21 de outubro de 1993

Diário

Perry Anderson

London Review of Books

Tradução / Ao chegar a minha casa uma noite, nas últimas semanas de 1962, encontrei uma garrafa de vinho, no apartamento vazio, com um bilhete embaixo. Edward Thompson havia terminado “The making of the English working-class”; vivia em Halifax, e necessitava ficar por algumas semanas no Museu Britânico. Nesses dias, eu vivia em Talbot Road e havia me casado recentemente com Juliet Mitchell. Ela dava aulas em Leeds, enquanto eu trabalhava para a New Left Review em Londres. Ocasionalmente, Edward e eu trocávamos ideias sobre nossas preocupações e conversávamos amigavelmente sobre história e sociologia. “Você acredita que Weber é realmente mais importante que Marc Bloch?”, perguntava-me com um ar de maliciosa perplexidade. Se éramos mais circunspectos em relação a temas políticos, isso se devia em parte a uma questão de tato – ele não queria se apoiar demais em mim, editor principiante de uma revista da qual ele era o fundador. Contudo, eu também estava sujeito a uma imagem enganosa.

Edward parecia não apenas uma, mas praticamente duas gerações mais velho, porque entre nós estavam aqueles – o grupo de Stuart Hall ou de Raphael Samuel – que co-fundaram a Nova Esquerda a partir do início dos anos cinquenta, em vez dos anos quarenta. Sua imagem contribuía para a ilusão: suas belas feições ao mesmo tempo revestidos de inquietude melodramática e geologicamente traçadas, uma paisagem de relevos selvagens e depressões. Era, desde já, a conjuntura, que confirmava aquela imagem; nunca as diferenças de idade, por pequenas que fossem, eram vistas tão grandes como neste momento. [...] Mas, provavelmente, para a época, o bibliotecário de Hull era menos sábio que o historiador de Halifax, que contemplava com impaciência as conversas sobre divisões geracionais como uma maneira de evitar discussões difíceis. O resultado era o mesmo, ainda que para mim significasse menos um alívio que uma inibição. Tínhamos poucas discussões políticas. Eu estava no trem que vinha de Leeds quando ele embarcou em Londres com o trabalho concluído, exibindo o que parecia ser uma natureza morta de frustrada boa vontade. Apenas recentemente, na década de 1970, dei-me conta da surpresa de que ele tinha apenas 38 anos.

No ano seguinte, as relações entre os fundadores da New Left Review e seus novos editores se esclareceram. A revista estava presa à causa da Campanha pelo desarmamento nuclear (CND), e lutava sem muito êxito buscando um novo direcionamento. As discussões práticas e as diferenças intelectuais criaram tensões entre Edward e a equipe da rua Carlisle. Ele pensava, com razão, que a revista estava se afastando de maneira amorfa do seu passado sem ter prestado contas a ele e não tinha confiança política alguma em seu futuro. Houve explosões ocasionais. Mas sua atitude em relação aos mais jovens era essencialmente generosa e, quando chegou o momento, eles lhe garantiram sem rancor uma ordem de transição entre o antigo e o novo conselho. Quais tenham sido suas premonições, ele não era possessivo.

Quando a revista formou-se à maneira como existe agora, a posição de Edward mudou. No final de 1964, a New Left Review desenvolveu o tipo de perspectiva política (que ele nos imputava não ter) e um conjunto de teses históricas sobre a relação entre o passado britânico e a crise atual, tal como nós a víamos. Edward não gostava de nenhuma das duas coisas. Mas, agora, finalmente era possível uma confrontação real. A revista aceitaria publicar uma crítica completa feita por ele, “escrita talvez em meu estilo polêmico e notoriamente malicioso?”, ele me escreveu então. Seria bem vinda, respondi o nervosamente, mas não queríamos uma disputa vulgar. Com tato, Edward a publicou, entretanto, na Socialist Register. O resultado foi um de seus ensaios mais famosos, “The peculiarities of the English” (“As peculiaridades dos ingleses”). Ferido por sua ferocidade, respondi o da mesma maneira. O intercâmbio apresentou uma sorte assimétrica. Edward nos atacava por nossas leituras imprecisas da evidência histórica; eu, pelo manejo incorreto da evidência textual. O que me desconcertou foi o recorte por mim elaborado na tentativa de expor argumentos que queria refutar, os que eu não podia enquadrar em tudo definido por ele mesmo como próprio do historiador. Este foi um erro genérico de minha parte. A polêmica é um discurso de conflito, cujos efeitos dependem de um equilíbrio delicado entre os requisitos da verdade e da tentação da ira, a obrigação de argumentar e o gosto de provocar. Sua retórica permite, e inclusive reforça, uma certa licença figurativa. Como os epitáfios dos aforismos de Johnson, que não está sob juramento.

