31 de março de 2015

Plano para recuperar o poder de criação monetária

Islândia deixa bancos estupefatos

por Raúl Ilargi Meijer

The Automatic Earth

Tradução / Quem diria que a revolução começaria com aqueles islandeses radicais. Mas assim é. Frosti Sigurjonsson, um legislador do governante Partido do Progresso emitiu hoje um relatório que sugere retirar dos bancos comerciais o poder de criar moeda e passá-lo ao banco central e, em última análise, ao Parlamento.

Os bancos comerciais no mundo ocidental não ficarão muito felizes com isso. Eles devem estar a pensar em varrer esta nação-ilha do mapa. Se aceite no parlamento islandês, o plano mudaria o jogo de um modo muito radical. Ele teria êxito também, porque não há maior maldição para as nossas economias do que bancos comerciais a criarem moeda e a seguir titularizarem e liquidarem os empréstimos com o dinheiro que acabaram de criar (o crédito).

Toda a gente, com a possível excepção de Paul Krugman, entende porque isto é uma ideia saudável. A Agência France-Presse informa:

A Islândia que acabar com os ciclos de alta e baixa (boom and bust) com plano monetário radical 
O governo islandês está a considerar uma proposta monetária revolucionária – remover dos bancos comerciais o poder para criar moeda e passá-lo ao banco central. A proposta, a qual seria uma reviravolta na história da finança moderna, faz parte de um relatório escrito por um legislador do partido centrista governante Partido do Progresso, Frosti Sigurjonsson, intitulado "Um sistema monetário melhor para a Islândia" ("A better monetary system for Iceland").

"Os resultados serão uma importante contribuição para a discussão vindoura, aqui e alhures, sobre criação de moeda e política monetária", disse o primeiro-ministro Sigmundur David Gunnlaugsson. O relatório, encomendado pelo primeiro-ministro, destina-se a por um ponto final a um sistema monetário em vigor que provocou uma grande quantidade de crises financeiras, incluindo a mais recente em 2008.

De acordo com um estudo de quatro banqueiros centrais, o país teve "mais de 20 exemplos de crises financeiras de diferentes tipos" desde 1875, com "seis graves episódios de crise financeira múltipla a verificarem-se a cada 15 anos em média". O Sr. Sigurjonsson afirmou que o problema levanta-se a cada vez devido ao inchaço de crédito durante um ciclo econômico forte. 
Ele argumentou que o banco central era incapaz de conter a expansão do crédito (credit boom), permitindo que a inflação ascenda e estimule a assunção de riscos exagerados e a especulação, a ameaça de colapso bancário e intervenções estatais custosas. Na Islândia, tal como em outras modernas economias de mercado, o banco central controla a criação de notas e moeda mas não a criação de toda a moeda, a qual ocorre sempre que um banco comercial oferece uma linha de crédito. O banco central pode apenas tentar influenciar a oferta de moeda com as suas ferramentas de política monetária.

De acordo com a proposta chamada Soberania Monetária, o banco central do país tornar-se-ia o único criador de moeda. "Crucialmente, o poder para criar moeda é mantido separado do poder para decidir como a nova moeda é utilizada", escreveu o Sr. Sigurjonsson na proposta. "Tal como com o Orçamento do Estado, o Parlamento debaterá a proposta do governo para a distribuição de nova moeda", escreveu.

Os bancos continuariam a gerir contas e pagamentos e serviriam como intermediários entre poupadores e prestamistas. O sr. Sigurjonsson, homem de negócios e economista, foi um dos planeadores por trás do programa de alívio da dívida familiar da Islândia lançado em Maio de 2014 e destinado a ajudar muitos islandeses cujas finanças foram estranguladas pelas hipotecas indexadas à inflação assinadas antes da crise financeira de 2008.

Agressão saudita no Iêmen irá fracassar

Asa Winstanley


Tradução / Arábia Saudita e Israel são as duas influências mais malignas no Oriente Médio. Em uma região marcada por (a maioria apoiada pelo Ocidente) ditaduras, estes dois regimes se destacam devido a sua influência. Eles são o que chamo de contra-revolução permanente.

Israel é regime do apartheid, que institucionaliza o racismo exercido contra o povo nativo da Palestina, expulsa palestinos sempre que pode e vive de fazer guerras sangrentas, infindáveis, sempre de agressão e ocupação contra os mesmos palestinos e outros povos da região. Israel governa pela força milhões de palestinos em Gaza e na Cisjordânia, que não votam em eleições democráticas, nem têm qualquer outro espaço para fazer ouvir o que pensam sobre o regime de ocupação, totalmente antidemocrático, que os oprime.

Arábia Saudita é monarquia absolutista que nem finge que realiza eleições de qualquer tipo. Os dois regimes são bastante diferentes em vários sentidos, mas muito semelhantes em alguns aspectos chaves. Os dois são conhecidos abusadores de direitos humanos. Embora por vias diferentes, os dois regimes são erguidos sobre fundamentalismos religiosos incorporados no coração das respectivas instituições do estado. E os dois têm feito tudo que encontraram ao alcance para destruir e sequestrar os levantes democráticos que eclodiram por todo o mundo árabe em 2011.

Ambos são festejados nas capitais ocidentais. E ambos invadem países vizinhos e começam guerras de agressão - embora Israel faça isso muito mais.

E assim chegamos ao Iêmen, onde a Arábia Saudita, apoiada por outros déspotas regionais, acaba de lançar mais uma guerra de provocação assassina.

Desde 2011, o Iêmen assistiu a levante popular massivo contra o regime ditatorial e corrupto de Ali Abdallah Saleh, apoiado pelo governo dos EUA. Até que, quando seu próprio exército trocou de lado e passou a apoiar os manifestantes, em fevereiro de 2012, Saleh foi obrigado a entregar o poder ao seu vice-presidente Abdrabbuh Mansour Hadi.

Naquele mesmo mês de fevereiro de 2012, em eleições-farsa, nas quais aparecia como candidato único, Hadi obteve 99,8% dos votos – resultado de causar inveja a qualquer Saddam Hussein.

Essa transferência de poder jamais foi aceita por muitos dos que haviam ido às ruas para protestar, nem pelo movimento dos houthis, grupo que há muito tempo mantém uma insurgência armada contra o governo central no norte do país. Incluindo vários membros da seita zaidista, relacionada ao Islã xiita, o movimento combate intermitentemente contra o governo central do Iêmen desde 2004.

Em 2010, os sauditas intervieram ao lado do governo e contra os houthis, que tomaram uma pequena porção do território saudita durante curto período de tempo. Basicamente, os houthis encurralaram o exército saudita, que foi obrigado a retirar-se; mesmo assim, se proclamou vitorioso.

Depois de meses de protestos pacíficos, não armados, organizados pelos houthis e contra o governo de Hadi, outro levante armado dos houthis em 2014 levou à captura de grandes partes do território iemenita. Em janeiro de 2015, Hadi renunciou, mas, antes, entregou uma carta de renúncia. Agora, voltou a apresentar-se como presidente legítimo. Os houthis, enquanto isso, anunciaram que a presidência passaria a ser exercida por um conselho, ao qual caberia negociar o futuro político do país.

Hadi fugiu da capital para Aden, porto no sul, que foi declarada, por alguns dias, capital do Iêmen, antes de que o movimento dos houthis começasse a avançar no sul. Como o ditador tunisiano Zain al-Din Ben Ali antes dele, Hadi também fugiu para a Arábia Saudita, exatamente quando os sauditas começaram a bombardear o Iêmen, semana passada. E lá continua, fingindo que “legitima” a agressão saudita contra o Iêmen.

Outras forças contrarrevolucionárias na região também apoiam a agressão dos sauditas contra o Iêmen: o líder da Autoridade Palestina (e fantoche de Israel) festejou o ataque contra o Iêmen e até sugeriu que ataque semelhante de regimes árabes poderia acontecer contra a Faixa de Gaza, governada pelo Hamas, movimento da resistência islâmica.

Muito se tem falado e escrito sobre um suposto “aspecto sectário” do conflito – mas se trata sempre de grosseiro exagero. A verdade é que a Arábia Saudita é o pior dos agitadores sectários em toda a região (só comparável, na violência sob pretexto religioso, a Israel), e fala nos termos mais agressivos contra o Irã (que a Casa de Saud acusa de estar apoiando os rebeldes houthis).

Mas nada disso significa conflito sectário; a guerra contra o Iêmen é guerra dos EUA, de disputa por poder e pela hegemonia política sobre o mundo; e é guerra também da Arábia Saudita, de disputa pela hegemonia regional (a Arábia Saudita é ditadura cliente chave dos EUA).

Como a Reuters noticiou em janeiro, a rebelião houthi estava aproximando-se perigosamente de ministérios do governo que trabalhavam em íntima convivência com conselheiros militares e agências de espiões norte-americanos. Para o poder imperial, já não era sustentável a situação em que o poder imperial estava sendo tão gravemente ameaçado na região (e pouco importa que as operações do mesmo poder imperial estivessem levando à morte muitos civis iemenitas, vítimas de ataques dos drones).

Em discurso na sexta-feira, Hassan Nasrallah, Secretário-Geral do Hezbollah (movimento da resistência libanesa contra a ocupação israelense) reagiu contra a guerra saudita no Iêmen em termos extraordinariamente fortes: “A verdadeira razão [para a guerra contra o Iêmen] é que a Arábia Saudita perdeu o controle e o domínio que tinha no Iêmen; o objetivo da guerra é restaurar o controle e a hegemonia dos sauditas sobre o Iêmen. Ponto final.”

Usualmente, Nasrallah em seus discursos fala em termos velados ao criticar ditaduras do Golfo Árabe, com eufemismos diplomáticos como “alguns governos árabes”. Mas dessa vez não arrastou prisioneiros e atacou frontalmente o regime saudita, acusando-o de ter criado o Estado Islâmico (também conhecido como ISIS ou ISIL) e de ser responsável pelos carros bombas que atormentaram o Iraque durante muitos anos, com civis iraquianos de todas as seitas mortos.

Também criticou os sauditas por nunca terem levantado uma pedra para ajudar a Palestina e zombou do nome da campanha de bombardeio contra o Iêmen (“Tempestade Decisiva”). Disse que desde que Israel foi criado em 1948 “nunca houve nem tempestade nem, sequer, alguma brisa que fosse decisiva” para ajudar os palestinos contra a limpeza étnica e as agressões que sofrem dos israelenses.

Nasrallah disse que os sauditas sofrerão uma “derrota humilhante” ante os iemenitas, se não aceitarem que o conflito político que há no Iêmen seja discutido e superado mediante negociações e diálogo. “A história mostra que invasores e ocupantes sempre são derrotados”.

Na segunda-feira, bombas sauditas assassinaram pelo menos 40 pessoas em um campo de refugiados no norte do Iêmen.

E assim chegamos a mais uma semelhança entre a Arábia Saudita e Israel. Os sauditas foram derrotados uma vez, em 2010, pelos houthis. Os israelenses foram contidos no verão passado, em Gaza, pelo Hamas. Ambos os exércitos são terríveis quando se trata de lutar guerras terrestres contra os combatentes indígenas que defendem suas terras. Ambos são bons em apenas uma coisa: a execução de crimes de guerra contra civis, realizados com alta tecnologia.

Um editor associado com The Electronic Intifada, Asa Winstanley é um jornalista investigativo que vive em Londres.

A revolução Podemos: Como um pequeno grupo de acadêmicos radicais mudou a política europeia

Apenas 15 meses após a sua fundação, Podemos agora lidera as pesquisas na Espanha. Esta festa popular pode conquistar o poder - ou está a sua bolha prestes a estourar?

