21 de dezembro de 2012

Economias planificadas e de propriedade pública funcionam?

Em comparação com o capitalismo, a economia planificada e de propriedade pública da URSS funcionou muito bem.

Stephen Gowans


Tradução / A União Soviética foi um exemplo concreto do que uma economia planificada pôde produzir: pleno emprego, pensões garantidas, licença maternidade paga, limites de horas de trabalho, cuidados médicos e educação (incluindo ensino superior) gratuitos, férias pagas, moradia barata, cuidado infantil a baixo custo, transporte público subsidiado e baixa desigualdade de renda. A maioria de nós deseja tais benefícios. Entretanto, eles são alcançáveis permanentemente? É largamente acreditado que embora a União Soviética tenha produzido tais benefícios, no fim a economia de propriedade pública e planificada provou-se um fracasso. Caso contrário, como explicar o fim do país? Ainda sim, quando a economia soviética foi pública e planificada, de 1928 a 1989, esta cresceu de forma sólida ano a ano, exceto durante os anos de guerra. Para ser claro, enquanto as economias capitalistas mergulharam em uma depressão profunda e solidamente caíram em recessões de poucos em poucos anos, a economia soviética infalivelmente não o fez, expandindo-se incessantemente e proporcionando emprego a todos. Longe de ser um fracasso, a economia pública e planificada da União Soviética funcionou notavelmente bem. O que não funcionava era o capitalismo, com suas ocasionais depressões, regulares recessões, desempregos em massa e extremos de riqueza e pobreza, tanto mais evidente hoje quando as economias capitalistas contraem ou mancam juntas, condenando inúmeras pessoas à inatividade. O que eventualmente levou à queda da União Soviética foi o pedágio acumulado sobre a economia soviética para derrubá-la, a intensificação da Guerra Fria pelo governo Reagan e a inabilidade da liderança soviética para achar uma maneira de escapar do prejuízo que tais coisas causaram.

Nos anos 80, a URSS estava demonstrando as estirpes da Guerra Fria. Sua economia crescia, mas a um ritmo menor que no passado. A competição militar com seu adversário ideológico, os EUA, atrasou seu crescimento de várias maneiras. Primeiro, recursos R&D (pesquisa e desenvolvimento, ''research and development'') foram monopolizados pelos militares, privando a economia civil dos melhores cientistas, engenheiros e ferramentas. Segundo, gastos militares aumentaram para se responder ao abandono da trégua em favor de uma nova corrida armamentista por parte do governo Reagan que tinha claramente como objetivo prejudicar a economia soviética. Para impedir a agressão estadunidense, os soviéticos utilizaram uma punitiva porcentagem de seu PIB no setor militar enquanto os EUA, com uma economia maior, investiam mais em termos absolutos porém em uma cota menor e mais gerenciável da renda nacional. Em terceiro lugar, para se proteger contra os perigos de depender de importações estrangeiras de matérias-primas importantes que poderiam ser cortadas para deixar o país de joelhos, a União Soviética escolheu extrair matérias-primas de seu próprio vasto território. Ao mesmo tempo em que fez a URSS autossuficiente, o abastecimento interno enredou o país numa armadilha Ricardiana*. O custo de produzir matérias-primas aumentou, à medida que fontes mais novas e difíceis de alcançar precisavam ser exploradas enquanto as mais velhas e de fácil alcance se esgotavam. Em quarto lugar, a fim de melhor defender o país, os soviéticos procuraram aliados no leste europeu e no terceiro mundo. Porém, porque a URSS era mais rica que os países e movimentos com que se aliou, esta se tornou a âncora e financiadora oficial dos outros países socialistas, movimentos de libertação e estados que buscavam libertar-se da espoliação por parte das potências ocidentais. Como seu número de aliados, aumentou, e Washington manobrou para armar, financiar e apoiar as revoltas anti-comunistas em uma tentativa de impôr pressão adicional ao tesouro soviético, os custos de Moscou para auxiliar seus aliados. Esses fatores — corolários da necessidade de prover defesa para a União Soviética — combinaram-se para empurrar custos até o ponto que eles impediram seriamente o crescimento soviético.

Com a desaceleração do crescimento e os custos de defender o país aumentando, parecia que era apenas uma questão de tempo até que a URSS se achasse entre a Scylla de um posicionamento militar insustentável e a Caríbdis de uma falência impulsionada pela corrida armamentista. Mikhail Gorbatchev, o último líder do país, enfrentou um dilema: ele poderia falir a economia tentando manter o ritmo com os gastos armamentistas americanos ou retirar-se completamente da corrida. Gorbatchev escolheu a última opção. Ele agiu pelo fim da Guerra Fria, retirando auxílio militar aos aliados e comprometendo-se à cooperação com os Estados Unidos. No plano econômico, ele agiu para transformar a União Soviética em uma social-democracia ocidental. Entretanto, ao invés de resgatar o país de um futuro de crescimento econômico ainda mais lento, as capitulações de Gorbatchev em política econômica e externa levaram a um desastre. Sem a mão restritiva da União Soviética, os Estados Unidos iniciaram uma série de agressões ao redor do mundo, a começar pelo Iraque, prosseguindo à Iugoslávia, Afeganistão, Iraque de novo e então Líbia, com numerosas intervenções menores entre essas. O abandono do planejamento econômico e os esforçar para limpar o caminho para a implementação de uma economia de mercado empurrou o país para uma crise. Dentro de 5 anos, a Rússia mostrou-se um desastre econômico. O desemprego, a falta de moradia, a falta de segurança e o parasitismo social (viver do trabalho dos outros) retornaram como uma vingança.

No dia de natal de 1991, data em que a URSS oficialmente acabou, Gorbatchev disse: ''Vivemos em mundo novo. A Guerra Fria está terminada. A corrida armamentista e a militarização louca dos Estados, que deformaram nossa economia, sociedade e valores, foram parados. A ameaça de uma guerra mundial foi eliminada'' (Roberts, 1999). Isso fez de Gorbatchev bastante popular no ocidente. Os russos estavam bem menos entusiasmados. Contida nas palavras de Gorbatchev estava a verdade de que a primeira tentativa consciente do mundo de construir uma alternativa ao capitalismo havia chegado ao fim. Não foi porque o sistema soviético provou-se ineficiente; pelo contrário, ele mostrou funcionar melhor que o capitalismo. A verdadeira razão para o fim da URSS foi que seu líder capitulou diante de um inimigo americano, que, desde a 2º Guerra Mundial, e com vigor crescente durante a era Reagan, promoveu uma corrida armamentista para eliminar a economia soviética. Esta foi uma economia que funcionou para 99% da população, e, portanto, se lhe tivesse sido permitido prosperar, teria desacreditado as economias privadas e reguladas pelo mercado de que 1% da população se favorece e beneficia. Foi esse modelo de livre iniciativa e desregulamentação do mercado que gerou vasta riqueza, conforto e segurança as prerrogativas dos capitães da indústria e titãs financeiros e desemprego, pobreza, fome, insegurança econômica e indignidade — condições necessárias para a existência dos 1% mais ricos — para o resto de todo mundo.

Os 21 anos desde o fim da URSS não têm sido fáceis. Stálin, sob cuja tutela a primeira economia pública e planificada do mundo foi construída, deu certa vez uma advertência profética: ''O que aconteceria se o capitalismo conseguisse esmagar as repúblicas soviéticas? Isto iniciaria uma era da mais negra reação nos países capitalistas e coloniais. A classe trabalhadora e os povos oprimidos seriam pegos pela garanta, as posições do comunismo mundial estariam perdidas'' (Stalin, 1954). E da forma como Stálin havia precisamente profetizado 10 anos antes da operação Barbarossa, a invasão nazista da União Soviética, que seu país tinha apenas 10 anos para se preparar para um ataque, também previu ele com precisão as consequências da queda da União Soviética perante as forças do capitalismo. Uma era da mais negra reação, de fato, iniciou-se. Washington tem agora mais liberdade para força militar para prosseguir com sua agenda reacionária em todo o mundo. A posse pública e a planificação mantém-se em Cuba e na Coreia do Norte, porém os Estados Unidos e seus aliados usam sanções, isolamento diplomático e assédio militar para sabotar as economias dos sobreviventes (tal como fizeram com a economia soviética), de modo que as consequências podem ser falsamente atribuídas às deficiências da propriedade pública e da planificação. Elas são, na verdade, fruto de um programa metódico de guerra de baixo nível. Estimulados a acreditar que o sistema econômico soviético tinha falhado, muitas pessoas, incluindo tanto os defensores e detratores comunistas da União Soviética, concluíram que um sistema de propriedade pública e planificação é inerentemente defeituoso. Comunistas bandearam-se de partidos comunistas para social-democratas, ou abandonaram a política radical logo. Os social-democratas deslocaram-se à direita, evitando a reforma e abraçando o neoliberalismo. Além disso, os governos ocidentais, não precisando mais barrar o apelo da propriedade pública e da planificação, abandonaram a política de pleno emprego e declararam não serem mais acessíveis serviços públicos robustos (Kotz, 2001). Ao mesmo tempo, a privatização na antiga União Soviética e países ex-comunistas expandiu a oferta global de força de trabalho, com consequências previsíveis para os níveis de salários em todo o mundo. A derrota da União Soviética deu início a uma era áurea para o capital. O resto de nós, como advertiu Stálin, fomos pegos pelas gargantas...

As maiores economias do mundo estão em crise desde 2008. Algumas estão presas em uma espiral fatal de austeridade, algumas nas garras da recessão, a maioria crescendo lentamente na melhor das hipóteses. Austeridade — na realidade a eliminação de serviços públicos — é a pseudo-solução prescrita. Não há fim à vista. Em algumas partes da Europa, o desemprego oficial chega a 2 dígitos; o desemprego entre os jovens, ainda mais. Na Grécia, um país de 11 milhões, há apenas 3,7 milhões empregados (Walker e Kakaounaki, 2012). Além disso, a crise não pode, de forma alguma, ser atribuída a um poder externo trabalhando sistematicamente para trazer a derrubada do capitalismo, tal qual os EUA e seus aliadas fizeram para com a propriedade pública e a planificação na URSS. Ainda sim, livre para se desenvolver sem o ônus de um esforço organizado para sabotá-lo, o capitalismo não está funcionando. Poucos deixam isso claro. Em contraste, o modelo soviético de propriedade e planejamento — que, desde o início, foi alvo de um esforço concentrado para derrubá-lo — jamais, exceto os anos de 2ª Guerra Mundial, caiu em recessão, nem deixou de oferecer pleno emprego. Entretanto entende-se, até mesmo por alguns ex-partidários da União Soviética, ter sido ineficiente. Ao contrário do engano geral, a experiência soviética não demonstrou que uma fraqueza inerente existiu dentro da propriedade pública, que a levou ao fracasso. Ela demonstrou, pelo contrário, o oposto - que a propriedade pública e a planificação puderam fazer o que o capitalismo não pode: produzir um crescimento econômico constante, pleno emprego, uma ampla gama de gratuitos e semi-gratuitos serviços públicos e uma distribuição bastante igualitária da renda. Além disso, pôde fazê-lo ano após ano e continuou a fazê-lo até que a liderança soviética puxou a tomada. Demonstrou, também, que a elite dos 1% iria defender a propriedade privada usando meios militares, econômicos e ideológicos para esmagar um sistema que funcionou contra eles mas fê-lo esplendidamente pelos outros 99% (um esforço que continua hoje contra Cuba e Coreia do Norte).

A derrota da União Soviética, de fato, marcou o início de um período negro de reação. A saída permanece sendo, como sempre, a propriedade pública e a planificação — que a experiência soviética de 1928 a 1989 demonstrou funcionar muito bem — e a luta contra aqueles que tentam desacreditá-la, degradá-la ou destruí-la.

O que a propriedade pública e a planificação fizeram pelos cidadãos comuns da URSS

Os benefícios do sistema econômico soviético encontraram-se na eliminação dos males do capitalismo - o fim do desemprego, da inflação, das recessões e depressões, os extremos de riqueza e pobreza; o fim da exploração, ou seja, de viver do trabalho dos outros; e a prestação de um vasto leque de gratuitos ou semi-gratuitos serviços públicos.

A mais importante conquista da economia soviética foi a abolição do desemprego. A União Soviética não apenas proveu emprego para todos como o trabalho era considerado uma obrigação social, de tanta importância que foi consagrado na constituição. A constituição de 1936 estipulara que ''os cidadãos da URSS têm o direito de trabalhar, ou seja, são garantidos o direito ao emprego e ao pagamento por seu trabalho de acordo com a qualidade e quantidade.'' Por outro lado, viver de meios que não o trabalho era proibido. Consequentemente, tirar riqueza de rentismo, lucros, especulação ou mercado negro — parasitismo social — era ilegal (Szymanski, 1984). Achar um emprego era fácil, porque normalmente havia baixa oferta de trabalho. Consequentemente, os funcionários tinham um alto poder de negociação no trabalho, com evidentes benefícios em segurança do trabalho e a gestão prestando muita atenção á satisfação do empregado (Kotz, 2003).

O artigo 41 da constituição de 1977 estabeleceu a semana de trabalho em 41 horas. Trabalhadores do turno da noite trabalhavam 7 horas mas recebiam a remuneração total (correspondente a 8 horas). Os trabalhadores empregados em empregos perigosos (por exemplo, mineradores) ou onde a vigilância mantida era crítica (por exemplo, médicos), trabalhavam 6 ou 7 horas mas recebiam salário integral. Trabalho em hora-extra foi proibido, exceto em circunstâncias especiais (Szymanski, 1984).

A partir dos anos 60, os trabalhadores receberam em média um mês de férias (Keeran e Kenny, 2004; Szymanski, 1984), que poderiam ser tomadas em resorts subsidiados (Kotz, 2003).

A todos os cidadãos soviéticos era fornecida uma renda de aposentadoria, aos homens com 60 anos de idade e às mulheres com a idade de 55 (Lerouge, 2010). O direito à pensão (assim como benefícios por invalidez) foi garantido pela constituição soviética (artigo 43, constituição de 1977), ao invés de ser revogável e sujeita a caprichos momentâneos de políticos, como é o caso nos países capitalistas.

Às mulheres era garantida licença maternidade totalmente remunerada desde 1936, além de muitos outros benefícios, pela constituição soviética (artigo 122, 1936). Simultaneamente, a constituição de 1936 provia uma ampla rede de maternidades, creches e jardins de infância, enquanto a constituição de 1977 obrigava o Estado a ajudar ''a família, proporcionando e desenvolvendo um amplo sistema de assistência à infância... mediante o pagamento de subvenções sobre o nascimento de uma criança, fornecendo subsídios às crianças e benefícios para as grandes famílias'' (artigo 35). A União Soviética foi o primeiro país a criar creches públicas (Szymanski, 1984).

Também lhes foi garantida a igualdade de direitos em relação aos homens, em todas as esferas da vida econômica, política, cultural e social (artigo 122, 1936), incluindo o direito ao emprego, descanso e lazer, segurança social e educação. Entre seus muitos pioneirismos, a URSS foi o primeiro país a legalizar o aborto, que estavam disponíveis sem custo algum (Sherman, 1969). Também foi o primeiro país a trazer as mulheres para os cargos superiores do governo. Uma intensa campanha foi realizada na Ásia central soviética para libertar as mulheres da opressão misógina do islamismo conservador. Isso produziu uma transformação radical das condições de vida das mulheres nestas áreas (Szymanski, 1984).