Eu não era o único que ignorava isso. Uns anos antes, Edward havia publicado uma resenha de The long revolution de Raymond Williams na New Left Review, cujo tom era mais temperado que seu tratamento para mim e Tom Nairn, mas tinha um resultado mais doloroso. Uma de suas críticas era que Raymond havia sido em parte absorvido em suas maneiras e preocupações pela academia da classe dominante. “Oh, o pátio universitário iluminado, o brindar das taças de vinho, as conversas tranquilas dos homens ilustrados!”, não é surpreendente que o filho de um porteiro não tenha gostado disso. Na realidade, Edward havia justificado admiravelmente seu discurso. Falando de uma “comunicação genuína”, Raymond havia dito: “pode-se sentir o descanso e o esforço: a abertura e a honestidade necessárias para um homem escutar outro de boa fé e contestado depois”. Edward respondeu: “Burke insultava, Cobbet condenava, Arnold era capaz de insinuações maliciosas, Carlyle, Ruskin e Lawrence, em sua idade adulta, não escutavam ninguém. Isso pode ser lastimável; mas não posso aceitar que a comunicação da raiva, da indignação ou mesmo da malicia seja algo menos genuíno”. Aqui em toutes lettres, a garantia de um polemista. As próprias indignações de Edward dessa época eram artifícios literários, sem rancor pessoal. Uns poucos meses depois de meu contra-ataque, deparei-me com ele em um pub próximo à rua Tottenham Court. Edward, em que não o via por três anos, era um homem de bom coração.

Passou outra década até que voltei a vê-lo novamente. No inverno de 1979, em uma fria igreja em Oxford, levantou-se como um clérigo raivoso para advertir uma vez mais a congregação sobre os perigos do dogma galês. Então, seu ataque a Althusser em The poverty of theory, publicado no ano anterior, havia despertado uma grande controvérsia. Sucedeu um debate diante de um público abalado e extasiado. Um dos que se posicionou foi Stuart Hall. Eu observava do meu assento. Minha própria reação a The poverty [...] foi um pouco diferente. Parecia-me mais importante acertar contas com Thompson do que com Althusser. Tentei empreender isso uns meses mais tarde.

O foco das energias de Thompson se alterou repentinamente. Havia explodido uma segunda onda de intensa Guerra Fria, e ele se lançou sem reservas a uma campanha de resistência. Finalizei meu escrito sobre ele dizendo que era melhor deixar para trás velhas pendências e explorarmos juntos novas questões. Ele respondeu publicando um manifesto de seus temores na New Left Review em notes on the exterminism, the last stage of civilization?, na primavera de 1980. A revista organizou um debate internacional em torno do texto. Apareceu um livro com as conclusões de Edward. O desacordo havia sido superado.

Em 1986 encontramo-nos em Nova York. Christopher Hill, Eric Hobsbawm e eu fomos mobilizados para discutir sobre as agendas para uma radical history na New School. No auditório lotado, pendurado em suas palavras, ele era a imagem do orador romântico com suas explosões do discurso apaixonado, marcadas com aquele típico gesto, um movimento rápido da palma de sua mão sobre sua cabeça – tocando sua sobrancelha ou sua massa de cabelos grisalhos – cujo efeito sempre oscilava entre a arte dramática e o jogo. Logo, quando saímos do jantar oficial – um quarteto incongruente – tive algo da mesma percepção enganosa da primeira vez. O mais jovem dos três doyens, parecia misteriosamente maior – perguntei-me se porque era fisicamente mais alto. Agora, de todos os modos, sua aparência havia mudado. Notei, pela primeira vez, ares de dandy, com o colete delicado e o charuto sem graça, insinuando uma silhueta clássica. Nossa conversa girou entre os escritores do século XVIII. Contestou-me por meu atrevimento com Swift, dizendo que estava escrevendo uma novela que seria algo semelhante à Viagens de Gulliver, porém em versão moderna.

