31 de maio de 2015

Karl Marx tinha razão

Chris Hedges juntou-se aos professores Richard Wolff e Gail Dines no Left Forum na cidade de Nova Iorque para discutirem porquê Karl Marx é fundamental numa época em que o capitalismo global está em colapso. Junta-se o comentário feito por Hedges na abertura da discussão.

Chris Hedges


Tradução / Karl Marx expôs a dinâmica própria do capitalismo, ou do que chamou “modo de produção burguês”. Percebeu que o capitalismo tinha gerado dentro de si as sementes da sua própria destruição. Sabia que as ideologias dominantes – pensemos no neoliberalismo – foram criadas para servirem o interesse das elites e, em particular, as elites económicas, uma vez que “a classe que detém os meios da produção material à sua disposição tem ao mesmo tempo o controle sobre os meios da produção mental” e que “as ideias dominantes não são mais que a expressão idealista das relações materiais dominantes… relações que fazem de determinada classe a classe dominante.” Viu que chegaria um dia em que o capitalismo iria esgotar o seu potencial e entrar em colapso. Não sabia quando viria esse dia. Conforme Meghnad Desai escreveu, Marx era “um astrónomo da história e não um astrólogo.” Marx estava plenamente ciente da capacidade do capitalismo inovar e adaptar-se. Mas, sabia também que a expansão capitalista não era eternamente sustentável. E, conforme testemunhamos com o desenvolvimento do capitalismo e a desintegração do globalismo, é justificado ver Karl Marx como o mais presciente e importante crítico do capitalismo.

Num prefácio à “Contribuição para a Crítica da Economia Política”, escreveu Marx:

“Nenhuma ordem social alguma vez desapareceu antes de todas as forças produtivas para as quais nela haja lugar se terem desenvolvido e as novas relações de produção superiores jamais aparecem antes de as condições materiais para a sua existência terem amadurecido no ventre da própria antiga sociedade”.

Portanto, a humanidade estabelece sempre a si própria apenas aquelas tarefas que pode resolver, uma vez que, olhando para a questão mais de perto, encontramos invariavelmente que a própria tarefa só surge quando as condições materiais necessárias para a sua solução já existem, ou pelo menos estão em processo de formação.

O socialismo, por outras palavras, não seria possível até o capitalismo ter esgotado o seu potencial de maior desenvolvimento. Que o fim está próximo é agora difícil rejeitar, embora fossemos loucos querer prever quando. Somos chamados a estudar Marx para estarmos preparados.

As fases finais do capitalismo, escreveu Marx, seriam marcadas por desenvolvimentos que são familiares à maior parte de nós. Incapaz de se expandir e gerar lucros ao nível do passado, o sistema capitalista começaria a consumir as estruturas que o têm sustido. Tomaria como presa a classe operária e os pobres, em nome da austeridade, levando-os cada vez mais fundo para a dívida e a pobreza e diminuindo a capacidade do Estado para servir as necessidades dos cidadãos comuns. Deslocaria, como desloca, cada vez mais os empregos, incluindo tanto os postos fabris como profissionais para países com reservas de trabalhadores baratos. As indústrias iriam mecanizar os locais de trabalho. Isto desencadearia um assalto económico não apenas sobre a classe trabalhadora, mas também sobre a classe média – baluarte do sistema capitalista – o qual seria mascarado pela imposição de dívida pessoal em grande escala, uma vez que o rendimento diminuiria ou estagnava. A política ficaria nas últimas fases do capitalismo subordinada à economia, tendo como resultado partidos políticos esvaziados de conteúdo político concreto e abjectamente subservientes dos diktats e do dinheiro do capitalismo global.

No entanto, conforme Marx preveniu, há um limite para uma economia assente na expansão da dívida. Chega uma altura, como Marx sabia, na qual deixaria de haver novos mercados disponíveis e novas reservas de pessoas para contraírem mais dívida. Foi o que aconteceu com a crise das hipotecas “subprime”. Uma vez que os bancos já não conseguem conceder mais empréstimos desse tipo, o esquema desmorona-se e o sistema rebenta.

Os oligarcas capitalistas, entretanto, juntam enormes somas de dinheiro – 18 biliões de dólares depositados em paraísos fiscais – o qual é extraído como tributo a quem dominam, endividam e empobrecem. O capitalismo poderia finalmente, segundo Marx disse, virar-se para o assim chamado mercado livre, junto com os valores e tradições que reclama defender. Daria início na sua fase final à pilhagem dos sistemas e estruturas que tornaram o capitalismo possível. Ao provocar mais largo sofrimento, recorreria a formas de repressão mais brutais. Tentaria, em posição frenética final, manter os seus lucros saqueando e pilhando as instituições estatais e contradizendo a sua declarada natureza.

Marx preveniu que nas últimas fases do capitalismo as grandes empresas exerceriam monopólio sobre os mercados globais. “A necessidade de constante expansão do mercado para os seus produtos persegue a burguesia por toda a face da Terra,” escreveu ele. “Tem que se aninhar por todo o lado, fixar-se por todo o lado, estabelecer contactos por todo o lado.” Estas grandes empresas, quer do sector bancário, das indústrias agrícolas e da alimentação, das indústrias de armamento ou das indústrias das comunicações, utilizariam o seu poder, tomando normalmente controle sobre os mecanismos do Estado para evitarem qualquer ameaça ao seu monopólio. Fixariam preços para maximizarem os lucros. Desenvolveriam [como têm feito] acordos de comércio como o TPP e o CAFTA (TPP -Trans-Pacific Partnership ou Parceria Trans-Pacífico e CAFTA - Central America Free Trade Agreement ou Acordo de Comércio Livre da América Central – N.T.) para enfraquecerem mais a capacidade dos Estados-nação de impedirem a exploração através de regulamentações ambientais ou a monitorização das condições de trabalho. E no final, estes monopólios empresariais fariam desaparecer a competição do livre mercado.

Um editorial do The New York Times de 22 de maio permite-nos verificar o que Marx disse que iria caracterizar as últimas fases do capitalismo:

“Durante esta semana, a Citicorp, o JPMorgan Chase, o Barclays e o Royal Bank of Scotland foram declarados culpados pelas acusações de crime de conspiração para falsificação do valor das cotações mundiais. De acordo com o Departamento de Justiça, a prolongada e lucrativa conspiração permitiu aos bancos aumentar os lucros sem contemplação pela decência, pela lei e pelo bem público.

Continua o “The Times”:

Os bancos vão pagar multas no total de 9 mil milhões de dólares, estabelecidas pelo Departamento de Justiça, assim como por reguladores estatais, federais e estrangeiros. Parece um bom negócio para um golpe que durou pelo menos cinco anos, desde o fim de 2007 até ao início de 2013 e durante o qual os benefícios provenientes do câmbio estrangeiro foi cerca de 85 mil milhões.

As fases finais daquilo a que chamamos capitalismo, conforme Marx percebeu, não têm nada a ver com capitalismo. As superempresas devoram as despesas estatais, que são essencialmente o dinheiro dos contribuintes, como porcos numa pocilga. A indústria de armamento, com a sua conta oficialmente autorizada para a defesa no valor de 612 mil milhões de dólares (que não inclui muitas outras despesas militares escondidas noutros orçamentos, o que faria a nossa despesa real com a defesa nacional subir acima de 1 bilião de dólares por ano), conseguiu levar este ano o governo ao compromisso de gastar na próxima década 348 mil milhões na modernização das nossas armas nucleares e na construção de 12 novos submarinos nucleares classe Ohio, estimados cada um em 8 mil milhões de dólares. Como exactamente é que estes dois enormes programas de armamento são supostos ser utilizados naquilo que nos dizem ser a maior ameaça do nosso tempo (a guerra ao terrorismo) é um mistério. Ao fim e ao cabo, tanto quanto sei, o ISIS não tem sequer um barco a remos. Gastamos 100 mil milhões em informações (leia-se espionagem) e 70% desse dinheiro vai para empreiteiros privados, como Booz Allen Hamilton, [que] obtém 99% dos seus rendimentos do governo americano. E, ainda por cima, somos o maior exportador mundial de armas.

A indústria de combustíveis fósseis, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), engole 5,3 biliões de dólares por ano em todo o mundo em custos camuflados para se continuarem a queimar combustíveis fósseis. Nota o FMI que este dinheiro está para além dos 492 mil milhões de subsídios directos oferecidos por governos em todo o mundo através de amortizações, adendas e subterfúgios diversos. Num mundo são, esses subsídios seriam gastos para nos libertar dos efeitos mortais das emissões de carbono causadas pelos combustíveis fósseis, mas não vivemos num mundo são.

Bloomberg News informava no artigo de 2013 “Porque devem os contribuintes dar aos bancos 83 mil milhões de dólares por ano?” que a redução de custos dos grandes bancos por via dos subsídios governamentais tinha sido estimada pelos economistas em 0,8%.

“Multiplicada pelas responsabilidades totais dos 10 maiores bancos americanos por activos”, dizia o relatório, “tal representa um subsídio dos contribuintes no valor de 83 mil milhões de dólares por ano.”

“Os cinco maiores bancos – JPMorgan, Bank of America Corp., Citigroup Inc., Wells Fargo & Co. e Goldman Sachs Group Inc. – representam,” continuava o relatório, “64 mil milhões do subsídio total, uma quantia aproximadamente igual ao seu lucro anual típico. Por outras palavras, os bancos que estão no posto de comando da indústria financeira dos EUA, com quase 9 biliões de activos que representam mais de metade da dimensão da economia americana, ficariam quase no zero na falta de assistência às superempresas. Em grande parte, os lucros que apresentam são essencialmente transferências dos contribuintes para os seus accionistas.”

A despesa do governo representa 41% do PIB. Os capitalistas das grandes corporações querem apanhar todo esse dinheiro e daí a privatização de sectores militares inteiros, a pressão para a privatização da Segurança Social, a adjudicação a empresas de 70% do serviço de informações de 16 das nossas agências, tal como a privatização de prisões, de escolas e do nosso desastroso serviço de saúde orientado para o lucro. Nenhuma destas apropriações de serviços básicos os torna mais eficientes ou reduz os seus custos. Não é isso que interessa. O que interessa é sugar a carcaça do Estado. Ora, isso irá ditar a desintegração das estruturas que sustêm o próprio capitalismo. Tudo isso foi percebido por Marx.

Marx pôs em foco estas contradições internas do capitalismo. Percebeu que a ideia do capitalismo – comércio livre, mercado livre, individualismo, inovação, autodesenvolvimento – apenas funciona na mente utopista de um verdadeiro crente, como Alan Greenspan, e nunca na realidade. Marx previu que a acumulação de riqueza por uma pequena elite capitalista, junto com a exploração dos trabalhadores, significaria que as massas já não conseguiriam comprar os produtos que impulsionavam o capitalismo para a frente. A riqueza vai-se concentrando nas mãos de uma pequena elite - os 1% mais ricos do mundo irão ficar a deter mais de metade da riqueza mundial no próximo ano.

O assalto à classe trabalhadora tem prosseguido agora ao longo de várias décadas. Os salários estagnaram ou diminuíram desde os anos 70. A produção foi situada longe, onde os trabalhadores de países como a China e o Bangladesh são pagos por tão pouco como 22 cêntimos a hora. Os trabalhadores pobres, forçados a competir no mercado global com o trabalho daqueles que pouco mais do que servos são, proliferam na paisagem americana, lutando por viver ao nível da subsistência. As indústrias como as da construção, que antigamente proporcionavam emprego bem pago sob contrato sindical, são agora ocupadas por trabalhadores não-sindicalizados e muitas vezes sem papéis. As grandes empresas importam engenheiros estrangeiros e especialistas de software que fazem trabalho profissional a um terço do salário normal com vistos temporários H-1B, L-1 e outros. Todos estes trabalhadores são privados de direitos de cidadania.