O direito à moradia foi garantido por uma disposição constitucional de 1977 (artigo 44). O espaço urbano para habitação foi, entretanto, reduzido à metade do que era por cabeça na Áustria e na Alemanha Ocidental, por exemplo. As razões eram construção inadequada na era czarista, a destruição massiva de moradias durante a 2ª Guerra Mundial e a ênfase soviética na indústria pesada. Depois da revolução, novas moradias foram construídas, mas seu ''estoque'' permaneceu insuficiente. A construção de habitações pesava fortemente sobre o capital, de que o governo necessitava urgentemente para a construção da indústria. Além disso, os invasores nazistas destruíram de 1/3 a 1/2 das habitações soviéticas durante a 2ª Guerra Mundial (Sherman 1969).

Cidadãos urbanos soviéticos vivam tipicamente em edifícios de apartamentos de propriedade da empresa em que trabalhavam ou do governo local. Os aluguéis eram baratíssimos por lei, cerca de 2 a 3% do orçamento familiar, enquanto os utilitários ocupavam de 4 a 5% (Szymanski, 1984; Kenny & Keeran, 2004). Isso difere nitidamente dos Estados Unidos, onde os aluguéis consumiam uma parcela significativa do orçamento familiar médio (Szymanski, 1984) e ainda o fazem.

Produtos alimentares e outras necessidades eram subsidiados, enquanto itens de luxo eram vendidos bem acima de seus custos.

O transporte público era eficiente, extenso e praticamente gratuito. A tarifa de metrô era cerca de 8 centavos nos anos 70, inalterada desde 1930. Nada comparável existiu nos países capitalistas. Isto porque um serviço público eficiente, acessível e extenso limitaria severamente as oportunidades de lucro de fabricantes de automóveis, companhias de petróleo e empresas de engenharia civil. A fim de salvaguardar seus lucros, essas empresas usam sua riqueza, conexões e influência para impedir o desenvolvimento de eficientes, extensas e baratas alternativas públicas ao transporte privado. Os governos, que precisam manter a indústria privada feliz para que esta possa gerar empregos, são obrigados a jogar seu jogo. A única maneira de mudar isto é pôr o capital sob o controle público, a fim de usá-lo para atender às metas de políticas públicas estabelecidas em um plano conscientemente construído.

A União Soviética deu maior ênfase à saúde do que seus adversários capitalistas. Nenhum outro país teve mais médicos ou leitos hospitalares por cabeça que a URSS. Em 1977, esta tinha 35 médicos e 212 leitos hospitalares a cada 10.000 habitantes, em comparação com 18 médicos e 63 leitos hospitalares nos EUA (Szymanski, 1984). O mais importante: a saúde era gratuita. Que cidadãos dos EUA tivessem que pagar por atendimento médico foi considerado extremamente bizarro na URSS, e os cidadãos soviéticos ''frequentemente questionavam os visitantes estadunidenses de forma bastante incrédula quanto a isso'' (Sherman, 1969).

A educação superior também era gratuita, e bolsas estavam disponíveis para estudantes de pós-graduação, adequadas para pagar livros-texto, hospedagem e alimentação, dentre outras despesas (Sherman, 1969; Szymanski, 1984).

A desigualdade de renda na União Soviética era leve em comparação com os países capitalistas. A diferença entre a maior renda e o salário médio era equivalente à diferença entre a renda mensal de um médico e um trabalhador comum nos EUA, cerca de 8 a 10 vezes maior (Szymanski, 1984). Os rendimentos mais elevados da elite proporcionou privilégios não maiores que a capacidade de se adquirir uma casa modesta e um carro (Kotz, 2000). Para comparar, em 2010, os 100 CEO's mais bem pagos do Canadá tinham rendimentos 155 vezes que os salários médios de tempo integral. Este era de US$43.000 (Canadian Centre for Policy Alternatives, 2011). Um rendimento 10 vezes maior seria de US$430.000 — mais ou menos o que os membros da elite capitalista ganham em uma semana. Um fator que mitigou a desigualdade de renda na União Soviética foi o acesso de todos os cidadãos soviéticos a serviços essenciais, sem nenhum ou quase nenhum custo. Assim, o grau de desigualdade material era ainda menor que o grau de desigualdade de renda (Szymanski, 1984).

Líderes soviéticos não vivam nas opulentas mansões que são as residências comuns de presidentes, primeiros-ministros e monarcas na maioria das capitais do mundo (Parenti, 1997). Gorbatchev, por exemplo, vivia num prédio de apartamentos para 4 famílias. Um alto funcionário da construção em Leningrado viva numa apartamento de um quarto, enquanto o funcionário político do topo em Minsk, sua esposa, sua filha e seu filho adotado moravam num apartamento de dois quartos (Kortz e Weir, 1997). Críticos da União Soviética acusam sua elite de ser uma classe dominante exploradora, mas os rendimentos modestos e as circunstâncias materiais humildes desta levantam sérias dúvidas sobre esta avaliação. Se foi de fato uma classe dominante exploradora, foi a mais estranha da história.

O recorde de crescimento da economia soviética sob a propriedade pública e a planificação

A partir do momento que, em 1928, a economia soviética tornou-se propriedade pública e planificada, até o ponto em 1989 no qual a economia foi empurrada em direção ao livre-mercado, o crescimento do PIB per capita soviético foi superior ao de qualquer outro país exceto Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Ele cresceu a uma taxa de 5,2% contra 4% para a Europa Ocidental e 3,3% para as ramificações da Europa Ocidental (EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia). Em outras palavras, no tempo em que a economia planificada e de propriedade pública estava em prática, o registro de aumento das riquezas na URSS foi melhor que a dos principais países capitalistas industrializados. O robusto crescimento da União Soviética durante esse período é ainda mais impressionante considerando que o período inclui os anos de guerra, quando um grande ataque da Alemanha nazista deixou um rastro de destruição no caminho. Os invasores alemães destruíram mais de 1500 cidades e vilas, mais de 70000 aldeias, 31000 fábricas e 100 milhões de cabeças de gado (Leffler, 1994). O crescimento foi máximo até 1970, ponto em que a economia soviética começou a ocorrer mais devagar. No entanto, mesmo durante esse período chamado (erroneamente) de estagnação pós-1970, o PIB per capita cresceu 27% (Allen, 2003).

Enquanto as taxas de crescimento do PIB per capita soviético se mostram positivas em comparação com a das principais economias capitalistas, uma comparação ainda mais relevante é a com o resto do mundo. Em 1929, a União Soviética ainda era em grande parte um país agrário, e a maioria das pessoas trabalhava na agricultura, comparado com uma minoria na Europa Ocidental e na América do Norte. Assim, a economia da URSS no momento de sua transição para a propriedade pública e a planificação era muito diferente da dos países ocidentais industrializados. Por outro lado, o resto do mundo se parecia com a União Soviética, sendo também, em grande parte, agrário (Allen, 2003). É, por conseguinte, com o resto do mundo e não os Estados Unidos e outros países industrializados avançados que a URSS deve ser comparada. De 1928 a 1989, o PIB per capita soviético não só ultrapassou o crescimento dos países ricos como também excedeu o crescimento em todas as outras regiões do mundo combinadas, bem como em maior grau. Assim, a economia planificada de propriedade pública não só ultrapassou o desenvolvimento das economias capitalistas mais ricas como também cresceu ainda mais rápido que os países; ela cresceu ainda mais rápido que as economias dos países que eram parecidos com ela em 1928. Por exemplo, fora do seu núcleo sul, o PIB per capita da América Latina era de US$1332 (dólares de 1990), quase igual aos US$1370 da URSS. Em 1989, o mesmo dado alcançou, na América Latina, US$4486, mas a renda média da União Soviética havia alcançado um nível muito maior, US$7078 (Allen, 2003). A propriedade público e a planificação havia elevado nível de vida a um patamar mais alto do que o capitalismo na América Latina havia feito, apesar do mesmo ponto de partida. Além disso, enquanto a economia soviética nos tempos de paz crescia seguramente, a economia latino-americana crescia aos trancos e barrancos, com empresas regularmente fechando as portas e demitindo seus funcionários.

Talvez o melhor exemplo de como a planificação e a propriedade pública se saiu melhor em elevar o padrão de vida venha de uma comparação dos rendimentos da Ásia Central soviética com o dos vizinhos no Oriente Médio e Sul da Ásia. Em 1928 essas áreas estavam em um estado pré-industrial. Sob a propriedade pública e a planificação, a renda média na Ásia Central soviética cresceu para US$5257 em 1989, 32% maior que na vizinha capitalista Turquia, 44% maior que no vizinho capitalista Irã e 241% maior que no vizinho capitalista Paquistão (Allen, 2003). Para os asiáticos centrais, ficou claro que o padrão de vida do lado soviético da fronteira era mais alto.

A emulação do financiamento público de pesquisa e desenvolvimento por parte dos EUA

Os defensores de uma economia de livre iniciativa querem nos fazer acreditar que a propriedade pública e a planificação sufocam a inovação, enquanto a livre iniciativa estimula-o. Se for esse o caso, como é que vamos explicar:

  • Que a União Soviética superou os EUA alcançando o espaço em 1950, acumulando um recorde de pioneirismos na exploração do espaço e, consequentemente, desencadeando um pânico em Washington?
  • Que a maioria das inovações nos EUA, da internet ao algoritmo do mecanismo de pesquisa do Google passando pelos medicamentos avançados e o iPhone sejam baseados não em investimento privado, mas em financiamento público?

Na realidade, a verdade sobre a inovação é o exato oposto do que os apologistas do livre-mercado querem nos fazer crer. Não é a iniciativa, mas a planificação e o financiamento público que a dirigem.

As conquistas soviéticas no espaço, se consideradas à luz da ideia equivocada de que a URSS sempre foi uma pobre segunda-melhor para o supostamente mais dinâmico EUA, são verdadeiramente surpreendentes. As conquistas soviéticas constituem o primeiro satélite, o primeiro homem em órbita, a primeira mulher em órbita, a primeira caminhada espacial, o primeiro pouso lunar, a primeira imagem do lado mais distante da lua, a primeira aterrissagem suave não tripulada na lua, o primeiro veículo lunar, a primeira estação espacial e a primeira sonda interplanetária. O pânico criado em Washington depois que a economia soviética supostamente sufocadora-de-inovações permitiu à URSS bater seu adversário ideológico muito mais rico no espaço galvanizou os Estados Unidos para pegar uma folha do livro soviético. Assim como os soviéticos estavam fazendo, Washington usaria fundos públicos para fortalecer a pesquisa em inovações. Isso seria feito por meio da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada em Defesa, a DARPA. Esta viria a canalizar dinheiro público para cientistas e engenheiros para pesquisa militar e espacial, entre outras. Muitas das inovações que sairiam da DARPA viriam a fazer o caminho para os investidores privados, que os usariam para lucro próprio (Mazzucato, 2011). Desta forma, os investidores privados foram poupados de arriscar seu próprio capital, como a mitologia da livre-iniciativa quer nos fazer crer que eles fazem. Nessa mitologia, perspicazes e ousados capitalistas colhem grandes lucros por arriscar seu capital em uma pesquisa que poderia nunca ser paga. Exceto que não é assim que funciona. É muito melhor para os investidores investir seu capital em empreendimentos com menos riscos e retornos imediatos, enquanto o público arca com o ônus do financiamento de pesquisa e desenvolvimento e seus muitos riscos e inseguranças. Usando sua riqueza, influência e conexões, os investidores têm pressionado com sucesso os políticos para manter este agradável arranjo no lugar. A realidade da livre-iniciativa, portanto, baseia no sistema-otário: o risco é socializado (ou seja, bancado pelo público, os otários), enquanto os benefícios são ''privatizados'' (por investidores que manipularam políticos para impôr ao público o ônus de financiar a pesquisa e o desenvolvimento).

Um estudo realizado por Block e Keller (2008) constatou que, entre 1971 e 2006, 77 das 88 melhores inovações em pesquisa e desenvolvimento tinham sido totalmente financiadas pelo governo dos EUA. Resumindo uma pesquisa da economista Mariana Mazzucato, o colunista do Guardian Seumas Milne (2012) aponta que

''Os algoritmos que sustentaram o sucesso do google foram financiados pelo setor público. A tecnologia no iPhone da Apple foi inventada no setor público. Em ambos EUA e Reino Unido foi o Estado, e não a indústria farmacêutica, que financiou os mais inovadores medicamentos 'nova entidade molecular', com o setor privado desenvolvendo, então, pequenas variações. E na Finlândia, foi o setor público que financiou o desenvolvimento precoce da Nokia — e fez um retorno desse investimento.''

A energia nuclear, a tecnologia para satélites e foguetes e a internet são outros exemplos de inovações que foram produzidas com dinheiro público, e têm sido usadas desde então para lucro privado. O presidente estadunidense Barack Obama reconheceu a natureza da fraude em um pronunciamento sobre o estado da nação de 2011: ''Nosso sistema de livre-iniciativa'', começou o presidente, ''é o que impulsiona a inovação.'' No entanto ele imediatamente se contradisse ao dizer que ''mas porque nem sempre é rentável às empresas investir em pesquisa básica, ao longo da história o nosso governo tem proporcionado cientistas e inventores de ponta e o suporte de que eles necessitam.''

Tudo isso aponta para dois fatos importantes: (1) os Estados Unidos deram o ponta-pé inicial na inovação de sua economia pela simulação do modelo soviético de pesquisa dirigida pelo Estado porque a iniciativa privada não estava à altura da tarefa e (2) em vez de imitar o modelo soviético para o beneficiamento público, os EUA canalizaram o financiamento público em pesquisa e desenvolvimento para o lucro privado. A partir do segundo ponto pode inferir-se um terceiro: o fato de que os soviéticos socializaram os benefícios que fluem dos riscos socializados, enquanto os EUA ''privatizaram-lhes'', reflete a natureza antagônica dessas duas sociedades: uma delas, uma sociedade orientada pelo coletivo e organizada para beneficiá-lo; a outra, uma sociedade de negócios organizada para beneficiar uma minoria de proprietários e donos de empresas. O capitalismo, como o presidente dos EUA reconhece, não promove a inovação, porque ''nem sempre é rentável para as empresas investir em pesquisa básica.'' Por outro lado, o financiamento dirigido pelo Estado é fonte de inovação. Claramente, então, uma agenda política tem alimentado dois mitos: (a) que um sistema de propriedade pública e planificação impede a inovação e (b) que o sistema de lucro a estimula.

Por que o crescimento desacelerou

Embora a economia soviética tenha crescido rapidamente entre 1928 e 1989, esta nunca ultrapassou as economias da América do Norte, Europa Ocidental e Japão. Consequentemente, a renda perca pita da URSS sempre foi menor que a das economias capitalistas industrializadas. A desvantagem comparativa dos rendimentos e condições de vida foi falsamente atribuída às supostas ineficiências da propriedade pública e da planificação, em vez da realidade de que, tendo iniciado ainda mais para trás que os países capitalistas ricos, a União Soviética tinha mais estrada para percorrer. Quando a corrida começou, em 1928, a União Soviética ainda era em grande parte um país agrário enquanto os EUA já era industrializado. Por isso a União Soviética tinha de percorrer o terreno que os EUA já haviam percorrido quando a Rússia estava sob o domínio sufocante da tirania czarista. Além disso, tinha que fazê-lo sem riquezas extraídas de outros países, como os EUA, Grã-Bretanha, França e Japão que haviam baseado parte de sua prosperidade em explorar seus próprios impérios formais e informais (Murphy, 2000). É verdade que a URSS possuía um grupo de países satélites na Europa Oriental — sobre os quais exerceu hegemonia, mas, exceto nos primeiros anos do pós-2ª Guerra Mundial, esses países nunca foram economicamente explorados pela União Soviética. Se qualquer coisa, os soviéticos, que exportavam matérias-primas em troca de bens manufaturados, saíram perdendo no final de sua relação comercial com seus satélites. Enquanto eles permaneceram membros do Pacto de Varsóvia — uma aliança defensiva formada depois e em resposta à OTAN — e mantiveram alguma aparência de propriedade pública e planejamento, Moscou permitiu aos países do Leste Europeu traçar seu próprio curso. A hegemonia soviética, então, limitou-se a dar cumprimento a essas duas condições (Szymanski, 1979).