Levou tempo para eu ter uma ideia mais precisa da distinção de Thompson como historiador e como escritor. Sua obra abarca muitas formas para ser julgada facilmente e sua aura pode ser uma tentação para os atalhos. Mas, no centro criativo de sua escrita há uma tensão entre o que se poderia chamar de sensibilidade adequada ao século XIX e o correspondente ao século XVIII. Se bem que no começo de The making of the English working-class, e que conecta ambas as épocas, ninguém nunca duvidou de onde descansa o peso de seu relato. Até onde apontam os trabalhos desenvolvidos por Thompson? Havia uma resposta óbvia: mais à frente, para o que se tornou a classe operária inglesa, uma vez formada, na época vitoriana. Contudo, ele se orientou na direção oposta: um século inteiro para trás, até 1720. O que produziu essa alteração no campo, esse salto tão incomum – ele fazia referência a um salto de paraquedas – para qualquer historiador? Poderia se suspeitar que o tranquilo mundo do sindicalismo vitoriano, por não falar do posterior trabalhismo, não lhe atraía: um retrocesso sobre Morris. Mas se havia um elemento político em sua escolha, como certa resistência a buscar algo que poderia se parecer com o epílogo de Guerra e paz, as razões pessoais deveriam ter mais importância.

Coincidindo com o deslocamento de período, houve uma mudança de residência. Em Yorkshire, ele vivia em uma arejada casa vitoriana, localizada acima das desoladas ruas de Halifax, em meio à horrível escória da revolução industrial. Em Worcestershire, seu lar era uma mansão georgiana, em um campo ondulante, que havia sido a propriedade de um bispo. A transferência permitiu a Williams, que recordava a imputação de Thompson, uma piada travessa sobre “O marxismo de country”. Na realidade, seria o quartel-general do mais ardente trabalho político de sua vida. Porém, houve uma mudança no tom de sua escrita. Whigs and hunters é um tipo de livro diferente de The making of the English working-class, não somente nos objetivos, mas também no estilo. Em um gesto mimético, onde a abundância romântica dá lugar a uma sóbria elegância, e a paixão expressa-se frequentemente de forma mais irônica. Sua distribuição mais à frente variará, mas, em diferentes composições, as cadências dos dois períodos contrapor-se-ão em seu discurso até o final. Essa combinação de expressões foi o segredo de seu sucesso. Foi o maior retórico da época. Mas como a retórica é uma arte estranha, sua resistência é visível na tensão que Thompson tinha com esta era. Seu punho era menos seguro quando seu discurso era mais contemporâneo. Tipicamente, sua escrita desfalece quando busca chegar ao demótico e pouco importante século XX. O resultado pode ser chamativo. Os obituários têm mencionado escassamente a ficção ou a poesia de Thompson. Ele, com toda razão, não as considerava marginais. Seus dois extensos poemas The place called choice e Powers and names (London Review of Books, 23 de janeiro de 1986), que são parecidos em tema e forma (guerra atômica – despotismo), são exemplos vívidos desta irregularidade: passagens de tenra beleza ao lado de outras alcaparras populares. Sua novela The Sykaos Papers é a mais completa expressão singular de seu pensamento; as ideias adquirem uma forma imaginativa que não tem expressão comparável em nenhum lugar de sua obra. Nela, o olhar alheio de uma razão incorpórea cai – tarde demais – no mundo da propriedade, da autoridade e da guerra, na medida em que se move em direção à destruição nuclear. O argumento metafísico está envolto em uma das mais vividas narrativas terrestres, e cada uma de suas máximas mobiliza, instrui e deleita. Mas há ainda um contrastante chamativo entre os breves começos das sessões da novela (carregados de zombarias a uma imprensa popular e da cena urbana dos anos 1980, cujo humor pode nos assustar) e a energia e a astúcia da trama central que segue. Seu clímax, antes da Terra se extinguir, é o idílio em que a razão está sexualmente encarnada, quando a heroína leva a estrela cativa em seus braços, no éden de um “parque de 1740” e “terminado no início do século XIX”.

