Nancy Fraser
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| NLR 158 • Mar/Apr 2026 |
Os significados de Gaza continuam a se desdobrar. Relatórios eloquentes e bem documentados, como os do Relator Especial da ONU para os Territórios Ocupados; obras cinematográficas aclamadas como A Voz de Hind Rajab (2025); poesia como Se Eu Tiver Que Morrer (2024), de Refaat Alareer; análises de historiadores palestinos como Rashid Khalidi e juristas como Rabea Eghbariah — todos esses e muitos outros abordaram a importância do ataque de terra arrasada de Israel, seus repetidos ataques a locais de distribuição de ajuda e “zonas seguras”, suas táticas de cerco e fome, seu deslocamento de milhões de palestinos para aqueles “desertos impensáveis de escombros, esgoto e corpos em decomposição” descritos pelo Relator da ONU.
Aqui, quero examinar um aspecto diferente do ataque genocida de Israel contra Gaza: seu significado como um “evento mundial”, um ponto de virada histórico que também serve para revelar, e assim significar, a natureza dos tempos. Pretendo fazê-lo num registro que abrangerá o político, o social, o filosófico e o pessoal. Argumento que “Gaza” significa uma crise para a ordem moral que prevaleceu em grande parte do Ocidente durante o último meio século. Instalada nos Estados Unidos a partir da década de 1970, e servindo para justificar sua hegemonia global juntamente com o expansionismo israelense, essa ordem estava centrada no judaísmo nazista como o emblema máximo do “mal radical”, delimitando o horizonte dentro do qual o erro e sua retificação poderiam ser pensados. Hoje, no entanto, o próprio Auschwitz é invocado como justificativa para um novo genocídio. O efeito é deixar a ordem moral ocidental centrada no Holocausto em frangalhos, incapaz de ocultar ou conter os crimes flagrantes cometidos pelo Estado de Israel e seu apoiador americano. No período atual, “Gaza” tenta substituir “Auschwitz” como símbolo das piores atrocidades humanas de nosso tempo.
Esse, em todo caso, é o cenário que exploro aqui. Cheguei a ele por um caminho tortuoso, que me levou ao redor do mundo, tanto literal quanto mentalmente, em 2024 e 2025: à Alemanha, onde gestos modestos de solidariedade com a Palestina foram recebidos com exigências de retratação; aos EUA, onde uma grande onda de protestos universitários contra o genocídio em curso surgiu e foi reprimida; à “comunidade judaica”, onde famílias extensas — incluindo a minha — estavam cancelando seu Seder de Pessach anual porque não conseguiam conversar entre si sobre o que Israel estava fazendo; E, finalmente, ao Japão, onde fui convidado a dar uma palestra sobre Gaza em meio a um sentimento pró-Palestina surpreendentemente disseminado e incontestado, apesar do igualmente disseminado e incontestado pró-americanismo.
Naquela última parada, em Kyoto, enquanto refletia sobre o que dizer, duas observações me chamaram a atenção. Primeiro, “Gaza” estava sendo processada de maneira diferente nesses contextos. Mas, segundo, por trás das diferenças, havia figuras e motivos semelhantes, ansiedades e evasivas análogas. Questões sobre vítimas, perpetradores e acertos de contas morais com um passado que parecia relativamente resolvido estavam ressurgindo em cada local, com uma intensidade feroz. Aqui, pensei, era possível ler a crise de uma ordem mundial, cujos crimes não podiam mais ser contidos na figura de “Auschwitz”. O que se segue é uma elaboração dessa hipótese na forma de um relato de viagem, revisitando os principais locais do meu itinerário original — Alemanha, EUA, “judaísmo mundial” — com breves paradas no Japão, Israel e Palestina. Em cada caso, meu objetivo é revelar tanto as especificidades locais quanto os padrões mais amplos de ruptura moral que constituem ‘Gaza’ como um evento mundial.
Aqui, quero examinar um aspecto diferente do ataque genocida de Israel contra Gaza: seu significado como um “evento mundial”, um ponto de virada histórico que também serve para revelar, e assim significar, a natureza dos tempos. Pretendo fazê-lo num registro que abrangerá o político, o social, o filosófico e o pessoal. Argumento que “Gaza” significa uma crise para a ordem moral que prevaleceu em grande parte do Ocidente durante o último meio século. Instalada nos Estados Unidos a partir da década de 1970, e servindo para justificar sua hegemonia global juntamente com o expansionismo israelense, essa ordem estava centrada no judaísmo nazista como o emblema máximo do “mal radical”, delimitando o horizonte dentro do qual o erro e sua retificação poderiam ser pensados. Hoje, no entanto, o próprio Auschwitz é invocado como justificativa para um novo genocídio. O efeito é deixar a ordem moral ocidental centrada no Holocausto em frangalhos, incapaz de ocultar ou conter os crimes flagrantes cometidos pelo Estado de Israel e seu apoiador americano. No período atual, “Gaza” tenta substituir “Auschwitz” como símbolo das piores atrocidades humanas de nosso tempo.
Esse, em todo caso, é o cenário que exploro aqui. Cheguei a ele por um caminho tortuoso, que me levou ao redor do mundo, tanto literal quanto mentalmente, em 2024 e 2025: à Alemanha, onde gestos modestos de solidariedade com a Palestina foram recebidos com exigências de retratação; aos EUA, onde uma grande onda de protestos universitários contra o genocídio em curso surgiu e foi reprimida; à “comunidade judaica”, onde famílias extensas — incluindo a minha — estavam cancelando seu Seder de Pessach anual porque não conseguiam conversar entre si sobre o que Israel estava fazendo; E, finalmente, ao Japão, onde fui convidado a dar uma palestra sobre Gaza em meio a um sentimento pró-Palestina surpreendentemente disseminado e incontestado, apesar do igualmente disseminado e incontestado pró-americanismo.
Naquela última parada, em Kyoto, enquanto refletia sobre o que dizer, duas observações me chamaram a atenção. Primeiro, “Gaza” estava sendo processada de maneira diferente nesses contextos. Mas, segundo, por trás das diferenças, havia figuras e motivos semelhantes, ansiedades e evasivas análogas. Questões sobre vítimas, perpetradores e acertos de contas morais com um passado que parecia relativamente resolvido estavam ressurgindo em cada local, com uma intensidade feroz. Aqui, pensei, era possível ler a crise de uma ordem mundial, cujos crimes não podiam mais ser contidos na figura de “Auschwitz”. O que se segue é uma elaboração dessa hipótese na forma de um relato de viagem, revisitando os principais locais do meu itinerário original — Alemanha, EUA, “judaísmo mundial” — com breves paradas no Japão, Israel e Palestina. Em cada caso, meu objetivo é revelar tanto as especificidades locais quanto os padrões mais amplos de ruptura moral que constituem ‘Gaza’ como um evento mundial.
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Para começar pela Alemanha — e uma breve nota pessoal. Em maio de 2024, eu deveria assumir uma cátedra visitante na Universidade de Colônia, para a qual havia sido nomeado no ano anterior. Estava tudo pronto quando recebi a notícia de que o Reitor desejava que eu “esclarecesse” minhas opiniões sobre Israel/Palestina. Ele acabara de descobrir que eu era um dos quatrocentos filósofos americanos que assinaram uma carta aberta em novembro de 2023, a qual condenava a invasão israelense de Gaza como uma apropriação territorial colonial e alertava para um genocídio iminente. Em sua visão, a carta me desqualificava para a cátedra Albertus Magnus. Seu pedido para que eu “esclarecesse” minhas opiniões era, na realidade, uma exigência para que eu as renunciasse publicamente. Quando me recusei a fazê-lo, ele revogou minha nomeação e me denunciou à imprensa alemã.[3] Assim que a notícia se espalhou, comecei a receber mensagens de ódio de pessoas em Israel. Uma mensagem permanece gravada em minha mente: “Nem mesmo os descendentes de nazistas te suportam, vadia Kapo.”
