita em áreas urbanas. Isso constitui uma verdadeira revolução, escreve, que fechou de golpe dez mil anos de história: o ciclo iniciado com a difusão da agricultura sedentária 18.

Traduzida esta observação em termos historiográficos significa que se adotada a história do consumo em vez da história política como linha de demarcação fundamental o século XX poderia tomar uma coloração muito diferente. Entre 1910 e 1950, as condições de vida dos europeus permaneceram substancialmente inalteradas. A grande maioria vivia em casas sem quarto e gastava a maior parte de sua renda em alimentação. Em 1970, em contrapartida, já era normal viver num apartamento provido de calefação central, telefone, frigorífico, lavadora e televisão, sem esquecer um veículo na garagem (o que constituía o lote completo dos operários das fábricas Ford em Detroit, desde a década de 1930). 19. Ou seja, que são possíveis outras delimitações históricas. Isso não condena a perspectiva eleita por Hobsbawm, mas indica que sua periodização não tem nada de normativo.
Comunismo

O fio vermelho que atravessa A Era dos extremos é a trajetória do comunismo, pelo que resulta praticamente inevitável a comparação com O passado de uma ilusão de Furet (1995). Hobsbawm nunca viu em François Furet um grande historiador. Furet aparece a seus olhos, no fundo, como um epígono do conservador Alfred Cobban. Em realidade, o autêntico objetivo da interpretação liberal de 1789 foi sempre 1917. Furet colocou isso claramente de manifesto num panfleto de uma rara violência, a polêmica como Pensar a revolução francesa (1978), e seu último balanço da história do comunismo não era, para Hobsbawm, senão ‘um produto tardio da época da guerra fria’. 20.

Se O passado de uma ilusão não dissimula a altivez do vencedor, nota-se muito que A Era dos Extremos está escrito por um perdedor que não renega sua luta. Ao contrário do parecer de muitos comentaristas, entendo que a melancolia – sedimento de todo um século de batalhas perdidas – está muito presente nas páginas de Hobsbawm, mas não nas de Furet, da mesma maneira que, guardando todas as distâncias, Walter Benjamin pode entrevê-la no velho Blanqui, mas não em Tocqueville. Furet dedica sua obra ao advento, ascensão e queda do comunismo; Hobsbawm estuda também a crise e o renascimento do capitalismo. Depois do colapso da Europa liberal em 1914, o capitalismo teve que se enfrentar ao desafio da revolução de Outubro e a uma crise planetária em 1929. Durante os anos de entreguerras seu porvir parecia bastante incerto. Keyne, o mais brilhante e original de seus terapeutas, considerava-o historicamente condenado e, entretanto, o capitalismo conheceu um relançamento espetacular depois de 1945, até sua vitória em 1991.

A comédia e a tragédia, duas estruturas narrativas clássicas, serão segundo o cientista político Torbjorn L. Knutsen, o pano de fundo dos livros de Furet e Hobsbawm, que este estudioso submeteu a uma análise comparada 21. Ambos explicam a mesma história, com os mesmos atores, mas a distribuição dos papéis e o tom do relato são consideravelmente distintos. O passado de uma ilusão se atém às regras da comédia. Põe em cena as desventuras de uma família liberal que vive em perfeita harmonia, mas cuja existência se vê subitamente perturbada por uma enjoante série de imprevistos, equívocos e catástrofes. Por um instante tudo parece em questão. Aparecem personagens malvados, com os traços do fascista e do comunista, que exercem uma influência corruptora sobre jovens almas inocentes. Mas os malvados são finalmente desmascarados e sua sedução totalitária deixa de funcionar. Uma vez dissipado o equívoco, tudo volta a estar em ordem e a comédia acaba com um happy end tranquilizador. Longe de ser ‘um destino providencial da humanidade’, escreve Furet, o fascismo e o comunismo não foram mais que ‘episódios breves, encapsulados entre aquilo que pretenderam destruir’: a democracia liberal 22. Como conclusão de seu livro, nos quer ‘condenados a viver no mundo em que vivemos’, o mundo do capitalismo liberal, cujas fronteiras estão definidas pelos ‘direitos humanos e o mercado’ 23. Mas esta ‘condenação’ lhe parece um destino providencial que dá a sua obra uma coloração apologética e teleológica ao mesmo tempo.