O livro de Thompson sobre Blake, Witness against the beast, que aparecerá no mês seguinte, pode ser lido de alguma maneira como um anexo que ilustra sua novela. Os mesmos temas aparecem aqui de forma critica. Na News School ele contou a sua audiência como havia descoberto a história marxista lendo Chritopher Hill na sua época de estudante, e quando saiu The making of the English working-class, disse que esperava encontrar algum dia o túnel subterrâneo que podia conectar as ideias de Blake com o mundo da Guerra Civil, ligando diretamente as duas épocas revolucionárias que Thompson e Hill construíram juntos. Witness against the beast encontra essa filiação na seita fundada por John Reeve e Ludowick Muggleton em 1652. A mãe de Blake, sugere Thompson, pode ter sido uma muggletoniana, e muitas de suas noções devem ter derivado de seu ramo do antinomianismo.

O respeito e o afeto que mostra por esse suave e diminuto lado é persuasivo. Não ignora nenhuma sutileza teológica. À medida que explora sua complicada doutrina, aqueles leitores que recordam suas requisições contra o obscurantismo do marxismo parisiense podem esboçar um sorriso enquanto lutam contra os mistérios do influxo divino e das duas sementes, da dispersão versus a unidade de Deus, expostos detalhadamente aqui.

O propósito mais amplo desse livro não depende, contudo, da exatidão da ressurreição muggletoniana. Seu objetivo é sugerir uma nova interpretação de Blake. Thompson argumenta que o poeta é herdeiro de uma longa trajetória “anti-hegemônica”, enraizada entre os artesãos que rejeitavam o amável nacionalismo do século e o substituíam por uma religião do amor igualitário, hostil tanto à nova ciência materialista como à lei moral da igreja e do Estado estabelecidos. Mas Blake transformou sua perspectiva antinomianista em uma constelação mais radical e crítica, sob o impacto do jacobinismo e do deísmo. Do ambiente paineano, desenvolveu uma visão política dos males da propriedade e da pobreza, do clero e do exército, da monarquia e do matrimônio; enquanto que, a partir de Volney, chegou a uma nova crítica da fé alienada ao serviço dos poderes seculares. Em cada caso, porém, Blake viu mais profundamente que seus contemporâneos ilustrados sem reduzir a miséria humana meramente à opressão ou exploração sociais, nem o sentimento religioso à mistificação clerical. Só o chamado do amor pode curar a maldição de Caim, não a razão científica nem o interesse individual. Uma natureza humana alternativa, de acordo com o evangelho eterno, aguarda por ser realizada. “A intensidade dessa visão”, escreve Thompson, “impede Blake de cair nos caminhos de apostasia” quando os fogos revolucionários ardem suavemente em 1801 – enquanto que “os perfeccionistas obsessivos e racionalistas benévolos” de seu tempo “terminam quase todos desencantados”.

Witness against the beast é um brilhante final para uma vida de trabalho excepcional. Como honrar a esse impulso antinominista? Certamente não através de qualquer tipo de piedade. Lendo os obituários de Thompson, os de direita, centro e esquerda, já não sei quantas vezes encontrei a citação de seu desejo de resgatar “inclusive o mais marginal seguidor de Joanna Southcott de enorme condescendência da posteridade”. Essa frase é uma das mais veementes e programáticas. Mas, pela força da repetição, corre o risco de se transformar em uma fórmula estereotipada. Edward, que era a pessoa mais politicamente incorreta do mundo, nunca aceitaria isso. Ele desfrutou com a irreverência e seria melhor segui-lo, quando pudermos, por esse caminho. Para começar, poderíamos observar que Blake foi o primeiro a expressar sua condescendência para Joanna Southcott, sobre cuja inocência escreveu em tom desdenhoso: “O que se faça a ela, não posso saber/ e se lhe pergunta jurar-lhe-á / seja isto bom ou mal, não há a quem culpar;/ Ninguém pode estar orgulhoso, ninguém pode ser culpado”.

