1 de outubro de 2005

O capitalismo da catástrofe

Depois do Iraque, o grande negócio da reconstrução entra em ação em Nova Orleans. Desta vez, para "purificar" a cidade de sua população negra e pobre.

Por Mike Davis

O furacão que destruiu Nova Orleans é produto de uma grande perturbação atmosférica que aconteceu no dia 23 de agosto, a 200 km das Bahamas. Mas, ao passar pelo golfo do México durante quatro dias, "a tempestade tropical Katrina" se transformou em um verdadeiro monstro. Absorvendo a vasta quantidade de energia acumulada pelas águas do golfo, extraordinariamente quentes - três graus centígrados acima do nível normal para o mês de agosto -, ela se transforma em um furacão de categoria cinco, com ventos de 290 km por hora, engendrando uma gigantesca onda de tempestade de 10 metros de altura.

A quantidade de calor concentrada pelo Katrina foi tal que, "depois de sua passagem, em certas zonas do Golfo, a temperatura caiu brutalmente passando de 30 para 26 graus" 1 . Horrorizados, os meteorologistas admitem ter raramente observado tal aumento de força em um furacão caribenho. E saber se o crescimento explosivo do Katrina é um indicador do efeito do aquecimento climático do planeta sobre a intensidade dos ciclones provoca um grande debate entre os pesquisadores.

Quando chega ao litoral, na manhã de segunda feira de 29 de agosto, em Plaquemines, na Louisiana, no delta do Mississipi, o Katrina já passara para a categoria quatro (ventos de 210 a 249 km/hora). Era apenas um pequeno consolo para os habitantes dos portos petrolíferos, pequenos povoados e vilas de pescadores francófonos que tiveram a infelicidade de estar no caminho do furacão. Em Plaquemines e ao longo de todo o litoral do Mississipi e do Alabama, a fúria implacável do Katrina atinge todos os cantos, deixando na sua passagem uma devastação digna de Hiroshima.
 
Proteção de papel


Inicialmente, Nova Orleans e seus 1,3 milhão de habitantes supostamente estariam protegidos. Porém, a trajetória do furacão desviou para a direita e seu centro se deslocou para 55 km à leste da cidade. Embora poupada por rajadas de vento mais violentas, a capital da Louisiana - que se encontra abaixo do nível do mar, bordejada por duas grandes lagunas de água salgada, o Lago Ponchartrain ao norte e o lago Borgne ao leste - sucumbiu à fúria das águas.

É destes dois lagos que a onda de tempestade impulsionada pelo furacão rompeu os diques claramente insuficientes - e menos elevados que os dos bairros ricos - que supostamente protegeriam os bairros majoritariamente negros e o leste da cidade e o subúrbio operário branco adjacente a Saint Bernard. Na ausência de alerta oficial, a subida das águas se transformou em uma armadilha mortal para centenas de habitantes surpreendidos quando dormiam. Próximo ao meio-dia, um dique claramente mais resistente da zona do canal da Rue 17 também cedeu.

A inundação poupou as zonas turísticas como o Vieux Carré e o Garden District e também certos bairros mais ricos como Audubon Park, construído em um plano mais alto. Mas, por todos os lados, o dilúvio chegou ao nível dos tetos, afetando ou destruindo cerca de 150 mil unidades de habitação. A cidade recebeu então o apelido de "Lago George" em homenagem irônica ao presidente que tinha se revelado totalmente incapaz de auxiliar os habitantes quanto de assegurar a construção de novos diques.

Marcas de classe e raça


Mesmo depois de ter aventado a possibilidade de que a "tempestade não foi discriminatória", até mesmo George W.Bush acabou admitindo: não há nenhum aspecto da catástrofe que não tenha sido marcado pelas desigualdades de classe e de raça. O furacão não só pôs a nu as promessa enganosas do Ministério da segurança interior, encarregado de proteger todos os americanos, bem como expôs de forma retumbante as conseqüências devastadoras do abandono no qual são deixadas pelo governo federal as grandes metrópoles com maioria negra e hispânica e suas infra-estruturas vitais.

