22 de janeiro de 2016

Stuart Hall: Gramsci e nós

Stuart Hall


Neste dia, em 1891, um dos marxistas mais influentes do século 21, Antonio Gramsci, nasceu na pequena cidade de Ales na Sardenha. A obra de Gramsci transformou o modo como pensamos sobre um marxismo político. Considerando que a Revolução Russa ocorreu na "atrasadA" Rússia, e como tal era tanto uma revolução contra o "antigo regime", como contra o capital, Gramsci tentou lutar com a questão de como construir um movimento revolucionário nas áreas desenvolvidas da Europa Ocidental. Em particular, foi o seu desenvolvimento do conceito de "hegemonia", que viria a ser o mais influente. Neste texto, do grande Stuart Hall e publicado no The Hard Road to Renewal, Hall tenta expandir essas idéias de Gramsci para analisar a "modernização regressiva" de Thatcher. Em uma época em que muitos estão abordando a questão de como construir uma nova esquerda moderna, Gramsci e Hall são tão relevantes como sempre.

Esta não é uma exposição abrangente das idéias de Antonio Gramsci, nem um relato sistemático da situação política na Grã-Bretanha hoje. É tentativa para pensar alto sobre alguns dos dilemas que mais perplexidade geram em toda a Esquerda, à luz – sob o ponto de vista – do trabalho de Gramsci. Não estou dizendo que, em qualquer sentido simples, Gramsci teria as respostas ou ofereceria a chave para resolver nossas dificuldades correntes. Bem diferente disso, creio firmemente que se trata de que nós mesmos temos de pensar de modo Gramsciano os nossos problemas. Não devemos usar Gramsci (como por tanto tempo abusamos de Marx) como profeta do Velho Testamento que, no momento certo, nos presenteará com a citação mais apropriada para nosso máximo consolo. Não podemos arrancar esse "Sardo" de sua formação política única e específica, teletransportá-lo para o final do século 20 e pedir-lhe que resolva para nós os nossos problemas: especialmente porque o cerne do pensamento dele sempre foi recusar esse transplante leviano de generalizações, de uma conjuntura, nação ou época, para outra.

Da leitura de Gramsci, o que realmente transformou meu modo de pensar sobre política, é a questão que brota de seus Cadernos do Cárcere. Se você considera os textos clássicos de Marx e Lênin, você é levado a esperar um desenvolvimento revolucionário histórico de época, do final da I Guerra Mundial em diante. E vários eventos oferecem provas consideráveis de que esse desenvolvimento estava acontecendo. Gramsci pertence àquele "momento proletário". Aconteceu em Turim nos anos 1920, e em outros locais onde pessoas como Gramsci, em contato com a vanguarda da classe trabalhadora industrial – naquele momento, na linha de frente da produção moderna – acreditavam que bastaria que gerentes e políticos saíssem da frente, e aquela classe de proletários poderia governar o mundo, tomar as fábricas, apropriar-se da maquinaria da sociedade, transformá-la materialmente e administrá-la economicamente, socialmente, culturalmente, tecnicamente. A verdade sobre os anos 1920 é que o momento proletário desapareceu quase imediatamente. Pouco antes e pouco depois da I Guerra Mundial, realmente já parecia que sob a liderança daquela classe o mundo não estava sendo transformado como a Rússia fora transformada em 1917 pela Revolução Soviética. Esse foi o momento da perspectiva proletária, para ver a história. O que chamei de "a questão de Gramsci nos Cadernos" emerge daquele momento, com o reconhecimento de que a história não estava andando naquela direção, sobretudo não nas sociedades capitalistas avançadas da Europa Ocidental. Gramsci teve de enfrentar o revide e o fracasso: a certeza de que tal momento, tendo passado, nunca mais voltaria sob aquela mesma velha forma. Gramsci, aqui, se viu cara a cara com o próprio caráter revolucionário da história. Quando uma conjuntura se desenrola, não há "voltar atrás". A história muda de marcha. O terreno muda. Está-se num novo momento. E é preciso obedecer, "violentamente", com todo o "pessimismo do intelecto" às ordens de cada um, à "disciplina da conjuntura".

Além disso (e aí está uma das principais razões pelas quais essa ideia é tão pertinente ao que vivemos hoje), teve de enfrentar também a capacidade da Direita – especificamente, do fascismo europeu –, para hegemonizar aquela derrota.

Ali estava uma inversão do projeto revolucionário, uma nova conjuntura histórica, um momento no qual a Direita, não a Esquerda, conseguia dominar. Esse é momento de crise total para a Esquerda, quando todos os pontos de referência, as previsões, foram reduzidas a cacos. O universo político, como você conheceu e no qual habitou, colapsa.