Mas há uma questão mais ampla aqui, que se embasa no argumento de seu último livro. Um escritor do século XVIII que nunca atraiu muita atenção de Thompson foi seu grande historiador. Em Witness against the beast, Gibbon, contudo, faz sua aparição. Aqui é apresentado como uma contrafigura, o deísta, cujo retrato de Constantino deverá atrair um antinomiano, mas cuja visão cética do cristianismo fez explodir compreensivamente a ira de Blake (“Gibbon aparece com seu chicote de aço e Voltaire com uma engrenagem”). Thompson cita as linhas de Blake com simpatia. Mas o poema é na realidade uma amostra das fraquezas de Blake – e precisamente nos dois pontos que Witness against the beast apresenta como suas características mais destacadas. Nesse poema, um lastimoso monge é torturado em uma cela por Gibbon e Voltaire por não participar na celebração da guerra: como se o belicismo fosse o gravame de sua crítica à fé. A History de Gibbon era realmente perturbadora, e não só para Blake. Mas se nos perguntarmos por que sua medicina era tão forte, o parecer de Thompson pode ser revertido. A emancipação intelectual de The decline and fall está no que se poderia chamar de sua “enorme condescendência” – que outra coisa é o tom inimitável desses seis volumes? Diante do cristianismo e inclusive do passado clássico. Thompson louva as indignadas anotações de Blake à Apology of the Bible do bispo Watson, dirigidas a Paine. Mas Blake não falou publicamente. Foi Paine que contestou Watson, como havia feito Gibbon antes dele.

O poema de Blake teve origem no julgamento que se iniciou em Chichester, motivado por uma obscura rixa com um soldado em seu jardim, do qual foi absolvido. Assustado com o episódio, imaginou-se como um dos monges acinzentados do antigo presbitério no qual se realizou o julgamento, ferido, porém triunfante: “o gemido amargo de dor de um mártir é / uma flecha do arco do Todo Poderoso!”. Dois anos depois do julgamento, quando ainda o importunava “a história completa de meus sofrimentos espirituais”, fez uma dedicatória à rainha. Na versão manuscrita de Jerusalém, o frade é um “sedicioso”, mas logo reconsiderou o fim e modificou sua publicação para “vago”. Não há, em tudo isso, motivos para censura. Blake tinha um certo lado temeroso; foi vítima do medo de perseguição e saiu mal disso. Eram tempos difíceis para qualquer pessoa progressista. De qualquer modo, é um erro apresentá-lo como politicamente mais intransigente que os oponentes menos místicos ao regime da guerra conservadora. Perseguiu com ímpeto Robert e Leigh Hunt por haver considerado que suas pinturas de Nelson e Pitt eram ícones da reação (um erro compartilhado – pois, Blake nunca o esclareceu – por não poucos historiadores da arte), acusando-os de serem responsáveis por uma guerra sobre a qual falaram com mais franqueza que ele. Processados três vezes, os irmãos foram finalmente encarcerados por insultar o Regente, para a gozação de Blake. “Não posso conceber que um monge possa ser hipócrita”, avisavam os deístas. A ilustração, depois de tudo, pode lhe ensinar algo.

Essas observações não tendem a diminuir o vigor da defesa que Thompson faz de Blake, como um iconoclasta quase genial, mas buscam situá-lo mais criticamente na tradição sobre a qual Thompson chama a atenção. Os muggletonianos foram um grupo atrativo, como ele mostra. Mas era também um grupo isolado e secreto, afastado do culto público e do proselitismo, e sua fé chegou a ser quietista. A ausência em Blake de qualquer forma coletiva de política radical, em tempo de agitação, é chamativa. Sua única experiência direta de contato com a multidão parece ter tido lugar quando, na juventude, mesclou-se, por um momento, com as revoltas de Gordon. Sua aversão a correr os riscos que outros aceitavam deve ter sido em parte de seu temperamento. Mas, por acaso, não refletia a mentalidade retraída do meio do qual provavelmente vinha? A noção de um evangelho eterno proporcionava uma via fácil de recuo do tumulto cotidiano. Contudo, descender da Terceira Comissão, por transfigurado que estivesse, acarreta custos. Não eram somente os limites de uma experiência política, entretanto, também literária. Os fracassos poéticos dos últimos trabalhos de Blake eram o resultado de seu auto-isolamento. Mas significava que sua distância dos círculos jacobinos era a ausência de qualquer resposta romântica a seus trabalhos, apesar dos valorosos esforços de Crabb Robinson, por interessar a Wordworth, Hazlitt e outros. Um bom antídoto para os patrióticos clamores de uma “Inglaterra, terra verde e agradável” é recordar hoje que o único eco significativo da obra de Blake enquanto vivo, encontra-se na Alemanha.

