30 de março de 2015

O mito do antropoceno

Culpar toda a humanidade pela mudança climática deixa o capitalismo sair ileso

Andreas Malm

Jacobin


John Collier / Biblioteca do Congresso

O ano passado foi o mais quente já registrado. Ainda assim, os últimos números mostram que em 2013 a fonte que gerou a maior parte da energia para a economia mundial não foi solar, eólica, nem mesmo o gás natural ou petróleo, mas o carvão.

O crescimento nas emissões globais – de 1% ao ano nos anos 90 para 3% até agora neste milênio – é impressionante. É um aumento paralelo ao do nosso conhecimento crescente das terríveis consequências do uso de combustíveis fósseis.

Quem está nos levando ao desastre? Uma resposta radical seria a dependência do capitalismo da extração e do uso de energias fósseis. Alguns, porém, preferem identificar outros culpados.

A Terra, nos dizem, entrou agora no “Antropoceno”: a Época da Humanidade. Enormemente popular – e aceito até mesmo por muitos estudiosos marxistas – o conceito do Antropoceno sugere que a humanidade é a nova força geológica transformando o planeta para além de qualquer reconhecimento, principalmente ao queimar quantidades prodigiosas de carvão, petróleo e gás natural.

De acordo com estes intelectuais, tal degradação é o resultado dos humanos agindo segundo suas predisposições inatas, o destino inescapável para um planeta sujeito ao “business-as-usual” da humanidade. De fato, os proponentes não poderiam argumentar de outra forma, por que se essas dinâmicas tivessem um caráter mais contingente, a narrativa de uma espécie inteira ascendendo à supremacia biosférica seria de difícil defesa.

A história deles está centrada em um elemento clássico: o fogo. Apenas a espécie humana pode manipular o fogo, e daí que ela seja a única capaz de destruir o clima; quando nossos ancestrais aprenderam a incendiar as coisas, eles acenderam o estopim do “business-as-usual”. Aqui, escrevem os proeminentes cientistas climáticos Michael Raupach e Josep Canadell, estava “o gatilho evolucionário essencial para o Antropoceno”, levando a humanidade direto para “a descoberta de que a energia poderia ser derivada não apenas de carbono de detritos bióticos, mas também de carbono de detritos fósseis, inicialmente à partir do carvão.”

A razão primária para a atual queima de combustíveis fósseis seria que “muito antes da Era Industrial, uma espécie particular de primatas aprendeu como drenar as reservas de energia estocadas em carbono detrítico.” Eu aprendendo a andar com um ano de idade é a razão pra que eu dance salsa hoje; quando a humanidade inflamou sua primeira árvore morta, só poderia resultar, um milhão de anos depois, em queimar um barril de petróleo.

Ou, nas palavras de Will Steffen, Paul J. Crutzen, e John R. McNeill: “O controle do fogo pelos nossos ancestrais proveu a humanidade com uma poderosa ferramenta monopolística indisponível para outras espécies, que nos colocou firmemente no longo caminho rumo ao Antropoceno.” Nesta narrativa, a economia fóssil é precisamente a criação da humanidade, ou do “o macaco-de-fogo, Homo pyrophilus”, como na versão popular do pensamento do Antropoceno de Mark Lyna, apropriadamente intitulada “A Espécie Divina.

Agora, a habilidade de manipular o fogo foi certamente uma condição necessária para o começo da queima de combustiveis fósseis em larga escala na Inglaterra no início do século XIX. Mas foi também a causa disso?

O mais importante a se notar aqui é a estrutura lógica da narrativa do Antropoceno: algum traço universal da espécie precisa estar guiando a sua época geológica, senão seria o caso de algum subconjunto da espécie [estar cumprindo este papel]. Mas a história da natureza humana pode vir de diversas formas, tanto no gênero do Antropoceno como em outras partes do discurso sobre as mudanças climáticas.

Em um ensaio na antologia “Engaging with Climate Change”, o psicoanalista John Keene oferece uma explicação original para o porquê dos humanos poluírem o planeta e se recusarem a parar. Na infância, o ser humano descarrega dejetos sem limites e aprende que sua zelosa mãe levará para longe as fezes e a urina, e limpará sua virilha.

Como resultado, os seres humanos estariam acostumados à pratica de deteriorar os seus arredores: “Acredito que estes repetidos encontros contribuem para a crença complementar de que o planeta é uma ‘privada-mãe’ ilimitada, capaz de absorver nossos produtos tóxicos ao infinito.”

Mas onde está a evidência para qualquer tipo de conexão causal entre queima de combustíveis fósseis e defecação infantil? O que dizer de todas aquelas gerações que, até o século XIX, dominaram ambas as artes mas nunca esvaziaram os depósitos de carbono da Terra e os despejaram na atmosfera? Eles eram defecadores e queimadores apenas esperando para realizar todo o seu potencial?

É fácil zombar de certas formas de psicanálise, mas tentativas de atribuir o “business-as-usual” às propriedades da espécie humana estão fadadas à vacuidade. O que existe sempre e em toda parte não pode explicar por que uma sociedade diverge de todas as outras e desenvolve algo novo – tal como a economia fóssil, que apenas emergiu a cerca de dois séculos mas que já se tornou tão arraigada que nós a reconhecemos como a única forma em que os humanos podem produzir.

Enquanto isso, porém, o discurso climático mainstream está encharcado de referencias à humanidade como tal, “a natureza humana”, “o engenho humano”, como um grande vilão dirigindo o trem. Em “A Espécie Divina”, podemos ler “O poder divino está sendo cada vez mais exercido por nós. Nós somos os criadores da vida, mas também somos seus destruidores.” Esta é uma das mais comuns metáforas no discurso: nós, todos nós, você e eu, criamos essa bagunça juntos, e a tornamos pior a cada dia.

Entra então Naomi Klein, que em “Isso Muda Tudo” habilmente desnuda as muitas maneiras em que a acumulação de capital em geral, e em sua variante neoliberal em particular, derrama gasolina no incêndio hoje consumindo o sistema da Terra. Dando pouca indulgência ao papo sobre o humano como malfeitor universal, ela escreve, “nós estamos travados por que as ações que nos dariam a melhor chance de evitar a catástrofe – e que beneficiariam a vasta maioria – são extremamente ameaçadoras para uma elite minoritária que estrangula nossa economia, nosso processo político, e a maioria de nossos grandes veículos de comunicação.”

Então como os críticos respondem? “Klein descreve a crise climática como um confronto entre o capitalismo e o planeta,” contradiz o filósofo John Gray no The Guardian. “Seria mais preciso descrever a crise como uma luta entre as demandas em expansão da humanidade e um mundo finito.”

Gray não está sozinho. Este cisma está emergindo como a grande divisão ideológica no debate climático, e os proponentes do consenso mainstream estão contra-atacando.

No London Review of Books, Paul Kingsnorth, um escritor britânico que a tempos tem argumentado que o movimento ambiental deveria debandar e aceitar o colapso total como nosso destino, replica: “As mudanças climáticas não são algo que um pequeno grupo de bandidos impingiu sobre nós”; “no final, estamos todos implicados.” Esta, argumenta Kingsnorth, “é uma mensagem menos palatável do que uma que vê o brutal 1% ferrando o planeta e um nobre 99% se opondo a eles, mas está mais próxima da realidade.”

Está mesmo mais perto da realidade? Seis fatos simples demonstram o contrário.

Primeiro, a maquina à vapor é amplamente, e corretamente, vista como a locomotiva original do “business-as-usual”, pela qual a combustão de carvão foi inicialmente ligada à sempre-crescente espiral capitalista de produção de mercadorias.

Enquanto isso é notoriamente banal de se apontar, as máquinas à vapor não foram adotadas por alguns representantes-por-nascimento da espécie humana. A escolha de um motor primário para a produção de mercadorias não poderia ter sido uma prerrogativa da espécie, já que ela [a produção de mercadorias] pressupunha, de início, a instituição do trabalho assalariado. Foram os proprietários dos meios de produção quem instalaram o novo motor primário. Uma pequena minoria mesmo na Inglaterra – todos homens, e todos brancos – esta classe de pessoas compunha uma fração infinitesimal da humanidade na primeira metade do século XIX.

Segundo, quando os imperialistas britânicos penetraram no norte da Índia mais ou menos na mesma época, eles tropeçaram em veios de carvão que já eram, para sua grande surpresa, conhecidos para os nativos – de fato, os indianos tinham o conhecimento básico para cavar, queimar, e gerar calor à partir do carvão. E ainda assim eles não davam a mínima para o combustível.

Os britânicos, em compensação, queriam desesperadamente o carvão na superfície – para propelir barcos à vapor pelos quais eles transportavam os tesouros e matérias-primas extraídos dos camponeses indianos rumo sua metrópole, e seu próprio excesso de bens de algodão rumo os mercados do interior. O problema era que nenhum trabalhador se voluntariava a entrar nas minas. Daí que os britânicos tiveram de organizar um sistema de servidão por contrato, forçando os agricultores ao inferno para adquirir o combustível para a exploração da Índia.

Terceiro, a maior parte da explosão de emissões no século XXI se origina na República Popular da China. O condutor dessa explosão é evidente: não é o crescimento populacional chinês, nem seu consumo interno, nem seus gastos públicos, mas a tremenda expansão da indústria manufatureira, implementada na China via capital estrangeiro para extrair mais-valia do trabalhador local, percebido ao redor da virada do milênio como extraordinariamente barato e disciplinado.

Tal mudança foi parte de um assalto global sobre os salários e condições de trabalho – trabalhadores ao redor do mundo sendo pressionados pela ameaça do Capital de realocação por substitutos chineses, que só poderiam ser explorados por meio da energia fóssil como um substrato material necessário. A explosão de emissões subsequente é o legado atmosférico da guerra de classes.

Quarto, provavelmente nenhuma outra indústria encontra tanta oposição popular onde quer que se estabeleça quanto as de petróleo e gás natural. Como Klein registra tão bem, comunidades locais estão em revolta contra oleodutos, fraturamento hidráulico [13] e exploração do Alaska ao Delta do Níger, da Grécia ao Equador. Mas contra eles permanece um interesse recentemente expressado com clareza exemplar por Rex Tillerson, presidente e CEO da ExxonMobil: “Minha filosofia é fazer dinheiro. Se posso perfurar e fazer dinheiro, então é isso que quero fazer.” Esse é o espírito do Capital Fóssil encarnado.

Quinto, Estados capitalistas avançados continuam a ampliar e aprofundar implacavelmente suas infraestruturas fósseis – construindo novas rodovias, novos aeroportos, novas usinas de energia à base de carvão – sempre afinados aos interesses do Capital, dificilmente consultando suas populações sobre essas questões [14]. Apenas intelectuais realmente cegos, do tipo de um Paul Kingsnorth, podem acreditar que “estamos todos implicados” em tais políticas.

Quantos estadunidenses estão envolvidos nas decisões de dar ao carvão uma parcela maior do setor elétrico, para que a intensidade de carbono da economia dos EUA tenha subido em 2013? Quantos suecos podem ser culpados pela construção de uma nova rodovia em torno de Estocolmo – o maior projeto de infraestrutura na história sueca moderna – ou pela assistência de seu governo a usinas de energia à base de carvão na África do Sul?

As mais extremas ilusões sobre a democracia perfeita do Mercado são necessárias para manter a noção de que “todos nós” estamos guiando o trem.