Não quero dizer que a Esquerda na Grã-Bretanha esteja em momento exatamente igual a esse; mas, sim, espero que todos reconheçam alguns traços impressionantemente semelhantes, porque é a similaridade entre essas duas situações que torna a questão chave de Cadernos do Cárcere tão seminalmente importante para nos ajudar a compreender qual é nossa condição hoje. Gramsci nos dá, não as ferramentas para resolver o enigma, mas os meios pelos quais propor os tipos certos de perguntas sobre a política dos anos 1980 e 1990. E o faz encaminhando nossa atenção, sem fuga possível, para o que é específico e diferente sobre esse momento. Gramcsi sempre insiste em dedicar toda a atenção à diferença. Aí está uma lição que a Esquerda britânica ainda terá de aprender. Tendemos a pensar que a Direita nem sempre está presente e ativa, conosco; mas que é sempre exatamente a mesma: mesmos interesses, pensando os mesmos pensamentos. Estamos atravessando a transformação do Conservadorismo Britânico – sua adaptação parcial ao mundo moderno, mediante as "revoluções" neoliberal e monetarista. O thatcherismo reconstruiu o Conservadorismo e o Partido Conservador. Os comerciantes pequeno-burgueses estão agora no poder, não as classes do tiro-ao-pombo, de caça & pesca. E, por mais que essas transformações estejam modificando o terreno da luta política bem diante de nossos olhos, mesmo assim pensamos que as diferenças não têm qualquer efeito sobre coisa alguma. E ainda soa muito "de Esquerda" dizer que a velha classe governante continua(ria) a governar do mesmo velho modo de antes.

Gramsci, por outro lado, sabia que diferença e especificidade importam e são decisivas. Assim sendo, em vez de perguntar "o que Gramsci diria sobre o tatcherismo?" temos simplesmente de prestar atenção à fascinação que a noção de diferença causava a Gramsci, a questão da especificidade de uma dada conjuntura histórica: como forças diferentes se unem, conjunturalmente, para criar o novo terreno, sobre o qual têm de crescer uma formação política diferente. Essa é a intuição que Gramsci nos oferece sobre a natureza da vida política, a partir da qual podemos encontrar um fio-guia.

Quero dizer o que penso que sejam "as lições de Gramsci", em primeiro lugar em relação ao tatcherismo e ao projeto da Nova Direita; e, segundo, em termos da crise da Esquerda. Aqui, apresento só as linhas mais gerais do que entendo por "tatcherismo". O que estou tentando discutir é a abertura, a partir de meados dos anos 1970, de um novo projeto na Direita. "Projeto", nesse caso, não significa (como Gramsci alertou) algum tipo de conspiração. Quando falo de "projeto", falo da construção de uma nova agenda na política britânica. Mrs. Thatcher sempre visou, não a algum tipo de curta vitória eleitoral, mas a um longo período histórico no exercício do poder. Essa ocupação do poder pela Direita nunca visou simplesmente a comandar os aparelhos do Estado. Na verdade, o projeto foi organizado, nos estágios iniciais, em oposição ao Estado, que o "thatchterista" via como profundamente corrompido pelo estado do bem-estar e pelo keynesianismo, que teria ajudado a corromper o povo britânico. O thatcherismo ganhou vida no confronto contra o velho estado de bem-estar keynesiano, com "estatismo" social-democrata, o qual, na visão dos tatcheristas, havia dominado os anos 1960. O projeto tatcherista foi transformar o Estado para assim reestruturar a sociedade: descentralizar, deslocalizar, toda a formação pós-guerra; reverter a cultura política que havia formado a base do acordo político – o compromisso histórico entre trabalho e capital – vigente a partir de 1945.

Essa reversão aspirava a ser muito profunda: uma reversão das regras fundamentais do acordo político, das alianças sociais que serviam de substrato àquele acordo e dos valores que lhe haviam garantido popularidade. Não estou falando de atitudes e valores das pessoas que escrevem livros. Falo das ideias do povo que simplesmente, na vida de todos os dias, tem de calcular como sobreviver, como cuidar da família e dos dependentes mais próximos.

Refiro-me a isso, quando digo que o tatcherismo visou a uma reversão no senso comum. O "senso comum" do povo inglês fora construído em torno da noção de que a última guerra erigira uma barreira entre os 'tempos difíceis' dos anos 1930 e 'hoje'; que o estado do bem-estar viera para ficar; que nunca mais voltaríamos a usar o critério dos mercados como medida das carências das pessoas, das necessidades da sociedade. Sempre teria de haver alguma força institucional adicional, incremental – o Estado, representando o interesse geral da sociedade – para lutar contra, para modificar o mercado. Sei perfeitamente que o socialismo não foi inaugurado em 1945. Estou falando sobre a base da social-democracia do bem-estar, que foi vendida ao povo como se fosse conquista garantida, e que formaria o terreno concreto, real, sobre o qual teria de ser erigido qualquer socialismo que merecesse ostentar esse título. O tatcherismo foi projeto para combater contra, para contestar precisamente aquele projeto e, sempre que possível, desmantelá-lo e implantar algo de novo no lugar dele.  O tatcherismo entrou no campo político para uma disputa histórica, não só por poder, mas pela consagração da autoridade popular, vale dizer, pela hegemonia.