Quanto à incrível incompetência da Agência federal de gestão das urgências, a Federal Emergency Management Agency (FEMA), ela demonstra o absurdo de confiar cargos de responsabilidade pública tão vitais aos cortesãos políticos ineptos e cegos por sua hostilidade ideológica à intervenção do Estado. Quando pensamos nos prodígios de lerdeza burocrática manifestados pela FEMA, só podemos nos admirar com a rapidez com a qual Washington agiu para suspender as normas salariais em vigor, em virtude do Davis-Bacon Act 2, e abrir as portas de Nova Orleans, para a reconstrução e a "segurança", aos predadores de colarinho branco de sociedades como a Halliburton, o Shaw Group e Blackwater Security, mantendo exatamente os mesmos lucros fáceis acumulados sobre os rios do Tigre.

Se a agonia de Nova Orleans se deve, amplamente, à incúria das autoridades federais, o governador do Estado e a Prefeitura da cidade têm, também, sua responsabilidade. É o prefeito (democrata) Ray Nagin - um rico empreiteiro afro-americano, dirigente de uma sociedade de televisão a cabo e eleito em 2002 com 87% dos votos dos eleitores brancos3 - que era responsável, em última instância, pela segurança de seus administrados, sendo que cerca de um quarto deles era muito pobre ou muito deficiente para possuir um veículo. Sua incrível incapacidade de mobilizar os recursos necessários para a evacuação dos habitantes não motorizados e dos pacientes dos hospitais - apesar do sinal de alerta que constituía a falta de preparo da municipalidade diante da ameaça do furacão Ivan em setembro de 2004 - reflete mais que uma simples incompetência pessoal: ela personifica o egoísmo de classe das elites da cidade, quer sejam brancas ou negras, perfeitamente insensíveis à sorte dos concidadãos pobres das cidades destruídas e das zonas marginais.

Catástrofe anunciada


História de uma catástrofe anunciada ? De fato, ao longo da história dos Estados Unidos nenhum desastre foi antecipado com tal grau de precisão, contrariamente às afirmações falaciosas do ministro da segurança interior, Michael Chertoff. Se for verdade que os especialistas foram surpreendidos pelo rápido aumento do poder do Katrina, eles não alimentavam nenhuma dúvida sobre as conseqüências de um furacão maior.

Desde a nefasta experiência do furacão Betsy - uma tempestade de categoria dois que já tinha inundado em setembro de 1965 boa parte dos bairros do leste da cidade devastados pelo Katrina -, a vulnerabilidade de Nova Orleans foi estudada a fundo e de maneira completa; e os resultados destes estudos foram amplamente difundidos. Em 1998, depois da passagem do felizmente benigno furacão Georges, redobraram-se os esforços de pesquisa, e uma simulação digital avançada efetuada pela Universidade da Louisiana mencionou a "destruição virtual" da cidade por um ciclone de categoria quatro vindo do sudoeste4. Os diques e os muros de contenção de Nova Orleans são preparados para resistir no máximo a um furacão de categoria três. Mas, depois de novas simulações efetuadas em 2004, pelo corpo da Engenharia do exército, mesmo este nível de proteção constatou-se ser ilusório.

A erosão permanente das ilhas costeiras e de zonas pantanosas do litoral da Louisiana (que faz com que desapareçam entre 60 e 100 quilômetros quadrados de costa por ano) se traduz por um aumento do poder das ondas de tempestade no momento em que elas atingem Nova Orleans, enquanto a própria cidade em si e seus diques afundam-se lentamente. Mesmo um furacão de categoria três, se sua trajetória é suficientemente lenta, pode inundá-la quase inteiramente5.

Negligência federal


Para fazer com que os responsáveis políticos compreendessem estas previsões, outros estudos ofereciam uma avaliação precisa dos estragos antecipados em caso de impacto direto de um ciclone. Todas as simulações em computador reproduziam os mesmos números aterradores: ao menos 160 quilômetros quadrados de superfície urbana completamente submersa, entre 80 mil e 100 mil mortos. Em 2001, à luz destes estudos, a FEMA tinha anunciado que a inundação de Nova Orleans, depois de um ciclone, seria uma das três mega-catástrofes mais prováveis em um futuro próximo em território dos Estados Unidos (os dois outros seriam um sismo na Califórnia e um ataque terrorista em Manhattan). Em 2004, após os meteorologistas terem anunciado uma forte retomada da atividade de ciclone, as autoridades federais organizaram um exercício de simulação sofisticado, a operação "Furacão Pam", que confirmou, mais uma vez, que as vítimas poderiam ser contabilizadas em dezenas de milhares.