Sexto, e talvez o mais óbvio: poucos recursos são tão desigualmente consumidos quanto energia. Somente os 19 milhões de habitantes de Nova Iorque consomem mais energia que os 900 milhões de habitantes da África Subsariana. A diferença no consumo de energia entre um pastor de subsistência no Sahel e um canadense médio pode estar facilmente na casa de 1000 vezes ou mais – e esse é um canadense médio, não o proprietário de cinco casas, três SUVs e um avião particular.

Um solitário cidadão estadunidense médio emite mais que 500 cidadãos da Etiópia, Chade, Afeganistão, Mali ou Burundi; quanto um milionário médio nos EUA emite – e quão mais que um trabalhador médio nos EUA ou no Camboja – permanece não-contado. Mas a marca de uma pessoa na atmosfera varia tremendamente dependendo de onde ela nasce. “Humanidade” é, como resultado, uma abstração magra demais para carregar o peso da culpa.

Estamos não na Época Geológica da humanidade, mas do capital. É claro, uma economia fóssil não precisa necessariamente ser capitalista: a União Soviética e seus Estados-satélite tiveram seus próprios mecanismos de crescimento vinculados ao carvão, petróleo e gás natural. Eles não eram menos sujos, cobertos de fuligem, ou intensivos em emissões – eram talvez até mesmo mais – que seus adversários na Guerra Fria. Então por que focar no capital? Por que razão se aprofundar sobre a destrutividade do capital, quando os estados comunistas tiveram um desempenho no mínimo tão abismal quanto?

Em medicina, uma questão similar seria talvez ‘por que concentrar esforços de pesquisa no câncer ao invés da varíola? Ambos podem ser fatais!’ Mas apenas um ainda existe. A História fechou os parênteses ao redor do sistema soviético, então estamos de volta ao início, onde a economia fóssil corresponde diretamente ao modo de produção capitalista – só que agora em escala global.

A versão stalinista merece suas próprias investigações, e em seus próprios termos (sendo os mecanismos de crescimento de um tipo próprio); mas nós não vivemos no gulag de mineração de carvão em Vorkuta nos anos 30 do século passado. Nossa realidade ecológica, abrangendo todos nós, é o mundo fundado pelo capital-à-vapor, e existem cursos alternativos que um socialismo ambientalmente responsável poderia tomar. Daí o Capital, e não a Humanidade como tal.

Não obstante o sucesso de Naomi Klein e recentes mobilizações de rua, esta permanece uma visão muito minoritária. A Ciência climática, a política e o discurso são constantemente concebidos dentro da narrativa do Antropoceno: a auto-flagelação coletiva indiferenciada, o ataque à humanidade, o pensamento em termos de Espécie, apelam à população geral de consumidores a corrigir seus atos e outras piruetas ideológicas que servem apenas para ocultar o maquinista.

Retratar certas relações sociais como propriedades naturais da espécie não é nada de novo. Des-historicizar, universalizar, eternizar e naturalizar um modo de produção específico de um tempo e lugar – estas são as estratégias clássicas da legitimação ideológica.

Elas bloqueiam qualquer prospecto de mudança. Se o “business-as-usual” é o produto da natureza humana, como podemos mesmo imaginar algo diferente? É perfeitamente lógico que os defensores do Antropoceno e de formas associadas de pensamento deem suporte a falsas soluções que se esquivam de desafiar o capital fóssil – como “geo-engenharia” no caso de Mark Lynas e Paul Crutzen, o inventor do conceito do Antropoceno – ou preguem a derrota e o desespero, como no caso de Kingsnorth.

De acordo com este último, “está claro que parar a mudança climática é impossível” – e, a propósito, construir uma usina eólica é tão ruim quanto abrir outra mina de carvão, pois ambos profanam a paisagem.

Sem antagonismo não pode haver qualquer mudança em sociedades humanas. O pensamento em termos de espécie em relação a mudança climática apenas induz à paralisia. Se todos são culpados, então ninguém é.

29 de março de 2015

O conceito de imperialismo

Prabhat Patnaik


Tradução / Há uma visão, mesmo em círculos de esquerda nos países capitalistas avançados, de que o imperialismo como categoria conceitual perdeu sua relevância na era da globalização. Por um lado, as grandes burguesias em países do terceiro mundo como a Índia, estão tão profundamente integradas no projeto da "globalização" que suas contradições com o capital metropolitano estão muito mais atenuadas hoje do que anteriormente. No período imediatamente após a descolonização, por exemplo, burguesias do terceiro mundo isolaram o mercado nacional através de barreiras protecionistas contra mercadorias metropolitanas e protegeram suas economias dos fluxos financeiros internacionais. Mas hoje elas prosseguem com satisfação políticas neoliberais. Por outro lado, os trabalhadores nos países capitalistas avançados são agora empurrados para a mesma triste situação dos trabalhadores nos países do terceiro mundo, onde aumentos na produtividade do trabalho não são correspondidos por quaisquer aumentos em salários reais, o que não era o caso anteriormente. Joseph Stiglitz por exemplo estima que hoje a taxa de salário real do trabalhador americano médio (homem) não é mais alta do que era em 1968 e possivelmente é um pouco mais baixa.

Em consequência, a divisão do mundo em dois segmentos geográficos diferentes, um dos quais domina o outro, frustrando mesmo as ambições da burguesia deste último, e cuja população trabalhadora também experimenta melhoria de padrões de vida em contraste com a do outro, não mais se sustém. Uma vez que, de acordo com esta visão, uma tal divisão é característica do fenômeno do imperialismo, o seu desaparecimento torna o próprio conceito obsoleto.

Há naturalmente muita diversidade teórica entre aqueles que questionam o pleno significado do conceito de imperialismo. Enquanto alguns confinariam o termo imperialismo apenas à fase da pré descolonização, quando esta divisão do mundo em dois segmentos diferentes e desiguais, com um a dominar o outro, era palpável, outros aceitariam sua relevância mesmo na fase da pós descolonização, isto é, mesmo na fase do dirigismo do terceiro mundo. Na verdade, o controle político chegara a um fim com a descolonização, mas eles reconheceriam nas tentativas da principal potência capitalista da época, os Estados Unidos, de "reverter" o dirigismo do terceiro mundo (adotando o termo utilizado por John Foster Dulles num contexto diferente mas semelhante) e recusar tentativas do terceiro mundo de ganhar controle sobre seus mercados e recursos naturais, um claro projeto imperialista.

Toda a série de tentativas de derrubar governos progressistas do terceiro mundo que chegaram ao poder no período da descolonização, desde Cheddi Jagan da Guiana a Mossadegh do Irã, de Arbens na Guatemala e Sukarno da Indonésia e a Allende do Chile, sem mencionar as horrendas guerras impostas a países como a Coreia e o Vietnã que estavam a iniciar-se numa trajetória socialista de desenvolvimento, testemunharia para eles a realidade do imperialismo.

Mas agora, argumentariam, o mundo tornou-se totalmente diferente. Não há dúvida de que ainda há guerras horrendas, as quais foram impostas no período mais recente a um certo número de países pela principal potência capitalista, os Estados Unidos, dentre as quais as guerras no Afeganistão e no Iraque são exemplos óbvios; mas estas diferem das guerras anteriores uma vez que foram travadas contra forças fundamentalistas ou contra regimes ditatoriais, em grande medida por razões políticas que supostamente não estão diretamente relacionadas com cálculos econômicos; e tais guerras muitas vezes obtiveram algum apoio local do povo pertencente aos próprios teatros da guerra.

E como regimes econômicos em grande parte do terceiro mundo que estão a seguir políticas neoliberais estão a assim fazer não como "fantoches do imperialismo", e sim habitualmente sob a égide de governos eleitos pelo voto popular, e conseguiram mesmo em muitos casos taxas de crescimento substanciais, ultrapassando mesmo as dos próprios países capitalistas principais, ligar tais regimes e suas políticas a "imperialismo" é claramente injustificável. A época atual, por outras palavras, em contraste não só com a do período colonial mas mesmo com a do período dirigista pós colonial, não pode ser considerada como estando a cair dentro da era do imperialismo.

Percepção errada

O problema básico com toda esta argumentação, contudo, é que a sua percepção de imperialismo está errada. O termo "imperialismo" não está ligado nem ao comportamento da burguesia do terceiro mundo nem à condição da classe trabalhadora nas metrópoles. De fato, na década de 1920 havia uma visão avançada por muitos teóricos importantes da Internacional Comunista de que o imperialismo começava a "acomodar" a burguesia do terceiro mundo. Esta visão foi chamada a tese da "descolonização", a qual naturalmente não significava o fim do colonialismo ou do imperialismo, mas apenas uma mudança na posição da burguesia terceiro-mundista em relação ao imperialismo. O ponto a destacar aqui não é se a tese da "descolonização" era ou não válida; o ponto é simplesmente que uma mudança na posição da burguesia não implica, e nunca se pensou que implicasse, num fim do imperialismo.

Além disso, a ideia de que o imperialismo está associado a fortunas divergentes das classes trabalhadoras nas metrópoles e na periferia não constitui uma característica definidora do imperialismo. Esta percepção é mantida pelos teóricos da "troca desigual", mas não por Lenin que via apenas um fino estrato de "aristocracia do trabalho" a beneficiar-se do imperialismo mas não a classe trabalhadora da metrópole como um todo. Portanto, num sentido essencial, o conceito de imperialismo nunca foi associado nem com quaisquer divergências nas fortunas da classe trabalhadora nem com qualquer "exclusão" das burguesias do terceiro mundo. O argumento de que a estagnação dos salários reais no primeiro mundo ou a integração da burguesia do terceiro mundo no corpo do capital financeiro internacional nega o conceito de imperialismo, é portanto destituído de base.

Dito de modo diferente, imperialismo implica a opressão, a opressão necessária, dos povos do terceiro mundo, das massas trabalhadoras, através da operação do capitalismo metropolitano. Como as burguesias do terceiro mundo se saem no processo, e como as fortunas dos trabalhadores do primeiro mundo se alteram sob o imperialismo, não são pertinentes para a definição de imperialismo.

Esta opressão dos trabalhadores do terceiro mundo pelo capital metropolitano não é alguma conspiração clandestina; é uma parte do próprio modus operandi do capitalismo. É errado portanto identificar imperialismo só com casos em que são engendrados golpes militares, ou em que é executadas intervenção militar por países capitalistas avançados ou pelo seu líder, os EUA. O imperialismo, muito embora possa, em certas ocasiões, dar origem a tais intervenções, ou à "diplomacia do canhão", não é idêntico à "diplomacia do canhão". Assim, o fato de nenhum coup d'etats à ordem de algumas corporações multinacionais como a Union Minière (que era ativa no Congo) ou a United Fruit Company (que era ativa na Guatemala) ou a ITT (que era ativa no Chile) possam ser citados em tempos mais recentes a acompanhar as ações destrutivas de tais corporações nos anos 50 e 60, não é um argumento contra o conceito de imperialismo. Imperialismo não é alguma ânsia por encenar golpes; é o próprio modo de existência do capitalismo.

Contexto contemporâneo

No contexto contemporâneo ele abrange todo o conjunto de disposições que asseguram a operação desembaraçada e incontestada do capital financeiro internacional. Tal operação, é óbvio, inclui entre outras coisas a apropriação dos recursos de todo o mundo pelo capital financeiro internacional, mas também significa muito mais do que isto. Mesmo se o capital internacional controlasse todos os minerais e os outros recursos naturais do mundo, se houvesse um aumento substancial do poder de compra do povo trabalhador, especialmente no terceiro mundo, então suas procuras sobre estes recursos aumentariam, resultando numa ascensão nos preços de tais recursos. Uma tal ascensão de preços, entretanto, poria em risco o sistema financeiro do mundo capitalista.

