31 de janeiro de 2016

Por um Imposto sobre Transações Financeiras

Prabhat Patnaik

Peoples Democracy

O senador Bernie Sanders que se considera um "socialista" e está a fazer campanha com algum êxito pela nomeação como candidato do Partido Democrático nas próximas eleições presidenciais dos Estados Unidos, saiu-se com uma proposta de um Imposto sobre Transações Financeiras, cujas receitas serão utilizadas para tornar a educação em faculdades gratuita para todos os estudantes em instituições públicas. Uma vez que desta vez a campanha no interior do Partido Democrático está a centrar-se no controle sobre a Wall Street, a proposta de Sanders, que a afeta diretamente, adquire grande significado.

Um Imposto sobre Transações Financeiras tem afinidade com um imposto sobre vendas de "commodities financeiras". Isto pode cobrir um vasto conjunto de transações financeiras, desde serviços bancários a transações com moeda estrangeira, ações, derivativos e commodities de "futuros". Destes, o imposto sobre transações no mercado de ações, como distintas de outras transações, incluindo transações de divisas sobre as quais o conhecido economista James Tobin sugerira há alguns anos cobrar um imposto para restringir a atividade especulativa, é o que está atualmente a atrair a atenção devido ao seu maior potencial para a geração de receita. E é com isto que me preocuparei, no que se segue.

Tal como no caso de quaisquer impostos sobre vendas, as taxas de imposto sobre transações no mercado financeiro irão naturalmente variar conforme os ativos. Mas tem sido estimado que mesmo se as vendas de ações forem tributadas a uma percentagem nominal de 0,1 por cento e as de derivativos a uma ainda mais minúscula percentagem de 0,01 por cento, então, nos Estados Unidos, a receita gerada será de US$130 bilhões em um ano e de US$1,5 trilhão ao longo de uma década, o que é uma soma enorme.

A ideia de utilizar receitas de impostos sobre transações financeiras para despesas de bem-estar social tem sido discutida a fundo desde há algum tempo. Alguns sugeriram mesmo um imposto sobre transações financeiras globais para atender as necessidades de saúde em países subdesenvolvidos e outros argumentaram em favor de um esquema de pensões de velhice global pago por um imposto global sobre transações financeiras.

Mas um imposto sobre transações financeiras é advogado não apenas devido ao seu potencial de receitas. Supõe-se que ele também reprima flutuações amplas no mercado de ações, ao eliminar todo um conjunto de negócios de curto prazo, os quais não só são extremamente inflados em relação à economia real nas economias capitalistas contemporâneas como em comparação estão mesmo a crescer mais rapidamente. Aparentemente, mesmo o FMI agora acredita que um setor financeiro demasiado inflado atua como um travão à taxa de crescimento da economia real e inclina-se a favor de uma redução da sua dimensão relativa. Um imposto sobre transações financeiras pode ser um instrumento para alcançar este objetivo.

Oligarquias corporativo-financeiras opõem-se à proposta de imposto

Como era de esperar, tais propostas de imposto invariavelmente despertaram oposição maciça das oligarquias corporativo-financeiras de todo o mundo. Mesmo na Índia, quando um imposto sobre transações de ações foi introduzido, e isso com uma taxa absurdamente modesta, ele ainda desperta tal hostilidade que a taxa teve de ser reduzida ainda mais. Também nos Estados Unidos, a proposta de Bernie Sanders provocou uma vasta condenação dos porta-vozes das corporações, os quais repetiram números absurdos e sem base sobre quanto a taxa de crescimento da economia estadunidense sofreria se um tal imposto fosse aplicado.

Mas deixando de lado tal exagero, o cerne do argumento dos oponentes do imposto sobre transacções financeiras é como se segue: o argumento para o imposto com base na receita, eles mantêm, contradiz o argumento para o imposto baseado no "efeito estabilizador", isto é, se o imposto realmente tiver êxito em reduzir a especulação e transmitir estabilidade ao sistema, então ele não renderia muita receita. Isto porque a estabilidade pode ser introduzida só através de uma redução do número de transacções que se verificam no presente. Mas se houver uma tal redução no número de transacções então a base do imposto contrai-se em correspondência e, assim, a receita fiscal. Segue-se portanto que os benefícios do imposto são muito exagerados pelos seus proponentes. E uma vez reconhecido este facto, e a modéstia dos mesmos benefícios enfatizada pelos seus proponentes, então tal imposta cessa de ser uma medida valiosa em vista dos seus efeitos indubitavelmente adversos sobre o incentivo dos capitalistas a investir ("espíritos animais").

Este argumento é semelhante àquele que se encontra na defesa dos impostos indirectos sobre commodities, nomeadamente que se a taxa do imposto indirecto for aumentada no caso de alguma commodity particular para desestimular o seu consumo, então ela não pode ser simultaneamente advogado como uma medida destinada a gerar receita.

Contudo, tal argumento baseia-se numa falácia lógica. Suponha-se, como tem sido estimado para os Estados Unidos, que a elasticidade-preço da procura por commodities financeiras é a unidade, o que significa que se o custo de transacções financeiras for duplicado então o volume de transacções é cortado pela metade, deixando intacto o valor total das transacções. Agora, vamos supor que um Imposto sobre Transacções Financeiras duplique o custo das mesmas, isto é, enquanto activos financeiros no valor de Rs100 cada foram vendidos na quantidade das 100 unidades anteriores, com um valor total de vendas montando a Rs10.000, agora o imposto aumenta o custo de cada activo para Rs200, devido ao que o volume de activos transaccionados desce para 50, com o valor das vendas totais permanecendo nos Rs10.000 como antes. Nesta nota situação, contudo, ainda haveria Rs5.000 de receita fiscal gerada (isto é, Rs100 vezes 50), o que significa que houve uma queda substancial no volume de transacções e ainda um aumento na arrecadação de receita fiscal.

A falácia de que acabo de falar surge devido a uma confusão entre a elasticidade da procura em relação à taxa de imposto e a elasticidade da procura em relação ao preço da commodity financeira. Mesmo quando esta última é unitária, a primeira não é. Isto acontece porque o imposto é apenas um componente, e um componente menor, do preço total. Portanto, mesmo quando uma ascensão no preço por causa do imposto leva a uma queda equi-proporcionada na quantidade procurada, isto leva a uma queda menos do que equi-proporcionada em comparação ao aumento na taxa de imposto. Eis porque a magnitude da receita fiscal aumenta com um aumento na taxa do imposto.

A oposição do capital financeiro a uma Taxa sobre Transacções Financeiras, portanto, não é baseada em quaisquer argumentos válidos: ela surge pelas mesmas razões da sua oposição ao Imposto sobre Transacções de Divisas ou à Taxa Tobin, nomeadamente que está interessada na especulação ao passo que todos estes impostos são destinados precisamente a reduzir a especulação.

John Maynard Keynes, o famoso economista britânico do século XX, argumentou que o mercado capitalista é intrinsecamente incapaz de distinguir entre "empresa" e "especulação", os quais ele definiu respectivamente como comprar um activo para "manter" e compra um activo para vender amanhã. É esta incapacidade que, segundo ele, constituía o fracasso do mercado. E ele advogou medidas que reduziriam o impacto da especulação sobre a actividade económica. O problema, contudo, é que o capital financeiro está interessado na especulação. E uma vez que qualquer coisa que reduza o impacto da especulação sobre a economia real ipso facto também reduz a especulação per se, ele opõe-se a tais medidas. Isto explica sua hostilidade ao Imposto sobre Transacções Financeiras.

Utilização potencial para despesas com bem-estar social

O potencial para utilizar este imposto para despesas com bem-estar social na Índia já foi discutido num artigo anterior (People's Democracy, 01/Novembro/2015). Para recapitular o argumento, os recursos adicionais necessários para um plano de cobertura universal da saúde pública na Índia é cerca de 1,8 por cento do PIB. O valor das transações diárias no mercado indiano de ações nos últimos meses tem estado em torno dos Rs2 lakh crores. Isto significa que um imposto de 0,37 por cento sobre transações no mercado de ações, o qual é ainda mais baixo do que o imposto de 0,5 por cento sugerido por James Tobin sobre transações de divisas, será perfeitamente suficiente para a Índia financiar um esquema público de cobertura universal de saúde.

A oposição a este plano na Índia, o qual será imensamente benéfico para os milhões de pobres no país, tal como o plano de Sanders nos Estados Unidos, vem da oligarquia corporativo-financeira. Isto naturalmente é expectável, pois se reformas orientadas para o bem-estar social com magnitude de grande alcance pudessem ser efetuadas "pacificamente" sob o capitalismo então a necessidade de transcender o sistema dificilmente se levantaria. Esta necessidade levanta-se precisamente porque a oposição dos capitalistas faz com que qualquer plano assim destinado a converter o sistema numa forma de "capitalismo do bem-estar" seja uma mera fantasia, como a atual imposição de "austeridade" sobre grandes extensões da Europa a expensas dos programas de bem-estar existentes está claramente a demonstrar.

No entanto, a exigência – tal como a de Sanders – de um Imposto sobre Transações Financeiras a fim de pagar educação pública e gratuita, é de grande importância. Se apenas uma fração desta exigência for realizada, então é tudo para o bem público. E na medida em que não for realizada, esta exigência ainda assim desempenha o papel de uma "exigência transicional" no sentido leninista, a qual torna o povo consciente da razão precisa porque continua a penar na miséria, ignorância e má saúde, mesmo no meio da notável riqueza desfrutada por uns poucos.

Mídia ocidental ignora progresso de Putin na Síria

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / As negociações de paz para a Síria patrocinadas pela ONU, que começaram na sexta-feira em Genebra, serão boicotadas pelo principal grupo de oposição síria, que insiste que a Rússia pare de bombardeá-los enquanto negociam. Para avaliar o ridículo dessa exigência, seria preciso imaginar um cenário semelhante ocorrendo nos Estados Unidos. Digamos, por exemplo, que Ammon Bundy, o líder pirado de uma milícia armada que tomou a sede de um santuário de vida selvagem, Malheur Wildlife Refuge, nos arredores de Burns, Oregon, administrado pelo governo dos EUA, exigisse que o FBI e demais agentes federais sumissem de lá, enquanto a ONU promovesse negociações entre os seus representantes e o governo Obama, com vistas a organizar um governo de transição, o qual derrubaria Obama da presidência em 18 meses, e reescreveria a Constituição dos EUA de modo que ela passasse a manifestar as convicções políticas de extrema direita política de Bundy e seu bando de seguidores no meio no mato.

Isso parece ser uma proposição razoável para você?

Pois esse é o contexto em que se realizam as atuais "negociações de paz". Não surpreende que Moscou não leve a sério essa farsa: é piada, mesmo.

Em que país do planeta se permite que milícias armadas ocupem cidades, matem civis, destruam infraestrutura crítica, criem o mais absoluto inferno e ameacem derrubar o governo nacional eleito?

Nenhum. Pois mesmo assim a equipe de Obama supõe que seria modo de agir perfeitamente aceitável, para cidadãos e não cidadãos (a maioria dos rebeldes nem são sírios, mas mercenários estrangeiros ou jihadistas), desde que seus objetivos políticos coincidam com os de Washington. E, sim, coincidem. Desde o início, o único objetivo de Washington foi derrubar o presidente Bashar al-Assad da Síria, para que, sem ele, os campos de petróleo e corredores de oleodutos pudessem ser entregues sem contestação às gigantes petroleiras ocidentais, para serem protegidas pelos soldados americanos nas novas bases construídas naquela área. Esse sempre foi o plano básico de jogo dos EUA desde o primeiro dia, e é por isso que Obama & Co. tanto precisam deter a ofensiva comandada pelos russos. E, para isso, vale tudo. Vale, até, inventar negociações teatralizadas e sem qualquer significado, que não têm outro objetivo que não seja implementar um cessar-fogo que proteja os terroristas apoiados pelos EUA e lhes dê folga para se reagrupar e só voltar a lutar adiante, quando estiverem recompostos.