Gilles Tremlett


Tradução / No início do ano acadêmico de 2008, Pablo Iglesias, um professor de 29 anos com um piercing na sobrancelha e um rabo de cavalo, cumprimentou seus alunos na faculdade de Ciências Políticas da Universidade Complutense, em Madri, convidando-os a se manter em suas cadeiras. A ideia era reencenar uma cena do filme Sociedade dos Poetas Mortos. A mensagem de Iglesias era simples. Seus alunos estavam ali para estudar o poder, e os poderosos podem ser contestados. Essa manobra era típica dele. Política, pensava Iglesias, não era algo a ser apenas estudado. Era alguma coisa que ou você fazia, ou deixava os outros fazerem por você. Como professor, ele era esperto, hiperativo e – fundador de uma organização universitária denominada Contra-Poder – ligeiro no apoio a protestos dos estudantes. Não cabia no perfil clássico de intelectual doutrinário da esquerda espanhola liderada pelos comunistas. Mas tinha clareza sobre quem culpar pelas enfermidades do mundo: o capitalismo irrestrito, globalizado que, na esteira de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, havia se instalado como ideologia dominante do mundo desenvolvido.

Iglesias e alunos, ex-alunos e acadêmicos da faculdade deram duro pra espalhar suas ideias. Produziram shows políticos de televisão e colaboraram com seus heróis latino-americanos – líderes populistas de esquerda tais como Rafael Correa do Equador ou Evo Morales da Bolívia. Mas quando eles lançaram seu próprio partido político, em 17 de janeiro de 2014, e o denominaram Podemos, muitos desacreditaram. Sem dinheiro, estrutura nenhuma e poucas diretrizes concretas, parecia mais um partido anti-“austeridade” raivoso destinado a desaparecer em meses.

Um ano depois, em 31 de janeiro de 2015, Iglesias Iglesias atravessou um palco na emblemática praça central de Madri, a Puerta del Sol. Estava lotada com 150 mil pessoas, tão espremidas que era impossível de se mover. Ele se dirigiu à multidão com a retórica apaixonada pela qual os adversários o rotularam como um perigoso populista de esquerda. Protestou contra os monstros de “totalitarismo financeiro” que humilhou a todos. Disse aos seguidores do Podemos para sonhar e, como o nobre louco Don Quixote, “levar seus sonhos a sério”. A Espanha tentava agarrar uma mudança histórica, convulsiva. A multidão agrupada era herdeira do povo comum que – armado com facas, vasos de flores e pedras – havia se rebelado contra as tropas napoleônicas em ruas próximas dali, dois séculos antes. “Podemos sonhar, nós podemos ganhar!”, gritou.

As pesquisas sugerem que ele está certo. Desde 1982, a Espanha vem sendo governada por apenas dois partidos. Ainda assim, o jornal El País coloca agora o Podemos com 22% [das intenções de voto], à frente de ambos: o conservador no governo Partido Popular (PP) e sua oposição à esquerda, Partido Socialista Obrero Español (PSOE). Se o Podemos crescer mais, Iglesias poderá tornar-se primeiro ministro após as eleições marcadas para novembro. Seria um feito quase inédito para um partido tão jovem.

Muitos na Puerta del Sol aspiram ver esse dia. “Sim, podemos! Sim, podemos!”, cantavam. Outros espectadores estremeceram, lembrando o elogio de Iglesias para o falecido presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e temendo uma erupção do populismo ao estilo latino-americano em um país dominado por dívida, austeridade e desemprego. Mas sem o Podemos, temiam seus apoiadores, a Espanha enfrentava a perspectiva de tornar-se uma Grécia, com o seu estado de bem-estar social em desintegração, classe média deteriorada e desigualdade desenfreada.

No palco aquele dia, Iglesias declarou que o Podemos tomaria de volta o poder das elites auto-referenciadas e o entregaria de volta ao povo. Para fazer isso, o novo partido necessita de votos. Se isso significa emoções exaltadas e ser acusado de populismo, que assim seja. E, como os fundadores do partido já mostraram, se eles tiverem de renunciar a algumas de suas ideias para ampliar seu apelo, ou arriscar-se a tensionar alguns em seu movimento de base ao centralizar mais o poder, estão prontos a fazer isso também. O objetivo, afinal, é ganhar.

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À primeira vista, a ascensão estonteante do Podemos parece miraculosa. Na verdade, o projeto evoluiu ao longo de muito tempo, ainda que nem mesmo os organizadores soubessem se iria ao fim tornar-se um partido, ou que uma crise financeira global lhes apresentaria sua oportunidade. Hoje, na Espanha, um terço da força de trabalho ou está desempregada, ou ganha menos que o salário mínimo anual de 9.080 euros [R$ 28.800]. Nas grandes cidades, avistar pessoas fuçando lixeiras à procura de alimentos ou coisas para vender — uma raridade na Espanha pré-crise — não é mais chocante. Uma sombra fatalista tomou um país que viveu uma onda de otimismo por três décadas, desde que saiu de uma ditadura para a democracia. Depois de anos de crescimento econômico, a crise financeira arrebentou a bolha da construção civil na Espanha. Inúmeros casos de corrupção — que envolvem tanto o PP quanto o PSOE — alimentaram uma raiva generalizada da classe política estabelecida. “A crise política é o momento de ousar”, disse Iglesias a uma plateia recentemente. “É quando um revolucionário é capaz de olhar as pessoas nos olhos e dizer-lhes: ‘Vejam, estes são são seus inimigos.’”

Ele não é o primeiro Pablo Iglesias a fazer tremer a ordem política da Espanha. Seu nome vem do homem que fundou o PSOE em 1879. (Seus pais se conheceram numa cerimônia em memória de Iglesias, diante de seu túmulo). Adolescente, Iglesias era membro da Juventude Comunista em Vallecas, um dos bairros mais pobres e orgulhosos de Madri. Ele vive lá até hoje, num modesto apartamento de um prédio grafitado de 1980, de blocos médios e altos. (“Defenda sua felicidade, organize sua raiva”, diz um graffiti.) Mesmo quando adolescente, ele era “um líder e grande sedutor”, recorda um membro sênior do Podemos que participou do mesmo grupo de jovens. Iglesias estudou Direito na Universidade Complutense antes de obter uma segunda graduação em Ciência Política. Seguiu no doutorado com uma tese PHD sobre desobediência e protestos antiglobalização que foi premiada com distinção.

Foi na Complutense, onde ele começou a ensinar depois de receber seu doutorado, que Iglesias conheceu as pessoas-chave que iriam ajudá-lo a fundar o Podemos. Profundamente influenciado por Antonio Gramsci, o pensador marxista italiano que argumentava sobre a importância de vencer batalha contra o aparato que forma a opinião pública, esse grupo também encontrou inspiração na Universidade de Essex. Lá, o acadêmico argentino Ernesto Laclau começou, nos anos 70, a escrever uma série de trabalhos sobre marxismo, populismo e democracia que, juntamente com o trabalho de sua mulher belga Chantal Mouffe (agora na Universidade de Westminister), teve um impacto profundo na liderança do Podemos. Seu complexo livro de 1985, Hegemony and Socialist Strategy, mantém-se como um ponto de referência-chave para a liderança do Podemos.

O socialismo, argumentavam Laclau e Mouffe, não deveria mais focar na luta de classes. Ao contrário, os socialistas deveriam procurar unir grupos descontentes – tais como feministas, gays, ambientalistas, desempregados — contra um inimigo claramente definido, geralmente o sistema estabelecido. Um modo de fazer isso era através de um líder carismático que combateria os poderosos em nome dos perdedores. Laclau e Mouffe encorajaram essa nova esquerda a apelar aos eleitores com uma retórica simples e emocionalmente envolvente. Eles argumentavam que as elites liberais tentam difamar essa tática, denominando-a populismo, por medo de que as pessoas comuns se envolvam com a política.

“Há muito consenso e não dissenso suficiente [na política de esquerda]”, disse Mouffe, uma mulher elegante de 71 anos, em seu apartamento em Londres, em fevereiro. Para ela, o ascenso de populistas de direita como a Frente Nacional de Marine Le Pen ou o Nigel Farage do Partido Independentista do Reino Unido (Ukip) é prova de que o consenso pós-Thatcherismo – cimentado por social democratas da “terceira via” como Tony Blair – deixou uma vácuo perigoso. “A escolha hoje é entre populismo de direita ou de esquerda”, Mouffe disse a Iglesias numa entrevista à TV em fevereiro.

Se Iglesias viu durante muito tempo os neoliberais como inimigos e os social-democratas como traidores, ele acabou por considerar a extrema esquerda tradicional como tolos bem-intencionados. Eles condenavam a televisão como inculta e manipuladora, recusando-se a enxergar que a política das pessoas era cada vez mais definida pelos meios de comunicação que eles consumiam, ao invés da lealdade com partidos. Isso era algo que os eruditos agressivos de extrema-direita da Espanha tinham sacado em meados da década de 2000, com a criação de canais de televisão que exerceram, sobre o PP, mais ou menos a mesma pressão que a Fox News exerce sobre os republicanos nos EUA. Iglesias acreditava que era tempo de a esquerda fazer algo parecido.

Em maio de 2010 ele organizou um debate na faculdade que limitava os oradores a turnos de 99 segundos. Nomeou o evento como o hino ska One Step Beyond. Iglesias pediu à Tele-K, um canal de TV da vizinhança parcialmente alojado numa garagem vaga de Vallcas, para gravá-los. “Fiquei pasmo com o talento de Pablo como apresentador, e com cuidado que tomaram na produção”, disse-me o diretor da Tele-K Paco Pérez. Ele ficou suficientemente impressionado para convidar Iglesias a produzir e apresentar uma série de debates. Iglesias e sua pequena equipe de estudantes e ativistas levou a idéia a sério, apesar da audiência do canal ser minúscula. “Pablo até mesmo ensaiava – coisa que nunca vimos”, disse Pérez. “O surpreendente é que começamos a ter uma grande audiência online. Tornou-se um programa cult.” La Tuerka (brincadeir com a palavra espanhola para maluco ou ferrado), inicialmente um debate modesto em torno de uma mesa redonda, tornou-se a semente do Podemos.

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Em 15 de maio de 2011, Iñigo Errejón, o homem que viria a tornar-se o número 2 do Podemos, chegou a Madri vindo de Quito, Equador. Errejón encontrava-se a alguns dias de apresentar uma tese de PHD na Universidade Complutense, ligando o sucesso de Evo Morales, o primeiro presidente indígena da Bolívia, às idéias de Gramsci, Mouffe e Laclau. Amigos sugeriram que ele se dirigisse direto à Puerta del Sol, onde uma coisa extraordinária estava acontecendo.

De alguma forma, uma manifestação de protesto havia se transformado num acampamento que a certa altura atraiu dezenas de milhares de pessoas. Os Indignados, que iriam inspirar o movimento Occupy, tomaram em seguida praças de cidades em todo o país, protestando contra políticos. “Não nos representam” tornou-se o grito de guerra. Enquetes mostraram que 80% da população apoiava os manifestantes. Alguns dos participantes até mesmo empunhavam a bandeira vermelha-e-ouro da Espanha, sinal de que era algo muito maior que os protestos-padrão de esquerda, em que a bandeira roxa, dourada e vermelha da há muito perdida República da Espanha em geral predominava. Os Indignados debatiam em assembleias ao ar livre, alternando as falas e usando gestos de mão – mãos acenando para “sim”, braços cruzados para “não” – para expressar concordância ou discordância.