Portanto não basta que recursos estejam nas mãos do capital internacional; além disso deve verificar-se que os povos trabalhadores dos países do terceiro mundo sejam impedidos de fazerem quaisquer reivindicações sobre eles. Isto é assegurado pelo neoliberalismo através da precipitação de desemprego e de cortes de salários reais entre os trabalhadores do terceiro mundo, o que força cortes no rendimento real dos camponeses e micro produtores do terceiro mundo. Dessa forma impõe-se o conservadorismo orçamental e a "austeridade" a Estado-nações de modo a que elas não estejam em posição de fazer "transferência de renda" a favor da população trabalhadora, mas ao contrário devem provocar um aumento nos preços de um conjunto de serviços essenciais incluindo saúde e educação.

Intrínseco portanto ao neoliberalismo, o qual é uma característica chave do imperialismo contemporâneo, está um empobrecimento do povo trabalhador do terceiro mundo. É irônico ouvir em debates públicos na Índia a afirmação de que a busca do neoliberalismo, ao provocar uma aceleração na taxa de crescimento da economia, ajudará no alívio da pobreza: o neoliberalismo e suas políticas associadas são um instrumento nas mãos do capital financeiro internacional para manter baixos os rendimentos e o poder de compra do povo trabalhador. A "austeridade", como observou Noam Chomsky, é uma guerra de classe sem peias. Esperar que o neoliberalismo melhore as condições do povo trabalhador quando o seu objetivo é fazer exatamente o oposto é extraordinariamente ingênuo.

A ira do imperialismo contra os regimes dirigistas pós descolonização é explicável não apenas pelo fato de que eles estavam a tentar assegurar controle "nacional" sobre seus minérios e outros recursos, mas também porque, dadas as suas origens na luta anti-colonial e os compromissos assumidos para com o povo durante aquela luta, eles estavam, não importa em quão pequena medida, procurando efetuar alguma melhoria nas condições de vida do povo. E a arma básica do imperialismo contra tais regimes, além da intervenção militar sem rodeios, foi o desencadeamento de fundamentalismos religiosos, conflitos étnicos e outros meios igualmente reprováveis para dividir o povo. Mesmo enquanto encenava um golpe militar contra Mossadegh no Irã, ele utilizou a ajuda do Ayatollah Kashani; mais recentemente no Iraque utilizou o fundamentalismo xiita para estimular o apoio à queda de Saddam Hussein. No Afeganistão ele utilizou uma coligação fundamentalista islâmica contra o governo do Partido Democrático do Povo do Afeganistão (PDPA) e a União Soviética.

E quando algumas destas forças fundamentalistas, como o monstro de Frankenstein, começa a criar problemas para o próprio imperialismo, sua resposta invariavelmente é procurar novas forças fundamentalistas. O Estado Islâmico (EI), acerca do qual muito se fala nestes dias, foi ele próprio encorajado pela secretária de Estado estadunidense Condoleezza Rice como meio de se contrapor ao fundamentalismo xiIta, o qual fora igualmente encorajado pela mesma administração americana.

O imperialismo, em suma, fareja todas as linhas de fratura de uma sociedade do terceiro mundo e deliberadamente divide o povo de acordo com aquelas linhas. Esta é uma tática a qual o imperialismo britânico recorreu amplamente durante o seu auge, incluindo na Malásia (como aconteceu) derrotar o levantamento revolucionário do pós-guerra através da promoção e exploração de contradições étnicas entre os malaios e os chineses. E o imperialismo americano está a utilizar a mesma tática agora.

Em consequência, o imperialismo contemporâneo causa ao terceiro mundo não só uma pauperização (immiserisation) da população trabalhadora como também um processo de desintegração social.

27 de março de 2015

Rejeitando a história revisionista

por Ron Jacobs

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Uma compreensão popular da história no mundo de hoje envolve culpar os revolucionários mais radicais da França no final do século XVIII e da Rússia em 1917 por muitos dos males modernos. Esta tendência é defendida na cultura intelectual e popular e é o fundamento em que muito da política moderna se baseia. Para os ricos e os poderosos atualmente, é uma compreensão egoísta e incrivelmente útil. Assim, qualquer tentativa popular de alterar essa visão é implacavelmente depreciada e negada. Foi exatamente isso que ocorreu nas décadas de 1960 e 1970, quando povos colonizados, jovens, trabalhadores e outros reconsideraram seu papel na história e tomaram as ruas, mudando para sempre a paisagem político/cultural em que vivemos.

Nos anos posteriores, porém, é o entendimento histórico que serve aos poderosos que esteve em ascensão. Mais comumente conhecido pelos historiadores como revisionismo, esse entendimento não só culpa as forças revolucionárias pelos excessos assassinos da humanidade, mas também insta a retornar a uma situação semi-feudal que estratifica as pessoas em termos de classe, raça e gênero, permitindo diferentes níveis de liberdade econômica e política de acordo com uma hierarquia projetada por aqueles no poder. Com efeito, deseja criar legalmente o mundo político já formado economicamente através do neoliberalismo.

O revisionismo é uma abordagem liberal da história. Ele equipara o colonialismo, o racismo e o anti-semitismo do nazismo com as bases anticoloniais, anti-racistas e liberacionistas do comunismo. Ao fazer isso, ele também ignora fatos essenciais indisputáveis ​​do desenvolvimento capitalista ocidental. Entre estas negativas está o papel que o comércio africano de escravos desempenhou em todas as nações europeias envolvidas, seu papel fundamental (junto com a própria escravidão) nos Estados Unidos e o colonialismo. Ao ignorar o papel essencial do colonialismo - e devido ao racismo inerente à análise revisionista - as guerras contra os povos colonizados nem sequer são consideradas guerras. Em outras palavras, a menos que os europeus morram em grande escala, não há guerra. Isto é especialmente o caso nessas situações (por exemplo, o massacre realizado pelos colonos alemães dos povos Herero e Nama no sul da África ou pelos EUA em Granada, no Panamá e na primeira Guerra do Golfo), onde o número de mortos nas mãos do vencedor ultrapassa em muito o número de mortos do exército vitorioso.

Na condução da guerra, todos os governos envolvidos são mais parecidos que diferentes, mais genocidas do que em busca da paz, mais autoritários do que protetores de direitos. Guerra total significa mobilização total e prisão ou mesmo morte para aqueles que discordam. Deus proteja o soldado que não quiser participar: Losurdo escreve sobre um general italiano durante a Primeira Guerra Mundial que "realizou inspeções de trincheiras com um esquadrão de execução" para economizar tempo. A batalha é a coisa mais importante, afinal. Seria melhor que a bucha de canhão sem vontade estivesse ciente.

O fim dos anos 70 não significou o fim do entendimento não-revisionista da história tornada popular pelas massas nas ruas. No entanto, sinalizou um esforço renovado para sufocar essa tensão particular. Isso estava de acordo com os tempos. Thatcher e Reagan estavam presidindo a abertura do capitalismo neoliberal sobre o estado econômico keynesiano e rearmando suas já poderosas forças armadas. A União Soviética estava caminhando para um fim promovido pelo erro de cálculo político e econômico intensificado por uma guerra contra sua revolução de 1917, que começou antes que a revolução tivesse os meios de solidificar. Diante do ataque neoliberal, os governos socialistas e social-democratas na Europa começaram a se tornar o oposto, socialista ou social democrata restante apenas de nome. Desde então, a esquerda tem lutado para recuperar um senso de possibilidade ou se inscrever com a ofensiva neoliberal fingindo que ainda pode ser de esquerda, enquanto abraça a encarnação mais desumana do capitalismo monopolista até hoje.

Domenico Losurdo é um filósofo e marxista italiano. Ele também é um dos críticos mais agudos do liberalismo. Seu último trabalho a ser traduzido para o inglês, Il revisionismo storico. Problemi e miti, é uma repreensão intelectual aos historiadores revisionistas mascarados como árbitros objetivos do passado quando, na realidade, suas palavras servem ao capital financeiro e a sua devastação do planeta. Losurdo rejeita a representação do Ocidente de si mesma como civilizada e humana em contraste com a Rússia e o Oriente. Filósofo por filósofo, historiador por historiador, ele disseca as tentativas dos intelectuais ocidentais de mitificar essas mentiras habilidosa e decisivamente. Losurdo pega as tentativas de vários historiadores revisionistas que culpam os bolcheviques e jacobinos franceses pela história do terror e os transforma em sua cabeça. Em vez disso, ele escreve: São os regimes capitalistas reacionários e liberais cujas políticas de guerra total e remoção forçada de populações (os nativos americanos e os africanos, principalmente) que criaram a reação dos governos revolucionários. Em outras palavras, não foram as forças revolucionárias representadas pelos jacobinos e pelos bolcheviques que levaram a assassinatos em massa, limpeza étnica e escravidão neste mundo, mas os governos contra os quais se revoltaram. Além disso, Losurdo inclui o fenômeno do fascismo do século XX na tradição colonial ocidental. Em outras palavras, os planos de Hitler para colonizar a Europa Oriental não estavam fora dos esforços colonialiais anteriores do Ocidente. De fato, como Losurdo repetidamente menciona, Hitler admirava a totalidade da erradicação feita pelos colonos americanos dos povos indígenas cuja terra eles roubaram e via como um modelo para sua forma de fascismo.

Losurdo argumenta que no sistema reacionário não há guerra senão guerra "racial". Ele cita a propaganda usada pelas nações capitalistas para mobilizar os cidadãos em seus respectivos estados, transformando as guerras do século XX contra o comunismo em guerras contra ideologias estrangeiras, "asiáticas", até mesmo judaicas. Encontra-se um cenário semelhante no século XXI em que guerras contra nações com grandes populações muçulmanas se tornaram guerras "racializadas" contra o próprio mundo muçulmano. Como Losurdo deixa claro, essa racialização ajudou a criar uma mentalidade que permite o que ele chama de "reabilitação do colonialismo". Em outras palavras, os poderes que promovem sua ideia egoísta de que existem partes do mundo - na maioria não brancas - que poderiam beneficiar-se de serem colonizadas por esses poderes. No que só pode ser descrito como uma instância irônica, ouvi esse sentimento expresso por dois homens afro-americanos em Greenwich Village Washington Square Park, em 11 de setembro de 2001, enquanto a fumaça das torres gêmeas queimadas raspavam as narinas e gargantas de cada um presentes.

Il revisionismo storico. Problemi e miti é um documento implacável. É denso e desconcertante. É precisamente por isso que deve ser considerado um dos mais importantes livros de história escritos desde os eventos conhecidos como 9/11. Afinal, foram esses eventos que tomou o projeto revisionista já em andamento desde o final dos anos 1970 e o colocou em hiperimpulsão. Por intenção, não houve um dia de paz desde então. Este fato não é um acidente. Essa é a essência do texto de Losurdo.

Ucrânia: Um museu criacionista?

Por que o Ocidente está perdendo a guerra da informação

Ivaylo Grouev

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Uma meia verdade é a mais covarde das mentiras. 
Mark Twain

Tradução / Quando acompanho a cobertura da crise ucraniana em alguns dos mais respeitáveis e principais órgãos da mídia ocidental, tenho o estranho sentimento de estar passeando num museu de história natural. Não em qualquer um, mas num museu de história natural bastante incomum – um museu criacionista. Para quem talvez não saiba, aqui vai uma notinha de causar escândalo, espalhafatosa: há mais de 30 museus criacionistas nos Estados Unidos e dois na província canadense de Alberta – berço do Partido da Reforma, hoje Partido Conservador Progressista, no poder desde 2006 (dois nomes bastante enganosos).

