30 de maio de 2013

A bomba não bateu o Japão... Stalin o fez

70 anos de política nuclear foram baseados em uma mentira?

Ward Wilson


Foto por AFP/Getty Images

Tradução / O emprego de bombas atômicas pelos EUA contra o Japão na Segunda Guerra Mundial há muito tempo é objeto de discussão apaixonada. De início, alguns questionaram a decisão do presidente Truman, de despejar duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Mas em 1965, o historiador Gar Alperovitz argumentou que, por mais que as bombas tenham apressado o fim da guerra, os líderes japoneses já havia decidido render-se com bomba ou sem, e provavelmente o teriam feito antes da invasão norte-americana planejada para 1º de novembro. A bomba portanto não foi fator decisivo e pode ter sido desnecessária. Obviamente, se as bombas não fossem necessárias para vencer a guerra, não há como salvar a ideia dos ataques atômicos contra Hiroshima e Nagasaki. Nos 48 anos seguintes, muitos outros embarcaram na discussão: alguns ecoando o argumento de Alperovitz e denunciando os bombardeios; outros a repetir apaixonadamente que os bombardeios teriam sido morais e necessários, e "salvaram vidas".

Ambas as escolas de pensamento, no entanto, assumem que o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki com novas armas, mais poderosas, coagiram o Japão a se render em 9 de agosto. Mas não questionam, em primeiro lugar, a utilidade necessária das bombas, vale dizer, não perguntam, em essência, se as bombas funcionaram. A ideia ortodoxa é que, sim, claro que funcionaram. Os EUA bombardearam Hiroshima dia 6 de agosto; e Nagasaki dia 9 de agosto, quando o Japão finalmente sucumbiu à ameaça de novos bombardeios e rendeu-se. Essa narrativa tem encontrado apoio profundo. Mas sempre subsistem três problemas graves nessa narrativa, os quais, considerados em grupo, minam consideravelmente a credibilidade dessa interpretação tradicional da rendição japonesa.

Timing

O primeiro problema com a interpretação tradicional é o timing. E é um problema grave. A interpretação tradicional tem um cronograma simples: a Força Aérea dos EUA bombardeou Hiroshima com uma bomba nuclear em 6 de agosto, três dias depois bombardeou Nagasaki com outra bomba e, no dia seguinte, os japoneses sinalizaram a intenção de se renderem. Nem se podem culpar os jornais americanos por terem estampado manchetes como: "Paz no Pacífico: Nossa Bomba Conseguiu!"

Quando a história de Hiroshima é contada na maioria das histórias americanas, o dia do bombardeio — 06 de agosto — serve como o clímax da narrativa. Todos os elementos da história apontam aquele momento: a decisão de construir a bomba; as pesquisas secretas em Los Alamos, o primeiro e impressionante teste; e a culminação em Hiroshima. Há, em outras palavras, toda uma história da bomba. Mas não se pode analisar a decisão do Japão, de render-se, no contexto dessa história da bomba. Apresentar as coisas numa "História da Bomba" é pressupor que a bomba teria sido protagonista.

Do ponto de vista dos japoneses, o dia mais importante naquela segunda semana de agosto não foi 6 de agosto, mas 9 de agosto. Foi quando o Conselho Supremo reuniu-se — pela primeira vez naquela guerra — para discutir a rendição incondicional. O Conselho Supremo era formado dos seis mais altos membros do governo — uma espécie de gabinete interno —, que efetivamente governava o Japão em 1945. Antes daquele dia, os líderes japoneses nunca haviam considerado seriamente a possibilidade de o país render-se. A rendição incondicional (como os Aliados estavam exigindo) era remédio amargo de engolir. EUA e Grã-Bretanha já estavam organizando julgamentos de crimes de guerra na Europa. O que aconteceria se resolvessem pôr o Imperador — divino, para muitos japoneses — no banco dos réus? E se se livrassem do Imperador e mudassem completamente a forma de governo? Mesmo considerando a gravidade da situação no verão de 1945, os líderes do Japão não estavam dispostos a ceder todas as suas tradições, crenças e o próprio modo de vida. Isso, até 9 de agosto. O que pode ter acontecido, que levou os japoneses a mudar de ideia tão repentinamente e tão completamente? O que os fez sentar e pôr-se a discutir seriamente a rendição, pela primeira vez depois de 14 anos de guerra?

Não pode ter sido Nagasaki — que só foi bombardeada no final da manhã do dia 9 de agosto, depois de o Conselho Supremo já estar reunido para discutir a rendição; e os líderes japoneses só foram informados do bombardeio no início da tarde – depois que o Conselho Supremo já se reunira e todo o gabinete já fora convocado para oficializar a decisão. Se se considera a cronologia real, Nagasaki não pode ter sido fator que motivou os japoneses.

Mas Hiroshima também não é aposta em que se possa jogar. Aconteceu 74 horas — mais de três dias antes da rendição. Que tipo de crise demora três dias para vir à tona? Crise é evento sobre o qual necessariamente pesa o risco de desastre iminente; e o desejo imperioso de agir depressa. Como os líderes japoneses poderiam ter suposto que Hiroshima seria ponto final de uma crise... mas esperar três dias para começar a discutir o problema?

O presidente John F. Kennedy estava sentado na cama lendo os jornais da manhã, mais ou menos às 8h45 do dia 16 de outubro de 1962, quando McGeorge Bundy, seu conselheiro de segurança nacional chegou para informá-lo de que a União Soviética estava instalando mísseis nucleares, secretamente, em Cuba. Em duas horas e 45 minutos já estava constituída uma comissão especial, membros escolhidos, trazidos todos para a Casa Branca e sentados à volta da mesa do gabinete para decidir o que fazer.

O presidente Harry Truman estava de férias em Independence, Missouri, em 25 de junho de 1950, quando a Coréia do Norte enviou suas tropas através do paralelo 38, invadindo a Coreia do Sul. O secretário de Estado Acheson telefonou a Truman na manhã daquele sábado para informá-lo. Em 24 horas Truman já atravessara metade dos EUA e estava sentado na Blair House (Casa Branca estava em reformas), com os principais assessores militares e políticos, decidindo o que fazer.

Even Gen. George Brinton McClellan — the Union commander of the Army of the Potomac in 1863 during the American Civil War, of whom President Lincoln said sadly, “He’s got the slows” — wasted only 12 hours when he was given a captured copy of Gen. Robert E. Lee’s orders for the invasion of Maryland.

These leaders responded — as leaders in any country would — to the imperative call that a crisis creates. Todos esses líderes tomaram decisões cruciais em curto período de tempo. Como podemos enquadrar este tipo de comportamento com as ações dos líderes do Japão? Se Hiroshima realmente desencadeou uma crise que eventualmente forçou os japoneses a se render depois de lutar por 14 anos, por que levar três dias para se sentar para discutir o assunto?

Alguém poderia dizer que seria uma demora lógica. Talvez tenham demorado a entender a importância do bombardeio. Talvez não soubessem o que seria uma bomba atômica e, quando perceberam e compreenderam o tipo de arma que os estava atacando e os efeitos que teria, decidiram render-se, mas não antes disso. Infelizmente, essa explicação não se enquadra com as provas.

Primeiro, o governador de Hiroshima informou Tóquio no mesmo dia em que Hiroshima foi bombardeada, de que cerca de 1/3 da população fora morta no ataque, e que 2/3 da cidade estava em ruínas. Essa informação não mudou ao longo de vários dias seguintes. Vale dizer que o efeito – o resultado final do bombardeio — já era conhecido desde o começo. Os líderes japoneses sabiam dos efeitos do ataque atômico desde o primeiro dia; mas mesmo assim não agiram na direção da rendição.

Segundo, o relatório preliminar preparado pela equipe do Exército que investigou o bombardeio de Hiroshima, e que deu detalhes do que acontecera lá, só veio à tona dia 10 de agosto. Também chegou a Tóquio depois que já estava tomada a decisão de render-se. Embora dia 8 de agosto já circulassem relatos verbais entre os militares, os detalhes do bombardeio só apareceram dois dias depois. É o mesmo que dizer que a decisão dos japoneses, de render-se, não foi consequência de alguma análise a fundo dos horrores em Hiroshima.

Terceiro, os militares japoneses sabiam, pelo menos em termos gerais, o que eram bombas atômicas. O Japão teve programa de bombas nucleares. Vários militares japoneses registram em diários, desde o primeiro dia, que Hiroshima fora destruída em ataque por bomba atômica. O general Anami Korechika, ministro da Guerra, chegou até a consultar o programa de armas nucleares do Japão, na noite de 7 de agosto. A ideia de que os comandantes japoneses não soubessem das bombas nucleares é absolutamente inverossímil.

Finalmente, um outro fato sobre o calendário cria um problema marcante. Em 8 de agosto, o ministro do Exterior Togo Shigenori foi ao primeiro-ministro Suzuki Kantaro e pediu que o Conselho Supremo fosse convocado para discutir o bombardeio de Hiroshima, mas os membros não aceitaram a convocação. Assim se vê que não é verdade que a crise ter-se-ia agravado dia a dia, até eclodir dia 9 de agosto. Qualquer explicação das ações dos governantes e militares japoneses que dependa do "choque" ante o bombardeio de Hiroshima tem de dar conta do fato de que consideraram reunir-se dia 8 de agosto e avaliaram que não era evento importante; e depois, de repente, decidiram discutir a rendição, logo no dia seguinte. Das duas uma: ou sucumbiram todos ao mesmo tipo de esquizofrenia coletiva; ou alguma outra coisa aconteceu, que foi a causa real de os japoneses terem decidido discutir a rendição.

Escala

Historicamente, o uso da Bomba pode parecer o evento isolado mais importante de toda a guerra. Mas, do ponto de vista contemporâneo dos japoneses, não parece muito fácil distinguir o evento "Bomba", de outros eventos da mesma guerra. É, afinal, difícil distinguir uma única gota de chuva no meio de um furacão.

No verão de 1945, a Força Aérea dos EUA levava a efeito uma das mais intensas campanhas de destruição de cidades habitadas de toda a história do mundo. 68 cidades japonesas estavam sendo atacadas e todas elas estavam ou parcialmente ou completamente destruídas. Estimadas 1,7 milhão de pessoas tinham ficado sem teto, 300 mil mortos e 750 mil feridos. 66 desses raids foram executados com bombas convencionais, dois com bombas atômicas. A destruição causada pelos ataques convencionais foi tremenda. Noite após noite, durante todo o verão, cidades eram reduzidas a ruínas fumegantes. No meio dessa cascata de destruição, não é surpresa que um ou outro homem ou mulher nem tenha percebido que algum ataque fosse efeito de algum tipo novo de arma.