É um projeto – e isso sempre infalivelmente confunde a Esquerda – que é simultaneamente progressista e regressista. É regressista porque, em alguns aspectos cruciais, nos arrasta para trás. Qualquer um que defendesse, diante do povo britânico no final do século 20, a ideia de que o melhor futuro possível seria todos voltarem a ser, pela segunda vez, "Vitorianos Eminentes", estaria inevitavelmente empurrando os britânicos, inevitavelmente, para trás. O projeto tatcherista é profundamente regressista, antiquado, arcaizante

Mas não o subestimemos. O tatcherismo é também um projeto de 'modernização'. É uma modalidade de modernização regressista. Porque, ao mesmo tempo, o tatcherismo tinha seu olhar transfixado num dos fatos históricos mais profundos da formação social britânica: que a formação social britânica jamais, na verdade, chegou realmente à era da moderna civilização burguesa. Jamais fez essa passagem para a modernidade. Jamais institucionalizou, em sentido próprio, a civilização e as estruturas do capitalismo avançado – o que Gramsci chamou de "fordismo". A formação social britânica jamais transformou suas velhas estrutura industriais e políticas. Jamais se tornou uma potência da segunda revolução capitalista-industrial, no sentido em que o fizeram os EUA, e, por outra via (a via "prussiana"), também a Alemanha e o Japão. A Grã-Bretanha jamais passou por essa profunda transformação, a qual, no final do século 19, reconstruiu ambos, o capitalismo e as classes trabalhadoras. Consequentemente, Mrs. Thatcher sabe que não há projeto político sério na Grã-Bretanha hoje, que não tenha a ver também com construir uma política e uma imagem da 'cara' que a "modernidade" deverá ter para os britânicos. E o tatcherismo, à sua maneira ativamente regressista, confiando sempre no passado, olhando para trás, para glórias passadas, em vez de olhar para uma nova época à frente, inaugurou o projeto da modernização reacionária.


Nada mais crucial, a esse respeito, que a ideia de Gramsci de que cada crise é também um momento de reconstrução; que não há destruição que não seja também reconstrução; que, historicamente, nada é desmantelado sem o correspondente esforço para pôr outra coisa 'nova' no lugar: que toda e qualquer forma de poder não exclui, apenas, mas também produz alguma coisa. Essa é concepção inteiramente nova de crise e poder. Quando a Esquerda fala de crise, todos vemos o capitalismo em desintegração, e nós em marcha, para assumir o comando. Absolutamente não entendemos que a disrupção do funcionamento normal da velha ordem econômica, social, cultural é a oportunidade para reorganizar de modos novos, de reestruturar e reformatar, de modernizar e avançar. Sendo necessário, é claro, ao custo de deixar que vastos números de pessoas – no nordeste, no noroeste, no País de Gales e na Escócia, nas comunidades de mineiros e nas áreas industriais devastadas, nas cidades do interior e por toda a parte, – tenham de ser encaminhadas à lata de lixo da história. Essa é a "lei" da modernização capitalista: desenvolvimento desigual, desorganização organizada.

Confrontados com essa perigosa nova formação política, a tentação é sempre, ideologicamente, desmontá-la, forçá-la a parar, sempre perguntando a pergunta marxista clássica: quem essa formação realmente representa? Mas em geral, quando a Esquerda propõe à moda antiga essa velha pergunta marxista clássica, não estamos de fato perguntando coisa alguma: estamos fazendo uma 'declaração' histórica. Já conhecemos a resposta. É claro que a Direita representa a ocupação do Estado pelo capital, que nada é além de instrumento dela. Escritores burgueses produzem romances burgueses. O Partido Conservador é a classe dominante entronizada pelo voto, etc., etc. Isso é o marxismo convertido em teoria do óbvio. A pergunta não encaminha qualquer novo conhecimento: nada além do sabido e ressabido. Há aí uma espécie de jogo, teoria política tratada como brincadeira de ligue os pontos. De fato, a razão pela qual temos de perguntar "Quem é representado por aquela nova formação?" é que realmente não conhecemos a resposta.