A rapidez e a brutalidade de tudo isso foram impressionantes. Mas eu não fui a única a receber esse tratamento na Alemanha durante esse período. Outros exemplos incluem a romancista palestina Adania Shibli, cuja cerimônia de premiação de "Minor Detail" na Feira do Livro de Frankfurt de 2023 foi cancelada; a escritora anglo-alemã Sharon Dodua Otoo, cujo Prêmio Peter Weiss de 2023 foi revogado pela cidade de Bochum; a artista e cineasta palestina Emily Jacir, cuja palestra na estação de trem Hamburger Bahnhof foi cancelada; a curadora berlinense Anais Duplan, cuja exposição de Afrofuturismo no Museu Folkwang em Essen foi cancelada; e a artista judia sul-africana Candice Breitz, cuja exposição no Museu do Sarre foi cancelada. Todas essas e muitas outras pessoas tiveram suas exposições canceladas na Alemanha por criticarem a guerra genocida de Israel contra Gaza e expressarem solidariedade aos palestinos. Eu me orgulhei de estar entre elas.
A justificativa oficial para esses cancelamentos reside na versão peculiar da Alemanha do Staatsräson, segundo a qual os interesses da nação estão indissoluvelmente ligados à segurança nacional de Israel; enfraquecer a segunda é, por consequência, minar a primeira. Essa condicionalidade visa eximir a Alemanha da responsabilidade pelo assassinato de seis milhões de judeus pelos nazistas, enquanto, obviamente, não assume qualquer responsabilidade pelos milhões de outros mortos pelos nazistas: comunistas, pessoas com deficiência, homossexuais, poloneses, russos, ucranianos, ciganos e sinti. No que diz respeito aos judeus, a postura da Alemanha pode inicialmente parecer apropriada, até mesmo admirável, quando comparada à de muitos países, incluindo os EUA e o Japão, que não assumiram a responsabilidade pelas atrocidades que eles cometem. Mas a doutrina alemã deve ser combatida, pois ela vincula a responsabilidade pelo judaísmo não ao dever de defender os direitos humanos universais, nem mesmo a obrigações reparadoras especiais para com o povo judeu, mas sim ao apoio incondicional ao Estado de Israel, que, por sua vez, equipara ao apoio incondicional a todas as ações israelenses tomadas em nome da “segurança nacional” — as ondas de limpeza étnica de palestinos após a Nakba de 1948; a ocupação dos territórios palestinos pelas Forças de Defesa de Israel e a anexação de Jerusalém Oriental; a destruição de casas palestinas, a prisão, a tortura e o assassinato de ativistas palestinos, a promoção de assentamentos sionistas e a incitação à violência dos colonos, o uso da fome e de bombardeios indiscriminados contra Gaza; ações que, em conjunto, constituem uma clara indicação de intenção genocida.
Tudo isso e muito mais recebe apoio do Estado alemão, como prova de sua recém-limpa consciência em relação aos judeus — enquanto, ao mesmo tempo, autoridades alemãs se arrogam o direito de intimidar qualquer judeu que critique Israel, não apenas nos dizendo o que devemos dizer e pensar, mas também nos instruindo sobre nossos deveres e interesses como judeus — decidindo o que significa ser judeu, quem é um judeu “de verdade” e quem não é. Isso é especialmente ofensivo para os judeus de esquerda que protestam contra o genocídio em Gaza apelando para “outro judaísmo”, uma tradição universalista que inclui Maimônides, Spinoza, Heine, Freud, Benjamin, Einstein, Deutscher, Arendt e Judith Butler, entre muitos outros. O grito de guerra desses judeus contra as atrocidades israelenses é: “Não em nosso nome!”. Para nós, a equação redutiva do pensamento judaico aos delírios messiânicos da extrema direita israelense e seus cúmplices é uma negação da nossa realidade e da nossa história.
O termo “macartismo filosemita” foi cunhado por Susan Neiman, uma filósofa judaico-americana radicada em Berlim, para descrever essa repressão do pensamento.[5] Neiman descreve como estudantes da Alemanha Ocidental, na década de 1960, desafiaram a relutância da geração de seus pais em reconhecer a magnitude dos crimes nazistas. Na década de 1980, a ideia de “acertar as contas” com o passado nazista havia se tornado um consenso estabelecido na República Federal.[6] Uma densa cultura de memória do Holocausto foi desenvolvida, com museus, currículos escolares e memoriais públicos, juntamente com a injunção de que qualquer crítica a Israel poderia ser um passo nessa mesma estrada antissemita. Como relata Neiman, a reação do governo Merkel à ascensão do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) foi a criação de uma Comissão Federal para combater o antissemitismo em 2018, assessorada pela Embaixada de Israel e logo replicada em nível regional. Em 2019, porém, o próprio AfD, assim como muitos partidos de extrema-direita europeus, adotou uma posição pró-Israel e propôs a proibição da campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) na Alemanha. Adotada pelos principais partidos, a regulamentação agora proíbe qualquer pessoa considerada "próxima" ao BDS de discursar, se apresentar ou expor em qualquer espaço cultural financiado pelo Estado. Juntamente com as comissões antissemitismo apoiadas pelo Estado, esse foi mais um passo crucial na institucionalização do "filossemitismo" na Alemanha.
O termo cunhado por Neiman, “macartismo filosemita”, iluminou a ligação desse duvidoso “amor pelos judeus” com táticas políticas análogas às do nosso anticomunismo da Guerra Fria: listas negras, juramentos de lealdade, delação premiada de outros esquerdistas perante uma comissão do Congresso. Como ela observa corretamente, o “amor” em questão aqui é objetificador, solipsista, atolado em estereótipos e limitado por noções alemãs do que é um judeu e como ele deveria ser; não uma abertura para “o outro”, mas um fechamento para ele. Além disso, uma afeição falsa e exagerada por um grupo de semitas, “os judeus”, é usada para justificar a opressão repleta de ódio contra outro grupo, os palestinos. As ameaças aos judeus são grosseiramente ampliadas quando não inventadas. O sofrimento palestino é apagado, tornado invisível, inexistente.
Em sua essência, o macartismo filosemita é antissemita em ambos os sentidos: antijudaico e antiárabe. Seu verdadeiro objetivo é promover a autoestima da elite alemã, e não o bem-estar dos semitas. Promete transformar os supostamente culpados descendentes dos nazistas em campeões da política da memória, virtuosos em lidar com o passado. Para que isso funcione, as vítimas judias da Alemanha devem ser retratadas como puras e boas; qualquer reconhecimento da criminalidade do Estado israelense ameaça perturbar esse frágil equilíbrio. Talvez isso ajude a explicar o caso de Jürgen Habermas, que declarou, em um documento intitulado "Princípios da Solidariedade", que era inaceitável para um alemão sequer questionar as intenções genocidas de Israel em Gaza. Isso foi justificado em termos do “ethos democrático da República Federal da Alemanha, que se orienta para a obrigação de respeitar a dignidade humana”.[8] A preocupação com a dignidade humana, contudo, não se estendeu aos palestinos em Gaza — nem aos muçulmanos na Alemanha, confrontados com a crescente islamofobia.[9] Certamente, um número significativo de intelectuais alemães protestou vigorosamente contra a inclusão na lista negra daqueles que se manifestavam sobre Gaza e defendeu os princípios fundamentais da liberdade de consciência e da liberdade de expressão, mesmo quando discordavam sobre a política do ataque israelense.[10] O efeito foi o de ampliar, ainda que ligeiramente, as fissuras no muro filosemita-mccarthista.