Qualquer bombardeiro B-29 que decolasse das Ilhas Mariana poderia transportar — dependendo da localização do alvo e da altitude do ataque — algo entre 7 toneladas e 9 toneladas de bombas. Raid típico reunia 500 bombardeiros. Significa que um raid convencional típico deixava cair 4-5 kilotoneladas de bombas sobre cada cidade. (1 kilotonelada = 1.000 toneladas e é a medida padrão do poder explosivo de uma bomba atômica. A bomba de Hiroshima media 16,5 kilotoneladas; a de Nagasaki, 20 kilotoneladas.) Dado que muitas bombas distribuem uniformemente morte e destruição (o que significa "com mais efetividade"), mas uma bomba só, mais poderosa, concentra a maior parte do próprio poder no centro da explosão – com fragmentos que se espalham —, pode-se dizer que alguns dos raids convencionais aproximaram-se muito da destruição que seria causada pelas duas bombas atômicas.

A primeira das invasões convencionais, um ataque noturno em Tóquio, nos dias 9-10 de março de 1945, continua a ser o ataque único mais destrutivo em uma cidade na história da guerra. Algo como 16 milhas quadradas da cidade foram queimadas. Estima-se que 120.000 japoneses perderam suas vidas - o maior número de mortos de qualquer ataque a bomba em uma cidade.

Imagina-se, frequentemente, por causa do modo como a história é contada, que o bombardeio de Hiroshima tenha sido muito pior. Imaginamos que o número de mortos tenha sido descomunal. Mas se se comparam os números de mortos em todas as 68 cidades bombardeadas no verão de 1945, descobre-se que Hiroshima aparece em segundo lugar em termos de civis mortos. Se se mapeia o número de quilômetros quadrados destruídos, Hiroshima aparece em quarto lugar. Se se considera a porcentagem da cidade que foi destruída, Hiroshima foi a 17ª. Claramente Hiroshima ficou rigorosamente dentro dos parâmetros de todos os ataques convencionais levados a cabo naquele verão.

De nosso ponto de vista, Hiroshima parece singular, extraordinária. Mas se você se põe na pele dos líderes japoneses nas três semanas que levaram ao ataque contra Hiroxima, o quadro muda completamente. Se você fosse um dos membros chaves do governo japonês no final de julho, início de agosto, sua experiência do bombardeamento da cidade seria alguma coisa como a seguinte: Na manhã de 17 de julho, você teria sido acordado por notícias de que, durante a noite, quatro cidades haviam sido atacadas: Oita, Hiratsuka, Numazu e Kuwana. Dessas, Oita e Hiratsuka tiveram destruída mais de 50% da área. Kuwana, mais de 75%; e Numazu foi atingida ainda mais severamente, com cerca de 90% da cidade reduzida a montes de escombros. Três dias depois, você seria acordado para ser informado de que mais três cidades haviam sido atacadas. Mais de 80% de Fukui fora destruída. Uma semana adiante, e mais três cidades teriam sido atacadas durante a noite. Mais dois dias e mais seis cidades atacadas numa só noite, inclusive Ichinomiya, 75% da qual foi arrasado. Dia 2 de agosto, você chegaria ao escritório, para ler notícias de que mais quatro cidades haviam sido atacadas. E os relatórios incluiriam a informação de que Toyama (cidade do tamanho de Chattanooga, Tennessee em 1945), havia sido 99,5% destruída. Praticamente toda a cidade posta abaixo. Mais quatro dias, e mais quatro cidades destruídas. Dia 6 de agosto, só uma cidade foi atacada, Hiroshima; os relatórios falavam de grandes danos e de um novo tipo de bomba. Por que esse ataque do dia 6 de agosto ganharia excepcional destaque, no quadro de vasta destruição de cidades que já acontecia há semanas?

Nas três semanas antes de Hiroshima, 26 cidades foram atacadas pela Força Aérea dos EUA. Dessas, oito — quase 1/3 — foram destruídas tão completamente ou até mais completamente que Hiroshima (em termos de porcentagem de área da cidade destruída). O fato de que o Japão teve 68 cidades destruídas no verão de 1945 é desafio quase insuperável a quem deseje apresentar o bombardeamento de Hiroshima como causa da rendição dos japoneses. A questão é: se eles se renderam porque uma cidade foi destruída, por que eles não se renderam quando essas outras 66 cidades foram destruídas?

Se os líderes japoneses fossem se render por causa de Hiroshima e Nagasaki, seria de esperar que o bombardeio de outras cidades em geral, que os ataques contra tantas cidades os estivessem pressionando na direção da rendição. Nada parece ter acontecido desse modo. Dois dias antes de Tóquio ser bombardeada, o ministro de Relações Exteriores aposentado Shidehara Kijuro expressou um sentimento que parecia ser partilhado por todos os oficiais de alta patente naquele momento. Shidehara opinou que "as pessoas gradualmente se habituarão a ser bombardeadas diariamente. Com o tempo, a união entre todos e a coragem se fortalecerão." Numa carta para um amigo, disse que era importante para os cidadãos suportar os sofrimentos, porque "ainda que centenas de milhares de civis sejam mortos, feridos ou fiquem sem comida, ainda que milhões de prédios seja destruídos ou queimados", ainda assim a diplomacia precisava de mais tempo. Vale a pena lembrar que Shidehara era um moderado.

Nos mais altos níveis de governo — no Conselho Supremo — as atitudes eram aparentemente as mesmas. Embora o Conselho Supremo discutisse a importância de a União Soviética manter-se neutra, não tiveram discussão final sobre o impacto do bombardeio das cidades. Nos registros que foram preservados, não há sequer qualquer referência a cidades bombardeadas em discussões do Conselho Supremo, exceto em duas ocasiões: uma, em maio de 1945, referência de passagem; e outra na noite de 9 de agosto, durante discussão de temas gerais. Se se consideram as provas que há, é difícil convencer-se e acreditar que algum governante japonês entendesse que o bombardeio daquela cidade — comparado a outras questões prementes de uma guerra em andamento — tivesse qualquer significado maior ou excepcional.

O general Anami, dia 13 de agosto, observou que bombas atômicas não eram mais ameaçadoras que bombas incendiárias que o Japão suportara durante meses. Se Hiroshima e Nagasaki não eram piores que bombas incendiárias, e se governantes japoneses não as consideravam importantes a ponto de serem discutidas em profundidade, como é possível que Hiroshima e Nagasaki tivessem forçado os japoneses a se render?

Significado estratégico

Se os japoneses não estavam preocupados com cidades bombardeadas em geral, ou com o bombardeio de Hiroshima em particular, o que, afinal os preocupava? A resposta é simples: a União Soviética.

Os japoneses estavam em uma situação estratégica relativamente difícil. Eles estavam se aproximando do fim de uma guerra que estavam perdendo. As condições eram ruins. O Exército, no entanto, ainda era forte e bem suprido. Havia cerca de 4 milhões de japoneses em armas, e 1,2 milhão deles protegiam as ilhas japonesas.

Até os governantes mais linha dura no Japão sabiam que a guerra não podia prosseguir. A questão não era continuar ou não, mas como levar a guerra a uma conclusão sob as melhores condições possíveis. Os aliados (EUA, Grã-Bretanha e outros) — a União Soviética, lembrem, ainda estava neutra) exigiam "rendição incondicional". Os líderes japoneses tinham esperança de que conseguiriam encontrar um modo de evitar tribunais de crimes de guerra, de manter a própria forma de governo e de preservar alguns dos territórios que haviam conquistado: Coreia, Vietnã, Burma, partes da Malásia e Indonésia, grande porção da China oriental e numerosas ilhas no Pacífico.

Os japoneses tinham dois planos para conseguir melhores condições para a rendição; tinham, em outras palavras, duas opções estratégicas. A primeira era diplomática. O Japão havia assinado um pacto de neutralidade por cinco anos com os soviéticos, em abril de 1941, que expiraria em 1946. Um grupo de líderes, a maioria civis, e liderados pelo ministro de Relações Exteriores Togo Shigenori tinha esperanças de convencer Stalin a mediar um acordo entre, por um lado os EUA e seus aliados, e, por outro, o Japão. Ainda que esse plano fosse coisa de longo prazo, refletia pensamento estratégico consistente e sólido. Afinal, interessava à União Soviética garantir que os termos desse eventual acordo não fossem excessivamente favoráveis aos EUA: qualquer ampliação na influência e poder dos EUA na Ásia significaria diminuição na influência e no poder dos soviéticos.

O segundo plano era militar, e a maioria dos seus defensores, liderados pelo ministro do Exército Anami Korechika, eram militares. Esses contavam com as forças terrestres do Exército Imperial para infligir baixas pesadas nas forças americanas quando invadissem. Se fossem bem-sucedidas, sentiam os japoneses, talvez conseguissem que os EUA oferecessem melhores termos. Essa estratégia também era movimento de longo prazo. Os EUA pareciam profundamente empenhados em obter rendição incondicional. Mas, dado que, sim, havia preocupação nos círculos militares dos EUA, para os quais as baixas em grandes números seriam fator impeditivo de qualquer invasão, a estratégia do alto comando japonês não era completamente sem sentido.

Um modo de aferir se foi o bombardeio de Hiroshima ou a invasão e declaração de guerra pelos soviéticos, que levou o Japão a render-se, é comparar o modo como esses eventos afetaram a situação estratégica. Depois que Hiroshima foi bombardeada em 8 de agosto, as duas possibilidades continuavam abertas. Ainda seria possível pedir que Stalin fizesse alguma mediação (e as entradas do dia 8 de agosto no diário de Takagi mostram que pelo menos alguns líderes japoneses ainda cogitavam de tentar envolver Stalin). Também permanecia possível tentar combater uma última e decisiva batalha, para infligir aos EUA número pesado de baixas. A destruição de Hiroshima em nada reduziu a prontidão dos soldados japoneses entrincheirados nas praias das ilhas japonesas. Havia, sim, uma cidade a menos na retaguarda, mas os soldados continuavam em suas trincheiras, ainda tinham munição e aquela força militar não sofrera qualquer redução relevante. O bombardeio e a destruição de Hiroshima em nada alterou as opções estratégicas com as quais o Japão trabalhava.

Muito diferente disso, contudo, foi o impacto da declaração de guerra e a invasão, pelos soviéticos, da Mandchúria e da Ilha Sakhalin. Tão logo a União Soviética declarasse guerra, Stalin deixaria de poder atuar como mediador – passava a ser força beligerante. Equivale dizer que a opção diplomática foi varrida do mapa pelo movimento dos soviéticos. O efeito sobre a situação militar foi igualmente dramático. Muitas das melhores tropas do Japão haviam sido deslocadas para a parte sul das ilhas japonesas. Os militares haviam estimado corretamente que o primeiro alvo de uma invasão americana seria a ilha de Kyushu, no extremo sul. O orgulhoso exército Kwangtung na Mandchúria, por exemplo, não passava de uma sombra do que fora, porque suas melhores unidades haviam sido deslocadas para defender o próprio Japão. Quando os russos invadiram a Mandchúria, cortaram como manteiga o que um dia fora um exército de elite e muitas unidades russas só pararam de avançar quando ficaram sem combustível. O 16º Exército Soviético — 100 mil soldados — invadiu pela metade sul da Ilha Sakhalin. Tinham ordens para destruir a resistência japonesa ali e depois — dentro de 10 a 14 dias — estar preparados para invadir Hokkaido, a mais setentrional das ilhas japonesas. A força japonesa encarregada de defender Hokkaido, o Exército da 5ª Área, fora reduzida para duas divisões e duas brigadas, e ocupava posições fortificadas no lado leste da ilha. O plano de ataque dos soviéticos mandava invadir Hokkaido pelo oeste.