Os capitalistas respondem ao colapso das suas economias nacionais, por eles engendrado, tornando-se predadores do crédito e especuladores globais. Emprestam dinheiro a taxas de juro exorbitantes à classe trabalhadora e aos pobres, mesmo sabendo que o dinheiro nunca poderá ser pago, e vendem depois esses pacotes de dívida, de “swaps”, de obrigações e de acções aos fundos de pensões, a cidades, a firmas de investimento e a instituições. Esta última forma de capitalismo é erguida sobre aquilo que Marx denominou “capital fictício.” E conduz, como Marx sabia, à volatilização do dinheiro.

Uma vez que os tomadores de crédito hipotecário “subprime” começaram a não cumprir, conforme os grandes bancos e firmas de investimento sabiam ser inevitável, teve lugar a crise global de 2008. O governo resgatou os bancos, em grande parte emitindo dinheiro, mas deixou os pobres e a classe trabalhadora (não falando nos estudantes recentemente largando o ensino) com dívidas pessoais devastadoras. A austeridade tornou-se a política. As vítimas da fraude financeira iriam ser obrigadas a pagar a fraude. E o que nos salvou de uma depressão explosiva foi, de acordo com uma táctica que Marx teria achado irónica, a intervenção maciça do Estado na economia, incluindo a nacionalização de grandes empresas como as AIG e as General Motors.

O que vimos em 2008 foi o desempenho de um Estado-providência para os ricos, uma espécie de socialismo de estado para as elites financeiras previsto por Marx. Porém, atrás disto vem um crescente e volátil ciclo de fartura e escassez, levando o sistema para mais próximo da desintegração e do colapso. Sofremos duas grandes crises bolsistas e a implosão dos preços da propriedade numa única primeira década do séc. XXI.

As grandes empresas que detêm os media trabalharam horas extra para venderem a um público desnorteado a ficção de que estamos a ter uma recuperação. Os números do emprego, através de uma diversidade de truques que incluem fazer desaparecer das listas de desemprego os desempregados há mais de um ano, são uma mentira, tal como o é praticamente qualquer outro indicador financeiro anunciado para consumo público. Vivemos, na verdade, na fase crepuscular do capitalismo global, que pode ser surpreendentemente mais resiliente do que esperamos, mas que não deixará de ser definitivamente terminal. Marx sabia que, uma vez que o mecanismo do mercado se tornasse o único factor determinante para o destino do Estado-nação, do mesmo modo que para o mundo natural, ambos seriam demolidos. Ninguém sabe quando tal irá acontecer, mas que há-de acontecer, talvez mesmo dentro do nosso tempo de vida, isso parece seguro.

“O que é velho está a morrer, o que é novo luta por nascer e no interregno há muitos sintomas mórbidos,” escreveu Antonio Gramsci.

O que vier a seguir depende de nós.

Chris Hedges, esteve cerca de duas décadas como correspondente estrangeiro na América Central, no Médio-Oriente, em África e nos Balcãs. Enviou trabalhos para mais de 50 países e colaborou para o The Christian Science Monitor, a National Public Radio, o The Dallas Morning News e o The New York Times, no qual foi corresponde estrangeiro durante 15 anos.

30 de maio de 2015

Livro. "Marxismo, Orientalismo, Cosmopolitismo", de Gilbert Achcar

Samy Joshua


Gilbert Achcar começou sua trajetória política no Líbano. Professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos de Londres, é um dos maiores especialistas nas questões que aborda (poderíamos dizer “perito”, se esse termo não suscitasse, com razão, o desdém do autor ao longo de seu livro, devido à quantidade de supostos peritos autoproclamados que há nas telas das midiáticas). Ora, elucidar essas questões no estado de confusão em que a esquerda francesa está afundada, em especial após os atentados de janeiro de 2015 [contra o Charlie Hebdo] e suas consequências, é uma ardente necessidade. Esse pequeno livro contribuiu enormemente para isto. É composto por quatro contribuições escritas em diferentes ocasiões, uma delas sobre as relações de Marx e do orientalismo especificamente para a obra. O livro foi publicado em inglês em 2013.

"Religião e política hoje: uma abordagem marxista"

O primeiro artigo se refere à concepção marxista da religião, à análise da relação entre religião e política no geral, e mais especificamente à análise comparada da teologia da libertação e do fundamentalismo islâmico. O autor coloca que “o feito de que a religião sobreviva após a alvorada do quinto século depois da revolução científica representa um enigma para qualquer um que participe de uma visão positivista do mundo, mas não para uma compreensão marxista autêntica... a religião sobreviveu até nossa época não só porquanto é parte da ideologia dominante, senão porque produziu também igualmente ideologias combativas de protesto contra as condições sociais e/ou políticas vigentes”.

Aos marxistas lhes é familiar a famosa Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, em que Marx dá suas tão citadas fórmulas: a religião é um expressão da miséria; a expressão sublimada da miséria real. É também um protesto contra esta situação. Mas desgraçadamente, segundo Achcar, “Marx não prosseguiu sua reflexão sobre a dimensão de ‘protesto’ da religião”. Ainda assim, “Engels tentou torpemente explicar a Münzer como uma ‘antecipação do comunismo pela imaginação’ e a dimensão cristã como um simples disfarce”. Dito de outra forma, Achcar critica uma visão pouco dialética entra a forma (religiosa) e o conteúdo (social), como se os dois não se interferissem. Porém, o fazem, e convém analisar essas relações em cada caso: que período histórico, mas também que temas religiosos. Em nome do materialismo histórico o autor advoga por “uma sociologia comparativa marxiana das religiões”. Nela, o conceito weberiano de “afinidades eletivas” teria um lugar importante (por exemplo, entre certos aspectos do “cristianismo em sua fase carismática e um programa social comunísitico” detectado em Thomas Münzer). Achcar aplica esta análise à teologia da libertação de um lado e ao islamismo radical de outro. E resulta que “todas as correntes do fundamentalismo islâmico compartilhar de uma forma similar o que poderia ser descrito essencialmente como uma utopia medieval reacionária”. Também afirma: “a ideia orientalista superficial, segundo a qual o fundamentalismo islâmico é a vertente ‘natural” ahistórica dos povos muçulmanos, é totalmente aberrante”. E que, faz algumas décadas, “o maior partido comunista do mundo que não estava no poder, portanto um partido que se apoiava oficialmente em uma doutrina ateia, se encontrava no país com maior população muçulmana: a Indonésia”. Por outro lado, “Nasser foi, sem dúvida nenhuma, um crente sincero... ainda que tenha se convertido no pior inimigo dos fundamentalistas”. Gilbert Achcar resume o que tem se desenrolado há muito tempo sobre as raízes que permitiram o desenvolvimento do islamismo: a derrota do nacionalismo e carências da esquerda radical; fundamentalismo promovido contra a esquerda pelo reino saudita e seu padrinho americano; a exacerbação da crise no Oriente Médio; efeito da ofensiva neoliberal e colapso do “comunismo soviético”.

[...]

"O orientalismo reverso: sobre certas tendências do orientalismo francês após 1979"

O segundo artigo se refere à forma em que alguns desses críticos do orientalismo clássico evoluiu em direção a um “orientalismo reverso”. Invertendo os pressupostos essenciais do primeiro, mas conservando-os como marco metodológico. Achcar se apoia no artigo de Sadik Hala Al-Azm, Orientalismo e Orientalismo reverso (Khamsin, nº 8, Londres, Ithaca,1981) com suas duas categorias: “a primeira, já identificada por Edward Said, consiste em uma reprodução da dicotomia essencialista... mas com valores invertidos...”. A segunda é sintetizada pelo autor em 6 pontos:

1) O Oriente islâmico e o Ocidente são antitéticos, inclusive no que se refere ao marxismo; 2) o grau de emancipação do Oriente não pode ser medido segundo critério ocidentais, como a democracia, o laicismo e a libertação das mulheres (se pode acrescentar, suponho, a consideração das orientações sexuais); 3) os instrumentos epistemológicos das ciência sociais ocidentais não são pertinentes por completo quando são “exportados”; 4) a força motriz fundamental que move as massas muçulmanas é de ordem religiosa; 5) o único caminho das terras muçulmanas em direção ao seu renascimento passa pelo islã; 6) os movimentos de “retorno ao islã” não são jamais reacionários, mas movimentos progressistas.

O autor descreve, então, a evolução deste posicionamento entre os orientalistas franceses após 1979 (revolução islâmica iraniana), ainda que, evidentemente, a questão não se limite a eles. Se se deixa de lado Foucault, que sem um olhar retrospectivo crítico pôs fim bastante rápido a seu apoio aos processos iranianos, isso diz respeito a pensadores de referência neste terreno: Oliver Roy, Oliver Carré, Gilles Kepel, François Burgat, entre outros. Suas evoluções foram diversas, às vezes contrárias no plano político. Na cena francesa distingue “duas escolas. Uma tem sido chamada ‘neo-orientalismo’ por Farhad Khosrokhavar, ainda que se trate mais de uma tendência inerente ao ‘orientalismo’ tradicional; em duas palavras, a ideia é que o islã é incompatível com a modernidade. Chamei a outra escola de ‘novo orientalismo’, pois é verdadeiramente nova, e a defini como defendendo a ideia de que o islã é de fato a única e inevitável via do mundo muçulmano rumo à modernidade”. Compartilhando ambas “um núcleo comum: a visão essencialista”.

O autor, no entanto, faz cuidadosamente a distinção entre aqueles que se situam ao lado dos dominantes ocidentais, e aqueles, como Burgat, que se implicaram “valentemente contra a onda de islamofobia” que afeta a França, ainda que seja “com enormes ilusões”. Pois não se pode estender sem precauções a condenação de regressões históricas de grande envergadura sem considerar a discriminação exercida sobre populações minoritárias no Ocidente. Sobre essas questões cruciais da complexidade nos posicionamentos políticos, excluindo o simplismo, é condição inevitável para um debate profundo.

"Marxismo e cosmopolitismo"

O autor descreve quatro concepções do cosmopolitismo ao longo da história. Ética (remontando a Diógenes, que se declarava “cidadão do mundo”); institucional, em favor de um governo mundial; a concepção fundada no direito, como no “Projeto de paz perpétua” de Kant; ou econômica (fontes variadas, mas sob a influência de Adam Smith e sua Riqueza das nações, onde se remete à livre câmbio generalizado).

Achcar nos faz percorrer os caminhos do conceito, em particular no seio do movimento socialista e operário, no qual, durante muito tempo, não teve o caráter pejorativo que se lhe deu posteriormente (era, então, sinônimo de internacionalismo). Descreve sua funesta transformação por Stalin (outra forma de dizer “judeus”, carregada, portanto, de antissemitismo), mas recusa que essa rica ideia, própria dos combatentes pela emancipação humana, seja esquecida. A noção de cosmopolitismo está, ao contrário, na encruzilhada de sua ancoragem histórica e suas relações com os dados contemporâneos da mundialização e do altermundismo. É evidente que nada é simples neste tema, e o autor deixa espaço ao temor de Hannah Arendt, convencida de que “um governo mundial” seria sinônimo de tirania e afirmava: “Ninguém pode ser cidadão do mundo como é cidadão de seu país. Pouco importa a forma que poderia tomar um governo do mundo dotado de um poder centralizado dirigindo a terra inteira. Significaria o fim de toda vida política. Não seria o apogeu da política mundial, mas exatamente seu fim”. Mas o debate deve reabrir-se, diz Achcar: “Se a defesa da soberania nacional é certamente justificada e necessária frente à coerção imperialista, aparece inevitavelmente anacrônica em uma época em que a ‘mundialização’ é uma realidade e não uma frase oca”. Se inscreve no que De Sousa Santos chama de “o cosmopolitismo insurrecto”, e defende que “o combate socialista deve aspirar superar a realizações cosmopolitas do capitalismo apoiando-se na ideia de justiça mundial”.