Para Iglesias e seus companheiros teóricos da Universidade Complutense, os protestos faziam todo o sentido. O consenso entre os dois maiores partidos da Espanha em torno da austeridade imposta pela Alemanha deixou órfãos muitos cidadãos, sem ninguém para representá-los. “Os que estão no poder ainda governavam, mas não mais convenciam as pessoas”, Errejón contou-me recentemente.

Ainda assim, um mês depois que os protestos começaram, as praças estavam vazias. Seis meses depois, no fim de 2011, a Espanha elegeu um novo governo, entre avisos de que, quem quer que vencesse, estaria sob o comando da chanceler alemã Angela Merkel. Eleitores desiludidos viram que mesmo o PSOE oferecia pouco mais que obediência bovina às demandas de Merkel por mais austeridade. Com baixo comparecimento às urnas, Mariano Rajoy, do PP, venceu por maioria absoluta e introduziu mais cortes [de programas sociais e investimentos], enquanto ia controlando, devagar, os déficits do orçamento, que chegaram a 11%. O espírito indignado, parecia, havia sido esmagado.

Na verdade, os Indignados continuaram a se reunir em assembleias, e para os politicamente mais ativos La Tuerka transformou-se num programa essencial. Com o tempo, o show passou para o site de notícias online Público, e tornou-se mais refinado. Cada edição começava com Iglesias ou seu companheiro Complutense, professor Juan Carlos Monedero, apresentando um monólogo seguido por um debate e música rap. Quando o serviço de língua espanhola da televisão estatal do Irã, Hispan TV, pediu um programa apresentado por Iglesias, em Janeiro de 2013, a equipe abraçou a ideia. Denominado Forte Apache, ele abria com Iglesias montado numa moto Harley Davidson Sportster, colocando um capacete na cabeça e — depois de um close de seus olhos — atirando um arco-e-flecha enorme, tipo besta, nas costas antes de rugir. “Cuidado com a cabeça, homem branco. Este é o Forte Apache!”, alertaram os trailers. Contudo, ainda pregavam para um pequeno número de pessoas já convertidas.

Tudo mudou em 25 de abril de 2013, quando Iglesias apareceu em um programa de debate da direita no pequeno canal Intereconomia. “É um prazer cruzar linhas inimigas e falar”, disse Iglesias ao introduzir-se. Estava em minoria. Ia debater com quarto eruditos conservadores. Mas havia se preparado e saiu-se muito bem. Logo começou a receber convites para aparecer em programas de debates nos principais canais da Espanha. Os níveis de audiência estouravam à medida em que ele, munido com fatos sem fim e uma série de mensagens simples, derrubava seus companheiros de debate. O arrogante jovem professor geralmente se sentava com um tornozelo descansando em um joelho e um braço casualmente jogado por trás da cadeira, com um sorriso que de vez em quando derrapava para a condescendência. Repetia, como um mantra, que a culpa pelos problemas da Espanha era de “la casta”, seu nome para os políticos e elites corruptos que ele clamava terem vendido o país aos bancos. O outro inimigo era a chanceler alemã Angela Merkel e os tecnocratas não eleitos que supervisionavam o euro desde o Banco Central Europeu em Frankfurt. Iglesias não queria que a Espanha saísse da União Europeia, mas também não estava satisfeito com a situação. Acima de tudo, queria que os espanhóis recobrassem a “soberania”, um conceito que, como muitos outros, manteve-se confuso.

Uma estrela midiática havia nascido. Muitos o conheciam apenas como “el coletas” (“o de rabo-de-cavalo”). Iglesias havia gasto anos afiando sua técnica, fazendo teatro e até mesmo frequentando um curso de apresentador na academia da televisão estatal RTVE. Comunicação, ele já havia declarado em sua tese de doutorado, era chave para protestos. Por anos ele e Monedero vinham dizendo à coalizão de esquerda liderada pelos comunistas, Izquierda Unida (IU), que deviam aprender com os latino-americanos e ampliar seu apelo. Agora propunham um amplo movimento de esquerda, com consultas prévias abertas, nas quais candidatos outsiders, tais como Iglesias pudessem concorrer. Receberam um firme não do líder da IU, Cayo Lara, que mais tarde declarou que Iglesias tinha “os princípios de Groucho Marx”. Então, eles próprios criaram a dinâmica.

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O plano do Podemos foi cimentado num jantar em agosto de 2014, durante uma festa minúscula e radical denominada Izquierda Anticapitalista (IA). Iglesias e o peso-pesado da IA, Miguel Urbán, então um veterano de 33 anos de múltiplos movimentos de protestos, concordaram em trabalhar juntos, criando o estranho e tenso casamento entre um único, carismático líder – Iglesias – e uma organização que odeia hierarquia. “Pablo tinha prestígio político e midiático, mas isso não era suficiente”, me disse Urbán. “Nós precisávamos de uma base organizacional que se espalhasse por todo o país, e essa era a IA.”

O plano era ousado e altamente improvável. Era para ser um assalto ao poder em 18 meses, com o objetivo final de substituir o PSOE como expressão da esquerda e destituir o primeiro-ministro Rajoy na eleição geral de 2015. O núcleo duro de acadêmicos da faculdade de Ciências Políticas da Complutense que eram veteranos de La Tuerka, iria gerir a campanha. Por fim, seriam capazes de experimentar suas ideias em escala nacional.

O primeiro teste para o Podemos seria nas eleições européias de maio de 2014. Muitos eleitores veem o Parlamento Europeu como um órgão sem dentes, porque as principais decisões da UE são tomadas em outro lugar. Com tão pouco em jogo, eles assumem riscos, na cabine de votação. Iglesias e Urbán viram as eleições europeias como um potencial trampolim para sua campanha às eleições gerais de 2015. O nome do partido — que ecoa não apenas o slogan da campanha de 2008 de Barack Obama, mas também um jingle de TV para a seleção espanhola de futebol que venceu a Copa Europeia e Copa do Mundo – surgiu durante uma viagem de carro poucos meses após a formação do pacto inicial entre Iglesias e Urbán. “Pensamos em ‘Sim, você pode!’, mas esse já existia”, disse Urbán. “Então fomos para Podemos [Nós Podemos]. Era bem afirmativo.”

Em 17 de janeiro de 2014, Iglesias anunciou oficialmente a criação do Podemos num pequeno teatro em Lavapiés, o bairro de Madrid que na última década concentrou livrarias alternativas, galerias e bares. Iglesias (seu piercing da sobrancelha agora removido para melhorar sua imagem eleitoral) explicou que um dos pilares do projeto Podemos seria os “círculos”, assembleias ao estilo indignados. Estes círculos, construídos em torno de comunidades locais ou de interesses políticos compartilhados, poderia, reunir-se, debater ou votar presencialmente ou online. Iglesias disse à multidão que se 50 mil pessoas assinassem uma petição no site do Podemos, ele lideraria uma lista de candidatos às eleições do Parlamento Europeu em maio. A meta foi atingida dentro de 24 horas, apesar do site ter dado pau durante parte desse tempo.

O projeto Podemos nasceu com duas contradições que se tornariam crescentemente aparentes no decorrer do tempo. Primeiro, seria tanto radical quanto pragmático, em sua busca de poder. Segundo, ele se comprometeu a deixar o controle nas mãos de ativistas de base, apesar do fato de o partido depender da popularidade de um só homem. Mas, no início, essas tensões estavam longe da mente da maioria das pessoas. Excitação e idealismo eram a norma.

Pablo Echenique, um físico pesquisador com atrofia muscular na coluna, assistiu à fala de Lavapiés no YouTube, em sua casa em Zaragoza, no centro da Espanha. Três anos antes, Echenique saiu às ruas de Zaragoza em sua cadeira de rodas elétrica para juntar-se aos manifestantes indignados. Ele estava animado com os debates, mas frustrado pela falta de ação. “Eles não tinham garra”, disse-me. “Não houve resposta sobre o que fazer em seguida.” Quando, quatro dias depois do discurso de Lavapiés, Iglesias viajou para um centro cultural ao lado da Plaza San Agustín, em Zaragoza, para seu primeiro encontro da campanha eleitoral europeia, Echenique chegou cedo, mas os 180 assentos do salão foram rapidamente preenchidos. “Logo havia 500 pessoas de fora, por isso Pablo disse: ‘Sei que está frio, mas pior é não ter emprego. Não cabemos aqui, então vamos lá fora na praça.’ Estava gelado.”

Foi em Zaragoza que Urbán se deu conta, pela primeira vez, que o Podemos podia ser bem sucedido. “Enquanto esperava na porta, alguém me perguntou se eu era do Podemos de Zaragoza”, me disse Urbán. “Eu estava à procura da organização do Podemos, mas pensava que ela ainda não existia, então disse apenas que tinha vindo de Madri. Ele respondeu, ‘Bem, sou do Podemos na Catalunha’. Aquela cidade tem apenas 20 mil habitantes. De repente, me dei conta de que alguma coisa tinha realmente mudado. Era o equivalente político da ocupação das praças.” Surgiu um padrão, reuniões de campanha apinhadas, geralmente ignoradas pela mídia. Para os envolvidos, foi emocionante. Urbán levou para casa o dinheiro arrecadado nas reuniões para contar. “Chegamos a conseguir 2 mil euros numa única reunião. Era como pertencer a uma igreja”, disse ele.

Echenique ficou inspirado. “Disse para Pablo, ‘Você diz que deveríamos nos organizar, mas eu nunca estive num partido político organizado. Pode me dar algumas ideias?’ Pablo disse que era como fazer sexo: você começa mal, mas aprende com a experiência.” Echenique entrou em dois círculos, um em Zaragoza e um grupo online para portadores de deficiência. Foi um dos 150 candidatos apontados pelos círculos para o parlamento europeu. Eles foram classificados em ordem por 33 mil pessoas que se inscreveram no site do partido. Iglesias ficou em primeiro; Echenique, em quinto. Apenas um entre os doze primeiros candidatos tinha mais de 36 anos.

O Podemos então embarcou no complexo processo de escrever um manifesto eleitoral “participativo”, baseado nas ideias surgidas nos círculos e depois votadas online. O resultado foi original, mas também pouco pático e concreto. Demandava-se um salário básico do Estado para todos os cidadãos e não pagamento de partes “ilegítimas” da dívida pública, embora o manifesto não especificasse que partes eram essas – duas medidas de que o Podemos recuou desde então.

Pouco mais de um mês antes das eleições europeias, as pesquisas do próprio Podemos revelaram que apenas 8% dos espanhóis haviam dado ouvidos a eles. Contudo, 50% sabiam quem era Pablo Iglesias. O partido deu o controverso passo de mudar seu logo, colocando nele a face de Iglesias para garantir que fosse estampado nas células. Dezoito dias antes das eleições, o instituto de pesquisas estatal CIS disse que Podemos poderia chegar perto de conseguir um assento.

Na noite da eleição, o Podemos surpreendeu a todos. Obteve 8% dos votos, com Iglesias, Echenique e outros três tornando-se deputados. No meio de toda a celebração, Iglesias permaneceu frio. O PP ainda estava no governo, alertou. A batalha estava apenas começando.

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Oito meses após as eleições, num voo de volta de Atenas a Madri em janeiro, Iglesias ocupou, como sempre, um assento econômico. Ele acabava de ajudar Alexis Tsipras do Syriza a fechar um comício de campanha com um verso de Leonard Cohen – “Primeiro tomaremos Manhattan; depois, Berlin” – e algumas bem pronunciadas palavras em grego. Era cedo, depois de uma noite que havia se prolongado até tarde, mas ele já estava no modo trabalho. “Bebo Red Bull para poder ler em longos voos”, disse no lounge do hotel, enquanto um empresário grego, dono de restaurantes em Madri, insistia em pagar nosso café, entusiasmado com as mudanças que ocorriam nos dois países.