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A rapidez e a brutalidade de tudo isso foram impressionantes. Mas eu não fui a única a receber esse tratamento na Alemanha durante esse período. Outros exemplos incluem a romancista palestina Adania Shibli, cuja cerimônia de premiação de "Minor Detail" na Feira do Livro de Frankfurt de 2023 foi cancelada; a escritora anglo-alemã Sharon Dodua Otoo, cujo Prêmio Peter Weiss de 2023 foi revogado pela cidade de Bochum; a artista e cineasta palestina Emily Jacir, cuja palestra na estação de trem Hamburger Bahnhof foi cancelada; a curadora berlinense Anais Duplan, cuja exposição de Afrofuturismo no Museu Folkwang em Essen foi cancelada; e a artista judia sul-africana Candice Breitz, cuja exposição no Museu do Sarre foi cancelada. Todas essas e muitas outras pessoas tiveram suas exposições canceladas na Alemanha por criticarem a guerra genocida de Israel contra Gaza e expressarem solidariedade aos palestinos. Eu me orgulhei de estar entre elas.
A justificativa oficial para esses cancelamentos reside na versão peculiar da Alemanha do Staatsräson, segundo a qual os interesses da nação estão indissoluvelmente ligados à segurança nacional de Israel; enfraquecer a segunda é, por consequência, minar a primeira. Essa condicionalidade visa eximir a Alemanha da responsabilidade pelo assassinato de seis milhões de judeus pelos nazistas, enquanto, obviamente, não assume qualquer responsabilidade pelos milhões de outros mortos pelos nazistas: comunistas, pessoas com deficiência, homossexuais, poloneses, russos, ucranianos, ciganos e sinti. No que diz respeito aos judeus, a postura da Alemanha pode inicialmente parecer apropriada, até mesmo admirável, quando comparada à de muitos países, incluindo os EUA e o Japão, que não assumiram a responsabilidade pelas atrocidades que eles cometem. Mas a doutrina alemã deve ser combatida, pois ela vincula a responsabilidade pelo judaísmo não ao dever de defender os direitos humanos universais, nem mesmo a obrigações reparadoras especiais para com o povo judeu, mas sim ao apoio incondicional ao Estado de Israel, que, por sua vez, equipara ao apoio incondicional a todas as ações israelenses tomadas em nome da “segurança nacional” — as ondas de limpeza étnica de palestinos após a Nakba de 1948; a ocupação dos territórios palestinos pelas Forças de Defesa de Israel e a anexação de Jerusalém Oriental; a destruição de casas palestinas, a prisão, a tortura e o assassinato de ativistas palestinos, a promoção de assentamentos sionistas e a incitação à violência dos colonos, o uso da fome e de bombardeios indiscriminados contra Gaza; ações que, em conjunto, constituem uma clara indicação de intenção genocida.
Tudo isso e muito mais recebe apoio do Estado alemão, como prova de sua recém-limpa consciência em relação aos judeus — enquanto, ao mesmo tempo, autoridades alemãs se arrogam o direito de intimidar qualquer judeu que critique Israel, não apenas nos dizendo o que devemos dizer e pensar, mas também nos instruindo sobre nossos deveres e interesses como judeus — decidindo o que significa ser judeu, quem é um judeu “de verdade” e quem não é. Isso é especialmente ofensivo para os judeus de esquerda que protestam contra o genocídio em Gaza apelando para “outro judaísmo”, uma tradição universalista que inclui Maimônides, Spinoza, Heine, Freud, Benjamin, Einstein, Deutscher, Arendt e Judith Butler, entre muitos outros. O grito de guerra desses judeus contra as atrocidades israelenses é: “Não em nosso nome!”. Para nós, a equação redutiva do pensamento judaico aos delírios messiânicos da extrema direita israelense e seus cúmplices é uma negação da nossa realidade e da nossa história.
O termo “macartismo filosemita” foi cunhado por Susan Neiman, uma filósofa judaico-americana radicada em Berlim, para descrever essa repressão do pensamento.[5] Neiman descreve como estudantes da Alemanha Ocidental, na década de 1960, desafiaram a relutância da geração de seus pais em reconhecer a magnitude dos crimes nazistas. Na década de 1980, a ideia de “acertar as contas” com o passado nazista havia se tornado um consenso estabelecido na República Federal.[6] Uma densa cultura de memória do Holocausto foi desenvolvida, com museus, currículos escolares e memoriais públicos, juntamente com a injunção de que qualquer crítica a Israel poderia ser um passo nessa mesma estrada antissemita. Como relata Neiman, a reação do governo Merkel à ascensão do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) foi a criação de uma Comissão Federal para combater o antissemitismo em 2018, assessorada pela Embaixada de Israel e logo replicada em nível regional. Em 2019, porém, o próprio AfD, assim como muitos partidos de extrema-direita europeus, adotou uma posição pró-Israel e propôs a proibição da campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) na Alemanha. Adotada pelos principais partidos, a regulamentação agora proíbe qualquer pessoa considerada "próxima" ao BDS de discursar, se apresentar ou expor em qualquer espaço cultural financiado pelo Estado. Juntamente com as comissões antissemitismo apoiadas pelo Estado, esse foi mais um passo crucial na institucionalização do "filossemitismo" na Alemanha.
O termo cunhado por Neiman, “macartismo filosemita”, iluminou a ligação desse duvidoso “amor pelos judeus” com táticas políticas análogas às do nosso anticomunismo da Guerra Fria: listas negras, juramentos de lealdade, delação premiada de outros esquerdistas perante uma comissão do Congresso. Como ela observa corretamente, o “amor” em questão aqui é objetificador, solipsista, atolado em estereótipos e limitado por noções alemãs do que é um judeu e como ele deveria ser; não uma abertura para “o outro”, mas um fechamento para ele. Além disso, uma afeição falsa e exagerada por um grupo de semitas, “os judeus”, é usada para justificar a opressão repleta de ódio contra outro grupo, os palestinos. As ameaças aos judeus são grosseiramente ampliadas quando não inventadas. O sofrimento palestino é apagado, tornado invisível, inexistente.
Em sua essência, o macartismo filosemita é antissemita em ambos os sentidos: antijudaico e antiárabe. Seu verdadeiro objetivo é promover a autoestima da elite alemã, e não o bem-estar dos semitas. Promete transformar os supostamente culpados descendentes dos nazistas em campeões da política da memória, virtuosos em lidar com o passado. Para que isso funcione, as vítimas judias da Alemanha devem ser retratadas como puras e boas; qualquer reconhecimento da criminalidade do Estado israelense ameaça perturbar esse frágil equilíbrio. Talvez isso ajude a explicar o caso de Jürgen Habermas, que declarou, em um documento intitulado "Princípios da Solidariedade", que era inaceitável para um alemão sequer questionar as intenções genocidas de Israel em Gaza. Isso foi justificado em termos do “ethos democrático da República Federal da Alemanha, que se orienta para a obrigação de respeitar a dignidade humana”.[8] A preocupação com a dignidade humana, contudo, não se estendeu aos palestinos em Gaza — nem aos muçulmanos na Alemanha, confrontados com a crescente islamofobia.[9] Certamente, um número significativo de intelectuais alemães protestou vigorosamente contra a inclusão na lista negra daqueles que se manifestavam sobre Gaza e defendeu os princípios fundamentais da liberdade de consciência e da liberdade de expressão, mesmo quando discordavam sobre a política do ataque israelense.[10] O efeito foi o de ampliar, ainda que ligeiramente, as fissuras no muro filosemita-mccarthista.