Hobsbawm, por seu lado, escreveu uma tragédia. A esperança libertadora do comunismo atravessou o século como um meteorito. Seu objetivo não era a destruição da democracia, mas a instauração da igualdade, a inversão da pirâmide social, que os oprimidos e explorados tomaram o destino em suas mãos. A revolução de Outubro – um sonho que ‘vive ainda em mim’, afirma em sua autobiografia24 – transformou esta esperança de libertação de uma ‘utopia concreta’. A esperança, encarnada no Estado soviético, conheceu numa primeira fase um ascenso espetacular, ao que seguiu um prolongado declive, quando sua força propulsora se esgotou, até chegar à queda final. O socialismo soviético foi espantoso. Hobsbawm o reconhece sem vacilação, mas pensa que não havia alternativa. “A tragédia da revolução de Outubro – escreve – é precisamente não ter podido produzir senão um socialismo autoritário, implacável e brutal’. Seu fracasso estava inscrito em suas premissas, é verdade, mas esta constatação não o converte numa aberração histórica. Hobsbawm não compartiha a opinião de Furet, para quem a revolução de Outubro, à semelhança da Revolução francesa, não foi senão um despropósito que poderia ter sido evitado. O comunismo não podia senão fracassar, mas ainda assim cumpriu uma função necessária. Sua vocação era sacrificial. “O resultado mais perdurável da revolução de Outubro, cujo objetivo era abater a escala mundial o capitalismo”, escreve Hobsbawm na História do século XX, ‘foi salvar seu adversário, tanto na guerra como na paz, incitando-o, depois da Segunda Guerra Mundial, a reformar-se”. Salvou-o Stalingrado, pagando o preço mais alto na resistência contra o nazismo. E ademais forçou-o a transformar-se, pois não é em absoluto seguro que em ausência do desafio que representava a URSS o capitalismo tivesse passado pelo New Deal e pelo Estado de Bem-Estar, nem que o liberalismo tivesse aceito finalmente o sufrágio universal e a democracia (esta última de modo algum é ‘idêntica’ ao liberalismo, nem filosófica nem historicamente, contrariamente ao que indica o axioma de Furet). Mas a vitória do capital não incita desde logo o otimismo. Melhor parece evocar o Anjo da História de Walter Benjamin, citado de passagem por Hobsbawm, que via o passado como uma montanha de escombros.

Furet escreve uma apologia auto-satisfeita do capitalismo liberal; Hobsbawm, uma apologia melancólica do comunismo. Desde este ponto de vista, ambos são discutíveis. O balanço do socialismo real que estabelece Hobsbawm é, em muitos aspectos, implacável. Considera um grave erro a fundação da Internacional Comunista em 1919, que dividiu para sempre o movimento operário internacional. Reconhece também, a posteriori, a lucidez do filósofo menchevique Plekhanov, para o qual uma revolução comunista na Rússia dos Czares só podia produzir ‘um império chinês tingido de vermelho’. Traça um retrato severo de Stalin: ‘um autocrata de uma ferocidade, uma crueldade e uma ausência de escrúpulos extraordinárias, para não dizer únicas’. Mas se apressa a acrescentar que nas condições da URSS das décadas de 1920 e 1930, não se teria podido levar a cabo nenhuma política de industrialização e de modernização sem violência nem coerção. O stalinismo era, portanto, inevitável. O povo soviético pagou um alto custo, mas aceitou Stalin como guia legítimo, à semelhança de Churcill, que em 1940 obteve o apoio dos britânicos prometendo-lhes ‘sangue, suor e lágrimas’.