Em privado, a combativa persona pública de Iglesias dá lugar a uma cuidadosa educação (“Ele é como o genro perfeito”, de acordo com Mouffe). Ao contrário de outros políticos proeminentes, recusa-se a andar em carros oficiais, mas perdeu a liberdade de andar nas ruas ou ir a um bar sem ser parado. Quando chegou no aeroporto de Barajas, em Madri, uma vendedora de bilhetes de loteria que o viu interrompeu seu caminho. “Você não precisa comprar. Apenas vença!”, disse ela, os olhos arregalados.

Iglesias sentiu-se energizado pela visita a Atenas, mas Tsipras havia sido menos efusivo na noite anterior quando, numa festa no terraço de uma boate com uma vista espetacular do Parthenon, perguntei a ele se uma vitória futura do Podemos era chave para o Syriza. Não realmente, respondeu ele. “As eleições vão demorar um pouco”, disse o homem que, três dias depois, tornou-se o solitário rebelde contra a austeridade na Europa. “Penso que nós abriremos caminho para eles.”

A Espanha não é a Grécia. A austeridade pode estar ferindo – a organização Caritas, da Igreja Católica, distribuiu comida, roupas e ajuda a 2,5 milhões de pessoas (uma em cada 20 espanhóis) no ano passado – mas não produziu as cenas de privação que se vê regularmente nas ruas de Atenas, tais como as filas em farmácias de caridade, onde os excluídos da assistência médica estatal buscam medicamentos. Ainda assim, “se isso pode acontecer com a gente”, disse Iliopoulou Vassiliki, uma farmacêutico voluntário, expressando um medo compartilhado por muitos adeptos do Podemos, “quem será o próximo?”

Alguns dias depois de Iglesias retornar de Atenas, ele visitou Valência para um comício. O Podemos conquistará muitos votos do jovens nas eleições gerais, mas aqueles que participam de seus comícios – muitos deles membros dos círculos locais do Podemos – são em sua maioria mais velhos. O ativismo vem mais facilmente para aqueles que estão em seus 40 anos ou acima disso, muitos dos quais lembram os inebriantes primeiros anos da transição democrática da Espanha e se surpreendem com a passividade da geração mais jovem. Autofalantes bombando People Have the Power de Patti Smith para 8 mil pessoas que lotavam o estádio de basquete. “Aí vem o momento rockstar”, avisou um jornalista espanhol, conforme Iglesias e Errejón recebiam aplausos estridentes. Uma mulher de meia-idade com calças estampadas de pele de leopardo berrou: “Presidente! Presidente! “Alguém gritou:” Viva a mãe que deu você à luz”!

Como capital de uma região notória pela corrupção política, Valência é solo fértil para o Podemos. Iglesias lê uma carta de Nerea, uma menina que estava ali em seu nono aniversário. “Gostamos de você porque ajuda as pessoas”, dizia. “Obrigada por dar a meus pais esperança de novo.” O pai segurou a menina acima de sua cabeça. “Eles [o sistema] não estão com medo de mim, Nerea. Eles estão com medo de você e das famílias que disseram ‘basta!’, disse Iglesias, antes de seguir com uma série de slogans: “Os sorrisos mudaram de lado”; “Claro que podemos!” John Carlin, um redator do El País, diz que Iglesias está vendendo um conto religioso semelhante àquele de Jesus expulsando os mercadores. A implicação é que os seguidores do Podemos preferem o sentimento inspirador da fé compartilhada à fria razão. Lembrei-me de um voluntário em um escritório do Podemos em Madri que me surpreendeu ao me dizer que não votaria para eles. “Há muita emoção”, disse ele.

A ativista do Podemos Irene Camps veio para o comício com os membros do círculo de Manises, uma cidade industrial batalhadora próximo ao aeroporto de Valencia, onde um ex-prefeito do PP está sendo julgado por suposta corrupção (que ele nega). Uma noite, algumas semanas após o comício, Camps e eu estávamos em frente ao supermercado local Consum com meia dúzia de mulheres que esperavam para passar pelo caixa. Perto, um grande teatro, cuja construção começou durante os dias de boom na Espanha antes da quebra de 2007, mantém-se inacabado. “Todo mundo está falando sobre o Podemos. Devíamos dar-lhes uma chance”, afirmou Paqui Fernández, a mulher que se disse líder do grupo. Ela e suas amigas lembraram que essa terra era ocupada por “casas na caverna” — moradias construídas em buracos nas rochas – nos anos 1950. Era um sinal do quanto a Espanha havia avançado desde a morte de Francisco Franco em 1975, mas também de que as memórias da pobreza não são tão antigas. Camps é parte da antes ampliada, e agora minguante e amedrontada classe média. “Se não mudarmos as coisas”, disse ela, “vou acabar como Paqui.”

No dia seguinte, banhada pelo sol de inverno, Camps ajudou numa assembleia ao ar livre do Podemos em uma propriedade em ruínas de casas geminadas no campo, fora de Manises. Pessoas do local, tímidas, entraram em uma roda de ativistas animados, de camisa roxa, e foram aplaudidas por arejar seus medos. Os novecentos e tantos círculos do partido são chave para a abordagem participativa e popularidade local do Podemos, mas são difíceis de controlar. (O partido ainda não tem uma lista completa deles.) Qualquer um pode participar e votar.

Se o Podemos deseja ser mais do que um partido tradicional ou um movimento pesadamente populista, então precisa funcionar com democracia direta. O uso que o grupo faz de sites de transparência (detalhando todos os gastos, inclusive salários), ferramentas de votação e discussão online já é de ponta. Seu site de debates Plaza Podemos atrai regularmente entre 10 mil e 20 mil visitantes diários. “Não se usa ferramentas onine nessa escala em qualquer outro lugar do mundo”, me disse Ben Knight, um dos empresários por trás de um aplicativo de tomada de decisão colaborativa, o Loomio.

Mas no uso mais amplo da democracia direta, assim como em outras matérias, o Podemos ainda não tem uma estratégia definida. Os únicos princípios fixos são de que os membros sênior do partido, incluindo Iglesias, podem ser demitidos por referendo, e as coalizões pós-eleitorais precisam ser aprovadas pelos apoiadores. O Podemos poderá equilibrar as demandas de seus ativistas de base, que esperam formular políticas, com a poderosa influência de Iglesias e sua turma de acadêmicos complutenses? Esta é ainda das mais questões desafiadoras para o futuro do partido.

Quando chegou o momento de finalmente decidir a estrutura do partido, numa assembleia aberta no último outono [espanhol], a equipe de Iglesias desejava um líder forte. A proposta rival de Echenique, de uma liderança compartilhada de três pessoas, ganhou o apoio de muitos círculos de ativistas, mas obteve apenas um quinto dos 112 mil votos online. “Você poderia dizer que Iglesias ganhou os votos mais superficiais”, disse Miguel Arana Catania, do LaboDemo, uma consultoria digital que aconselha o Podemos. “Eram as pessoas que o tinham visto na TV.” É só no nível local, ou quando o comparecimento é baixo, que o grupo Complutense perde o controle.

***

A liderança carismática está no DNA do Podemos. Os membros sêniores admitem que o projeto seria impossível sem a visão, habilidades televisivas e liderança de Iglesias. Isso não o transforma num Hugo Chávez, como alguns gostam de dizer, mas levanta questões sobre o tanto de poder que ele pode acumular. “Não sou insubstituível”, o próprio Iglesias já declarou. “Sou um ativista, não um macho alfa, e me coloco sob as ordens da maioria.”

Membros de sua equipe mais próxima de 60 pessoas, a maioria que já trabalhou em escritórios apertados, com tapetes ondulados e campainhas quebradas, muitas vezes professam lealdade eterna. “Eu me sinto atingido pelos ataques a ele”, admitiu um. Muitos no grupo deixaram seus estudos, carreiras ou relacionamentos ao longo do ano passado, conforme o projeto Podemos decolou. Aqueles que têm filhos — uma pequena minoria, já que a idade média é de 26 – queixam-se de que o trabalho é muito desgastante. Predominam os homens, embora o partido apresente listas “zíper” de candidatos (em referência aos dentes de um zíper), com homens e mulheres alternados, para cargos públicos. Outros que gostariam de trabalhar para o Podemos dizem que o teto salarial de 1.900 euros mensais [R$ 6.050] é proibitivo. (Ganhos acima disso, em cargos públicos, são doados para o partido e outras causas.)

O Podemos tem uma sede nova em Madri, alguns andares abaixo das salas bagunçadas onde acampou depois das eleições europeias. Foi nesse escritório sombrio que, 13 meses depois de fundar seu partido, Iglesias concordou em encontrar-se para uma entrevista. “Enfim, o homem mais procurado do mundo”, brincou alguém de sua equipe conforme esperávamos na porta. Iglesias parecia estranhamente deslocado nessa imaculada porém anódina nova casa, com seus carpetes e portas de madeira brilhante estilo-hotel. Suas pulseiras e seu cabelo, adornados por uma banda elástica colorida, contrastam com seu uniforme opaco do dia-a-dia, camisa xadrez e jeans. (“Nenhum deles está interessado em dinheiro”, disse um colega do núcleo de professores da Complutense.) Ele admitiu que estava cansado, e um olhar um pouco embaçado ressaltou a impressão de ascetismo.

Iglesias está consciente do paradoxo de um partido com raízes anticapitalistas candidatando-se para administrar uma economia baseada no mercado. “No curto prazo, estamos limitados a usar o Estado para redistribuir um pouco mais, ter tributos justos, estimular a economia e começar a construir um modelo que recupere a indústria e traga de volta a soberania. Nós aceitamos que o euro é inescapável. A mudança que representamos é, de certa forma, sobre recuperar um consenso que 20 anos atrás incluiria até mesmo algumas partes da democracia cristã.” Entre outras medidas, ele estimularia a economia redistribuindo dinheiro para os pobres e aumentando a folha de pagamento público, admitindo mais fiscais de impostos, juizes e agentes de serviço social, e pagando por isso com um aumento de impostos.

Um governo Iglesias tomaria algumas lições com o Syriza. Ele não viu a negociação que o Syriza fez em fevereiro, que estendeu por quatro meses o prazo de um grande empréstimo feito à Grécia, como um recuo de seu amigo Tsipras. “Ao adotar uma postura dura, um país pequeno e fraco, que é muito menos importante para a zona do euro e da UE do que a Espanha, mudou o modo como as coisas são feitas”, disse ele. Nas negociações, Iglesias usaria os músculos da Espanha, quarta maior economia da zona do euro (o que, implicitamente, torna-a grande o suficiente para ameaçar a estabilidade da moeda). “Não se consegue tudo, mas se você começa com altivez e resiste, os resultados são completamente diferentes.”

Iglesias gosta de desviar perguntas sobre populismo apontando a promessa de Rajoy na eleição de 2011 de criar 3,5 milhões de empregos, quando a economia na verdade perdeu 600 mil desde então. “Os verdadeiros populistas são aqueles que fazem promessas impossíveis”, disse. Mas o partido se prende a nós ao longo da narrativa. Errejón me disse que seus adversários estavam tanto certos como errados, ao chamá-los de populistas. “O stablishment usa populismo como sinônimo de dizer para a maioria empobrecida o que ela quer ouvir”, disse ele. “Isso nos leva direto de volta para a noção de que só os mais ricos devem votar. É como se as massas fossem crianças.” Iglesias evitou o assunto com um lampejo de arrogância intelectual. “Laclau nunca usaria o conceito de populismo da forma como os leitores do Guardian iriam entendê-lo”, disse ele, negando que houvesse qualquer demagogia no Podemos e acrescentando que, para Laclau, a maioria dos políticos eram populistas, de todo modo.