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Nos Estados Unidos, enquanto isso, os efeitos de “Gaza como um evento mundial” se desenrolavam em uma direção diferente e em um ritmo mais acelerado — da proliferação de protestos à repressão brutal. A invasão israelense de Gaza desencadeou uma enorme onda de protestos em praticamente todos os estados. Em abril e maio de 2024, estudantes de mais de 140 campi se mobilizaram, realizando uma ampla gama de ações em solidariedade à Palestina, quase todas não violentas: marchas, vigílias, acampamentos, ocupações, greves e protestos pacíficos, contra o massacre israelense e o financiamento e armamento do governo Biden. Os participantes representavam todo o espectro da população universitária: palestinos e árabes-americanos, certamente; mas também latinos e asiático-americanos, afro-americanos e “brancos étnicos”, cristãos e ateus, muçulmanos e judeus. Muitos eram novatos na política de protesto; radicalizados pela experiência, juntaram-se a grupos como nós: Campanha pelos Direitos Palestinos, Estudantes pela Justiça na Palestina, Voz Judaica pela Paz, Não em Nosso Nome e Socialistas Democráticos da América. Participando de seminários e grupos de estudo, eles aprenderam sobre a história do colonialismo de povoamento e o pensamento anti-imperialista. Para um veterano da década de 1960, a sensação era muito parecida com os dias intensos e eufóricos do início do movimento contra a Guerra do Vietnã, sinalizando um renascimento do radicalismo americano; baseado nos movimentos Occupy e Black Lives Matter, mas adicionando uma dimensão internacionalista mais enfática.
Então, em junho de 2024, essa primeira onda foi sufocada num instante. Usando acusações falsas de antissemitismo como arma, sionistas judeus de direita se uniram a nacionalistas cristãos conservadores numa ofensiva coordenada contra os manifestantes. A polícia militarizada desmantelou acampamentos, prendendo e brutalizando estudantes. Universidades expulsaram alunos, baniram os capítulos estudantis do Students for Justice in Palestine e do Jewish Voice for Peace e retiveram diplomas. Grandes escritórios de advocacia privados revogaram ofertas de emprego feitas a formandos. Trolls apoiadores do Trump e sionistas perseguiram manifestantes online e denunciaram aqueles que consideravam possíveis árabes. Tudo isso foi feito em nome do combate ao antissemitismo, que foi equiparado à crítica a Israel e à solidariedade com os palestinos. O macartismo filosemita havia cruzado o Atlântico.
Ou será que não? Em retrospectiva, fica claro que o macartismo, em sua forma original americana, já possuía uma vertente filosemita, mesmo que anterior ao foco em Auschwitz. Atrelado ao projeto da Guerra Fria de isolar a URSS em uma nova ordem capitalista mundial dominada pelos EUA, fazia parte de um esforço maior para reformular uma cultura política interna na qual as sensibilidades da Frente Popular permanecessem fortes. Uma manobra ideológica fundamental foi reformular a imagem do aliado soviético durante a guerra, agrupando o comunismo ao nazismo, como dois totalitarismos gêmeos ligados pela rejeição ateísta da civilização "judaico-cristã". Popularizada originalmente por liberais e antifascistas no período entre guerras, sobretudo para transmitir a mensagem de que os cristãos deveriam proteger os judeus dos nazistas, a noção de uma tradição judaico-cristã foi reaproveitada como arma no arsenal anticomunista durante a Guerra Fria.<sup>11</sup> Essa nova versão convidava os judeus americanos a se desvencilharem das associações com o bolchevismo e a provarem seu patriotismo juntando-se à cruzada contra os comunistas — um convite que muitos “líderes comunitários” aceitaram prontamente.<sup>12</sup> Ao mesmo tempo, a associação do macartismo com a defesa dos valores judaico-cristãos distinguia essa mais recente vertente do populismo de direita americano das versões anteriores, que eram explicitamente antissemitas e racistas.<sup>13</sup>
O próprio Trump foi notoriamente instruído nas táticas macarthistas por seu principal arquiteto, Roy Cohn, o judeu de direita que idealizou a cruzada anticomunista do senador.<sup>14</sup> Desde o início, sua guerra “anti-woke” contra as universidades — e contra os direitos civis — foi marcada por essa postura. A visão de Trump sobre a sociedade em geral — que veio diretamente do manual de McCarthy — pintava os campi universitários como incubadoras de intolerância, onde "professores marxistas" oprimiam estudantes conservadores. Em seu segundo mandato, no entanto, Trump tornou o elemento filosemita explícito, colocando-o no centro do ataque de seu governo às instituições de ensino superior americanas. Nos primeiros meses, o Escritório de Direitos Civis do Departamento de Educação abriu diversas investigações contra universidades por "tolerar o antissemitismo" e "falhar em proteger" estudantes judeus e israelenses — por exemplo, permitindo protestos nos campi contra a destruição de Gaza por Israel — bem como programas de diversidade e supostos procedimentos de admissão baseados em ações afirmativas.
Isso foi corroborado pelas ameaças de Trump de acabar ou limitar o financiamento federal, com o Departamento de Comércio e o Pentágono cortando verbas para projetos específicos e o Departamento de Justiça lançando novas investigações e processos judiciais. Entre as instituições visadas estavam Harvard, Princeton, Columbia, Brown, Cornell, Duke, Northwestern, Penn, a Universidade da Virgínia e a UCLA.
De fato, muitas dessas universidades contam com um grande número de judeus entre seus alunos, professores, ex-alunos e doadores ricos. A maioria possui grandes fundos patrimoniais privados e poderia ter recusado a chantagem, unindo-se em uma frente única e revidando. Em vez disso, quase todas cederam, assinaram acordos privados com Trump e pagaram as multas arbitrárias que ele exigiu — Columbia: US$ 200 milhões, Brown: US$ 50 milhões, Cornell: US$ 60 milhões, Northwestern: US$ 75 milhões.<sup>15</sup> Com isso, seguiram um caminho trilhado por escritórios de advocacia corporativos, grandes museus e centros culturais, muitos dos quais também cederam às exigências de Trump. A exceção parcial foi Harvard, que lutou com sucesso nos tribunais contra algumas dessas acusações, enquanto também tentava negociar um acordo; em fevereiro de 2026, Trump aumentou unilateralmente a multa de Harvard por "antissemitismo" de US$ 200 milhões para um bilhão de dólares.<sup>16</sup>
A campanha contra o "antissemitismo" nos campi universitários coincidiu com o ataque do governo aos imigrantes. À medida que as universidades eram retratadas como focos de sentimento antijudaico e judeus e israelenses eram pintados como vítimas, palestinos e seus apoiadores eram vistos como perseguidores, substituindo os demonizados "vermelhos" da década de 1950, e alvos de deportação. Idealizada por Stephen Miller e executada pela mesma "liderança" do ICE que mais tarde defendeu os assassinatos de dois manifestantes em Minneapolis, a tática agora abrangia sequestros de estudantes estrangeiros de pele escura por policiais de imigração mascarados, bem como a chantagem financeira de instituições de ensino. Nessa versão filosemita, o virulento antiesquerdismo do macartismo original fundiu-se com o racismo declarado.
Os efeitos nos EUA foram significativos. O equilíbrio percebido entre força e consentimento, que Gramsci considerava a marca da hegemonia burguesa-democrática, foi inclinado em favor do "líder", que descaradamente despreza o consentimento e brande a ameaça da força — coerção financeira, processo judicial, detenção, deportação — respaldada pela própria força. A relativa autonomia da sociedade civil foi diminuída; centros de formação de opinião que antes se consideravam independentes do Estado agora demonstram sua subserviência a ele. Se perguntarmos o que possibilitou essa mudança crucial, fica claro que o aríete mais potente no arsenal trumpista foi a acusação de "antissemitismo".¹⁷ Além disso, hoje, o macartismo filosemita nos EUA é abertamente islamofóbico. Desde o início, a noção de “civilização judaico-cristã” excluiu os muçulmanos, mesmo admitindo os judeus como parceiros minoritários; mas o islamismo conservador havia sido um parceiro potencial contra “a ameaça vermelha”. Com o desaparecimento desta última, o islamismo poderia ser considerado a principal ameaça aos valores ocidentais, agora redefinidos pelo apelo a “Auschwitz”. Nesta versão do macartismo, a designação é mais elástica do que nunca, englobando palestinos, muçulmanos, árabes, persas e migrantes de pele escura de todas as origens para atacar o bode expiatório do momento. À medida que uma comunidade demonizada é associada a outra, os nacionalistas palestinos seculares são agrupados com “terroristas do Hamas” e mulás iranianos — todos supostamente movidos por um antissemitismo que leva inexoravelmente a um segundo Auschwitz. Mas, em sua segunda aparição, esse apelo para defender a “civilização judaico-cristã” cheira a farsa, exemplificado pela belicosidade caricatural do vídeo postado pelo “Secretário de Guerra” de Trump, que misturava o áudio de Hegseth entoando a Oração do Senhor com um vídeo de “mísseis sendo disparados, navios de guerra navegando e paraquedistas caindo do céu”.18 De maneira semelhante, Trump rejeitou os nomes propostos pelo Pentágono para o ataque dos EUA ao Irã por considerá-los excessivamente insossos e o “batizou”, ao estilo da Marvel Comics, de “Fúria Épica”. Aqui também, no nível geopolítico, os esforços para (re)estabelecer a hegemonia dos EUA em bases morais degeneram na afirmação bruta da força acompanhada de bravatas pueris.