Um dos mais novos museus criacionistas dos Estados Unidos está em Petersburg, Kentucky, uma instalação com tecnologia de ponta, de 6.500 m². Uma verdadeira maravilha da robótica, comparável ao melhor que Hollywood possa oferecer: pterodátilos animatísticos em tamanho natural, sons realistas dos rugidos do “rei dos lagartos” — Tyrannosaurus rex — cercado por jubilosos e despreocupados robôs de filhos de Adão e Eva. Surpreendentemente, aquele empreendimento alucinado, de 27 milhões de dólares, não dá prejuízo, nem está atirado às traças; muito pelo contrário – o tal museu das obras de Deus, incluídos eu e você e tudo que existe, atraiu até agora mais de 715 mil visitantes de todo o mundo, cada um dos quais pagou de muito bom grado 30 dólares por ingresso. (1)

Mas que paralelo pode ser feito entre o tal museu dos feitos divinos e a cobertura da crise na Ucrânia? O primeiro paralelo está nos fatos, no empenho em mostrar fatos, a própria exposição. No geral, a impressionante exposição-comprovação da obra de Deus em Petersburg é consistente com as últimas descobertas da paleontologia moderna: estão corretos o tamanho e as dimensões dos fragmentos de ossos e esqueletos; e as representações dos majestosos dinossauros são bastante críveis; com certeza, todas essas peças poderiam ser orgulhosamente exibidas em qualquer museu de ciência natural. Além disso, os filhos de Adão e Eva parecem bastante realistas e teriam lugar assegurado numa ousada estratégia de curador de museu que quisesse representar os primórdios da sedentarização humana.

O único problema é que tudo isso é falsificação pura! É um fato bem conhecido que o mundo não tem 5000 anos de idade, mas 13,2 bilhões de anos de idade e os seres humanos, ameba, orcas e bactérias responsáveis pela disenteria não foram criados em seis dias antes do fim de semana bem merecido de Deus. Então, onde está a Ucrânia aqui?

Como devem saber alguns leitores, foi recentemente inaugurada no centro de Kiev uma verdadeira exposição, ao ar livre, mostrando tanques, veículos blindados, metralhadoras e veículos queimados ou parcialmente derretidos, exibidos como se fossem provas de uma invasão russa na Ucrânia Oriental. A autenticidade das peças expostas é inquestionável – de fato, os tanques são tanques, realmente blindados; as metralhadoras são realmente metralhadoras capazes de realmente metralhar; e os carros queimados, sim, são carros. Entretanto, exatamente como no museu criacionista, o contexto é fictício.

Com efeito, lemos, vemos, ouvimos e ficamos profundamente traumatizados por inúmeros fatos e evidências que nos são apresentadas na cobertura da crise ucraniana que a mídia-empresa ocidental está fazendo. Vemos fotos de homens armados, soldados, casas explodidas, carros destroçados e tanques, bem como escombros de um avião de passageiros, filas de refugiados, pessoas esfomeadas, idosos vivendo em porões sem comida nem eletricidade – diversas fotos horríveis de cadáveres inteiros ou em pedaços. Tudo isso é verdadeiro e representativo da desoladora tragédia humana que ora acontece na Ucrânia. Mas nessa narrativa geral – assim como na narrativa dos criacionistas, que expõem dinossauros provavelmente gentis como babás, posto que não havia violência no Jardim do Éden – tudo que é mostrado pela mídia-empresa ocidental é, sempre, imagem distorcida do contexto real. Seguindo a lógica da versão do “Gênesis” by Poroshenko, o regime dito democrático liberal pró-ocidental de Kiev vai resolver todas as questões sociais, econômicas e políticas do país atormentado pela corrupção. Portanto, segundo essa narrativa, todos os fatos e exposições devem ser cuidadosamente dispostos exatamente da mesma forma como faria o curador de um museu criacionista. E exatamente como no museu criacionista, essa exposição apresenta um insuperável desafio à lógica fundamental, que deixa sem resposta a maioria das perguntas, senão todas elas.

Vamos citar apenas alguns deles. Por que as Forças Ucranianas de Polícia, conhecidas como Berkut, mataram seus próprios soldados, no dia 20 de fevereiro de 2014? Os fatos estão aí: 18 oficiais foram mortalmente baleados e mais de uma dúzia ficaram feridos. (2) Essa pergunta foi apagada da metanarrativa, bem como todas as perguntas em torno do “incêndio acidental” em 2 de maio de 2014 em Odessa, em que 48 pessoas (outras fontes falam de um número ainda maior) foram queimadas vivas, enquanto outras, que conseguiram pular do prédio em chamas, foram mortas a pauladas por ativistas de Maidan, na frente da Polícia, que nada fez para impedir o massacre. Por que, quase um ano depois desses eventos, a mídia-empresa ocidental ainda não fez essas perguntas ao Procurador-Geral da República ucraniana? Por que o governo ucraniano recusou-se a permitir que o Tribunal Penal Internacional investigasse esses fatos? Por que tudo isso nunca foi questionado pelos bastiões do jornalismo ocidental?

E não é só isso: a mídia ocidental também prefere não cobrir fatos que contradigam a lógica desse “Gênesis” by Poroshenko. Permanecem cuidadosamente ocultados todos os nomes dos que ordenaram e admitiram e, pois, são responsáveis pelo bombardeio de grandes centros urbanos como Donesk, Luhansk, Mariopol, Kramatorsk, Slovyansk. Como também não se sabe quem autorizou o uso de armas proibidas pela Convenção de Genebra, como fósforo branco e bombas de fragmentação. A mídia-empresa ocidental mostra pouco interesse em fazer as perguntas necessárias sobre a natureza da famosa Operação Antiterrorista (ATO, acrônimo em inglês), que usou artilharia pesada, aviação e tanques contra a população civil de Donetsk e Luhansk – 6,8 milhões de pessoas, população maior que a população total dos três estados Bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia). (3)

Em vez de saudável jornalismo investigativo e respectivas boas respostas, oferecem-nos imagens dramáticas. Seja como for, a técnica é a mesma, para o “jornalismo” ocidental e para os criacionistas do Kentucky: apagar o contexto. Não apenas se publicam fotos de inexistentes tanques russos cruzando a fronteira ucraniana, tão inverossímeis quantos Adão e Eva no paraíso de bondosos dinossauros, mas, também, as tais fotos são longamente discutidas no plenário do Congresso dos EUA (as fotos mostram tanques russos, mas quando cruzaram a fronteira com a Geórgia, em 2008). E o mesmo se vê sobre o avião holandês, mostrado em fotos em que Putin aparece ao lado de imagens das vítimas. Mas silêncio total, e a empresa-mídia ocidental completamente apática, em tudo que tenha a ver com as gravações da caixa preta do MH17, divulgadas cinco dias depois do desastre. Em todos os casos, a resposta é sempre a mesma, não importa qual seja a pergunta: a culpa é de Putin.

De fato, Putin se tornou o “queridinho” da mídia ocidental: nos EUA, foi tema de 5.771 matérias; 8.929 na Alemanha, e 5.209 no Reino Unido, só em 2014 (4). É grande cobertura, pela empresa-mídia. Nesse roteiro bíblico, o recentemente eleito presidente Poroshenko tem o papel do mocinho, e o presidente Putin é o bandido. De repente, Putin sofre da mais grave síndrome de múltipla personalidade jamais vista, reencarnando ao mesmo tempo Stálin, Hitler e o famoso “Jihad John” do ISIS (como se sabe, graças à CNN, o mistério foi esclarecido: o degolador máster é Putin) (5). Mas a demonização sem precedentes do Presidente da Federação Russa não é evento isolado, sendo consistente com a difamação de Saddam Hussein (“O carniceiro de Baghdad”), de Muammar Gaddafi (“Homem-cão raivoso”), de Slobodan Milosevic (“O carniceiro dos Bálcãs”). Todas essas campanhas de demonização foram lançadas pouco antes do início das campanhas militares dos EUA no Iraque, na Líbia e na Iugoslávia. Tanto para a empresa-mídia ocidental, apologista do Gênesis by Poroshenko, quanto para os criacionistas, espaço, tempo e lógica merecem pouca consideração. Os criacionistas comprimiram o Mesozoico, que começou há 252 milhões de anos e terminou 66 milhões de anos depois, em apenas alguns milhares de anos. A empresa-mídia serve-se da mesma técnica, para período muito mais curto. Em 2007, a personalidade do ano para a revista Timefoi Putin. Sete anos depois, o mesmo Putin virou Hitler. (6)

O que é notável na atual “Guerra de informação” é o quanto o contexto-zero da empresa-mídia ocidental vem-se tornando violento e implacável em sua sempre desmentida fabulosa inventividade. Para consolidar o mito–Putin, a mais recente manchete diabólica proclamando “Putin matou meu filho!” pode não ser suficientemente dramática. Logo inventarão algo mais espetacular, como “Putin matou o filho de Deus!”, plenamente aceitável no “ambiente criacionista” em que vegeta a empresa-mídia ocidental, quando longos períodos de tempo podem ser facilmente comprimidos sem nenhum questionamento. Com efeito, Putin pode muito bem viajar no tempo para a Palestina do Ano 0, ir até o Gólgota montado num amigável pterodátilo, perfurar o desidratado corpo de Cristo, e no caminho de volta fazer uma parada em Munique em 1938 para tomar café da manhã com Hitler. Exagero? Claro que sim. Como são exageros a história dos pterodátilos gentis e a lógica do curador do museu ao ar livre de Kiev, que exibe tanques “russos”, mas com NIV (números de identificação de veículos) ucranianos.

A mídia ocidental tem dito meias-verdades e mentiras descaradas, mostrando o novo regime de Kiev como “democrático” e os “rebeldes” como terroristas. A natureza dessa “propaganda” mais parece pregação de um tele-pastor evangélico de San Antonio, Texas, que reportagem publicada por veículos tidos como respeitáveis da empresa–mídia, alguns dos quais de reconhecida tradição. Esta é uma das razões pelas quais toda essa empresa–mídia está rapidamente perdendo credibilidade, além de fatias de mercado. Em contraste, a blogosfera vem bombando, quando o tema é a crise ucraniana, ao oferecer reportagens alternativas, vídeos, testemunhos do front e, mais importante ainda, análises de conteúdo alternativas e contexto.

Há um nítido apetite por reportagens diferenciadas e por fatos crus em primeira mão, bem como por análises críticas que contradigam a metanarrativa oficializada. Agências midiáticas como RT estão visando especificamente a esse tipo de audiência que não para de crescer no Ocidente, na Europa e nos EUA. Não surpreende que RT seja hoje o segundo canal estrangeiro mais visto nos Estados Unidos (depois da BBC World News) e a rede social número um nas maiores metrópoles como Nova Iorque, Los Angeles, Chicago e Washington. Sua difusão global alcança a impressionante marca de 700 milhões de telespectadores. (7)

Qual a razão para o repentino sucesso deste concorrente tão “jovem”? A explicação está na própria concepção da propaganda ocidental, que amiúde alcança níveis adequados para jovens e idosos infantilizados ou evangélicos autoiludidos. Claro está que nada aí augura qualquer glória, e o panorama não é nada otimista, para os tradicionais bastiões do jornalismo produzido pela mídia ocidental, cuja popularidade está caindo, sobretudo entre as pessoas de menos de 35 anos. Naturalmente, se algum dia alguns desses veículos e respectivas mídias forem extintas, como extintos foram os dinossauros, ninguém poderá culpar algum asteroide destrambelhado.