Sua proposta para maior soberania dos espanhóis inclui uma maior separação da Europa em relação aos EUA, que ele sente ter ditado a política da UE sobre a Ucrânia. “Não sinto nenhuma simpatia ideológica por Putin, mas penso que a UE errou ao adotar postura tão beligerante contra a Rússia”, disse. Referindo-se aos protestos na praça Maidan, em Kiev, que acabaram levando à derrubada do governo, ele disse: “Não era razoável apoiar algo que – para usar uma expressão mais suave do que golpe de estado – era um deslocamento ilegal do poder político.”

Iglesias não viu conflito entre os valores do Podemos e o fato de apresentar um programa num canal que muitos veem como espaço de propaganda para a teocracia repressiva do Irã. “No Forte Apache, eu tenho completo controle de estilo e conteúdo”, disse. Fosse ele primeiro ministro, Iglesias ficaria feliz em manter o programa e apresentar entrevistas com atores, diretores de cinema, intelectuais e políticos. “Seria uma maneira de mostrar que você pode devotar-se à política sem parar de fazer outras coisas”, disse. “Não sei se seria possível na prática. O cotidiano de um primeiro-ministro traz limitações, mas estamos aqui para mudar as coisas.”

As eleições regionais de 24 de maio mostrarão se Podemos chegou ao topo. Nos últimos meses, o Ciudadanos, um novo rival de centro-direita, transformou o cenário politico mais uma vez. Com a sua promessa de desalojar o establishment e inaugurar uma nova era de política transparente, livre de corrupção, o grupo oferece uma alternativa segura para aqueles que temem o Podemos. Ele tem, em Albert Rivera, um líder jovem carismático — mas muito mais ortodoxo — para rivalizar com Iglesias. A economia espanhola ressurgente, agora crescendo e criando empregos mais rapidamente que a maioria dos países da Europa, pode impulsionar Rajoy na eleição geral de maio ou, pelo menos, legar uma economia parcialmente sanada a quem sucedê-lo. Matérias da mídia, que colocou luz sobre as estreitas relações entre alguns membros destacados do Podemos e a Venezuela, também arranharam a sua imagem pouco antes das eleições de 22 março para o parlamento na região sul de Andalucia, tradicionalmente ligada ao Partido Socialista. Mesmo assim, o Podemos duplicou a sua votação (a partir de eleições europeias ) para 15%.

Mas o terremoto Podemos já abalou o status quo, forçando o PSOE a eleger um jovem novo líder – Pedro Sánchez –, enquanto a IU se desintegra em amargas lutas internas sobre a possibilidade de aliar-se com o partido que pode comprovar seu declínio. Sondagem de opinião do El País coloca o Podemos, com margem estreita, como o partido mais popular da Espanha, mas sem uma margem que lhe permita governar sem fazer coalizão com os “velhos” partidos amaldiçoados como parte da “casta”. Isso poderá obrigar o Podemos a ir para a oposição. “Espero que estejam dispostos a trabalhar com a gente”, me disse o ex-ministro do PSOE Juan Fernando López Aguilar em Bruxelas, em dezembro. “Mas até agora, vejo uma ameaçadora mistura de arrogância, paixão cega e condescendência.”

É tentador ver o Podemos como uma operação bem planejada por um grupo de acadêmicos talentosos, seguindo um roteiro populista escrito por um grupo de pensadores radicais, mais isso seria simples demais. O grupo é, na verdade, o resultado de um esforço em aberto, feito por idealistas não-ortodoxos para promover mudança, combinando convicção jovem com um desejo de testar suas ideias no mundo real. Contudo, à medida em que tentam forjar um novo consenso, eles inevitavelmente afastam-se de suas raízes radicais. Numa aula que Iglesias deu para estudantes visitantes no Parlamento europeu em dezembro – talvez a última em muito tempo – ele reconheceu que se governar pelas regras atuais do capitalismo europeu, os críticos de esquerda o acusarão de ser um reformista covarde. “A resposta para isso é: ‘E onde estão suas armas para nos livrar do capitalismo?’”, disse. Realismo, portanto, tanto quanto idealismo, ditarão o futuro do Podemos. Somente quando colocado em prática descobriremos como, ou se, o “método” participativo do Podemos muda a democracia, a política europeia ou a vida das pessoas comuns. Mas o certo é que Iglesias provou aquilo que apontou a seus alunos: o poder pode realmente ser desafiado.

30 de março de 2015

O mito do antropoceno

Culpar toda a humanidade pela mudança climática deixa o capitalismo sair ileso

por Andreas Malm

Jacobin

O ano passado foi o mais quente já registrado. Ainda assim, os últimos números mostram que em 2013 a fonte que gerou a maior parte da energia para a economia mundial não foi solar, eólica, nem mesmo o gás natural ou petróleo, mas o carvão.

O crescimento nas emissões globais – de 1% ao ano nos anos 90 para 3% até agora neste milênio – é impressionante. É um aumento paralelo ao do nosso conhecimento crescente das terríveis consequências do uso de combustíveis fósseis.

Quem está nos levando ao desastre? Uma resposta radical seria a dependência do capitalismo da extração e do uso de energias fósseis. Alguns, porém, preferem identificar outros culpados.

A Terra, nos dizem, entrou agora no “Antropoceno”: a Época da Humanidade. Enormemente popular – e aceito até mesmo por muitos estudiosos marxistas – o conceito do Antropoceno sugere que a humanidade é a nova força geológica transformando o planeta para além de qualquer reconhecimento, principalmente ao queimar quantidades prodigiosas de carvão, petróleo e gás natural.

De acordo com estes intelectuais, tal degradação é o resultado dos humanos agindo segundo suas predisposições inatas, o destino inescapável para um planeta sujeito ao “business-as-usual” da humanidade. De fato, os proponentes não poderiam argumentar de outra forma, por que se essas dinâmicas tivessem um caráter mais contingente, a narrativa de uma espécie inteira ascendendo à supremacia biosférica seria de difícil defesa.

A história deles está centrada em um elemento clássico: o fogo. Apenas a espécie humana pode manipular o fogo, e daí que ela seja a única capaz de destruir o clima; quando nossos ancestrais aprenderam a incendiar as coisas, eles acenderam o estopim do “business-as-usual”. Aqui, escrevem os proeminentes cientistas climáticos Michael Raupach e Josep Canadell, estava “o gatilho evolucionário essencial para o Antropoceno”, levando a humanidade direto para “a descoberta de que a energia poderia ser derivada não apenas de carbono de detritos bióticos, mas também de carbono de detritos fósseis, inicialmente à partir do carvão.”

A razão primária para a atual queima de combustíveis fósseis seria que “muito antes da Era Industrial, uma espécie particular de primatas aprendeu como drenar as reservas de energia estocadas em carbono detrítico.” Eu aprendendo a andar com um ano de idade é a razão pra que eu dance salsa hoje; quando a humanidade inflamou sua primeira árvore morta, só poderia resultar, um milhão de anos depois, em queimar um barril de petróleo.

Ou, nas palavras de Will Steffen, Paul J. Crutzen, e John R. McNeill: “O controle do fogo pelos nossos ancestrais proveu a humanidade com uma poderosa ferramenta monopolística indisponível para outras espécies, que nos colocou firmemente no longo caminho rumo ao Antropoceno.” Nesta narrativa, a economia fóssil é precisamente a criação da humanidade, ou do “o macaco-de-fogo, Homo pyrophilus”, como na versão popular do pensamento do Antropoceno de Mark Lyna, apropriadamente intitulada “A Espécie Divina.

Agora, a habilidade de manipular o fogo foi certamente uma condição necessária para o começo da queima de combustiveis fósseis em larga escala na Inglaterra no início do século XIX. Mas foi também a causa disso?

O mais importante a se notar aqui é a estrutura lógica da narrativa do Antropoceno: algum traço universal da espécie precisa estar guiando a sua época geológica, senão seria o caso de algum subconjunto da espécie [estar cumprindo este papel]. Mas a história da natureza humana pode vir de diversas formas, tanto no gênero do Antropoceno como em outras partes do discurso sobre as mudanças climáticas.

Em um ensaio na antologia “Engaging with Climate Change”, o psicoanalista John Keene oferece uma explicação original para o porquê dos humanos poluírem o planeta e se recusarem a parar. Na infância, o ser humano descarrega dejetos sem limites e aprende que sua zelosa mãe levará para longe as fezes e a urina, e limpará sua virilha.

Como resultado, os seres humanos estariam acostumados à pratica de deteriorar os seus arredores: “Acredito que estes repetidos encontros contribuem para a crença complementar de que o planeta é uma ‘privada-mãe’ ilimitada, capaz de absorver nossos produtos tóxicos ao infinito.”

Mas onde está a evidência para qualquer tipo de conexão causal entre queima de combustíveis fósseis e defecação infantil? O que dizer de todas aquelas gerações que, até o século XIX, dominaram ambas as artes mas nunca esvaziaram os depósitos de carbono da Terra e os despejaram na atmosfera? Eles eram defecadores e queimadores apenas esperando para realizar todo o seu potencial?

É fácil zombar de certas formas de psicanálise, mas tentativas de atribuir o “business-as-usual” às propriedades da espécie humana estão fadadas à vacuidade. O que existe sempre e em toda parte não pode explicar por que uma sociedade diverge de todas as outras e desenvolve algo novo – tal como a economia fóssil, que apenas emergiu a cerca de dois séculos mas que já se tornou tão arraigada que nós a reconhecemos como a única forma em que os humanos podem produzir.

Enquanto isso, porém, o discurso climático mainstream está encharcado de referencias à humanidade como tal, “a natureza humana”, “o engenho humano”, como um grande vilão dirigindo o trem. Em “A Espécie Divina”, podemos ler “O poder divino está sendo cada vez mais exercido por nós. Nós somos os criadores da vida, mas também somos seus destruidores.” Esta é uma das mais comuns metáforas no discurso: nós, todos nós, você e eu, criamos essa bagunça juntos, e a tornamos pior a cada dia.

Entra então Naomi Klein, que em “Isso Muda Tudo” habilmente desnuda as muitas maneiras em que a acumulação de capital em geral, e em sua variante neoliberal em particular, derrama gasolina no incêndio hoje consumindo o sistema da Terra. Dando pouca indulgência ao papo sobre o humano como malfeitor universal, ela escreve, “nós estamos travados por que as ações que nos dariam a melhor chance de evitar a catástrofe – e que beneficiariam a vasta maioria – são extremamente ameaçadoras para uma elite minoritária que estrangula nossa economia, nosso processo político, e a maioria de nossos grandes veículos de comunicação.”

Então como os críticos respondem? “Klein descreve a crise climática como um confronto entre o capitalismo e o planeta,” contradiz o filósofo John Gray no The Guardian. “Seria mais preciso descrever a crise como uma luta entre as demandas em expansão da humanidade e um mundo finito.”

Gray não está sozinho. Este cisma está emergindo como a grande divisão ideológica no debate climático, e os proponentes do consenso mainstream estão contra-atacando.

No London Review of Books, Paul Kingsnorth, um escritor britânico que a tempos tem argumentado que o movimento ambiental deveria debandar e aceitar o colapso total como nosso destino, replica: “As mudanças climáticas não são algo que um pequeno grupo de bandidos impingiu sobre nós”; “no final, estamos todos implicados.” Esta, argumenta Kingsnorth, “é uma mensagem menos palatável do que uma que vê o brutal 1% ferrando o planeta e um nobre 99% se opondo a eles, mas está mais próxima da realidade.”