3
If these are some of the ways in which the ‘world event’ of Gaza has reverberated in Germany and in the us, it has also constituted an epochal identity crisis for 21st-century Jews. In the process, it has reopened longstanding faultlines inherent in the Jewish tradition. Unlike other monotheisms, Judaism rests on the idea of a single deity that is at once the god of everyone and the lord of a ‘chosen people’—hence, at once universal and tribal. Those who identify as Jews have always had to struggle with that ambiguity. But ‘Gaza as a world event’ poses the problem anew in the sharpest form. The burning question for Jews in the diaspora is how to relate to Israel—an issue deeply dividing the community. On one side stand the growing numbers who, recoiling from state-sponsored genocide, are turning anti-Zionist and joining groups like Jewish Voice for Peace and Not in Our Name, which use their very Jewishness as a platform for opposing ‘the Jewish state’. In doing so, they invoke the notion of ‘another Judaism’, but what that means exactly is not clear. Is anti-Zionism itself such an identity? Or do they intend some more concrete sense of ‘Jewishness’—religious, cultural, political?
The history of Judaism offers an array of non- and anti-Zionist models of Jewish identity. A small sample would include the Orthodox currents that opposed Zionist state-founding from the start, as a form of ‘idolatry’ that preempted the Messiah; the Reform currents for whom Jews are not an ethnonational ‘people’ but a faith-based community; the Palestinian and Arab Jews in the pre-1948 ‘Yishuv’ who joined with Muslims and Christians to oppose Zionist settlement; the mass movement of Bundists in Poland and Russia who rejected Zionism as defeatist and bourgeois in favour of Jewish cultural autonomy within a multicultural workers’ state, as well as non-Bundist Eastern European Jews who insisted that they already had a nation in the Pale and a national language in Yiddish; the Middle-Eastern and North-African Jews who saw Zionism as an extension of European colonialism and elaborated Arab-Jewish identities; the us readers of the Jewish Daily Forward, who, like the Bundists, saw no contradiction between struggling to build socialism in situ and being Jewish; or the ‘cultural Zionists’ like Buber, who opposed the founding of the ethnonational settler-colonialist state. All these traditions are being reconsidered today by those seeking a specifically Jewish identity delinked from Israel.footnote19
Another, more austere path seeks a ‘Jewishness’ that is not rooted in group specificity. Akin to what Deutscher called ‘the non-Jewish Jew’, this position is universalist all the way down.footnote20 Although originating from Jewish experience, its essential character transcends that starting point. Like Diotima’s lover of beauty in Plato’s Symposium, this Jew sheds the particularity from which she began as she attains its ‘purified concept’ at journey’s end. Outward looking as opposed to self-preocccupied, she is solidaristic and open to others. This perspective appeals, especially, to assimilated Jews like myself. But Deutscher’s term nevertheless poses a problem. What in the end distinguishes the ‘non-Jewish Jew’ from the left-wing ‘non-Jew’ whose ethical universalism she shares? Is her understanding that she is the product of a complex and internally divided tradition sufficient to sustain a distinctive Jewish identity? Or is Deutscher’s formulation a waystation on the route to dissolving Jewish identity altogether—and would that be such a terrible thing? The choices here remain to be worked through. But the bottom line for virtually all anti-Zionist Jews in relation to the Auschwitz-centred moral order is clear. Far from interpreting the Nazi Judeocide as a unique, incomparable event, we situate it within the long and terrible list of historical genocides, including the one presently being perpetrated by Israel. For this sort of Jew, ‘never again’ is interpreted literally, categorically and universalistically: never again, by anyone, to anyone. Period.
Zionist Jews in the diaspora face an identity crisis, too, but they believe they can resolve it by doubling down on ‘Auschwitz’ and Israel. In the us, they are allied with right-wing Christian nationalists who have their own view of what it means to be a chosen people. For many of the latter, to ‘Make America Great Again’ means to rebrand the country as a white Christian nation and defeat those who aim to ‘replace’ them: hence, to stop the ‘invasion’ of immigrants and deport as many as possible. For the moment, at least, some Christian nationalists are willing to include Zionist Jews in their ‘Judeo-Christian’ coalition and to accept them as ‘white’. But their theology suggests another, less hospitable scenario. For them, Israel is the land where all Jews must be gathered in order for Christ to return and establish His Kingdom on Earth; whoever among them refuses to convert faces eternal torment in Hell, even as Christians are raptured to Heaven. Thus, this form of philosemitism barely conceals its underlying antisemitism. Far from accepting Zionist Jews as genuine fellows, it converges in the end with the open antisemitism of those who marched at Charlottesville in August 2017, chanting ‘Jews will not replace us’ and the Young Republican chapters sharing ‘jokes’ about gas chambers and praise for Hitler in their group chats. (The new right, it should be noted, is the one segment of us society where antisemitism really is rising.)
Israeli Jews also face an identity crisis, whether they know it or not: how to reconcile their support for genocide in Gaza, or at least acquiescence to it, with a Holocaust-centred identity based upon the ethical imperative ‘never again’—the core of ‘Holocaust education’, as inculcated in every school and museum in the country. So far, the contradiction between the universal prohibition on genocide and Israeli state perpetration of it has been managed by means of a temporally inflected bit of modal illogic—because we were victims in the past, we cannot be perpetrators now—backed up by a tougher form of nationalist militarism: we learned the hard way the cost of not fighting back; so now, we strike preemptively, ridding ‘our land’ of Palestinians, wiping them out before they wipe us out. Benjamin Netanyahu has expressed this idea with respect to Iran: while Jews were ‘hunted and slaughtered’ in the Nazi era, today ‘we are the ones hunting our enemies’. He added that had Israel not struck Iran, ‘the names Isfahan, Natanz, Fordow and Bushehr’—bombed Iranian nuclear sites—‘would be remembered like Auschwitz, Majdanek and Sobibor’.footnote21 For many Israelis, ‘never again’ now means something new: never again against us.
Here the Jew as victim morphs into the ‘tough Jew’ who refuses to be led passively to the gas chamber; who fights with every conceivable weapon and wins at any cost.footnote22 That idea—once we were victims, now we are warriors—was given material form in the layout of the Yad Vashem World Holocaust Remembrance Center in Jerusalem, which leads visitors from the experience of the allegedly craven, victimized Jews of Eastern Europe to the tough Sabras who reappropriated the ancient homeland, founded the modern Israeli state and built its killing machine.footnote23 This ‘tough Jew’ appeared to me in that message from Israel on my blacklisting by Cologne: ‘Even the descendants of Nazis can’t stand you, Kapo bitch.’ The writer of those ten words constructs Jewish critics of Israel as Kapos, miscast as uncoerced collaborators who merit the shared contempt of ‘real Jews’ and ‘Nazi descendants’. Likewise, the writer turns Palestinian victims into Nazi perpetrators and Israeli perpetrators first into victims and then into warriors. Repurposing the German playbook to raise Israeli self-esteem, he purveys a false narrative about the past in order to conceal a real ongoing genocide in the present. Finally, he tops off the whole construction with tough-guy misogyny.