A razão para a sua morte é óbvia. A velha e escandalosa complacência com a Grande Mentira; a rejeição pervertida ao exercício de qualquer moralidade profissional e pessoal. Não esqueçamos que o mote propagandístico de Fox News “Fatos podem ser desmentidos. Opiniões não!” aplica-se a alguns, mas definitivamente não serve a todos. Por quê? Para usar uma famosa frase de Bertolt Brecht: porque “o homem tem um defeito básico: ele pensa”.

Notas:

(1) Creation Museum – Petersburg, Kentucky

[2] Katchanovski, Ivan. The “Snipers’ Massacre” on the Maidan in Ukraine – 20/2/2015.

[3] Rothoct, Andred. Ukraine Used Cluster Bombs, Evidence Indicates, New York Times, 20/10/2014.

[4] Khlebnikov, Alexey. Russia is now monitoring the world’s mass media for bias. Russia Direct. 25/2/2015.

[5] Jalil, Justin e J.A. Gross. Vlad the beheader: CNN apologizes for Putin gaffe, The Times of Israel, 1/3/2015.

[6] Stengel, Richard. Person of the Year 2007: Choosing Order Before Freedom, Time, 19/12/ 2007.

[7] RT reaches 700MN viewers worldwide. Rapid TV News. 11/9/2014.

23 de março de 2015

Aquela velha magia Bibi

Justamente quando parecia que o campo Sionista iria ganhar, o ativista astuto começou a tirar coelhos da cartola.

Neve Gordon


Tradução / Benjamin Netanyahu é verdadeiramente um mágico. Ainda na sexta-feira (20/3/2015), a maioria das pesquisas indicava que seu partido Likud conquistaria em torno de 21 cadeiras no Parlamento israelense, quatro cadeiras a menos que o Campo Sionista (Partido Labor, com nome novo) de Yitzhak (Bougie) Herzog.

Revelações de corrupção na residência do primeiro-ministro, seguidas de um relatório devastador sobre a crise imobiliária real, além do encolhimento da indústria, greves sindicais, previsões de economia fraca, impasse diplomático e crescente isolamento internacional, tudo parecia indicar que Netanyahu estava de saída. Mas quando mais parecia que o campo Sionista substituiria o campo nacionalista, o exímio marqueteiro de campanhas eleitorais começou a tirar seus coelhos da cartola.

Como se não bastasse a decisão de atropelar o governo Obama na questão das negociações com o Irã, Netanyahu pôs-se a martelar a favor da direita, dando a conhecer ao mundo que os palestinos estariam condenados para sempre a jamais ter um Estado, dado que ele não promoveria a criação de mais um estado árabe para cercar Israel.

"Conspiração da mídia esquerdista"

Apresentou o partido Likud como vítima de uma conspiração da “mídia” esquerdista para derrubar o governo da direita. E convenientemente não disse a ninguém que seu aliado Sheldon Adelson é o proprietário do jornal Yisrael Hayom, o jornal impresso de maior circulação em todo o país.

Ele convidou seus eleitores a voltar para “casa”, prometendo dar conta de todas suas carências econômicas. E no próprio dia das eleições, aterrorizou os judeus com declarações de que os cidadãos palestinos de Israel estariam correndo às urnas em multidões, apresentando os palestinos, que votam em seus próprios candidatos, como se fossem mais uma ameaça existencial.

A poção envenenada de Netanyahu é feita com campanhas para gerar medo, ódio racista contra árabes e ódio militante contra a esquerda política. Pelo que agora se vê, muitos eleitores foram realmente envenenados. Em questão de poucos dias, Netanyahu conseguiu virar a favor dele votos suficientes para eleger mais dez candidatos do seu partido, canibalizando dois dos seus aliados da extrema direita: o partido de Avigdor Lieberman e o partido de Naftali Bennett.

Graças à mágica-veneno de Netanyahu, o Likud saiu-se muito melhor do que esperava, e em coalizão com os partidos ultra-ortodoxos e um novo partido recém criado por um ex-ministro do Likud, o partido Kulanu (All of US), será muito provavelmente criado um bloco de extrema direita, com 67 dos 120 assentos com direito a voto (e isso ainda antes de se computarem os votos dos soldados, que em geral são de centro-direita).

O resultado é claro: o povo de Israel votou pelo Apartheid.

Israel vota pelo Apartheid

Agora é extremamente provável que volte à tona uma leva de leis antidemocráticas que haviam sido engavetadas. Entre essas, as leis que monitoram e limitam o financiamento de ONGs de direitos humanos, restringem a liberdade de expressão, reduzem a autoridade da Suprema Corte, cancelam o status oficial da língua árabe e, claro, levam a votação a lei do Estado-nação.

Essa lei, originalmente proposta por um membro do Likud, define a judaicidade como padrão do estado em todas as instâncias, legal ou legislativa – na qual conflitam as definições de “estado judeu” e “estado democrático”. Significa que as leis que garantem direitos iguais a todos os cidadãos israelenses podem ser derrubadas, sob a alegação de que não respeitam o “estado judeu”. Além disso, essa lei reserva direitos comunitários só para judeus; nega portanto aos cidadãos palestinos qualquer tipo de identidade nacional.

Além da legislação antidemocrática, podemos esperar todo um desfile de políticas de discriminação. O novo governo provavelmente implementará alguma variação do Plano Prawer, que visa a realocar à força milhares de beduínos palestinos e tomar a terra que lhes pertence.

Continuarão a jorrar bilhões de dólares nas colônias israelenses na Cisjordânia e nas colinas do Golan, e mais casas serão expropriadas em Jerusalém Leste. E provavelmente serão presos milhares de refugiados e trabalhadores migrantes “ilegais” que atualmente vivem e trabalham em cidades israelenses.

Mas os resultados dessas eleições trazem uma importante vantagem: clareza. Agora, pelo menos, caiu a fachada sionista liberal, que camuflava a disposição de Israel para fazer avançar seu projeto colonial. O refrão israelense, de que não se poderia alcançar solução diplomática com os palestinos, porque os palestinos não teriam liderança, soará mais vazio, a cada dia. Finalmente, já se pode ver que pretender que Israel seria a única democracia no Oriente Médio é o que é: meia verdade. Enquanto Israel é uma democracia para os judeus é um regime repressivo para os palestinos.

Deve-se também esperar pouca resistência contra o governo de extrema direita, porque o campo Sionista de Herzog e o partido de Yair Lapid também são arabofóbicos e, portanto, pouco lutarão contra a substância racista do novo governo, embora talvez lutem contra o estilo direitista ruidoso de Netanyahu.

"BibiBennett"

Afinal de contas, nos dias antes da eleição via-se um só pacote político, com enormes cartazes que mostravam foto de (Bibi) Netanyahu e seu adversário, representante oficial da extrema direita, Naftali Bennett, em que se lia que “Com BibiBennet continuaremos contra os palestinos por toda a eternidade”. A dupla deve ter esquecido o fato de que 20% dos cidadãos israelenses são palestinos.

Pois mesmo assim, durante essas eleições, um raio de esperança brilhou na escuridão. O esforço concentrado de quase todos os partidos judeus para excluir os cidadãos palestinos produziu um efeito não esperado. Criando uma frente unida, os palestinos conquistaram 14 cadeiras no Parlamento, 25% a mais do que jamais antes. Hoje, os palestinos já são a terceira maior força no Knesset.

Diferente de seus contrapartes noutros partidos, Ayman Odeh, que preside a nova Lista Árabes Unidos, é líder genuíno. Extremamente incisivo, é orador que muitas vezes se serve de muita ironia para ridicularizar seus detratores, ao mesmo tempo em que divulga incansavelmente sua visão igualitária do futuro. Num raro momento de sinceridade, uma conhecida jornalista comentarista israelense denunciou a atitude de Odeh, para ela uma grave ameaça: “É um homem muito perigoso”, disse ela. “Ele projeta algo com que todos os israelenses podem se relacionar”.

Será essa "ameaça" capaz de deter a iminente avalanche de novas leis de Apartheid em Israel? Sinceramente, duvido.

22 de março de 2015

Se Stephen Harper está falando sério sobre a criminalização de "práticas culturais bárbaras", então ele deveria prender a si mesmo

E enquanto ele o faz, ele deveria prender todos os outros líderes ocidentais que barbarizaram o mundo muçulmano também

Robert Fisk


Tradução / Stephen Harper perdeu a noção? Esqueça sua viagem a Jerusalém ano passado na qual o primeiro ministro canadense disse que as críticas à Israel eram uma “máscara” para o antissemitismo.

Ignore seu fracasso em trazer para o Canadá o jornalista do al-Jazeera Mohamed Fahmy, cujo novo julgamento foi estabelecido pelo governo Egípcio para dar a ele a chance de partir para seu país de adoção. Deixe de lado a afirmação “blairista” de que os assassinos Islâmicos de soldados canadenses não tiveram nada – absolutamente nada – a ver com sua decisão de enviar os jatos F-18 Canadenses contra o EI (Estado Islâmico).

Agora Harper, o homem de boa aparência cujas políticas pró-Israel podem fazê-lo ganhar um assento no Knesset (parlamente de Israel), está prestes a promover uma excêntrica peça de legislação no parlamento em Ottawa. É chamada – e eu alerto os leitores a repetirem as palavras ao menos que pensem que já é 1º de abril – “Ato de tolerância zero para práticas culturais bárbaras.”

Sim, quando li a frase pela primeira vez “Ato de práticas culturais bárbaras,” tive a certeza que era uma piada, uma frase do “Big Bang Theory” ou um drama do Canal 4 sobre o primeiro mandato de Nigel Farage.

Não, é tudo real. Mas me deixe explicar rapidamente que “as práticas culturais bárbaras” em questão são a poligamia, violência doméstica “de gênero”, “assassinatos por honra” e forçar crianças abaixo de 16 anos a deixarem o Canadá para se casarem no exterior. Não tenho nenhum problema com legislações contra isso, é claro. E nem muitos canadenses.

Também sou contra a invasão de países estrangeiros, colonizar as terras de outras pessoas, afogá-las com jatos de água e bombardear festas de casamento, ou atirar drones nas vilas do Vaziristão. Mas essas não são exatamente as “práticas culturais bárbaras” que o Sr. Harper tem em mente.

O que é estranho sobre a barbárie na qual ele está pensando – mesmo que o uso da palavra “cultura” seja intrigante agora que o EI determinou que “cultura” é um pecado depois do massacre do museu de Tunis – é que essas práticas já são proibidas pela Lei canadense.

Poligamia é ilegal no Canadá – mesmo que Mórmons polígamos em British Columbia pareçam estranhamente intocados pela nova legislação – e os canadenses ficaram um pouco perplexos ao ouvirem do seu governo semana passada que existem “centenas” de polígamos em seu país. Quanto às “mortes por honra”, assassinato é assassinato no Canadá, na Inglaterra e nos EUA e em quase todos os outros países do mundo.

Não, a pegada é que essa legislação única, que os membros parlamentares canadenses irão discutir novamente hoje, não vem do Peter MacKay, ministro da justiça canadense perfeitamente capaz, mas sim do ministro – sim você acertou – da cidadania e imigração. Isso não é estranho?

O sujeito encarregado das políticas de imigração canadense é Christopher Alexander, um político dito “cultural”, um homem de McGill e Balliol, ex-embaixador canadense no Afeganistão, onde há muita poligamia, “morte por honra”, casamento infantil, e, bom, não vamos nos aprofundar na corrupção do governo afegão, da tortura policial, drones e do resto.