O presidente Vladimir Putin da Rússia vê, é claro, a farsa, mas, farsa e tudo, mandou diplomatas para Genebra, provavelmente para não ter de abrir uma frente de dissidência num projeto que está sendo apresentado como da ONU. Sim, mas... Quem supõe que os russos cedam algum tipo de cessar-fogo, de modo que os rebeldes de Obama &Co. se rearmem para voltar à guerra? Quem acreditar nisso é tolo.

O fato é que os americanos não sabem do que realmente se passa em campo, porque a mídia ativa dentro dos EUA está muda há meses. E há meses a coalizão organizada e comandada pelos russos (Exército Árabe Sírio, Forças Quds do Irã e o Hezbollah) avança em campo, lentamente, mas sem retrocessos através da eclusa e avança em todos os fronts, e todos os dias mais e mais posições inimigas caem.

Cidades chaves na província de Latakia e também ao longo da fronteira turca que foram usadas como fortalezas jihadistas estão caindo, uma depois da outra, sob o incansável bombardeio russo, ao mesmo tempo em que, por terra, territórios vão sendo libertados pelo exército do Estado sírio. Aleppo, a maior cidade do norte da Síria, foi cercada por forças legalistas, que cortaram as vias de suprimento até a Turquia, deixando grupos de combatentes salafistas como Ahrar al Sham, Jabhat al Nusra, Jaish al Islam, ISIS e os demais grupos associados à al-Qaeda forçados a se renderem ou a passar fome enquanto esperam o desesperado encontro final. O momentum mudou a favor das forças do Estado sírio, que agora estão, claramente, no controle. A mídia dentro dos EUA só faz chamar de "atoleiro sírio" o que é retumbante vitória da coalizão comandada pelos russos, que vai gradualmente recompondo a segurança em toda a Síria, ao mesmo tempo em que põe para correr os terroristas invasores selecionados por Obama & Co. Eis o que diz a Agência Reuters:

"Três meses passados desde o início de sua ação militar na Síria, o presidente Vladimir Putin já alcançou o objetivo central de estabilizar o governo Assad e, a custos relativamente baixos, pode manter suas operações militares naquela região, no nível em que estão hoje, realmente, durante anos, dizem oficiais e analistas militares americanos. 
Essa avaliação foi tornada pública, apesar de o presidente Barack Obama e seus mais altos auxiliares não se cansarem de repetir que a ação de Putin em apoio ao ditador sírio teria sido mal planejada, que não dará conta da luta e, "certamente" será derrotada... 
Desde que a campanha começou, em 30 de setembro, a Rússia sofreu número mínimo de baixas e, apesar do que declaram os especialistas americanos, está pagando sem dificuldades os custos da própria movimentação militar – que analistas estimam em $1-2 bilhões/ano. A guerra russa é paga pelo orçamento anual regular do Estado russo, de cerca de $54 bilhões, como disse um funcionário da inteligência dos EUA... 
Atoleiro? 
"A tentativa de Rússia e Irã para defender Assad e tentar pacificar a população vai metê-los num atoleiro e não vai funcionar", dizia Obama em 2 de outubro de 2015. Em 1º de dezembro de 2015, atreveu-se mais: a Rússia estaria "atolando cada vez mais num conflito civil paralisante." 
Altos funcionários do governo negaram que houvesse qualquer contradição entre o que Obama declara e avaliações privadas, segundo as quais até o momento a campanha russa continuava bastante efetiva. 
"Eu acho que o presidente quis dizer que... não vai dar certo no longo prazo", explicou um assessor. Os russos "estão presos numa guerra civil, de modo que será extremamente difícil saírem daquilo."... 
Vasily Kashin, analista que trabalha em Moscou, explicou que a guerra não está superestressando as finanças russas. 
"Todos os dados que há mostram que o nível atual de esforço militar é completamente insignificante para a economia russa e o orçamento russo", disse Kashin, do Center for Analyses of Strategies and Technologies. "O esforço pode prosseguir exatamente no mesmo nível de intensidade, ano após ano" (U.S. sees bearable costs, key goals met for Rússia in Síria so far, Reuters).

Os americanos estão tão condicionados a crer que qualquer intervenção militar acaba fatalmente em "atoleiro", que se surpreendem quando uma ação militar é bem-sucedida. É compreensível, uma vez que os que antes se reconheciam como "os melhores militares do planeta" já não conseguem derrotar nem um bando desorganizado de pastores esfarrapados e mal armados, nem lutando por mais de 15 anos, como aconteceu no Afeganistão. Não surpreende que os americanos sem informação ou desinformados contem com o fracasso dos russos. A questão é, porém, que Putin não tem nenhuma intenção de se deixar "atolar" na Síria por uma ou duas décadas. Seu plano é derrotar o inimigo e sair. Relatos recentes vindos das linhas de frente sugerem que isso, precisamente é o que os russos estão fazendo. Adiante, de um post do blog Sic Semper Tyrannis:

"A queda de Salma"

As coisas começaram a mover-se depressa semana passada, quando o Exército Árabe Sírio, a Força Nacional de Defesa e milícias locais avançaram sobre Salma, a fortaleza dos rebeldes que foi chave para as posições defensivas no sul da Rodovia M4 que liga Latakia a Idlib. Depois de semanas de preparativos e de amaciar as defesas, R+6 finalmente entrou, e já não havia muito que os rebeldes pudessem fazer para deter ou reverter a tendência... 
... Tão logo o ponto de penetração e alcançado, porém, o lado que avança usualmente leva a melhor, o que resulta em a posição do oponente ruir sob a pressão. Foi o que aconteceu com Salma, que era um resort de montanha no nordeste de Latakia... Quando R+6 fez o assalto final, Salma já não tinha como manter a posição. A perda de Salma significou que toda a linha defensiva ao sul da Rodovia M4 foi comprometida; e ambos, os avanços do Exército Árabe Sírio e a retirada "tática" dos rebeldes fez rápida correção na linha de frente na área... 
Os avanços obtidos pelo Exército Árabe Sírio... mais uma vez provaram-se decisivos contra linha de frente dos rebeldes que já havia sido desestabilizada pela perda de Salma e pela perspectiva de ser separada de suas Linhas de Comunicação com Jisr al-Shughur" (Rebel Defences Crumbling In Latakia Province, Sic Semper Tyrannis).

Entenderam? Os grupos jihadistas estão apanhando sem parar, confrontados com exército superior a eles, que está recapturando cidades criticamente importantes e território estratégico ao longo da fronteira turca e nas partes sul e leste do país. Como resultado, Assad não será derrubado, nem o país será convertido em principado jihadista salafista governando por aberrações eslâmicas, que governam pelo terror.

Não implica dizer que não haja vários obstáculos potenciais ainda pela frente. Há. De fato, há uma situação em andamento nesse momento que pode vir a explodir em conflito regional envolvendo Turquia, OTAN, EUA e Rússia. A Rússia planeja usar seus aliados curdos no YPG para ocupar uma faixa de terra ao longo do lado sírio da fronteira com a Turquia, para restabelecer a soberania territorial síria e deter o fluxo de terroristas da Turquia para a Síria. O presidente Erdogan da Turquia ameaçou que, se o YPG insistir nesse curso, a Turquia invadirá; nesse caso, Putin defenderá os curdos. Não há como prever como acabará tudo isso, mas não há dúvidas de que as próximas semanas serão extremamente tensas, com muito agitar de sabres entre todos os principais e disputa por posições, sempre muito próximas de conflagração generalizada. Prevalecerão as cabeças mais frias?

Isso, exatamente, não posso dizer. Mas posso dizer que Washington já recuou da campanha de "Assad tem de sair" e já passou para o Plano B, que implica ocupar território e construir bases no sudeste da Síria, onde os EUA planejam permanecer pelo mais longo tempo que possam. Vejam lá, na página South Front:

"Do Front Sul: Análises e inteligência previram há um mês que os aliados da OTAN trabalham em ritmo de urgência tentando implantar um novo plano para assegurar o controle de, pelo menos, o corredor norte de petróleo que vem do Iraque, e tentar tirar vantagem dessa oportunidade para envolver a Rússia numa guerra longa e cara. Esse plano emergencial inclui ocupação de infraestrutura crucial, inclusive campos de petróleo, pelo contingente da OTAN e estabelecer forças de um antigoverno – vale dizer, anti-Rússia e anti-Irã – em partes divididas da Síria. 
Implementar esse plano pode facilmente levar a uma guerra mundial iniciada pela escalada militar em torno da crise síria. As apostas no impasse geopolítico global foram novamente aumentadas" (Escalation in Síria, South Front).

Implica dizer que, mesmo que Washington tenha sido derrotada e seu plano para derrubar Assad tenha sido neutralizado (pelo menos temporariamente), Washington já está aprofundando seu envolvimento no processo de criar um Sunistão, um novo estado a ser inventado, formado do leste da Síria unido ao oeste do Iraque, controlado por clientes dos EUA. Assim, as petroleiras ocidentais gigantes conseguirão conectar-se à rede oleogasodutos, do Qatar até a Turquia, para substituírem a Rússia como maior fornecedor de gás natural para a União Europeia. Tudo isso ainda é parte da estratégia imperial de "pivotear-se" para a Ásia, controlando recursos vitais e cuidando que não deixem de ser denominados em EUA-dólares. É plano ambicioso para governar o mundo.
Esse plano, precisamente, é que a Rússia está agora desafiando abertamente, como potência emergente que pode fazer descarrilar a mortífera máquina de guerra dos EUA e pôr fim à maligna ordem mundial unipolar.

30 de janeiro de 2016

O Sistema Clinton

Simon Head


Tradução / Em 17 de janeiro, no debate final dos Democratas antes do início da temporada de primárias, Bernie Sanders atacou Hillary Clinton por seus laços financeiros muito íntimos com Wall Street, coisa que Sanders sempre evitou em sua campanha até aquele momento: "Não tomo dinheiro dos grandes bancos... A senhora recebeu mais de $600 mil dólares de Goldman Sachs em honorários por palestras, em um único ano", disse ele. As críticas de Sanders coincidiram com matérias recentes segundo as quais o FBI poderia estar expandindo as investigações sobre mensagens de e-mail de Hillary Clinton, de modo a incluir os contatos dela com grandes doadores, quando servia como secretária de Estado. Mas as maiores questões têm a ver com como Hillary & Bill Clinton construíram sua poderosa máquina de recolher doações em dinheiro, e o que a existência dessa máquina posse vir a significar para a conduta futura de Hillary Clinton se vier a ser eleita presidente dos EUA. O trabalho investigativo aqui desenvolvido, a partir de muitas diferentes fontes, visa a oferecer quadro amplo dos fatos sobre os Clintons, não a endossar qualquer dos candidatos na campanha eleitoral em curso.

É um axioma da política de Washington na era de "Cidadãos Unidos" e Super PACs que empresas e os muito ricos podem direcionar quantias praticamente ilimitadas de dinheiro para eleger candidatos as principais cargos políticos, abrindo caminho assim para favores futuros. Segundo o website de utilidade pública Open Secrets, na campanha de 2016, em outubro, além das contribuições diretas de campanha, Jeb Bush tinha a seu dispor $103 milhões em "dinheiro externo" – grupos como PACs e Super PACs e as chamadas organizações de "dinheiro obscuro" que trabalham para um determinado candidato. Ted Cruz tem $38 milhões desses fundos; Marco Rubio $17 milhões; e Chris Christie $14 milhões.