Em resposta, a administração Bush rejeitou as exigências urgentes do estado da Luisiana em matéria de prevenção de inundações. Ela pôs em prática um importante plano de revitalização das zonas pantanosas da costa, o projeto Coast 2050 - fruto de um decênio de pesquisa e de negociação -, e cortou por diversas vezes o orçamento de manutenção e de construção de diques, deixando inacabadas as infra-estruturas de contenção ao redor do lago Pontchartrain.

A Engenharia militar do exército foi, ela também, vítima de cortes orçamentários que refletem em boa medida as novas prioridades de Washington: forte baixa dos impostos para os ricos, financiamento da guerra no Iraque e - ironicamente - aumento das despesas de "segurança interior". Sem contar as motivações políticas: Nova Orleans é uma cidade majoritariamente negra, cujos eleitores fazem, muitas vezes, pender a balança em favor dos democratas quando das eleições na Louisiana. Por que uma administração tão descaradamente partidária deveria ser presenteada por seus adversários outorgando os 2,5 milhões de dólares necessários para construir um sistema de proteção de categoria cinco em redor de Nova Orleans 6?

Em benefício das empresas


Na verdade, quando o chefe da Engenharia, um ex-congressista republicano, protestou em 2002 contra a asfixia orçamentária dos programas contra inundações, Bush obrigou-o a se demitir. Mas não sejamos injustos: Washington gastou imensas quantias na Louisiana... Mas essencialmente para os trabalhos de infra-estrutura beneficiando os interesses das empresas portuárias e marítimas e os distritos eleitorais sob hegemonia republicana7.

Não contente com estas proezas orçamentárias, a Casa Branca empenhou-se também, de maneira irresponsável, em esvaziar a FEMA. Quando seu diretor (que tinha então o estatuto de ministro) era James Lee Witt, este organismo era uma das jóias da administração Clinton. Quando da enchente no Mississipi em 1993 e do tremor de terra de Los Angeles em 1994, sua eficácia na organização do socorro tinha sido saudada por unanimidade.

Entretanto, quando os Republicanos tomaram a direção da FEMA, em 2001, comportaram-se como se tivessem conquistado um país. Seu novo chefe, Joe M. Allbaugh, ex-diretor da campanha de Bush, tomou o cuidado de cancelar boa parte dos principais programas de prevenção de inundações e tempestades. Depois de ter deixado seu cargo em 2003, ele se converteu em consultor regiamente pago para assessorar empresas na busca de contratos no Iraque (dando seqüência às suas idéias, ele acaba de reaparecer na Louisiana, onde manifesta seus talentos de iniciado em benefício das empresas desejosas de conseguir sua parte nos apetitosos lucros da reconstrução). Desde que ela foi integrada ao departamento da segurança interior, em 2003 (e que perdeu o estatuto de Ministério), obras inteiras da FEMA foram desmanteladas e paralisadas. Em 2004, funcionários deste organismo escreveram ao Congresso denunciando "a troca de gestores competentes em matéria de prevenção de catástrofes por comerciantes jogando em favor de interesses políticos e de noviços sem experiência nem conhecimentos sérios8".

Negligência e despreparo


O sucessor de Allbaugh, Michael Brown, é a perfeita encarnação disso tudo. Uma semana após ter recebido os elogios do presidente, este advogado republicano totalmente profano em matéria de prevenção de catástrofes, que tinha falsificado seu curriculum vitae, foi despedido. Sob sua direção, a FEMA tinha continuado a ser despojada de suas competências polivalentes e de seus orçamentos, para se dobrar aos objetivos monomaníacos da luta contra o terrorismo e à construção de uma linha Marginot contra a ameaça da Al Qaida.

No dia 28 de agosto, domingo, em uma vídeo-conferência, o diretor do Observatório nacional de furacões de Miami, Max Mayfield, preveniu o presidente Bush (em férias no Texas) e os funcionários do departamento de segurança interior que o Katrina estava a ponto de devastar Nova Orleans. Brown estava pronto: "Estamos completamente preparados para enfrentar este desafio. Há anos que nos antecipamos a este tipo de desastre natural". Há muitos meses o diretor da FEMA e o Ministro da segurança interior exibia os méritos do novo plano nacional de urgência, pronto para garantir uma coordenação sem precedente entre os diversos organismos governamentais, em caso de uma catástrofe maior.