É realmente difícil de dizer, em formulação simples, quem, afinal, é representado pelo tatcherismo. Aí está o espantoso fenômeno de uma ideologia pequeno-burguesa que 'representa' e está ajudando a reconstruir ambos: o capital nacional e o capital internacional. Mas, enquanto vai 'representando' o capital empresarial, aquela ideologia vai conquistando o consentimento de porções muito substanciais das classes subordinadas e dominadas. Que diabo de natureza tem essa ideologia que pode subsumir nela mesma tão vasta faixa de posições e interesses diferentes, e que parece representar um pouco de tudo e todos – inclusive muitos dos que aqui estão, a ler o que escrevo! Porque – e que ninguém se engane quanto a isso – um pedacinho de cada um de nós e de nós todos está também em algum lugar, dentro do projeto tatcherista. Claro, não estamos 100% comprometidos. Mas vez ou outra – sábados pela manhã, por exemplo – vamos à loja Sainsbury e ali somos um pedacinho de tatcherista. Como dar conta de uma ideologia que não tem coerência e que nos fala agora num dos ouvidos, e também do vendedor utilitarista, de mercado, que nos fala no outro ouvido, com voz de respeitável patriarca (homem, claro) burguês? Como esses dois repertórios operam juntos? Todos somos tomados de perplexidade ante a natureza contraditória do tatcherismo. À nossa moda intelectual, pensamos que o mundo colapsará por efeito de uma contradição lógica – é a ilusão do intelectual –, que a ideologia teria de ser coerente, cada pedacinho dela absolutamente em harmonia com o todo, como um ensaio filosófico. Quando, de fato, todo o propósito do que Gramsci chamava de "uma ideologia orgânica" (quer dizer, historicamente efetiva) é que ela articula numa configuração diferentes sujeitos, diferentes identidades, diferentes projetos, diferentes aspirações. Uma "ideologia orgânica" não reflete: ela constrói, da diferença, uma 'unidade'.

Vivemos às voltas com o projeto tatcherista, não desde 1983 ou 1979, como reza a doutrina oficial, mas desde 1975. 1975 é o climatério da política britânica. Primeiro, a subida do petróleo. Segundo, o início da crise capitalista. Terceiro, a transformação do moderno conservadorismo, pela ascensão da liderança tatcherista. Foi o momento da virada, quando, como dizia Gramsci, fatores nacionais e internacionais alinham-se. Não começou com a vitória eleitoral de Mrs. Thatcher, porque política não é questão apenas eleitoral. Caiu como um soco, em 1975, direto no plexo solar político de Callaghan. Quebrou ao meio a já rachada bengala de Callaghan. Uma das metades permanece avuncular, paternalista, social-conservadora. A outra metade põe-se a dançar por nova música. Uma das vozes de sereia, cantando novos cantos ao ouvido dele, é o genro, Peter Jay, um dos arquitetos do monetarismo, em sua função de missionário como editor de economia do The Times. Ele primeiro viu as novas forças de mercado, o novo consumidor soberano, assomando ao topo da colina como os Marines. E, exaltado ante essas intimações que o futuro lhe fazia, o velho abriu a boca. E diz o quê? Que os beijos acabaram-se. Acabou a festa. O jogo acabou. A social-democracia está acabada. Estado de bem-estar, nunca mais. Não temos dinheiro para isso. Estamos pagando demais a nós mesmos, excesso de empregos com salários exagerados, tempo demais, sobrando, descansando no balanço.

Pode-se até ver a psique inglesa colapsando sob o peso de tantos prazeres ilícitos em que se refestelara – a permissividade, o consumo, os bens. Tudo falso, só espuma e purpurina. Os árabes explodiram tudo aquilo. Agora, temos de pensar de outro modo. Thatcher fala dessa "nova rota". E fala também de outra coisa, profunda na psique britânica: o masoquismo. A carência em que os ingleses parecem viver, a ânsia para levar uma palmada da babá e ser mandado para a cama sem o doce. A conta segundo a qual cada bom verão tem de ser pago por 20 invernos terríveis. O espírito de Dunquerque – quanto pior nossa situação, mas bem nos comportamos. Thatcher não nos prometeu sociedade de desperdício. Disse "tempos de ferro"; costas contra a parede; mexam-se, ao trabalho. cavem, não parem de cavar. Firmem-se nas velhas verdades, já provadas no tempo, a sabedoria da 'Old England'. A família manteve coesa a sociedade: vivam para a família. Mandem as mulheres de volta para a lavoura. Os homens, que partam para a Fronteira Noroeste. Tempos duros – até que depois, muito depois, os Velhos Bons Tempos voltarão. E Thatcher pediu aos britânicos muito tempo – não um, mas dois e três mandatos. Ao final, disse ela, conseguirei redefinir a nação, e de tal modo que vocês, mais uma vez, pela primeira vez desde que o Império começou a decair ladeira abaixo, sentirão o que é ser parte da Grã-Bretanha Ilimitada. Vocês conseguirão, mais uma vez, mandar nossos rapazes 'para lá', hastear a bandeira, dar boas-vindas à frota. A Bretanha voltará a ser Grande, mais uma vez. Em minha avaliação, as pessoas não votam a favor do tatcherismo porque creiam em entrelinhas ou em referências sinuosas. Ninguém em perfeito juízo supõe que a Grã-Bretanha viva hoje em economia próspera, maravilhosa, bem-sucedida. Mas o tatcherismo, como ideologia, fala diretamente aos medos, às ansiedades, às identidades perdidas, de um povo. Ele nos convida a pensar sobre política, em imagens. Dirige-se a nossas fantasias coletivas, à Grã-Bretanha como comunidade imaginada, ao imaginário social. Mrs. Thatcher dominou perfeitamente aquele idioma – enquanto a Esquerda, obcecadamente, luta para arrastar a conversa sempre em torno de 'nossas políticas'.