O stalinismo foi o produto de uma volta sobre si mesma da Revolução russa, isolada depois da derrota das tentativas revolucionárias na Europa central, rodeada por um entorno capitalista hostil e, sobretudo, enfrenta a partir de 1933 à ameaça nazi. Hobsbawm compara o universalismo da revolução de Outubro com o da Revolução Francesa. Descreve sua influência e sua difusão como a força magnética de uma ‘religião secular’ que faz recordar o Islã das origens, dos séculos VII e VIII 25. Desta ‘religião secular’, Hobsbawm nunca foi um crente ingênuo ou cego, mas sim, certamente, um discípulo fiel, incluindo aqueles casos nos quais seus dogmas revelaram-se enganosos. Foi um dos pouquíssimos representantes da historiografia marxista britânica que não abandonou o Partido Comunista em 26. Seu olhar complacente em relação ao stalinismo recorda outro grande historiador, Isaac Deutscher, que via em Stalin uma espécie de combinação de Lenin e Ivan, o Terrível, do mesmo modo que Napoleão sintetizara em sua personalidade a Revolução Francesa e o absolutismo do Rei Sol. 27. Deutscher alimentava a ilusão de uma possível autorreforma do sistema soviético, enquanto que Hobsbawm justifica isso depois de sua queda. Não podia senão fracassar, mas tinha que crer nele. Em novembro de 2006, Hobsbawm lançava-se ainda a uma justificação da repressão soviética na Hungria em 1956, e inclusive a uma apologia de János Kádár 28. Mais que a vantagem epistemológica inerente à visão do vencido, segundo a fórmula de Reinhar Koselleck, este balanço revela, como indica Perry Anderson, uma dimensão consolatória. 29.
Barbárie

O século XX que retrata Hobsbawm é em realidade um díptico no qual a Segunda Guerra Mundial marca o divisor de águas. Apresenta-a como uma ‘guerra civil ideológica internacional’ na qual, para além dos estados e dos exércitos, enfrentavam-se ideologias, visões de mundo, modelos de civilização. Num estudo paralelo a A Era dos Extremos situa o núcleo profundo desta contenda no enfrentamento entre o Iluminismo e o Contra-Iluminismo, uma encarnada pela coalizão das democracias ocidentais e o comunismo soviético, a outra pelo nazismo e seus aliados. Foi o conjunto dos ‘valores herdados do século XVIII’ o que impediu o mundo de ‘sumir nas trevas’. 30. Ao contrário dos filósofos da Escola de Frankfurt, Hobsbawm não chega ao ponto de identificar as raízes da barbárie na própria civilização, uma civilização que teria transmutado o racionalismo emancipador das Luzes na racionalidade instrumental cega e dominadora do totalitarismo. A antinomia absoluta entre civilização e barbárie pela qual aposta – e não é casual que cite O assalto da razão de Georg Lukács (1953)- leva-o a rechaçar o conceito de totalitarismo. O pacto de não-agressão germano-soviético do verão de 1939, longe de revelar a identidade do nazismo e do comunismo, não foi senão um parênteses efêmero, oportunista e contra-natural. “Se as similitudes entre os sistemas de Hitler e Stalin são inegáveis’, escreve Hobsbawm criticando Furet, sua aproximação ‘se fez a partir de raízes ideológicas profundamente díspares e muito distanciadas’. 31 Sua convergência foi superficial, de tal maneira que somente permitiria estabelecer analogias formais, mas não definir uma natureza comum. O século XX opôs a liberdade à igualdade, duas ideologias procedentes da tradição do Iluminismo, enquanto que o nazismo era uma variante moderna do Contra-Iluminismo, que tomava como fundamento o racismo biológico. 32.

O recurso ao conceito de ‘guerra civil’ suscita outra comparação, esta vez com o historiador conservador Ernst Nolte. Um certo ar de nolteismo impregna, com efeito, A Era dos Extremos, ainda que, bem entendido, trata-se de um nolteismo pelo avesso. Não há nenhuma convergência ideológica, nenhuma cumplicidade entre Nolte e Hobsbawm, mas ambos partem da mesma constatação – o duelo de titãs entre o nazismo e o comunismo como ponto álgido do século XX – para deduzir daqui leituras simétricas e substancialmente apologéticas de um ou de outro. Nolte reconhece os crimes nazistas, mas os interpreta como excessos lamentáveis derivados de uma reação legítima de autodefesa da Alemanha ameaçada pelo comunismo. As câmaras de gás – assim reza sua bem conhecida tese – não foram mais do que uma imitação da violência bolchevique, o autêntico “prius lógico e fatual” dos horrores totalitários do século XX 33. Hobsbawm não nega os crimes do stalinismo, mas os toma por inevitáveis, ainda que lamentáveis, ao inscrevê-los num contexto objetivo que não deixava alternativas. Duas sombras enormes gravitam sobre estas interpretações. Atrás de Nolte está a sombra de Heidegger, de que ele mesmo foi discípulo, que havia visto em Hitler uma expressão ‘autêntica’ do Dasein alemão. Atrás de Hobsbawm, a sombra de Hegel, que justificou o Terror jacobino na Fenomenologia do espírito. Ou melhor, para ganhar precisão, a sombra de Alexandre Kojeve, quem, igual a Hegel contemplando Napoleão em Jena, acreditou perceber em Stalin o “Espírito do mundo” 34.