Entretanto, quando as águas começaram a submergir Nova Orleans e seus subúrbios, foi praticamente impossível conseguir contatar qualquer responsável pelo telefone. As equipes de socorro e os funcionários municipais se encontraram desprovidos de qualquer meio de comunicação funcional, sem contar a penúria de provisão vital - rações alimentares, água potável, sacos de areia, óleo, sanitários móveis, ônibus, barcos e helicópteros - que a FEMA deveria ter providenciado de maneira preventiva. Chertoff nem esperou 24 horas após a inundação para classificar o desastre como "calamidade de importância nacional" - estatuto jurídico indispensável para decretar a mobilização geral dos recursos federais.

Lentidão fatal


A infinita lentidão com a qual o cérebro de dinossauro da segurança interior registrou o tamanho do desastre foi fatal para centenas de habitantes de Nova Orleans, agonizando sobre os tetos ou num leito de hospital. No dia 2 de setembro, Chertoff ainda explicava a um repórter escandalizado da rádio pública nacional que as cenas de caos e de desespero no interior do Superdome, difundidas pelas televisões do mundo inteiro, não passavam de "boatos anedóticos"... Quanto ao senhor Brown, ele se apegava essencialmente ao fato de que as vítimas, segundo ele, se tornaram responsáveis por "não levar em conta as palavras de ordem de evacuação", como se tudo isso não tivesse nada a ver com a ausência de veículo ou à dificuldade de se dirigir ao Baton Rouge em cadeira de rodas. Simulações tinham demonstrado que ao menos um quinto da população estava incapacitada de deixar a cidade por seus próprios meios. 9

Segundo o ministro da defesa, Donald Rumsfeld, a tragédia do Katrina não tinha nada a ver com o Iraque. Porém, desde o início da catástrofe, a ausência de mais de um terço dos membros da Guarda nacional da Louisiana e de uma boa parte de seu equipamento pesado limitou de forma grave as operações de salvamento. Socorros teriam também sido úteis nos arredores do Paço Municipal: o posto de comando de urgência ficou fora de serviço desde o início por falta de combustível para alimentar o gerador de socorro. Como nenhum telefone funcionava, o prefeito e seus colaboradores estavam desligados do mundo exterior durante dois dias. Esta paralisia do aparelho de gestão municipal é chocante porque, desde 2002, a prefeitura tinha utilizado 18 milhões de dólares de subvenção federal para treinar seu pessoal para enfrentar este tipo de situação.

Em setembro de 2004, o senhor Nagin já tinha sido severamente criticado por sua passividade diante do furacão de categoria três Ivan (cuja trajetória desviou da cidade no último momento): nesta oportunidade, nada tinha sido previsto para evacuar os pobres. Diante destas críticas, a municipalidade produziu, destinados aos bairros pobres, 30 mil vídeos (nunca distribuídos) cuja mensagem era a seguinte: "Não espere a intervenção da municipalidade, não espere a intervenção do Estado, não espere a intervenção da Cruz Vermelha, (...) parta". Como nem ônibus ou trem estavam previstos para estes casos pelas autoridades, os pobres eram, portanto, obrigados a deixar a cidade a pé; quando as condições de higiene e de segurança no interior do Superdome se tornaram insustentáveis, foram centenas que tentaram deixar a cidade a pé atravessando a ponte que ligava o subúrbio branco de Gretna, mas eles foram enxotados por policiais municipais apavorados que disparam suas armas sobre suas cabeças.

Mais branca e mais segura


Uma parte dos habitantes abandonados à mercê das águas saberá interpretar a incrível incúria de seu prefeito à luz da profunda fratura social e racial que caracteriza Nova Orleans. Ninguém ignora que as elites econômicas locais e seus aliados do Centro da cidade sonham em expulsar os habitantes mais pobres, aos quais eles atribuem a elevada taxa de delinqüência. Aqui, residências populares que compõem há muito tempo sua paisagem foram arrasadas para dar lugar a imóveis de luxo e a um supermercado. Fora daí, os habitantes das cidades podem ser expulsos se seus filhos violam o estado de emergência. O objetivo parece ser transformar Nova Orleans em um grande parque de atrações e de retirar os pobres da vista dos turistas, forçando-os a morarem na periferia, nas margens dos braços do rio Mississipi, nos parques de caravanas e penitenciárias.