É projeto histórico barulhento, essa modernização regressiva da Grã-Bretanha, para atrair as pessoas comuns, não porque sejam burras, estúpidas, ou porque tenham sido cegados pela falsa consciência. Nossa posição de classe ou o 'modo de produção' não garantem qualquer aval ao caráter político de nossas ideias. Por isso, a Direita consegue construir uma política que fala diretamente à experiência do povo, e escapa ao que Gramsci chamou de "natureza necessariamente fragmentada e contraditória do senso-comum". Aquelas políticas da Direita encontram eco em algumas das aspirações de todos e, em determinadas circunstâncias, podem reformatá-las como temas subordinados, num projeto histórico que hegemoniza o que nós – erradamente – nos habituamos a entender como interesses necessários de classe dos mais pobres. Gramsci é um dos primeiros marxistas modernos a reconhecer que os interesses não são dados, mas têm de ser construídos politicamente e ideologicamente.

Nos Cadernos do Cárcere, Gramsci nos alerta para o fato de que uma crise não é evento não mediado, surgido do nada, mas é um processo: pode durar muito tempo, e pode ser resolvida de várias e diferentes maneiras: por restauração, por reconstrução ou por transformismo passivo. Às vezes mais estáveis, às vezes mais instáveis; mas num sentido profundo, as instituições britânicas, a economia britânica, a sociedade e a cultura britânica estão em profunda crise social durante praticamente todo o século 20.

Gramsci chama nossa atenção para a evidência de que crises orgânicas dessa ordem surgem, não apenas no domínio político e em áreas tradicionais da vida industrial e econômica, não simplesmente na luta de classes, no sentido antigo; mas em vastas séries de políticas, debates sobre questões fundamentais de ordem sexual, moral e intelectual, numa crise nas relações de representação política e partidos – em enorme lista de questões que na primeira instância não parecem de modo algum articuladas necessariamente com a política em sentido estrito. Isso é o que Gramsci chama de crise de autoridade, que é não é nada mais que a crise de hegemonia ou crise geral do estado Viemos modelando a tal 'crise de autoridade' na vida social e na cultura da Grã-Bretanha desde meados dos anos 1960. Nos anos 1960, a crise da sociedade inglesa foi marcada por muitos debates e lutas em torno de novos pontos de antagonismo, que pareceram, à primeira vista, muito distanciados do tradicional núcleo duro da política britânica. A Esquerda muitas vezes apenas esperou pacientemente que os velhos ritmos da luta de classe voltassem a imperar, quando, de fato, as próprias formas da 'luta de classe' estavam sendo transformadas. Só se consegue entender essa diversificação nas lutas sociais à luz do que Gramsci ensina, quando insiste em que, nas sociedades modernas, a hegemonia tem de ser construída, contestada, disputada e afinal ganha em muitos diferentes campos, enquanto as estruturas do Estado moderno vão se tornando cada vez mais complexas e proliferam os pontos de antagonismo social.

Assim, uma das coisas mais importantes que Gramsci fez por nós foi nos dar nos uma concepção profundamente expandida da própria política, e, assim, também do poder e da autoridade. Não se pode, depois de Gramsci, regredir ao velho sentido estreito da política eleitoral ou política partidária, nem ao que se entendia como ocupar o poder do Estado, como campos da política moderna. Gramsci compreende que política é campo muito mais vasto; e que, especialmente em sociedades como essas que conhecemos, os pontos nos quais se constitui o poder serão sempre os mais variados. Estamos vivendo o momento da máxima proliferação dos locais de poder e de antagonismo na sociedade moderna. A transição para essa nova fase, para Gramsci, é decisiva. Na nova fase, já estão diretamente inscritas na agenda política as questões de liderança moral e intelectual, o papel educacional e formativo do Estado, as "trincheiras e fortalezas" da sociedade civil, a questão crucial do consentimento das massas e a criação de um novo tipo ou nível de civilização, uma nova cultura. Passa a haver clara linha divisória entre a fórmula da "Revolução Permanente" e a fórmula da "hegemonia civil". O mundo de Gramcsi encontra o nosso sobre um fio de navalha, entre a guerra de movimento e a guerra de posições.