Está mesmo mais perto da realidade? Seis fatos simples demonstram o contrário.

Primeiro, a maquina à vapor é amplamente, e corretamente, vista como a locomotiva original do “business-as-usual”, pela qual a combustão de carvão foi inicialmente ligada à sempre-crescente espiral capitalista de produção de mercadorias.

Enquanto isso é notoriamente banal de se apontar, as máquinas à vapor não foram adotadas por alguns representantes-por-nascimento da espécie humana. A escolha de um motor primário para a produção de mercadorias não poderia ter sido uma prerrogativa da espécie, já que ela [a produção de mercadorias] pressupunha, de início, a instituição do trabalho assalariado. Foram os proprietários dos meios de produção quem instalaram o novo motor primário. Uma pequena minoria mesmo na Inglaterra – todos homens, e todos brancos – esta classe de pessoas compunha uma fração infinitesimal da humanidade na primeira metade do século XIX.

Segundo, quando os imperialistas britânicos penetraram no norte da Índia mais ou menos na mesma época, eles tropeçaram em veios de carvão que já eram, para sua grande surpresa, conhecidos para os nativos – de fato, os indianos tinham o conhecimento básico para cavar, queimar, e gerar calor à partir do carvão. E ainda assim eles não davam a mínima para o combustível.

Os britânicos, em compensação, queriam desesperadamente o carvão na superfície – para propelir barcos à vapor pelos quais eles transportavam os tesouros e matérias-primas extraídos dos camponeses indianos rumo sua metrópole, e seu próprio excesso de bens de algodão rumo os mercados do interior. O problema era que nenhum trabalhador se voluntariava a entrar nas minas. Daí que os britânicos tiveram de organizar um sistema de servidão por contrato, forçando os agricultores ao inferno para adquirir o combustível para a exploração da Índia.

Terceiro, a maior parte da explosão de emissões no século XXI se origina na República Popular da China. O condutor dessa explosão é evidente: não é o crescimento populacional chinês, nem seu consumo interno, nem seus gastos públicos, mas a tremenda expansão da indústria manufatureira, implementada na China via capital estrangeiro para extrair mais-valia do trabalhador local, percebido ao redor da virada do milênio como extraordinariamente barato e disciplinado.

Tal mudança foi parte de um assalto global sobre os salários e condições de trabalho – trabalhadores ao redor do mundo sendo pressionados pela ameaça do Capital de realocação por substitutos chineses, que só poderiam ser explorados por meio da energia fóssil como um substrato material necessário. A explosão de emissões subsequente é o legado atmosférico da guerra de classes.

Quarto, provavelmente nenhuma outra indústria encontra tanta oposição popular onde quer que se estabeleça quanto as de petróleo e gás natural. Como Klein registra tão bem, comunidades locais estão em revolta contra oleodutos, fraturamento hidráulico [13] e exploração do Alaska ao Delta do Níger, da Grécia ao Equador. Mas contra eles permanece um interesse recentemente expressado com clareza exemplar por Rex Tillerson, presidente e CEO da ExxonMobil: “Minha filosofia é fazer dinheiro. Se posso perfurar e fazer dinheiro, então é isso que quero fazer.” Esse é o espírito do Capital Fóssil encarnado.

Quinto, Estados capitalistas avançados continuam a ampliar e aprofundar implacavelmente suas infraestruturas fósseis – construindo novas rodovias, novos aeroportos, novas usinas de energia à base de carvão – sempre afinados aos interesses do Capital, dificilmente consultando suas populações sobre essas questões [14]. Apenas intelectuais realmente cegos, do tipo de um Paul Kingsnorth, podem acreditar que “estamos todos implicados” em tais políticas.

Quantos estadunidenses estão envolvidos nas decisões de dar ao carvão uma parcela maior do setor elétrico, para que a intensidade de carbono da economia dos EUA tenha subido em 2013? Quantos suecos podem ser culpados pela construção de uma nova rodovia em torno de Estocolmo – o maior projeto de infraestrutura na história sueca moderna – ou pela assistência de seu governo a usinas de energia à base de carvão na África do Sul?

As mais extremas ilusões sobre a democracia perfeita do Mercado são necessárias para manter a noção de que “todos nós” estamos guiando o trem.

Sexto, e talvez o mais óbvio: poucos recursos são tão desigualmente consumidos quanto energia. Somente os 19 milhões de habitantes de Nova Iorque consomem mais energia que os 900 milhões de habitantes da África Subsariana. A diferença no consumo de energia entre um pastor de subsistência no Sahel e um canadense médio pode estar facilmente na casa de 1000 vezes ou mais – e esse é um canadense médio, não o proprietário de cinco casas, três SUVs e um avião particular.

Um solitário cidadão estadunidense médio emite mais que 500 cidadãos da Etiópia, Chade, Afeganistão, Mali ou Burundi; quanto um milionário médio nos EUA emite – e quão mais que um trabalhador médio nos EUA ou no Camboja – permanece não-contado. Mas a marca de uma pessoa na atmosfera varia tremendamente dependendo de onde ela nasce. “Humanidade” é, como resultado, uma abstração magra demais para carregar o peso da culpa.

Estamos não na Época Geológica da humanidade, mas do capital. É claro, uma economia fóssil não precisa necessariamente ser capitalista: a União Soviética e seus Estados-satélite tiveram seus próprios mecanismos de crescimento vinculados ao carvão, petróleo e gás natural. Eles não eram menos sujos, cobertos de fuligem, ou intensivos em emissões – eram talvez até mesmo mais – que seus adversários na Guerra Fria. Então por que focar no capital? Por que razão se aprofundar sobre a destrutividade do capital, quando os estados comunistas tiveram um desempenho no mínimo tão abismal quanto?

Em medicina, uma questão similar seria talvez ‘por que concentrar esforços de pesquisa no câncer ao invés da varíola? Ambos podem ser fatais!’ Mas apenas um ainda existe. A História fechou os parênteses ao redor do sistema soviético, então estamos de volta ao início, onde a economia fóssil corresponde diretamente ao modo de produção capitalista – só que agora em escala global.

A versão stalinista merece suas próprias investigações, e em seus próprios termos (sendo os mecanismos de crescimento de um tipo próprio); mas nós não vivemos no gulag de mineração de carvão em Vorkuta nos anos 30 do século passado. Nossa realidade ecológica, abrangendo todos nós, é o mundo fundado pelo capital-à-vapor, e existem cursos alternativos que um socialismo ambientalmente responsável poderia tomar. Daí o Capital, e não a Humanidade como tal.

Não obstante o sucesso de Naomi Klein e recentes mobilizações de rua, esta permanece uma visão muito minoritária. A Ciência climática, a política e o discurso são constantemente concebidos dentro da narrativa do Antropoceno: a auto-flagelação coletiva indiferenciada, o ataque à humanidade, o pensamento em termos de Espécie, apelam à população geral de consumidores a corrigir seus atos e outras piruetas ideológicas que servem apenas para ocultar o maquinista.

Retratar certas relações sociais como propriedades naturais da espécie não é nada de novo. Des-historicizar, universalizar, eternizar e naturalizar um modo de produção específico de um tempo e lugar – estas são as estratégias clássicas da legitimação ideológica.

Elas bloqueiam qualquer prospecto de mudança. Se o “business-as-usual” é o produto da natureza humana, como podemos mesmo imaginar algo diferente? É perfeitamente lógico que os defensores do Antropoceno e de formas associadas de pensamento deem suporte a falsas soluções que se esquivam de desafiar o capital fóssil – como “geo-engenharia” no caso de Mark Lynas e Paul Crutzen, o inventor do conceito do Antropoceno – ou preguem a derrota e o desespero, como no caso de Kingsnorth.

De acordo com este último, “está claro que parar a mudança climática é impossível” – e, a propósito, construir uma usina eólica é tão ruim quanto abrir outra mina de carvão, pois ambos profanam a paisagem.

Sem antagonismo não pode haver qualquer mudança em sociedades humanas. O pensamento em termos de espécie em relação a mudança climática apenas induz à paralisia. Se todos são culpados, então ninguém é.

29 de março de 2015

O conceito de imperialismo

Prabhat Patnaik


Tradução / Há uma visão, mesmo em círculos de esquerda nos países capitalistas avançados, de que o imperialismo como categoria conceitual perdeu sua relevância na era da globalização. Por um lado, as grandes burguesias em países do terceiro mundo como a Índia, estão tão profundamente integradas no projeto da "globalização" que suas contradições com o capital metropolitano estão muito mais atenuadas hoje do que anteriormente. No período imediatamente após a descolonização, por exemplo, burguesias do terceiro mundo isolaram o mercado nacional através de barreiras protecionistas contra mercadorias metropolitanas e protegeram suas economias dos fluxos financeiros internacionais. Mas hoje elas prosseguem com satisfação políticas neoliberais. Por outro lado, os trabalhadores nos países capitalistas avançados são agora empurrados para a mesma triste situação dos trabalhadores nos países do terceiro mundo, onde aumentos na produtividade do trabalho não são correspondidos por quaisquer aumentos em salários reais, o que não era o caso anteriormente. Joseph Stiglitz por exemplo estima que hoje a taxa de salário real do trabalhador americano médio (homem) não é mais alta do que era em 1968 e possivelmente é um pouco mais baixa.

Em consequência, a divisão do mundo em dois segmentos geográficos diferentes, um dos quais domina o outro, frustrando mesmo as ambições da burguesia deste último, e cuja população trabalhadora também experimenta melhoria de padrões de vida em contraste com a do outro, não mais se sustém. Uma vez que, de acordo com esta visão, uma tal divisão é característica do fenômeno do imperialismo, o seu desaparecimento torna o próprio conceito obsoleto.

Há naturalmente muita diversidade teórica entre aqueles que questionam o pleno significado do conceito de imperialismo. Enquanto alguns confinariam o termo imperialismo apenas à fase da pré descolonização, quando esta divisão do mundo em dois segmentos diferentes e desiguais, com um a dominar o outro, era palpável, outros aceitariam sua relevância mesmo na fase da pós descolonização, isto é, mesmo na fase do dirigismo do terceiro mundo. Na verdade, o controle político chegara a um fim com a descolonização, mas eles reconheceriam nas tentativas da principal potência capitalista da época, os Estados Unidos, de "reverter" o dirigismo do terceiro mundo (adotando o termo utilizado por John Foster Dulles num contexto diferente mas semelhante) e recusar tentativas do terceiro mundo de ganhar controle sobre seus mercados e recursos naturais, um claro projeto imperialista.

Toda a série de tentativas de derrubar governos progressistas do terceiro mundo que chegaram ao poder no período da descolonização, desde Cheddi Jagan da Guiana a Mossadegh do Irã, de Arbens na Guatemala e Sukarno da Indonésia e a Allende do Chile, sem mencionar as horrendas guerras impostas a países como a Coreia e o Vietnã que estavam a iniciar-se numa trajetória socialista de desenvolvimento, testemunharia para eles a realidade do imperialismo.

Mas agora, argumentariam, o mundo tornou-se totalmente diferente. Não há dúvida de que ainda há guerras horrendas, as quais foram impostas no período mais recente a um certo número de países pela principal potência capitalista, os Estados Unidos, dentre as quais as guerras no Afeganistão e no Iraque são exemplos óbvios; mas estas diferem das guerras anteriores uma vez que foram travadas contra forças fundamentalistas ou contra regimes ditatoriais, em grande medida por razões políticas que supostamente não estão diretamente relacionadas com cálculos econômicos; e tais guerras muitas vezes obtiveram algum apoio local do povo pertencente aos próprios teatros da guerra.