Mas poucos se revelaram tão usufrutuários dessa política de big-money quanto Bill e Hillary Clinton. Na campanha de 2016, em outubro, Hillary Clinton tinha levantado $20 milhões de dinheiro "externo", além dos $77 milhões em contribuições diretas de campanha – a mais alta arrecadação dentre todos os candidatos até aquele momento. Mas ela e o marido têm outras conexões com grandes doadores, e que tem raízes muito anteriores ao atual ciclo eleitoral. O que em todos os casos chama a atenção no que designo como "O Sistema Clinton" é a escala e a complexidade das conexões envolvidas, o longo tempo ao longo do qual se mantém em operação, a presença do ex-presidente Bill Clinton ao lado de Hillary como sócio votante da empresa, e a magnitude estonteante dos fundos envolvidos.

Escala e complexidade são efeito dos múltiplos canais que conectam dos "Clinton-doadores" e os Clintons-CPFs: há o fluxo de remuneração de 6 dígitos por palestra, paga a Bill e Hillary Clinton, quase todas as palestras oferecidas em grandes empresas e bancos, que renderam à dupla mais de $125 milhões nos 15 anos desde que Bill Clinton deixou a Casa Branca em 2001. Há os pagamentos diretos a campanhas políticas de Hillary Clinton (incluindo para o Senado em 2000 e para a presidência em 2008 e agora em 2016, e que até 30 de setembro de 2015 alcançaram um total de $712,4 milhões, a mais recente compilação de valores feita pela organização Open Secrets. Quatro das principais cinco maiores fontes de dinheiro são grandes bancos: Citigroup Inc, Goldman Sachs, JPMorgan Chase & Co e Morgan Stanley. E a campanha Clinton fixou, como meta, arrecadar $1 bilhão para o Super PAC dela para a eleição de 2016.

Por fim, há os quase $2 bilhões que doadores deram à Fundação Clinton e suas organizações satélites, desde que Bill Clinton deixou a presidência. Pode parecer estranho incluir doações à fundação entre os meios principais pelos quais empresas e super ricos compram seu acesso aos Clintons, à boa vontade do casal e, assim, contam com receber favores futuros em troca. Os fundos da fundação são gastos, principalmente, em causas indiscutivelmente excelentes – há de tudo, desde promover reflorestamento na África e ajudar pequenos sitiantes no Caribe a operar com governos locais e empresas dos EUA para promover bem-estar e boa forma física.

Além disso, nem todos os doadores da Fundação Clinton e suas instituições afiliadas são empresas. A Fundação Bill & Melinda Gates, por exemplo, está entre as que mais contribuem para a Fundação Clinton, com doações que totalizam mais de $25 milhões desde a criação, e com foco especial, para citar um press-release da Fundação Clinton de 2014, numa parceria "para reunir e analisar dados sobre o status da participação de mulheres e meninas em todo o planeta."

Mas entre os maiores contribuidores para a fundação estão muitos dos mesmos doadores que apoiaram as campanhas políticas de Hillary Clinton e que pagaram as tais remunerações de 6 dígitos por palestras. Para esses doadores empresariais, o acesso aos Clintons pode ser tão importante como os objetivos para os quais é usado o dinheiro que eles doam. Segundo análise de fevereiro de 2015 do dinheiro doado à Fundação Clinton, publicada pelo The Washington Post, a indústria de serviços financeiros é a maior doadora dentre todas as empresas doadoras. Outros grandes doadores são empresas de energia e do setor de Defesa, e governos clientes dessas empresas.

Ex-presidentes dos EUA há muito tempo usam fundações de caridade como meio para perpetuador a própria influência e atrair convites para palestras regiamente pagas como lucrativa fonte de renda. Mas os Clintons são únicos, na medida em que fazem render o poder de arrecadar dinheiro de um ex-presidente, Bill Clinton, para financiar a carreira política da mulher dele – sempre com a expectativa, entre os doadores, de que como senadora, secretária de Estado e possível futura presidenta, Hillary Clinton sempre estará em posição da qual poderá retribuir os favores. O encontro anual da Clinton Global Initiative garantiu cenário privilegiado para as transações entre os Clintons e seus benfeitores. Dentre os patrocinadores corporativos das conferências de 2014 e 2015 da "Iniciativa Clinton Global" em Nova York, por exemplo, estavam HSBC, Coca-Cola, Monsanto, Proctor and Gamble, Cisco, PricewaterhouseCoopers, o Grupo Blackstone, Goldman Sachs, Exxon Mobile, Microsoft e Hewlett Packard. Desde que paguem $250 mil dólares ou mais, executivos que mostrem a cara nas reuniões da "Iniciativa Clinton Global" podem usufruir de privilégios considerados especiais, inclusive do maior deles: acesso direto aos Clintons.

Em artigo investigativo para o The New Republic, Alec MacGillis descreveu as reuniões anuais da Iniciativa Clinton Global como complicado negócio de toma-lá-dá-cá, no qual altos executivos de grandes empresas fazem doações para os projetos do casal Clinton (sempre projetos ecológicos ou, mais recentemente, também de promoção da igualdade de gêneros), em troca de acesso aos Clintons, pai, mãe e filha. MacGillis focou-se nas atividades de Douglas Band, ex-servidor de baixo escalão da Casa Branca dos Clintons, e quem nas reuniões da Iniciativa Global Clinton arranjava favores para seleto grupo de altos executivos "metendo-os sobre o palco com os Clintons, relaxando nos procedimentos de revista e autorização de entrada em troca de dinheiro, ou vendendo lugares na foto dos principais participantes com o casal Clinton." Na reunião de 2012 da Iniciativa Clinton Global, foi Muhtar Kent, então presidente da Coca Cola, quem, como noticiou o The New York Times, "conseguiu um dos cobiçados assentos no palco com Mr. Clinton."

Além da Fundação Clinton, remuneração por palestras também são outro interessante meio pelo qual empresas interessadas, como Citicorp e Goldman Sachs podem oferecer apoio aos Clintons sem configurar doações diretas de campanha. Dados extraídos das declarações financeiras anuais dos Clinton, da Fundação Clinton e dos próprios bancos, mostram que, entre 2001 e 2014 Bill Clinton recebeu $1,52 milhões em remuneração por palestras do UBS, $1,35 milhão de Goldman Sachs, $900 mil do Bank of America, $770 mil do Deutsche Bank e $650 mil de Barclays Capital. Desde que deixou o cargo de secretária de Estado em fevereiro de 2013, Hillary vem recebendo dinheiro equivalente, das mesmas fontes. Dos quase $10 milhões que ela recebeu como remuneração por palestras só em 2013, quase $1,6 milhão veio dos maiores bancos de Wall Street, incluindo $675 mil de Goldman Sachs (são os pagamentos a que Bernie Sanders referiu-se, no debate de 17 de janeiro de 2016), e $225 mil de cada um dos seguintes doadores: UBS, Bank of America, Morgan Stanley e Deutsche Bank.

Dentre os traços mais impressionantes e incômodos do Sistema Clinton estão as grandes contribuições que empresas estrangeiras e governos estrangeiros fizeram à Fundação Clinton, além da rapidez com que Bill Clinton aceita remuneração de seis dígitos de alguns deles para palestras, não raras vezes quando os próprios doadores de dinheiro tinham interesse financeiro potencial em decisões a serem tomadas pelo Departamento de Estado de Hillary Clinton. Reportagem de investigação publicada em abril de 2015 por Andrew Perez, David Sirota e Matthew Cunningham-Cook no International Business Times mostra que durante o período de três anos, de outubro de 2009 até dezembro de 2012, durante o qual Hillary Clinton foi secretária de Estado, houve pelo menos 13 ocasiões – ao preço coletivo de $2,5 milhões – nas quais Bill Clinton recebeu pagamentos da ordem dos seis dígitos por palestras em empresas ou grupos financeiros que, segundo os registros do governo federal dos EUA, trabalhavam em lobbies ativos dentro do Departamento de Estado.

Aqueles pagamentos a Bill Clinton em 2010 incluíram: $175 mil da VeriSign Corporation, que fazia lobby dentro do Departamento de Estado em questões de cibersegurança e taxação sobre a Internet; $175 mil da Microsoft, que pressionava o governo na questão dos visas para trabalho de imigrados; $200 mil da SalesForce, empresa que naquele momento pressionava o governo em questões de segurança digital, dentre outras questões. Em 2011, aqueles pagamentos incluíram $200 mil de Goldman Sachs, que fazia lobby na discussão da Lei de Controle do Orçamento; e $200 mil da PhRMA, a associação comercial que representa empresas de drogas e queria garantir leis especiais para proteção ao comércio de novas drogas patenteadas nos EUA, dentro do Tratado da Parceria Trans-Pacífico que então estava sendo negociado.

E em 2012, os pagamentos incluíram: $200 mil da Federação Varejista Nacional, que pressionava o Departamento de Estado para obter leis contra os produtores chineses; $175 mil de BHP Billiton, que queria que o governo Obama protegesse seus interesses de mineração no Gabão; $200 mil da Oracle, a qual, como a Microsoft, queria que o governo Obama emitisse vistos de trabalho e medidas para enfrentar a ciber-espionagem; e $300 mil da Dell Corporation, que pressionava o Departamento de Estado para que protestasse contra tarifas que países europeus haviam imposto aos computadores Dell.

Durante o mandato de Hillary como secretária de Estado, empresas da Defesa nos EUA e seus clientes além-mar também contribuíram com de $54 a $141 milhões para a Clinton Foundation. (A Fundação só divulga uma faixa de valores dentro da qual se inserem os doadores privados; por isso só se pode ter estimativas de contribuição mínima e contribuição máxima.) No mesmo período, essas empresas de defesa dos EUA e seus clientes governamentais no exterior também pagaram um total de US $ 625.000 para Bill Clinton em honorários de palestras.

Em março de 2011, por exemplo, Bill Clinton recebeu $175 mil, da Fundação Kuwait America, para aparecer como convidado de honra e principal orador no jantar anual de gala da organização, em Washington. Entre os patrocinadores estavam a Boeing e o governo do Kuwait, por meio de sua embaixada Washington. Pouco antes, o Departamento de Estado de Hillary Clinton autorizara negócio de $693 milhões, para fornecer ao Kwait aeronaves Globemaster de transporte militar fabricadas pela Boeing. Como secretária de Estado, Hillary Clinton tinha, por lei, o dever de decidir quais os negócios de venda de armas a governos estrangeiros não agrediam interesses nacionais dos EUA.

Além disso, pesquisas mais aprofundadas feitas por Sirota e Perez para o International Business Times e baseadas em dados distribuídos pela própria Clinton Foundation e pelo governo dos EUA, durante o mandato de Hillary na Secretaria de Estado a secretária autorizou vendas comerciais de armas no total de $165 bilhões para vinte países que haviam feito doações para a Clinton Foundation. Dentre eles, os governos de Arábia Saudita, Omã, Qatar, Argélia, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, todos esses com registros de graves agressões a direitos humanos que o próprio Departamento de Estado de Hillary criticava publicamente. Durante os anos de Hillary Clinton como secretária de Estado, as vendas de armas a governos estrangeiros que haviam feito doações à Clinton Foundation foram praticamente o dobro do total de vendas feitas àqueles mesmos países durante o segundo mandato de George W. Bush. E houve também um adicional de $151 bilhões em armas vendidas a 16 nações que haviam doado dinheiro à Clinton Foundation; eram negócios organizados pelo Pentágono, mas que só podiam ser concluídos se autorizados formalmente por Hillary Clinton, secretária de Estado. Esses, totalizaram quase 1,5 vezes a mais que as correspondentes vendas feitas durante o segundo mandato de Bush.