What follows for Jewish identity within Israel? Is doubling down on tough-guy tribalism now the only available strategy? Can a post-Netanyahu ‘liberal-universalist’ Zionism have any credibility now, to paraphrase Adorno, ‘after Gaza’?footnote24 Or must Israel cease to exist as a ‘Jewish state’ in order for Jews who are now its citizens to retain a sense of Jewishness they can live with? What’s clear is that Israel’s ruling order has created new difficulties for them. First, the relation to the diaspora is largely broken. Israeli Jews are now cut off from a large part of ‘global Jewry’, much of which is now turning anti-Zionist.footnote25 Equally in question is the relation of Israeli Jews to future generations, including their own children, whom they have burdened with monstrous guilt. What will they say when their grandchildren demand they explain this genocide—not the one the Jews suffered in the 20th century, but the one they perpetrated in the 21st? Israel is now a pariah, reviled across much of the world, and will likely remain one for a long time to come. For Israeli Jews, too, Gaza represents an epochal turning point.
4
Tracing the meanings of Gaza as a world event across these intersecting contexts—Germany, the us and world Jewry—reveals that, in each case, accusations of antisemitism are entangled with victim-perpetrator reversals and false reckonings with the past, engineered to obfuscate truth and evade responsibility. In every case, too, ‘Gaza’ appears as the sign of a rupture in the West’s moral order—bidding to replace ‘Auschwitz’ as the new emblem of human atrocity. The list could be extended to the uk, where Keir Starmer, with establishment backing, has imposed a punitive version of philosemitic McCarthyism on the Labour Party, expelling his left-wing predecessor as Labour leader, Jeremy Corbyn, and criminalizing support for the solidarity group, Palestine Action. In France, comparable establishment tactics against Jean-Luc Mélenchon and La France Insoumise have (so far) proved less successful.
But we should also consider the meaning of Gaza for those world regions that always lay beyond the West’s Auschwitz-centred moral order, as it was constructed in the post-war years—those who justifiably saw the Nazi genocide as a European problem, while they had their own atrocities to deal with, whether as victims, as perpetrators, or as both. One complex case is that of Japan. I know far too little about the country to offer any definitive statements, but I do have questions. I was struck in Kyoto by the extent of Palestinian solidarity I encountered and by the apparent absence of philosemitic McCarthyism, despite nearly universal pro-Americanism. Certainly, the relative absence of Jews is part of the story. But I was curious about what else might be at work, including Japan’s own psychodynamics of victimhood and reckoning (or not) with its past. There were the crimes committed by Imperial Japan in its conquests of Taiwan, Korea, Manchuria and a great swathe of China, to be sure, where the matter of apologies—proffered or withheld, accepted or spurned—still looms large. But there was also the question of Japan’s relation to the country that dropped two atom bombs on it, killing an estimated quarter of a million people—not in order to win the hot War, which had already been won, but to steal a march in the Cold one, which was just beginning—and which then rebuilt it as its East Asian (anti-Chinese) proxy, while relying on its Middle East proxy to assure its supply of oil. How does pro-Palestinianism square with pro-Americanism in this context?
5
Como já sugeri aqui, "Gaza" sinaliza muitas coisas, mas principalmente a crise da ordem moral do Ocidente. Se agora busca substituir "Auschwitz" como o símbolo dominante da atrocidade humana, será que "Gaza" também contém o princípio da esperança — da solidariedade e da justiça social, da autodeterminação e da reconstrução, da reparação e do cuidado com o planeta?
1 Francesca Albanese, ‘Genocide as Colonial Erasure: Report of the Special Rapporteur on the Situation of Human Rights in the Palestinian Territories Occupied Since 1967’, presented to the un General Assembly on 1 October 2024; Kaouther Ben Hania, The Voice of Hind Rajab, 2025; Refaat Alareer, If I Must Die: Poetry and Prose, New York 2025; Rashid Khalidi, ‘“A New Abyss”: Gaza and the Hundred Years’ War on Palestine’, Guardian, 11 April 2024; Rabea Eghbariah, ‘Toward Nakba as a Legal Concept’, Columbia Law Review, vol. 124, no. 4, May 2024.
2 The locus classicus is Peter Novick, The Holocaust in American Life, New York 1999.
3 ‘Open Letter’, 1 November 2023, on the Philosophy for Palestine website. See also ‘Withdrawal of the Albertus Magnus Professorship 2024: Statement’, University of Cologne, 8 April 2024.
4 Albanese, ‘Genocide as Colonial Erasure’.
5 Susan Neiman, ‘Historical Reckoning Gone Haywire’, nyrb, 19 October 2023.
6 Enough of a consensus to provoke a reaction by conservative historians, led by Ernst Nolte, rejecting the notion that the Nazi extermination programme could not be compared to other genocides. The Historikerstreit led in turn to a hardening of the consensus that the Judeocide was indeed incomparable, a position championed by Jürgen Habermas. Neiman examined this in Learning from the Germans: Confronting Race and the Memory of Evil, New York 2019.
7 Neiman, ‘Historical Reckoning Gone Haywire’.
8 Nicole Deitelhoff, Rainer Forst, Klaus Günther and Jürgen Habermas, ‘Principles of Solidarity. A Statement’, 13 November 2023; available on the website of the Normative Orders Research Centre at the Goethe-Universität Frankfurt. Though Habermas and his colleagues had issued their statement in the name of ‘solidarity’, he declined several months later to sign an open letter protesting against my blacklisting by the University of Cologne. Solidarity with whom and on what basis? Having learned a great deal from Habermas in the past, it pains me to write this about him. For further reflections, see ‘After Habermas’, lrb Blog, 25 March 2026.
9 These points were made in the rebuttal of the ‘Principles of Solidarity’ statement, published in the Guardian a week later. See Adam Tooze, Samuel Moyn, Amia Srinivasan, Nancy Fraser et al., ‘The Principle of Human Dignity Must Apply to All Peoples’, Guardian, 22 November 2023.
10 For example, over 130 German and international scholars signed a statement of solidarity protesting the University of Cologne’s action. See ‘Statement on the Withdrawal of Nancy Fraser’s Appointment to the Albertus Magnus Professorship at the University of Cologne’, 5 April 2024, available on the Critical Theory in Berlin website. See also Hanno Hauenstein, ‘Nancy Fraser über Ausladung von Uni Köln’, Frankfurter Rundschau, 11 April 2024; Elisabeth von Thadden, ‘Ich bin kein Staat! Ich bin ein freier Mensch!’, Die Zeit, 9 April 2024.
11 K. Healan Gaston, Imagining Judeo-Christian America: Religion, Secularism and the Redefinition of Democracy, Chicago 2019.
12 It was a Jewish-American judge, Irving R. Kaufman, who sentenced Ethel and Julius Rosenberg to death by electrocution.
13 Thanks to Eli Zaretsky for suggesting this point.
14 Ali Abbasi’s 2024 film The Apprentice is an evocative dramatization of the Cohn-Trump relationship.
15 Alan Blinder, ‘How Universities Are Responding to Trump’, nyt, 5 February 2026; Alan Blinder and Michael Bender, ‘The Billionaire Behind Trump’s Deal for Universities’, nyt, 3 October 2025. Two Ivy League universities spared were Dartmouth College and Yale, which had responded by pre-emptively cracking down on pro-Palestine students: Asher Boiskin and Isobel McClure, ‘Yale Spared for Now from Trump’s Punitive Ivy Funding Cuts’, Yale Daily News, 17 May 2025; ‘How One Ivy League University Avoided the President’s Wrath’, Economist, 1 May 2025.
16 Michael Bender and Alan Binder, ‘Trump Administration Targets Harvard with Two New Investigations’, nyt, 23 March 2026.