Desde então, para alguns partidários de uma Nova Orleans mais branca e mais segura, o Katrina é uma divina surpresa. É isso que um líder republicano de Louisiana confiava a comerciantes de Washington: "Finalmente, as cidades de Nova Orleans foram limpas. O que nós não conseguimos, Deus se encarregou de fazer10." Da mesma forma, para o prefeito Nagin, as ruas desertas e os bairros em ruína são uma dádiva: "Pela primeira vez, nossa cidade está livre da droga e da violência e nós queremos muito conservá-la neste estado."

Na verdade, sem um esforço maciço das autoridades locais e federais, para fornecer habitações de baixo custo para as dezenas de milhares de locatários pobres, hoje refugiados nos abrigos sem nenhuma escolha, nos quatro cantos do país, Nova Orleans corre o risco de conhecer uma espécie de limpeza étnica. Já se fala em transformar alguns bairros mais desfavorecidos, situados acima do nível do mar, como o Lower Ninth Ward, em bacias de retenção destinadas a proteger os bairros mais ricos. "O que impediria alguns habitantes mais pobres da cidade de voltar a se instalarem em seus bairros", ressalta, acerca desse assunto, o Wall Street Journal11.

Hegemonia republicana ameaçada


O prefeito Nagin já tomou o cuidado de velar pelos interesses da "alta sociedade" anunciando a designação de uma comissão especial de reconstrução de dezesseis membros: oito brancos e oito negros, enquanto que 75% da população é afro-americana. Por outro lado, os bairros brancos - base de inquietante sucesso eleitoral do neonazista David Duke, nos inícios dos anos 1990 - também têm a intenção de defender a sua causa. E o status quo republicano do Mississipi vizinho não quer deixar a estrela aos democratas da metrópole da Louisiana. Em meio a todos estes conflitos de interesse, pode-se duvidar se os bairros negros tradicionais de Nova Orleans - verdadeiro berço da sensibilidade festiva da cidade e de seu patrimônio jazzístico - consigam se safar dessa jogada.

Quanto à administração Bush, ela espera sair-se com uma espécie de mistura de cripto-keynesianismo orçamentário e de engenharia social ultraconservadora. Sabe-se que o impacto imediato do Katrina foi uma queda brutal da popularidade do presidente - e da presença americana no Iraque. A hegemonia republicana pareceu, momentaneamente, ameaçada. Pela primeira vez, desde os distúrbios raciais em Los Angeles, em 1992, os velhos temas democráticos como a pobreza, a desigualdade racial e a intervenção do Estado dominaram o debate público, a ponto de o Wall Street Journal ter exortado os Republicanos a "retomar a ofensiva no plano intelectual e político" antes que os progressistas como o senador Edward Kennedy ressuscitassem as manias do New Deal - que inclui o projeto de uma agência federal de prevenção das inundações e de revitalização ecológica do litoral do Golfo do México12.

Em busca de uma estratégia para tirar Bush do burburinho de Louisiana, a ultraconservadora Heritage Foundation multiplicou os seminários acolhendo ideólogos reacionários, congressistas republicanos e alguns reconciliados como Edwin Meese, ex-ministro da justiça de Ronald Reagan.

Tudo para a livre iniciativa


No dia 15 de setembro, o presidente escolheu cenário deserto mas iluminado de Jackson Square, uma praça tradicional de Nova Orleans, para pronunciar seu discurso sobre a reconstrução. Radiante, prometeu aos dois milhões de vítimas do Katrina que a Casa Branca, apesar do déficit orçamentário, pagaria o essencial da fatura do desastre, ou seja, 200 bilhões de dólares (o que não o impede, de forma nenhuma, propor novas baixas de impostos maciços para as grandes fortunas)!

Depois disso, anunciou toda uma série de reformas cobiçadas por sua base ultraconservadora: um sistema de controle para a educação e o alojamento, o reforço do papel das igrejas, generosos descontos de impostos para o setor privado, a criação de uma "zona regional de oportunidade econômica" e a suspensão de toda uma série de regulamentações federais abordando, principalmente, controles de meio ambiente para as perfurações petroleiras.