O último artigo de Thompson tratava do patriotismo nessa época. Em uma resenha crítica amistosa do livro de Linda Colley, Britons: forging the nation publicado este verão em Dissent, questionava a consistência da lealdade popular durante as guerras contra a França. A pesar de não negar sua existência, mostrava-se impaciente com aquelas análises que passavam por alto o fluxo de “patriotismo hipócrita” das danças e os desfiles dos voluntários. Embora pudesse irritar adotando os mesmos gestos ingleses, seus compromissos mais profundos foram evidentemente internacionalistas. O desarmamento nuclear europeu foi a causa à qual se dedicou durante toda uma década. Sua imaginativa resposta como escritor estendeu-se à China, Índia, América Latina e aos Estados Unidos. A unidade desses compromissos residiu em seu desejo de acabar com a Guerra Fria.

Em seus atos, demonstrou ser o profeta desse fim. Isso é por si só admirável. O quanto contribuiu o movimento pacifista para esse fim é outro problema; é o debate principal que Thompson deixa pendente. Nesse ponto, diferíamos. Entre os ideais do END (Movimento pelo Desarmamento Nuclear Europeu) e as realidades da queda da União Soviética, há uma grande brecha. Ao distinguir os defensores do fim da Guerra Fria de seus agentes, não os estou depreciando. A Primeira Guerra Mundial não foi concluída pela esquerda Zimmerwaldiana do “Chamado de Estocolmo”, mas pela vitória da Tríplice Entente. Não lhe concedemos menos honrarias por isso. Foi muito diferente o final da Guerra Fria? Edward sustentava apaixonadamente que foi. Ninguém teria mais direito a afirmar que ele. Seu juízo profissional – Ends and histories, concluído na primavera de 1990 e publicado no volume de Mary Kaldor Europe from bellow (A Europa vista de baixo) - é em parte uma resposta a Francis Fukuyama, sobre o qual tínhamos posições convergentes. É uma de suas mais atrativas análises é visionário e autobiográfico ao mesmo tempo. As pessoas o trarão à tona depois que os vereditos mais convencionais tenham sido esquecidos.

O primeiro rascunho foi terminado, explica, justo antes de a velha ordem ser arrasada em Praga, e ele estava à beira da morte em um hospital em Nova York. Em seus últimos anos, sofreu constantes enfermidades. Os leitores da London review of books recordaram um texto sobre a National Health Service (NHS). Não era velho quando morreu. Para nós, é uma perda enorme. Christopher Hill publicou meia dúzia de livros durante os doze anos posteriores à idade que tinha Thompson quando morreu. O que poderia ter escrito Edward? Em pleno auge do movimento pacifista, ele tendia a deixar de lado outras lutas políticas, porque poderiam dividir a causa comum. Com o final da Guerra Fria, seguramente havia contribuído mais uma vez para renovação da esquerda. Há vislumbres disso em Ends and histories. Qualquer que fosse o caminho tomado suas ideias, seriam de oposição. Seu temperamento não era de um contemporizador. A life of dissent é o filme afetuoso que Tariq Ali fez sobre Edward e Dorothy Thompson, no início deste ano, e que recentemente pude voltar a vê-lo. Durante a filmagem, conversaram sobre parentes em comum... “Que estará fazendo Perry por esses tempos?” perguntou Edward. Tariq mencionou algo que eu havia escrito sobre o conservadorismo nesta revista. “Sim, já sei”, respondeu Edward. “Oakshott era um cara ruim. Diga a ele para fortalecer seu tom”.