Em meados da década de 1970 havia uma série preocupação em Washington de que a economia soviética estava em rumo de ultrapassar a dos Estados Unidos. Uma vez que Washington sempre apontou para a maior renda média e o padrão de vida mais elevado dos Estados Unidos para mobilizar a fidelidade de sua população, a liderança soviética (no campo da economia) seria um golpe mortal à legitimidade do capitalismo estadunidense. Estimativas cuidadosas preparadas nos EUA mostraram que o PIB soviético estava ganhando do estadunidense. Em 1950, a economia soviética era apenas um terço da economia estadunidense, mas cresceu para quase metade 8 anos depois (Sherman, 1969). Do ponto de vista dos estrategistas em Washington no final dos anos 1950, o perigo que se aproximava era que, no ritmo corrente, a economia soviética ultrapassasse a economia dos EUA por volta de 1982. Nesse momento, todo o fundamento da crença da população dos EUA na necessidade da livre-iniciativa — que esta produziu um padrão de vida mais elevado do que a propriedade pública e a planificação — desmoronaria. Alguma coisa tinha de ser feita.

Em 1975, a CIA estimou que a economia soviética era cerca de 60% da economia estadunidense (Kotz e Weir, 1997). No entanto, o crescimento econômico soviético começava a desacelerar. De acordo com dados fornecidos por Allen (2003), o PIB per capita soviético cresceu a uma taxa de 3,4% de 1928 a 1970, mas a menos de metade dessa taxa, 1,3%, de 1970 a 1989. Teria os Estados Unidos, alarmado por ter sido batido na corrida espacial e agitado por aquilo que parecia a perspectiva bem real de ser economicamente ultrapassado pela URSS, manobrado para sabotar o progresso soviético?

A guerra fria nunca foi gentil com as perspectivas soviéticas de crescimento. Os líderes soviéticos reconheceram que uma economia planificada e de propriedade pública era uma anátema para os capitães da indústria e das finanças que usam sua riqueza e conexões para dominar a política nos países capitalistas. A URSS tinha sido invadida várias vezes, e em duas ocasiões por potências capitalistas agressivas com o intuito de varrer o sistema soviético para fora do mapa. A fim de deter futuras agressões, foi necessário manter o ritmo militarmente. Portanto, a União Soviética lutava da melhor forma que podia para obter uma paridade militar áspera para manter uma convivência pacífica com os seus vizinhos capitalistas (Szymanski, 1979).

No entanto, o tamanho menor da economia soviética em relação a seus concorrentes ideológicos gerou problemas. A necessidade de manter a paridade militar áspera significou gastar um percentual muito mais elevado do PIB com os militares em comparação com o que os EUA e outros países da OTAN gastavam em suas forças armadas. Recursos que poderiam ter sido mobilizados para a expansão industrial para ajudar o país a elevar-se economicamente tiveram de ser alocados para a auto-defesa (Murphy, 1999). Desde a década de 1950 até a de 1970, os soviéticos gastaram de 12 a 14% do seu PIB com o exército (Szymanski, 1984; Allen, 2003), um número que iria crescer muito mais depois, quando o governo Reagan elevou os gastos militares, antecipando um esforço soviético para manter-se que poderia prejudicar a economia da URSS.

Outra restrição imposta à economia soviética pela necessidade de deter a agressão militar foi a monopolização dos recursos de pesquisa e desenvolvimento por parte dos militares.

Mantendo o ritmo militarmente envolvido numa batalha incessante para alcançar a inovação militar estadunidense. Quando os EUA Explode a primeira bomba atômica em 1945, a URSS correu para igualar a façanha científica dos EUA. O que fez isso quatro anos depois. A introdução dos Estados Unidos da bomba de hidrogênio em 1952 foi rapidamente seguido pelos soviéticos explodindo sua própria bomba de hidrogênio, um ano depois. O primeiro submarino estadunidense lançador de mísseis nucleares foi acompanhado pela URSS um ano depois. Nenhuma arma importante foi primeiro desenvolvida pela URSS, com uma única exceção — A ICBM. Ao contrário dos EUA, a URSS não tinha bases militares perto do seu rival ideológico. E, portanto, precisava de uma maneira de transportar ogivas nucleares em longas distâncias. No entanto, o objetivo foi em legítima defesa, e que a União Soviética era normalmente em modo de recuperação em sistemas de armas demonstrou que os Estados Unidos estavam estimulando a Guerra Fria adiante, não a URSS. Para os soviéticos, a Guerra Fria era um veneno econômico. Para os estadunidenses, a Guerra Fria foi uma forma de arruinar a economia soviética. Devido a autodefesa ter sido a prioridade, os cientistas e engenheiros da URSS foram canalizados para o setor militar. Os bens de consumo soviéticos foram, frequentemente, ditos terem sido de baixa qualidade, mas ninguém diz o mesmo sobre os equipamentos militares soviéticos. A razão é clara: Os militares tinham a primazia sobre as melhores mentes e os melhores equipamentos e nunca teve falta de financiamento. Há um ponto subsidiário: armas soviéticas de alta qualidade por um sistema de propriedade e planejamento público, apesar do mito de que tal sistema é incapaz de produzir produtos de alta qualidade (Kotz,2008). A necessidade de canalizar a maior parte e melhores recursos de pesquisa de desenvolvimento para a área militar fez com que os outros setores sofressem, e o crescimento do PIB foi interrompido. Por exemplo, os soviéticos fracassaram em seus esforços para aumentar a produção de petróleo, por causa dos metais, máquinas, cientistas e engenheiros necessários para aumentar a produção de óleo que foram enviados para o setor militar (Allen,2003). Metade de produção de máquina- ferramentas produzidas e, pelo menos, metade dos gastos em Pesquisas e desenvolvimento estavam indo para indústria da defesa.

Outra razão para a desaceleração pós-1975 na economia soviética era que a URSS tinha se ficado enrolada numa armadilha ricardiana (Allen, 2003). A União Soviética tinha uma oferta abundante de todas as matérias-primas de uma economia industrial necessária e, a princípio, eles eram fáceis de alcançar e, portanto, poderiam ser obtidos a baixo custo. Por exemplo, no início dos anos de industrialização da URSS, minas a céu aberto foram escavadas perto de centros industriais. Minerais estavam perto da superfície e poderiam ser transportados em distâncias curtas para fábricas próximas. Portanto, os custos de produção e transporte eram mínimos. No entanto, ao longo do tempo, os minerais que estavam perto da superfície foram escavados para fora e poços tornou-se mais profundo e mais estreito. Em grandes profundidades, a quantidade de minerais que puderam ser extraídos e os custos diminuídos para alcançá-los, aumentaram.

Eventualmente as minas foram esgotadas, e novas minas tiveram de ser abertas, mas bem longe dos centros industriais, o que significa custos mais elevados para o transporte de matérias- primas para as fábricas. A indústria do petróleo soviético ficou igualmente presa numa armadilha ricardiana. No início da década de 1970, a União Soviética foi perdendo $ 4.6 bilhões de dólares por ano para manter sua indústria petrolífera. Como o petróleo tornou-se mais difícil de alcançar, os soviéticos tinham que ir mais profundamente e através das rochas mais duras. Os custos aumentaram atingindo $6.0 bilhões de dólares até o final da década. No início da década de 1980, os custos haviam subido para $ 9,0 bilhões por ano (Schwizer.1994). Os soviéticos poderiam ter escapado da armadilha ricardiana procurando por importados mais baratos. Porém, isso os teria deixado vulneráveis a problemas de fornecimento. Os Estados Unidos e seus aliados — aqueles que sempre seriam hostis à União Soviética, exceto quando a conveniência ditava alianças temporárias ou abrandamento das tensões, poderiam interditar matérias-primas importantes para URSS para deixar a economia soviética de joelhos ou extorquir concessões. Em outras palavras, dada a elevada probabilidade de que os Estados Unidos iriam explorar oportunidades para colocar a União Soviética em desvantagem, comprando importados mais baratos, em vez de implementar uma política de recursos de autossuficiência, não era uma opção realista.

Outra razão de a economia soviética ter desacelerado foi o fato de que os custos para a União Soviética apoiar os seus aliados começaram a alcançar níveis insustentáveis. Uma forma de reforçar a autodefesa é encontrar amigos que partilham o mesmo inimigo, e a União Soviética começou a expandir sua aliança de países amigos, prestando assistência econômica e militar a países e movimentos hostis às forças reacionárias. Ao fazê-lo, tornou-se o banqueiro para os movimentos de libertação nacional, os países socialistas do Leste Europeu, e vários países do Terceiro Mundo, que procuraram escapar e permanecerem livres da dominação dos poderosos estados capitalistas.

Em 1981, a União Soviética e seus aliados europeus orientais tiveram 96.000 conselheiros econômicos em 75 países e 16.000 conselheiros militares em 34 países, em conjunto com um contingente de 39.000 tropas cubanas na África, um exército que Moscou acabou pagando a conta. Ao mesmo tempo, os soviéticos foram pegar bolsa de estudos para 72.000 estudantes do Terceiro Mundo matriculados em universidades soviéticas e do Leste Europeu (Miliband, 1989). Em 1980, Moscou estava gastando 44 bilhões de dólares por ano com seus aliados (Keeran e Kenny, 2004). Ele deu US $ 4,5 bilhões em ajuda para Varsóvia a partir de agosto de 1980 a agosto 1981 sozinho para ajudar a conter o movimento Solidariedade apoiado pelos EUA (Schweizer, 1994). Enquanto isso, a guerra no Afeganistão estava drenando o tesouro Soviético até a quantia de US $ 3 a US $ 4 bilhões por ano. Em outras palavras, os custos para sustentar aliados tinham crescido enormemente, os custos das matérias-primas foram aumentados, os melhores cientistas, engenheiros e máquinas-ferramentas estavam sendo monopolizado pelos militares e gastos militares estavam consumindo uma grande porcentagem da renda nacional.

Uma grande parte da situação em que os soviéticos se encontravam deveu-se a uma decisão da administração Reagan que tinha tomado para tentar paralisar a economia soviética. Em Outubro de 1983, o presidente estadunidense Ronald Reagan lançou o que se tornaria conhecido como a Doutrina Reagan ‘‘O objetivo do mundo livre não deve mais ser indicado em negativo, isto é, como resistência ao expansionismo soviético,” disse o presidente dos EUA. ''o objetivo do mundo livre deve, em vez disso, ser indicado no positivo. Nós temos de ir para a ofensiva com uma estratégia progressiva para a liberdade''. A guerra começou.

De modo mais formal, a Doutrina Reagan foi exposta numa série de decisões diretivas de segurança nacional, ou NSDDs (sigla em inglês). NSDD-66 foi anunciado que seria a política dos EUA para perturbar a economia soviética, enquanto que o NSDD-75 comprometeu os EUA a tentar elevar os custos da economia soviética a fim de mergulhar a URSS numa crise. A economia soviética era para ser espremida, e uma das medidas era induzir Moscou a aumentar seu orçamento de defesa (Schmweizer 1994). A alta tecnologia na corrida armamentista, seria a chave.Ela não só forçaria Moscou a desviar mais recursos para o setor militar, mas canalizaria ainda mais cientistas, engenheiros, máquinas-ferramentas e orçamento para pesquisa e desenvolvimento militar, reduzindo investimentos produtivos e travando a economia civil ainda mais do que a Guerra Fria já havia feito. O objetivo era forçar a União Soviética "a gastar sangue precioso para disputar uma corrida contra um inimigo mais atlético" (Schweizer, 1994), um inimigo que tinha uma economia maior e mais recursos para durar a corrida, porque tinha começado a um nível superior de desenvolvimento e foi saqueando vários países ao redor do mundo de suas riquezas.

Durante os primeiros seis anos de sua presidência, Reagan mais do que duplicou gastos militares dos EUA, a compra de 3.000 aviões, 3.700 mísseis estratégicos, e perto de 10.000 cisternas (Schweizer, 1994). Para acompanhar, os gastos militares Soviéticos, anteriormente em 12 a 14 por cento do PIB, começou a subir. Já duas vezes maior que o dos Estados Unidos como uma percentagem do rendimento nacional (Silber, 1994) o orçamento de defesa cresceu mais ainda. Os gastos militares aumentaram 45 por cento em cinco anos, superando consideravelmente o crescimento da economia soviética. Em 1990, os soviéticos estavam gastando mais do que 20 por cento do PIB do país em matéria de defesa (Englund, 2011). Ao mesmo tempo, Moscou aumentou seus gastos militares em pesquisa e desenvolvimento quase duas vezes. Na primavera de 1984, o líder soviético Konstantin Chernenko anunciou que "a complexa situação internacional nos obrigou a desviar uma grande quantidade de recursos para reforçar a segurança do nosso país" (Schweizer, 1994).
Enquanto isso, a administração Reagan tinha tomado uma página do livro de Che Guevara. O revolucionário argentino havia chamado por não um, não dois, mas três Vietnãs, para drenar o Tesouro dos EUA. Voltando a doutrina de Che contra o comunismo, o diretor da CIA Bill Casey chamado por não um, não dois, mas uma meia dúzia de Afeganistãos . Para atolar os soviéticos no "seu próprio Vietnã", os mujahedin afegãos foram regados com dinheiro e armas. Na Polônia, apoio financeiro, inteligência e apoio logístico foram vertidos para o movimento Solidariedade, forçando Moscou a aumentar o apoio ao governo polaco (Schweizer, 1994).

Os meios de comunicação soviéticos se queixaram de que os Estados Unidos queriam impor "uma corrida armamentista ainda mais ruinosa", acrescentando que Washington esperava que a economia soviética estaria esgotada (Izvestiya, 1986). Ministro soviético das Relações Exteriores, Andrei Gromyko, reclamou que reforço militar dos Estados Unidos teve como objetivo esgotar os recursos materiais da URSS e forçar Moscou para se render. Gorbachev ecoou Gromyko, dizendo que os cidadãos soviéticos sobre isso,

“Os EUA querem esgotar a União Soviética economicamente através de uma corrida nas armas espaciais mais modernas e caras. O país quer criar vários tipos de dificuldades para a liderança soviética, para destruir os seus planos, inclusive na esfera social, no âmbito da melhoria do nível de vida do nosso povo, assim despertando a insatisfação entre as pessoas com a sua liderança” (Schweizer de 1994 ).

Em meados da década de 1980, era claro em Washington e Moscou, que a União Soviética estava em apuros. Não era que o sistema de propriedade e planejamento público não estava funcionando. Pelo contrário, reconhecendo as vantagens do sistema soviético, os próprios Estados Unidos haviam emulado para estimular a inovação em sua própria economia. Além disso, a economia soviética ainda estava se expandindo de forma confiável, como tinha feito todos os anos em tempo de paz desde que Stalin tinha trazido sob o controle público, em 1928. No entanto, a defesa do país em face de uma intensificada Guerra Fria estava ameaçando sufocar o crescimento econômico completamente. Ficou claro que as perspectivas de Moscou para manter o ritmo com os Estados Unidos militarmente, e, ao mesmo tempo sustentando aliados sob ataque de insurgentes anticomunistas, estadunidenses alimentando e derrubando movimentos, estavam longe de ser otimista. Os Estados Unidos haviam manobrado a União Soviética em uma armadilha. Se Moscou continuasse a tentar se igualar aos EUA militarmente, isso acabaria por levá-la a falência e sua capacidade de deter os EUA ficaria perdida. Se não se tentou manter o ritmo, já não se poderia deter a agressão estadunidense. Não importa o caminho que Moscou tomou, o resultado seria o mesmo. A única diferença seria o tempo que levaria para o inevitável acontecer.