É verdade que Hobsbawm reconhece a grande importância do antifascismo para uma geração – a sua – que viveu a guerra civil espanhola e depois a Resistência, mas de maneira um tanto estranha não dá tanto relevo ao impulso extraordinário que significou a URSS, por sua simples existência, para o levante dos povos colonizados contra o imperialismo. É assim mesmo discreto em relação ao papel desempenhado por alguns partidos comunistas no mundo ocidental onde, apesar de seu caráter de ‘contra-sociedade’, igreja e quartel ao mesmo tempo, foram capazes de dar representação política e um sentimento de dignidade social às classes trabalhadoras. Entre os muitos rostos do comunismo ao longo do século XX, Hobsbawm escolhe legitimar o pior, o mais opressor e coercitivo, o do stalinismo. Nascido no coração da guerra civil europeia, seu comunismo jamais foi libertário. No fundo, sempre foi um homem ordeiro, uma sorte de ‘comunista tory’ 35.
Um enfoque braudeliano

Em sua autobiografia Hobsbawm reconhece a influência que exerceu sobre ele a escola dos Annales. Recorda o impacto que causou O Mediterrâneo de Braudel nos jovens historiadores dos anos 50 e depois, valendo-se de uma fórmula de Carlo Ginzburg, constata a passagem da historiografia, depois de 1968, do telescópico ao microscópico: um deslocamento da análise das estruturas socioeconômicas ao estudo das mentalidades e das culturas 36. Em A Era dos Extremos o século é observado com o telescópio. Hobsbawm adota um enfoque braudeliano no qual a longue durée predomina sobre o acontecimiento. Passa-se em revista os grandes momentos de um século dramático como se fossem peças de um conjunto, que raramente são apreendidas em sua singularidade. Entretanto, trata-se de uma época marcada por rupturas súbitas e imprevistas, por inflexões de grande entidade que resulta difícil reconduzir a suas ‘causas’, por bifurcações que não se inscrevem logicamente nas tendências da longue durée. Podemos achar um lugar para elas numa sequência reconstruída a posteriori, mas não apresentá-las como as etapas necessárias de um processo. Diversos críticos sublinharam o silêncio de Hobsbawm sobre Auschwitz e Kolyma, dois nomes que não figuram no índice de seu livro. Os campos de concentração e de extermínio desaparecem de seu relato. No século da violência, as vítimas ficam reduzidas a quantidades abstratas. A observação de Hobsbawm a propósito da Shoah – “Não creio que possa haver uma expressão verbal adequada para estes horrores”- 37 é sem dúvida certa, apesar do que foi escrito por Paul Celan ou Primo Levi, e desde logo é psicologicamente compreensível, mas não pode fazer as vezes de uma explicação. Mais ainda quando é compartilhada por historiadores que, como Saul Friedlander, dedicaram sua vida ao estudo do extermínio dos judeus da Europa tratando de por em palavras um ‘acontecimento’ que quebrou o século, que introduziu o genocídio em nosso léxico e que modificou nossa consideração sobre a violência. Se esta observação se erigisse em premissa metodológica, daria lugar a uma certa forma de misticismo obscurantista, o Holocausto passaria a ser uma entidade metafísica por definição indizível e inexplicável, e isso seria de todo surpreendente na pena de um grande historiador.

Esta indiferença com o acontecimento não afeta somente aos campos nazistas e ao Gulag, mas também a outros momentos-chave do século XX. Por exemplo, a tomada do poder por Hitler na Alemanha, em janeiro de 1933, inscreve-se numa tendência geral de auge do fascismo na Europa, mas não é analisada como uma crise específica cujo desenlace não era inelutável. (Ian Kershaw, um dos melhores especialistas em história do nazismo considera aquele episódio um ‘erro de cálculo’ das elites alemãs). O mesmo caberia se dizer de Maio de 68, cuja apreciação por Hobsbawm aparece fortemente condicionada por elementos de ordem autobiográfico (diz em suas memórias que prefere o jazz ao rock e que nunca vestiu calças jeans) 38. Dá credibilidade, de maneira farto expeditiva, à opinião do ‘conservador inteligente’ Raymond Aron de que Maio de 68 não foi, ao fim e ao cabo, senão um ‘psicodrama’. As barricadas do Barrio Latino, a grege geral mais importante desde 1936 e a fuga a Baden Baden do general De Gaulle convertem-se numa peça de “teatro de rua” 39.