"Marx, Engels e o 'Orientalismo': sobre a evolução epistemológica de Marx"

Este último artigo começa, inevitavelmente, com a abordagem crítica de Edward Said e de sua obra maior, Orientalismo (publicado em inglês em 1978), em particular a propósito de suas caracterizações, infundadas aos olhos de Achcar, do marxismo como unicamente enraizado no etnocentrismo europeu. Certamente, como diz o autor a propósito da obra de referência de Said, “O orientalismo tem sido claramente um passo importante nesta larga via que leva à liberdade”, por “desvelar, a uma escala massiva, um estado de espírito ‘ocidental’ eurocêntrico e colonial onipresente e profundamente enraizado”.

Mas a obra, que foi duramente atacada por quem negava que pudesses existir um tal espírito o foi também, e com razão, nos diz Achcar, por numerosos especialista da questão, em primeiro lugar por Maxime Rodinson, abundantemente citado por Said, mas sem que manifestamente houvesse compreendido a totalidade de seu pensamento. Rodinson, ainda que saudasse “o efeito de choque que seu livro, que se revela muito útil”, temia que este conduzisse, diz o autor, “a uma doutrina dogmática que rechaçaria a priori todo aporte etiquetado como orientalista em nome de uma concepção antiorientalista. É a proposição pós-colonial que ia mais tarde ser utilizada a este respeito até o abuso”.

O artigo de Gilbert Achcar não está mais dedicado a um estudo detalhado dos aportes e das críticas da obra de Said (numerosas desde o princípio, com uma forte renovação em nossos dias, vide Kevin Anderson, Vasant Kaiwar, Vivek Chiver, David Harvey e outros), senão mais especialmente em rechaçar a afirmação (que se pode considerar como pouco informada e gratuita) de Said considerando Marx como um espécime do mesmo “orientalismo geral”. Ao fazê-lo segue autores críticos presentes então, Sadik Jalal Al-Azm, Mahdi ´Amil, Samir Amin ou Aijaz Ahmad. Assim, “Amil acusou à crítica por Said do pensamento ocidental de cair ela mesma na armadilha do essencialismo colocando Marx no mesmo saco de outros pensadores ‘ocidentais’ sobre a base de uma definição geográfica de seu posicionamento cultural”. O faz, diz o autor: “omitindo a relação entre essencialismo e idealismo filosófico, Said não menciona uma só vez no Orientalismo o que é certamente a exposição mais característica da perspectiva ‘orientalista’ ocidental – que se encontra, não é de estranhar, no cume da filosofia idealista que encarnava Hegel”.

Em seu artigo, Achcar se dedica a uma análise precisa desta questão. Mais do que a constatação banal, mas importante, de que o ponto de vista de Marx e Engels esteve científica e concretamente limitado por seus conhecimentos “eurocentrados”, posto que foram indiretos durante todo um tempo, a verdadeira questão é pois a da sobrevivência das raízes idealistas em Marx.

É conhecida a tese de Althusser, muito criticada, mas, sem dúvida, altamente estimulantes, da existência de um “corte epistemológico” entre o Marx ainda parcialmente idealista e o Marx marxista que desenvolveu o método do materialismo histórico. Em apoio da mesma, Achcar recorda até que ponto as primeiras abordagens de Marx em numerosos campos são testemunhas por ele. Por exemplo, a ode unilateral ao papel revolucionário da burguesia que se lê em certas páginas do Manifesto, ou nos primeiros artigos sobre a Índia e a conquista da Argélia. E também a “teoria” da sucessão inevitável dos modos de produção desenvolvendo evidentemente a mesma visão que Hegel sobre o progresso unilateral da “Ideia”, (a razão), e da “Civilização”. Encontram-se também elementos disto nos primeiros escritos sobre a religião. Ainda que tome distancia à respeito de abordagens puramente idealistas da questão, se vê que Marx [um judeu] utiliza termos reveladores sobre “a essência do judeu” (em uma obra por outro lado importante pelas bases que põe sobre a distinção entre o que logo se chamará de direito formal e direito real, mas com fórmulas sobre a essência do judeu que não se podem ler hoje sem um estremecimento, recorda Achcar) ou o caráter incompleto das primeiras abordagens, ainda bem essencialistas, do cristianismo (ver o primeiro artigo do livro).

Achcar segue Althusser sobre este ponto, mas sublinhando, com razão, que as coisas são mais complicadas. De um lado, o materialismo histórico está já em marcha antes da “ruptura”, e de outro, rastros idealistas subsistem ao longo de toda a trajetória, ainda que vão fazendo-se cada vez mais raros. E aí Achcar faz a Said a crítica mais importante. Na realidade o materialismo histórico de Marx e Engels (mais do que suas produções em tal ou qual período) é justamente o antídoto (de fato o único) contra todos os essencialismos. Se ve seu desenvolvimento quando um ou outro precisam, modificam ou inclusive mudam completamente suas concepções, por exemplo, sobre o colonialismo. Certamente isto foi consequência, em grande medida, do exemplo da Irlanda que tinham ante seus olhos, mas compreenderam facilmente, a partir daí, o alcance geral da questão. Por estra razão, o fantástico trabalho que representam A ideologia alemã e as Teses sobre Feurbach (publicadas enquanto viviam) vem lançar as bases, até hoje insuperáveis, tanto da compreensão do essencialismo como de sua ancoragem no idealismo e a possibilidade de sair dele.

Se, decididamente, se trata de uma obra densa que oferece uma leitura indispensável a quem se nega a claudicar ante as facilidades intelectuais do momento, facilidades cujo simplismo e cujo “campismo” conceitual nos habituam desgraçadamente aos tempos de guerra atuais e aos que vêm. De fato, como se sabe há muito, a primeira vítima das guerras é a verdade.

28 de maio de 2015

A duplicidade como política de Washington para a América Latina

Marines para a América Central e diplomatas para Cuba

James Petras


Créditos: Christopher J. Moore/ U.S. Marines.

Tradução / Toda o mundo, desde sabichões políticos em Washington até o Papa em Roma, incluindo a maior parte dos jornalistas nos mass media e na imprensa alternativa, centrou a atenção nos movimentos dos EUA rumo à finalização do bloqueio econômico de Cuba e à abertura gradual de relações diplomáticas.

Fala-se muito de uma "grande mudança" na política estadunidense em relação à América Latina com ênfase na diplomacia e na reconciliação. Mesmo autores e jornais progressistas deixaram de escrever acerca do imperialismo dos EUA.

Contudo, há evidências crescentes de que as negociações de Washington com Cuba simplesmente fazem parte de uma política dúplice, de duas vias (two-track policy). Há claramente uma grande acumulação [de forças] dos EUA na América Latina, com dependência crescente em "plataformas militares" destinadas a lançar intervenções militares diretas em países estratégicos.

Além disso, decisores políticos dos EUA envolvem-se ativamente na promoção de partidos de oposição, movimentos e personalidades "clientes" a fim de desestabilizar governos independentes e estão decididos a re-impor a dominação estadunidense.

Neste ensaio começaremos por discutir as origens e o desdobrar desta política de duas vias, suas manifestações atuais e projeções no futuro. Concluiremos avaliando as possibilidades de restabelecer a dominação imperial dos EUA na região.

Origens da política de duas vias

A "política de duas vias" de Washington, baseada na combinação de "políticas reformistas" em relação a algumas formações políticas, enquanto trabalhava para derrubar outros regimes e movimentos pela força e intervenção militar, foi praticada pela antiga administração Kennedy a seguir à revolução cubana. Kennedy anunciou um vasto programa econômico de ajuda, empréstimos e investimentos – chamado "Aliança para o Progresso" – para promover o desenvolvimento e a reforma social em países latino-americanos desejosos de se alinharem com os EUA. Ao mesmo tempo o regime Kennedy escalou a ajuda militar estadunidense e exercícios conjuntos na região. Kennedy patrocinou um grande contingente de Forças Especiais – os "Boinas Verdes" – destinados à guerra de contra-insurgência. A Aliança para o Progresso destinava-se a conter a atração maciça das mudanças sociais revolucionárias em curso em Cuba com o seu próprio programa de "reforma social". Se bem que Kennedy promovesse reformas diluídas na América Latina, ele lançou a invasão "secreta" de Cuba (Baia dos Porcos) em 1961 e um bloqueio naval em 1962 (a chamada "crise dos mísseis"). A política de duas vias acabou por sacrificar reformas sociais e fortalecer a repressão militar. Em meados da década de 1970, as "duas vias" tornaram-se uma só – a força. Os EUA invadiram a República Dominicana em 1965. Apoiaram uma série de golpes militares em toda região, isolando Cuba efetivamente. Em consequência, a força de trabalho latino-americana experimentou cerca de um quarto de século de declínio dos padrões de vida.

Na década de 1980 os ditadores-clientes dos EUA haviam perdido sua utilidade e Washington mais uma vez adotou uma estratégia de duas vias. Numa, a Casa Branca apoiou incondicionalmente a agenda neoliberal dos seus militares-clientes governantes e patrocinou-os como parceiros juniores na hegemonia regional de Washington. Na outra via, promoveu mudanças para uma política eleitoral altamente controlada, a qual foi descrita como "transição democrática", a fim de "descomprimir" pressões sociais de massa contra seus clientes militares. Washington assegurou a introdução de eleições e promoveu políticos clientes desejosos de continuar a estrutura sócio-econômica neoliberal estabelecida pelos regimes militares.

Na virada do novo século, os descontentamentos acumulados em trinta anos de domínio repressivo, de políticas sócio-econômicas regressivas e de desnacionalização e privatização do patrimônio nacional provocaram uma explosão de descontentamento social em massa. Isto levou à derrubada e derrota eleitoral dos regimes clientes neoliberais de Washington.

Na maior parte da América Latina movimentos de massas estavam a exigir uma ruptura com os programas de "integração" centrados nos EUA. O anti-imperialismo aberto crescia e intensificava-se. Este período assistiu à emergência de numerosos governos de centro-esquerda na Venezuela, Argentina, Equador, Bolívia, Brasil, Uruguai, Paraguai, Honduras e Nicarágua. Além das mudanças de regime, forças econômicas mundiais fizeram crescer mercados asiáticos, seus pedidos de matérias-primas latino-americanas e a ascensão dos preços das commodities ajudou a estimular o desenvolvimento de organizações regionais centradas na América Latina – fora do controle de Washington.

Ainda estavam entranhados em Washington os seus 25 anos de política "via única" de apoio a políticas autoritárias civis-militares e de imposição neoliberal e era incapaz de responder e apresentar uma alternativa de reforma ao desafio anti-imperialista e de centro-esquerda à sua dominação. Washington trabalhou para reverter a nova configuração de poder. Suas agências para o exterior, a Agency for International Development (AID), a Drug Enforcement Agency (DEA) e embaixadas trabalhavam para desestabilizar os novos governos na Bolívia, Equador, Venezuela, Paraguai e Honduras. A "via única" de intervenção e desestabilização estadunidense fracassou durante a primeira década do novo século (com a excepção de Honduras e Paraguai).