Gorbachev escolheu atender o inevitável, mais cedo ou mais tarde. Seu assessor de Relações Exteriores, Anatoly Chernayaev, lembra que foi "um imperativo para a Gorbachev que tivemos que colocar um fim à Guerra Fria, que tivemos que reduzir nosso orçamento militar de forma significativa, que tivemos de limitar nosso complexo industrial militar, de algum jeito "(Schweizer, 1994). A necessidade de frear o orçamento de defesa foi ecoado por outro consultor de Gorbachev, Aleksandr Yokovlev, que mais tarde recorda que "Ficou claro que o nosso gasto militar era enorme e tivemos que reduzi-lo" (Blum, 1995). Gorbachev, portanto, retirou o apoio de aliados e prometeu cooperação com os Estados Unidos. Esta foi uma rendição. A capitulação foi escondida por trás de frases melosas sobre promoção da cooperação internacional e promoção dos valores humanos universais, mas a retórica não escondeu o fato de que Gorbachev estava jogando a toalha. Ele descreveu a rendição como uma vitória para a humanidade, declarando que ele havia evitado "a ameaça de guerra nuclear", terminou a "corrida armamentista nuclear," reduzido "forças armadas convencionais," resolvido "inúmeros conflitos regionais que envolvam a União Soviética e os Estados Unidos ", e substituído" a divisão do continente europeu em campos hostis com ... uma casa comum europeia "(Gorbachev, 2011). Ao reduzir a ameaça de uma guerra nuclear global, Gorbachev tinha realmente conseguido uma vitória para a humanidade. No entanto, a vitória foi provocada por ceder aos Estados Unidos, que agora estava livre para passar por cima países que eram fracos demais para recusar as exigências dos EUA que produzem para a dominação política, militar e econômica.

Por questões domésticas, Gorbachev-que se identificou com a posição democrático-social, principalmente, do Partido Comunista Italiano (Hobsbawm, 1994) tentou transformar a União Soviética num estilo ocidental de democracia social (Roberts, 1999). Ele citou a necessidade de inverter a desaceleração da economia soviética como sua justificativa para a transição (Gorbachev, 1988). O crescimento econômico certamente tinha abrandado, e realmente havia o perigo de que a continuação do crescimento lento iria ameaçar a posição frente aos rivais capitalistas do seu país. No entanto, a solução de Gorbachev totaliza, "Se você não pode vencê-los, junte-se a eles." O aparato de planejamento, que infalivelmente traçava o percurso para o crescimento incessante em tempo de paz, foi desmantelado, a fim de levar a economia à regulação pelas forças de mercado. Ao invés de impulsionar o crescimento econômico, como Gorbachev esperava, o abandono do planejamento fez exatamente o oposto. A economia caiu de cabeça em um abismo, a partir do qual os países sucessores da URSS não sairiam por anos. Como um engraçadinho colocou, "Stalin encontrou a União Soviética um naufrágio e deixou uma superpotência; Gorbachev achou uma superpotência e deixou um naufrágio. "Gorbachev ainda é muito admirado no Ocidente, mas sua popularidade termina na fronteira com a Rússia. Em março de 2011, uma pesquisa constatou que apenas um em cada 20 russos admiram o último líder da União Soviética, e que "perestroika", o nome para o movimento de Gorbachev em direção a uma economia de mercado ", tem quase puramente conotações negativas" (Applebaum, 2011).

O sistema superior

Com poucas exceções, o que dizem numa discussão séria sobre URSS está cheio de preconceito, distorção e equívoco. Trancada em batalha com a União Soviética, durante décadas, Washington deliberadamente promoveu equívocos sobre o seu inimigo ideológico. O objetivo era fazer com que a URSS parecesse sombria, brutal, repressiva, economicamente lenta e ineficiente, e não o tipo de lugar que ninguém em sã consciência iria querer imitar ou viver. Hoje, acadêmicos, jornalistas, políticos, funcionários do Estado, e até mesmo alguns comunistas repetem a velha propaganda da Guerra Fria. A economia soviética, na opinião deles, nunca funcionou muito bem. No entanto, a verdade sobre a questão é que ela funcionou muito bem. Ela cresceu mais rápido ao longo do período que foi de propriedade pública e planejada do que a economia dos EUA, supostamente dinâmica, para não falar das economias dos países que eram tão subdesenvolvidas como a URSS era em 1928, quando a economia soviética foi trazida sob o controle público. A economia soviética era inovadora o suficiente para permitir que a URSS ultrapassasse os Estados Unidos na exploração espacial, apesar de os Estados Unidos "terem mais recursos, um evento que inspirou os estadunidenses a imitar o apoio público da União Soviética para pesquisa e desenvolvimento. Além disso, o sistema soviético de propriedade pública e do planejamento empregava de forma eficiente todos os seus recursos de capital e humano, ao invés de manter exércitos de trabalhadores desempregados e ineficiente funcionando abaixo de sua capacidade, como as economias capitalistas regularmente fazem. Todos os anos, 1928-1989, exceto durante os anos de guerra, a economia soviética se expandido de forma confiável, proporcionando empregos, abrigo e uma grande variedade de serviços públicos de baixo custo ou gratuito para todos, enquanto que as economias capitalistas afundaram regularmente em recessão e que tiveram de lutar continuamente em meio aos destroços de vidas humanas.

O Conselho Nacional de Inteligência estadunidense faz um alerta preocupante de que a economia mundial tendente à crise poderia produzir o caos e angústia numa escala ainda maior do que a última crise (Shanker, 2012). Oferecendo um "prognóstico sombrio" sobre a economia mundial, a ONU adverte que "uma nova recessão global que afunda muitos países em um ciclo de austeridade e desemprego durante anos" (Gladstone, 2012). Mas, ao mesmo tempo, somos informados de que a economia soviética nunca funcionou, e que o capitalismo, com suas crises regulares, falha em não promover emprego, comida, roupas e abrigo a todos, é ao mesmo tempo a única opção e o sistema superior. Claramente, não é um sistema superior, ao contrario, é claramente inferior e tampouco a única opção. Não só podemos fazer melhor, temos feito melhor. É hora de derrubar o muro de equívocos politicamente engendrados sobre a propriedade pública e do planejamento. Por muito tempo, o muro nos impediu de ver um modelo alternativo viável ao capitalismo, cujo histórico de pontos de sucesso inigualável para um futuro realista e possível aos “99 por cento”, um futuro livre de desemprego, recessão, extremos de riqueza e pobreza, e onde bens e serviços essenciais estão disponíveis sem nenhum custo para todos.

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20 de dezembro de 2012

Lênin e a "aristocracia do trabalho"

Eric J. Hobsbawm

Montlhy Review

Tradução / O breve ensaio que se segue é um contributo para a discussão sobre o pensamento de Lênin, por ocasião do centésimo aniversário do seu nascimento. Trata-se de um assunto que pode ser convenientemente tratado por um marxista inglês, visto que o conceito de Lênin de uma "aristocracia do trabalho" derivou claramente da história do capitalismo britânico do século XIX. As referências concretas que ele faz à "aristocracia do trabalho" como uma camada da classe operária, aparecem retiradas exclusivamente de Inglaterra (embora nas suas notas sobre imperialismo faça referência a fenômenos semelhantes nas partes "brancas" do Império Britânico). O próprio termo quase de certeza deriva de uma passagem escrita por Engels em 1885 e reeditada na introdução à edição de 1892 de A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra em 1844 que fala dos grandes sindicatos ingleses como "uma aristocracia dentro da classe trabalhadora".

A expressão propriamente dita pode ser atribuída a Engels, mas o conceito era familiar no debate político social inglês nos anos 1880. Em geral, era aceito que a classe trabalhadora em Inglaterra, neste período, continha uma camada favorecida – minoritária mas numericamente extensa – que era habitualmente identificada com os "artesãos" (i.e. os trabalhadores e artífices qualificados) e sobretudo com aqueles que estavam organizados em sindicatos ou outras organizações da classe trabalhadora. É este o sentido com que observadores estrangeiros também usaram o termo, por exemplo Schulze-Gaevernitz, que Lênin cita favoravelmente no célebre oitavo capítulo do "Imperialismo". Esta identificação convencional não era inteiramente válida mas, tal como a utilização corrente do conceito de uma camada superior da classe trabalhadora, refletia uma clara realidade social. Nem Marx, nem Engels, nem Lênin "inventaram" uma aristocracia do trabalho. Existia apenas com demasiada visibilidade na Inglaterra da segunda metade do século XIX. Além do mais, se existia em algum outro local, era claramente muito menos visível ou significativa. Lênin assumiu que até ao período do imperialismo ela não existia em nenhum outro local.

A novidade do argumento de Engels estava em outro lugar. Ele defendia que esta aristocracia do trabalho fora possível devido ao monopólio do mundo industrial pela Inglaterra e que iria desaparecer ou que seria empurrada para junto do resto do proletariado com o fim deste monopólio. Lênin concordou com Engels neste ponto e nos anos que precederam 1914, quando o movimento operário inglês se radicalizava, teve tendência a realçar a segunda parte da argumentação de Engels, por exemplo nos seus artigos Debates Ingleses sobre uma Política Liberal dos Trabalhadores (1912), O Movimento Operário Inglês (1912), e Em Inglaterra, os Desastrosos Resultados do Oportunismo, (1913). Embora não duvidando nem por um momento que a aristocracia operária era a base do oportunismo e do "liberal-trabalhismo" do movimento britânico, Lênin não aparecia até então a enfatizar as implicações internacionais da discussão. Por exemplo, aparentemente não a usou na sua análise das raízes sociais do revisionismo (vide Marxismo e Revisionismo (1908) e Diferenças no Movimento Operário Europeu (1910). Aqui, ele defendia que o revisionismo tal como o anarco-sindicalismo eram devidos à constante criação de certas camadas intermédias – pequenas oficinas, trabalhadores domésticos, etc. – nas margens do capitalismo em desenvolvimento, as quais, por sua vez, eram constantemente atiradas para as fileiras do proletariado, pelo que era inevitável que as tendências pequeno-burguesas se infiltrassem nos partidos proletários.

A linha de pensamento de onde partiu do seu reconhecimento da aristocracia do trabalho foi um pouco diferente; e deve-se notar que ele a manteve, em parte, pelo menos, até ao fim da sua vida política. Aqui é talvez relevante observar que Lênin obteve o seu conhecimento do fenômeno, não só a partir dos escritos de Marx e de Engels, que frequentemente discorriam sobre o movimento operário inglês, dos seus contatos pessoais com marxistas em Inglaterra (que visitou seis vezes entre 1902 e 1911), mas também a partir da completa e bem documentada obra de Sidney e Beatrice Webb "Democracia Industrial" sobre os sindicatos "aristocráticos" do século XIX. Ele conhecia profundamente este importante livro, tendo-o traduzido no seu exílio na Sibéria, o qual lhe deu uma compreensão imediata das ligações entre os Fabianos ingleses e Bernstein: "A fonte original de uma série de disputas e ideias de Bernstein encontra-se nos últimos livros escritos pelos Webb", escreveu em setembro de 1899 a um correspondente. Lênin continuou muitos anos mais tarde a citar informação dos Webb e, especificamente, refere-se à Democracia Industrial no decurso da sua discussão em "Que fazer?"

Duas propostas podem ter saído em parte ou principalmente da experiência da aristocracia do trabalho britânica. A primeira, "que a subserviência à espontaneidade do movimento operário, depreciando o papel do "elemento consciente", do papel da Democracia Social, significa, quer se goste ou não, o crescimento da influência da ideologia burguesa no seio dos trabalhadores". A segunda, que uma luta puramente sindical "é necessariamente uma luta de acordo com o setor (ofício), porque as condições do trabalho diferem muito nos diferentes setores e, em consequência, a luta para melhorar estas condições só pode ser conduzida de acordo com cada setor". (Que fazer? O segundo argumento é apoiado com referência direta aos Webb).

A primeira destas propostas parece basear-se na perspetiva de que, no capitalismo, a ideologia burguesa é hegemônica a não ser que deliberadamente neutralizada pelo "elemento consciente". Esta importante observação leva-nos muito além da mera questão da aristocracia do trabalho e não precisamos de prossegui-la aqui. A segunda proposta está mais intimamente ligada à aristocracia do trabalho. Argumenta que, dada a "lei do desenvolvimento desigual" dentro do capitalismo – i.e. a diversidade de condições em diferentes indústrias, regiões, etc. da mesma economia – um movimento operário puramente "economicista" tenderá a fragmentar a classe operária em segmentos "egoístas" ("pequeno-burgueses") cada um perseguindo os seus interesses, se necessário em aliança com os seus próprios empregadores, às custas dos restantes. (Lênin frequentemente citou o caso das "Alianças de Birmingham" dos anos 90, tentativas de um bloco conjunto sindicatos-administração para manter os preços em diversos setores metalúrgicos. Quase certo que retirou esta informação dos Webb.) Consequentemente, um tal movimento puramente "economicista" leva a quebrar a unidade e consciência política do proletariado e a enfraquecer ou neutralizar o seu papel revolucionário.

Este argumento também é muito geral. Podemos olhar para a aristocracia do trabalho como um caso especial deste modelo geral. Surge quando as circunstâncias econômicas do capitalismo permitem dar concessões significativas ao proletariado, dentro do qual certas camadas conseguem, por meio da sua especial escassez, engenho, posição estratégica, força organizacional, etc., estabelecer muito melhores condições para si em detrimento das restantes. Assim, podem existir situações históricas, como em finais do século XIX em Inglaterra, quando a aristocracia operária pode quase ser identificada com o movimento sindical, como Lênin por vezes esteve quase a sugerir.

Mas se o argumento é em princípio mais geral, não pode haver dúvida de que o que estava na cabeça de Lênin quando o usou, era a aristocracia do trabalho. Vezes sem conta encontramo-lo a usar expressões tais como: "o espírito pequeno-burguês que prevalece entre esta aristocracia do trabalho" (A Sessão do Departamento da Internacional Socialista, 1908): "os sindicatos ingleses, insulares, aristocráticos, filistinamente egoístas", "os Ingleses orgulham-se do seu sentido prático e de não gostarem de princípios gerais; é uma expressão do espírito artesão no movimento operário" (Debates Ingleses sobre uma Política Liberal dos Trabalhadores, 1912); e "esta aristocracia operária... isolou-se da massa do proletariado em sindicatos de ofícios fechados e egoístas" (Harry Quelch, 1913). Além disso, muito mais tarde, numa declaração programática cuidadosamente elaborada – no seu Esboço de Teses Preliminares sobre a Questão Agrária para o Segundo Congresso da Internacional Comunista (1920) – é feita a ligação com a maior clareza:
Os trabalhadores industriais não podem desempenhar a sua missão histórica mundial de emancipação da humanidade do jugo do capital e das guerras se se preocuparem exclusivamente com o seu estreito ofício, com os estreitos interesses do seu setor e se confinarem a cuidar e a preocupar-se em melhorar as suas próprias, por vezes toleráveis condições pequeno-burguesas. Isto é exatamente o que acontece em muitos países avançados à "aristocracia do trabalho" que serve de base aos ditos partidos Socialistas da Segunda Internacional.
Esta citação, que combina as primeiras e mais tardias ideias de Lênin sobre a aristocracia do trabalho, leva-nos naturalmente de umas para as outras. Estes escritos mais tardios são familiares a todos os marxistas. No geral, eles datam do período que vai de 1914 a 1917 e formam parte da tentativa de Lênin de fornecer uma explicação coerente para o irromper da guerra e especialmente o colapso simultâneo e traumático da Segunda Internacional e da maior parte dos partidos que a constituem. Encontram-se quase inteiramente no oitavo capítulo de Imperialismo e o artigo Imperialismo e a Divisão no Movimento Socialista escrito um pouco mais tarde (1916) complementa-o.