Dentre as amizades mais importantes e lucrativas que os Clintons fizeram mediante a Fundação Clinton e suas Iniciativas Globais Clinton, está o bilionário da indústria da energia do Canadá Frank Giustra. Grande doador da fundação durante anos, Giustra tornou-se membro da diretoria e desde 2007 é copatrocinador da Iniciativa Clinton-Giustra de Crescimento Sustentável. Em troca, a influência política de Clinton e seus contatos pessoais com chefes de estado em todo o mundo são de máxima serventia para promover os interesses empresariais de Giustra. Em setembro de 2005, Bill Clinton e Giustra viajaram a Almaty, capital do Cazaquistão, para se reunirem com o presidente Nursultan Nazarbayev. No encontro, Clinton disse a Nazarbayev que ele apoiaria a candidatura do Cazaquistão à presidência da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). A OSCE é um corpo internacional cuja missão é verificar, dentre outras coisas, a lisura de eleições entre os estados membros. Segundo as mais diferentes fontes, dentre as quais a BBC, The Washington Post e o The New York Times, Nazarbayev aspirava àquela posição para o Cazaquistão, sobretudo como uma marca de respeitabilidade europeia diplomática para seu país e ele próprio.

O apoio de Clinton à candidatura do Cazaquistão foi realmente bizarro, dado que o Cazaquistão sempre esteve listado pela Transparência Internacional entre os países mais corruptos do mundo, lado a lado com Paquistão, Bielorrússia e Honduras. Para Freedom Houseem New York, o Cazaquistão é "não livre", com Nazarbayev vencendo eleições presidenciais sempre com mais 90% dos votos. Pois mesmo assim, em carta de dezembro de 2005, depois de uma daquelas eleições unânimes, Bill Clinton escreveu: "Reconhecer que o próprio trabalho recebe nota máxima, é das mais importantes recompensas que se pode ter na vida". Não se sabe ainda que influência teve, se é que teve alguma, o apoio de Bill Clinton, nos esforços do Cazaquistão para chegar à presidência da OSCE, mas fato é que, em 2007, depois de receber pleno apoio do delegado dos EUA, o Cazaquistão foi eleito presidente da OSCE, posição que assumiu em 2010.

Razões possíveis para o apoio de Clinton começam a surgir com mais clareza quando se examinam as atividades de Frank Giustra. Em artigo para o The New York Times, datado de 31 de janeiro de 2008, Jo Becker e Don Van Natta, Jr., oferecem provas detalhadas de que Nazarbayev jogou toda sua influência a favor de Giustra e contra concorrentes mais bem qualificados, numa concorrência para explorar minas de urânio no Cazaquistão no valor de $350 milhões. Em entrevista ao Times, Moukhtar Dzakishev, então presidente da estatal nuclear do Cazaquistão Kazatomprom, confirmou que Giustra encontrara-se com Nazarbayev em Almaty, que Giustra informou o ditador sobre os negócios que tentava fazer com a Kazatomprom, e ouviu dele, como resposta que "Muito bom. Faça isso." O negócio foi fechado 48 horas depois da partida de Clinton, de Almaty. Depois dessa bem-sucedida visita à Ásia Central, Giustra doou $31 milhões à Clinton Foundation. E em junho de 2008 fez mais uma doação de $100 milhões à Fundação.

Em entrevista a David Remnick para um perfil da pós-presidência de Clinton, que New Yorker preparava em setembro de 2006, Giustra falou de como os laços que mantinha com Clinton podiam operar a seu serviço e a favor de seus interesses. Com Bill Clinton naquele momento embarcado num jato de propriedade de Giustra a caminho de uma jornada pelo continente africano ("o avião tem bancos de couro e sala de reuniões presidencial", segundo o The New Yorker), Giustra disse a Remnick que "quase todas as minhas fichas estão apostadas em Bill Clinton. É uma marca, marca de prestígio mundial, e ele pode fazer coisas e pedir que outros façam coisas como nenhuma outra pessoa."

A conexão Clinton-Giustra tornou-se ainda mais importante na Colômbia, onde a partir de 2005 Bill Clinton conseguiu vários encontros entre Giustra e o então presidente Álvaro Uribe, dos quais frequentemente Clinton participou. Giustra já era conhecido na Colômbia como fundador e acionista da Pacific Rubiales, petroleira colombiana constituída em 2003. Em 2007, segundo o The Wall Street Journal, Bill Clinton convidou Uribe e Giustra para se reunirem a ele na casa dos Clintons em Chappaqua, Nova York.

Aquelas reuniões eram o meio pelo qual Giustra influenciava Uribe e todo o seu governo a favor da Pacific Rubiales, num momento em que o governo Uribe tentava por fim ao monopólio da empresa nacional de petróleo, Ecopetrol, e para abrir o setor a investidores estrangeiros. Aqueles contatos parecem ter dado frutos para Giustra. Em 2007, Pacific Rubiales assinou negócio de $300 milhões com a Ecopetrol para construir 250 km de oleodutos entre as províncias de Meta e Casanare na região central da Colômbia. No mesmo ano, Pacific Rubiales passou a controlar o campo de petróleo Rubiales, o maior da Colômbia.

Uribe foi interlocutor bem singular para Clinton e Giustra. O presidente da Colômbia havia sido definido pelo governo George W. Bush como aliado crucial na Guerra às Drogas, na qual a Colômbia era frequentemente citada como história de sucesso. Mesmo assim, Uribe e seus aliados políticos mantinham conexões já duradouras com cartéis colombianos ativos no tráfico de drogas. Um relatório de inteligência de 1991, feito pela Agência de Inteligência da Defesa dos EUA e tornado público em agosto de 2004, descrevia Uribe como "um político e senador colombiano dedicado à colaboração com o Cartel de Medellín em níveis elevados do governo... Uribe era ligado a uma empresa envolvida em atividades de narcóticos nos Estados Unidos... [Ele] trabalhou para o cartel de Medellín" e é "amigo pessoal de Pablo Escobar Gaviria", o antigo traficante de drogas.

Um relatório de 2011 sobre eventos de 2010 da ONG Human Rights Watch oferece provas detalhadas de que Uribe arrastava com ele esse passado envenenado no momento em que negociava com Clinton e Giustra. O relatório refere-se ao governo do presidente Uribe como "eivado de escândalos em torno de execuções extrajudiciais executadas pelo exército, um processo de desmobilização paramilitar muito questionado e abusos em geral cometidos pelo serviço nacional de inteligência," que participara de vigilância ilegal sobre atividades de defensores de direitos humanos, jornalistas, políticos e juízes da Suprema Corte. Hillary Clinton foi informada sobre essas violações de direitos humanos quando, como secretária de Estado reuniu-se com Bill Clinton, Giustra e Uribe durante viagem a Bogotá, em junho de 2010. Em mensagem de e-mail que a embaixada do EUA em Bogotá enviou à secretária Clinton, o deputado Jim McGovern de Massachusetts alertava que "enquanto estiver na Colômbia, a coisa mais importante que a Secretária tem a fazer é evitar qualquer elogio muito efusivo dirigido ao presidente Álvaro Uribe."

Hillary Clinton escolheu ignorar o alerta. Falando a Uribe, no principal discurso de toda a visita, Hilary descreveu-o como "parceiro essencial dos EUA" cujo "compromisso com construir instituições democráticas fortes na Colômbia" deixaria "um legado de grande progresso que será avaliado em termos históricos". Durante a visita, Hillary também afirmou apoio a um acordo de livre comércio EUA-Colômbia, do qual Giustra e outros investidores ricos muito se beneficiariam. Isto inverteu sua oposição anterior ao acordo durante sua campanha para Presidente em 2008, em razão do desrespeito aos direitos humanos na Colômbia, especialmente a respeito dos direitos dos sindicatos.

A partir do acordo com Giustra, houve muitas reclamações contra o tratamento aos empregados dos campos de petróleo da Pacific Rubiales na Colômbia, com várias greves e processos movidos por grupos de defesa dos trabalhadores. Em um discurso em agosto de 2011 no Senado da Colômbia, Jorge Robledo, líder do partido Polo Democrático Alternativo (social-democrata) no Senado da Colômbia descreveu os alojamentos para empregados da Pacific Rubiales como "semelhantes a campos de concentração", com turnos de trabalho que não raro excediam 16 horas diárias, durante várias semanas, instalações sanitárias inadequadas e mais de um empregado por cama; e com a empresa terceirizando instalações e contratação de empregados para dificultar a sindicalização e o pagamento de pensões e assistência à saúde. (Em abril de 2015, Peter Volk, conselheiro geral da Pacific Rubiales, negou estas alegações, dizendo que a empresa "respeita os direitos dos seus trabalhadores e exige de empresas que prestam serviços a ela para também fazê-lo.")

A folha corrida do Sistema Clinton levanta graves questões sobre o que poderia ser uma presidência à Hillary Clinton, no que tenha a ver com a crescente influência política de grandes corporações empresariais e bancos de Wall Street. O presidente a ser eleito terá de enfrenar questões econômicas e sociais críticas, inclusive a estagnação da renda da classe média, os furos na legislação que permite que os aplicadores em fundos hedge e outros super ricos paguem menos impostos que a maioria dos americanos médios, e os custos exorbitantes da educação superior. Além disso, há a questão de aprofundar reformas de Wall Street e do sistema bancário, para impedir que se repitam comportamentos que trouxeram a Grande Recessão de 2007-2008.

Até aqui, Hillary Clinton tem se recusado a se comprometer com uma reapresentação para votação no Congresso da Lei Glass-Steagall da era da Depressão, que Bill Clinton ordenou que fosse rejeitada em 1999, seguindo o parecer de Democratas com laços muito íntimos com Wall Street, incluindo Robert Rubin e Larry Summers. A reabilitação da Lei Glass-Steagall – que está na plataforma de Bernie Sanders – impediria bancos de especularem em derivativos financeiros, principal causa do crash de 2007-2008. Com tantos e tão destacados bancos de Wall Street aparecendo nas listas de apoiadores dos Clintons, é possível crer que Hillary promoverá qualquer reforma nos bancos, que avance além da modesta Lei Dodd-Frank, de 2010?

28 de janeiro de 2016

Sete anos de charlatanismo monetário; o Fed ainda pode admitir que estava errado?

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Os investidores mais ricos dos EUA apostam trilhões de dólares baseados na crença de que a economia americana permanecerá fragilizada nos próximos anos.

Quem são esses investidores ricos?

São bondholders. E sua visão sobre o estado da economia é refletida nos títulos de rendimento de longo prazo do Tesouro dos EUA. Atualmente, os rendimentos da dívida de longo prazo rendem muito pouco, o que significa que os investidores creem que a economia seguirá registrando um desempenho insatisfatório enquanto a inflação permanecerá sob controle.

Esta perspectiva pessimista não é novidade para os bondholders, de fato, os rendimentos se mantiveram teimosamente baixos desde o início da crise financeira em 2008, o que significa que os investidores não foram convencidos pelos pretensos “sinais de recuperação econômica". Eles sabiam que aquilo era bobagem e sua opinião não mudou. Não há nenhum sinal de recuperação em qualquer lugar, exceto pelos números da falsa folha de pagamento do governo, que não condizem com qualquer um dos demais dados. Por qualquer medida lógica, a economia está presa em uma queda de longo prazo que parece não mostrar sinais de melhora em um futuro próximo. Os Bondholders parecem entender esse fato e fazem uma tonelada de apostas no baixo crescimento e na estagnação perene, que é o corolário lógico das políticas monetárias da Reserva Federal. (Stephen Roach explica os baixos rendimentos sobre os títulos da dívida americana dos últimos 30 anos).

