17 de agosto de 2010

Moshe Lewin, historiador

Alain Blum

Le Monde

Tradução / Grande especialista da história, em particular da história social e econômica, da União Soviética, Moshe Lewin morreu com a idade de 88 anos a 14 de agosto, em Paris, onde se tinha retirado faz três anos, se afastando do debate intelectual e científico que tanto tinha animado. Ele nasceu a 7 de novembro de 1921, na Wilno então polaca, hoje Vilnius (Vilna) capital de Lituânia.

Sua mãe era russa, seu pai judeu polaco. Este último tinha realizado numerosos trabalhos; convertido em acrobata, tomou a direção do circo de Wilno. Ambos desaparecem em 1939 durante o extermínio dos judeus desta cidade. Moshe escapa do exército nazista num caminhão soviético que o deixa na Lituânia. Durante toda sua vida brindará um reconhecimento particular a estes soldados soviéticos que lhe permitiram escapar da morte, reconhecimento que também guardará para a URSS, ao mesmo tempo que desenvolverá olhar profundamente crítico sobre a história deste país.

Uma vez instalado na URSS, trabalha num Koljós, depois numa fundição dos Urais, e em alguns meses antes do final da guerra, numa escola de artilharia. Em 1945, como estrangeiro é autorizado a abandonar a URSS: da Polônia passa a França, ali vive de diferentes "pequenos trabalhos" (será por um tempo representante de um teatro judeu na França). Depois parte para Israel, é militante sionista de esquerda e empreende estudos de economia na Universidade de Tel-Aviv.

Volta de novo a Paris em 1961, escreve uma tese sob a direção de Roger Portal, que culmina em sua obra principal, "A Paysannerie et le pouvoir soviétique" (Mouton, 1966), primeira etapa intelectual de um historiador que assinalou profundamente a historiografia soviética da segunda metade século XX.

Nesta obra, pega no mundo camponês russo para revelá-lo em toda seu complexidade, analisando as relações conflituais que mantinha com o poder soviético, bem como as tensões que o cruzavam. Oferece uma leitura inteiramente nova das fontes da burocratização soviética e trata de aprofundar o aspecto social e humano. Enfrenta com uma inteligência muito particular as imensas dificuldades que provocavam o trabalho sobre estas fontes, a imprensa, os documentos oficiais publicados e as obras de historiadores e economistas soviéticos, dando uma grande lição de método que não perdeu sua importância depois da abertura dos arquivos.

Após ter trabalhado na VI secção da ida secção da EPHE (futura Escola dos altos estudos em ciências sociais, EHESS), converte-se em professor na Universidade de Birmingham (1968-1978), depois na da Pensilvânia, até 1995. Viajava com frequência à França, país ao qual permaneceu relacionado toda sua vida. Participava de um seminário regular na EHESS entre 1982 e 1985.

Em obras essenciais, em particular a "La Formation du système soviétique. Essais sul l'histoire sociale da Russie dans l'entre-deux-guerres" (Gallimard, 1987), ou também em "Le Siècle soviétique" (Fayard/Le Monde diplomatique, 2003), desenvolve uma teoria da formação do Estado soviético, da transformação do partido revolucionário em partido de administradores-burocratas que vira as costas à ideia revolucionária; esmiúça com precisão os mecanismos de tomada de decisão, e também, na segunda obra, expõe o lugar das personalidades nas orientações da URSS após o estalinismo.

Em "Le Dernier Combat de Lénine" (Editions de Minuit, 1967; ou em "The Political Undercurrents of Soviet Economic Debates: From Bukharin to the Modern Reformers? (Princeton University Press, 1974), Lewin sustenta que o estalinismo não era a consequência inevitável da revolução, tendo sido possível uma saída alternativa, no âmbito político ou econômico, este último referindo-se às teses de Bukharin.

A seguir, Moshe Lewin comprometeu-se numa reflexão comparativa entre stalinismo e nazismo, numa das primeiras obras que tratam sobre o tema, por exemplo, no clássico estudo dirigido em companhia do grande historiador do nazismo Ian Kershaw: "Stalinism and Nazism: Dictatorships in Comparison" (Cambridge University Press, 1997).

Seus inimigos intelectuais

Ambos elegem orientar a reflexão para uma comparação dos diferentes componentes da dinâmica dos dois sistemas. Destacando os pontos comuns de algumas formas políticas e sociais que precedem ao aparecimento do stalinismo e o nazismo (monarquias autoritárias, burocracias, expansionismos e imperialismos); Lewin e Kershaw dão um lugar particular às teorias da modernização, destacando os fundamentos anticapitalistas das duas ideologias.

Moshe Lewin adorava a polêmica. Gostava de pensar que seus inimigos intelectuais pensassem que ele não gostava deles, ainda que respeitasse seus trabalhos. Não fazia concessões. Opunha-se, em múltiplas ocasiões, a quem a partir da escola totalitária o designava como o chefe de uma escola dita revisionista. Desafiando as teses dos que viam na União Soviética um sistema monolítico exclusivamente político, no qual só alguns líderes determinavam o curso da história, tentou compreender a URSS como um sistema social no qual a política devia se ver como um sistema complexo, onde a burocracia, vista como grupo social em formação, era determinante. Analisava seriamente as lutas entre grupos sociais que foram parte da revolução soviética, bem como os conflitos internos na formação de uma classe burocrática.

Moshe Lewin não tem seguidores estritamente falando, porque ele valorizava a liberdade de espírito. No entanto, ele deixa todo um campo da historiografia soviética profundamente marcada pelo seu trabalho, e também por sua personalidade, tão perturbadora quanto cativante. Este poliglota (dominava o polaco, o russo, o inglês, o francês, o alemão, o judeu-alemão e sua variante lituana o litvak, o hebreu), era um espírito brilhante, sempre atento à menor transformação do mundo contemporâneo. Gostava, em longos debates, de mudar de língua, surpreendendo sempre o seu interlocutor, passando da maior seriedade ao humor mais azedo.