A discussão sobre Imperialismo é bem conhecida, embora as notas de rodapé de Imperialismo e a Divisão não sejam tão largamente conhecidas. Genericamente, é assim. Graças à posição peculiar do capitalismo inglês – "grandes possessões coloniais e uma posição monopolista nos mercados mundiais" – a classe trabalhadora britânica tendia, já em meados do século XIX, a estar dividida numa minoria favorecida de aristocratas do trabalho e uma camada inferior muito maior. A camada superior "aburguesa-se" enquanto ao mesmo tempo "uma parte do proletariado se deixa ser dirigida por gente que é comprada pela burguesia ou que pelo menos é paga por ela. " Na época do imperialismo, aquilo que era então um fenômeno puramente inglês encontra-se agora em todas as potências imperialistas. Assim, o oportunismo que degenera em chauvinismo social caracterizou todos os principais partidos da Segunda Internacional. Contudo, "o oportunismo não pode agora triunfar no movimento da classe trabalhadora de nenhum país durante décadas como aconteceu em Inglaterra" porque o monopólio mundial tem agora de ser partilhado entre uma série de países que competem entre si. Assim, o imperialismo, enquanto generaliza o fenômeno da aristocracia do trabalho, também produz as condições para o seu desaparecimento.

As passagens relativamente superficiais de Imperialismo são explanadas numa argumentação bastante mais vasta em Imperialismo e a Divisão. A existência de uma aristocracia operária é explicada pelos super lucros do monopólio que permitem aos capitalistas "devotar uma parte (que nem sequer é pequena) a subornar os seus próprios trabalhadores, de modo a criar qualquer coisa como uma aliança... entre os trabalhadores de um dado país e os seus capitalistas contra os outros países. Este "suborno" funciona através de fundações, a oligarquia financeira, preços altos, etc., (i.e. algo como monopólios conjuntos entre um dado capitalismo e os seus trabalhadores). A quantidade do potencial suborno é substancial – Lênin calculou-o talvez como cem milhões de francos em bilhões – e portanto, em certas circunstâncias, é a camada que beneficia disso. Contudo, "a questão de como esta pequena esmola é distribuída entre ministros do trabalho, "representantes do trabalho"... membros dos comitês das indústrias de guerra, funcionários do trabalho, trabalhadores organizados em pequenos sindicatos de artífices, empregados de escritório, etc. etc., é uma questão secundária." O que resta da argumentação, com exceções que serão referidas abaixo, amplia mas não altera substancialmente a argumentação de Imperialismo.

É fundamental recordar que a análise de Lênin foi no sentido de tentar explicar uma situação histórica específica – o colapso da Segunda Internacional – e fundamentar conclusões políticas específicas que retirou daí. Primeiro, argumentou que, na medida em que o oportunismo e o chauvinismo social representavam apenas uma minoria do proletariado, os revolucionários teriam de "descer mais profundamente até às verdadeiras massas"; em segundo lugar, que os "partidos burgueses dos trabalhadores" estavam agora irrevogavelmente vendidos à burguesia e não iriam desaparecer antes da revolução nem "regressar" ao proletariado revolucionário, embora pudessem "jurar em nome de Marx", onde o marxismo fosse popular entre os trabalhadores. Assim, os revolucionários devem rejeitar uma unidade fictícia entre o proletariado revolucionário e a facção filistina oportunista dentro do movimento dos trabalhadores. Em suma, o movimento internacional teve de se partir, de modo a que um movimento Comunista dos trabalhadores pudesse substituir um movimento Social-democrata.

Estas conclusões aplicavam-se a uma situação histórica específica, mas a análise que as suporta era mais geral. Como fazia parte de uma polêmica política específica e de uma análise mais vasta, algumas das ambiguidades da argumentação de Lênin sobre o imperialismo e a aristocracia do trabalho não são para ser escrutinadas tão de perto. Como vimos, ele próprio pôs de lado alguns aspetos da questão como "secundários". Contudo, a argumentação é em alguns aspetos pouco clara ou mesmo ambígua. Grande parte das dificuldades surge da insistência por parte de Lênin de que o setor corrompido da classe trabalhadora é e só pode ser uma minoria, ou mesmo, como por vezes sugere de forma polêmica, uma pequeníssima minoria, contra as massas que não estão "infetadas pela respeitabilidade burguesa" e às quais os marxistas têm de apelar, pois "esta é a essência da tática marxista."

Em primeiro lugar, é evidente que a minoria corrompida podia ser, mesmo na suposição de Lênin, um setor numericamente grande da classe trabalhadora e um ainda maior do movimento organizado de trabalhadores. Mesmo que só correspondesse a 20% do proletariado, como as organizações de trabalhadores em finais do século XIX em Inglaterra ou em 1914 na Alemanha (o exemplo é de Lênin) não podia ser simplesmente descartado politicamente e Lênin era demasiado realista para o fazer. Daí uma certa hesitação nas suas formulações. Não era a aristocracia do trabalho como tal, mas apenas uma "camada" que tinha desertado economicamente para a burguesia ("Imperialismo e a Divisão"). Não é claro de que camada se trata. Os únicos tipos de trabalhadores que são especificamente mencionados são os funcionários, os políticos, etc., dos movimentos reformistas dos trabalhadores. São de fato minorias – pequeníssimas minorias – corrompidas e por vezes francamente vendidas à burguesia, mas a questão por que dominam o apoio dos seus seguidores não é discutida.

Em segundo lugar, a posição da massa dos trabalhadores é deixada em alguma ambiguidade. É claro que o mecanismo de exploração de um monopólio de mercados, que Lênin considera como a base do "oportunismo", funciona de modo que os seus benefícios não podem ser confinados apenas a uma camada da classe trabalhadora. Há boas razões para supor que "qualquer coisa como uma aliança" "entre os trabalhadores e os capitalistas de uma dada nação contra os de outros países" (e que Lênin ilustra com "As Alianças de Birmingham" dos Webb) implica alguns proveitos para todos os trabalhadores, embora obviamente muito maiores para os bem organizados e para os estrategicamente fortes trabalhadores aristocratas de entre eles. É com efeito verdade que o monopólio mundial do capitalismo britânico do século XIX pode ter dado poucos benefícios às camadas mais baixas do proletariado, enquanto deu benefícios substanciais à aristocracia do trabalho. Mas isto foi porque nas condições de inflação e capitalismo competitivo, liberal, "laissez faire" não havia outro mecanismo senão o mercado (inclusive a negociação coletiva dos poucos grupos proletários com capacidade para tal) para distribuir os proveitos do monopólio mundial aos trabalhadores ingleses.

Mas nas condições do imperialismo e do capitalismo monopolista isto deixou de ser assim. Fundações, manutenção de preços, "alianças", etc., possibilitaram a distribuição de concessões mais largamente aos trabalhadores afetados. Além do mais, o papel do Estado estava a mudar como Lênin tinha consciência. "Lloyd Georgism" (que discutiu de forma clara em Imperialismo e a Divisão) tinha intenção de "assegurar donativos bastante substanciais aos trabalhadores obedientes na forma de reformas sociais (segurança, etc.). "É evidente que tais reformas iriam beneficiar os trabalhadores "não aristocratas" relativamente mais do que os "aristocratas" já confortavelmente instalados.

Por fim, a teoria de Lênin sobre o imperialismo afirma que a "mão cheia das nações mais ricas e privilegiadas" se tornaram em "parasitas no corpo do resto da humanidade", i.e., em exploradores coletivos e sugere uma divisão do mundo em nações "exploradoras" e "proletárias". Podiam os benefícios de uma tal exploração coletiva ficar inteiramente confinados em uma camada privilegiada do proletariado metropolitano? Lênin estava bem consciente que o proletariado romano original era uma classe coletivamente parasita. Ao escrever sobre o Congresso da Internacional de Stuttgart em 1907, observava:
A classe dos que não têm nada mas que também não trabalham é incapaz de derrubar os exploradores. Só a classe proletária que mantém toda a sociedade tem o poder de fazer com sucesso uma revolução social. E agora vemos que em resultado de uma política colonial de grande impacto o proletariado europeu atingiu em parte uma situação em que não é o seu trabalho que mantém a sociedade no seu todo mas sim o trabalho dos povos das colônias que estão praticamente escravizados... Em certos países estas circunstâncias criam a base material e econômica para infectar o proletariado de um país ou de outro com chauvinismo colonial. Claro que isto pode talvez ser apenas um fenômeno temporário, mas no entanto tem claramente de se reconhecer o mal e perceber as suas causas...
"Marx frequentemente fazia referência a um ditado significativo de Sismondi que os proletários do mundo antigo viviam à custa da sociedade enquanto a sociedade moderna vive à custa do proletário" (1907). Nove anos mais tarde, no contexto de uma discussão posterior, Imperialismo e a Divisão ainda refere que "o proletariado romano vivia à custa da sociedade."

A análise de Lênin sobre as raízes sociais do reformismo é frequentemente apresentada como se se tratasse apenas da formação de uma aristocracia do trabalho. Claro que é inegável que Lênin enfatizava este aspecto da sua análise muito mais do que qualquer outro e por uma questão de argumentação política quase excluindo qualquer outro. É também claro que hesitava em dar seguimento a outras partes da sua análise que pareciam não terem que ver com a perspetiva política que ele naquela altura estava de forma esmagadora preocupado em apresentar. Contudo, uma leitura profunda dos seus escritos mostra que ele considerava mesmo outros aspetos do problema e que estava consciente de algumas das dificuldades de uma abordagem excessivamente unilateral da "aristocracia do trabalho." Hoje, quando é possível separar aquilo que é de relevância permanente na argumentação de Lênin daquilo que reflete os limites da sua informação ou as exigências de uma situação política específica, estamos em posição de ver os seus escritos numa perspetiva histórica.

Se tentarmos julgar o seu trabalho sobre "aristocracia do trabalho" em tal perspetiva podemos bem concluir que os seus escritos de 1914-1916 são de alguma forma menos satisfatórios do que a profunda linha de pensamento que desenvolveu de forma consistente em O que Fazer? até Esboço de Teses Preliminares sobre a Questão Agrária de 1920. Com efeito, embora grande parte da análise de uma "aristocracia do trabalho" fosse aplicável ao período do imperialismo, o seu modelo clássico do século XIX inglês que formou a base do pensamento de Lênin sobre o assunto, estava a deixar de fornecer um guia adequado ao reformismo de, pelo menos, o movimento operário britânico por volta de 1914, embora como camada da classe trabalhadora estivesse provavelmente no seu auge em finais do século XIX princípios do século XX.

Por outro lado, a argumentação mais geral sobre os perigos da "espontaneidade" e do economicismo "egoísta" no movimento sindical, embora ilustrada pelo exemplo histórico da aristocracia do trabalho britânica de finais do século XIX, conserva toda a sua força. É com efeito uma das contribuições mais fundamentais e brilhantes de Lênin para o marxismo.

O vermelho e o negro

O motor do capitalismo é o lucro. Qual seria o do socialismo?

por Seth Ackerman

Jacobin

Tradução / Radicais tem um hábito de falar na condicional. Subjacente a todos seus discursos sobre as mudanças que gostariam de ver no mundo reside um conhecimento desconfortável de que nosso sistema social impõe rígidos limites em relação à quantidade de mudanças que podem ser feitas no momento. “Depois da revolução...” é o prefácio melancólico e irônico à maioria dos desejos carinhosamente expressados pela esquerda.

Por que, então, os radicais são tão hesitantes em falar sobre como deveria se parecer um sistema alternativo? Uma das mais antigas e influentes objeções a tal discurso vem de Marx, com seu sempre citado escárnio em relação aos “receitas” utópicas para os “caldeirões do futuro”. A moral da citação, supostamente, é que a sociedade futura deve emergir das dinâmicas espontâneas da história, não a partir das imaginações isoladas de algum escriba. Mas não sem uma ironia, uma vez que dois anos depois disso o escriba Marx escreveu sua própria pequena receita na sua Crítica ao Programa de Gotha – a qual envolvia vale-trabalho, armazéns de suprimentos, e uma contabilidade para determinar quanto cada trabalhador deveria receber.

Da forma como aconteceu, os comentários de Marx foram uma réplica à crítica que tinha recebido numa publicação de em um jornal parisiense editado por alguns devotos do filósofo Auguste Comte, criticando Marx por não oferecer nenhuma alternativa concreta ao sistema social que ele condenava. (É por isso que, na citação original, ele pergunta ironicamente se as receitas pela quais os editores esperavam encontrar tratavam-se de receitas “Comtianas”). O alvo de Marx era exatamente essa obsessão de "pintar um futuro".

Um motivo relacionado à essa reticência é o sentimento de que enunciar ideias para o futuro das instituições sociais contribui para um tipo de elitismo tecnocrático que sufoca o ímpeto utópico do povo em movimento. Grandes mudanças sociais nunca acontecem sem que as multidões ganhem inspiração para atos heroicos de entusiasmo, e tentativas pacientes de lidar realisticamente com os problemas materiais do funcionamento da sociedade raramente são inspiradoras. Este questionamento não é de forma alguma trivial; uma das mais antigas falácias da esquerda é a ilusão de que a mudança acontece quando alguém aparece com um brilhante plano de dez etapas e consegue convencer a todos de sua genialidade.

Ainda assim, um projeto radical bem-sucedido deve apelar para todo registro emocional: não apenas aqueles momentos de êxtase quando a história se revela e tudo parece ser possível, mas também aqueles nos quais os humores tornam-se pensativos e críticos, quando até o mais inveterado dos otimistas se deixa tomar pela dúvida e pela reflexão. Mesmo uma luta tão épica e apaixonada como o movimento pelas oito horas diárias – o qual “parecia ser uma das utopias mais marcantes do socialismo revolucionário” na época, como lembrou Elie Halévy – era, no fim das contas, sobre uma medida burocrática, imposta pela legislação e pelos inspetores de fábrica.

Talvez o motivo mais fundamental pelo qual a esquerda tem suspeitado desse tipo de visões seja o fato de que elas sempre são apresentadas como um ‘fim da linha’ histórico – e um ‘fim da linha’ é sempre desapontador. A noção de que a história vai alcançar um ponto final onde o conflito social vai desaparecer e a política chega a um fim tem sido uma fantasia equivocada para a esquerda desde sua gênese. Cenários futuros nunca devem ser pensados como finais, ou mesmo irreversíveis; mais do que considerá-los esquemas para algum destino futuro, seria melhor simplesmente vê-los como mapas indicando possíveis rotas para sair de um labirinto. Uma vez deixado o labirinto, cabe a nós decidir o que fazer em seguida.

Neste ensaio, começarei com a premissa socialista comum de que as deficiências centrais do capitalismo surgem do conflito entre a busca privada pelo lucro de um lado e, a satisfação das necessidades humanas, de outro. Depois, esboçarei algumas das considerações que deveriam ser consideradas em qualquer tentativa de remediar essas deficiências.

Não estou preocupado aqui em alcançar uma harmonia total final entre os interesses particulares e os interesses gerais, ou em expurgar a humanidade de qualquer conflito ou egoísmo. Estou em busca do passo mais curto possível, desta sociedade que temos agora para uma nova sociedade na qual a propriedade mais produtiva seja de propriedade comum – não para radicalizar a mudança, mas simplesmente para mudar.

Não há nada de errado em pensar concreta e praticamente sobre como podemos nos libertar das instituições sociais que impõem tais limites sobre qual o tipo de sociedade somos capazes de ter. Porque podemos ter certeza de uma coisa: ou o sistema atual será substituído ou durará para sempre.