E como regimes econômicos em grande parte do terceiro mundo que estão a seguir políticas neoliberais estão a assim fazer não como "fantoches do imperialismo", e sim habitualmente sob a égide de governos eleitos pelo voto popular, e conseguiram mesmo em muitos casos taxas de crescimento substanciais, ultrapassando mesmo as dos próprios países capitalistas principais, ligar tais regimes e suas políticas a "imperialismo" é claramente injustificável. A época atual, por outras palavras, em contraste não só com a do período colonial mas mesmo com a do período dirigista pós colonial, não pode ser considerada como estando a cair dentro da era do imperialismo.

Percepção errada

O problema básico com toda esta argumentação, contudo, é que a sua percepção de imperialismo está errada. O termo "imperialismo" não está ligado nem ao comportamento da burguesia do terceiro mundo nem à condição da classe trabalhadora nas metrópoles. De fato, na década de 1920 havia uma visão avançada por muitos teóricos importantes da Internacional Comunista de que o imperialismo começava a "acomodar" a burguesia do terceiro mundo. Esta visão foi chamada a tese da "descolonização", a qual naturalmente não significava o fim do colonialismo ou do imperialismo, mas apenas uma mudança na posição da burguesia terceiro-mundista em relação ao imperialismo. O ponto a destacar aqui não é se a tese da "descolonização" era ou não válida; o ponto é simplesmente que uma mudança na posição da burguesia não implica, e nunca se pensou que implicasse, num fim do imperialismo.

Além disso, a ideia de que o imperialismo está associado a fortunas divergentes das classes trabalhadoras nas metrópoles e na periferia não constitui uma característica definidora do imperialismo. Esta percepção é mantida pelos teóricos da "troca desigual", mas não por Lenin que via apenas um fino estrato de "aristocracia do trabalho" a beneficiar-se do imperialismo mas não a classe trabalhadora da metrópole como um todo. Portanto, num sentido essencial, o conceito de imperialismo nunca foi associado nem com quaisquer divergências nas fortunas da classe trabalhadora nem com qualquer "exclusão" das burguesias do terceiro mundo. O argumento de que a estagnação dos salários reais no primeiro mundo ou a integração da burguesia do terceiro mundo no corpo do capital financeiro internacional nega o conceito de imperialismo, é portanto destituído de base.

Dito de modo diferente, imperialismo implica a opressão, a opressão necessária, dos povos do terceiro mundo, das massas trabalhadoras, através da operação do capitalismo metropolitano. Como as burguesias do terceiro mundo se saem no processo, e como as fortunas dos trabalhadores do primeiro mundo se alteram sob o imperialismo, não são pertinentes para a definição de imperialismo.

Esta opressão dos trabalhadores do terceiro mundo pelo capital metropolitano não é alguma conspiração clandestina; é uma parte do próprio modus operandi do capitalismo. É errado portanto identificar imperialismo só com casos em que são engendrados golpes militares, ou em que é executadas intervenção militar por países capitalistas avançados ou pelo seu líder, os EUA. O imperialismo, muito embora possa, em certas ocasiões, dar origem a tais intervenções, ou à "diplomacia do canhão", não é idêntico à "diplomacia do canhão". Assim, o fato de nenhum coup d'etats à ordem de algumas corporações multinacionais como a Union Minière (que era ativa no Congo) ou a United Fruit Company (que era ativa na Guatemala) ou a ITT (que era ativa no Chile) possam ser citados em tempos mais recentes a acompanhar as ações destrutivas de tais corporações nos anos 50 e 60, não é um argumento contra o conceito de imperialismo. Imperialismo não é alguma ânsia por encenar golpes; é o próprio modo de existência do capitalismo.

Contexto contemporâneo

No contexto contemporâneo ele abrange todo o conjunto de disposições que asseguram a operação desembaraçada e incontestada do capital financeiro internacional. Tal operação, é óbvio, inclui entre outras coisas a apropriação dos recursos de todo o mundo pelo capital financeiro internacional, mas também significa muito mais do que isto. Mesmo se o capital internacional controlasse todos os minerais e os outros recursos naturais do mundo, se houvesse um aumento substancial do poder de compra do povo trabalhador, especialmente no terceiro mundo, então suas procuras sobre estes recursos aumentariam, resultando numa ascensão nos preços de tais recursos. Uma tal ascensão de preços, entretanto, poria em risco o sistema financeiro do mundo capitalista.

Portanto não basta que recursos estejam nas mãos do capital internacional; além disso deve verificar-se que os povos trabalhadores dos países do terceiro mundo sejam impedidos de fazerem quaisquer reivindicações sobre eles. Isto é assegurado pelo neoliberalismo através da precipitação de desemprego e de cortes de salários reais entre os trabalhadores do terceiro mundo, o que força cortes no rendimento real dos camponeses e micro produtores do terceiro mundo. Dessa forma impõe-se o conservadorismo orçamental e a "austeridade" a Estado-nações de modo a que elas não estejam em posição de fazer "transferência de renda" a favor da população trabalhadora, mas ao contrário devem provocar um aumento nos preços de um conjunto de serviços essenciais incluindo saúde e educação.

Intrínseco portanto ao neoliberalismo, o qual é uma característica chave do imperialismo contemporâneo, está um empobrecimento do povo trabalhador do terceiro mundo. É irônico ouvir em debates públicos na Índia a afirmação de que a busca do neoliberalismo, ao provocar uma aceleração na taxa de crescimento da economia, ajudará no alívio da pobreza: o neoliberalismo e suas políticas associadas são um instrumento nas mãos do capital financeiro internacional para manter baixos os rendimentos e o poder de compra do povo trabalhador. A "austeridade", como observou Noam Chomsky, é uma guerra de classe sem peias. Esperar que o neoliberalismo melhore as condições do povo trabalhador quando o seu objetivo é fazer exatamente o oposto é extraordinariamente ingênuo.

A ira do imperialismo contra os regimes dirigistas pós descolonização é explicável não apenas pelo fato de que eles estavam a tentar assegurar controle "nacional" sobre seus minérios e outros recursos, mas também porque, dadas as suas origens na luta anti-colonial e os compromissos assumidos para com o povo durante aquela luta, eles estavam, não importa em quão pequena medida, procurando efetuar alguma melhoria nas condições de vida do povo. E a arma básica do imperialismo contra tais regimes, além da intervenção militar sem rodeios, foi o desencadeamento de fundamentalismos religiosos, conflitos étnicos e outros meios igualmente reprováveis para dividir o povo. Mesmo enquanto encenava um golpe militar contra Mossadegh no Irã, ele utilizou a ajuda do Ayatollah Kashani; mais recentemente no Iraque utilizou o fundamentalismo xiita para estimular o apoio à queda de Saddam Hussein. No Afeganistão ele utilizou uma coligação fundamentalista islâmica contra o governo do Partido Democrático do Povo do Afeganistão (PDPA) e a União Soviética.

E quando algumas destas forças fundamentalistas, como o monstro de Frankenstein, começa a criar problemas para o próprio imperialismo, sua resposta invariavelmente é procurar novas forças fundamentalistas. O Estado Islâmico (EI), acerca do qual muito se fala nestes dias, foi ele próprio encorajado pela secretária de Estado estadunidense Condoleezza Rice como meio de se contrapor ao fundamentalismo xiIta, o qual fora igualmente encorajado pela mesma administração americana.

O imperialismo, em suma, fareja todas as linhas de fratura de uma sociedade do terceiro mundo e deliberadamente divide o povo de acordo com aquelas linhas. Esta é uma tática a qual o imperialismo britânico recorreu amplamente durante o seu auge, incluindo na Malásia (como aconteceu) derrotar o levantamento revolucionário do pós-guerra através da promoção e exploração de contradições étnicas entre os malaios e os chineses. E o imperialismo americano está a utilizar a mesma tática agora.

Em consequência, o imperialismo contemporâneo causa ao terceiro mundo não só uma pauperização (immiserisation) da população trabalhadora como também um processo de desintegração social.

28 de março de 2015

Miséria econômica e caos sangrento

Tommy McKearney

Political Economy

Tradução / A novela em que se transformou a claudicante tentativa do SYRIZA de negociar com a odiosa agenda da União Europeia, conduzida pelo setor financeiro, despertou compreensivelmente enorme atenção no passado recente. Tal como em todos os melhores filmes do gênero, os espectadores foram mantidos em suspense enquanto o inevitável desenlace era encenado.

Os sabichões falam solenemente sobre o risco de a Grécia deixar a UE, de ameaças à estabilidade financeira ou de uma ruptura da eurozona. Enquanto isso o novo governo em Atenas incha o peito e fala em impor responsabilidade ao poderoso ministro alemão das Finanças e aos outros membros da Troika. Que o drama acabasse por uma tímida lamúria do SYRIZA ao invés de alguma coisa tão perturbadora como um estrondo era, infelizmente, demasiado previsível.

O novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, pode ser um bem apessoado e articulado acréscimo na cena política europeia mas ele não é Fidel Castro. O seu ministro das Finanças, Varoufakis, ostenta uma pose arrojada quando viaja pelas capitais do continente, mas, por fotogênico que possa ser, ele não tem a têmpera de um Ernesto "Che" Guevara.

Aqui situa-se a essência da decepção do povo grego. Não só precisava de um governo socialista determinado e decidido obtendo ao invés sociais-democratas, como também a uma população oprimida foi permitido acreditar que um resultado diferente e melhor seria possível.

Não que qualquer socialista genuíno ou ativista da classe trabalhadora possa estar senão consternado pelo que aconteceu. Muitos na esquerda por toda a Europa saudaram a vitória eleitoral do SYRIZA com entusiasmo genuíno. O povo grego rejeitou a pilhagem, o programa neoliberal imposto sobre ele pela finança internacional, e parecia, com as declarações do governo recém eleito, que alguém estava finalmente pronto a rejeitar as exigências do capitalismo rentista. Que a retórica inicial se tenha demonstrado oca é uma regressão para todos à esquerda, pois o otimismo primitivo (e não só na Grécia) pode vir a ser substituído pelo desencanto.

Quantas vezes – alguns podem perguntar, com razão – podemos nós levantar expectativas antes de o povo deixar de acreditar na possibilidade de mudança significativa?

Seria errado, no entanto, atribuir o fracasso do SYRIZA a fraquezas pessoais, traição ou falta de fibra moral. A infelicidade dos sociais-democratas gregos era serem pequenos jogadores em um jogo muito maior – e um jogo no qual a sua liderança acreditou erradamente que podia provocar mudança enquanto permanecendo dentro dos parâmetros do sistema atual. A resposta a esta lamentável situação não deveria ser um grito estéril de "Nós bem lhe dissemos" mas esforçarmo-nos por promover um entendimento mais profundo do que saiu errado e porque.

Após a crise no capitalismo criada pelo crash econômico de 2008, a classe dominante da Europa e o seu veículo de entrega, a União Europeia, não está em estado de espírito de aguentar qualquer desafio à sua autoridade ou de tolerar desenvolvimentos que possam minar o seu poder. Como uma besta ferida, a classe dominante é ainda mais agressiva e perigosa do que era quando se sentia mais forte.

A natureza da sua resposta à presente crise manifesta-se em dois teatro diferentes mas relacionados. Um está a ser encenado com o governo e povo grego; o outro é o ainda mais letal e perigoso conflito que devasta Donets e toda a Bacia do Don. Enquanto atuam duramente nas negociações entre Atenas e a Troika, a UE e seus aliados também estão a perseguir sua agenda no Leste da Europa.