Não é preciso ser gênio militar para compreender que, por mais que fosse possível combater batalha decisiva com uma grande potência que invadisse de um lado, jamais seria possível combater duas grandes potências que invadissem de duas diferentes direções. A invasão soviética invalidou a estratégia da batalha decisiva dos militares, tão completamente como invalidou também a estratégia diplomática. Num só golpe, evaporaram-se todas as opções com que o Japão vinha trabalhando. A invasão soviética foi estrategicamente decisiva — derrubou as duas opções do Japão. O ataque a Hiroshima nem tangenciou as estratégias japonesas, que permaneceram, depois do ataque, exatamente como estavam antes dele.

A declaração de guerra pelos soviéticos também alterou o cálculo de quanto tempo ainda havia para manobrar. A inteligência japonesa previa que as forças dos EUA dificilmente invadiriam nos meses seguintes. As forças soviéticas, por sua vez, podiam estar dentro do Japão em coisa de dez dias. A invasão soviética, sim, tornou extremamente urgente a necessidade de decidir sobre o fim da guerra.

E os líderes do Japão tinham chegado a essa conclusão, alguns meses antes. Em uma reunião do Conselho Supremo em junho de 1945, eles disseram que a entrada soviética na guerra "poderia determinar o destino do Império." O Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército Kawabe disse, na mesma reunião, "A manutenção absoluta da paz em nossa relação com a União Soviética é imperativo para a continuação da guerra ".

Os líderes do Japão mostraram consistentemente absoluto desinteresse pelo bombardeio que estava destruindo suas cidades. Ainda que isso possa não ter sido bem verdade quando o bombardeio começou em março de 1945, certamente já era plena verdade quando Hiroshima foi atacada: os estrategistas japoneses viam o bombardeio de cidades como um show colateral sem importância, em termos de impacto estratégico. Quando Truman, em frase que ganhou fama, ameaçou lançar "uma chuva de ruína" sobre cidades japonesas que não se rendessem, poucos, nos EUA, deram-se conta de que, na verdade, restava praticamente nada por destruir. Em 7 de agosto, quando Truman lançou sua ameaça, restavam ao Japão apenas 10 cidades com mais de 100 mil habitantes que ainda não haviam sido bombardeadas. Depois que Nagasaki foi atacada em 9 de agosto, restaram só nove. Quatro delas localizavam-se na ilha de Hokkaido, no extremo norte, difícil de bombardear por causa da distância em relação à Ilha Tinian, onde estava a base dos aviões dos EUA. Kioto, a antiga capital do Japão já havia sido retirada da lista de alvos por Henry Stimson, secretário da Guerra, por sua importância religiosa e simbólica. Assim, apesar do rugir da ameaça de Truman, depois que Nagasaki foi bombardeada só restavam quatro cidades importantes que ainda poderiam servir como alvo de bombas atômicas.

A amplidão da campanha da Força Aérea dos EUA no quesito bombardear cidades pode ser aferida pelo fato de que já haviam bombardeado tantas cidades japonesas, que só restavam cidades com 30 mil habitantes, ou menos. No mundo moderno, 30.000 não é mais que uma cidade grande.

Claro que sempre seria possível bombardear cidades já bombardeadas com bombas incendiárias. Mas essas cidades já estavam 50% destruídas, em média. Ou os EUA poderiam ter usado armas atômicas contra cidades menores. Mas só havia seis dessas (com população entre 30 mil e 100 mil habitantes), que ainda não haviam sido bombardeadas. Dado que o Japão já sofrera danos graves causados por bombas em 68 cidades e não se deixara abater, não surpreende que os líderes japoneses tampouco se tenham deixado impressionar muito pela ameaça de mais bombardeios. E não era ameaça estrategicamente crível.

Uma história conveniente

Apesar de haver essas três objeções poderosas, a interpretação tradicional ainda domina o pensamento da maioria das pessoas, principalmente nos EUA. Há forte resistência contra considerar os fatos. Mas, afinal, não se pode dizer que essa resistência seja surpreendente. É preciso não esquecermos o quanto é emocionalmente conveniente a versão tradicional para o ataque a Hiroshima — e para os dois lados, para o Japão, como para os EUA. Há ideias que persistem por serem verdadeiras, mas infelizmente também há ideias que persistem porque são emocionalmente confortadoras, vale dizer, porque suprem alguma carência psicológica importante. Por exemplo, ao final da guerra a interpretação tradicional de Hiroshima ajudou os líderes japoneses a alcançar vários importantes objetivos políticos, tanto no cenário doméstico como no cenário internacional.

Ponham-se no lugar do imperador. Você acaba de conduzir o país através de guerra desastrosa. A economia está em frangalhos. 80% das cidades foram bombardeadas e incendiadas. O Exército sofreu uma cadeia de derrotas terríveis. A Marinha foi dizimada e encurralada nos próprios portos. Há fome generalizada. Em resumo, a guerra foi total catástrofe e, pior que tudo, você vem mentindo ao seu povo, já há tempos, e escondeu a real gravidade da situação. O povo ficará chocado com a notícia de que o país rendeu-se. O que você pode ainda tentar? Admitir que fracassou miseravelmente? Emitir uma declaração de que você errou espetacularmente nas suas previsões, repetiu incontáveis vezes os próprios erros e causou dano monstruoso ao país? Ou você escolhe transferir a culpa para uma terrível novidade científica, uma bomba que ninguém jamais vira e não poderia prever? Num único passo, a possibilidade de transferir a derrota para o evento bomba atômica cancelou todos os erros de cálculo e de comando dos japoneses durante a guerra e varreu-os todos para baixo do tapete. A bomba foi a desculpa perfeita por ter perdido a guerra. Além do mais, cancelava todos os tribunais de guerra e correspondentes investigações. Assim, no nível mais geral, a bomba serviu para desviar a culpa dos líderes japoneses.

Mas atribuir à bomba a derrota do Japão também serviu a três outros específicos objetivos políticos. Primeiro, ela ajudou a preservar a legitimidade do imperador. Se a guerra estava perdida não por causa de erros, mas por causa da arma milagrosa inesperada do inimigo, então a instituição do imperador pôde continuar a encontrar apoio dentro do Japão.

Em segundo lugar, apelou a simpatia internacional. O Japão fizera guerra de agressão, com brutalidade terrível contra povos conquistados — comportamento que as nações com certeza condenariam. Mas poder apresentar o Japão como nação vítima — nação injustamente bombardeada por aquele terrível, horrível, jamais antes visto instrumento de guerra — ajudaria a apagar alguns dos feitos moralmente repugnantes dos militares japoneses. Desviar todas as atenções para as bombas atômicas ajudou a apresentar o Japão sob luz mais simpática e a esvaziar movimentos que pregassem outras punições por crimes de guerra.

E por fim, a versão de que a bomba vencera a guerra também servia bem a interesses dos vencedores. A ocupação americana só terminou oficialmente em 1952; nesse período, os EUA puderam mudar, ou reconstruir a sociedade japonesa, na direção que mais lhes interessava. Durante os primeiros dias da ocupação, muitos funcionários japoneses preocupavam-se com a ideia de que os americanos estivessem decididos a abolir a instituição do imperador. E preocupavam-se também com o alto risco de serem acusados de terem cometido crimes de guerra e julgados em tribunais especiais (os tribunais para crimes de guerra que julgavam os governantes alemães já estavam em curso na Europa, quando o Japão rendeu-se). Asada Sadao, historiador japonês disse exatamente isso em várias entrevistas que deu depois da guerra, que "os oficiais japoneses... estavam obviamente ansiosos, querendo agradar os interrogadores americanos." Se os americanos tanto queriam crer que a bomba venceu a guerra, por que desapontá-los?

Atribuir o fim da guerra à bomba atômica serviu em vários sentidos a interesses do Japão. Mas também serviu a interesses dos EUA. Se a bomba vencesse a guerra, a percepção do poderio militar dos EUA só aumentaria, a influência diplomática dos EUA na Ásia e em todo o mundo também cresceria, e a segurança dos EUA também sairia fortalecida. Mas se os japoneses só se tivessem rendido quando os soviéticos declararam guerra e invadiram o país, nesse caso os soviéticos diriam que fizeram em quatro dias o que os EUA não conseguiram fazer em quatro anos; e cresceria a percepção do poder militar soviético; e cresceria a influência militar e a influência diplomática dos soviéticos. Com a Guerra Fria já em curso, declarar que o exército soviético fora o fator decisivo seria garantir ajuda e condições de avançar, ao inimigo.

É estranho, dada a discussão que desenvolvemos aqui, perceber o quanto os fatos de Hiroshima e Nagasaki estão no cerne de tudo que pensamos sobre armas nucleares. Os eventos de que aquelas duas cidades foram palco são as pedras basilares de tudo que dizemos sobre a importância de armas nucleares. É crucial, para que as bombas atômicas preservem o status especial que ainda têm, que não se apliquem a elas as regras normais da guerra e das ameaças de guerra: a ameaça feita por Truman, de que faria chover "uma chuva de ruína" sobre o Japão, foi a primeira ameaça nuclear explícita que a história registrou. E é chave para a aura de poder invencível que cerca as bombas atômicas e as torna tão importantes nas relações internacionais.

Mas o que devemos fazer com todas essas conclusões se a história tradicional de Hiroshima é posta em dúvida? Hiroshima é o centro, o ponto a partir do qual todas as outras reivindicações e afirmações irradiam. No entanto a, história que nos contamos a nós mesmos, contudo, parece muito apartada dos fatos. O que pensar das armas atômicas, se esse descomunal primeiro feito — o milagre da repentina rendição do Japão — é desmascarado e exposto como mito?

27 de maio de 2013

Vindo do Iraque, um trágico apelo ao processo dos criminosos de guerra

Por John Pilger
[John Pilger Official Website] A poeira do Iraque invade as longas estradas que são os dedos do deserto. Ela entra pelos olhos, nariz e garganta; rodopia em mercados e pátios escolares, contaminando crianças chutando bola; e transporta, segundo o Dr. Jawad Al-Ali, "as sementes da nossa morte". Um especialista em câncer reputado internacionalmente que trabalha no Sadr Teaching Hospital, em Bassorá, o Dr. Ali disse-me isso em 1999 – e hoje a sua advertência é irrefutável. "Antes da Guerra do Golfo", disse ele, "tínhamos dois ou três pacientes de câncer por mês. Agora temos 30 a 35 morrerendo a cada mês. Nossos estudos indicam que 40 a 49 por cento da população nesta área contrairá câncer: num período de tempo de cinco anos para começar, a seguir pouco mais. Isso é quase a metade da população. A maior parte da minha própria família contraiu e nós não temos historial da doença. Aqui é como em Chernobil; os efeitos genéticos são novos para nós; os cogumelos crescem enormemente; mesmo as uvas no meu jardim sofreram mutações e não podem ser comidas".