Os radicais respondem ao fim do “socialismo realmente existente” principalmente de duas formas. A maioria deixou completamente de falar sobre um mundo após o capitalismo, recuando para um política modesta de reformismo fragmentário, ou localismo, ou crescimento pessoal.

A outra resposta é exatamente o oposto – uma fuga para uma visão mais pura e intransigente da reconstrução social. Em certos círculos radicais, esse impulso desembocou ultimamente num apelo para um mundo sem estados ou mercados, e assim sem dinheiro, salários, ou preços: um sistema no qual os bens poderão ser livremente produzidos e consumidos, onde a economia poderá ser totalmente governada pela máxima “de cada qual de acordo com suas capacidades, a cada qual de acordo com suas necessidades”.

Toda vez que tais ideias são consideradas, imediatamente o debate parece se focar nas grandes questões filosóficas sobre a natureza humana. Os céticos zombam porque as pessoas são egoístas demais para tal sistema funcionar. Os otimistas argumentam que os humanos são uma espécie naturalmente cooperativa. Evidências estão presentes em ambos os lados dessa argumentação. Mas é melhor deixar tal debate de lado. É mais seguro admitir que os humanos apresentam uma mistura de cooperação e egoísmo, em proporções que mudam de acordo com as circunstâncias.

A sublime visão de um mundo sem estados ou mercados encara obstáculos que não são morais, mas técnicos, e é importante compreender exatamente quais são eles.

Temos que assumir que não queremos regredir a um nível nitidamente inferior de desenvolvimento econômico no futuro; devemos querer experimentar pelo menos os mesmos confortos materiais que temos sob o capitalismo. Em um nível qualitativo, é claro, muitas coisas devem mudar para que a produção satisfaça de melhor maneira as necessidades humanas e ecológicas. Mas não queremos testemunhar um declínio geral de nossa capacidade produtiva.

Mas a forma de produção que somos capazes atualmente requer uma maciça e complexa divisão do trabalho. Isso nos coloca um problema complicado. Para compreender de maneira concreta o que isso significa, pense de que forma os americanos viviam na época da Revolução Americana, quando o cidadão comum trabalhava numa pequena e relativamente isolada fazenda familiar. Tais famílias, em grande parte, produziam o que consumiam e consumiam o que produziam. Caso se deparassem com um modesto excedente agrícola, podiam vendê-lo para outra família das redondezas, e com o dinheiro que ganhassem podiam adquirir alguns luxos. Para a maioria, porém, não havia a necessidade de se apoiar no trabalho de outros para conseguir as coisas das quais precisavam para viver.

Compare essa situação com a nossa. Não apenas dependemos dos outros para conseguir nossos bens, mas o já elevado número de pessoas de quem dependemos tem aumentado em grandes proporções.

Olhe para a sala onde está sentado e pense nas coisas que você tem. Agora tente pensar em quantas pessoas estão diretamente envolvidas na produção dessas coisas. O computador no qual estou digitando, por exemplo, tem um monitor, um gabinete, um player de DVD, e um microprocessador. Cada parte foi feita em um fábrica separada, provavelmente em países diferentes, por várias companhias que empregam centenas ou milhares de trabalhadores. E então pense no plástico, borracha e metal brutos que são utilizados em cada um desses componentes, e em todas as pessoas envolvidas na sua extração. Adicione a indústria energética que alimenta as fábricas, os navios, e os caminhões que levam os computadores até seu destino. Não é difícil imaginar milhões de pessoas participando na produção de apenas alguns itens da minha escrivaninha. E imagine as milhões de tarefas envolvidas, cada uma realizada por um indivíduo com um pequeno rotina de atividades distintas.

Como cada um sabe o que fazer? Bom, é claro que a maioria dessas pessoas são empregados e seus chefes falam o que eles devem fazer. Mas como esses chefes sabem o quanto de plástico eles devem produzir? E como eles sabem mandar o plástico mais fraco para a fábrica de computadores, mesmo que tenham sido capazes de produzir um material mais resistente e de alta qualidade reservado para os produtores de equipamentos hospitalares? E como esses industriais julgam se vale mais a pena gastar mais recursos produzindo computadores com belos monitores LCD, do que serem mais econômicos e produzir os simples e antigos monitores de tubo?

O número total desses dilemas é praticamente infinito em uma moderna economia com milhões de produtos diferentes e bilhões de trabalhadores e consumidores. E todos devem ser resolvidos de forma globalmente consistente, pois em cada momento existem tantos trabalhadores e máquinas envolvidos, que produzir mais de alguma coisa significa fazer menos de outra. Os recursos podem ser combinados em um número praticamente infinito de permutações possíveis; algumas podem satisfazer as necessidades e desejos materiais da sociedade muito bem, enquanto outras podem ser desastrosas, envolvendo enormes quantias de produtos não desejados e muitas coisas desejáveis acabam não sendo feitas. Teoricamente, qualquer grau de sucesso é possível.

Esse é o problema do cálculo econômico. Em uma economia de mercado os preços desempenham essa função. E a razão pela qual os preços podem fazer isso é porque eles carregam informações sistemáticas sobre o quanto uma pessoa está disposta a abrir mão para conseguir uma coisa, dentro de um conjunto de circunstâncias. Apenas exigindo que as pessoas desistam de alguma coisa para ter acesso à outra, em certa medida, pode-se gerar uma informação quantitativa que mostra, em termos relativos, como as pessoas valorizam tais coisas. E apenas por conhecer o quanto de valor relativo as pessoas dão para milhões de diferentes coisas, os produtores participantes dessa vasta rede podem tomar decisões racionais sobre quais serão suas pequenas contribuições neste sistema global.

Nada disso significa que esse cálculo pode ser feito apenas a partir dos preços, ou de que os preços gerados em um mercado são de alguma forma ideais ou ótimos. Mas não existe outra forma de um sistema descentralizado poder continuamente gerar e transmitir tamanha informação quantitativa sem, de alguma forma, o uso dos preços. Não precisamos, é claro, ter um sistema descentralizado. Podemos ter uma economia centralmente planejada, na qual todas ou a maioria das decisões sobre a produtividade da sociedade serão delegadas a planejadores profissionais e seus computadores. A tarefa deles seria extremamente complexa e, seu desempenho, incerto. Mas pelo menos tal sistema poderia fornecer algum método para o cálculo econômico: os planejadores tentariam aglomerar dentro de seus departamentos toda a informação necessária e então descobrir o que cada um deve fazer.

Então alguma coisa precisa realizar a função do cálculo econômico que os preços desempenham em uma economia de mercado e os planejadores em uma economia planejada. Sendo assim, foi feita uma tentativa de dizer exatamente o que seria preciso para o cálculo econômico em um mundo sem estados e mercados. O ativista anarquista Michael Albert e o economista Robin Hahnel conceberam um sistema que chamaram de Economia Participatória na qual cada decisão livremente tomada por algum indivíduo, sobre produção e consumo, poderia ser coordenada por meio de um vasto planejamento societário através de um processo “participatório” sem nenhuma burocracia centralizada.

A Parecon (Participatory Economics), como é chamada, é um exercício interessante por conta de seus propósitos, uma vez que trabalha rigorosamente com o que precisaria existir para que tal economia “anarquista” funcionasse. E a resposta, resumidamente, é a seguinte: No início de cada ano, cada um deve escrever uma lista constando cada item que ele ou ela deseja consumir no decorrer do ano, junto com a quantidade de cada item. Ao escrever essas listas, todos consultam uma relação improvisada de preços de cada produto no mercado (não se esqueça de que na Amazon.com existem mais de dois milhões de itens listados apenas na categoria “Cozinha e culinária”), e o valor total da lista de desejos da pessoa não pode exceder seu “orçamento” pessoal, que é determinado por quanto ele, ou ela, prometem trabalhar durante o ano.

Uma vez que os preços iniciais eram apenas estimativas improvisadas, uma rede de conselhos ‘diretamente democráticos’ deve inserir no computador todas as listas de consumo e compromissos de trabalho, de modo a gerar um conjunto aperfeiçoado de preços que resultará em níveis planejados de produção e consumo (oferta e demanda) próximos ao equilíbrio. Depois, então, tal lista aperfeiçoada é publicada, o que dá início a uma segunda “iteração” do processo: agora todos devem reescrever novamente suas listas de consumo e compromissos de trabalho, de acordo com os novos preços. Todo o procedimento é repetido várias vezes até oferta e demanda estarem finalmente equilibradas. Eventualmente, todos votam para escolher entre alguns planos possíveis.

Em seus discursos e escritos, Albert e Hahnel narram esse interessante processo para mostrar o quão atrativo e plausível seu sistema pode ser. Mas, para muitas pessoas – dentre as quais me incluo – o efeito é exatamente oposto. Ao contrário de uma demonstração precisa de como poderia ser o cálculo econômico na ausência de mercados ou estados tal descrição indica que, se não impossível em teoria, seu funcionamento fica, pelo menos, impossível de imaginar. E a Parecon é, em si mesma, uma concessão ao ponto de vista purista, uma vez que viola o princípio “de cada qual de acordo com sua capacidade, a cada qual de acordo com sua necessidade” – não seria permitido que o consumo individual requisitado excedesse seu compromisso de trabalho. Mas sem essa estipulação, é claro, os planos não avançariam de forma alguma.

A questão não é que uma economia de larga escala sem estado e sem mercado “não funcionaria”. Na ausência de algum mecanismo coordenador, como o de Albert e Hahnel, ela sequer existiria. Portanto, o problema do cálculo econômico é algo que temos que levar muito a sério se queremos contemplar algo melhor do que o status quo.

Mas e sobre a outra alternativa? Por que não uma economia centralmente planejada onde a função do cálculo econômico fica por conta dos experts acumuladores de informação – democraticamente responsáveis, esperamos. Temos, na verdade, exemplos históricos desse tipo de sistema, apensar de estarem, é claro, longe de serem democráticos. Economias centralmente planejadas alcançaram algumas realizações: quando o comunismo chegou ao países pobres e rurais, como a Bulgária ou Romênia, eles foram capazes de se industrializar rapidamente, eliminar o analfabetismo, elevar os níveis educacionais, modernizar as relações de gênero, e eventualmente garantir que a maioria da população tenham habitações básicas e assistência médica. Esse sistema também pode aumentar a produção per capita bastante rápido, para se dizer, do nível de um atual Laos para uma atual Bósnia; ou do nível do Yemen ao do Egito.

Mas, para além dessas conquistas, o sistema enfrentou problemas. Aqui, uma nota introdutória se faz necessária: Uma vez que a direita neoliberal tem o hábito de medir o sucesso de uma sociedade por meio da abundância de seus bens de consumo, a esquerda radical tem a tendência a adotar uma postura na qual nega que esse tipo de coisa tenha alguma relevância política. Isso é um erro. O problema com as prateleiras do supermercado cheias é de que elas não são o bastante – não que sejam indesejadas ou triviais. Os cidadãos dos países comunistas encaravam a escassez, a baixa qualidade e a uniformidade das mercadorias não como meros inconvenientes, mas como violações de seus direitos básicos. Como um antropólogo da Hungria Comunista escreveu, “mercadorias de uma produção estatal-socialista... passaram a ser vistas como evidencias da falência da modernidade estatal-socialista e, mais do que isso, da negligencia do regime e até do tratamento ‘inumano’ de seus cidadãos”.

O desleixo com a oferta de suprimentos, na verdade, era popularmente sentido como uma traição da própria missão humanista do socialismo. Um historiador da Alemanha Oriental cita as petições que os consumidores comuns enviavam ao estado: “Realmente não está no espírito do ser humano, enquanto o centro da sociedade socialista, quando tenho que economizar por anos para comprar um Trabant e então não poder usar meu carro por mais de um ano porque faltam peças de reposição no mercado!”, desabafou. Outro escreveu: “Quando leio na imprensa socialista ‘máxima satisfação para os anseios do povo e assim por diante’ e... ‘tudo em benefício do povo’, chego a me sentir enjoado”. Em diferentes países e linguagens através da Europa, cidadãos usaram praticamente as mesmas expressões para evocar a imagem das mercadorias de baixa qualidade que eram “empurradas” para eles.

Dentre os itens que várias vezes estiveram indisponíveis na Hungria por conta do mau planejamento estavam “o utensílio de cozinha usado para fazer o macarrão húngaro”, “tampas de ralo que se encaixavam nas tubulações em estoque; e a caixa de metal necessária para a fiação elétrica nos novos prédios de apartamentos”. Como foi observado por um editorial de jornal na década de 60, essas coisas “não parecem ter importância até o momento em que alguém precisa delas, e de repente elas se tornam muito importantes!”.

E em um nível geral, as melhores estimativas mostram os países comunistas constantemente desabando por detrás da Europa Ocidental: a renda per capita da Alemanha Oriental, que era ligeiramente superior que a das regiões da Alemanha Ocidental antes da Segunda Guerra Mundial, nunca conseguiu se recuperar em termos relativos no pós-guerra e continuamente perdeu fôlego de 1960 em diante. No fim dos anos 80 ela representava menos do que 40% do nível de desenvolvimento da Alemanha Ocidental.

Diferentemente de uma economia imaginária sem estados ou mercados, as economias comunistas tinhamum mecanismo de cálculo econômico. Ele apenas não funcionou como se esperava. Qual foi o problema?

Para a maioria dos economistas ocidentais, a resposta é simples: o mecanismo era muito desajeitado. Nesta narrativa, o problema tem a ver com a “mão invisível”, a expressão que Adam Smith usou apenas de passagem, mas que comandou os escritores posteriores à reinterpretação do papel dos preços, oferta, e demanda na distribuição dos recursos. Smith tinha originalmente invocado o sistema de preços para explicar porque as economias de mercado exibiam uma aparente ordem, ao invés do caos – porque, por exemplo, qualquer mercadoria desejada poderia geralmente ser encontrada à venda, mesmo que nenhuma autoridade central tenha vislumbrado a necessidade dela ser produzida.

Mas no fim do Século XIX, as ideias de Smith foram formalizadas pelos fundadores da economia neoclássica, uma tradição cujas ambições explicativas eram muito maiores. Eles escreveram equações representando compradores e vendedores como vetores de oferta e demanda: quando a oferta excedia a demanda em algum mercado específico, o preço caía; quando a demanda excedia a oferta, ele subia. E quando oferta e demanda se igualavam, o mercado em questão era considerado em “equilíbrio” e os preços eram considerados “preços equilibrados”.

Para a economia como um todo, com seus incontáveis e interligados mercados, as coisas não eram bem assim até 1954 quando os futuros vencedores do Prêmio, Nobel Kenneth Arrow e Gérard Debreu, desenvolveram o que então foi celebrada como a memorável descoberta da teoria do “equilíbrio geral” – um achado que, nas palavras de James Tobin, “repousa exatamente sobre o núcleo da base científica da teoria econômica”. Eles provaram matematicamente que, sob certas premissas específicas, livres mercados eram capazes de gerar um conjunto de potenciais preços equilibrados que poderiam balancear oferta e demanda em todos os mercados simultaneamente – e a alocação resultante de recursos seria, em um termo importante, “ótima”: ninguém poderia fazer melhor sem piorar alguma coisa para alguém.

A moral que pode ser extraída dessa descoberta era de que os preços não eram simples ferramentas de mercado que as economias usavam para criar certo grau de ordem e racionalidade. Em vez disso, os preços que eram gerados pelos mercados – se tais mercados fossem livres e desimpedidos – eram ótimos, e resultavam numa alocação de recursos de eficiência maximizada. Se os sistemas comunistas não estavam funcionando, então, era porque o estranho e falível mecanismo de planejamento não podia alcançar essa solução otimizada.