No fim, Washington acabou politicamente isolada. Seus esquemas de integração foram rejeitados. Suas fatias de mercado na América Latina declinaram. Washington não só perdeu sua maioria automática na Organização dos Estados Americanos (OEA) como se tornou uma minoria nítida.

A política "via única" de Washington de confiar no "porrete" e evitar a "cenoura" era baseada em várias considerações. Os regimes Bush e Obama estavam profundamente influenciados pelos vinte e cinco anos de dominação da região (1975-2000) e a noção de que os levantamentos e mudanças políticas na América Latina na década seguinte eram efémeros, vulneráveis e facilmente reversíveis. Além disso, Washington, acostumada durante mais de um século de dominação econômica de mercados, recursos e trabalho, considerou como garantido que a sua hegemonia era inalterável. A Casa Branca falhou em reconhecer a força da participação crescente da China no mercado latino-americano. O Departamento de Estado ignorou a capacidade de governos latino-americanos para integrarem seus mercados e excluírem os EUA.

Responsáveis do Departamento de Estado dos EUA nunca se afastaram da desacreditada doutrina neoliberal que haviam promovido com êxito na década de 1990. A Casa Branca fracassou na adoção de uma viragem "reformista" para conter o apelo de reformadores radicais como Hugo Chávez, o presidente venezuelano. Isto foi mais evidente nos países caribenhos e andinos onde o Presidente Chávez lançou suas duas "alianças para o progresso": a "Petro-Caribe" (programa da Venezuela de fornecimento de combustível barato, fortemente subsidiado, a países pobres da América Central e do Caribe e de óleo de calefação para bairros pobres nos EUA) e o "ALBA" (união político-econômica de estados andinos, mais Cuba e Nicarágua, concebida para promover solidariedade política e laços econômicos regionais). Ambos os programas foram fortemente financiados por Caracas. Washington fracassou em propor um plano alternativo com êxito.

Incapaz de vencer diplomaticamente ou na "batalha de ideias", Washington recorreu ao "grande porrete" e procurou perturbar o programa econômico regional da Venezuela ao invés de competir com os generosos e benéficos pacotes de ajuda de Chávez. As "táticas destruidoras" dos EUA saíram pela culatra. Em 2009, o regime Obama apoiou um golpe militar em Honduras, removendo o liberal e reformista Presidente eleito, Zelaya, e instalou uma tirania sangrenta, uma reversão à década de 1970 quando os EUA apoiaram o golpe chileno que levou o general Pinochet ao poder. A secretária de Estado Hilary Clinton, num ato de pura palhaçada política, recusou-se a chamar de golpe a derrubada violenta de Zelaya e rapidamente reconheceu a ditadura. Nenhum outro governo apoiou os EUA na sua política de Honduras. Houve uma condenação universal do golpe, destacando o isolamento de Washington.

Repetidamente, Washington tentou utilizar sua "carta hegemônica" mas foi vencida sem rodeios em reuniões regionais. Na Cúpula das Américas em 2010, países latino-americanos afastaram objeções dos EUA e votaram por convidar Cuba à sua reunião seguinte, desafiando um veto estadunidense de 50 anos. Os EUA foram deixados sós na sua oposição.

A posição de Washington foi mais uma vez enfraquecida pelo boom de commodities ao longo de uma década (estimulado pela procura voraz da China por produtos agro-minerais). O "mega-ciclo" pôs em causa a antecipação dos Departamentos do Tesouro e do Estado dos EUA de um colapso de preços. Nos ciclos anteriores, "baixas" de preços de commodities haviam forçado governos de centro-esquerda a correrem ao Fundo Monetário Internacional (FMI) controlado por Washington à procura de empréstimos altamente condicionados para sanar balanças de pagamentos, nos quais a Casa Branca costumava impor suas políticas neoliberais e dominação política. O "mega-ciclo" gerou receitas e rendimentos ascendentes. Isto deu enorme alavancagem a governos de centro-esquerda para evitar as "armadilhas da dívida" ("debt traps") e marginalizar o FMI. Isto virtualmente eliminou a condicionalidade imposta pelos EUA e permitiu a governos latino-americanos prosseguirem políticas populistas-nacionalistas. Estas políticas diminuíram a pobreza e o desemprego. Washington jogou a "carta da crise" e perdeu. No entanto, Washington continuou a trabalhar com grupos de oposição de extrema direita para desestabilizar os governos progressistas, na esperança de que "chegassem ao desastre", caso em que os apaniguados de Washington "valsariam" e tomariam o poder.

A reintrodução da política de "duas vias"

Após uma década e meia de golpes duros, de fracassos repetidos das suas políticas do "grande porrete", de rejeição de esquema de integração centrados nos EUA e de múltiplas derrotas inequívocas de políticos seus clientes nas urnas eleitorais, Washington finalmente começou a "repensar" sua política de "via única" e hesitantemente explora uma limitada abordagem pelas "duas vias".

Contudo, as "duas vias" incluem polaridades claramente marcadas pelo passado recente. Enquanto o regime Obama abriu negociações e avançou para o estabelecimento de relações com Cuba, ele escalou as ameaças militares em relação à Venezuela ao absurdamente rotular Caracas como uma "ameaça à segurança nacional dos EUA".

Washington acordou para o fato de que a sua política belicosa em relação a Cuba foi rejeitada universalmente e deixou os EUA isolados da América Latina. O regime Obama decidiu afirmar algumas "credenciais reformistas" com a exibição da sua abertura a Cuba. A "abertura a Cuba" realmente faz parte de uma mais vasta intervenção política mais ativa na América Latina. Washington tomará pleno proveito da vulnerabilidade agravada dos governos de centro-esquerda quando o mega-ciclo das commodities chega ao fim e os preços entram em colapso. Washington aplaude o programa de austeridade orçamental perseguido pelo regime de Dilma Rousseff no Brasil. Apoia calorosamente o recém eleito regime "Frente Ampla" de Tabaré Vázquez no Uruguai com suas políticas de mercado livre e ajustamento estrutural. Apoia publicamente a recente nomeação pela presidente chilena Bachelet de democratas-cristãos de centro-direita para postos ministeriais a fim de obsequiar o big business.

Estas mudanças dentro da América Latina proporcionam uma "abertura" para Washington prosseguir uma política de "duas vias". Por um lado Washington está a aumentar a pressão política e econômica e a intensificar sua campanha de propaganda contra políticas e regimes de "intervenção estatal" no período imediato. Por outro lado, o Pentágono está a intensificar e escalar sua presença na América Central e sua vizinhança imediata. O objetivo é finalmente recuperar alavancagem sobre o comando militar no resto do continente sul-americano.

O Miami Herald (10 de maio de 2015) informou que a administração Obama enviou 280 marines para a América Central sem qualquer missão específica ou pretexto. Verificando-se logo após a Cúpula das Américas no Panamá (10-11 de abril de 2015), esta ação tem grande importância simbólica. Se bem que a presença de Cuba na Cúpula possa ter sido louvada como uma vitória diplomática da reconciliação dentro das Américas, o despacho de centenas de fuzileiros navais estadunidenses para a América Central sugere que outro cenário está em preparação.

Ironicamente, na reunião da Cúpula, o secretário-geral da União das Nações Sul Americanas (UNASUL), o antigo presidente colombiano (1994-1998) Ernesto Samper, conclamou os EUA a removerem todas as suas bases militares da América Latina, incluindo Guantánamo: "Um bom ponto na nova agenda de relações na América Latina seria a eliminação das bases militares estadunidenses".

A ideia da "abertura" dos EUA a Cuba é precisamente assinalar seu maior envolvimento na América Latina, o qual inclui um retorno a uma mais robusta intervenção militar estadunidense. A intenção estratégica é restaurar regimes clientes neoliberais, pelos votos ou pelas balas.

Conclusão

A atual adoção de Washington de uma política de duas vias é uma "versão barata" da política de John F. Kennedy de combinar a "Aliança para o Progresso" com as "Boinas Verdes". Contudo, Obama oferece pouco quanto a apoio financeiro para modernização e reforma a fim de complementar seu desejo de restaurar a dominação neoliberal.

Após uma década e meia de recuo político, isolamento diplomático e perda relativa de alavancagem militar, o regime Obama levou seis anos para reconhecer a profundidade do seu isolamento. No momento em que a secretária assistente para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Roberta Jacobson, afirmou que estava "surpreendida e desapontada" quando todos os países latino-americanos se opuseram à afirmação de Obama de que a Venezuela representava uma "ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos", ela mostrou quão ignorante e fora de sintonia se tornou o Departamento de Estado em relação à capacidade de Washington para influenciar a América Latina no apoio à sua agenda de intervenção imperial.

Com o declínio e recuo do centro-esquerda, o regime Obama tem estado ansioso por explorar a estratégia das duas vias. Na medida em que as conversações de paz na Colômbia entre as FARC e o Presidente Santos avancem, é provável que Washington reajuste sua presença militar na Colômbia para enfatizar sua campanha de desestabilização contra a Venezuela. O Departamento de Estado aumentará aberturas diplomáticas à Bolívia. A National Endowment for Democracy (NED) intensificará sua intervenção nas eleições argentinas deste ano.

Circunstâncias variadas e mutáveis ditam táticas flexíveis. A pairar sobre as mudanças táticas de Washington está uma perspectiva estratégica odiosa destinada a aumentar a alavancagem militar . Quando as negociações de paz entre o governo colombiano e as guerrilhas das FARC avançam rumo a um acordo, diminui o pretexto para manter sete bases militares estadunidenses e vários milhares de militares dos EUA, assim como suas tropas de Forças Especiais. Contudo, o presidente Santos da Colômbia não deu indicação de que um "acordo de paz" estaria condicionado à retirada de tropas estadunidenses ou ao encerramento das suas bases. Por outras palavras, o US Southern Command reteria uma plataforma militar vital e uma infraestrutura capaz de lançar ataques contra a Venezuela, Equador, América Central e o Caribe. Com bases militares por toda a região, na Colômbia, em Cuba (Guantánamo), Honduras (Soto Cano em Palmerola), Curaçao, Aruba e Peru, Washington pode rapidamente mobilizar forças de intervenção. Laços militares com as forças armadas do Uruguai, Paraguai e Chile asseguram contínuos exercícios conjuntos e estreita coordenação das chamadas políticas de "segurança" no "Cone Sul" da América Latina. Esta estratégia está concebida especificamente para preparar a repressão interna contra movimentos populares, sempre e em todo momento em que a luta de classe se intensifique na América Latina. A política de duas vias, hoje em vigor, é executada através de estratégias político-diplomáticas e militares.

No período imediato, na maior parte da região, Washington busca uma política de intervenção e pressão política, diplomática e econômica. A Casa Branca está a contar com o "giro para a direita" de antigos governos de centro-esquerda a fim de facilitar o retorno ao poder de regimes clientes descaradamente neoliberais em futuras eleições. Isto é especialmente verdadeiro em relação ao Brasil e à Argentina.

A "via político-diplomática" é evidente nos movimentos de Washington para restabelecer relações com a Bolívia e fortalecer aliados alhures a fim de alavancar políticas favoráveis no Equador, Nicarágua e Cuba. Washington propõe oferecer acordos diplomáticos e comerciais em troca de um "amaciamento" da crítica anti-imperialista e do enfraquecimento dos programas da "era Chávez" de integração regional.