Para aqueles acostumados com a linguagem presidencial, o discurso na Jackson Square tem um encantador gostinho de "já vimos este filme": já não tínhamos ouvido promessas semelhantes nas margens do rio Eufrates? Segundo o cruel comentário do colunista Paul Krugman, depois de ter frustrado a tentativa de transformar o Iraque "em um laboratório do neoliberalismo", a Casa Branca vai, a partir de então, utilizar como cobaia os habitantes traumatizados de Biloxi e do Ninth Ward13. Segundo o congressista Mike Pence, um dos animadores do poderoso Republican Study Group que contribuiu para a elaboração do programa de reconstrução do presidente Bush, os republicanos vão fazer surgir dos escombros da catástrofe uma verdadeira utopia capitalista: "Vamos fazer do litoral do Golfo um pólo de atração magnético para a livre iniciativa. Não se trata, absolutamente, de reconstruir uma Nova Orleans dominada pelo setor público14."

É muito sintomático que o corpo da Engenharia de Nova Orleans seja, a partir de então, comandado pelo mesmo oficial que era encarregado da supervisão dos trabalhos públicos no Iraque15. Não importa que o Lower Ninth Ward tenha desaparecido sob as ondas; os proprietários de tabernas do Vieux Carré já esfreguem as mãos, ansiosos: não está longe o dia em que os trabalhadores de Halliburton, os mercenários de Blackwater e os engenheiros de Bechtel virão despejar seus dólares federais na Bourbon Street. Como dizem as populações francófonos na Louisiana e certamente, também, na Casa Branca: "Deixe o bom tempo passar!" (Tradução: Celeste Marcondes)

Notas:

1 - Quirin Schiermeier, "The power of Katrina", Nature, n. 437, Londres, 8 de setembro de 2005.
2 - NT: Legislação do tempo do New Deal que obriga as obras públicas a respeitarem o salário mínimo local. Ela é há muito tempo alvo dos republicanos conservadores.
3 - Se a Louisiana votou majoritariamente em Bush em 2004 (56,7%), entretanto Nova Orleans é tradicionalmente democrata.
4 - Estudo realizado por Joseph Suhayda e descrito no Richard Campanella, Time and Place em Nova Orleans: Past Geographies in the Present Day, Gretna, Los Angeles, 2002, p.58.
5 - Travis, op. cit., p. 1657.
6 - Alfred C. Naomi, do corpo de engenheiros do exército, citado por Andrew Revkin e Christopher Drew, "Intricate Flood Protection Long a Foocus of Dispute", The New York Times, 1º de setembro de 2005.
7 - Editorial, "Katrina’s Message on the Corps", The New York Times, 13 de setembro de 2005.
8 - Ken Silverstein, "Top FEMA jobs: No Experience Required", Los Angeles Times, 9 de setembro de 2005.
9 - Tony Reichhardt, Erika Check e Emma Morris, "After the flood", Nature, n. 437, 8 de setembro de 2005.
10 - Conceito do congressista Richard Baker (Baton Rouge), citado pelo Wall Street Journal, Nova York, 9 de setembro de 2005.
11 - Jackie Calmes, Ann Carrns e Jeff Opdyke, “As Gulf Prepares to Rebuild, Tensions Mount Over Control”, Wall Street Journal, 15 de setembro de 2005.
12 - Editorial, “Hurricane Bush”, Wall Street Journal, 15 de setembro de 2005.
13 - “Not the New Deal”, The New York Times, 16 de setembro de 2005.
14 - John Wilke e Brody Mullins, “After Katrina, Republicans Back a Sea of Conservatrice Ideas”, Wall Street Journal, 15 de setembro de 2005.
15 - Editorial, “M. Bush in New Orleans”, The New York Times, 16 de setembro de 2005. 


Mike Davis é professor no departamento de História da Universidade da Califórnia (UCI), em Irvine, e um especialista nas relações entre urbanismo e meio ambiente. Ex-caminhoneiro, ex-açogueiro e ex-militante estudantil, Davis é colaborador das revistas New Left Review e The Nation, e autor de vários livros, entre eles Ecologia do Medo, Holocaustos coloniais, O monstro bate a nossa porta, Planeta Favela e Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles, que será reeditado pela Boitempo em 2007.