Por que na realidade, a nova legislação canadense é sobre estrangeiros – ou melhor dizendo – muçulmanos. Por isso que os Mórmons de British Columbia não têm nada com o que se preocupar. Por que o Ato de tolerância zero para práticas culturais bárbaras (Lei S-7) – vamos continuar repetindo esse nome estranho – está jogando com o que o colunista Thomas Walkom chama de “cartão de barbárie estrangeira”.

Põe em primeiro plano, não o crime propriamente dito, mas o crime especificamente associado com os muçulmanos – por isso a ênfase legislativa do governo canadense de que o ato é contra “tradições” bárbaras. E os muçulmanos, como sabemos, por séculos têm sido conhecidos no ocidente pelos haréns, muitas mulheres e desrespeito pelas mesmas.

Existem, de fato, muitas coisas erradas com as sociedades muçulmanas. Escrevi extensivamente no The Independent sobre o tormento da “matança por honra” – o massacre de jovens mulheres que recusam casamentos arranjados ou adultério ou que viraram boatos por se comportarem supostamente de forma imoral (como ligar para um homem em um celular) no Curdistão, Afeganistão, Turquia, Paquistão, “Palestina”, Jordânia e Egito.

Vamos esquecer por um momento que as ONGS me disseram que por habitante, a “morte por honra” pode ser praticada ainda mais amplamente dentre Comunidades cristãs Egípcias e Jordanianas. Os cristãos, com certeza, não estão entre os alvos de Christopher Alexander.

É estranho também, que “bárbaro” seja parte do vocabulário do EI para os estrangeiros que bombardeiam predominantemente países muçulmanos – o bombardeio americano do Afeganistão, Iraque, Síria, Líbano, Somália, Iêmen e Líbia vêm à mente nos últimos 42 anos – e pactuam com a ocupação e roubo de terra dos árabes muçulmanos pelo mesmo pais nos quais os críticos estão em perigo de serem chamadas de antissemitas por Stephen Harper.

E você pode ter certeza que esse mesmo primeiro-ministro, em seu espanto com as práticas bárbaras do EI – e muçulmanos canadenses – irá evitar conversar sobre um pequeno escândalo que deve o estar incomodando um pouco em particular: a acusação turca de que um operador da inteligência síria que ajudou três meninas britânicas a entrarem na Síria comandada pelo EI também estava trabalhando para os empregados da inteligência Canadense. De acordo com a Turquia, esses agentes operaram da embaixada canadense em Amman – onde o embaixador canadense foi escolhido a dedo por Stephen Harper depois de ter sido o principal guarda-costas do primeiro ministro em Ottawa.

Agora não vou tomar o lado da policia Turca – eles me deportaram de seu país em 1991 depois de eu ter descoberto tropas turcas roubando cobertores e comida dos iraquianos refugiados. Mas seus arquivos de computador mostram que o suposto espião do Canadá, um certo Sr. Rashed, entrou na Turquia 33 vezes com um passaporte Sírio e já tinha viajado para o Canadá.

O homem não trabalha para o Serviço de inteligência e Segurança do Canadá, o país espia roupas, de acordo com fontes do governo de Ottawa. Mas oficialmente, CSIS, a policia real canadense – os caras que sempre “pegam seus homens” – e o gabinete de Harper recusaram comentários. O cidadão de Ottawa tem destacado outra parte da legislação de Harper, Lei C-44 agora, a qual iria permitir que juízes canadenses autorizassem atividades do CSIS no exterior “para investigar uma ameaça à segurança” do país, “sem referencia a nenhuma outra lei, incluindo a de qualquer estado estrangeiro.”

Muito a pensar sobre isso. Mas não, são aqueles muçulmanos canadenses mesquinhos – ou muçulmanos residentes no Canadá – que são os culpados, aqueles que entram em “práticas culturais bárbaras”. Certamente diz muito sobre as práticas culturais políticas de Harper.

Inovação vermelha

Longe de sufocar a inovação, uma sociedade socialista colocaria o progresso tecnológico ao serviço das pessoas comuns.

Tony Smith

Jacobin

Tradução / O dinamismo tecnológico do Capitalismo tem sido sempre um poderoso argumento em sua defesa. Mas um de seus segredos é que no coração desta transformação não encontramos empreendedores ousados, capitalistas de risco, nem empresas estabelecidas.

Investimentos forçando as fronteiras do conhecimento científico são muito arriscados. Os avanços buscados podem não estar acessíveis. Aqueles que chegam a acontecer podem nunca se tornar comercialmente viáveis. Qualquer resultado potencialmente lucrativo que surja pode demorar décadas para se traduzir em dinheiro. E quando finalmente dão algum dinheiro, não há garantias de que os investidores iniciais se apropriarão da maior parte desses ganhos.

Consequentemente, existe uma poderosa tendência do capital privado para o sistemático subinvestimento em pesquisa e desenvolvimento de longo prazo. Apesar da percepção popular de que empreendedores privados conduzem a inovação tecnológica, as regiões que lideram a economia global não deixam os estágios mais importantes da transformação tecnológica para os investidores privados. Estes custos são socializados.

No quarto de século após a Segunda Guerra Mundial, os altos lucros recebidos pelas corporações estadunidenses graças ao seu lugar excepcional no mercado mundial permitiram que laboratórios corporativos pudessem se engajar em projetos de pesquisa sem aplicação comercial imediata. Mas mesmo nessa época, o financiamento público era responsável por cerca de dois terços de todas as pesquisas e investimento em desenvolvimento nos EUA, criando as bases para os setores de alta-tecnologia de hoje.

Com o aumento da competição do Capital japonês e europeu nos anos 70, o financiamento do setor privado para pesquisa e desenvolvimento aumentou. Porém, projetos de longo prazo foram praticamente abandonados inteiramente em favor do desenvolvimento de produtos e projetos de pesquisa aplicada prometendo vantagens comerciais no curto e médio prazos.

A pesquisa básica continuou a ser financiada pelo governo, como o trabalho em Biologia Molecular que deu suporte ao movimento das companhias de agronegócio rumo a Biotecnologia. O mesmo se deu em projetos de interesse especial para o Pentágono – os desenvolvimentos associados à Agência de Projetos de Pesquisa Avançada em Defesa, por exemplo, que pavimentaram o caminho aos sistemas modernos de posicionamento global – e outras agências governamentais.

Mas a pesquisa e desenvolvimento de médio a longo prazo em geral estava em grande perigo de cair em um “vale da morte” entre a pesquisa básica e o desenvolvimento imediato, sem financiamento significativo por parte do governo ou do capital privado.

Apesar de toda a sua retórica vendendo a “mágica do Mercado”, o pessoal no governo Reagan reconhecia uma falha de mercado quando via uma. Eles começaram a oferecer aos laboratórios federais e universidades sob financiamento público várias “cenouras e varinhas” para que se encarregassem de pesquisa e desenvolvimento de longo prazo para o Capital estadunidense.

Novos programas foram criados para prover empresas embrionárias com recursos para desenvolver inovações antes da “prova de conceito” exigida por capitalistas de risco. Sob Reagan, o Ato de Desenvolvimento de Inovação em Pequenas Empresas até mesmo encarregava as agências federais de reservar uma porcentagem de seu orçamento de pesquisa e desenvolvimento para financiar pesquisas de pequenas empresas. Estas e outras formas de parcerias público-privadas garantiram ao Capital dos EUA enormes vantagens competitivas no mercado mundial.

Não é surpresa que a linha de produtos tremendamente bem sucedida da Apple – iPads, iPhones e iPods – incorpore doze inovações-chave. Todas as doze (unidades centrais de processamento [CPUs], memórias de acesso randômico dinâmicas [RAMs], discos rígidos [HDs], displays de cristal liquido [LCD], baterias, processamento de sinais digitais [DSP], a Internet, o protocolo HTTP, a linguagem HTML, redes sem fio, sistema de GPS, e programas de Inteligência Artificial baseados em voz) foram desenvolvidos por projetos de pesquisa e desenvolvimento financiados pelo setor público.

Não tem sido as dinâmicas do Mercado tanto quanto a intervenção estatal ativa quem tem abastecido a transformação tecnológica.

A prometida era de ouro
A tecnologia é mais que apenas uma arma para competição inter-capitalista; é uma arma nas lutas entre o Capital e o Trabalho. Mudanças tecnológicas que criam desemprego, reduzem o nível de habilidades da força de trabalho, e possibilitam que um setor da força de trabalho seja jogado contra o outro desequilibram o poder à favor do Capital. Dada esta assimetria, avanços na produtividade que poderiam reduzir o tempo de trabalho ao mesmo tempo que expandissem salários reais levam, ao invés, a demissões forçadas, aumentando o stress para aqueles ainda empregados e erodindo salários reais.

Dois desenvolvimentos tecnológicos em andamento aprofundam ainda mais o poder do Capital. Avanços no transporte e comunicação possibilitam agora que cadeias de produção e distribuição se estendam ao redor do globo, permitindo ao Capital implementar estratégias de “dividir para conquistar” contra o Trabalho em alcance sem precedentes.

Novas máquinas assombrosas de economia de trabalho estão também se tornando cada vez mais baratas. Um exaustivo estudo recente sobre mais de 700 ocupações concluiu que nada menos que 47% dos empregos nos EUA estão sob alto risco de serem automatizados dentro de duas décadas. Qualquer coisa próxima deste nível de substituição de trabalho gerará mais miséria, e não progresso, para os trabalhadores comuns.

Mas os custos mais baixos e maior capacidade das máquinas tambem levaram a uma mudança de um tipo melhor. Enquanto os preços de hardware, software e conexões de Internet tem caído, muitas pessoas podem agora criar novos “produtos do conhecimento” sem estar trabalhando para os grandes capitalistas.

Multidões ao redor do globo agora escolhem livremente contribuir para projetos coletivos de inovação de seu interesse, fora do relacionamento entre Capital e trabalho assalariado. Os produtos resultantes podem agora ser distribuídos como bens gratuitos ilimitados a qualquer um que deseje usá-los, ao invés de serem mercadorias escassas vendidas para lucrar.

Está fora de discussão que esta nova forma de trabalho social tem gerado inovações superiores em qualidade e escala do que as produzidas por empresas capitalistas. Estas inovações tendem também a serem qualitativamente diferentes.

Enquanto desenvolvimentos tecnológicos no Capitalismo dirigem-se primariamente pelos desejos e necessidades dos que possuem rendimento disponível, projetos de código aberto podem mobilizar energias criativas para cuidar de áreas que o Capital negligencia sistematicamente, tal como o desenvolvimento de sementes para agricultores pobres ou remédios para aqueles sem dinheiro para comprar os medicamentos existentes. O potencial desta nova forma de trabalho social coletivo de endereçar necessidades sociais prementes ao redor do globo é historicamente sem precedentes.

Para florescer, entretanto, a inovação de código aberto requer acesso livre aos bens de conhecimento existentes. As empresas líderes, na esperança de estender suas habilidades de lucrar privadamente com pesquisas de suporte público, tem usado seu imenso poder político para estender o regime de direitos de propriedade intelectual em escopo e coação, restringindo severamente os acessos que projetos de código aberto requerem. Os direitos reservados, afinal, foram estendidos para vinte anos na virada do século, exatamente enquanto o acesso à Internet estava começando a inchar.