A "abordagem em duas vias", tal como aplicada à Venezuela, tem uma componente militar mais aberta do que alhures. Washington continuará a subsidiar violentos cruzamentos paramilitares da fronteira com a Colômbia. Continuará a encorajar a sabotagem terrorista interna da rede elétrica e do sistema de distribuição alimentar. O objetivo estratégico é desgastar a base eleitoral do governo Maduro, como preparação para as eleições legislativas no fim de 2015. Quando se trata da Venezuela, Washington está a seguir uma estratégia em "quatro passos":

  1. Intervenção violenta indireta para desgastar o apoio eleitoral do governo 
  2. Financiamento em grande escala da campanha eleitoral da oposição parlamentar para assegurar uma maioria no Congresso 
  3. Uma campanha maciça na mídia em favor de um voto do Congresso para um referendo impedindo (impeaching) o Presidente 
  4. Uma campanha em grande escala financeira, política e na mídia para assegurar uma maioria de votos para o impeachment por referendo.

Na possibilidade de uma votação por margem estreita, o Pentágono prepararia uma intervenção militar rápida com seus colaboradores internos – procurando uma derrubada de Maduro "estilo Honduras".

A fraqueza estratégica e tática da política de duas vias é a ausência de qualquer ajuda econômica prolongada e abrangente, com programas de comércio e investimento que atraíssem e mantivessem eleitores da classe média. Washington está a contar mais com os efeitos negativos da crise para restaurar seus clientes neoliberais. O problema com esta abordagem é que as forças pró-EUA só podem prometer um retorno a programas de austeridade ortodoxos, com reversão de programas sociais e de bem-estar público, fazendo ao mesmo tempo concessões econômicas em grande escala aos maiores investidores e banqueiros estrangeiros. A implementação de tais programas regressivos iriam atear e intensificar conflitos de classe, de comunidades e étnicos.

A estratégia de "transição eleitoral" dos EUA é um expediente temporário, à luz das políticas econômicas altamente impopulares que certamente implementariam. A ausência completa de qualquer ajuda sócio-econômica substancial dos EUA para amortecer os efeitos adversos sobre famílias trabalhadoras significa que as vitórias eleitorais dos clientes dos EUA não perdurarão. Eis porque e quando a acumulação militar estratégica entra em cena. O êxito da via única, a busca de táticas político-diplomáticas, inevitavelmente polarizará a sociedade latino-americana e aumentará as perspectivas para a luta de classe. Washington espera ter seus aliados-clientes político-militares prontos para responder com repressão violenta. A intervenção direta e o aumento da repressão interna entrarão em cena para assegurar a dominação estadunidense.

A "estratégia de duas vias", mais uma vez, evoluirá para uma "estratégia de via única" destinada a devolver a América Latina à [condição de] região satélite, pronta para a pilhagem por multinacionais extrativas e especuladores financeiros.

Como temos visto ao longo da última década e meia, "políticas de duas vias" levam a levantamentos sociais. E na próxima ocasião os resultados podem ir muito além de regimes progressistas de centro-esquerda, rumo a governos verdadeiramente sociais-revolucionários!

Epílogo

Os construtores do império estadunidense demonstraram claramente por todo o mundo a sua incapacidade para intervir e produzir estados clientes estáveis, prósperos e produtivos (Iraque e Líbia são casos exemplares). Não há razão para acreditar, mesmo que a "política das duas vias" leve a vitórias eleitorais temporárias, que os esforços de Washington para restaurar a sua dominação terão êxito na América Latina, ainda menos porque à sua estratégia falta qualquer mecanismo para a ajuda econômica e reformas sociais que mantivesse uma elite pró-EUA no poder. Exemplo: como poderiam os EUA compensar de algum modo o pacote de ajuda da China ao Brasil de US$50 bilhões senão através da violência e da repressão?

É importante analisar como a ascensão da China, Rússia, de fortes mercados regionais e de novos centros financeiros enfraqueceram gravemente os esforços de regimes clientes para realinharem com os EUA. Golpes militares e mercados livres já não são mais fórmulas garantidas de êxito na América Latina. Seus fracassos passados são demasiado recentes para serem esquecidos.

Finalmente, a "financiarização" da economia estadunidense, que até o Fundo Monetário Internacional descreve como impacto negativo de "demasiada finança" (Financial Times, 13 de maio de 2015, p. 4), significa que os EUA não podem conceder recursos capitais para desenvolver a atividade produtiva na América Latina. O estado imperial só pode servir de violento cobrador de dívidas para os seus bancos no contexto do desemprego em grande escala. O imperialismo financeiro e extrativo é um cocktail político-econômico para detonar a revolução social num continente inteiro, muito além da capacidade dos fuzileiros navais estadunidenses o impedirem ou suprimirem.

“Operação Abutre” e protestos laborais na Ucrânia

Michael Hudson

naked capitalism

Tradução / O colapso da Ucrânia depois do golpe de fevereiro de 2014 converteu-se num guarda-chuva para a “grabitization”. Dano colateral nessa condição de assalto generalizado, tem sido o trabalho. Muitos trabalhadores simplesmente não são pagos, e o que recebem é quase sempre ilegalmente baixo. Os empregadores retiram das contas das empresas o que lá encontrem e transferem tudo – preferencialmente para o ocidente ou, no mínimo para alguma moeda estrangeira.

Os atrasos salariais são cada dia maiores, porque, com a Ucrânia aproximando-se da véspera de dar calote nos mais de € 10 bilhões que deve a Londres, os cleptocratas e empresários começam a abandonar o navio. Já viram que os empréstimos externos secaram, e que a taxa de câmbio só despencará cada vez mais. O anúncio, pelo Parlamento, na semana passada, de que subtraiu € 8 bilhões da reserva para pagar o serviço da dívida, para usar o dinheiro em mais um ataque militar na região exportadora ocidental do país foi a gota d’água para os credores externos, e até para o FMI. Esses empréstimos ajudaram a sustentar a taxa de câmbio da hryvnia (moeda ucraniana) por tempo suficiente para que banqueiros, empresários e outros “agentes econômicos” tirassem do país a quantidade possível de ativos, o máximo de euros e de US dólares que pudessem, antes do iminente colapso que virá, em junho ou julho.

Nessa situação de pré-bancarrota, esvaziar as prateleiras significa não pagar empregados nem outras contas. Há notícias de que os salários em atraso já alcançariam 2 bilhões de hryvnias, devidas a meio milhão de trabalhadores. Essa situação levou a Federação dos Sindicatos da Ucrânia a organizar um protesto contra o Gabinete de Ministros ontem, quarta-feira, 27 de maio de 2015. E mais protestos estão marcados para as próximas duas quartas-feiras, dias 3 e 10 de junho de 2015. Segundo o vice-presidente da Federação Serhiy Kondratiuk, “o atual salário de subsistência de 1.218 hryvnias ucranianas é 60% inferior ao que determina a lei ucraniana, cálculo confirmado também pelo Ministério de Política Social... O salário mínimo no país é de 3.500 hryvnias ucranianas mensais. Mas o governo recusa-se a manter diálogo com a sociedade, para revisar os padrões.”

O cenário que está ameaçado

Esvaziar de vez os bancos comerciais ucranianos deixará prateleiras vazias. Com a economia ucraniana já quebrada, os únicos compradores existentes são milionários europeus e norte-americanos. Vender a estrangeiros é, pois, o único modo de gerentes e proprietários obterem algum retorno significativo – e compras pagas em moeda garantida depositada em contas no exterior, bem longe das futuras taxas e multas ucranianas. Privatização e fuga de capitais caminham juntos.

E o mesmo se dá no campo do trabalho. Os novos compradores reorganizarão os ativos que compram, declaram a falência das empresas antigas e apagam os salários atrasados, junto com qualquer outra dívida incômoda que os empregados imaginem ter a receber. As empresas reestruturadas declararão que a falência apagou qualquer coisa que os ex-proprietários (ou as empresas públicas) devessem aos empregados. É praticamente o que fazem nos EUA os compradores da massa falida de empresas, para apagar quaisquer obrigações que haja com pensões ou outras dívidas. Lá como cá, esses abutres declararão que “salvaram” a economia ucraniana e a tornaram “competitiva”.

Operação Abutre

O golpe do general Pinochet no Chile foi um ensaio geral para o que hoje se vê em todo o mundo e também na Ucrânia. No Chile, a junta militar golpista apoiada pelos EUA atacou furiosamente líderes sindicais, jornalistas, acadêmicos e líderes políticos potenciais. No Chile, foram extintos todos os Departamentos de Economia nas universidades, exceto os que recebiam “especialistas” em “livre-mercado” vindos de Chicago, e que se concentraram na Universidade Católica. Ninguém pode ter “livre-mercado” à moda Chicago, sem tomar essas medidas totalitárias.

Os estrategistas norte-americanos gostam de dar nomes de aves míticas a esses seus golpes: Operação Fênix, no Vietnã; Operação Condor, na América Latina. Hoje, está em andamento um programa semelhante contra falantes de russo que vivem na Ucrânia. Não sei que nome-código darão a mais esse “golpe padrão”. Sugiro chamá-lo Operação Abutre.

Para os sindicalistas, o problema não é só receber salários atrasados mas, também, conseguir algum salário mínimo necessário que permita sobreviver. Se não saírem às ruas e protestarem, simplesmente não serão pagos. Por isso estão organizando uma manifestação “neo-Maidan” a favor, declaradamente, dos direitos dos trabalhadores da Ucrânia – tentando assim que os pistoleiros-atiradores ocultos que matam a serviço do Pravy Sektor não os tomem por manifestantes pró-Rússia. Os sindicatos estão tentando proteger-se buscando o apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Confederação Internacional de Sindicatos em Bruxelas.

A tática mais efetiva para enfrentar a corrupção que está permitindo o não pagamento de salários e aposentadorias, é focar o ataque sobre o apoio externo que o atual regime na Ucrânia recebe, sobretudo do FMI e da União Europeia. Usar os sofrimentos dos trabalhadores como manto de proteção, para exigir outras reformas. Essas outras reformas podem incluir advertências bem explícitas de que qualquer venda a estrangeiros, de terras, matérias primas, aparelhos de infraestrutura e outros itens do patrimônio público ucraniano são negócios que serão desfeitos no futuro, quando houver na Ucrânia governos menos corruptos.

A favor dos sindicalistas, está o fato de que o FMI já violou suas próprias “Regras para Acordos de Empréstimos”, ao emprestar dinheiro para finalidades militares. No momento em que esse último empréstimo chegou às mãos de Poroshenko, ele anunciou que estava escalando sua guerra contra o leste do país. Esse movimento põe o empréstimo feito pelo FMI bem próximo do que os teóricos de Direito Comercial chamam de “Dívida Odiosa”: dívidas assumidas por junta que toma o poder à força, saqueia o Tesouro e faz dívidas, que deixa para algum futuro governo pagar pelo que a junta tenha roubado.

A luta dos sindicatos por salário digno não visa só a saldar dívidas sociais passadas: visa também a pôr em prática um plano de recuperação que proteja a economia ucraniana de ser tratada como a da Grécia ou da Letônia, à moda dos neoliberais. Estrategistas norte-americanos vem tentando classificar como “Dívida Odiosa” – para escapar da obrigação de saldá-la – os US$ 3 bilhões que a Ucrânia deve à Rússia, que vencem em dezembro. Tentam também classificar essa dívida como “ajuda externa”, o que a tornaria não cobrável. Por irônico que pareça, o Peterson Institute of International Economics, George Soros e outros Guerreiros da Guerra Fria, têm fornecido aos futuros governos ucranianos um vasto repertório de razões plenamente legais, para safarem-se da dívida externa que sufoca o país – e liberar recursos para pagarem salários e aposentadorias em atraso.