Isso não quer dizer, como algumas pessoas interpretam Gramsci, que, portanto, o Estado não importa mais O Estado é sem dúvida absolutamente central para articular as diferentes áreas de contestação, os diferentes pontos de antagonismo, num regime de governo. O momento quando se obtém suficiente poder para organizar um projeto político central é decisivo, porque então se pode usar o Estado para planejar, apressar, incitar, solicitar e punir, para dar forma comum a vários sítios de poder e alcançar que consintam num único regime. Esse é o momento do "populismo autoritário" –, com o thatcherismo simultaneamente 'acima' (no Estado) e 'abaixo' (usufruindo do consentimento do povo).

Mas nem nesse momento Mrs. Thatcher comete o erro de supor que o Estado capitalista teria um só e unificado caráter político. Ela está plenamente consciente de que, por mais que o Estado capitalista seja articulado para assegurar condições históricas, de longo prazo, para a acumulação de capital e a lucratividade, e ainda que seja o guardião de determinado tipo de civilização e cultura burguesa e patriarcal, o Estado capitalista é, e continua a ser, arena de contestação e disputa. E isso significará que o thatcherismo é, afinal, simplesmente a 'expressão' da classe dominante? Claro que Gramsci sempre garante o lugar central às questões de classe, alianças de classes, luta de classes. Gramcsi diverge de versões clássicas do marxismo no quesito 'refletir' ou 'expressar'. Gramcsi não vê a política como arena que simplesmente reflete identidades políticas coletivas já unificadas, formas já constituídas de luta. A política, para ele, não é esfera dependente: é onde as forças e as relações, na economia, na sociedade, na cultura, têm de ser trabalhadas ativamente para produzir formas particulares de poder, formas de dominação. É a produção da política – política como produção. Essa concepção vê a política como fundamentalmente contingente, fundamentalmente sem fim pré-decidido. Não há lei da história que prediga qual tem de ser, inevitavelmente, o resultado de uma luta política. A política depende das relações de forças num dado momento. A história não está à espera nas coxias, para apanhar nossos erros e convertê-los em inevitáveis sucessos. Você perde porque você perde porque você perde.

O 'bom senso' do povo existe, mas é apenas o começo, não o fim, da política. Ele não garante nada. Na verdade, ele disse, "novas concepções têm uma posição extremamente instável entre as massas populares". Não há sujeito unitário de história. O sujeito é necessariamente dividido, um conjunto: metade Idade da Pedra, outra metade contendo "princípios da ciência mais moderna e progressista, preconceitos de todas as fases históricas passadas estreitamente localistas e intuições de uma futura filosofia". Tudo isso luta dentro das cabeças e dos corações das pessoas, para chegar a um modo de se articularem, todas elas, politicamente. Claro, é possível recrutá-las para projetos políticos muito diferentes.

Especialmente hoje, vivemos numa era na qual as velhas identidades políticas estão colapsando. Não podemos imaginar que o socialismo apareça hoje como imagem daquele sujeito uno, indiviso, singular, que nos habituamos a chamar de O Homem Socialista. Esse Homem Socialista, uma só mentalidade, um só conjunto de interesses, um só projeto, morreu. E já foi tarde. Quem precisaria 'dele' hoje, ou daquele investimento num específico período histórico, com 'seu' específico senso de masculinidade, contendo 'sua' identidade num específico conjunto de relações familiares, uma só e específica identidade sexual? Quem precisa 'dele' como identidade singular, se se vê a grande diversidade de seres humanos e culturas étnicas que habitam nosso mundo que entra no século 21? Esse 'ele' está morto: acabou. Gramsci já tinha os olhos postos num mundo que se ia tornando mais e mais complexo ali, diante dele. Viu que as modernas identidades culturais se pluralizavam, que emergiam entre as linhas de desenvolvimento histórico desigual. E propôs a pergunta crucialmente decisiva: quais as formas políticas mediante as quais pode ser construída uma nova ordem cultural, feita dessa "multiplicidade de desejos dispersos, desses alvos heterogêneos"? Dado que as pessoas são realmente isso, dado que não há lei que faça surgir e dê vida e realidade a algum socialismo, poderemos nós encontrar formas de organização, formas de identidade, formas de arregimentação, concepções sociais, que se mantenham conectadas à vida dos mais pobres e, ao mesmo tempo, a transformem e a renovem? Em todos os casos, teremos o que conseguirmos construir: o socialismo não nos será entregue em algum tipo de porta-giratória da história, por algum deux ex machina.