Essa narrativa repercutiu nos instintos mais profundos da profissão econômica. As historinhas dos manuais de economia explicando porque o salário mínimo ou o controle sobre a renda acabam por tornar as coisas piores para todos são destinadas a mostrar que a oferta e a demanda ditam os preços a partir de uma lógica superior, desafiada pelos mortais por sua própria conta e risco. Essas histórias são análises de “equilíbrio parcial” – elas apenas mostram o que acontece em um mercado particular, artificialmente separado daqueles outros mercados que o cercam. O que Arrow e Debreu forneceram, acreditavam os economistas, era uma prova de que essa lógica se estende para a economia como um todo, com todos seus mercados interligados: uma teoria do equilíbrio geral. Em outras palavras, era uma prova de que no fim, os preços do livre mercado orientarão o conjunto da economia para seu ponto ótimo.

Assim, quando os economistas ocidentais desembarcaram no antigo bloco soviético após 1989 para ajudar na transição pós-socialista, seu principal mantra, repetido à exaustão, era “Corrijam os preços”.

Mas um grande volume de evidencias contrárias foi acumulada nesse meio tempo. Na época do colapso soviético, o economista Peter Murrell publicou um artigo no Journal of Economic Perspectives analisando os estudos empíricos sobre a eficiência nas economias planificadas soviéticas. Tais estudos falharam consistentemente em dar apoio à análise neoclássica: praticamente todos descobriram que, pelo padrão neoclássico de mensuração de eficiência, as economias planificadas se saíram tão bem ou ainda melhor que as economias de mercado.

Murrell implorou que seus leitores deixassem seus preconceitos de lado:

A uniformidade e o conteúdo dos resultados irão surpreender muitos leitores. Eu estava, e estou, surpreso com a natureza destes resultados. Dado sua inconsistência com as doutrinas em questão, existe uma tendência de descartá-los sob motivos metodológicos. Entretanto, tal descarte se torna cada vez mais difícil quando encaramos um acúmulo de resultados consistentes de uma variedade de fontes.

Primeiro ele reavaliou dezoito estudos sobre eficiência técnica: o grau de produção de uma empresa a partir de seu nível máximo de tecnologia. Casando estudos sobre empresas centralmente planejadas com estudos sobre empresas capitalistas, e a partir da mesma metodologia, ele comparou os resultados. Um artigo, por exemplo, apontava um nível de 90% de eficiência em empresas capitalistas; outro, usando o mesmo método, encontrou um nível de 93% em empresas soviéticas. Os resultados continuaram da mesma forma: 84% versus 86%, 87% versus 95%, e assim por diante.

Então Murrell examinou os estudos sobre eficiência alocativa: o grau em que investimentos são alocados entre as firmas de modo a maximizar a produção total. Um artigo descobriu que uma realocação totalmente otimizada dos investimentos poderia aumentar a produção soviética total apenas em 3% ou 4%. Outro descobriu que aumentando a eficiência soviética até o padrão dos EUA o resultado seria um incremento máximo de 2% da produção total. Um terceiro estudo produziu uma série de estimativas em torno de 1,5%. O maior número encontrado em qualquer estudo sobre a economia soviética foi 10%. Como Murrell notou, tais resultado dificilmente corroborariam “o encorajamento para a derrubada de todo um sistema socioeconômico”. (Murrell não foi o único economista a noticiar essa anomalia: um artigo intitulado “Por que a economia soviética é tão eficiente alocativamente?” apareceu na publicação Soviet Studies mais ou menos no mesmo período.)

Dois microeconomistas alemães testaram a hipótese “amplamente aceita” de que “os preços em uma economia planificada são conjuntos de razões de troca arbitrários sem nenhuma relação com a escassez relativa ou valorações econômicas, [ao passo que] os preços dos mercados capitalistas estão próximos aos níveis de equilíbrio”. Eles empregaram uma técnica que analisa a distribuição dos investimentos de uma economia entre as indústrias a fim de mensurar o quão esse padrão foge do que seria esperado em uma economia com os preços neoclássicos perfeitamente otimizados. Examinando dados das Alemanhas Oriental e Ocidental de 1987, eles chegaram a um “resultado espantoso”: a divergência era de 16,1% na Ocidental e 16,5% na Oriental, uma diferença banal. A diferença em favor do Ocidente, escreveram, era maior nos setores da manufatura, onde deveria existir algo como condições competitivas. Mas na maior parte da economia da Alemanha Ocidental – que então vinha sendo mundialmente celebrada como Modell Deutschland – monopólios, taxas, subsídios e tudo mais, deixaram, na verdade, sua estrutura de preços tão distantes da “eficiência” ótima quanto estava o moribundo sistema comunista atrás do Muro de Berlim.

O modelo neoclássico também foi desmistificado pelos numerosos experimentos que falharam com versões mais mercantilizadas do socialismo no Leste Europeu. A partir de meados da década de 1950, intelectuais e economistas reformistas da região pressionaram a introdução de mecanismos de mercado a fim de racionalizar a produção. Reformas foram tentadas em países com vários graus de seriedade, incluindo a abortiva Primavera de Praga. Mas o país que foi mais longe nessas experiências foi a Hungria, que inaugurou seus “novos mecanismos econômicos” em 1968. As empresas ainda eram controladas pelo estado, mas era esperado que elas comprassem e vendessem no mercado aberto e maximizassem seus lucros. Os resultados foram desapontadores. Ainda que nos anos 1970 a fraca economia de consumo húngara tenha sido apelidada pelos correspondentes internacionais de “os quartéis mais felizes do bloco soviético”, seu deprimente crescimento de produtividade não deslanchou e a escassez permaneceu sendo comum.

Se todos esses fatos e descobertas representam um motivo para duvidar da narrativa neoclássica, existe outro motivo ainda mais fundamental: os economistas descobriram buracos em sua própria teoria. Nos anos seguintes à elaboração por Arrow e Debreu de sua famosa prova de que livres mercados sob as condições certas poderiam gerar preços ótimos, teóricos (incluindo o próprio Debreu) revelaram algumas características preocupantes do modelo. Descobriu-se que tais economias hipotéticas geravam múltiplos esquemas de preços equilibrados possíveis, e não havia nenhum mecanismo que poderia garantir que uma economia que se assentasse sobre determinado esquema não passasse por longos ou infinitos caóticos ciclos de tentativa e erro. Ou pior, os resultados dos modelos não podiam suportar muito relaxamento em relação a seus pressupostos iniciais, nitidamente irrealistas; por exemplo, sem os mercados perfeitamente competitivos – que são virtualmente inexistentes no mundo real – não havia motivo para se esperar equilíbrio algum.

Mesmo o refrão liberal de que as intervenções do governo se justificam pelas “falhas no mercado” – anomalias específicas oriundas dos pressupostos presentes no modelo Arrow-Debreu – perdeu o compasso por conta de outra descoberta nos anos 1950: a “teoria geral do segundo melhor”. Introduzido por Richard Lipsey e Kelvin Lancaster, o teorema prova que mesmo se forem aceitos os pressupostos idealizados do modelo padrão, tentativas de corrigir as “falhas do mercado” e as “distorções” (como tarifas, controle de preços, monopólios ou fatores externos) provavelmente tornariam as coisas piores do que melhores, enquanto todas as outras falhas de mercado permanecem sem correção – que sempre será o caso em um mundo de endêmica competição imperfeita e informação limitada.

Numa ampla revisão da “falência da teoria do equilíbrio geral”, o economista Frank Ackerman [1] concluiu:

A história sobre Adam Smith, a mão invisível, e os méritos dos mercados, impregnam os livros-texto introdutórios, o ensino nas salas de aula, e o discurso político contemporâneo. O fundamento intelectual dessa história repousa no equilíbrio geral... Se o fundamento da história econômica preferida de todos está sabidamente doentio... então os economistas devem alguma explicação ao mundo.

A questão é: se uma história determinística sobre livres mercados gerando preços ótimos, levando a uma maximização dos resultados, não é mais viável, então a falência das economias planificadas dificilmente pode ser atribuída a esses fatores. À medida que os sistemas comunistas entravam em colapso no Leste Europeu, os economistas que haviam perdido a fé na narrativa neoclássica começaram a argumentar que uma explicação alternativa era necessária. O principal teórico desse grupo foi Joseph Stiglitz, que ficou famoso por seu trabalho sobre a economia da informação. Seus argumentos se articularam com outros dissidentes da abordagem neoclássica, como o eminente professor de economias planificadas húngaro, János Kornai, e economistas evolucionários como Peter Murrell.

Todos eles indicam certo número de características, amplamente ignoradas pela escola neoclássica, que se encaixam melhor à capacidade das economias de mercado para evitar os problemas que assolam os sistemas centralmente planejados. Os aspectos por eles enfatizados diferem entre si, mas todos tendem a surgir de um fato bastante simples: nos sistemas de mercado, as empresas são autônomas.

Isso significa que dentro dos limites da lei; uma empresa pode entrar no mercado, escolher seus produtos e métodos de produção, interagir com outras empresas e indivíduos, e deve fechar se não conseguir se manter com recursos próprios. Como um manual de economia planificada indica, em sistemas de mercado o pressuposto é “que uma atividade pode ser exercida a menos que seja expressamente proibida”, ao passo que nos sistemas planificados “o pressuposto corrente na maioria das esferas da vida econômica é de que uma atividade não deve ser exercida a menos que uma permissão da autoridade competente tenha sido obtida”. A fixação neoclássica com a garantia de que as empresas exerçam sua autonomia em um ambiente de laissez-faire – que as restrições às trocas voluntárias sejam minimizadas ou eliminadas – fica basicamente fora de questão.

Assim, a livre entrada e as múltiplas fontes autônomas de capital significam que qualquer um com novas ideias de produção pode buscar recursos para pôr em prática suas propostas sem encarar nenhum veto por parte do aparato planejador. Como resultado, elas têm uma chance muito maior de obter recursos para testar suas ideias. Isso provavelmente leva a um maior desperdício, inerente aos experimentos que falham – mas também a uma grande ampliação do aperfeiçoamento dos produtos e processos, e um aumento constante do desenvolvimento tecnológico e crescimento econômico.

A autonomia empresarial para escolher os produtos e métodos de produção significa que eles podem se comunicar diretamente com seus consumidores e adequar seus resultados às suas necessidades – e com o livre acesso, os consumidores podem escolher entre a mercadoria de diferentes produtores: nenhuma agência é necessária para dizer o que precisa ser produzido. Para ilustrar a relativa eficiência informacional desse tipo de sistema, Stiglitz citou um contrato do Departamento de Defesa para a produção de camisetas brancas lisas: na proposta de licitação, a descrição física das camisetas desejadas se entendeu por trinta páginas. Em outras palavras, uma agencia centralizada jamais poderia estudar e depois especificar cada característica desejada de cada produto.

Enquanto isso, economistas do Leste Europeu perceberam que uma precondição essencial para as empresas serem verdadeiramente autônomas era a existência de um mercado de capital – e isso ajudava a explicar o insucesso das reformas orientadas pelo mercado na Hungria. Na busca de uma explicação para a persistência da escassez sob o novo sistema de mercado, o economista húngaro János Kornai tinha identificado um fenômeno que ele chamou de “leve restrição orçamentária” – uma situação na qual o estado continuamente transfere recursos para empresas deficitárias a fim de evitar sua falência. Tal fenômeno, argumentou, era o que estava por trás do problema da escassez na Hungria: na esperança de sempre serem salvas, as empresas operavam praticamente sem restrições orçamentárias, e assim praticavam ilimitadas demandas por bens materiais e de capital, causando crônicos gargalos produtivos.

Mas por que o estado continuava resgatando essas empresas com problemas? Não era, a princípio, porque as autoridades húngaras se opunham à quebra das empresas. Na verdade, quando as quebras aconteciam, a liderança comunista as tratavam como assuntos públicos, para demonstrar seu comprometimento com um sistema econômico racional.

A resposta definitiva era a ausência de um mercado de capital. Em uma economia de mercado, uma empresa com problemas pode vender parte de suas operações para outra firma. Ou poderia captar capital de credores ou investidores, se pudesse convencê-los do potencial para melhorar seu desempenho. Mas na ausência de um mercado de capital, as únicas opções práticas eram a bancarrota ou o salvamento por meio de bailouts. Constantes bailouts eram o preço que a autoridade húngara era forçada a pagar para evitar altas e dispendiosas taxas de falências empresariais. Resumindo, mercados de capital proporcionam um modo racional de lidar com a turbulência causada pelas duras restrições orçamentárias nos sistemas de mercado: quando uma firma precisa gastar mais do que arrecada, ela pode apelar para empréstimos ou investidores. Sem um mercado de capital, essas opções ficam excluídas.

À medida que a resistência ao comunismo crescia, aqueles no Leste Europeu que queriam evitar o retorno do capitalismo aprenderam boas lições. Em 1989, os dissidentes economistas reformistas poloneses Wlodzmierz Brus e Kazimierz Laski – ambos socialistas convictos e discípulos do renomado marxista-keynesiano Michal Kalecki – publicaram um livro examinando as previsões para a reforma do Leste Europeu. Os dois tinham sido influentes defensores das reformas democráticas e dos mecanismos econômicos socialistas desde os anos 1950.

A conclusão a que chegaram era que para ter um mercado socialista racional, empresas de propriedade pública deveriam ser criadas autonomamente – e isso exigiria um mercado de capital socializado. Os autores deixaram claro que isso deveria levar a um reordenamento fundamental da política econômica dos sistemas do Leste – e, de fato, das tradicionais noções de socialismo. Escrevendo às vésperas das agitações que derrubariam o comunismo, eles expuseram sua visão: “o papel da propriedade estatal deveria estar separado do estado enquanto autoridade investida da administração.... Empresas... têm que se afastar não apenas do estado em sua função mais ampla, mas também uma das outras”.

A noção esboçada por Brus e Laski era inovadora: uma constelação de empresas autônomas, financiadas por uma multiplicidade de bancos ou fundos de investimento autônomos, todas competindo e interagindo em um mercado – ainda que todas de propriedade pública.

Tudo isso serve de subsidio para se levantar a questão crítica sobre o lucro.

Existem dois modos para se pensar sobre a função dos lucros no capitalismo. Na concepção marxista, a busca incansável dos capitalistas por lucro dá ritmo e forma ao crescimento econômico, fazendo dele o definitivo “motor do sistema” – mas é tido como um motor errático e arbitrário, que deveria ser substituído por algo mais racional e humano. Na corrente econômica dominante, por outro lado, os lucros são entendidos simplesmente como um sinal benigno, transmitindo informações para as empresas e empreendedores sobre como satisfazer as necessidades da sociedade de maneira mais eficiente.

Cada uma dessas versões contem algo de verdadeiro. Observe a descrição da vertente dominante. Sua lógica é simples e direta: o lucro de uma empresa é o valor de mercado dos produtos que ela vende menos o valor de mercado dos insumos que ela compra. Então a busca pelo lucro leva a empresa a maximizar sua produção das mercadorias socialmente desejadas ao passo que economiza no uso das matérias primas escassas.

Mas essa lógica só se sustenta à medida que o valor de mercado de um item seja, na verdade, uma boa medida de seu valor social. Essa premissa é valida? Os esquerdistas sabem o suficiente para zombar dessa ideia. A história do capitalismo é um compêndio de mercadorias com preços mal estimados. Os capitalistas não são apenas dotados de uma riqueza de truques e manobras para inflacionar o valor de mercado dos produtos que vendem (através da propaganda, por exemplo) e depreciar o valor dos insumos que têm de comprar (trabalho de baixa qualificação, por exemplo). Mas o capitalismo em si produz, sistematicamente, preços para bens cruciais que guardam pouca relação racional com seu valor social marginal: pense nos planos de saúde, recursos naturais, taxas de juros, salários.