Se não for isso, só resta aos credores internacionais pensarem primeiro no FMI, na União Europeia e nos acionistas externos, e deixarem “para depois” a defesa de direitos soberanos capaz de impedir a autodestruição da Ucrânia.

Plataforma da Esquerda do Syriza: “Avançar para um contra-ataque com um plano alternativo”

Miri Davidson

Left Plataform

Tradução / Enquanto as negociações gregas continuam, publicamos uma declaração de Stathis Kouvelakis, membro do Comitê Central do Syriza, que resume a Plataforma da Esquerda do Syriza, votada na reunião do Comitê Central, e rejeitada por uma mínima margem de votos. A Plataforma da Esquerda propõe rompimento das negociações, não pagamento de mais dívidas e a adoção de um plano alternativo alinhado com as promessas de campanha do Syriza.

Na sessão do comitê central que terminou há poucas horas, a Plataforma de Esquerda apresentou o seguinte texto, que recebeu 75 votos a favor, 95 contra e um voto em branco. O texto propõe rompimento com as agências de empréstimos, depois de declarado que a Grécia não pagará dívidas. No texto aprovado pela maioria do comitê central, são listadas quatro condições de um “compromisso aceitável”:

  • Baixos superávits primários no orçamento;
  • Fim dos cortes em salários e aposentadorias;
  • Reestruturação da dívida;
  • Pacote significativo de investimentos públicos, especialmente em obras de infraestrutura e em novas tecnologias.

A esses, a Plataforma de Esquerda tem acrescentado “a indispensável reinstituição das convenções coletivas e o aumento gradual do salário mínimo para 751 euros [nível de 2009]”; e estipula que “todas as mudanças na política fiscal devem promover a justiça social, aliviando o peso sobre os ombros dos economicamente mais sacrificados e forçando os ricos que sonegam, afinal, a pagar”.

Em seu relatório público, Alexis Tsipras adotou tom firme, mas evitou qualquer referência precisa ao atual estado das negociações nem esclareceu sobre a base da discussão de um possível acordo, referindo-se só às quatro condições mencionadas acima, o que não ajuda a esclarecer os pontos nos quais há desacordo. A sessão foi marcada também pela intervenção da presidenta do Parlamento Zoe Kostantopoulou, que só apoiou uma suspensão por um ano do pagamento da dívida, apoiada nas primeiras conclusões do Comitê para Auditoria da Dívida, que devem ser divulgadas nos próximos dias. A presidenta do Parlamento também rejeitou a muito controvertida indicação de Lambis Tagmatarchis para o cargo de novo diretor da empresa pública de comunicações ERT.

Tagmatarchis é uma pessoa muito conectada ao establishment “midiático” e foi diretor da ERT no governo de George Papandreou, do PASOK.

Texto integral da Plataforma da Esquerda

Tornou-se claro que as “instituições” não têm interesse algum no que alguns estão chamando de “acordo honroso”. Mas de fato nenhum “acordo honroso” pode haver, mediante privatizações e mais carga sobre os ombros das classes populares. É claro que não há “acordo honroso” possível, sem fim real da “austeridade”, sem uma reestruturação da (maior parte da) dívida e sem adequada provisão de liquidez para a revitalização da economia. O que os círculos que comandam a União Europeia (UE), o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) buscam impiedosa e consistentemente ao longo dos últimos meses é estrangular a economia, arrancar das reservas da Grécia até o último euro e instalar aqui um governo “antiprotecionismos” para submetê-lo a humilhação exemplar. Essa tática dos parceiros na União Europeia já foi usada na reunião de Riga. Ao governo grego não resta alternativa além de partir para um contra-ataque, com plano alternativo que terá de basear-se nas promessas pré-eleitorais do SYRIZA e nos anúncios programáticos do governo. As seguintes medidas devem ser imediatamente implementadas:

  • Nacionalização imediata dos bancos, acompanhada de todas as medidas complementares necessárias para garantir o funcionamento da nacionalização, sob critérios transparentes, produtivos, desenvolvimentistas e sociais.
  • Imposição de legalidade e transparência democráticas às grandes empresas de mídia, além de controle substancial sobre suas obrigações financeiras [substantial control of their lending obligations.
  • Fim imediato de qualquer esquema “midiático” de proteção para preservar a oligarquia grega, há muito tempo mergulhada em escândalos jamais noticiados.
  • Suspensão de todos os privilégios, ajustes privilegiados e imunidade que protegem os grandes interesses econômicos.
  • Imposição de impostos substanciais sobre grandes fortunas, grandes propriedades e grandes lucros de grandes empresas e grandes acionistas.
  • Reintrodução plena e imediata (além da proteção que lhes é devida e da imediata implementação prática) da legislação e dos direitos trabalhistas e de organização sindical.

O governo tem de contra-atacar com decisão a propaganda distribuída pelos círculos de poder que aterrorizam o povo com cenários de total desastre nos quais o país mergulharia no caso da suspensão dos pagamentos da dívida e de uma eventual saída da Eurozona.

Em todos os casos, o maior desastre que se pode antever para a Grécia e para os gregos é, seja como for, a imposição de novo memorando e a extensão de memorandos passados. Esse, sim, é desenvolvimento a ser evitado por todos os meios possíveis e mesmo que exija muito sacrifício.

Toda e qualquer solução alternativa que vise a uma política progressista contra os Memorandos inclui inicialmente e principalmente a suspensão dos pagamentos da dívida grega. Não obstantes todas as dificuldades que daí advenham, essa é via muito preferível a qualquer outra, porque oferece ao país esperança e perspectiva.

Se, nos próximos dias, as “instituições” prosseguirem com sua política de chantagem, é dever do governo da Grécia declarar firmemente que, desse momento em diante, elas não mais conseguirão sangrar o povo grego, saqueando suas economias. Que não haverá pagamento futuro ao FMI, e que é firme intenção do governo apresentar soluções alternativas para os rumos futuros do País – nos planos econômico, social, político e estratégico – que assegurarão plena cobertura à implementação desse programa.

27 de maio de 2015

Romper as cadeias do euro, da União Europeia e da OTAN

Fausto Sorini

Associazione Politico-Culturale Marx XXI

Tradução / Neste mês de maio estão vindo à tona os nós não desatados da zona do euro e da União Europeia. Este é também o sinal que, de maneiras diferentes e com orientações diferentes, se manifestou no voto e/ou no posicionamento de diversos povos do continente, como o espanhol, o polonês, o grego e o britânico.

Auguramos que seja também o sinal que será dado pelo voto italiano no próximo domingo (31), em primeiro lugar com a afirmação dos candidatos mais consequentes com tal orientação, presentes na lista progressista, comunista e de esquerda apoiada por nosso partido.

Antes de tudo, está vindo à tona o nó grego.

A Grécia, que Mario Monti considerava “o maior sucesso do euro”, evidencia uma realidade que apenas quem está de má fé ou completamente desinformado pode negar: a gaiola da zona do euro debilitou bastante a sua economia, provocando uma drástica piora da balança comercial e um aumento da dívida (privada e pública); a política de austeridade imposta em troca de posteriores empréstimos – que na realidade serviram como seguro, transformando em créditos dos Estados da zona do euro e do FMI os créditos dos bancos alemães e franceses – piorou ulteriormente a situação, com o resultado de fazer a Grécia perder  26% do Produto Interno Bruto (PIB), milhões de postos de trabalho e parte significativa da capacidade industrial. E a dívida é maior do que antes e – ainda mais do que antes – é impagável.

A respeito dessa atroz evidência, o establishment euro-atlântico não tem a intenção de recuar e busca impor à Grécia um ulterior redimensionamento dos direitos dos trabalhadores e aposentados; embora até o momento não tenha conseguido dobrar e humilhar o governo grego, ainda apoiado pela maioria dos cidadãos do país. Este é atravessado por um duro debate, que desejamos possa terminar sem capitulação às chantagens da União Europeia e da OTAN: porque isto abriria caminho a uma dramática desilusão para todos os povos europeus e primeiramente na Grécia, a uma perigosa contraofensiva reacionária e fascista que já está em gestação.

Esta é a situação. Que agora torna concretamente possível a saída da Grécia da zona do euro. Quanto a essa eventualidade, o establishment euro-atlântico (e em particular o alemão, que evidentemente dirige o processo) está dividido: uma parte está preocupada com as consequências “imprevisíveis” de tal eventualidade (mas não está disponível para cancelar nem sequer parcialmente a insustentável dívida da Grécia), outra parte parece acalentar a ideia de uma “punição exemplar” à Grécia, para colocar na linha os demais países europeus em dificuldade (em primeiro lugar a Itália), mostrando as supostas terríveis consequências de uma saída  da zona do euro. Em 25 de maio, Paul Krugman fez uma advertência, lembrando que se trata de um jogo perigoso: pelo simples motivo de que uma Grécia fora da zona do euro poderia demonstrar aos seus torturadores exatamente o contrário do que estes esperam. Ou seja, que “existe vida além do euro”, e para além das fronteiras da União Europeia e da OTAN. E que um outro mundo é possível, na cooperação com os BRICS e com uma vasta área de países não alinhados. E mais precisamente que, fracassada a gaiola cambial e restauradas as relações de câmbio de mercado, a economia grega poderia voltar a crescer sem precisar recorrer aos drásticos cortes de salários que ocorreram nestes anos (que comprimem a demanda interna e, portanto, são contraproducentes).

Entre aqueles que estão preocupados com o rumo que os acontecimentos estão tomando, encontram-se os Estados Unidos, cujo posicionamento evidencia com toda a clareza as relações existentes entre a União Europeia, a zona do euro e o pacto atlântico. Basta recordar que além deste pacto militar imperialista, fonte de guerras diretas e por procuração, e de permanente instabilidade internacional, pretende-se agora afiançar um tratado de livre comércio que reforçaria os laços euro-atlânticos exatamente no momento em que o capitalismo europeu e o estadunidense estão em graves dificuldades, e precisamente no momento em que no mundo emergem outros interlocutores e outras realidades políticas e econômicas a que se abrir.

Os povos europeus estão exprimindo, de diferentes formas e nem sempre univocamente progressiva, uma mensagem clara na sua substância: a União Europeia e a União Econômica e Monetária (a zona do euro) não são mais consideradas fontes de progresso econômico e social. A lógica que as preside é cada vez mais claramente antidemocrática, é cada vez mais evidente a supremacia do Banco Central Europeu sobre os governos democraticamente eleitos e sobre os próprios valores constitucionais dos países membros, é cada vez mais clara a iniquidade das políticas que estão sendo seguidas em nome do fetiche da “estabilidade dos preços”, em benefício dos grandes potentados econômicos e financeiros e em detrimento da esmagadora maioria da população europeia.

Não se pode morrer por Maastricht, não se pode render ao desemprego em massa e a um declínio industrial e produtivo que tem suas raízes, entre outras coisas, na assunção dos valores liberais e monetaristas do Tratado Europeu e na substituição de fato (jamais submetida ao voto popular!) dos valores da nossa Constituição.

É chegado o momento de dizer com clareza que o conflito entre os direitos reconhecidos por nossa Constituição e os pseudo-valores que informam os tratados europeus, centrados na absoluta proeminência do mercado em todos os campos, deve ser resolvido a favor dos primeiros.

É chegada a hora de dizer que hoje pedir “mais Europa” significa fortalecer esta Europa antidemocrática, reacionária e atlântica.