Ao longo do corredor, a Dra. Ginan Ghalib Hassen, uma pediatra, mantém uma colecção de fotos das crianças que estava tentar a salvar. Muitas têm neuroplastoma. "Antes da guerra, em dois anos vimos apenas um caso deste tumor inabitual", disse ela. "Agora temos muitos casos, sobretudo sem historial familiar. Estudei o que aconteceu em Hiroshima. O aumento súbito de malformações congénitas é o mesmo".

Entre os médicos que entrevistei havia pouca dúvida de que as munições de urânio empobrecido (depleted uranium, DU) utilizadas pelos americanos e britânicos na Guerra do Golfo fossem a causa. Um médico militar dos EUA designado para limpar o campo de batalha da Guerra do Golfo ao longo da fronteira no Kuwait afirmou: "Cada rajada disparada por um ataque de avião A-10 Warthog transportava mais de 4.500 gramas de urânio sólido. Bem mais de 300 toneladas de DU foram utilizadas. Foi uma forma de guerra nuclear".

Embora a ligação com o câncer seja sempre difícil de provar absolutamente, os médicos iraquianos argumentam que "a epidemia fala por si mesma". O oncologista britânico Karol Sikora, chefe do programa de câncer da Organização Mundial de Saúde (OMS) na década de 1990, escreveu no British Medical Journal: "Equipamentos de radioterapia, drogas de quimioterapia e analgésicos são sistematicamente bloqueados pelos conselheiros dos Estados Unidos e Grã-Bretanha [no Comitê de Sanções ao Iraque]". Ele acrescentou: "Disseram-nos especificamente [por parte da OMS] para não falar acerca de todo o assunto do Iraque. A OMS não é uma organização que goste de se envolver em política".

Recentemente, Hans von Sponeck, o antigo assistente do secretário-geral das Nações Unidas e alto responsável humanitário da ONU no Iraque, escreveu-me: "O governo dos EUA procurou impedir a OMS de inspecionar áreas no Sul do Iraque onde foi utilizado urânio empobrecido e provocou graves perigos de saúde e ambientais".

Hoje, relata a OMS, o resultado de um estudo fundamental efetuado em conjunto com o Ministério da Saúde do Iraque foi "adiado". Cobrindo 10.800 famílias, ele contém "evidência incriminatória", diz um responsável do ministério e, segundo um dos seus investigadores, permanece "top secret". O relatório diz que defeitos de nascimento ascenderam até uma "crise" por toda a sociedade iraquiana onde DU e outros metais pesados tóxicos foram utilizados pelos estado-unidenses e britânicos. Catorze anos depois de soar o alarme, o Dr. Jawad Al-Ali relata "fenomenais" casos de câncer múltiplo em famílias inteiras.

O Iraque já não é notícia. Na semana passada, a morte de 57 iraquianos num dia foi um não acontecimento em comparação com o assassinato de um soldado britânico em Londres. Mas as duas atrocidades estão conectadas. O seu emblema pode ser um dispendioso novo filme de "The Great Gatsby", de F. Scott Fitzgerald. Dois dos principais personagens, como escreveu Fitzgerald, "destroem coisas e criatura e retiram-se de volta para o refúgio do seu dinheiro ou para a sua ampla indiferença... e deixam outras pessoas limparem a sujeira".

A "sujeira" deixada por George Bush e Tony Blair no Iraque é uma guerra sectária, as bombas de 7/7 e agora um homem a agitar um sangrento cutelo de carne em Woolwich. Bush retirou-se para a sua "biblioteca e museu presidencial" Mickey Mouse e Tony Blair para as suas viagens de gralha e o seu dinheiro.

A sua "sujeira" é um crime de proporções monstruosas, escreveu Von Sponeck, referindo-se à estimativa do Ministério de Assuntos Sociais iraquiano de 4,5 milhões de crianças que perderam ambos os pais. "Isto significa que uma horrenda proporção de 14,5 por cento da população do Iraque é constituída por órfãos", escreveu. "Estima-se que um milhão da famílias são dirigida por mulheres, a maior parte delas viúva". A violência doméstica e o abuso de crianças são certamente questões urgentes na Grã-Bretanha; no Iraque a catástrofe inflamada pela Grã-Bretanha trouxe violência e abuso a milhões de lares.

No seu livro "Telegramas do lado escuro" ("'Dispatches from the Dark Side"), Gareth Peirce, a grande advogada britânica de direitos humanos, aplica a regra da lei a Blair, ao seu propagandista Alastair Campbel e ao seu gabinete de ministros coniventes. Para Blair, escreveu ela, "seres humanos que se presume possuírem pontos de vista [islâmicos] deviam ser incapacitados por quaisquer meios possíveis e permanentemente... na linguagem de Blair um "vírus" a ser "eliminado" e exigindo "uma miríade de intervenções [sic] profunda nos assuntos de outras nações". O próprio conceito de guerra sofreu mutação para "nossos valores versus os seus". E ainda assim, afirma Peirce, "as séries de emails, comunicados internos do governo, não revelam dissenso".

Para o secretário dos Negócios Estrangeiros Jack Straw, enviar cidadãos britânicos inocentes para Guantanamo era "o melhor meio de cumprir nosso objetivo contra o terrorismo". Estes crimes, sua iniquidade a par com o de Woolwich, aguardam processo. Mas quem os exigirá? No teatro kabuki da política de Westminster, a violência distante dos "nossos valores" não tem interesse. Será que nós os restantes também viraremos as costas?


John Pilger teve sua carreira como repórter iniciada em 1958, e ao longo dos anos tornou-se famoso pelos livros e documentários que escreveu ou produziu. Especializou-se nas áreas de jornalismo investigativo e direitos humanos.

15 de maio de 2013

A nova Roma: a UE e a pilhagem dos países endividados

C. J. Polychroniou


Tradução / A União Europeia (UE) é uma organização baseada num tratado que foi estabelecido após a II Guerra Mundial como meio de pôr fim à prática favorita dos europeus: dirimir as suas diferenças nacionais através de guerras sangrentas. A experimentação europeia – a formação de um Mercado Comum¹, que conduziria à união econômica e monetária – ficou ligada a alguns resultados notáveis: a Europa experimentou seu mais longo período de paz desde o fim da II Guerra Mundial e a guerra entre estados-membros europeus agora parece altamente improvável. Naturalmente, altos responsáveis da UE nunca perdem uma oportunidade para recordar ao público este feito sempre que as políticas da "nova Roma" são questionados por uma cidadania europeia já farta de processos autoritários de tomada de decisão, salvamentos de bancos mascarados como salvamentos nacionais, políticas de austeridade e a pilhagem dos países devedores pelo centro.²

A ausência de guerra entre países europeus na era do pós guerra e os movimentos históricos rumo à integração europeia que levaram à formação da eurozona apontam, no entanto, na direção de uma correlação e não de uma relação causal entre estas duas variáveis. Indiscutivelmente, a própria natureza e estrutura do sistema mundial que emergiu na era do pós guerra – com os Estados Unidos alcançando o status de super-potência, a ameaça soviética, a formação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a utilização de armas nucleares para manter um equilíbrio de poder – minimizou substancialmente as perspectivas de novas guerra entre inimigos tradicionais da Europa. Talvez haja mesmo algo a ser dito aqui acerca do impacto muito profundo que a II Guerra Mundial deve ter tido sobre as consciências de líderes da Europa e o seu público.

A experimentação europeia de integração – desde a Comunidade Econômica Europeia (CEE) à UE de hoje – alegadamente também fez uma grande diferença positiva no desenvolvimento econômico e social de estados-membros europeus, incluindo os da periferia. Esta afirmação é altamente discutível, se não mesmo um exagero absoluto. O livre movimento de capitais, trabalho e bens dentro da UE funcionou bem por algum tempo – para o capital financeiro, por um lado, e, por outro, para o núcleo de países que tinham uma vantagem competitiva desde o princípio. Embora grandes benefícios se hajam acumulado para aqueles que se aproveitaram plenamente (capitalistas internos também) da era da financiarização, a ilusão da convergência e de padrões de vida mais elevados para todos foi estilhaçada, com tendências de desigualdade a crescerem substancialmente tanto dentro como entre estados-membros. 

Para que não esqueçamos: as fraquezas econômicas da Europa já eram evidentes na década de 1970, apesar da explosão de acordos intra-CEE durante este período. O Ato Único Europeu (AUE) de 1986 foi uma reação política da parte da CEE à crise estrutural que então confrontava os 12 estados-membros em vias de se tornarem "um mercado sem um estado". Com a maior parte dos estados-membros tendo já abandonado o keynesianismo (Jepsen e Pascual 2006, 52), o AUE era uma tentativa desesperada de aumentar a "competitividade" e promover lucros corporativos, e cimentou o fim da era do "capitalismo administrado" na Europa.³ Ao invés de proteções sociais e crescimento através de políticas tributárias orientadas, foi a mentalidade de mercado que passou a dominar. A estabilidade de preços substitui a ênfase nos empregos e a "reforma do mercado de trabalho" tornou-se a nova doutrina. O AUE também abriu o caminho para a privatização maciça e a liberalização dos mercados financeiros.

O "capitalismo de livre mercado" chegou à Europa. O capitalismo de livre mercado é, naturalmente, um dos grandes mitos do nosso tempo (Chang 2008, 2012). O neoliberalismo – a formulação político-ideológica e o projeto econômico para o avanço de mercados "livres" – é acima de tudo um assalto corporativo/financeiro ao estado previdência e ao padrão de vida das classes trabalhadoras, baixa tributação para as corporações e os ricos, aumento da exploração do trabalho, mobilidade irrestrita do capital e posicionamento estratégico do capital para novas oportunidades de mercados através da remoção de barreiras políticas e econômicas internas. O neoliberalismo não acaba com o estado, mas ao invés disso posiciona o estado para servir exclusivamente os interesses do capital. Ao nível global, o objetivo do neoliberalismo é enfraquecer o poder do estado em economias periféricas através da assistência e colaboração da elite política interna, a qual, em contrapartida, ganha acesso mais direto aos recursos e riquezas das economias em questão. Essencialmente, portanto, o neoliberalismo representa uma doutrina ideológica propagada e imposta pelos países do núcleo sobre os da periferia, enquanto o "núcleo" reserva-se o direito de praticar políticas protecionistas em casa (e muitas vezes o faz) em benefício das suas próprias indústrias favoritas e negócios oligopólicos. Portanto, o AUE não deveria ser visto como uma estratégia de "livre mercado" super abrangente da parte da CEE. Sua remoção de barreiras para a expansão do "livre comércio" era limitada a países europeus; países de fora do mercado europeu foram excluídos. Mesmo hoje, países pobres da América Latina e da África consideram quase impossível penetrar o mercado europeu com seus produtos agrícolas.