A adoção deste enfoque de “longue durée” que suprime a singularidade dos acontecimentos não é uma inovação do último Hobsbawm, pois já estava presente nos volumes anteriores de sua tetralogia. Agora, em A Era dos Extremos, a longa duração não se escreve numa visão teleológica da história. Hobsbawm estabelece com Marx uma relação crítica e aberta, não dogmática. Sempre rechaçou a visão de uma sucessão hierárquica e inelutável de estágios históricos da civilização, típica de um marxismo que considera ‘vulgar’. Mas há algumas décadas pensava que a história tinha uma direção e que marchava para o socialismo. 40. Em a A Era dos Extremos, esta certeza desapareceu: o porvir não o conhecemos. As últimas palavras do livro – um futuro de ‘obscuridade’ – parecem fazer eco ao diagnóstico de Max Weber, que em 1919 anunciava ‘uma noite polar de uma obscuridade e uma dureza glaciais’41. Hobsbawm fez a ata do fracasso do socialismo real: ‘Se a humanidade há de ter um futuro, não será prolongando o passado ou o presente’. Uma nova catástrofe se esboça no horizonte, mas as tentativas de mudar o mundo que se fizeram no passado fracassaram. É preciso mudar a rota e não temos bússola. A inquietude de Hobsbawm é a de nosso tempo.

Notas
1 Eric Hobsbawm, Historia del Siglo XX, 194-1991, Barcelona, Crítica, 19915

2 A recepção do livro, por outro lado, coincidiu com o êxito do blairismo na Inglaterra, em relação ao qual tomou distâncias depois de ter sido um de seus inspiradores desde as páginas das revista Marxism Today. Sobre as contradições políticas de Hobsbawm que prestou apoio ao novo trabalhismo sem se dar conta de que Tony Blair se situava numa linha de continuidade com o thathcerismo, ver Perry AndersonLa izquierda en el mundo de las ideas, Madrid, Akal, 2008, pp. 297-340.

3 Ver Pierre Nora Traduire nécéssité et dificultés, Le Débat 93, 1997, pág. 94

4 Ver por exemplo Eric Hobsbawn, Historia de la clase obrera e ideología en E. J. Hobsbawn, Estudios sobre la formación y la evolución de la clase obrera, Barcelona, Crítica, 1987

5 Karl Polany, La gran transformación, Madrid, La Piqueta, 1989

6 Arno Mayer, La persistencia del Antiguo Régimen. Europa hasta la Gran Gurerra, Madrid, Alianza, 1984

7 Eric Hobsbawm, Las revoluciones burguesas, Madrid, Guadarrama, 1974

8 Eric Hobsbawm, La era del capitalismo, Madrid, Guadarrama, 1977

9 Perry Anderson, La izquierda en el mundo de las ideas,Madrid, Akal, 2008, pp. 296-297.

10 Não aludo aqui à apresentação caricaturesca que faz deste conceito Furet em seu famoso panfleto Penser la Révolution française (Paris, Gallimard, 1978), mas melhor a Ellen Meikins-Wood. The origins of Capitalism. A lonf Review. Londres, Verso, 2002, pgs. 118-121.

11 Algo um tanto paradoxal quando se trata do autor de um ensaio intitulado Todos pueblos tienen historia en Sobre historia,Crítica 1998, págs.. 176-182.

12 Eric Hobsbawm, Rebeldes primitivos. Estudios sobre las formas arcaicas de los movimientos sociales en los siglos XIXy XX, Barcelona, Ariel, 1968.

13 Ranajrt Guha, Elementary aspects of Peasant Insurgency in Colonial India, Cambridge, Harvard U.P. 1983, págs. 5-13.

14 Edward Said Contra mundum en Reflection on exile, Londre, Granta, 2001, pág. 28. E. Said alude a Eric Hobsbawm y Terence Ranger (dirs.) L’invention de la tradition, Paris, Éditions Amsterdam, 2006.