Quase invariavelmente, rendimentos de títulos são muito mais úteis na previsão do futuro do que os especialistas do canal de negócios. Os rendimentos - que são a quantidade de retorno que os bondholders recebem ao emprestar seu dinheiro para o governo - revelam a expectativa dos investidores sobre a inflação e sobre as atividades econômicas futuras. Eles são um barômetro para medir a saúde da economia. Se o crescimento é forte e o futuro parece fecundo, os rendimentos tendem a aumentar à medida que a demanda por dinheiro aumenta e as perspectivas de uma inflação elevada parecem mais prováveis. Mas se os investidores esperam por uma pequena taxa de crescimento, então os rendimentos tendem a cair, refletindo mais baixas expectativas quanto a atividade econômica futura. O fato de que os rendimentos dos títulos da dívida de menos de 30 anos estejam abaixo de 3% nesse momento sugere que os dirigentes políticos não entendem como funciona a economia ou simplesmente se recusam a engendrar as mudanças que podem estimular o crescimento. Em ambos os casos, isso apenas demonstra o papel do Banco Central enquanto administrador desse sistema contraditório.

No dia 26 de janeiro (2016), o rendimento de referência para títulos de 10 anos do Tesouro era de apenas 1,98%. Isso significa que os investidores obterão $1,98 dólares anualmente (durante dez anos) para cada $100 dólares investidos, o que é quase nada. Pense nisso desta maneira: Digamos que seu amigo Ernie quer pegar $5.000 emprestado para abrir uma sorveteria. Então você se pergunta o quanto precisa cobrá-lo acima do preço do empréstimo para ser justamente recompensado pelo risco que está correndo (já que o Ernie teve algumas ideias ruins no passado). Se você decidir cobrá-lo em 2% ao ano, então você por pouco não recuperará seu empréstimo, já que a inflação se apresenta atualmente em cerca de 1,5%. Então, você precisa cobrar pelo menos acima de 2% ou sairá perdendo.

A situação é essa: quando você empresta seu dinheiro para o governo dos EUA por um reles 1,98% ao ano, você lucra apenas marginalmente com o processo. O único lado positivo é que você pode estar razoavelmente seguro de que o governo vai pagar de volta, ao contrário de Ernie.

O enfoque sobre as taxas de juros como único meio para fixar a economia deveria ter sido superado a essas alturas; mas não foi, é claro, porque o grande capital que governa esse país aprecia as coisas como estão. Baixas taxas de juros e dinheiro fácil significam maiores lucros para Wall Street, independentemente do seu impacto sobre a economia real. O que mais importa para os bondholders não é o crescimento ou a inflação, mas o jogo político. Isso é o que mantém o influxo de caixa: a política. E enquanto eles estiverem confiantes de que a política "acomodada" do Tesouro vai acompanhar um rígido ajuste fiscal (que tem sido adotado por ambos Democratas e Republicanos), então eles podem ter a certeza de que a economia seguirá insatisfatória e os papéis da dívida seguirão como um bom negócio.

Mas as desleixadas políticas monetárias da Reserva vêm a um custo alto. E esse custo é pago tanto pelas empresas quanto pelos trabalhadores. Segue trecho de um artigo no Wall Street Journal sobre os efeitos prejudiciais das baixas taxas de juros sobre o investimento de capital, escrito por Michael Spence e Kevin Warsh. O título do artigo adianta a discussão - "A Reserva continua prejudicando o investimento empresarial":

"Essa política monetária extremamente cômoda, que inclui a compra de cerca de $3 trilhões em títulos do Tesouro e em títulos lastreados em hipotecas durante três rodadas de flexibilização quantitativa [QE], desvalorizou os rendimentos de longo prazo e impulsionou o valor dos ativos de risco. Preços das ações mais elevados deveriam elevar a confiança das empresas e proporcionar maiores investimentos de capital, que, por sua vez, deveriam resultar em salários mais elevados e em forte consumo. Se ao menos fosse assim... 
O investimento das empresas na economia real é fraco... Em 2014, pela primeira vez desde 2007, as empresas do S&P 500 gastaram muito mais do seu fluxo de caixa operacional em recompra de engenharia financeira do que nas despesas de capital real.... Acreditamos que a flexibilização quantitativa redirecionou o capital da economia interna real para ativos financeiros no país e no exterior. Neste ambiente, é difícil criticar as empresas que favorecem que os acionistas recomprem ações ao invés de investir em uma nova fábrica. Mas a política pública não deveria estimular investimentos sobre ativos de papel no lugar de investimentos sobre a economia real".

Esta é uma queixa bastante comum, de que as políticas do Fed tem elevado os preços dos ativos, mas prejudicado o investimento empresarial, que exige uma forte demanda por seus produtos. O fato é que as empresas não podem crescer, a menos que as pessoas estejam empregadas, os salários estejam subindo e o dinheiro esteja circulando. Nada disso está acontecendo atualmente. Na verdade, de acordo com o Fed de Atlanta, é esperado que o PIB do quarto trimestre suba menos de 1% (0,06%), o que significa que a economia dos EUA provavelmente precisa alcançar o necrotério para que o processo de embalsamamento comece. Para todos os efeitos práticos, a economia está destruída.

Claro que o presidente Obama rejeita esse tipo de negatividade pura e simples. No Discurso sobre o Estado da União em janeiro, Obama acenou dizendo que "qualquer um que afirme que a economia dos EUA está em declínio vende, na verdade, uma ficção."

Ficção? Não de acordo com o economista James Hamilton. Eis o que ele disse esta semana no site da Oil Price:

"A economia mundial está entrando em recessão. As evidências aparecem de todas as formas: desaceleração do crescimento da produção, queda nos PMI’s, alargamento dos spreads de crédito, queda dos lucros das empresas, a queda das expectativas de inflação, redução de investimento de capital e aumento dos estoques. Mas esta é uma recessão incomum - pela primeira vez derivada da queda nos preços do petróleo". [Could Low Oil Prices Cause A Global Recession?, Oil Price]

Além disso, o Wall Street Journal afirma que:

"Todas as recessões nos EUA desde a II Guerra Mundial foram precedidas por quedas acentuadas na produção industrial, nos lucros das empresas e no mercado de ações. A produção industrial caiu em 10 dos últimos 12 meses, e agora está aquém por quase 2% do seu pico em dezembro de 2014. Os lucros das empresas atingiram seu pico no verão de 2014 e estavam aquém por cerca de 5% no terceiro trimestre do ano passado. O índice Dow Jones caiu em 7,6% até agora neste ano... 
Ao contrário dos declínios passados na produção industrial, o declínio de hoje tem sido impulsionado principalmente pelo colapso da indústria do petróleo... A produção mineira caiu em mais de 10%, impulsionada por uma queda de 62% na perfuração de petróleo e de gás. 
"A produção aponta ciclos econômicos e tende a ser um indicador das oscilações", disse Thomas Costerg, economista sênior do Standard Chartered. "Manufacturing is struggling." [Recession Warnings May Not Come to Pass, Wall Street Journal]

A verdade é que a economia ainda está muito fragilizada e os embrolhos monetários do Fed não produziram a expansão de crédito esperada. A concessão de reservas excedentes aos bancos deveria impulsionar empréstimos que, por sua vez, levariam a um crescimento acentuado, mas não foi isso que aconteceu, principalmente porque os consumidores não estão pegando emprestado como faziam antes da crise. Em vez disso, eles estão tentando pagar as suas dívidas. Dê uma olhada no gráfico de empréstimos bancários (Ver aqui).

Poucos empréstimos bancários significam poucas pessoas pegando emprestado. Poucas pessoas pegando emprestado significa que não há expansão do crédito. Pouca expansão do crédito significa pouca atividade econômica nova, sem novos gastos, nenhuma nova contratação, nenhum novo investimento empresarial, nenhum crescimento forte. O economista-chefe do Nomura, Richard Koo, resumiu sucintamente dizendo que "quando ninguém pega dinheiro emprestado, a política monetária tende a ser em grande parte inútil."

Bingo. É inútil. Sabemos isso agora. Nem a flexibilização quantitativa, nem redução das taxas de juros promovem o crescimento. O 'Grande Experimento' falhou, Keynes estava certo e (Milton) Friedman estava errado. Aqui está Keynes:

"Por minha parte, sou um pouco cético em relação ao sucesso de uma política meramente monetária orientada para influenciar a taxa de juros. O Estado está em condições de calcular a eficiência marginal dos bens de capital a longo prazo, sobre a base da vantagem social. Espero vê-lo tendo mais uma vez a responsabilidade de organizar diretamente os investimentos; já que parece provável que as flutuações na estimativa da eficiência marginal de diferentes tipos de capital, calculados sobre os princípios que descrevi acima do mercado, serão grande demais para ser compensados por quaisquer alterações possíveis na taxa de juros. (John Maynard Keynes, A Teoria Geral do Emprego, do Juros e da Moeda, marxists.org, 2002]

Keynes está apenas afirmando o óbvio, que você não pode tirar a economia de uma recessão severa apenas mexendo com as taxas de juros ou alimentando reservas bancárias. Não funciona. É necessário o bom e velho estímulo fiscal sobre economia, por meio de programas de infra-estrutura federais ambiciosos que estimulem a atividade, promovam emprego e mantenham a economia em movimento para a frente até os balanços do setor privado sejam reparados e os gastos pessoais retornem ao normal.

O Fed desperdiçou os últimos sete anos tentando reinventar a roda, enquanto a solução sempre esteve na sua cara. Será que estamos realmente indo para o necrotério? Será que vamos tentar implementar a mesma estratégia que já falhou por mais 7 anos?

27 de janeiro de 2016

A Grécia vai trair os palestinos?

Durante 70 anos, a Grécia e a Palestina foram amigas próximas e aliadas. Irão interesses econômicos de curto prazo entre a Grécia e Israel levar os dirigentes gregos a abandonar-nos?

Nabil Sha'ath

Haaretz

Alkis Konstantinidis / Reuters

Tradução / Assentes na experiência comum, em interesses de longo prazo e em princípios morais, as nossas relações com a Grécia vêm de há muito. Não se devia deixar que ganhos econômicos de curto-prazo afetassem esta profunda e preciosa amizade.

Nos últimos 70 anos, as relações entre a Grécia e a Palestina foram de amizade próxima e de aliança política. Parte da nossa origem ancestral pode ser feita remontar à ilha grega de Creta. Erguemos a bandeira da Grécia em todas as nossas igrejas ortodoxas, às quais a maior parte dos nossos cristãos pertencem. Estamos gratos à Grécia pelo seu acolhimento de Yasser Arafat, o nosso dirigente evacuado de Beirute em 1982 depois do longo cerco por Israel.

Como ministro das Relações Exteriores, trabalhei bastante para apoiar a Grécia no mundo árabe e muçulmano, tanto econômica como politicamente. A estreita ligação entre Papandeou e Arafat e entre mim e o seu filho George refletiram uma amizade duradoura entre a Palestina e a Grécia.

Como palestinos, estivemos ao lado da Grécia contra a ocupação turca do norte de Chipre. Na minha qualidade de ministro das Relações Exteriores da Palestina (1994-2005), as minhas instruções foram muito claras: oposição a qualquer reconhecimento de um estado separatista no norte de Chipre, particularmente dentro da Liga Árabe e da Organização da Cooperação Islâmica (OCI), nas quais tínhamos alguma influência moral e política. A amizade era mútua e não se limitava a um partido político particular. Era uma amizade entre povos: gregos e palestinos.