Gramsci sempre insistiu que hegemonia não é exclusivamente fenômeno ideológico. Não pode haver hegemonia sem o núcleo decisivo da economia. Por outro lado, que ninguém caia na arapuca do velho economicismo mecanicista, de crer que, se você controlar a economia, trará à vida todo o resto do universo. A natureza do poder no mundo moderno é que ele também é construído em relação a questões políticas, morais, intelectuais, culturais, ideológicas, sexuais. A questão da hegemonia é sempre a questão de uma nova ordem cultural. A questão que desafiava Gramsci em relação à Itália, nos desafia hoje em relação à Grã-Bretanha: qual a natureza dessa nova civilização? Hegemonia não é um estado de graça aí instalado para todo o sempre. Não é uma formação que incorpora todos. A noção de "bloco histórico" é exatamente, precisamente diferente do que se entende como uma classe dominante estabilizada, pacificada, homogênea.

A noção de "bloco histórico" implica concepção diferente de como as forças e os movimentos sociais, na diversidade deles, podem ser articuladas num conjunto de alianças estratégicas. Para construir uma nova ordem cultural, não é preciso refletir um coletivo já formado, mas modelar um novo coletivo, inaugurar um novo projeto histórico.

Falei até aqui sobre Gramsci à luz do thatcherismo: usando Gramsci para compreender a natureza e a profundidade do desafio que o tatcherismo e a nova Direita impõem à esquerda, à vida e à política dos britânicos. Mas, ao mesmo tempo, inevitavelmente, falei também sobre a Esquerda. Ou talvez, dizendo melhor, não falei de Esquerda alguma, porque a Esquerda, na sua modalidade trabalhista organizada, não parece ter sequer alguma mínima ideia do muito que é indispensável reunir para ter um novo projeto histórico. Parece que a Esquerda absolutamente não compreende a natureza necessariamente contraditória de sujeitos humanos, de identidades sociais. Parece que não consegue compreender a política como uma produção. Não vê que é possível conectar-se com os sentimentos comuns e as experiências ordinárias que as pessoas conhecem na vida de todos os dias, e, ao mesmo tempo, articulá-las progressistamente, numa forma mais moderna e mais avançada de consciência social. A Esquerda não está ativamente buscando e trabalhando sobre a enorme diversidade das forças sociais ativas em nossa sociedade. Ela não vê que está inscrito na própria natureza da moderna civilização capitalista fazer proliferar os centros de poder e, assim, trazer mais e mais áreas da vida, para dentro do antagonismo social. Não reconhece que as identidades que as pessoas carregam dentro da cabeça – as subjetividades, a vida cultural, a vida sexual, a vida familiar, a identidade cultural, a saúde, o corpo – tudo se tornou massivamente politizado.

Absolutamente não acredito, por exemplo, que a atual liderança do Partido Trabalhista compreenda que o seu destino político depende de se conseguirá ou não construir uma política, nos próximos 20 anos, capaz de fazer frente não a um, mas a diversos e diferentes pontos de antagonismo dentro da sociedade; de unificar todos, preservadas as diferenças, num mesmo projeto comum. Não me parece que tenham percebido que a capacidade do Partido Trabalhista para crescer como força política depende absolutamente da capacidade que tenha para integrar as energias populares de movimentos muito diferentes; de movimentos fora do Partido que o Partido não soube – não pôde – integrar ao jogo e, portanto, o Partido não consegue administrar. O Trabalhismo inglês ainda vive concepção de política inteiramente burocrática. Se a palavra de ordem não brota da boca da liderança Trabalhista, com certeza haveria ali algo de subversivo. Se a política energiza as massas para que desenvolvam novas demandas, seria sinal 'certo' de que os nativos estão agitados. Então, é hora de demitir ou depor ou espancar uma meia dúzia. E os cidadãos são obrigados a voltar àquela ficção, ao 'eleitor tradicional dos Trabalhistas: àquela noção pacificada, Fabiana de política, segundo a qual as massas jogam os especialistas à força para dentro do poder, e então os especialistas fazem algo pelas massas... mas só depois, muito depois. A concepção hidráulica de política.

Essa concepção burocrática de política nada tem a ver com mobilizar uma variedade de forças populares. Não tem qualquer concepção de como as pessoas ganham poderes ao fazer alguma coisa: antes de tudo, em relação aos seus próprios problemas; além disso, o poder para expandir as próprias capacidades e ambições políticas, de tal modo que começam a pensar novamente sobre como seria mandar no mundo... As políticas desses burocratas da política deixaram de ter qualquer conexão com a mais moderna de todas as resoluções - a decisão de aprofundar a vida democrática.

Sem aprofundar a participação popular na vida nacional-cultural, as pessoas comuns não têm a experiência de realmente mandar em alguma coisa, dentro da própria vida. Temos de readquirir a noção de que a política é o meio para expandir as capacidades populares, as capacidades das pessoas comuns. Para fazer isso, o próprio socialismo tem de falar diretamente às pessoas as quais ele quer empoderar, em palavras que pertencem às próprias pessoas, como pessoas comuns do século 20.