É chegado o momento de dizer que essa união monetária não representa um passo adiante para a Europa dos povos, mas precisamente o contrário: é um mecanismo que acentua a hierarquia econômica na Europa, que reforça os fortes e enfraquece os débeis, que atira os povos uns contra os outros e põe em causa os valores civilizacionais e sociais que acreditávamos fossem irreversíveis. Precisamente como aconteceu nos anos 1930, nos quais o padrão ouro, um outro mecanismo de câmbio fixo, levou à deflação e abriu as portas ao nazismo e à segunda guerra mundial.

É chegado o tempo de quebrar o tabu de uma moeda que se tornou um fetiche e um instrumento permanente de chantagem social.

Chegou a hora de apoiar todos aqueles que na Europa, e a partir da Grécia, contrapõem de fato a esta ideologia de papel-moeda a centralidade dos valores do trabalho e do progresso social, rumo a uma sociedade melhor do que aquela imposta por  décadas de pensamento único e de domínio incontrastável das classes dominantes e dos partidos que as representam.

A conclusão é simples e clara: nenhum progresso social e nenhuma política de cooperação e de paz com outras regiões do mundo são possíveis se não se rompem as cadeias desta gaiola neo-imperialista representada pela União Europeia do euro e da OTAN.

Fausto Sorini, membro do Secretariado nacional do Partido Comunista da Itália, responsável internacional.

Os Silêncios de Ouro no sistema de propaganda da América

Edward S. Herman

Z

Tradução / A propaganda modela o fluxo de informação de muitas maneiras, incluindo, obviamente, a escolha das notícias a serem impressas, sua colocação e a escolha de autoridades para darem credibilidade àqueles fatos. Mas igualmente importante, e implícito nas escolhas de notícias, especialmente onde há interesses políticos em causa e diversas interpretações possíveis das notícias, é omitir fatos e ignorar fontes que põem a perspectiva escolhida (frequentemente a oficial) em causa. Tais Silêncios de Ouro (Golden Silences) e o contornar de fontes inconvenientes são incompatíveis com o jornalismo honesto mas este é o procedimento operacional padrão no jornalismo de referência (mainstream), com variações sobretudo quanto à severidade e profundidade do enterramento dos fatos incômodos. Estes últimos muitas vezes não são completamente escondidos mas colocados tão profundamente num artigo e com tal cautela ou linguagem qualificadora que [equivale] a serem efetivamente enterrados ou suprimidos.

Isto é ilustrado de modo dramático quando comparamos o tratamento de vítimas "valiosas" e vítimas "não valiosas", categorias que Noam Chomsky e eu enfatizamos em A Fabricação do Consentimento (o capítulo 2 intitula-se "Vítimas valiosas e não valiosas"). Vítimas valiosas são vítimas do inimigo e de estados alvo, ao passo que vítimas não valiosas são aquelas mortas por nós ou um dos nossos aliados ou clientes. Demos pormenores sobre a enorme atenção da mídia ao assassinato de um padre polaco na Polônia comunista em 1984, uma única vítima valiosa que, como mostramos, obteve mais atenção da mídia estadunidenses do que 100 vítimas religiosas de estados clientes dos EUA na América Latina (1965-1985) tomadas em conjunto. Estas últimas foram tratadas como não valiosas em virtude do status de clientes dos assassinos, apesar de oito destas 100 terem sido realmente cidadãos dos EUA.

Ruanda proporcionou uma série de casos de vitimizações valiosas e não valiosas. Paul Kagame e seu Rwanda Patriotic Front (RPF) eram (e permanecem) clientes dos EUA servindo os objetivos de projeção de poder estadunidense na região africana dos Grandes Lagos. Ele tem portanto liberdade de ação para matar, o que tem feito tão excessivamente tanto em Ruanda como na República Democrática do Congo (RDC) que sua contagem de vítimas ascende aos milhões (ver Herman e Peterson, Enduring Lies: The Rwanda Genocide in the Propaganda System, 20 Years Later, Real News Books, 2014. Capítulos 4 e 9). Às suas matanças deste vasto número de vítimas não valiosas foi dado o tratamento do Silêncio de Ouro e ele foi retratado nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá como um salvador que se opunha à violência do "Poder Hutu", um verdadeiro milagre de propaganda invertida que teve êxito. Em setembro de 1994, depois de Kagame vencer sua guerra de conquista em Ruanda, um memorando do Departamento de Estado indicava que forças de Kagame estavam a matar civis hutu ao ritmo de uns 10 mil por mês. Este memorando não teve efeito sobre a política estadunidense de apoio a Kagame e nunca foi mencionado pelos meios de comunicação de referência. Imagine o que teria acontecido se um tal memorando houvesse descrito o comportamento dos governos iraniano, norte-coreano, russo ou venezuelano!

Outro Silêncio de Ouro sobre Ruanda verificou-se no mês passado, no 20º aniversário do massacre de Kibelho, um campo de refugiados hutus no Sul de Ruanda. Isto aconteceu principalmente entre 19 e 23 de abril de 1995, mas continuou por algum tempo quando refugiados fugiam do campo. Foi muito tempo depois de o Rwanda Patriotic Front ter conquistado Ruanda, mas com muito deslocados hutus ainda abrigados em campos de refugiados, talvez até 100 mil em Kibelho. O governo Kagame decidiu fechar este e outros campos de refugiados e forçar os mesmos a retornarem às suas cidades de origem. Isto foi acompanhado por uma carnificina, com tiros de canhão, granadas, morteiros e artilharia, observados com horror um contingente de 32 médicos e soldados australianos ao serviço da ONU. O australiano Terry Pickard escreveu na sua memória Combat Medic:

"Só podíamos esperar que o RPA [Rwandan Patriotic Army] nos permitisse ir embora depois do que havíamos testemunhado. Eles haviam simplesmente assassinado milhares de homens, mulheres e crianças desarmados, famintos, sequiosos e inermes. Nem bebês não foram poupados. Alguns daqueles que sobreviveram à carnificina letal de metralhadoras calibre 50, rifles AK47, granadas impulsionadas for foguetes (rocket-propelled grenades, RPG) e morteiros foram implacavelmente perseguidos, capturados e ultimados a baioneta."

Os australianos tentaram salvar alguns hutus, mas foram forçados pelos números e pelas regras da ONU meramente a observar. Uma foto tomada por um deles mostra um vasto campo de cadáveres e depois disso, por instruções da ONU, alguns deles saíram com contadores de passo (pace-counters) para contar os corpos. Eles chegavam a 4.000 e sentiram que haviam coberto menos da metade do número de mortos quando sua contagem foi cancelada por pressão da RPF. Vários deles estimam que a contagem plena atingiria os 8.000 ou mais (Ver Hugh Riminton. "Rwandan massacre still a burden for Diggers", Herald Sun [Australia]. April 20, 2015). A ONU, contudo, acabou por apresentar uma estimativa de 2.000. Esta estimativa mais baixa foi a preferida pelos meios de comunicação de referência. O New York Times, por exemplo, repetiu a frase "até 2000" na sua escassa cobertura em notícias e editorial durante abril e maio de 1995.

Este massacre, tal como memorando sobre a carnificina de setembro de 1994, não teve efeito sobre a política dos EUA ou da ONU em relação ao governo de Ruanda e essencialmente desapareceu da história ruandesa no Ocidente, exceto na Austrália. Com o 20º aniversário do massacre de Kibelho, em 22 de abril de 2015 (o dia da maior matança), não houve nem um artigo ou editorial sobre aquele acontecimento nos meios de comunicação de referência dos EUA ou Reino Unido. Isto era claramente território do Silêncios de Ouro, com Kagame ainda cliente dos EUA e celebrado no Ocidente como um salvador de Ruanda, um "Abe Lincoln" africano na visão distorcida de Philip Gourevitch. Só na Austrália, onde a equipe médica havia sofrido como observadores importantes da matança em massa, houve nos meios de comunicação um certo número de relatos acerca dos acontecimentos de Kibelho. Vários deles eram comoventes e dramáticos (ex.: reportagens intituladas "The killings just went on and on"; "Our time in hell on earth"; livros como os de Kevin O'Halloran, Pure Massacre e de Paul Jordan, The Easy Day Was Yesterday); mas o drama e a autenticidade destes relatos não podiam romper o muro do Silêncio de Ouro nos Estados Unidos.

É notável que o número estimado de 8.000 ou mais em Kibelho é o mesmo que os meios de comunicação de referência repetiram muitas vezes acerca do número de vítimas do massacre de Srebrenica, o qual se verificou no mesmo ano e só alguns meses após o de Kibelho (a partir de 11 de julho de 1995). Naturalmente, uma profunda diferença entre os dois casos é que o massacre de Srebrenica foi executado por sérvios bósnios, os quais, juntamente com o governo Milosevic da Sérvia, foram declarados vilões e alvos dos Estados Unidos e da OTAN. Segue-se que as vítimas de Srebrenica eram valiosas e que os EUA-OTAN dominavam a ONU e o seu braço do International Criminal Tribunal for the Former Yugoslavia (ICTY) [Tribunal Criminal Internacional para a Antiga Iugoslávia] perseguiria os vilões responsáveis pelo massacre. E os meios de comunicação de referência do Ocidente apresentariam regularmente este episódio, a 11 de julho de cada ano como momento para recordar aos públicos ocidentais os horrores do massacre de Srebrenica, com artigos acerca dele e fotos a mostrarem sepulturas e famílias enlutadas e a reiterar a lição a ser aprendida sobre a necessidade de intervenção humanitária precoce e vigorosa.

Também há uma propensão para inflacionar os números das vítimas valiosas em Srebrenica, em contraste com o tratamento do número de vítimas não valiosas em Kibelho, as quais, como observado, foram rapidamente reduzidas pela ONU e pelos meios de comunicação de possivelmente 8.000 ou mais para "até 2.000". Em Srebrenica, embora a contagens de corpos nunca houvesse confirmado 8.000 execuções, esse número foi produzido de imediato e foi mantido até o presente como um ato de fé e pela sua utilidade política (as vítimas valiosas nunca são demasiadas).

O alto número de execuções em Srebrenica também foi ajudado por outros truques da metodologia do Silêncio de Ouro. Um deles é enterrar o fato de que muitos corpos recuperados na Bósnia-Herzegovina oriental eram quase certamente de homens mortos em combate, os quais travaram-se na vizinhança de Srebrenica e para além desde 11 de julho durante alguns dias quando vários milhares de soldados bósnios muçulmanos da 28ª divisão fugiram da cidade e tentaram alcançar território muçulmano seguro em Tuzla. Num estudo de relatórios forenses produzidos por peritos do ICTY sobre os 1.920 corpos em sepulturas em massa exumados entre 1966 e 2001, o analista forense Ljubisa Simic mostrou de modo convincente que os ferimentos em pelo menos metade dos casos apontam para mortes em combate. Contudo, num golpe de propaganda ocidental, estas mortes em combate foram ignoradas e todos os corpos encontrados na vizinhança são considerados como vítimas de execução.

A tarefa de conseguir que o número de vítimas se elevasse até àquele objetivo permanente de 8.000 voltou-se mais recentemente para a identificação do ADN dos cadáveres. Um número de 6.924 é o total de julho de 2014 avançado pela International Commission on Missing Persons (ICMP) [Comissão Internacional sobre Pessoas Desaparecidas] com base nesta metodologia. Além do facto de esta Comissão não ser verdadeiramente "internacional" mas sim dominada pelos Estados Unidos e autoridades bósnias muçulmanas, os que apresentam esta nova afirmação recusaram-se a permitir que a sua metodologia fosse verificada por analistas de defesa independentes. E se bem que os dados forenses sobre corpos permitam alguns julgamentos limitados sobre a possível causa e momento da morte, o ADN nada nos diz sobre estas questões ou qualquer coisa acerca do lugar da sua ocorrência.