Além disso, tal como com a promoção de qualquer projeto neoliberal, e em agudo contraste com a retórica oficial, às instituições a que falta qualquer responsabilidade e legitimidade foi atribuída importância fundamental desde o princípio do movimento rumo a uma "Europa anti-social" (Parsons 2010). Portanto não é um acidente que a UE se tenha tornado um enorme labirinto burocrático, completamente afastada do escrutínio público e totalmente irresponsável perante os seus cidadãos. Sua natureza não democrática (se não anti-democrática) é especialmente gritante e tem piorado ao longo do tempo.[4] O Parlamento Europeu é uma instituição politicamente impotente pois todas as principais atividades legislativas são empreendidas pelo Conselho de Ministros – uma instituição com nenhuma legitimidade democrática qualquer que seja uma vez que os seus membros exercem um papel no interior da UE para o qual não foram eleitos nem mesmo indiretamente. A Comissão Europeia é outra instituição não eleita que possui muito poder político.

A UE está concebida de modo a facilitar a satisfação direta das necessidades e preocupações de interesses poderosos e não os do cidadão comum. Tal como o famoso "princípio da subsidiaridade", introduzido como artigo 3b no Tratado Estabelecendo a Comunidade Europeia e posteriormente incorporado no Tratado de Maastricht (ver abaixo) como artigo 5 – e que muitos continuam a tratar como prova da natureza democrática do processo decisional na UE – é mais uma ilusão de ótica do que qualquer outra coisa. O "princípio da subsidiaridade" não assevera, como muitas vezes é afirmado, que as decisões serão tomadas no nível mais baixo possível, mas sim que "a Comunidade entrará em ação, de acordo com o princípio da subsidiaridade, somente se e na medida em que os objetivos da ação proposta não possa ser suficientemente alcançado pelos Estados Membros e possam portanto, devido à escala ou efeitos da ação proposta, ser melhor atendidos pela Comunidade".

O que agora está a tornar-se muitíssimo claro é que todas as principais decisões da UE são tomadas ao nível de topo por responsáveis não eleitos ao passo que os cidadãos nacionais são relegados a um status igual ao desfrutado pelos súditos da antiga Roma. Na atual crise de dívida da eurozona, mesmo os chefes dos estados-membros endividados têm muito pouco a dizer no processo de tomada de decisão, com o ministro alemão das Finanças a comportar-se como um César.

O tipo de processo de europeização que foi desencadeado desde a assinatura do Tratado de Maastricht em 1992 é completamente alheio à visão de uma Europa social e democrática. Este desenvolvimento também tem tido um impacto catastrófico sobre a capacidade de governos nacionais tratarem eficazmente as necessidades específicas das suas próprias economias e sociedades, como se confirma brutalmente pela atual crise econômica global.

O Tratado de Maastricht incorporou as ideias e princípios chave que estavam incluídos no AUE e prosseguiu com a institucionalização formal de um quadro neoliberal para a direção futura das economias europeias, incluindo o estabelecimento de uma união monetária e um Banco Central Europeu (BCE).[5] Na essência, o tratado formalizou o impulso rumo à "Europa anti-social" e esboçou de uma maneira específica os passos a serem dados para a adoção de uma moeda única (a transição para a formação de uma União Monetária Europeia [UME] devia envolver três etapas entre 1993 e 1999, quando ocorreu o lançamento oficial da eurozona). De acordo com o tratado, o qual procurava permitir que apenas bons candidatos aderissem à UME, qualquer economia europeia em convergência tinha o direito de adotar o Euro, desde que:

  • sua taxa de inflação não estivesse mais do que 1,5 por cento acima da média das três taxas de inflação mais baixas entre países da UE; 
  • sua dívida e défice governamental não fossem mais do que 60 por cento e 3 por cento do seu PIB, respectivamente; 
  • houvesse aderido ao mecanismo de taxa de câmbio do Sistema Monetário Europeu e mantivesse margens de flutuação normal das taxas de câmbio durante dois anos sem que disso decorressem tensões graves; e 
  • sua taxa de juro a longo prazo não estivesse mais do 2,0 por cento acima daquela dos três países com a mais baixa taxa de inflação. (Ver Mulhearn 2005, 59.)

Todos estes números foram obtidos de modo arbitrário. Por que deveriam os défices terem sido de 3 por cento e a dívida nacional de menos de 60 por cento do PIB? Dado o papel dominante do deutsche mark na época, provavelmente é uma boa suposição imaginar que os números foram uma invenção do Bundesbank – assim como a concepção do BCE, com sua gritante omissão da função de prestamista de último recurso. De certo modo, no entanto, estes números também eram virtualmente sem significado pois foram sistematicamente violados pelos estados que procuravam aderir à UME – incluindo, em primeiro lugar e acima de tudo, a própria Alemanha. Mas pelo caminho, quando as coisas se encaminharam para o Euro, estas referências para rácios de défices e dívida em relação ao PIB demonstrar-se-iam como ferramentas muito úteis para impor a ortodoxia econômica alemã.

A adoção de uma moeda única foi saudada pelos defensores do Euro como a maior experimentação da história financeira. Deveria na verdade ter sido apregoada como a mais selvagem experimentação da história financeira: a eurozona devia incluir estados independentes, com sistema econômicos e padrões culturais altamente diversos, aos quais foi exigido abandonar a soberania monetária nacional substituindo-a por uma divisa "estrangeira" sem o apoio de um Tesouro ou um Banco Central pronto para atuar como prestamista de último recurso no caso de uma crise financeira.

Wynne Godley, aliás um advogado da integração política europeia, de modo sagaz apontou as deficiências incluídas no Tratado de Maastricht num ensaio em 1992 na London Review of Books:

A ideia central do Tratado de Maastricht é que os países da CE deveriam caminhar para uma união econômica e monetária, com uma moeda única administrada por um banco central independente. Mas como será dirigido o resto da política econômica? Como o tratado não propõe novas instituições além de um banco europeu, seus promotores devem supor que nada mais é necessário. Mas isto só poderia ser correto se as economias modernas fossem sistemas auto-ajustados que não precisassem de todo de qualquer gestão.

Sou levado à conclusão de que uma tal visão – de que economias são organismos auto-correctores que em quaisquer circunstâncias precisam de serem administrados – na verdade determinou o modo pelo qual o Tratado de Maastricht foi estruturado. Trata-se de uma versão bruta e extrema da visão que desde há algum tempo tem constituído a sabedoria convencional da Europa (embora não a dos EUA ou do Japão), de que governos são incapazes e, portanto, não deveriam tentar, alcançar quaisquer dos objectivos tradicionais da política económica, tais como crescimento e pleno emprego. Tudo o que pode ser feito legitimamente, de acordo com esta visão, é controlar a oferta de moeda e equilibrar o orçamento. Isso levou a que um grupo em grande medida composto por banqueiros (o Comité Delors) chegasse à conclusão de que um banco central independente era a única instituição supra-nacional necessária para dirigir uma Europa integrada e supra-nacional.

Mas há muito mais quanto a isto tudo. É preciso enfatizar à partida que o estabelecimento de uma moeda única na CE na verdade poria fim à soberania dos seus países componentes e ao seu poder para tomar uma ação independente sobre grandes questões. Como o sr. Tim Congdon argumentou muito convincentemente, o poder para emitir a sua própria moeda, para se financiar no seu próprio banco central, é a principal coisa que define independência nacional. Se um país abandona ou perde este poder, adquire o status de uma autoridade local ou colónia. Autoridades locais e regionais obviamente não podem desvalorizar. Mas elas também perdem o poder de financiar défices através da criação de moeda ao passo que outros métodos de obter financiamentos são sujeitos à regulação central. Nem tão pouco pode alterar taxas de juro. Como autoridades locais não possuem nenhum dos instrumentos de política macroeconómica, sua opção política está confinada a assuntos relativamente menores quanto à ênfase – um bocado mais de educação aqui, um bocado menos de infraestrutura acolá. Penso que quando Jacques Delors coloca uma nova ênfase sobre o princípio da "subsidiaridade", ele está realmente a contar-nos que nos permitirão tomar decisões acerca de um grande número de assuntos relativamente menos importantes do que podíamos ter imaginado anteriormente. Talvez ele nos deixe ter pepinos enrolados afinal de contas. Grande coisa! (Godley 1992)

A chamada arquitetura "enviesada" da UME não se deveu a um "erro técnico". Como já argumentei, ela tem origem nas próprias premissas do pensamento económico fundamentalmente neoliberal que se apossou da mentalidade dos decisores políticos europeus na década de 1980 no seu esforço aparente por encontrar um meio de acabar com a "euro-esclerose" (Miller 1997) e promover os lucros corporativos europeus. A súbita mudança de uma economia social de mercado, a qual ganhou raízes na década de 1940 e prevaleceu até o princípio da de 1980, para uma economia de mercado laissez-faire foi demasiado flagrante para ser ignorada. No momento em que o Tratado de Maastricht foi assinado, círculos europeus de decisores políticas haviam-se tornado obcecados com a crença em que as variáveis críticas para o crescimento, fidedignidade e convergência eram encontráveis no comércio e na concorrência livres (artigo 102a), profunda integração financeira e nenhumas restrições a movimentos de capitais (artigo 73b).

O Tratado de Maastricht deveria ser entendido como a expressão política de uma inclinação socializada da elite europeia em favor da internacionalização do capital. Para além de toda a conversa cerca do "livre comércio" estava o desejo inequívoco de satisfazer as necessidades das multinacionais e indústrias oligopolistas europeias. [6] A década de 1980 foi de megafusões e aquisições e isto refletiu-se na crescente excitação que um mercado comum produzia no mundo europeu dos negócios. Na década de 1990, houve uma nova e muito mais explosiva onda de fusões e aquisições na Europa cujo valor "era quase tão grande quanto os negociados nos Estados Unidos" (Gaughan 2007, 63). Finalmente, a mania da desregulamentação que irrompeu levou a um enorme processo de consolidação por parte do sector bancário.

Foi no contexto destes desenvolvimentos económicos que o Tratado de Maastricht foi moldado, assentando a fundação da estrutura altamente problemática da União Europeia que temos hoje. O movimento rumo à adopção de uma moeda única é consistente com a visão da criação de um mercado europeu unificado com um estado reduzido, com base na crença de que menos "interferência" do estado abre o caminho para operações de negócios mais eficientes e custos unitários do trabalho mais baixos. Não é uma crença que promova desenvolvimento sustentável ou sociedades que funcionem bem e decentes. Com a adopção de uma moeda única, o espaço para a tomada de decisão política nacional foi gravemente constrangido e, na ausência de um governo federal para atender questões de pleno emprego e convergência, a austeridade tornou-se, como que por padrão, uma componente integral da nova economia política europeia, proporcionando uma parceria perfeita para a flexibilidade do trabalho e outras medidas de reformas anti-sociais – privatização, a mercantilização da saúde e da educação, pensões de reforma – todas elas direccionadas para a completa mercantilização da sociedade.