Você vai ter notado que não falo sobre se o Partido Trabalhista fez bem, nessa ou naquela política, numa ou noutra questão. Estou falando sobre a concepção total de política: a capacidade para capturar em nossa imaginação política as vastas escolhas históricas que estão aí, hoje, diante do povo britânico. Estou falando de novas concepções da própria nação: ou será que você ainda crê que a Grã-Bretanha poderia avançar para o século 21, com aquela concepção de ser 'inglês' constituída integralmente da longa e desastrosa marcha imperialista da Grã-Bretanha pelo planeta? Se você ainda pensa assim, então você não entendeu a profunda transformação cultural indispensável para refazer "o inglês". E esse tipo de transformação cultural é, precisamente, do que o socialismo trata, hoje.

Em minha opinião, qualquer partido de Esquerda, por mais que seja centrado no governo, em vencer eleições, tem diante dele, precisamente, esse tipo de decisão. O motivo pelo qual não sou otimista quanto ao "partido de massas da classe trabalhadora", mesmo que entenda a natureza da escolha histórica que tem diante dele, é, precisamente, porque suspeito que o Partido Trabalhista britânico ainda acredite que haveria algum espaço para insistir no velho jogo keynesiano, velho, econômico-corporativo, desenvolvimentista. Ele ainda supõe que poderia que poderia voltar para uma migalha de keynesianismo aqui, um pouco mais de Estado do bem-estar ali, uma pitada daquela velha ideia fabiana... Verdade é que, embora não seja dado a visões cataclísmicas do futuro, honestamente acredito que aquela alternativa já não exista, que está fechada, exauriu-se. Ninguém mais acredita naquilo. As condições materiais que levaram àquilo tudo sumiram. O povo britânico comum não elegerá quem lhe fale desse passadismo, porque já aprendeu, na própria carne, que a vida já não é daquele jeito. O que o thatcherismo propõe à sua maneira radical não é para onde podemos voltar, mas por qual rota temos de seguir avante. À nossa frente há uma escolha histórica: capitular ao futuro neoliberal conservador regressista, ou inventar outro modo de imaginar.

Nem se preocupem com Mrs. Thatcher pessoalmente; ela se aposentará e se recolherá em Dulwich. Mas há muitos, toda uma terceira, uma quarta e uma quinta geração de thatcheristas, a postos, perfilados, secos, unidos ombro a ombro numa muralha, à espera de tomar o lugar dela. Estão convencidos de que o socialismo está a um pequeno passo de distância de ser extinto para sempre. Para eles, somos como dinossauros, pensam que pertencemos a uma era remota. Para eles, com o lento mas firme declínio do socialismo, nascerá uma nova era; e eles, esses 'novos' homens literalmente 'de posses', possessivos, nesse sentido, estarão no comando. Essa gente sonha com alcançar poder cultural real. E o Partido dos Trabalhadores, com sua conversinha mole, de não sacuda o bote, de não provoque, as pesquisas eleitorais hão de subir, o povo sabe que somos 'éticos'... ele, na verdade, só têm diante de si uma escolha: ou se torna historicamente irrelevante ou se põe a esboçar uma forma inteiramente nova de civilização.

Não digo "socialismo", como palavra sem sentido que anda hoje em tantas bocas, como se dissesse que teríamos de repor nos trilhos o mesmo velho programa de antes. Falo aqui sobre uma renovação de todo o projeto socialista, no contexto da moderna vida social e cultural. Falo de alterar as relações de forças – não para que a Utopia seja instalada e tome posse na manhã seguinte, depois das eleições gerais, mas para que as tendências comecem a mover-se na direção oposta. Quem precisa de um paraíso socialista onde todos concordem com todos, onde todos sejam exatamente o mesmo? Deus nos livre! Falo de um lugar onde possamos afinal começar a discussão histórica sobre que novo tipo de civilização teremos de criar. Será possível que as imensas novas capacidades materiais, culturais e tecnológicas, que ultrapassam em muito até os sonhos mais visionários de Marx, e que temos hoje realmente já nas mãos, serão todas elas politicamente hegemonizadas pela modernização reacionária do thatcherismo? Ou podemos tomar todos esses meios de produzir história, de produzir novos sujeitos humanos, e lançá-los na direção de uma nova cultura? Essa é a escolha diante da qual está a Esquerda.

"Temos de destacar" – Gramsci escreveu –, "a importância que os partidos políticos têm no mundo moderno, para elaborar e difundir concepções de mundo, porque essencialmente o que fazem é extrair a ética e a política correspondentes e atuar como se fossem um 'laboratório' histórico daquelas concepções."

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