Quando a Grécia aderiu à UE, tornou-se um dos nossos mais próximos aliados dentro da UE, apoiando a nossa busca de uma solução política pacífica e estando ao nosso lado quando Israel violou os seus compromissos, quer continuando a expropriar terra e água, destruindo a faixa de Gaza ou negando-nos o Estado que tínhamos aceitado em 22% da nossa terra-pátria. O nosso aliado grego manteve-se fiel aos princípios e compromissos que nos tinham unido durante 70 anos.

Ultimamente, e lamentavelmente, esta relação começou a mudar. Percebe-se a importância dos interesses econômicos e políticos na formação e alteração das alianças políticas. Hoje, a Grécia e Israel estão ligados por certas questões, incluindo o gás natural, o petróleo, as influências geopolíticas e as crises financeiras.

Compreendemos. Tais ligações entre a Grécia e Israel não são únicas. Contudo, alterações de curto prazo nos interesses econômicos e nas posições políticas não alteram fatos importantes, como o fato de Israel ter ocupado a Palestina e um dos dois países estar a ser avisado para que não se torne num estado de apartheid. As alterações nos interesses econômicos não mudam a lei internacional, a justiça e os direitos humanos.

Vários países, incluindo os BRICS ou a França, têm interesses econômicos e políticos comuns com Israel, mas a sua posição sobre a necessidade de pôr fim ao projeto israelense de assentamentos coloniais e à ocupação militar não mudou.

Foram-nos dadas garantias pelos dirigentes da Grécia de que a sua relação mais próxima com Israel não iria alterar os seus compromissos com a Palestina, nem afetaria as relações históricas com a Palestina e com o mundo árabe/muçulmano em geral.

O apoio do povo grego à Palestina foi reafirmado pela votação de dezembro no parlamento grego, à qual assistiu o presidente Abbas, sobre uma resolução que apelou unanimemente ao governo para o reconhecimento do Estado da Palestina. O governo no entanto recusou aplicar essa resolução.

Em 17 de janeiro, houve um ponto de viragem durante o encontro do Conselho da União Europeia para as Relações Externas. Deu-se uma mudança completa na atividade de pressão diplomática da Grécia dentro da UE e nessa ocasião o ministro grego das Relações Exteriores frustrou muitos dos seus colegas europeus, quase conseguindo introduzir a linha de Israel nas conclusões do documento, tentando suavizar a linguagem sobre os assentamentos coloniais na Palestina ocupada.

Afirmações atribuídas a dirigentes gregos anunciando a sua recusa de aplicação da diretiva da UE sobre a rotulagem de produtos dos colonatos são chocantes, mas foram explicadas e mais tarde corrigidas. Uma declaração do Sr. Tsipras em apoio à pretensão israelita de que toda a Jerusalém era capital histórica do estado de Israel, ignorando os direitos palestinianos, foram ainda mais chocantes. A explicação grega foi de que a referência era histórica e não política. Em Israel e na Palestina, tudo o que é histórico é político. Embora mais tarde um porta-voz grego tenha reiterado o compromisso para um Estado da Palestina independente com Jerusalém oriental como capital, a declaração original não foi retirada. Aguardamos ainda uma explicação.

Notícias sobre posterior cooperação militar entre a Grécia e Israel são igualmente alarmantes para os palestinos.

Não queremos abandonar a nossa amizade com a Grécia, nem queremos assistir a uma mudança nas relações estratégicas que ligam a Grécia ao mundo árabe e muçulmano, em particular o Egito e os países do Golfo.

Estou seguro que a maioria do povo grego partilha dos meus sentimentos sobre essa relação. Não trocamos os nossos compromissos e princípios morais por uma alteração temporária dos interesses econômicos. Esperamos que a Grécia continue comprometida com estes princípios partilhados.

O Dr. Nabil Sha'ath é Comissário das Relações Internacionais da Fatah e antigo ministro das Relações Exteriores palestino (1994-2005).

A América já não é socialista?

Não, o socialismo não é apenas mais governo - trata-se de propriedade e controle democráticos.

por Chris Maisano

Jacobin

Phil Wrigglesworth

Tradução / Se você passa algum tempo em redes sociais, provavelmente já deu de cara com memes pretendendo mostrar o quanto os Estados Unidos já são socialistas, listando toda uma série de programas governamentais, serviços e agências. Há muitas variações sobre esse tema, mas o meu favorito lista não menos que 55 programas alegadamente socialistas que só têm em comum o fato de que é o Tio Sam quem os executa.

Alguns atendem diretamente necessidades sociais e envolvem alguma medida de redistribuição de renda (bibliotecas públicas, programas de bem-estar social, programas de reforço alimentar, previdência, vales-alimentação). Alguns parecem jogados no meio sem nenhuma boa razão (Alertas sobre desaparecidos? A Casa Branca?). Outros são atividades operacionais básicas que qualquer governo moderno, independente de sua orientação ideológica, executaria (o Censo, os departamentos de bombeiros, remoção de lixo e neve, esgotos, iluminação pública). E outros ainda envolvem o vasto aparato de coerção e força (os departamentos de polícia, o FBI, a CIA, as Forças Armadas, as cortes de Justiça, prisões, etc).

Com todas as virtudes de Bernie Sanders, sua campanha para presidente tem apenas engrossado a névoa de confusão ideológica. Em uma parada de campanha no ano passado, ele endossou o pensamento por trás dos mais simplistas desses memes: “Quando você vai a uma biblioteca pública, quando você liga para os bombeiros ou o departamento de polícia, para o que você pensa que está ligando? Estas são instituições socialistas.” Por essa lógica qualquer tipo de projeto coletivo mantido por impostos e realizado através de ação governamental é socialismo.

Não é difícil ver o problema com essa linha de raciocínio. Em um país tão profundamente e reflexivamente anti-estatista como os Estados Unidos, a identificação de ‘socialismo’ com ‘governo’ é talvez a pior estratégica retórica que a esquerda poderia adotar. “Gosta do DMV? Então você vai amar o Socialismo!“ não é um slogan que vai converter muita gente. Mais importante, misturar toda ação governamental com socialismo nos força a defender muitas das formas de ação estatal mais censuráveis, incluindo aquelas que nós preferiríamos abolir em uma sociedade livre e justa.

Uma coisa é identificar bibliotecas públicas com socialismo. Elas operam de acordo com princípios democráticos de acesso e distribuição, fornecendo serviços para todos, independente da capacidade de cada um para pagar. Elas seriam uma das instituições mais importantes em qualquer sociedade socialista digna do nome. Mas incluir a polícia é uma coisa bem diferente. Se as forças responsáveis por matar Sandra Bland, Eric Garner, e Rekia Boyd exemplificam o socialismo em ação, então nenhuma pessoa que deseja liberdade e justiça deveria ser socialista.

A ideia de que qualquer ação governamental é sinônimo de socialismo tem implicações políticas e estratégicas enormes. Afinal de contas, se o nosso país já fosse pelo menos parcialmente socialista, então tudo o que nós teríamos de fazer seria continuar expandindo gradativamente o governo. Nós não precisaríamos mudar o propósito de nenhum programa existente, nem reformar as estruturas administrativas das agências governamentais.

E por que todos esses programas alegadamente socialistas foram conquistados sem desafiar fundamentalmente a propriedade privada, não haveria necessidade de uma confrontação decisiva com os proprietários de capital e seus aliados políticos. Tudo o que nós teríamos de fazer seria eleger políticos simpatizantes para cargos públicos e deixar que eles legislassem o nosso caminho para ainda mais socialismo.

Acadêmicos que vivem de estudar política muitas vezes caem nessa armadilha. Ao simplesmente olhar o tamanho do governo em termos de gastos gerais, muitos argumentam que os EUA estão se tornando cada vez mais socialistas, quer a gente queira ou não. Em sua visão as principais reformas sociais vão acontecer de qualquer maneira, com uma multidão passiva vindo apoiar esses programas de sucesso apenas depois que eles tenham sido legislados por políticos e implementados por burocratas.

O investimento governamental em programas sociais e outras atividades pode muito bem aumentar nas próximas décadas por causa do envelhecimento da população, a crise climática, e outros desenvolvimentos. Mas o volume absoluto de gastos nos diz muito pouco sobre a valência política da ação governamental. Questões chaves sobre aquela atividade estatal sempre precisam ser levantadas: ela reforça ou enfraquece o poder daqueles que possuem capital? Ela aumenta a nossa subordinação à disciplina do mercado ou nos oferece mais liberdade de suas demandas?

Tem havido um certo número de iniciativas governamentais de larga-escala desde os anos 80, mesmo durante períodos de dominância política dos republicanos. Mas muitos dos maiores programas das últimas décadas não fazem nada para fortalecer o poder dos trabalhadores.

O “Earned Income Tax Credit” (EITC) tem trazido um alívio muito necessitado pelos trabalhadores pobres, mas também serve como um subsídio indireto para empregadores de baixo-salário. O “Medicare Part D” oferece subsídios para aposentados com baixa renda, mas é amplamente reconhecido como um presente custoso para a indústria farmacêutica.

O Obamacare tem aumentado a cobertura por convênios de saúde, parcialmente através da (contestada) expansão do Medicaid. Mas o mandato individual serve apenas para aprofundar a mercantilização, adicionando milhões de estadunidenses no sistema de saúde privado, movido pelo lucro. O plano de estímulo de 2009 provavelmente salvou o país de outra Grande Depressão, mas foi inadequado para a escala da crise e pesou na direção de cortes de impostos para negócios que simplesmente embolsaram o dinheiro ao invés de contratar novos trabalhadores. A lista segue em frente.

Por que isso acontece? Primeiro, os ricos e poderosos investem pesado em atividades políticas para promover seus interesses e bloquear reformas progressistas. No final do ano passado, as contribuições de apenas 158 famílias e das companhias que elas possuem (atordoantes 176 milhões de dólares) compunham cerca da metade de todo o financiamento da corrida presidencial de 2016. Através de seus gastos políticos e da influência que isso compra, eles têm sido capazes de moldar os impostos e outras políticas para seu próprio benefício, uma vantagem reforçada por decisões judiciais favoráveis (como por exemplo o caso Citizens United) e atividades de lobby.

De acordo com um famoso estudo de 2014 por dois cientistas políticos, a dominação política dos ricos é agora tão pronunciada que os cidadãos médios exercem “cerca de zero” influência sobre a elaboração de políticas governamentais.

As classes média e alta também mantém os postos mais importantes no governo, sejam eleitos ou indicados. Eles compartilham de um conjunto comum de ideias e valores que tendem a proteger o status quo e reprimir qualquer desafio maior ao sistema, particularmente aqueles vindo da classe trabalhadora e da esquerda.

Estas formas diretas de influência não são o único jeito pelo qual interesses poderosos moldam a ação governamental. Afinal de contas, governos dependem de um nível minimamente robusto de atividade econômica para financiar a si mesmos. A receita fiscal e o financiamento da dívida com que contam os governos estão diretamente relacionados com o estado da economia capitalista e suas taxas de crescimento e lucratividade. Se o nível da atividade econômica encolhe – talvez por que os capitalistas estão descontentes sobre uma nova legislação que beneficia os trabalhadores – o Estado se encontrará cada vez mais em dificuldade para financiar as suas atividades. Isso, por sua vez, leva a uma queda em sua legitimidade e em seus nível de apoio popular.

Como a atividade econômica é significantemente determinada pelas decisões de investimento de capitalistas privados, essas forças podem essencialmente vetar políticas governamentais que eles pensam ser contra seus interesses. Frequentemente, se os capitalistas não são induzidos a fazer investimentos através de subsídios de negócios e outros incentivos, eles simplesmente se recusarão a investir.