Apesar destes obstáculos, o sucesso de projetos de código aberto mostra que os direitos de propriedade intelectual não são necessários para a inovação. Outra evidência é dada pelo fato de que a maioria dos trabalhadores científicos e tecnológicos engajados em inovação são forçados a ceder por escrito os direitos de propriedade como condição de emprego. Estes direitos na verdade dificultam o avanço ao aumentar o custo do engajamento na produção de novos conhecimentos, e ao desviar recursos para custos legais improdutivos.

O mundo é plano?

O Capitalismo também diminui a habilidade da maior parte do mundo de contribuir com o avanço tecnológico. Regiões inteiras da Economia Global não possuem a riqueza necessária para dar suporte a inovações significativas. Hoje, apenas quatro países gastam mais de 3% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento; e meros seis outros dedicam 2% ou mais.

O Capital nestas regiões avantajadas tem a oportunidade de estabelecer um círculo virtuoso, surfando no extensivo investimento público discutido acima. Acesso privilegiado a pesquisa e desenvolvimento avançados possibilita aos capitalistas se apropriar de grandes rendimentos com inovações bem sucedidas; estes rendimentos permitem a essas companhias fazer uso efetivo de avanços tecnológicos no próximo ciclo, preparando o cenário para lucros futuros.

Ao mesmo tempo, empresas em regiões mais pobres, sem o acesso a pesquisa e desenvolvimento de alto nível, se encontram presas em um círculo vicioso. Sua inabilidade presente de criar inovações significativas que as capacitariam a competir com sucesso nos mercados mundiais podam seus prospectos futuros. Apenas um punhado de países – tal como Coréia do Sul e Taiwan – conseguiram superar essa desvantagem inicial.

Disparidades globais em transformação tecnológica sozinhas não explicam por que 1% da população mundial agora possui 48% da riqueza global. Mas elas são uma parte importante da história; a transformação tecnológica é uma arma que permite aos privilegiados manter e estender suas vantagens globais com o passar do tempo.

Destruição não-criativa
Os efeitos destrutivos examinados acima não são propriedades necessárias da transformação tecnológica; eles são propriedades necessárias da transformação tecnológica no Capitalismo. Superá-los requer superar o Capitalismo, mesmo se apenas possuímos um sentido provisório do que isso deve significar.

As tendências perniciosas associadas com a transformação tecnológica nos locais de trabalho capitalistas estão baseadas em uma estrutura em que os gerentes são agentes dos proprietários dos ativos da empresa, com um dever fiduciário de promover seus interesses privados.

Mas os meios de produção de uma sociedade não são bens para consumo pessoal, como uma escova de dentes. A reprodução material da sociedade é uma questão inerentemente pública, como o desenvolvimento tecnológico do Capitalismo em si, repousando sobre recursos públicos, confirma. Mercados de Capitais, onde direitos privados sobre recursos produtivos são comprados e vendidos, tratam o poder público como se fosse apenas outro item de uso pessoal. Isso pode, e deve, chegar a um fim.

Empresas produtivas de larga-escala deveriam, ao invés, ser reconhecidas como um tipo distinto de propriedade pública, e exercícios de autoridade dentro desses espaços de trabalho, como atos de autoridade pública. O princípio de democracia precisa entrar em jogo: todos os exercícios de autoridade deveriam ser objeto de consentimento dos impactados por eles.

Embora regulações adicionais seriam necessárias se gerentes fossem eleitos e sujeitos a revogação pela força de trabalho como um todo, avanços tecnológicos na produtividade não resultariam tipicamente em desemprego involuntário de alguns e sobrecarga de trabalho de outros, mas sim em trabalho reduzido para todos.

Sabemos disso por que trabalhadores dizem que querem mais tempo para gastar com suas famílias e amigos, ou em projetos de sua própria escolha. Com democracia no espaço de trabalho, o impulso pela introdução de tecnologias desabilitadoras seria substituído pela busca de maneiras de fazer o trabalho mais interessante e criativo.

Suponha que decisões em relação ao nível geral de novos investimentos fossem também uma questão para debate público, eventualmente decidida por um corpo democrático. Se houvessem necessidades sociais prementes, a taxa total de novos investimentos poderia ser aumentada; se este não fosse o caso, ela poderia ser estabilizada. Estes corpos poderiam então separar uma porção de recursos de novos investimentos para prover bens públicos livres de cobranças, colocando mais bens úteis e serviços fora do alcance do mercado.

Os bens públicos de conhecimento científico e tecnológico resultantes de pesquisa básica e pesquisa e desenvolvimento de longo-prazo seriam desmercantilizados também, assim como os frutos da inovação de código-aberto. Esta última poderia ser desencadeada pela abolição dos direitos de propriedade intelectual e pelo fornecimento de uma renda básica universal – permitindo a qualquer um que quisesse participar de projetos de código-aberto, fazer isso. Se fosse preciso incentivos especiais, prêmios generosos poderiam ser concedidos aos primeiros a resolver desafios importantes.

Recursos remanescentes poderiam então ser distribuídos para outros corpos eleitos em vários níveis geográficos, e cada um determinaria qual parcela iria para os bens públicos em uma região. O que sobrasse poderia se distribuído para bancos comunitários locais encarregados de alocar esses recursos para os empreendimentos dos trabalhadores.

Várias medidas qualitativas e quantitativas poderiam ser empregadas para medir em que extensão aquelas empresas usaram as tecnologias para tratar necessidades e desejos sociais efetivamente, com os resultados determinando a renda além do básico recebido pelos seus membros (e os membros dos bancos comunitários que alocaram investimentos para financiá-los).

Abolir direitos de propriedade intelectual teria o benefício adicional de garantir que regiões ricas não poderiam usar o conhecimento tecnológico como uma arma para criar e reproduzir desigualdade na Economia Global. Este perigo seria completamente eliminado se a cada região fossem garantidos direitos fundamentais à sua parcela per capita de novos recursos de investimento.

Finalmente, se os espaços de trabalho usassem os avanços de produtividade para liberar tempo para seus trabalhadores ao invés de aumentar a sua produção de mercadorias, recursos seriam usados mais apropriadamente e o desperdício seria gerado num nível muito mais baixo. Abolir Mercados de Capitais e substituí-los por controle democrático sobre os níveis de novos investimentos libertaria a humanidade do imperativo do “cresça ou morra” e das consequências ambientais que dele seguem.

Se as empresas fossem reconhecidas como questões inerentemente de preocupação pública, isso eliminaria a absurdidade obscena de ter o destino da humanidade residindo sobre se as companhias de petróleo guiadas pelo lucro tem o poder político e cultural para extrair e vender reservas de combustível fóssil estimadas em $20 trilhões, como elas claramente planejam fazer.

Se a inovação de código aberto florescesse, as energias criativas do trabalho social coletivo ao redor do planeta poderiam ser mobilizadas para endereçar os desafios ambientais. Se regiões pobres com ecologias frágeis tivessem garantida sua parcela justa de novos fundos de investimento, a pressão para sacrificar a sustentabilidade no longo-prazo em nome do crescimento no curto-prazo seria superada.

É claro, todas estas propostas são vagas e provisórias. Não obstante, elas mostram que as consequências sociais da transformação tecnológica poderiam ser bem diferentes de como são hoje. Nós não precisamos da propriedade privada de ativos produtivos, ou de mercados devotados a ativos financeiros, para ter uma sociedade tecnologicamente dinâmica. Com as mudanças políticas necessárias, a transformação tecnológica não seria mais associada com superacumulação, crises financeiras, sufocamento da inovação de código aberto, severa desigualdade global, ou com a ameaça cada vez mais palpável de catástrofe ambiental.

Nós precisamos libertar o potencial completo do engenho humano. A forma com que a tecnologia avança já está socializada de maneiras importantes, apesar de restritas e inadequadas. Nós podemos terminar o serviço e garantir que seus frutos beneficiem as pessoas comuns.

15 de março de 2015

A guerra de Obama no nosso hemisfério e a luta de libertação nacional da Venezuela

James Petras

The Official James Petras Website

Introdução

Tradução / Por que Obama declarou uma "emergência nacional", reclamando que a Venezuela representa uma ameaça para a Segurança Nacional dos Estados Unidos e para a Política Externa, assumindo prerrogativas executivas e decretando sanções contra os principais oficiais venezuelanos responsáveis pela segurança nacional, agora?

O apoio da Venezuela na Integração Latino-Americana é o maior medo de Obama

Para responder a essa questão, é essencial começar pela abordagem enganadora de Obama e pelas responsabilidades insubstanciais da Venezuela ser um "perigo para a segurança nacional e para a política externa".

Primeiramente, a Casa Branca não apresenta evidências... Porque não há nada para apresentar! Não há mísseis venezuelanos, planos de luta, navios de guerra, Força Especial, agentes secretos ou bases militares munidas para atacar facilmente as residências americanas ou instalações estrangeiras.

Em contrapartida, os Estados Unidos tem navios de guerra no Caribe, sete bases militares na Colômbia com tripulação composta por dois mil oficiais da Força Especial dos Estados Unidos e bases da Força Aérea na América Central. Washington tem financiado mandatos políticos e operações militares na Venezuela com a intenção de derrubar a Constituição legal e o governo eleito democraticamente.

A reclamação de Obama se assemelha a um papel que os governantes totalitários e os imperialistas frequentemente usam: acusando essas iminentes vitimas dos crimes que eles mesmos preparam contra elas. Nenhum país ou líder, amigo ou inimigo, apoiou as acusações de Obama contra a Venezuela.

A acusação de Obama que a Venezuela representa uma "ameaça" para a política estrangeira dos Estados Unidos exige uma explicação: Primeiramente, quais elementos da política externa dos Estados Unidos estão ameaçados? A Venezuela propôs e ajudou com sucesso várias organizações de integração regionais, que são voluntariamente ajudados por seus companheiros Latino-Americanos e Caribenhos. Essas organizações regionais, em grande parte, copiam a estrutura de dominação americana, que serve os interesses imperiais de Washington. Em outras palavras, a Venezuela ajuda organizações com alternativas diplomáticas e econômicas, as quais os membros acreditam que será melhor servir ao próprio interesse político e econômico, do que servir ao regime de Obama.

A Petrocaribe, organização de países da América Central e Caribe ajudados pela Venezuela, atende melhor às necessidades de desenvolvimento de seus membros do que a organização dominante dos Estados Unidos, como a Organização dos Estados Americanos ou a então chamada "Iniciativa Caribenha". O mesmo vale para a ajuda da Venezuela para a CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos) e UNASUL (União das Nações Sul-americanas). Essas são organizações latino-americanas que excluem a presença dominante dos Estados Unidos e Canadá e são designadas para promover a grandiosa independência regional.

A reclamação de Obama de que a Venezuela representa uma ameaça para a política externa americana é uma acusação direta a todos os governos que escolheram livremente abandonar as organizações centrais dos Estados Unidos e que rejeitam a hegemonia estadunidense.

Em outras palavras, o que desperta a ira de Obama e motiva sua agressividade em direcionar ameaças à Venezuela é o guia político de Caracas em mudar o Imperialismo da política externa dos Estados Unidos.

A Venezuela não tem bases militares no resto da América Latina e nem invade, ocupada ou patrocina golpes militares nos outros países latino-americanos – como Obama e seus antecessores fizeram.

A Venezuela condenou a invasão americana no Haiti, o suporte no golpe militar em Honduras (2009), Venezuela (2002, 2014, 2015), Bolívia (2008) e Equador (2010).

Claramente, a "emergência" de Obama decretada e sancionada contra a Venezuela, é fruto da imutável supremacia imperial dos Estados Unidos na América Latina e diminui a independência venezuelana, sua política externa democrática.