O processo de uma plena integração capitalista europeia, tal como iniciada pelo AUE e formalizada pelo Tratado de Maastricht, não é um fenómeno novo em si mesmo. O crescimento da integração económica mundial teve um ímpeto tremendo desde meados do século XIX até o estalar da I Guerra Mundial (O'Rourke e Williamson 1999). Os processos de integração europeia também não são qualitativamente diferentes dos processos de integração regional que tiveram lugar em outras partes do mundo – embora seja verdade que não temos estudos comparativos adequados envolvendo a UE e outras espécies de organizações regionais. Mas mesmo se a encararmos como uma entidade política (polity) ao invés de um regime regional ou mesmo internacional, a UE ainda não é única, uma vez que já temos para fins de comparação os casos federais ou semi-federais dos Estados Unidos, Canadá e Suíça. De facto, se há algo gritante acerca dos fundamentos da União Monetária Europeia é quão pouco imaginativos e puramente tecnocráticos eles são: simplesmente repousam no muito admirado modelo alemão de estabilidade monetária e financeira, o qual é destituído de quaisquer mecanismos de prevenção ou administração de crise (Borges 2012; Balcerowicz 2012). Sua concepção demonstrou-se ser mais do que defeituosa, pois a crise em curso na eurozona aponta claramente para problemas subjacentes de desequilíbrios na área euro bem como para fraquezas estruturais generalizadas no modelo de governação.

Ao invés de ser única, a UE é realmente uma excentricidade – uma criação como o Frankenstein. E tal como o Dr. Frankenstein, a Alemanha recusa-se a aceitar a responsabilidade pela sua criação ao impedir a UE de seguir um caminho de desenvolvimento adequado que contribuísse para as necessidades e bem-estar de todo o corpo político, com ênfase especial sobre as partes mais fracas, tratando-as ao contrário como meios para satisfazer seus próprios desejos e ambições económicas. A concepção do BCE na base dos estatutos do Bundesbank, por exemplo, reflecte não só a mentalidade económica alemã como também aspirações da Alemanha pela dominação económica da eurozona. Na verdade, o Bundesbank não é a autoridade monetária mais conservadora do mundo por acidente: ela ajusta-se aos interesses económicos e corporativos da Alemanha.

A abordagem anti-crescimento e não democrático que está incorporada no Tratado de Maastricht e é reforçada por virtualmente todos os outros tratados – desde os Tratados de Amsterdam (1997), Nice (2002) e Lisboa (2007) – assegura desenvolvimento desigual e tomada de decisão autoritária no funcionamento do projecto de integração europeu. O Tratado de Lisboa, em particular, fortaleceu ainda mais a componente de "défice democrático" na estrutura da UE (embora seus apoiantes argumentem, perversamente, que este foi o tratado que realmente tratou do problema do "défice democrático"), com a maior parte das leis sendo agora feitas em Bruxelas sob o comando de uma Alemanha imperial.

Tanto a natureza conservadora e não democrática da UE como o papel imperial da Alemanha tornaram-se perfeitamente claros desde o irromper da crise da eurozona três anos atrás, quando a Grécia, com seu elevado défice orçamental e dívida pública inchada, foi excluída dos mercados internacionais de crédito procurou refúgio num acordo intermediado pela UE e o Fundo Monetário Internacional (FMI) de modo a não incumprir suas obrigações de dívida e provocar um efeito contágio por toda a área Euro. O manuseamento do problema de dívida da Grécia não foi baseado sobre qualquer princípio de solidariedade da parte da UE mas, ao invés, medido exclusivamente com base no seu impacto sobre bancos da Europa, os quais estavam altamente expostos à dívida grega. Os termos do salvamento (bailout) procuravam assegurar que os reembolsos de dívida continuassem pela sujeição da sociedade grega a medidas de austeridade implacáveis e ao mais violento programa de consolidação orçamental imposto a uma economia europeia desde a II Guerra Mundial. Em coerência com as premissas originais do Tratado de Maastrichet e a mentalidade anti-crescimento do projecto de integração europeu como um todo, não foi oferecido à Grécia um caminho viável de saída da sua crise mas, ao invés, transformada numa cobaia para a área Euro, com dois objectivos primários em mente: (1) intimidar os outros países mediterrâneos do Sul apregoando o destino que os esperava se falhassem em colocar na ordem seus orçamentos, e (2) transformar a Grécia num laboratório para uma transformação neoliberal radical.

Como documentámos alhures (Polychroniou 2012a, 2013a), a catástrofe económica e social que se abateu sobre a Grécia por conta dos programas de "resgate" dos "gémeos monstros" do neoliberalismo contemporâneo (isto é, a UE e o FMI) é de proporções sem precedentes para uma economia em condições de paz – e está agora a transformar-se numa crise humanitária dentro da mais rica região económica do mundo. Mas isto não é o resultado acidental de uma política enviesada: é o resultado de uma política consciente da UE sob o comando de uma Alemanha imperial para a pilhagem dos países endividados do Mediterrâneo (Grécia, Portugal, Espanha, Chipre – e Itália, se tiverem êxito) e sua transformação em colónias do centro imperial. O Euro tornou-se um garrote em torno do pescoço dos países periféricos, com a Alemanha a arrastá-los como escravos no caminho para o mercado.

A Alemanha adotou em relação aos endividados estados-membros da eurozona a mesma política executada em relação à Alemanha do Leste após a unificação: a destruição da sua base industrial e a conversão do antigo país comunista num satélite de Berlim. Os resgates bancários mascaram-se como resgate de países e são seguidos pela imposição de medidas de austeridade insuportáveis para assegurar o reembolso dos empréstimos do "resgate". A seguir vem a implementação de políticas econômicas estratégicas destinadas a reduzir o padrão de vida para a população trabalhadora e a contração do estado de bem-estar social, a flexibilização total do trabalho e a venda de ativos públicos, incluindo companhias de energia e portos controlados pelo estado. Isto constitui a estratégia alemã para pilhar as economias carregadas de dívidas da região mediterrânea.

Na Grécia, a estratégia para a pilhagem da economia interna levou mesmo à criação de uma agência especial de privatização (TAIPED) para a administração da venda de ativos públicos. A única coisa que está a faltar é um sinal anunciando: GRÉCIA: UM PAÍS À VENDA. A decisão do Eurogrupo (tomada por insistência da Alemanha e com o apoio do FMI e de países do núcleo da eurozona) de mobilizar contas bancárias pessoais como parte de um acordo para "resgatar" Chipre destruiu um pilar chave da economia da ilha e estabeleceu um precedente para tratar futuras crises bancárias na eurozona. A busca da Alemanha de dominação financeira marcha em frente.

Como as coisas se posicionam, os "bailouts" representam a melhor solução possível para a Alemanha e seus bancos, assim como para as tesourarias dos países núcleo da eurozona, por várias razões. Primeiro, porque permitem que o jogo do Euro continue uma vez que há muitos interesses especiais em causa e a dissolução da eurozona pode ter consequências apocalípticas. Segundo, porque os empréstimos para o "resgate" estão muito bem segurados, graças à implementação de programas extremos de consolidação orçamental: eles são reembolsados prontamente pelos países endividados e com juros maciços. Ao mesmo tempo, a austeridade e as políticas de ajustamento orçamental impostas pelos prestamistas internacionais realmente aumentam ao invés de diminuir os rácios dívida-PIB dos países endividados pois eles contraem a atividade econômica e portanto reduzem receitas do estado, mantendo-os com isso num círculo vicioso de dependência. Terceiro, porque o colapso das economias dos países endividados produz uma fuga de capital que acaba principalmente na Alemanha, a qual é vista cada vez mais como o lugar mais seguro para estacionar Euros enquanto a crise na eurozona se aprofunda. [7] A perda de fundos por bancos na Espanha, Itália, Grécia, Portugal e Irlanda é espantosamente alta, montando a centenas de milhares de milhões de euros (o que significa que estes países são devedores líquidos do BCE), ao passo que o Deutsche Bank e a maior parte dos outros bancos alemães estão inundados de dinheiro. Quarto, sob os esquemas de salvamento externo (bailout), os países endividados abdicam da soberania nacional e são forçados a vender ativos públicos (principalmente aos invasores do Norte) a preços de liquidação, enquanto a redução nos custos do trabalho devido à contenção salarial abre novas oportunidades para a exploração agravada do trabalho e acelera o processo de conversão dos países em repúblicas das bananas. [8]

Não pode haver dúvida acerca disto: as políticas neocolonialistas seguidas pela Alemanha e a UE estão a converter a maior parte da Europa numa devastação econômica (Polychroniou 2012b). Salários e pensões estão a ser severamente cortados; a procura interna foi drasticamente reduzida; o desemprego atingiu níveis estratosféricos (27 por cento na Grécia, 26 por cento na Espanha, 17 por cento em Portugal); o padrão de vida foi revertido aos níveis da década de 1960; serviços públicos estão a ser entregues ao sector privado; ativos do Estado e empresas públicas estão a ser vendidos a preços vis.

Em todos os países endividados da eurozona, jovens educados estão a abandoná-los à procura de trabalho nos países do núcleo, privando portanto as economias periféricas do activo mais importante que possuem – capital humano qualificado – enquanto mais uma vez promove o potencial económico dos países do núcleo. [9] Logo, a região mediterrânea Sul consistirá em economias onde a maior parte dos postos de trabalho serão de empregados e empregadas de mesa.

Em suma, o que está a acontecer na periferia da eurozona desde que irrompeu a crise financeira global é um processo de pilhagem e perda completa de soberania nacional. Devido aos "bailouts", os países endividados têm sido sujeitos a um sistema contemporânea de servidão neo-feudal como parte de uma "solução" alemã para uma mal concebida união monetária europeia em paralelo com a busca de um eurozona Reich.

O que o futuro reserva para a eurozona é, naturalmente, impossível prever. O que é certo, entretanto, é que está a aproximar-se rapidamente o momento em que a opinião pública na periferia se volta contra o Euro e a UE. Cenários alternativos para a saída da crise muito provavelmente ganharão terreno, [10] e é altamente improvável que contenham a marca da política atualmente vigente e da elite política interna dos países endividados. Na Grécia, Espanha, Portugal e Chipre as elites internas e os chamados tecnocratas acrescentaram por sua conta as medidas de austeridade e demonstraram serem verdadeiros servos da nova Roma. Portanto, a mudança só virá de baixo para cima e a única pergunta é se será numa direcção progressista ou reacionária – isto é, envolvendo o restabelecimento de uma "Europa social" ou mesmo a dissolução da eurozona e o retorno do estado-nação democrático, ou um afundamento no extremismo de direita e no nacional chauvinismo.