Consequentemente, existe uma forte tendência para os políticos e burocratas alinharem suas decisões políticas com os interesses dos capitalistas no setor privado. Preservar a “confiança dos negócios” é uma restrição fundamental na formação de políticas, e é uma das principais razões por que a ação governamental é tão frequentemente favorável aos interesses capitalistas. É assim também que eles conseguem misturar os seus próprios interesses com um maior interesse “público” ou “nacional” – sob um sistema capitalista, existe alguma verdade em suas reivindicações.

Na ausência de organização popular e militância, a ação governamental fará muito pouco para alterar o equilíbrio de poder para longe do Capital e na direção do Trabalho, ou para reduzir a submissão ao Mercado ao invés de aprofundá-la. Enquanto as estruturas fundamentais da Economia permanecerem as mesmas, a ação do Estado beneficiará desproporcionalmente os interesses capitalistas às custas de todo o resto da população.

Isso não significa que reformas progressistas nunca podem ser conquistadas sob o capitalismo, ou que o governo é completamente imune à pressão pública. Entretanto, tais reformas só tem sido conquistadas com o apoio de lutas de massa em ação direta contra os empregadores.

Simplesmente eleger políticos para o gabinete ou assistir o governo se expandir por seu próprio ímpeto nunca foi e nunca será suficiente. Poder econômico é poder político, e sob o capitalismo os proprietários de capital sempre terão a capacidade de debilitar a democracia popular – não importa quem esteja no Congresso ou na Casa Branca.

Conquistar o poder governamental e usá-lo para quebrar o domínio da classe capitalista é uma condição necessária para iniciar a transição para o socialismo. Um governo conduzido por um partido socialista (ou uma coalizão de partidos de esquerda e da classe trabalhadora) se moveria para trazer as principais indústrias e empresas da economia sob alguma forma de controle social. Mas só isso não seria suficiente. As experiências amargas do século XX nos ensinaram que o socialismo não vai promover a causa da liberdade humana se as estruturas políticas e administrativas do governo não forem democratizadas por completo.

Aqui é onde a contínua mobilização popular fora (e, se necessário, contra) estruturas políticas formais se torna absolutamente crucial. Para resistir à inevitável reação das forças capitalistas e conservadoras, uma transição socialista precisaria atrair apoio popular massivo e participação direta nos assuntos do governo.

Isso ocasionaria não apenas a criação de corpos democráticos diretos que substituíssem ou complementassem instituições representativas como o Congresso, mas também um exame dramático das agências estatais e das estruturas administrativas. Tal expansão de poder popular seria necessária tanto para expulsar o pessoal comprometido com o velho regime como para transformar as burocracias frequentemente alienantes e repressivas que atualmente administram os serviços públicos.

Escolas públicas, departamentos de bem-estar social, agências de planejamento, cortes, e todas as outras agências governamentais convidariam os trabalhadores e beneficiários para participar no projeto e na implementação desses serviços. Sindicatos do setor público poderiam exercer um papel chave nesse esforço, organizando tanto os fornecedores quanto os usuários de serviços públicos para transformar radicalmente as estruturas administrativas do governo.

Apenas sob estas condições a atividade governamental seria sinônimo de Socialismo Democrático. Ao invés de colocar um conceito abstrato de “governo” contra as forças do capital, nós deveríamos começar o árduo trabalho de conceber e construir novas instituições que possam fazer um governo do povo, pelo povo e para o povo uma realidade.

25 de janeiro de 2016

Wall Street declara guerra a Bernie Sanders

William K. Black

New Economics Perspective

Tradução / Os bilionários de Wall Street estão literalmente enlouquecendo ante a possibilidade de Bernie Sanders vir a ser eleito presidente. Stephen Schwarzman – um dos seres humanos mais ricos e mais odiosos nesse mundo –, disse ao Wall Street Journal que uma das três principais causas dos recentes traumas financeiros globais teria sido o medo "que os mercados têm" de que Sanders venha a ser eleito presidente. Schwarzman é para sempre infame por causa da guerra que moveu contra as propostas do presidente Obama, de pôr fim à vergonhosa isenção de impostos sobre os chamados "carried interest". Essa isenção permite que bilionários proprietários de fundos privados de ações, como Schwarzman, paguem taxa mais baixa de impostos que as secretárias que trabalham para eles. A ideia de Obama, de acabar com aquela isenção, foi, para essa gente, equivalente a "Hitler invadiu a Polônia."

Schwarzman e Pete Peterson são sócios na Blackstone, corretora privada de ações. Peterson comanda o serviço de tentar detonar toda a rede de seguridade social nos EUA. Seu maior sonho é privatizar a Seguridade Social, para, assim, acrescentar dezenas de bilhões de dólares aos ganhos de Wall Street. A corretora Blackstone é a principal acionista do Sea World, e foi nessa esfera que Schwarzman conseguiu ir além da imundície de comparar Obama a Hitler, e alcançou picos de vilania. Quando uma orca matou o treinador, Schwarzman mentiu sobre os fatos e culpou o treinador pela própria morte, alegando que teria acontecido um "lapso de segurança – estranhamente, a própria vítima violou todas as regras de segurança que sempre mantivemos."

O discurso atual de Schwarzman, segundo o qual os mercados financeiros estão em queda em todo o mundo por causa de Bernie Sanders, é mais um dos seus delírios de perversão doentia, mas, sim, mostra que a equipe dos plutocratas está usando as armas mais pesadas do próprio arsenal. Os plutocratas de Wall Street – com boas razões – temem Bernie, não Hillary. De fato, chama a atenção o vigor e o quão assumidamente Wall Street tem demonstrado, usando a mídia financeira de repetição, que os muito ricos não têm qualquer restrição ao plano de Hillary para Wall Street. CNN, CNBC e o Fiscal Times, sob manchetes como "Eis por que Wall Street pouco tem a temer de Hillary Clinton" – obedientemente repetiram o meme.

Michael Bloomberg foi o segundo bilionário de Wall Street a atacar Bernie essa semana. Bloomberg vazou para dúzias de veículos que estaria considerando candidatar-se à presidência. Os mesmos vazamentos explicavam que o motivo seria o medo que Bernie causa a Bloomberg. Bloomberg ganhou vergonhosa fama por organizar as prisões em massa que visaram a esmagar o movimento Occupy Wall Street. Blommberg é Wall Street e assumidamente representava Wall Street como prefeito Nova York.

O prefeito Bloomberg acusou hoje os manifestantes contra Wall Street de tentarem paralisar a economia da cidade. 
"Querem é roubar os empregos de quem trabalha nessa cidade" – disse o prefeito, na mais dura crítica contra o movimento que se sustentava há três semanas e mobilizava a atenção do país.

O prefeito Bloomberg indignou-se com as críticas contra os banqueiros de Wall Street, acusados de participarem em todas as empresas mais criminosas do planeta. Bloomberg inventou então uma narrativa, pela qual os banqueiros seriam vítimas do Congresso. O Congresso deliberadamente empurrara os banqueiros a aceitar milhões em hipotecas fraudulentas e, na sequência, obrigou-os a vender também fraudulentamente os mesmo empréstimos podres para o mercado secundário. É uma versão completamente tresloucada, mas os bilionários de Wall Street tresloucam muito frequentemente. Vivem lá, cercados pelos meios de comunicação, jornalistas e políticos interesseiros que não se envergonham de tratar as ideias perverso-tresloucadas que ouvem por lá como coisa de gênio. Bernie assusta todos estes grupos.

Por que os bilionários de Wall Street odeiam Bernie? Paul Krugman, sem querer, revelou a resposta, em seu mais recente ataque contra Bernie. Krugman argumentou que a chave para o que chamava de "o sucesso" de Obama seria ele não ter "quebrado" o "poder de Wall Street" sobre a economia e a democracia americana. Mas, para horror de Krugman e de Hillary, os eleitores Democratas, como os eleitores médios nos EUA compreendem que o poder absoluto e inquebrável que os bilionários de Wall Street ainda têm sobre nossa economia e todo o nosso sistema político é a causa que nos empurrou para o pântano de um capitalismo de corrupção e de compadrio. E que é essencial quebrar aquele poder, para retomar a nação americana para os seus cidadãos.

Pesquisas feitas por cientistas políticos revelam o controle profundo e amplo que os bilionários de Wall Street têm, na prática; e a evidência de que os muito ricos nos EUA têm, sobre as políticas públicas chaves, visão espantosamente discrepante, se comparada ao que pensa o povo nos EUA. Mais especificamente, os 1% são excepcionalmente hostis à assistência pública à saúde e empenham-se encarniçadamente contra qualquer lei ou ação que proteja os mais pobres, contra a predação dos mais ricos. Não dão qualquer sinal de preocupação com problemas como mudança climática global, mas estão enlouquecidos com dívidas, déficits e inflação, mesmo nas profundas da Grande Recessão. A dominação de nossa economia pelos plutocratas, e as incontáveis violências contra nossa democracia levaram a décadas de políticas terríveis construídas para garantir que fracassem todas e quaisquer medidas de regulação financeira. E aquelas políticas esmagaram a classe média e jogaram os pobres em situação de desgraça.

Leiam o novo livro de Tom Frank

Leiam o novo livro, que já é sucesso nacional, de Tom Frank sobre a história escandalosa da aliança dos "Novos Democratas" com os plutocratas de Wall Street. Ler apenas as passagens que explicam esforço vergonhoso de Bill Clinton, em um negócio cínico com New Gingrich, para começar a privatizar a Segurança Social, a fim de transferir dezenas de bilhões de dólares adicionais do povo americano para Wall Street e colocar todas as nossas aposentadorias em risco vale a pena o preço do livro

Você não precisa esperar as pesquisas para saber como Bernie está indo bem. Basta ouvir a intensidade do balido dos bilionários sobre Bernie.

O eixo secreto EUA-Arábia Saudita

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Nome de código “Timber Sycamore”: assim se denomina a operação de armamento e treinamento dos “rebeldes” na Síria, “autorizada secretamente pelo presidente Obama em 2013”. É o que documenta uma investigação publicada no domingo (24) pelo New York Times. Quando foi encarregada pelo presidente de efetuar esta operação encoberta, “a CIA já sabia que tinha um parceiro disposto a financiá-la: a Arábia Saudita”.

Com o Catar, “esta forneceu armas e bilhões de dólares, ao passo que a CIA dirigiu o treinamento dos rebeldes”.

O fornecimento de armas aos “rebeldes”, inclusive os “grupos radicais como Al Qaeda”, tinha começado no verão de 2012 quando, através de uma rede disposta pela CIA, agentes secretos sauditas tinham comprado na Croácia, na Europa Oriental, milhares de fuzis de assalto AK-47 com milhões de projéteis, e quando os catarianos infiltraram na Síria, através da Turquia, mísseis portáteis chineses FN-6 comprados no mercado internacional.

Como o fornecimento de armas era feito livremente, no fim de 2012 o diretor da CIA David Petraeus convocou os aliados na Jordânia, impondo-lhes um controle mais estrito por parte da Agência sobre o conjunto da operação.

Alguns meses mais tarde, na primavera de 2013, Obama autorizou a CIA a treinar os “rebeldes” em uma base na Jordânia, e em outra no Catar, e a lhes fornecer armas incluindo mísseis antitanques TOW. Sempre com os bilhões do “maior contribuinte”, a Arábia Saudita. Nenhuma novidade nesse tipo de operações.

Nos anos 1970 e 1980, esta ajudou a CIA em uma série de operações secretas.

Na África, notadamente em Angola, onde, com financiamento saudita, a CIA apoiou os rebeldes contra o governo aliado à URSS. 

No Afeganistão, onde “para armar os moudjaedins contra os soviéticos, os Estados Unidos lançaram uma operação ao custo anual de milhões de dólares, que os sauditas pagaram dólar por dólar em uma conta da CIA num banco suíço”. 