Então, se o lucro é um sinal, invariavelmente vem misturado com muito ruído. Mas ainda assim, existe um importante sinal ali. A maioria das mercadorias na economia não são como os planos de saúde ou os recursos naturais; elas são mais banais – como clipes de papel, chapas de metal, ou TVs de tela plana. Os preços relativos dessas mercadorias parecem funcionar como guias razoáveis para seu relativo valor social marginal. Quando eles se referem a esta porção dos insumos e produtos das empresas – digamos, uma companhia siderúrgica que compra ferro e o vende na forma de aço – a busca pelo lucro verdadeiramente faz com que os capitalistas queiram produzir coisas que as pessoas desejam da forma mais eficiente possível. São aqueles bens com valor mal estimados – trabalho, recursos naturais, informação, finanças, risco, e outros – que produzem a irracionalidade do lucro.

Em outras palavras, sob o capitalismo, as empresas podem aumentar seus lucros pela produção eficiente do que as pessoas querem. Mas elas também podem aumentá-los empobrecendo seus trabalhadores, pilhando o meio ambiente, enganando seus consumidores, ou endividando a população.

A resposta padrão para esse dilema é o que podemos chamar de solução social-democrata: deixe que as empresas busquem seus lucros privados, mas use a intervenção estatal para impedir que elas façam isso de forma nociva à sociedade. Banir a poluição, garantir direitos aos trabalhadores, defender o consumidor contra fraudes, combater a especulação. Essa agenda não é nada desprezível. O teórico social Karl Polanyi viu isso como parte do que chamou de um longo “duplo movimento” que está em andamento desde o início da revolução industrial. Polanyi argumenta que o capitalismo liberal sempre teve uma tendência de transformar tudo em mercadoria. Pela necessidade de a produção ser “organizada através de um mecanismo autorregulatório de trocas”, ela demanda que “homem e natureza devam ser trazidos à sua órbita; eles devem se sujeitar à oferta e demanda, isso é, serem tratados como mercadorias, como bens produzidos para serem postos à venda”.

Mas essa tendência mercantilizante sempre produziu seu oposto dialético, um contramovimento a partir da sociedade, buscando a desmercantilização. Assim, o duplo movimento de Polanyi era “a ação de dois princípios organizadores na sociedade, cada um deles impondo a si mesmo objetivos institucionais específicos, tendo o apoio de forças sociais definidas e utilizando distintos métodos próprios”:

Um era o princípio do liberalismo econômico, mirando o estabelecimento de um mercado autorregulatório, contando com o apoio das classes comerciais, e ostensivamente usando como métodos o laissez-faire e o livre mercado; e o outro era o princípio da proteção social, que busca a conservação do homem, da natureza e também da organização produtiva, contando com o apoio daqueles que são afetados de forma mais imediata pela ação deletéria do mercado – primeiramente, mas não de forma exclusiva, as classes trabalhadoras e campesinas – e usando legislação protetiva, associações restritivas, e outros instrumentos de intervenção como métodos.

Depois da Segunda Guerra, a pressão desse contramovimento fez da desmercantilização o motor implícito das políticas domésticas por todo o mundo industrializado. Partidos da classe trabalhadora, fortemente vulneráveis à pressão das camadas inferiores, estiveram no governo por mais de 40% do tempo nas décadas do pós-guerra – comparado com cerca de 10% no entreguerras, e quase nunca antes disso – e o “contágio da esquerda” forçou os partidos de direita a um consentimento defensivo. Educação, saúde, habitação, previdência, lazer, assistência à infância, a própria subsistência, e o mais importante, o trabalho assalariado: essas questões foram gradualmente removidas do âmbito de influência do mercado, transformados de bens que requerem dinheiro, ou artigos que são vendidos e comprados na base da oferta e demanda, em direitos sociais e objetos da decisão democrática.

Isso, pelo menos, era o programa social-democrata máximo – e em certos períodos e lugares no pós-guerra foram conquistas dramáticas.

Mas a solução social-democrata é instável – e é aí que entra a concepção marxista, com sua ênfase na busca do lucro como o motor do sistema capitalista.

Existe uma contradição fundamental entre aceitar que a busca pelo lucro do capitalista seja o motor do sistema, e acreditar que você pode sistematicamente domar e reprimi-la através de políticas públicas e regulações. Na descrição marxista clássica, a contradição é diretamente econômica: políticas que reduzem as taxas de lucro de forma demasiada levarão à queda do investimento e a uma crise econômica. Mas a contradição também pode ser política: os capitalistas sedentos por lucro usarão seu poder social para obstruir as políticas necessárias. Como você pode ter um sistema orientado por indivíduos que maximizam seu fluxo de caixa e ainda esperar sustentar normas, regras, leis e regulações reprimidoras do lucro necessárias para a manutenção do bem-estar coletivo?

O que se precisa é de uma estrutura que permita que empresas autônomas produzam e comercializem mercadorias para o mercado, visando gerar um superávit do resultado sobre a origem – ao passo que tais empresas sejam mantidas públicas e evitando que seu ganho seja apropriado por uma pequena classe de capitalistas. Sob tal tipo de sistema, os trabalhadores podem assumir qualquer grau de controle que desejem sobre a gestão das empresas, e que qualquer “lucro” possa ser socializado – isso é, ele pode verdadeiramente funcionar como um indicador, ao invés de uma força motriz. Mas a precondição de tal sistema é a socialização dos meios de produção – estruturados de forma a preservar a existência de um mercado de capitais. Como tudo isso pode ser feito?

Comece com o básico. O controle privado sobre a infraestrutura produtiva da sociedade é definitivamente um fenômeno financeiro. É pelo financiamento dos meios de produção que os capitalistas exercem seu controle, como uma classe ou indivíduos. O que seria preciso, então, é de uma socialização das finanças – ou seja, um sistema comum e coletivo de financiamento dos meios de produção e de crédito. Mas, o que isso significa na prática?

Pode-se dizer que as pessoas possuem dois tipos de ativos. Ativos “pessoais” incluem casas, carros ou computadores. Mas os ativos financeiros – posses sobre fluxos monetários, como ações, títulos, e fundos mútuos – são o que financiam a infraestrutura produtiva. Suponha que um fundo comum público tenha sido estabelecido, para realizar o que podemos eufemisticamente chamar de “compra compulsória” de todos os ativos financeiros de posses privadas. Ele poderia, por exemplo, “comprar” a participação de alguém em um fundo mútuo à preço de mercado, depositando o pagamento na conta bancária dessa pessoa. No fim desse processo, o fundo comum pode possuir todos os antigos ativos financeiros particulares, ao passo que toda a riqueza dos indivíduos teria sido convertida em depósitos bancários (mas com esses bancos sendo agora de propriedade comum, uma vez que o fundo comum possui todas as cotas de participação).

Ninguém perdeu nenhum valor; eles simplesmente venderam suas ações e títulos. Mas as consequências são de grande alcance. Os meios de produção e os créditos da sociedade constituem agora os ativos de um fundo público, enquanto os saldos dos indivíduos são agora passivos. Em outras palavras, o trabalho de intermediação entre as poupanças dos indivíduos e os ativos produtivos físicos da sociedade que costumava ser feita por bancos capitalistas, fundos mútuos, e assim por diante, foram socializados. O fundo comum pode agora restabelecer um mercado de capital “domado”, de base social, com uma multiplicidade de bancos socializados e fundos de investimento possuindo e alocando capital entre os meios de produção.

O exemplo aqui é que a transformação para um sistema diferente não precisa ser catastrófica. A situação que estou descrevendo, é claro, poderia ser revolucionária – mas ela não precisaria envolver um total colapso da antiga sociedade e a conjuração prometeica de algo completamente irreconhecível.

Ao fim do processo, as empresas não teriam mais donos individuais que buscam maximizar seus lucros. Ao invés disso, elas seriam propriedade da sociedade como um todo, da mesma forma que qualquer excedente (“lucros”) que elas possam gerar. Uma vez que as empresas ainda comprariam e venderiam no mercado, elas continuariam gerando excedentes (ou déficits) que podem ser usados para avaliar sua eficiência. Mas nenhum dono individual embolsaria, de fato, esses excedentes, fazendo que ninguém tenha interesses particulares em perpetuar ou explorar a falsa valorização de mercadorias que é endêmica ao capitalismo. A “solução social-democrata” que anteriormente era uma contradição – frustrando seletivamente a motivação-lucro para manter o bem comum, enquanto sistematicamente dependia dela como mecanismo do sistema – poderia então ser reconciliada.

Para o mesmo fim, os rendimentos das poupanças individuais poderiam ser fixados à determinado limite de renda, e para além desse nível, poderiam simplesmente compensar a inflação. (Ou o excedente social poderia ser dividido igualmente entre todos e ser simplesmente pago na forma de um dividendo social.) Isso poderia significar não exatamente a eutanásia do rentista, mas do “interesse” rentista na sociedade. E, ao passo que os indivíduos ainda poderiam ser livres para começar um negócio, e uma vez que suas empresas alcançassem certo tamanho, idade e importância, eles poderiam “virar públicas”: ser vendidas por seus donos num mercado socializado de capital.

O que estou descrevendo, em certo sentido, é o ápice de uma tendência que vem ocorrendo no capitalismo há séculos: a crescente separação entre propriedade e controle. Já em meados do Século XIX, Marx maravilhou-se com a proliferação do que agora chamamos de corporações: “Sociedades anônimas em geral – desenvolvidas a partir do sistema de crédito – fortaleceram a tendência de separar esse trabalho de gerência enquanto função da propriedade do capital, seja ele de posse própria ou emprestado. Da mesma forma como a sociedade burguesa testemunhou a separação das funções de juiz e administrador da posse fundiária, atributos estes da era feudal”. Marx viu grande significado nesse desenvolvimento: “É a abolição do capital como propriedade privada no próprio quadro da produção capitalista.”

Na década de 1930 essa “propriedade privada socializada” se tornou a forma dominante de produção no capitalismo americano, como Adolf Berle e Gardiner Means indicaram em The Modern Corporation and Private Propoerty. O modelo administrativo-corporativo pareceu enfrentar um desafio nos anos 1980 quando os proprietários capitalistas, insatisfeitos com as minguadas taxas de lucro, lançaram uma ofensiva contra o que eles identificaram como frouxos e complacentes gestores corporativos. Essa rixa titânica intra-classe pelo controle das corporações durou mais do que uma década. Mas no fim dos anos 1990, o resultado foi um compromisso auto-interessado dos dois lados: os CEOs mantiveram sua autonomia em relação ao mercado financeiro, mas abraçaram a ideologia da “valorização do acionista”; seus pacotes de ação eram construídos de forma mais sensível ao lucro da empresa e do desempenho no mercado de ações, mas também massivamente inflacionados. Na verdade, nenhum desses tecnicismos resolveu o problema da separação entre propriedade e controle, uma vez que novos esquemas de pagamento nunca chegaram realmente perto de conciliar os interesses pecuniários dos gestores e dos proprietários. Um estudo abrangente sobre a remuneração dos executivos de 1936 até 2005 feito pelo MIT e por economistas do Federal Reserve descobriu que a correlação entre o desempenho das empresas e a remuneração total de seus executivos era insignificante – não apenas na época do gerencialismo da metade do século, mas através de todo o período.

Em outras palavras, o laboratório capitalista vem realizando, por séculos, experimentos para testar se um sistema econômico pode funcionar quando ele rompe o link direto entre os lucros de uma empresa e a remuneração destinada a seus controladores. O experimento foi um sucesso. No capitalismo contemporâneo, com sua radical separação entre propriedade e controle, não faltam exemplos de defeitos e patologias, mas a falta de atenção ao lucro não foi um deles.

Como tais empresas socializadas devem ser governadas? Uma resposta completa para essa questão escapa em muito o escopo de um artigo como este; descrever minuciosamente os estatutos e regimentos de empresas imaginárias é exatamente a espécie de livro de receitas comtista que Marx acertadamente ridicularizou. Mas a questão básica está suficientemente clara: uma vez que essas empresas compram e vendem no mercado, seus desempenhos podem ser racionalmente avaliados. Uma empresa pode ser completamente controlada por seus trabalhadores, caso no qual eles poderiam simplesmente recolher todo seu rendimento, depois de pagar pelo uso do capital [2]. Ou ela pode ser “possuída” por uma entidade no mercado de capital socializado, com uma administração escolhida por essa entidade e um forte sistema de co-determinação por parte dos trabalhadores para contrabalanceá-la no interior da empresa. Esses gestores e “donos” podem ser avaliados pelos retornos relativos que a empresa gera, mas eles não têm nenhum direito de propriedade privada sobre a massa absoluta de lucros [3]. Se as expetativas do desempenho futuro precisem ser de alguma forma “objetivamente” julgadas, isso seria algo que o mercado de capital socializado pode fazer.

Tal programa não constitui uma utopia; ele não proclama o Ano Zero ou trata a sociedade como uma lousa em branco. O que ele tenta é esboçar um mecanismo econômico racional que negue a busca do lucro como prioridade acima das realizações das necessidades humanas. E nem descarta outras mudanças, mais básicas, na forma com os humanos interagem entre si e com o meio ambiente – ao contrário, ele minimiza as barreiras para novas mudanças.

Em tributo à Isaac Deutscher, a historiadora Ellen Meiksins Wood louvou sua “visão equilibrada do socialismo, que reconhece seu compromisso com a emancipação humana sem alimentar as ilusões românticas de que ele poderia curar todas as mazelas humanas, milagrosamente tornando as pessoas ‘livres’, nas palavras de Shelley, ‘da culpa ou sofrimento’”. O socialismo, escreveu Deutscher, não era o “produto final e perfeito da evolução ou o fim da história, mas apenas o começo da história”. Enquanto a esquerda puder conservar essa base elementar de esperança, ela poderá manter em vista um horizonte para além do capitalismo.

Notas:

[1] Nenhum parentesco.

[2] A economia das empresas geridas por trabalhadores é um tópico imenso que levanta uma série de questões institucionais complexas que fogem ao escopo deste artigo. (Ver Governing the Firm de Gregory Dow para uma abordagem abrangente do tema.) Mas em relação à política, o importante a ser notado é que com tais empresas não existiria mais o conflito sistêmico entre um capitalista autônomo ou uma classe gerencial e a massa da população. Existem ainda, é claro, interesses setoriais conflitantes. Mas eles existem independente do modelo de propriedade em questão. Além disso, penso que exista uma boa razão para acreditar que a influência de interesses setoriais paroquiais sobre a política é maior quando existe uma classe capitalista autônoma do que quando ela não existe, uma vez que essa classe tem um interesse intrínseco na manutenção da permeabilidade do estado às minorias auto-interessadas em geral.

[3] Não é preciso assumir que os gerentes devem necessariamente obter recompensas pecuniárias para melhorar seu desempenho. Mas usar essa premissa torna possível uma simples exemplificação matemática de como os gestores podem ser avaliados em relação aos lucros relativos, e não absolutos. Suponha que no início de cada ano as autoridades decidam sobre determinada fração da renda nacional para ser utilizada no pagamento de bônus gerenciais ao fim do ano. O número pode variar em cada ano, mas digamos que este ano seja de 3%. Quando o ano acaba, a renda nacional cresce, junto com o lucro total. Se o lucro total alcança 30% da renda nacional, isso significa que os bônus serão de um décimo do total dos lucros (3%/30%) – o que significa que o pacote de bônus para cada gestor da empresa será igual a um décimo dos lucros dessa empresa. Em um sistema como esse, cada gestor pode ter interesse em melhorar o desempenho lucrativo de sua própria empresa; mas ele não poderá ter nenhum motivo racional para subverter ou questionar qualquer lei geral, norma, costume, ou regulação sobre a limitação de lucros assentada no interesse público, assumindo que sejam aplicadas igualmente a todas as empresas. Novamente, o que importa aqui é o conceito: se existe dinheiro ou consagração como recompensa para o bom desempenho, o princípio é o mesmo.