Para o ICTY, a principal testemunha sobre o massacre de Srebrenica foi um alegado participante, o croata Drazen Erdemovic. Ele foi gravemente comprometido por antecedentes mercenários, pelas circunstâncias da sua participação nas mortes e por contradições no testemunho, mas estava desejoso de implicar altas autoridades bósnias sérvias e portanto foi protegido pelos promotores e juízes do ICTY e mantido quase completamente livre de acareações sérias. Um estudo irrefutável da história de Erdemovic, seu papel e a proteção que recebeu do ICTY foi escrito pelo jornalista Germinal Civikov (Srebrenica: The Star Witness [Belgrado, 2010]). Trata-se de uma crítica devastadora do homem e do ICTY, mas apesar de terem sido disponibilizadas cópias para os meios de comunicação ocidentais de referência, incluindo Marlise Simons do New York Times, a este livro foi dado o tratamento completo do Silêncio de Ouro.

Outro elemento do Silêncio de Ouro em relação a Srebrenica é o blackout dos fatos antecedentes que tornaria o implacável tratamento sérvio de prisioneiros mais compreensível. Embora Srebrenica fosse designada como uma "área segura" pelo Conselho de Segurança, protegida de ataque, aquela designação também exigia que fosse desarmada. Isto não aconteceu e desde 1992 até julho de 1995, incursões de quadros bósnios muçulmanos, dirigidas primariamente pelo comandante local Naser Oric, atacaram muitas cidades habitadas por sérvios e mataram vários milhares de civis sérvios. O tenente-coronel Thomas Karremans, que comandou o batalhão holandês em Srebrenica em 1995, declarou em 23 de julho de 1995 que "Nós sabemos que só na área circundante do enclave de Srebrenica, 192 aldeias foram arrasadas e todos os aldeões mortos". O juiz Patrick Robinson do ICTY perguntou diretamente ao comandante da ONU em Sarajevo, Philippe Morillon, se o que aconteceu em Srebrenica em julho de 1995 "foi uma reação direta ao que Naser Oric fizera aos sérvios dois anos antes?". Ao que Morillon respondeu, "Sim, excelência, estou convencido disso". Isto não foi mencionado nos meios de comunicação de referência dos EUA (para um relato mais completo, ver George Bogdanich, "Prelude to the Capture of Srebrenica", in Herman, ed., The Srebrenica Massacre: Evidence, Context, Politics [Alphabet Soup, 2011]). Em suma, o contexto dos antecedentes, interferindo com o processo de demonização e com os planos de guerra dos EUA-OTAN, foi ignorado pelos meios de comunicação de referência.

Não é que os meios de comunicação façam omissão da história em todos os casos. De fato, em conexão com a recente morte de polícia e tumultos em Baltimore um editorial do New York Times intitulava-se "O que aconteceu antes dos tumultos de Baltimore" (29 de abril de 2015). Aqui a posição política liberal dos editores torna permissível centrar-se no contexto e nas causas primárias. Com Srebrenica a agenda de demonização e mudança de regime proibia o equilíbrio e o contexto inconveniente. Isto, nos meios de comunicação de referência, é um lugar comum na cobertura da política externa - e é dramaticamente evidente no tratamento do demonizado Putin e no conflito da Ucrânia onde um perito em assuntos russos como Stephen Cohen, que pretende falar acerca dos antecedentes Rússia-OTAN e causas primárias, não pode obter tanto espaço noticioso quanto as Pussy Riot russas que querem denunciar Putin.

Edward S. Herman é economista, crítico de mídia, e autor de vários artigos e livros sobre mídia e política externa.

25 de maio de 2015

Operação Impensável: Aliados tinham malícia secreta

Yuriy Rubtsov

Strategic Culture Foundation

Tradução / No final de maio de 1945 Josef Stálin ordenou que o Marechal Georgy Zhukov deixasse a Alemanha e fosse para Moscou. Ele estava preocupado com as ações do aliados britânicos. Stálin disse que as forças soviéticas desarmavam os alemães e os enviavam a campos de prisioneiros; mas os britânicos, não. Em vez de desarmar e prender os alemães, os britânicos estavam cooperando com eles e lhes permitiam manter a capacidade de combate. PStalin acreditava que havia planos para usá-los mais tarde. Ele enfatizou que era uma violação direta do acordo intergovernamental, que determinava que as tropas que se rendessem deviam ser imediatamente dissolvidas. A inteligência soviética pôs as mãos (e os olhos) no telegrama secreto que Winston Churchill enviou ao marechal-de-campo Bernard Montgomery, comandante das forças britânicas. Ele instruiu a recolher as armas e mantê-los em prontidão para serem devolvidas aos alemães, caso a ofensiva soviética continuasse.

Seguindo instruções de Stálin, Zhukov condenou duramente as atividades dos britânicos no Conselho de Comando dos Aliados (União Soviética, EUA, Reino Unido e França). Disse que a história registrava poucos exemplos de tamanha traição e descaso com compromissos assumidos entre nações que tinham, ou se haviam comprometido a ter, status de aliadas. Montgomery rejeitou a acusação. Poucos anos depois admitiu que recebeu ordens para fazer exatamente o que Zhukov acusou os ingleses de terem feito e que as executou. Ele teve que cumprir a ordem como um soldado.

Uma batalha feroz grassava nas proximidades de Berlim. Em sua época Winston Churchill disse que a Rússia Soviética tornou-se uma ameaça mortal para o mundo livre. O primeiro-ministro britânico queria que se criasse uma nova frente no leste, imediatamente, para conter a ofensiva soviética. Churchill vivia obcecado pela ideia de que, depois de derrotado o exército nazista alemão, a União Soviética surgia como nova ameaça.

É por isso que Londres queria que Berlim fosse tomada por forças anglo-americanas. Churchill também queria que os americanos libertassem a Checoslováquia e Praga com a Áustria controlada pelos aliados, todos sob as mesmas condições.

Já em abril de 1945, Churchill deu instruções para que o Grupo de Planejamento Conjunto das Forças Armadas Britânicas planejasse a Operação Impensável [Operation Unthinkable], nome de código de dois planos relacionados de um conflito entre os aliados ocidentais e a União Soviética. Os generais receberam ordens para traçar meios para “impor à Rússia a vontade dos EUA e do Império Britânico”. A data hipotética marcada para o início da invasão, pelos aliados, da Europa hipoteticamente tomada pelos soviéticos, seria 1º de julho de 1945. Nos últimos dias da guerra contra a Alemanha de Hitler Londres deu início a preparativos para apunhalar a União Soviética pelas costas.

O plano previa guerra total para ocupar as partes da União Soviética que tiveram significado crucial para o esforço de guerra, e assestar assim golpe decisivo, que tiraria das forças armadas soviéticas a capacidade para se defender.

O plano incluía a possibilidade de as forças soviéticas recuarem com profundidade para dentro do próprio território, tática que havia sido usada em guerras anteriores. O Alto Comando Britânico considerou esse plano militarmente irrealizável, porque as forças soviéticas superavam as forças aliadas na proporção de três para um – na Europa e no Oriente Médio, onde o plano previa que se travassem os combates. As unidades alemãs entravam nessa conta como tentativa de equilibrar a correlação de forças: por isso Churchill precisava tanto que os prisioneiros alemães continuassem em prontidão para combater.

O Gabinete de Guerra declarou: "O Exército Russo desenvolveu um Alto Comando capaz e muito experiente. O exército é incomensuravelmente mais forte, vive e se movimenta em escala muito mais leve de manutenção que qualquer exército ocidental, e usa táticas firmes, baseadas sobretudo na pouca importância atribuída às baixas, para alcançar o objetivo. O equipamento foi rapidamente aprimorado durante a guerra e hoje é bom. Sabe-se o suficiente sobre esse desenvolvimento, para dizer que com certeza absoluta o exército soviético não é inferior aos das grandes potências. A facilidade que os russos mostraram para desenvolver e aprimorar equipamento e armas existentes, e para produzi-los em massa foi realmente muito impressionante. Já se sabe até que houve casos de os alemães terem copiado traços básicos de armamento russo." Os planejadores britânicos chegaram a conclusões pessimistas. Disseram que qualquer ataque seria “imprevisível” e que a campanha seria “longa e cara”. Na verdade, o relatório dizia: "Se estamos a embarcar em guerra com a Rússia, temos de estar preparados para estar comprometido com uma guerra total, que seria longa e onerosa." A superioridade numérica das forças terrestres soviéticas deixavam pouca chance de sucesso. A avaliação, assinada pelo Chefe do Estado-Maior do Exército em 9 de Junho de 1945, concluiu: "Seria além do nosso poder alcançar um sucesso rápido, mas sempre limitado, e estaríamos comprometidos em uma guerra longa, contra todas as probabilidades de sucesso. EEstas probabilidades, além disso, se tornaria fantasiosa se os americanos ficassem cansados e indiferentes e deixarem-se arrastar pelo ímã da guerra no Pacífico."

O primeiro-ministro recebeu o rascunho do plano no dia 8 de junho de 1945. Por mais que o enfurecesse, Churchill teve de se conformar, diante da evidente superioridade do Exército Vermelho. Mesmo com uma bomba nuclear no inventário das forças armadas dos EUA Harry Truman, o novo presidente norte-americano, tinha de ter isso em conta.

Em uma reunião com o Ministro de Relações Exteriores da URSS, Vyacheslav Molotov, Truman pegou o touro pelos chifres. Fez ameaça uma mal disfarçada de que se poderiam aplicar sanções econômicas contra a União Soviética. Em 8 de maio de 1945, o Presidente dos EUA ordenou que se reduzissem significativamente, sem qualquer notificação prévia, a venda e a entrega de suprimentos. Chegou a ponto de fazer retornar às bases americanas todos os navios que estavam a caminho da URSS. Algum tempo passou, e a ordem foi cancelada, ou a URSS não entraria na guerra contra o Japão, algo que os Estados Unidos precisavam muito. Mas o relacionamento bilateral foi danificado. O memorando assinado pelo secretário interino de Estado Joseph Grew em 19 de maio de 1945 declarou que a guerra com a União Soviética era inevitável. Ordenava “endurecer posições” nos contatos com a URSS. Segundo Grew, recomendava-se iniciar imediatamente os combates, antes que a URSS conseguisse recuperar-se da guerra e restaurar seu vasto potencial militar, econômico e territorial.

Os militares receberam um impulso dos políticos. Em agosto de 1945 (a guerra com o Japão não tinha terminado), o mapa dos alvos estratégicos dentro da URSS e Mandchúria foi apresentado ao general L. Groves, chefe do programa nuclear dos EUA. O plano indicava 15 das maiores cidades da URSS: Moscou, Baku, Novosibirsk, Gorky, Sverdlovsk, Chelyabinsk, Omsk, Kuibyshev, Kazan, Saratov, Molotov (Perm), Magnitogorsk, Grozny, Stalinsk (provavelmente, Stalino – a atual Donetsk) e Nizhny Tagil. Cada alvo vinha acompanhado de descrições: geografia, potencial industrial e alvos principais a atingir. Washington abriu uma nova frente. Desta vez contra o seu aliado.

Londres e Washington imediatamente esqueceram que haviam combatido lado a lado, ombro a ombro, com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, bem como os compromissos de acordo que haviam assumido nas conferências de Yalta, Potsdam e São Francisco.