15 Eric Hobsbawm, Conclusion en Silvio Pons L’Età degli estremi. Discutendo con Hobsbawn sul Seculo breve, Roma, Carocci, 1998, pág. 33.

16 Ver, por exemplo, Ellen Meikins Wood, Empire of Capital,Londres, Verso, 2003, pag. 6 e Daniel Bensaid, Elogio de la política profana, Madrid, Península, 2009.

17 Eric Hobsbawm, On Empire America, War and Global Supremacy, Nueva York, Pantheon Books, 2998, pág. .

18 Ibid pág. 35 y Age of extremes, pág. 382.

19 Ver sobre esta questão Victoria de Grazia, Irresistible Empire America’s Advance Through Twentieth Century Europe, Cambridge, Belknap press, 2005

20 Eric Hobsbawm, Historie et illusion, Le Débat 89, 1996, pág. 138. Para a crítica de Furet como historiador da revolução francesa, ver Eric Hobsbawm, Aux armes historians. Deux siécles d’histoire de la révolution française. La Découverte, 2007.

21 Torbjorn Knutsen, Twuentieth Century Stories, Journal ofPeace Research, 1, 2002, pág. 120

22 François Furet, El posado de uno ilusión. Ensayo sobre lo Idea comunista en el siglo XX, Madrid, FCE, 1995.

23 lbid., pág. 572.

24 Eric Hobsbawm, Años interesantes. Uno vida en el siglo XX,Barcelona, Crítica, 2003].

25 Ibid. Pág. 128 y Age of extremes, pág. 502.

26 Ibid. Págs. 141, 211 y 218.

27 Isaac Deutscher, Two revolutions, en Marxism, Wars and Revolutions, Londres, Verso, 184. Hobsbawm escreve que Deutscher o aconselhou em 1957 que não abandonasse o Partido Comunista (Años interesantes)

28 Eric Hobsbawm, Could it hace been different?, London Review of Books, 16 noviembre 2006.

29 Perry Anderson, La izquierda vencida

30 Eric Hobsbawm, La barbarie: guía del usuario, en Sobre la historio, cit.. págs.. 253-265].

31 Eric Hobsbawm, Histoire et illusion.

32 Sobre este punto Hobsbawm coincide con Dan Dineé Dos johrhundert verstehen. Eine universo/historische Deutung.Munich, Luchterhand, 1999, págs. 54 y 68.

33 Ernst Nolte, Vergangenheit die nicht vergehen wilb, en Histonkerstreit, Munich, Piper, 1987, pág. 45.

34 Esta leitura de Hegel é explícita num historiador do pensamento político cuja interpretação do stalinismo apresenta muitos pontos em comum com a de Hobsbawm: me refiro a Domenico Losurdo, Stalin Storia e critica de una legenda nera, Carocci, 2008, págs.. 12 y 113-123. Sobre Hegel y Stalin, véase Alexandre Kojéve, Tyrannie et sagesse ( 1954), en Leo Strauss,De la tyronnte, trad. H. Keré París, Gallimard, 1983, págs. 217-280.

35 Depois de tudo, Hobsbawm sempre foi uma “pessoa da ordem” como sublinha Tony Judt, Eric Hobsbawm y el romance del comunismo en Tony Judt Sobre el olvidado siglo XX, Madrid, Taurus, 2008, pág.s 121-132.

36 Eric Hobsbawm, Interesting Times, pág. 294.

37 Eric Hobsbawm, Commentaires, Le Débat 93, 1997, pág. 88. O silêncio de Hobsbawm sobre Auschwitz e Kolyma é destacado por Krzystof Pomian, Quel XXe Siécle?, no mesmo númedro de Le Débat, págs. 47 y 74. Ver assim mesmo a intervençaõ de Arno Mayer na recompilação de ensaios anteriormente citada L’Età degli estremi, pág. 33.

38 Eric Hobsbawm, lnteresting Times, op. cit., págs. 252 y 262.

391bíd., pág. 249 y Age o Extremes, op. cit., pág. 580.

40 Eric Hobsbawm, What do Historians owe to Karl Marx? ( 1969), en On History, op. cit., págs. 152-153.

41 Max Weber, Le Savant et le Politique, París, La Découverte, 2003, pág. 205.