Notas:

1. O projeto de integração europeu foi concebido como uma experimentação puramente econômica, mas com esperanças e expectativas de que os "excedentes econômicos" finalmente levariam também à integração política. Esta abordagem é consistente com a teoria neofuncionalista da integração, a qual foi formulada originalmente pelo cientista político germano-americano Ernst Haas (1958).

2. O mais recente responsável europeu a embarcar nesta linha de raciocínio é Jean-Claude Juncker, primeiro-ministro do Luxemburgo e, até recentemente, como chefe do Euro Grupo, o patrão das finanças da Europa. Em meados de março, numa entrevista à revista alemã Der Spiegel (2013), ele exprimiu preocupação sobre desenvolvimentos políticos na Itália e Grécia e levantou o espectro de uma outra guerra na Europa. 

3. Para uma discussão do papel dos negócios e dos grupos de interesse dos negócios no projeto de integração europeia, ver Franko (1989).

4. Ver, por exemplo, The Economist (2012).

5. Delors, como chefe da Comissão Europeia, desempenhou um papel chave nestes desenvolvimentos, mas foi naturalmente o consenso que emergiu entre o presidente francês François Mitterrand, um forte advogado do projecto da integração europeia que abandonou objectivos históricos do socialismo em favor do neoliberalismo, e Helmut Kohl, chanceler de uma Alemanha unificada, que tornou possível o acordo.

6. A European Round Table of Industrialists, fundada em 1983, foi instrumental em influenciar líderes europeus a embarcarem num caminho neoliberal. Ver Apeldoorn (2002).

7. A destruição líquida de riqueza na eurozona é realmente um processo em curso devido às distorções da utilização do euro como uma moeda única numa zona monetária não óptima: para a Alemanha, o Euro está subvalorizado, o que lhe permite ter uma vantagem comparativa no preço das exportações; para todos os países na periferia, entretanto, o Euro está supervalorizado, o que prejudica suas indústrias exportadoras, tornando-as na generalidade altamente não competitivas.

8. Esta secção da análise apareceu originalmente em Polychroniou (2013b).

9. Na Grécia, milhares de jovens emigrara, principalmente para a Alemanha e os outros países do Norte. Indicativo da tendência esmagadora à emigração que está a ocorrer na Grécia, a percentagem de jovens que submetêm CVs para emprego no exterior aumentou em mais de 450 por cento entre 2009 – o ano anterior ao princípio da crise – e 2012. Um fuga de cérebros ("brain drain") verificou-se em Portugal, onde mais de 100 mil portugueses, principalmente jovens, emigraram em 2012, um aumento de aproximadamente 60 por cento em relação a 2011 (Peláez 2013). Na Irlanda, nesse ínterim, a emigração atingiu níveis nunca vistos desde a Grande Fome dos meados do século XIX (Sheehan 2012).

10. Numa entrevista recente ao diário grego Ethnos, Dimitri B. Papadimitriou (2013) propôs a criação de um sistema de moeda paralela como um componente potencialmente necessário de qualquer plano alternativo para a saída da Grécia e de Chipre da crise.

Referências

van Apeldoorn, B. 2002. Transnational Capitalism and the Struggle over European Integration . New York: Routledge.

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C. J. Polychroniou é pesquisador associado do Levy Economics Institute of Bard College.

7 de maio de 2013

Instituições financeiras reconhecem que a austeridade fracassou

Ken Klippenstein

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

A primeira parte de 2013 tem sido uma espécie de período confessional para a classe dos gestores econômicos. O conselheiro econômico do FMI, Olivier Blanchard, admitiu que "os responsáveis pelas previsões subestimaram significativamente o aumento do desemprego e a queda da procura interna associada à consolidação fiscal". ('Consolidação fiscal' é uma forma delicada de dizer 'austeridade'). O secretário do Tesouro dos EUA, Jack Lew, reconheceu que "é preciso concentrar-se no impacto sobre o desemprego" das políticas de austeridade; e também, que "não podemos estar num mundo em que a austeridade apenas leva a mais austeridade"; e por fim, que "na realidade, a pressa em fazer toda a etapa inicial [austeridade] tem tornado mais difícil o problema nalguns países". Até sugeriu que "os europeus também precisam de ver o que podem fazer para gerar mais procura na sua economia".

A diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, confessou que "não vemos a necessidade de dar prioridade a uma pesada consolidação da reforma fiscal conforme estava planejado inicialmente"; e "a melhor forma de criar empregos é através do crescimento". O Comissário dos Assuntos Económicos e Monetários da UE, Olli Rehn disse que os recentes apelos do FMI e dos EUA para uma menor austeridade "estão sendo pregados aos convertidos".

Entretanto, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, os economistas de Harvard responsáveis por um dos estudos mais influentes usados para defender a austeridade, reconheceram que "a austeridade não é a única resposta a um problema de endividamento". Isto, depois de três economistas da Universidade de Massachusetts os terem acusado de "exclusão seletiva" de dados. Reinhart e Rogoff vieram a reconhecer que os seus críticos "identificaram corretamente um erro de código da folha de cálculo". Na minha opinião, está a ser ignorado o erro mais flagrante deles: o fracasso em reconhecer que a austeridade não funcionou durante a Grande Depressão e não vai funcionar agora, durante a Grande Recessão. Qualquer um pode fazer um erro numa folha de cálculo. É preciso um professor de Harvard para se esquecer da história básica.

Não tem um interesse especial que gestores doutrinários como Reinhart e Rogoff alterem as suas posições. A capacidade de dar a volta e mudar de uma convicção ideológica para a convicção oposta, como uma criança da escola a fazer um teste de alternativas, é provavelmente o principal dever do gestor ideológico. Os que se vão abaixo por exaustão são eliminados muito antes de chegarem a chefes do FMI. O que é mais interessante é saber porque é que o treinador está agora a dirigi-los para a direcção oposta.

Na correspondência que tive com o economista Jack Rasmus, ele explicou a reviravolta da classe gestora econômica:



Primeiro, pode assinalar uma mudança futura para cortes fiscais aos empresários/investidores como um 'estímulo' preferencial (o que também não funciona). No entanto, como os cortes fiscais vão aumentar o défice, é preciso justificar um aumento no défice se forem avançar com os cortes fiscais. Assim, primeiro é necessário o ataque à 'austeridade' (o contrário do estímulo), não tão produtivo como inicialmente julgavam. Por outro lado, é importante assinalar que a mudança para o 'estímulo' não significa uma mudança dos cortes nas despesas sociais; significa uma mudança para mais défice através dos cortes fiscais empresariais. 

Em segundo lugar, o abandono da austeridade pode representar um prelúdio para uma dependência ainda maior da política monetária. Que o banco central aguente toda a carga (e culpas) e assuma mais visivelmente as responsabilidades dos políticos pela austeridade nos cortes das despesas. A política monetária (i.e. o aumento da liquidez nos bancos, nos investidores e nos negócios) por sua vez tem dois objectivos principais. Um: reforçar os mercados de acções e de garantias financeiras e garantir mais lucros aos especuladores, e, segundo, baixar o valor de câmbio da sua divisa para permitir a competição com outros centros de divisas... Um sinal seguro de que os políticos capitalistas estão a ficar mais desesperados e a tentar crescer mendigando aos seus competidores. São desvalorizações competitivas – não por moeda fiduciária como nos anos 30 – mas pela liquidez – manipulação da taxa de câmbio. 

Qualquer que seja o caso, a inflexão ideológica actual das instituições financeiras deve provavelmente ser olhada com suspeita. É uma inflexão demasiado acentuada para indicar qualquer tipo de mudança honesta no pensamento.

As soluções que os gestores económicos estão a defender demonstram um ponto útil. Exigem simultaneamente um estímulo e uma redução do défice. Conforme adiantou o secretário do Tesouro, Jack Lew, "Não podemos escolher entre crescimento e criação de empregos e pôr a nossa casa fiscal em ordem", É como uma criança que quer ficar acordada toda a noite e ter uma boa noite de sono: uma das escolhas nega a outra. Estes exercícios mentais em auto-contradição ilustram ainda melhor a forma como a elite tem que aceitar opiniões mutuamente contraditórias. Orwell chamava a isto "duplipensar".

Actualmente chamamos-lhe coisas como 'matiz'. Exemplo: Reinhart e Rogoff disseram que "o recente debate sobre a economia global assumiu uma forma desesperadamente simplista", significando que a austeridade está finalmente a ser rejeitada firmemente. Nos círculos da elite, as explicações 'simplistas' são todas aquelas que envolvem verdades elementares: que um estímulo autêntico aumenta o défice, tal como acontece com os cortes fiscais empresariais; que a privatização torna as coisas irresponsáveis perante o público; que a recuperação da classe média e baixa exige a tributação da classe alta. (Estes factos simples são incompreensíveis para a elite porque sugerem um mundo em que a riqueza extrema provoca mais injustiça do que erradica). Os derivativos e os swaps de incumprimento de crédito, por outro lado, são instrumentos 'matizados' que qualquer um sem um grau avançado em finanças se deve abster de comentar.

Uma consequência desta tendência para os 'matizes' é o tom especialmente místico que a profissão dos economistas assumiu. Por exemplo, a opinião de que o ciclo de negócios nos irá devolver inevitavelmente a prosperidade, e de que os maus tempos atuais são apenas uma espécie de azar aleatório. Recordo um amigo meu na universidade que observava que tinha planejado entrar num programa PhD com a esperança de nele "aguardar o fim da recessão" como se isso fosse um feitiço da chuva ou qualquer ato de deus. O mercado dá e o mercado tira. Sugerir qualquer tipo de ação humana por detrás destes maus tempos – nomeadamente, uma relação entre a riqueza e a pobreza – é cometer o terrível erro de considerar a economia como um jogo de soma zero. Claro que isso é uma falácia, porque a economia é um processo mágico pelo qual a riqueza concentrada difunde simultaneamente a sua riqueza (i.e. teoria do gotejamento).

Injustiças explosivas da segurança social

Richard Wolff

Truthout

As pessoas com mais de 65 anos, uma parcela crescente da população dos Estados Unidos, estão sofrendo com um capitalismo controlado pela crise. Altas taxas de desemprego, redução nas pensões privadas, menos benefícios empregatícios, menos segurança no trabalho, níveis mais elevados de débito pessoal e uma queda nos salários reais fazem com que os pagamentos da Previdência Social sejam mais importantes do que nunca. Ainda assim, o presidente Obama e o Congresso recentemente concordaram em negociar uma diminuição dos pagamentos da Previdência Social a partir dos níveis atuais.

Considere as seguintes estatísticas de 2010: pessoas casadas e solteiras com mais de 65 anos e ganhando US$ 32,6 mil ou menos por ano contaram com a Previdência Social para compor entre 66% e 84% de sua renda total anual. Esta é a maioria (60%) de todos os cidadãos dos Estados Unidos com mais de 65 anos. Diminuir o orçamento da Previdência Social prejudica seriamente a vida dessas pessoas.