17 Like Germany’s antisemitism commissars, Trump presumes to pronounce on who is and who is not a real Jew. Trump hasn’t hesitated to decree which Jews are ‘stupid’—namely, those who voted for Zohran Mamdani in New York’s 2025 mayoral election. The latter’s victory tellingly exposed the popular limits of philosemitic McCarthyism in a city that is a mecca for immigrants as well as a home to around a million Jews, the largest such community outside Israel. Very few batted an eye, moreover, when the new mayor was sworn in on a Qur’an.
18 Greg Jaffe and Elizabeth Dias, ‘Hegseth Invokes Divine Purpose to Justify Military Might’, nyt, 20 March 2026.
19 Thanks to Ashley Bohrer for insisting on this point. For a survey of models, see Ben Lorber, ‘Jewish Alternatives to Zionism: A Partial History’, Jewish Voice for Peace, 12 January 2019. For a new history of the Jewish Labour Bund, see Molly Crabapple, Here Where We Live Is Our Country: The Story of the Jewish Bund, London 2026, and Sam Adler-Bell’s review ‘“For Leftist Jews, the Bund Is a Model”: The Radical History behind one of Europe’s Biggest Socialist Movements’, Guardian, 7 April 2026. For a thoughtful account of dilemmas built into any effort to answer the ‘Jewish Question’, see Joseph Dana, ‘The Long Shadow of the “Jewish Question”’, The Nation, 16 February 2026.
20 Isaac Deutscher, ‘The Non-Jewish Jew’ (1958), in The Non-Jewish Jew and Other Essays, London and New York 2017.
21 Quoted in David Halbfinger, ‘Israelis Don’t Feel Much Like Victors in War with Iran’, nyt, 13 April 2026.
22 Paul Breines, Tough Jews: Political Fantasies and the Moral Dilemma of American Jewry, New York 1990.
23 On the layout of Yad Vashem, see Idith Zertal, ‘The Bearers and the Burdens: Holocaust Survivors in Zionist Discourse’, Constellations, vol. 5, no. 2, 1998. For the view that the working-class Jews of the East went quiescently to their deaths in the camps, see Hannah Arendt, Eichmann in Jerusalem, London 1963. For a spirited rebuttal, arguing that this population on average had stronger left-wing militant ties and were more inclined to resist than the ‘respectable’ German Jews with whom Arendt identified, see Gertrude Ezorsky, ‘Hannah Arendt against the Facts’, New Politics, vol. 2, no. 4, 1963.
24 ‘To write poetry after Auschwitz is barbaric’. Theodor Adorno, ‘Cultural Criticism and Society’ (1949), in Prisms, trans. Samuel and Sherry Weber, Cambridge ma 1981, p. 34.
25 In October 2025, a Washington Post poll of American Jews found that 61 per cent thought Israel had been committing war crimes in Gaza, while 39 per cent thought it had been committing genocide.
The history of Judaism offers an array of non- and anti-Zionist models of Jewish identity. A small sample would include the Orthodox currents that opposed Zionist state-founding from the start, as a form of ‘idolatry’ that preempted the Messiah; the Reform currents for whom Jews are not an ethnonational ‘people’ but a faith-based community; the Palestinian and Arab Jews in the pre-1948 ‘Yishuv’ who joined with Muslims and Christians to oppose Zionist settlement; the mass movement of Bundists in Poland and Russia who rejected Zionism as defeatist and bourgeois in favour of Jewish cultural autonomy within a multicultural workers’ state, as well as non-Bundist Eastern European Jews who insisted that they already had a nation in the Pale and a national language in Yiddish; the Middle-Eastern and North-African Jews who saw Zionism as an extension of European colonialism and elaborated Arab-Jewish identities; the us readers of the Jewish Daily Forward, who, like the Bundists, saw no contradiction between struggling to build socialism in situ and being Jewish; or the ‘cultural Zionists’ like Buber, who opposed the founding of the ethnonational settler-colonialist state. All these traditions are being reconsidered today by those seeking a specifically Jewish identity delinked from Israel.footnote19
Another, more austere path seeks a ‘Jewishness’ that is not rooted in group specificity. Akin to what Deutscher called ‘the non-Jewish Jew’, this position is universalist all the way down.footnote20 Although originating from Jewish experience, its essential character transcends that starting point. Like Diotima’s lover of beauty in Plato’s Symposium, this Jew sheds the particularity from which she began as she attains its ‘purified concept’ at journey’s end. Outward looking as opposed to self-preocccupied, she is solidaristic and open to others. This perspective appeals, especially, to assimilated Jews like myself. But Deutscher’s term nevertheless poses a problem. What in the end distinguishes the ‘non-Jewish Jew’ from the left-wing ‘non-Jew’ whose ethical universalism she shares? Is her understanding that she is the product of a complex and internally divided tradition sufficient to sustain a distinctive Jewish identity? Or is Deutscher’s formulation a waystation on the route to dissolving Jewish identity altogether—and would that be such a terrible thing? The choices here remain to be worked through. But the bottom line for virtually all anti-Zionist Jews in relation to the Auschwitz-centred moral order is clear. Far from interpreting the Nazi Judeocide as a unique, incomparable event, we situate it within the long and terrible list of historical genocides, including the one presently being perpetrated by Israel. For this sort of Jew, ‘never again’ is interpreted literally, categorically and universalistically: never again, by anyone, to anyone. Period.
Zionist Jews in the diaspora face an identity crisis, too, but they believe they can resolve it by doubling down on ‘Auschwitz’ and Israel. In the us, they are allied with right-wing Christian nationalists who have their own view of what it means to be a chosen people. For many of the latter, to ‘Make America Great Again’ means to rebrand the country as a white Christian nation and defeat those who aim to ‘replace’ them: hence, to stop the ‘invasion’ of immigrants and deport as many as possible. For the moment, at least, some Christian nationalists are willing to include Zionist Jews in their ‘Judeo-Christian’ coalition and to accept them as ‘white’. But their theology suggests another, less hospitable scenario. For them, Israel is the land where all Jews must be gathered in order for Christ to return and establish His Kingdom on Earth; whoever among them refuses to convert faces eternal torment in Hell, even as Christians are raptured to Heaven. Thus, this form of philosemitism barely conceals its underlying antisemitism. Far from accepting Zionist Jews as genuine fellows, it converges in the end with the open antisemitism of those who marched at Charlottesville in August 2017, chanting ‘Jews will not replace us’ and the Young Republican chapters sharing ‘jokes’ about gas chambers and praise for Hitler in their group chats. (The new right, it should be noted, is the one segment of us society where antisemitism really is rising.)
Israeli Jews also face an identity crisis, whether they know it or not: how to reconcile their support for genocide in Gaza, or at least acquiescence to it, with a Holocaust-centred identity based upon the ethical imperative ‘never again’—the core of ‘Holocaust education’, as inculcated in every school and museum in the country. So far, the contradiction between the universal prohibition on genocide and Israeli state perpetration of it has been managed by means of a temporally inflected bit of modal illogic—because we were victims in the past, we cannot be perpetrators now—backed up by a tougher form of nationalist militarism: we learned the hard way the cost of not fighting back; so now, we strike preemptively, ridding ‘our land’ of Palestinians, wiping them out before they wipe us out. Benjamin Netanyahu has expressed this idea with respect to Iran: while Jews were ‘hunted and slaughtered’ in the Nazi era, today ‘we are the ones hunting our enemies’. He added that had Israel not struck Iran, ‘the names Isfahan, Natanz, Fordow and Bushehr’—bombed Iranian nuclear sites—‘would be remembered like Auschwitz, Majdanek and Sobibor’.footnote21 For many Israelis, ‘never again’ now means something new: never again against us.