De acordo com uma rotina bem praticada, os meios de comunicação da Europa ocidental prepararam o terreno quando promoveram uma narrativa a asseverar que a Rússia e seu presidente, Vladimir Putin, pretendiam uma agressiva política de invasão e expansão. A velha e bruta retórica anti-soviética foi vomitada. Em fevereiro, o segundo homem no comando das forças da OTAN, general Adrian Bradshaw, disse no Royal United Services Institute (o think-tank estratégico da elite, em Londres) que as forças da OTAN devem preparar-se para um assalto convencional em grande escala da Rússia em um estado-membro europeu do Leste [1]. Pouco após o primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciou que estava para enviar pessoal militar para Kiev a fim de treinar tropas do regime, bem como dar financiamento adicional à BBC para "neutralizar propaganda russa" [2]

Na descrição deste clima de alarmismo e ruido de sabres foi ignorado o fato de que a UE e os Estados Unidos haviam encorajado um golpe contra um governo eleito em Kiev e que apoiaram a sua substituição por um regime que não fazia segredo da sua hostilidade a Moscou e aos ucranianos falantes do russo. Ninguém mencionou tão pouco a intrusão da OTAN numa área de imensa sensibilidade estratégica para um país que perdeu 26 milhões de cidadãos dentro da memória viva. Donets está, afinal de contas, a apenas duas horas de carro da cidade russa de Volgogrado (ou Stalingrado, como era conhecida quanto foi assaltada pela Alemanha nazista em 1942).

Além disso, deliberadamente ocultado, está um cálculo implícito que está sendo feito pelos escalões superiores dos mediadores do poder capitalista nos Estados Unidos e Europa ocidental. Perseguindo implacavelmente, ao longo das últimas décadas, uma política neoliberal a curto prazo de maximização do lucro a qualquer custo, eles levaram a que as suas próprias indústrias manufatureiras se re-estabelecessem fora dos seus países, muitas vezes nos BRICS (Brasil, Rússia, Índia e China). Inevitavelmente isto levou a um declínio da sua própria capacidade produtiva, forçando-os a tornarem-se ainda mais dependentes das finanças e dos serviços.

No longo prazo isto cria um dilema para as potências ocidentais, porque a história econômica e a experiência demonstram claramente que a finança segue a produção, ao invés do inverso. Inevitavelmente isto deve significar um declínio da sua hegemonia global – a menos que possam compensar esta tendência por uma política relacionada de (a) utilizar dívida para subjugar alguns e (b) minar qualquer zona potencial de competição econômica entre outros.

Mas a ordem vigente no Ocidente persiste nesta política de duas vias, com a intenção óbvia de que os fardos das dívidas esmagarão, conterão e confundirão os estados da Europa inclinados à social-democracia enquanto criam caos alhures, impedindo a emergência de uma potência econômica rival [3]. O cínico cálculo que unifica esta estratégia é que, com a ausência de um bloco econômico alternativo, os endividados têm poucas opções e os BRICS têm poucas saídas. Aqueles que acreditam que eles venceram a "Guerra fria" pela ameaça da mútua destruição assegurada agora parecem sentir que podem reter influência por um estratagema de "Dominaremos ou arruinaremos".

E a evidência para concretizar esta afirmação? A prova está na ausência de qualquer outra explicação possível ou plausível para o comportamento dos líderes mundiais que impuseram miséria econômica a vastas seções da classe trabalhadora europeia e americana, enquanto levam o caos sangrento ao Oriente Médio, África, Afeganistão e agora a Ucrânia. Nenhum economista do mercado racional demonstrou que a austeridade pode levar a qualquer coisa diferente de deflação e perda de produção. Nenhum indivíduo são alguma vez argumentou que a intervenção ocidental no Norte de África, Oriente Médio, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Síria ou Rússia pode levar a qualquer outra coisa senão a uma catástrofe mundial.

A máxima de que o socialismo é a única alternativa à barbárie, ou pior, nunca foi mais válida do que hoje.

Notas:

[1] Sam Jones, "NATO warned to prepare for move on territory", Financial Times, 21 de fevereiro de 2015.
[2] Chris Green, "British troops to 'train soldiers in Ukraine'", The Independent (Londres), 24 de fevereiro de 2015.
[3] Para os que possam argumentar que a China refuta essa afirmação vale a pena ler o artigo de Martin Wolf "How addiction to debt came even to China", Financial Times, 24 de fevereiro de 2015.

27 de março de 2015

Rejeitando a história revisionista

por Ron Jacobs

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Uma compreensão popular da história no mundo de hoje envolve culpar os revolucionários mais radicais da França no final do século XVIII e da Rússia em 1917 por muitos dos males modernos. Esta tendência é defendida na cultura intelectual e popular e é o fundamento em que muito da política moderna se baseia. Para os ricos e os poderosos atualmente, é uma compreensão egoísta e incrivelmente útil. Assim, qualquer tentativa popular de alterar essa visão é implacavelmente depreciada e negada. Foi exatamente isso que ocorreu nas décadas de 1960 e 1970, quando povos colonizados, jovens, trabalhadores e outros reconsideraram seu papel na história e tomaram as ruas, mudando para sempre a paisagem político/cultural em que vivemos.

Nos anos posteriores, porém, é o entendimento histórico que serve aos poderosos que esteve em ascensão. Mais comumente conhecido pelos historiadores como revisionismo, esse entendimento não só culpa as forças revolucionárias pelos excessos assassinos da humanidade, mas também insta a retornar a uma situação semi-feudal que estratifica as pessoas em termos de classe, raça e gênero, permitindo diferentes níveis de liberdade econômica e política de acordo com uma hierarquia projetada por aqueles no poder. Com efeito, deseja criar legalmente o mundo político já formado economicamente através do neoliberalismo.

O revisionismo é uma abordagem liberal da história. Ele equipara o colonialismo, o racismo e o anti-semitismo do nazismo com as bases anticoloniais, anti-racistas e liberacionistas do comunismo. Ao fazer isso, ele também ignora fatos essenciais indisputáveis ​​do desenvolvimento capitalista ocidental. Entre estas negativas está o papel que o comércio africano de escravos desempenhou em todas as nações europeias envolvidas, seu papel fundamental (junto com a própria escravidão) nos Estados Unidos e o colonialismo. Ao ignorar o papel essencial do colonialismo - e devido ao racismo inerente à análise revisionista - as guerras contra os povos colonizados nem sequer são consideradas guerras. Em outras palavras, a menos que os europeus morram em grande escala, não há guerra. Isto é especialmente o caso nessas situações (por exemplo, o massacre realizado pelos colonos alemães dos povos Herero e Nama no sul da África ou pelos EUA em Granada, no Panamá e na primeira Guerra do Golfo), onde o número de mortos nas mãos do vencedor ultrapassa em muito o número de mortos do exército vitorioso.

Na condução da guerra, todos os governos envolvidos são mais parecidos que diferentes, mais genocidas do que em busca da paz, mais autoritários do que protetores de direitos. Guerra total significa mobilização total e prisão ou mesmo morte para aqueles que discordam. Deus proteja o soldado que não quiser participar: Losurdo escreve sobre um general italiano durante a Primeira Guerra Mundial que "realizou inspeções de trincheiras com um esquadrão de execução" para economizar tempo. A batalha é a coisa mais importante, afinal. Seria melhor que a bucha de canhão sem vontade estivesse ciente.

O fim dos anos 70 não significou o fim do entendimento não-revisionista da história tornada popular pelas massas nas ruas. No entanto, sinalizou um esforço renovado para sufocar essa tensão particular. Isso estava de acordo com os tempos. Thatcher e Reagan estavam presidindo a abertura do capitalismo neoliberal sobre o estado econômico keynesiano e rearmando suas já poderosas forças armadas. A União Soviética estava caminhando para um fim promovido pelo erro de cálculo político e econômico intensificado por uma guerra contra sua revolução de 1917, que começou antes que a revolução tivesse os meios de solidificar. Diante do ataque neoliberal, os governos socialistas e social-democratas na Europa começaram a se tornar o oposto, socialista ou social democrata restante apenas de nome. Desde então, a esquerda tem lutado para recuperar um senso de possibilidade ou se inscrever com a ofensiva neoliberal fingindo que ainda pode ser de esquerda, enquanto abraça a encarnação mais desumana do capitalismo monopolista até hoje.

Domenico Losurdo é um filósofo e marxista italiano. Ele também é um dos críticos mais agudos do liberalismo. Seu último trabalho a ser traduzido para o inglês, Il revisionismo storico. Problemi e miti, é uma repreensão intelectual aos historiadores revisionistas mascarados como árbitros objetivos do passado quando, na realidade, suas palavras servem ao capital financeiro e a sua devastação do planeta. Losurdo rejeita a representação do Ocidente de si mesma como civilizada e humana em contraste com a Rússia e o Oriente. Filósofo por filósofo, historiador por historiador, ele disseca as tentativas dos intelectuais ocidentais de mitificar essas mentiras habilidosa e decisivamente. Losurdo pega as tentativas de vários historiadores revisionistas que culpam os bolcheviques e jacobinos franceses pela história do terror e os transforma em sua cabeça. Em vez disso, ele escreve: São os regimes capitalistas reacionários e liberais cujas políticas de guerra total e remoção forçada de populações (os nativos americanos e os africanos, principalmente) que criaram a reação dos governos revolucionários. Em outras palavras, não foram as forças revolucionárias representadas pelos jacobinos e pelos bolcheviques que levaram a assassinatos em massa, limpeza étnica e escravidão neste mundo, mas os governos contra os quais se revoltaram. Além disso, Losurdo inclui o fenômeno do fascismo do século XX na tradição colonial ocidental. Em outras palavras, os planos de Hitler para colonizar a Europa Oriental não estavam fora dos esforços colonialiais anteriores do Ocidente. De fato, como Losurdo repetidamente menciona, Hitler admirava a totalidade da erradicação feita pelos colonos americanos dos povos indígenas cuja terra eles roubaram e via como um modelo para sua forma de fascismo.

Losurdo argumenta que no sistema reacionário não há guerra senão guerra "racial". Ele cita a propaganda usada pelas nações capitalistas para mobilizar os cidadãos em seus respectivos estados, transformando as guerras do século XX contra o comunismo em guerras contra ideologias estrangeiras, "asiáticas", até mesmo judaicas. Encontra-se um cenário semelhante no século XXI em que guerras contra nações com grandes populações muçulmanas se tornaram guerras "racializadas" contra o próprio mundo muçulmano. Como Losurdo deixa claro, essa racialização ajudou a criar uma mentalidade que permite o que ele chama de "reabilitação do colonialismo". Em outras palavras, os poderes que promovem sua ideia egoísta de que existem partes do mundo - na maioria não brancas - que poderiam beneficiar-se de serem colonizadas por esses poderes. No que só pode ser descrito como uma instância irônica, ouvi esse sentimento expresso por dois homens afro-americanos em Greenwich Village Washington Square Park, em 11 de setembro de 2001, enquanto a fumaça das torres gêmeas queimadas raspavam as narinas e gargantas de cada um presentes.

Il revisionismo storico. Problemi e miti é um documento implacável. É denso e desconcertante. É precisamente por isso que deve ser considerado um dos mais importantes livros de história escritos desde os eventos conhecidos como 9/11. Afinal, foram esses eventos que tomou o projeto revisionista já em andamento desde o final dos anos 1970 e o colocou em hiperimpulsão. Por intenção, não houve um dia de paz desde então. Este fato não é um acidente. Essa é a essência do texto de Losurdo.