Cortar a Previdência Social é uma injustiça ultrajante que pode provocar mudanças e rupturas históricas no panorama político. Um novo movimento político de esquerda pode emergir, conduzido menos pelos estudantes e jovens do que por seus pais e mesmo avós. Os cortes planejados no pagamento da Previdência Social podem forçar muitos membros das gerações mais velhas a pedir uma ajuda maior justamente quando a crise capitalista prejudica a ambos.

Desde que foi criado, em 1935, o sistema da Previdência Social coletou trilhões em impostos sobre salários; metade foi pago por empregados e metade por empregadores. Mas os empregadores diminuíram os salários por causa do que pagavam para a Previdência Social. Por este motivo, em última instância, o fluxo de entrada da Previdência Social vinha dos salários dos trabalhadores. Outras formas de renda (juros, aluguéis, dividendos e ações), principalmente aquelas recebidas pelos mais ricos, ficaram isentas de impostos. Além disso, aplica-se a mesma taxa de impostos sobre os salários, tanto dos que ganham muito quanto dos que ganham pouco. A taxa não é progressiva, como ocorre com o imposto de renda federal, que aplica taxas superiores àqueles que ganham mais. Pior, ela é regressiva, porque se aplica apenas aos primeiros US$ 113 mil recebidos no ano de 2013.

E pior ainda: aqueles que recebem salários tiveram de pagar impostos sobre salário a mais ao longo das últimas décadas. Washington taxou mais do que era necessário para cobrir os gastos com a Previdência Social. A coleta dos impostos sobre salários excessivos foi depositada em “fundos fiduciários” da Previdência Social, que agora acumulam quase US$ 3 trilhões. Os fundos emprestaram o excesso ao Tesouro dos Estados Unidos; eles obtêm juros sobre estes empréstimos. A Previdência Social tem, portanto, duas fontes de renda: os impostos sobre salários e os juros. O Tesouro dos Estados Unidos gastou todos os empréstimos da Previdência Social com as despesas habituais de Washington. Até 2021, os pagamentos da Previdência Social à crescente população com mais de 65 anos provavelmente excederão a entrada de impostos sobre salário e juros do sistema. Então, o Tesouro terá de devolver à Previdência Social os trilhões de dólares que pegou emprestado.

Finanças danificadas


Estabelecer impostos re-gressivos sobre salários para gerar um excedente e depois emprestá-lo ao Tesouro dos Estados Unidos foi uma injustiça desnecessária. Aqueles que tinham menos condições de pagar — os de renda média e os pobres — contribuíram com US$ 3 trilhões a mais do que o necessário ao pagar os impostos sobre seus salários, além dos impostos de renda pessoais e dos impostos legítimos sobre salário que pagaram para sustentar o orçamento de Washington. Ainda assim, porque o orçamento apresenta grandes problemas de déficit, os milhões de pessoas que pagaram mais do que o necessário à Previdência Social irão receber menos do que o que lhes foi prometido. Que tipo de sistema funciona assim?

Outro fato ultrajante vem à tona quando nos lembramos porque o orçamento federal tem os maiores déficits. Washington subitamente passou a gastar muito mais para poder resgatar os grandes bancos e algumas empresas importantes, a fim de “estimular” a economia arruinada pela crise.

De fato, a crise capitalista danificou as finanças da Previdência Social de várias maneiras. O alto índice de desemprego resultou em menos gente pagando impostos sobre salários. Da mesma forma, a quantidade recebida por meio desses impostos diminuiu à medida em que a crise substituiu os cargos de salários altos pelos de salários inferiores. Enquanto isso, a crise não diminuiu o número de beneficiários da Previdência Social. Portanto, as arrecadações da Previdência Social caíram, mas não seus gastos.

O abuso da Previdência Social, que já tem décadas de história, atingiu um novo patamar na escala da injustiça com os cortes iminentes nos pagamentos aos beneficiários. Esta realidade evidencia a falsidade dos discursos preocupados sobre o futuro da classe média de republicanos e democratas, de Boehner e de Obama. No âmbito político, a pressão vai se acumulando. A Previdência Social pode se revelar uma fagulha explosiva.

Sobre o autor


Richard D. Wolff é professor emérito da Universidade de Massachusetts-Amherst e professor visitante no Programa de Graduação em Assuntos Internacionais da New School University, Nova Yok. Autor de New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006) e do filme documentário Capitalism Hits the Fan.

3 de maio de 2013

Viviane Forrester, romancista, ensaísta

Autora de "Horror Econômico", em 1996, mas também de um livro magistral sobre Van Gogh e uma biografia de Virginia Woolf, Viviane Forrester faleceu no dia 30 de abril.

por Josyane Savigneau

Le Monde

Viviane Forrester, que morreu na terça-feira, 30 de abril, com a idade de 87 anos, nunca se queixava. Assim, a maioria de seus amigos não sabiam que ela estava lutando contra um câncer. Da mesma forma, sobre a desgraça que foi o suicídio de um de seus dois filhos, ela falou pouco, e com grande pudor. Dificilmente ela confiou, sorrindo, que o sucesso de Horror Econômico, em 1996, permitiu-lhe sair de uma situação financeira difícil - sobre a qual ela não tinha dito uma palavra. E, embora à sua própria maneira, ela recusou qualquer cerimônia para seu funeral, porque queria evitar as lágrimas daqueles que a amavam e manter-se, como sempre, distante da falsa tristeza dos hipócritas.

Romancista, ensaísta, ela era também uma grande leitora. La Quinzaine littéraire, Le Nouvel Observateur, Le Monde tiveram a oportunidade de publicar seus artigos. As séries do "World of Books" - para a qual ela colaborou regularmente desde o início dos anos 1990 – apreciou tanto a erudição na área anglo-saxônica quanto sua curiosidade sempre alerta, e seu espírito não convencional. Viviane Forrester nasceu em 29 de setembro de 1925 em uma família judia abastada. Está narrado magnificamente em Ce soir, après la guerre (1992) como aos 15 anos, no êxodo de luxo do jovem Viviane Dreyfus, aos despreocupados primeiros dias no sul da França, sucedeu a consciência de ser de repente mais judia do que em francesa: "A escória da terra, éramos nós"

Elegância de estilo e de pensamento

Já, dez anos antes, em Les allées cavalières (1982), romance, e, sobretudo, biografia de sua mãe, Viviane Forrester evocava a casa onde nasceu - onde Debussy viveu e compôs por lazer, e onde morreu. E a menina que ela tinha sido, abençoada por uma cuidadora italiana amorosa, mas vivendo, por assim dizer, longe de seus pais, que ela aguardava a passagem, à noite, no berçário. Ela ainda não havia se divorciado do pintor John Forrester, embora eles tivessem se separado depois de alguns anos de vida juntos, como evoca o que ela publicou em seu diário íntimo, Rue de Rivoli - 1966-1972 (2011). Um casal de artistas, não-conformistas. Juntos sem o estarem realmente, exceto quando vinham os amigos, pois ele pintava e ela, que afirma ter sabido desde muito cedo que seria escritora, trabalhava em seus primeiros textos.

Primeiro é um romance que ela publica, Ainsi des exilés (1970). Mas é seu ensaio sobre Virginia Woolf (1973), que, por sua relevância e elegância de estilo e de pensamento, dá-lhe estatura. Virão em seguida La violence du calme (1980), e um livro muito sutil sobre Van Gogh, Van Gogh ou l'enterrement dans les blés (1983). "Nós nunca levamos tão longe a exploração do que foi Van Gogh", escreveu então o historiador Georges Duby no Libération. Depois de vários romances, incluindo o Le Jeu des poignards (1985) e L'Oeil de la nuit (1987), Viviane Forrester foi eleita para o juri do Prix Femina em 1994. Alguns podem ter acreditado, que ela, irreverente e rebelde, tinha se acalmado. Eles estavam errados.

"Uma grande atração"

Em 1996, ela retornou, sobre um terreno onde não esperávamos, com um ensaio, O horror econômico. "É preciso que esse livro seja uma obra e não, como a facilidade e a publicidade produzem tantos, um escrito de circunstância destinado a servir de trampolim para transmissões televisivas, escreveu Pierre Lepape na sua série do "World of Books". O Horror econômico não é um artigo de jornal inchado ao tamanho de um livro. Podemos sempre fazer resumos e caricaturas, reduzi-lo a teses e temas, a argumentos e demonstrações, mas faltará o essencial: menos as idéias do que a carne e a emoção de onde elas nascem, que a espessura e a força das palavras que as carregam, que a verdade da intuição que as ilumina (...) Viviane Forrester escreve loucuras, todos os economistas lhes dirão, os seus números contra suas letras. A começar com essa loucura, a mais enorme, a mais contrária à tirania do bom senso que é aquela de costume: o trabalho não é mais a fundação da nossa sociedade, e é hoje apenas uma grande atração, uma ilusão cuidadosamente mantida, para o poder de poucos e a miséria de uma multidão que nunca termina e nunca termina de crescer. Nosso sistema econômico, agora estendido ao conjunto do planeta, precisa de um número cada vez menor de trabalhadores."

Todos os especialistas se enfureceram contra este livro. Entre misoginia e desprezo por uma escritora literária que se atreve a falar sobre a economia, nada foi poupado em Viviane Forrester, que enfrentou com coragem. Ajudada pelo sucesso do livro. Este grito proferido por uma mulher engajada, contra o que está errado no mundo, atingiu um público enorme: mais de 350 000 cópias vendidas na França, trinta traduções. E, para Viviane Forrester, uma turnê internacional. Apesar das críticas, frequentemente injuriosas, Viviane Forrester continuou a refletir sobre estas questões. Ela não teve medo de ir a Davos, em 1998, enfrentar especialistas que a criticaram severamente. Antes de publicar, em 2001, Uma estranha ditadura, uma crítica do ultraliberalismo, ela escreveu: "A cada dia, esse sistema ideológico, fundado sobre dogma (ou o fantasma) de uma autorregulação da chamada economia dita de mercado, demonstra sua incapacidade em administrar-se, em controlar o que suscita, em dominar o que desencadeia..."

Suíte inacabada

E tinha a intenção de ofender novamente, já que ela estava preparando uma sequencia para esses dois ensaios, La promesse du pire (2013), que ela pretendia publicar em janeiro de 2014, no máximo, e que permanece inacabada. Nesse meio tempo, O crime ocidental (2006), onde estudou a atitude das democracias ocidentais a respeito dos conflito israel-palestina, ela estava de volta ao lado de Virginia Woolf, para nos dar uma esplêndida biografia (2009, recebeu o prêmio Goncourt pela biografia). Ela descreveu em detalhe as contradições de Woolf. Personagem contraditória foi, também, Viviane Forrester, e é isso que a tornou tão atraente.