Para entendermos corretamente a política de Obama em atacar a Venezuela, nós temos que analisar por que ele escolhe fazer ameaças justamente nesse momento.

Ameaça de guerra de Obama resulta do fracasso político

As principais razões pelas quais Obama interveio diretamente na política venezuelana é que suas outras opções políticas destinadas a derrubar o governo Maduro falharam.

Em 2013, os Estados Unidos financiaram o opositor presidencial, Henrique Capriles, para derrubar o governo Chavista. O Presidente Maduro derrotou a escolha de Obama e desviou a "via eleitoral" de Washington para a mudança de regime.

Na sequência, Obama tentou boicotar e desacreditar o processo eleitoral da Venezuela através de uma campanha de difamação internacional. A Casa Branca boicotou por seis meses e não recebeu nenhuma ajuda da América Latina ou da União Europeia, já que houve grandes observadores internacionais na eleição, que vão desde o ex-presidente Jimmy Carter aos representantes da Organização dos Estados Americanos que certificaram o resultado.

Em 2014, o regime Obama apoiou tumultos violentos em grande escala, que deixaram 43 pessoas mortas e dezenas de feridos, (a maioria das vítimas foram civis pró-governo e agentes da lei) e milhões de dólares em danos à propriedade pública e privada, incluindo usinas de energia e clínicas. Dezenas de vândalos e terroristas de direita foram presos, incluindo o terrorista formado em Harvard Leopoldo Lopez. No entanto, o governo Maduro libertou a maioria dos sabotadores como um gesto de reconciliação.

Obama, por sua vez, escalou a campanha de terror da violência interna. Ele recrutou seus agentes e, em fevereiro de 2015, apoiou um novo golpe. Vários funcionários da embaixada dos Estados Unidos (os EUA tinham, pelo menos, 100 americanos em sua embaixada), eram agentes da inteligência e utilizaram cobertura diplomática para se infiltrar e recrutar uma dúzia de oficiais militares venezuelanos para tramar a derrubada do governo eleito e, assim, assassinar o presidente Maduro, bombardeando o palácio presidencial.

O Presidente Maduro e sua equipe de segurança nacional descobriram a tentativa de golpe e prenderam os líderes militares e políticos, incluindo o prefeito de Caracas.

Obama, agora furioso por perder seus agentes principais e seus representantes internos, voltou para o seu último recurso: a ameaça de uma intervenção militar americana direta.

Os múltiplos usos da "emergência nacional" de Obama

A declaração de uma emergência de segurança nacional de Obama tem objetivos psicológicos, políticos e militares. Sua postura belicosa foi projetada para reforçar o espírito de seus agentes presos e desmoralizados para que eles saibam que eles ainda têm o apoio dos EUA. Para isso, Obama exigiu que o presidente Maduro libertasse os líderes terroristas. As sanções de Washington foram dirigidas, principalmente, contra as autoridades de segurança da Venezuela, que julgou procedente a constituição e manteve presos os capangas de Obama. Os terroristas em suas celas de prisão podem se consolar com o pensamento de que, enquanto eles passam por um "momento difícil" de servir como tropas e fantoches dos Estados Unidos, seus procuradores terão vistos negados pelo presidente Obama e não podem mais visitar a Disneyland Park ou fazer compras em Miami... Tais são as consequências das atuais "sanções" dos Estados Unidos nos olhos de uma América Latina altamente crítica.

O segundo objetivo da ameaça de Obama é testar a resposta dos governos da Venezuela e da América Latina. O Pentágono e a CIA buscaram conferir como os militares, a inteligência da Venezuela e os líderes civis vão lidar com este novo desafio, a fim de identificar os elos fracos da cadeia de comando, ou seja, os funcionários que irão correr para se esconder, que irão se acovardar ou buscar conciliar, por ceder às exigências de Obama.

Lembre-se de que, durante o apoiado golpe estadunidense em abril de 2002, muitos autointitulados "revolucionários chavistas'' passaram a se esconder, alguns em embaixadas. Além disso, vários oficiais militares desertaram e uma dúzia de políticos foi a favor com os líderes do golpe, até que a maré virou e mais de um milhão de venezuelanos comuns, incluindo moradores de favelas, marcharam para cercar o Palácio Presidencial e, com o apoio de paraquedistas legalistas, derrubou os golpistas e libertou seu Presidente Chávez. Só então é que os chavistas bundões saíram de debaixo de suas camas para comemorar a restauração de Hugo Chávez e o retorno da democracia.

Em outras palavras, a postura belicista de Obama é parte de uma "guerra de nervos", para testar a resistência, determinação e lealdade dos oficiais da Venezuela quando as suas posições são ameaçadas, suas contas bancárias nos Estados Unidos são congeladas, seus vistos negados e seu acesso à Disneyland Park cortado.

Obama está colocando o governo venezuelano sobre a observação: o aviso, desta vez, é uma próxima invasão

A retórica da Casa Branca também se destina a testar o grau de oposição na América Latina - e se Washington pode esperar o apoio na América Latina e em outros lugares.

Cuba respondeu com força com o apoio incondicional à Venezuela. Equador, Bolívia, Nicarágua e Argentina repudiaram as ameaças imperiais de Obama. A União Europeia não adotou as sanções dos Estados Unidos, embora o Parlamento Europeu fosse a favor da demanda de Obama para libertar os terroristas presos. Brasil, Uruguai, Chile e México não apoiaram os EUA e nem o governo venezuelano. O vice-presidente uruguaio Raul Sendic foi o único oficial na América Latina que não foi contra a intervenção dos EUA. No entanto, no dia 16 de março em uma reunião emergencial da Unasul em Quito, Equador, os ministros das Relações Exteriores da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela denunciaram em unanimidade as sanções e a intervenção militar proveniente dos Estados Unidos.

Presidente Maduro se mantém firme: Eles não passarão

O mais importante, o presidente Maduro se manteve firme. Ele declarou uma emergência nacional e pediu forças especiais. Ele convocou, para todo o país, duas semanas de exercícios militares, envolvendo 100 mil soldados a partir do dia 14 de março. Ele deixou claro para o Pentágono e para a Casa Branca que a invasão norte-americana seria objeto de resistência, que milhões de combatentes da liberdade com quem os venezuelanos se confrontam não seriam um "passo do bolo" - que haveria baixas americanas, sacos para corpos e novas viúvas e órfãos dos EUA a lamentar regimes imperiais de Obama.

Conclusão

Obama não prepara uma invasão imediata, porque seus agentes fracassaram em dois anos consecutivos, e nem desiste da "mudança de regime". Sua postura militarista é projetada para polarizar a América Latina: para dividir e enfraquecer as organizações regionais e para separar os chamados "moderados" no Mercosul (Brasil / Uruguai / Paraguai) da Venezuela e da Argentina. Apesar de suas falhas, até agora, Obama vai avançar para ativar a oposição às políticas de segurança venezuelanas entre os chilenos, peruanos, mexicanos, e regimes neoliberais colombianos.

Washington está construindo pressão externa e se preparando para uma nova rodada de manifestações internas violentas para provocar uma resposta do governo.

Em outras palavras - a invasão militar de Obama seguirá o cenário ensaiado de "intervenção humanitária" orquestrada na Iugoslávia, Líbia e Síria - com tais consequências desastrosas para os povos desses países. Obama, no momento, não tem apoio político internacional da Europa e América Latina, então, ele não pode se arriscar a invasão norte-americana unilateral e sangrenta, uma prolongada guerra imediatamente.

No entanto, ele está inexoravelmente se movendo nessa direção. Obama aproveitou as prerrogativas executivas para atacar a Venezuela. Ele alertou e mobilizou as forças de combate dos EUA na região. Ele entende que suas equipes atuais de cooperativas na Venezuela demonstraram ser incapazes de vencer as eleições ou de tomar o poder sem grande apoio militar estadunidense. Obama agora está envolvido em uma guerra psicológica, bem como física: derrubar a economia venezuelana, para intimidar os fracos de coração, e enfraquecer os militantes através de constantes ameaças e sanções alargadas ao longo do tempo.

O governo venezuelano de Nicolás Maduro aceitou o desafio. Ele está mobilizando as pessoas e as forças armadas: seu regime democraticamente eleito não vai se render. A resistência nacional estará lutando em seu próprio país para o seu próprio futuro. Eles estarão lutando contra um poder imperial invasor. Eles representam milhões e têm um mundo a perder se os “esquálidos” (a quinta coluna do país) tomarem o poder, se não tomarem suas vidas, os seus meios de subsistência, a sua dignidade e seu legado como um povo livre e independente.

Epílogo

O presidente Maduro procurou e garantiu apoio militar russo, solidariedade aos venezuelanos e um acordo para participar de manobras militares conjuntas para enfrentar os desafios da guerra de Obama... O presidente Putin enviou uma carta pública de apoio ao governo venezuelano em resposta às ameaças de Obama.

Obama está engajado em uma estratégia econômica e militar em duas vertentes, que irá convergir para uma invasão militar norte-americana.

As ameaças militares evidentes emitidas no início de março de 2015 são projetadas para forçar o governo Maduro a desviar recursos financeiros em larga escala, longe de satisfazer a crise econômica para a construção de defesa militar de emergência. Através de uma escalada de ameaças militares e econômicas, a Casa Branca espera diminuir os subsídios do governo para a importação de produtos alimentares de base e outros produtos essenciais durante uma campanha interna de açambarcamento e escassez artificial cometida por sabotadores econômicos. Obama está contando com seus representantes venezuelanos e com os meios de comunicação locais e internacionais para culpar o governo pela deterioração econômica e de mobilizar os grandes protestos de consumidores irados. Estrategistas da Casa Branca esperam uma enorme multidão, que vai servir como uma cobertura para os terroristas e franco-atiradores de se envolver em atos violentos contra as autoridades públicas, provocando a polícia e as forças armadas a responderem, repetindo o "golpe" em Kiev. Nesse ponto, Washington procurará assegurar alguma forma de apoio da Europa ou da América Latina (através da OEA) a intervir com tropas em que o Departamento de Estado vai dublar como "mediadores de paz em uma crise humanitária".

O sucesso do envio dos fuzileiros navais dos EUA para a Venezuela em uma missão de paz vai depender da eficácia das forças especiais e agentes do Pentágono na Embaixada dos Estados Unidos em garantir colaboradores de confiança entre os militares venezuelanos e as forças políticas, prontos para trair seu país. Uma vez que os colaboradores aproveitarem um pedaço de território, Obama pode montar a farsa de que fuzileiros navais dos EUA estão lá por convite... das forças democráticas ...

Sob condições de ameaça militar explícita, Maduro deve mudar "as regras do jogo”. Em condições de emergência, segurar o tesouro não é mais apenas uma contravenção: torna-se um crime capital. Os políticos de reuniões e de consultoria com os representantes do país invasor devem perder a sua imunidade e ser sumariamente presos. Acima de tudo, o governo deve assumir o controle total sobre a distribuição de bens de primeira necessidade, estabelecer a política de racionamento para garantir o acesso da população; enfermagem escassa de recursos financeiros por limitar ou impor uma moratória sobre o pagamento da dívida; diminuir ou vender os ativos nos EUA (CITCO) para evitar a perda ou a sua colocação à liquidez ("congelado") por um novo decreto de Obama. Na frente externa, a Venezuela deve aprofundar os laços militares e econômicos com os países vizinhos e com as nações independentes para suportar os militares dos EUA e a ofensiva econômica. Se Obama agrava as medidas militares contra a Venezuela, as eleições parlamentares marcadas para setembro devem ser suspensas temporariamente até que a normalidade seja restabelecida.