Na Nicarágua, quando a administração Reagan lança o plano secreto para ajudar os contras, os sauditas financiaram a operação da CIA com 32 milhões de dólares por intermédio de um banco nas Ilhas Cayman. 

Com essas operações e algumas outras, secretas, até a atual na Síria, cimentou-se a “longa reação entre os serviços secretos dos Estados Unidos e da Arábia Saudita”. 

Apesar da “reaproximação diplomática” de Washington com o Irã, não apreciada em Riad, “a aliança persiste, mantida à tona sobre um mar de dinheiro saudita e sobre o reconhecimento de seus interesses mútuos”. 

Isto explica por que “os Estados Unidos são reticentes em criticar a Arábia Saudita sobre a violação dos direitos humanos, o tratamento às mulheres e o apoio à ala extremista do Islã, o wahabismo, que inspira numerosos grupos terroristas”, e por que “Obama não condenou a Arábia Saudita pela decapitação do Sheik Nimr al-Nimr, o dissidente religioso xiita que tinha desafiado a família real”.

Acrescenta-se o fato, sobre o qual o New York Times não fala, de que o secretário de Estado John Kerry, em visita a Riad em 23 de janeiro, reafirmou que “no Iêmen onde a insurreição Houthi ameaça a Arábia Saudita, os EUA estão do lado de seus amigos sauditas”. 

Os amigos que desde há quase um ano massacram civis no Iêmen, bombardeando até mesmo hospitais, com a ajuda dos EUA que lhes fornecem indicações (ou seja, mostrando os alvos a atingir), armas (inclusive bombas de fragmentação) e um apoio logístico (incluindo abastecimento em voo dos caças-bombardeiros sauditas).

Esses mesmos amigos que o primeiro-ministro italiano Renzi encontrou oficialmente em novembro último em Riad, garantindo-lhe o apoio e as bombas da Itália na “luta comum contra o terrorismo”.

22 de janeiro de 2016

Este poderia ser o "The Big One"?

Mike Whitney

conterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Todos podem respirar fundo. Isto não é o 2007 novamente. Os bancos não estão cheios de $10 trilhões em títulos lastreados em hipotecas "tóxicas", o mercado imobiliário não caiu de um penhasco, exterminando $8 trilhões em home equity, e o mundo não está à beira de outro colapso financeiro excruciante. A razão pela qual os mercados estão girando tão furiosamente ao longo das últimas semanas é que as ações estão com os preços super inflados, os lucros das empresas estão encolhendo e o Fed está ameaçando tirar a tigela de ponche. E aina por cima, um número considerável de investidores têm mais em jogo do que podem pagar, então tiveram que derrubar as ações imediatamente para reequilibrar suas carteiras.

O que isso significa?

Significa que muitos investidores estão afundados até o buraco do olho em dívidas; assim, quando o mercado desaba, eles têm de vender o máximo que consigam, para continuar no jogo. É a conhecida "chamada de margem", e na quarta-feira houve uma dessas, das grandes. Os investidores venderam tudo, exceto a pia da cozinha, num frenesi de venda que jogou o Dow Jones em queda livre de 565 pontos, antes de o índice conseguir puxar-se ele mesmo, a custo, para cima, de volta a queda de 249 pontos. A razão pela qual se sabe que foi uma chamada de margem, não um pânico de venda, é que não houve corrida de volta para títulos do Tesouro dos EUA. Tipicamente, quando investidores pensam que o mundo vai se acabar, eles entrincheiram as próprias ações e fazem o que se conhece como "voo para a segurança", de volta para a dívida americana. Dessa vez, nada disso aconteceu.  A marca de dez anos dos títulos americanos permaneceu praticamente imóvel durante a operação das bolsas, embora tenha permanecido abaixo de 2%, o que sugere que os proprietários de ações calculam que a economia dos EUA permanecerá sentada na privada ao longo do futuro previsível. Mas essa já é outra história. O fato é que os investidores não estão "girando", estão "liquidando", porque penduraram tudo exceto a fazenda da família, e agora têm de vender alguma coisa bem rapidamente, para cobrir suas apostas. Mas, se pensavam que as ações voltariam a subir em um curto prazo, agora terão de tentar segurar-se pelos próprios cabelos por mais algum tempo. O que pôs todo mundo muito nervoso foi que o Fed se manteve mudo nas coxias, sem dar um pio de encorajamento, motivo pelo qual todo mundo está tentando sair agora, enquanto ainda podem.

Capisce?

Eis como Rick Santelli, da CNBC, resumiu tudo na quarta-feira à tarde:

"Basicamente temos em andamento uma chamada marginal global que está em andamento desde julho do ano passado. Ficou um pouco mais intensa desde que o Fed anunciou que era 'normalização'; porque, na essência, aumento de 0,25% (na taxa) não significa coisa alguma, mas a noção de que estamos nos aproximando de virar a esquina e sair do 'Grande Experimento', sim, significa muito" ("Closing Bell Exchange", CNBC).

Em outras palavras, os investidores estão começando a crer que o Fed continuará seu ciclo de aumentos, que porá ainda maior pressão de queda nas ações; assim sendo, estão tentando cair fora agora mesmo.

Santelli também acerta ao falar de "normalização", o que significa que o Fed tentará levar as taxas de volta ao patamar normal de 4%. Ninguém espera que aconteça, principalmente porque a fúria e ranger de dentes em Wall Street seriam insuportáveis. Além disso, o Fed passou os últimos sete anos apenas inflacionando os preços das ações, com suas taxas zero e QE. Com certeza não estourará essa bolha agora, subindo os juros e jogando as ações para o quinto subsolo, em queda livre. Mesmo assim, muitos investidores acham que o Fed continuará a aumentar paulatinamente as taxas, para 1% ou mais. E, embora ainda fique abaixo da inflação, a mudança na percepção, de "dinheiro fácil", para "aperto", faz enorme diferença nas expectativas dos investidores. E, como todo economista sabe, as expectativas moldam as decisões de investimento. Ninguém se carrega de ações, se acha que as coisas vão piorar. Trata-se, afinal, disso.

E então, a recente volatilidade extrema seria precursora do "Grande Terremoto"?

Provavelmente não, mas não significa que as ações não caiam ainda mais. Provavelmente cairão; afinal, as condições mudaram dramaticamente. Estávamos num ambiente no qual lucros gordos, juros baixos e ampla liquidez eram mais ou menos garantidos. Agora, isso mudou. Ações já não têm preços perfeitos; de fato, as desvalorizações estão gradualmente se aproximando de um ponto que reflete os fundamentos subjacentes. Além disso, sabe-se lá por que motivo, o Fed parece ansioso por convencer as pessoas de que os aumentos vão persistir.

Assim sendo, eis a questão: Se você retira da festa a tigela de ponche, ao mesmo tempo em que os ganhos começam a despencar, o que acontece?

As ações caem. Está aí. A questão que permanece é "até onde caem"? E, dado que S&P mais do que triplicou depois de ter alcançado o ponto mais baixo em março de 2009, o fundo pode ser muito fundo, motivo pelo qual os investidores estão tirando mais e mais fichas da mesa de jogo.

Vale observar também que um dos principais puxadores de preços de ações, ultimamente têm sido as empresas AWOL. Falo aqui das empresas que recompram as próprias ações, quero dizer, quando os chefões recompram ações da própria empresa para recompensar acionistas e inflar os bônus que eles mesmos recebem. Eis o que diz FT Alphaville:

"A China cada vez mais lenta, o preço do petróleo martelado sem parar, o Fed subiu depressa demais: tudo isso contribui para o início de ano abominável para os mercados mundiais de ações. Eis mais um naco de carne para o sopão, cortesia do diretor de Goldman Sachs para ações dos EUA, David Kostin: recompra de ações. 
"Uma das razões do desempenho miserável do mercado é que as recompras de grandes empresas são proibidas no mês antes da distribuição de dividendos. Qualquer macronoticiário desestabilizador que ocorra durante a janela de proibição amplifica a volatilidade, porque a maior fonte de demanda de ações está ausente." 
As recompras de ações nos EUA estão a caminho de seu maior ano desde 2007, acrescenta ele, estimando $561 bi para o ano cheio de 2015 (net of share issuance) e um declínio de $400 bi no ano cheio de 2016." ("Share buybacks, the markets miss you", FT Alphaville).

Segundo algumas expectativas, as recompras representam 20% de todas as vendas de ações; claro que a atual seca contribuiu para o recente mergulho das ações. Assim também, G-Sax Kostin espera forte repique em 2016, para $400 bi. Enquanto o preço do dinheiro estiver abaixo da inflação, as empresas continuarão a tomar emprestado o máximo que possam, para empurrar para cima o preço das próprias ações e embolsarem cada vez mais dinheiro. A ganância sempre foi péssima conselheira, em decisões sobre investimentos.

Quanto aos problemas da China: Por mais que seja verdade que a China possa ter sido o gatilho que disparou os desastres recentes em Wall Street, com certeza não é a causa deles: a causa é a política monetária fracassada do Fed. Além do mais, tudo que se diz sobre a China é enormemente exagerado. Como Ed Lazear disse à CNBC na quarta-feira:

"Uma grande recessão na China, que durasse dez anos, não custaria aos EUA mais que 2% do PIB. Ninguém teria uma queda de mercado como a que se vê nesse momento, por causa da China."

O economista Dean Baker concorda basicamente com Lazear e diz:

"Nem uma virada aguda na China jogaria a economia dos EUA para baixo. Nossas exportações totais para a China mal ultrapassam os 0,7% do PIB. A fraqueza chinesa terá impacto maior em outros parceiros comerciais, especialmente os pesadamente dependentes de exportações de commodities. Mas mesmo no pior cenário, estaríamos com um grande obstáculo na economia dos EUA, não no tipo de falência da demanda que põe toda a economia em recessão" ("Wall Street Rocks!", Dean Baker, Smirking Chimp).

Quanto aos preços do petróleo em queda, também pouco explicam. Sim, se perderam alguns bons empregos, de salários altíssimos, no setor do petróleo; investimentos de capital secaram completamente; e muitos dos fornecedores domésticos darão calotes nos próximos seis meses, por aí. Mas esses calotes seriam risco significativo para Wall Street, como foram, em 2007-2008, aqueles trilhões de dólares podres em hipotecas amparadas em Mortgage-Backed Securities (MBS) e CDOs?

Ah, não. Nem chegam perto. Haverá muito sangue pelas ruas até que tudo isso seja passado, mas o sistema financeiro atravessará a turbulência, sem colapsar. Quanto a isso, não há dúvidas. O real perigo é que os preços em queda do petróleo sinalizam a formação de pressões inflacionárias na economia, que não estão sendo compensadas por estímulo fiscal adicional. Esse é o problema real, porque significa crescimento mais lento, menos empregos, salários mais achatados, renda em queda, mais pressão sobre os serviços sociais e mais economia generalizadamente estagnada. Mas como já dissemos antes, Obama e o Congresso Republicano já fizeram tudo que podiam para manter as coisas exatamente como estão: cortam e cortam gastos do estado, para assegurar que a economia permaneça o mais fraca possível, porque, em economia moribunda a inflação não sobe, o Fed não precisa subir taxas de juros e continua a chover dinheiro fácil sobre Wall Street. Aí está, em poucas linhas, toda essa desgraceira: mate de fome as abelhas operárias e garanta mais bem-estar aos tubarões dos grandes bancos de investimento e corretoras. Esse é o sistema que políticos eleitos acabam de levar praticamente à perfeição, como mostra relatório recente da Oxfam. Segundo Oxfam: "Os 62 bilionários mais ricos possuem hoje o equivalente ao que possui a metade mais pobre de toda a população da Terra" (The Guardian).

Riqueza assim, "não é por acaso", irmão. É a política.