Here the Jew as victim morphs into the ‘tough Jew’ who refuses to be led passively to the gas chamber; who fights with every conceivable weapon and wins at any cost.footnote22 That idea—once we were victims, now we are warriors—was given material form in the layout of the Yad Vashem World Holocaust Remembrance Center in Jerusalem, which leads visitors from the experience of the allegedly craven, victimized Jews of Eastern Europe to the tough Sabras who reappropriated the ancient homeland, founded the modern Israeli state and built its killing machine.footnote23 This ‘tough Jew’ appeared to me in that message from Israel on my blacklisting by Cologne: ‘Even the descendants of Nazis can’t stand you, Kapo bitch.’ The writer of those ten words constructs Jewish critics of Israel as Kapos, miscast as uncoerced collaborators who merit the shared contempt of ‘real Jews’ and ‘Nazi descendants’. Likewise, the writer turns Palestinian victims into Nazi perpetrators and Israeli perpetrators first into victims and then into warriors. Repurposing the German playbook to raise Israeli self-esteem, he purveys a false narrative about the past in order to conceal a real ongoing genocide in the present. Finally, he tops off the whole construction with tough-guy misogyny.
What follows for Jewish identity within Israel? Is doubling down on tough-guy tribalism now the only available strategy? Can a post-Netanyahu ‘liberal-universalist’ Zionism have any credibility now, to paraphrase Adorno, ‘after Gaza’?footnote24 Or must Israel cease to exist as a ‘Jewish state’ in order for Jews who are now its citizens to retain a sense of Jewishness they can live with? What’s clear is that Israel’s ruling order has created new difficulties for them. First, the relation to the diaspora is largely broken. Israeli Jews are now cut off from a large part of ‘global Jewry’, much of which is now turning anti-Zionist.footnote25 Equally in question is the relation of Israeli Jews to future generations, including their own children, whom they have burdened with monstrous guilt. What will they say when their grandchildren demand they explain this genocide—not the one the Jews suffered in the 20th century, but the one they perpetrated in the 21st? Israel is now a pariah, reviled across much of the world, and will likely remain one for a long time to come. For Israeli Jews, too, Gaza represents an epochal turning point.
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Tracing the meanings of Gaza as a world event across these intersecting contexts—Germany, the us and world Jewry—reveals that, in each case, accusations of antisemitism are entangled with victim-perpetrator reversals and false reckonings with the past, engineered to obfuscate truth and evade responsibility. In every case, too, ‘Gaza’ appears as the sign of a rupture in the West’s moral order—bidding to replace ‘Auschwitz’ as the new emblem of human atrocity. The list could be extended to the uk, where Keir Starmer, with establishment backing, has imposed a punitive version of philosemitic McCarthyism on the Labour Party, expelling his left-wing predecessor as Labour leader, Jeremy Corbyn, and criminalizing support for the solidarity group, Palestine Action. In France, comparable establishment tactics against Jean-Luc Mélenchon and La France Insoumise have (so far) proved less successful.
But we should also consider the meaning of Gaza for those world regions that always lay beyond the West’s Auschwitz-centred moral order, as it was constructed in the post-war years—those who justifiably saw the Nazi genocide as a European problem, while they had their own atrocities to deal with, whether as victims, as perpetrators, or as both. One complex case is that of Japan. I know far too little about the country to offer any definitive statements, but I do have questions. I was struck in Kyoto by the extent of Palestinian solidarity I encountered and by the apparent absence of philosemitic McCarthyism, despite nearly universal pro-Americanism. Certainly, the relative absence of Jews is part of the story. But I was curious about what else might be at work, including Japan’s own psychodynamics of victimhood and reckoning (or not) with its past. There were the crimes committed by Imperial Japan in its conquests of Taiwan, Korea, Manchuria and a great swathe of China, to be sure, where the matter of apologies—proffered or withheld, accepted or spurned—still looms large. But there was also the question of Japan’s relation to the country that dropped two atom bombs on it, killing an estimated quarter of a million people—not in order to win the hot War, which had already been won, but to steal a march in the Cold one, which was just beginning—and which then rebuilt it as its East Asian (anti-Chinese) proxy, while relying on its Middle East proxy to assure its supply of oil. How does pro-Palestinianism square with pro-Americanism in this context?
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A Palestina continua sendo, obviamente, o epicentro de Gaza como evento mundial. Os palestinos são, ao mesmo tempo, seus sujeitos — dramaticamente mais audíveis e visíveis agora, no cenário mundial — e seus objetos, como alvos israelenses; pois o próprio fato de a crescente atenção global à situação dos palestinos impulsiona os sionistas a novos patamares de repressão alimentada pela raiva. O resultado, enquanto alguns trabalham para silenciar as vozes palestinas, outros lutam para amplificá-las, é uma guerra de palavras, bem como de armas; não sobre se os subalternos podem falar — os palestinos sempre falaram — mas sobre se, e quão amplamente, eles podem ser ouvidos.
Para os palestinos, "Gaza" possui múltiplos significados contraditórios: danos materiais massivos somados à renovada visibilidade pública, repressão intensificada somada ao aumento do apoio, desespero somado à esperança. Essa é a mensagem transmitida em múltiplos registros diferentes pela profusão de trabalhos recentes, incluindo obras de ficção narrativa aclamadas como Earth and Heaven (2014), de Sahar Khalifeh, A Mask the Colour of the Sky (2023), de Basem Khandaqji, Enter Ghost (2024), de Isabella Hammad, The Arsonists’ City (2021), de Hala Alyan, e The Third Bank of the Jordan River (2026), de Hussein Barghouthi. A questão em aberto é se essa mistura desconcertante de perda material e ganho moral pode ser transformada em uma eventual vitória política.
Como já sugeri aqui, "Gaza" sinaliza muitas coisas, mas principalmente a crise da ordem moral do Ocidente. Se agora busca substituir "Auschwitz" como o símbolo dominante da atrocidade humana, será que "Gaza" também contém o princípio da esperança — da solidariedade e da justiça social, da autodeterminação e da reconstrução, da reparação e do cuidado com o planeta?
1 Francesca Albanese, ‘Genocide as Colonial Erasure: Report of the Special Rapporteur on the Situation of Human Rights in the Palestinian Territories Occupied Since 1967’, presented to the un General Assembly on 1 October 2024; Kaouther Ben Hania, The Voice of Hind Rajab, 2025; Refaat Alareer, If I Must Die: Poetry and Prose, New York 2025; Rashid Khalidi, ‘“A New Abyss”: Gaza and the Hundred Years’ War on Palestine’, Guardian, 11 April 2024; Rabea Eghbariah, ‘Toward Nakba as a Legal Concept’, Columbia Law Review, vol. 124, no. 4, May 2024.
2 The locus classicus is Peter Novick, The Holocaust in American Life, New York 1999.
3 ‘Open Letter’, 1 November 2023, on the Philosophy for Palestine website. See also ‘Withdrawal of the Albertus Magnus Professorship 2024: Statement’, University of Cologne, 8 April 2024.
4 Albanese, ‘Genocide as Colonial Erasure’.
5 Susan Neiman, ‘Historical Reckoning Gone Haywire’, nyrb, 19 October 2023.
6 Enough of a consensus to provoke a reaction by conservative historians, led by Ernst Nolte, rejecting the notion that the Nazi extermination programme could not be compared to other genocides. The Historikerstreit led in turn to a hardening of the consensus that the Judeocide was indeed incomparable, a position championed by Jürgen Habermas. Neiman examined this in Learning from the Germans: Confronting Race and the Memory of Evil, New York 2019.
7 Neiman, ‘Historical Reckoning Gone Haywire’.
8 Nicole Deitelhoff, Rainer Forst, Klaus Günther and Jürgen Habermas, ‘Principles of Solidarity. A Statement’, 13 November 2023; available on the website of the Normative Orders Research Centre at the Goethe-Universität Frankfurt. Though Habermas and his colleagues had issued their statement in the name of ‘solidarity’, he declined several months later to sign an open letter protesting against my blacklisting by the University of Cologne. Solidarity with whom and on what basis? Having learned a great deal from Habermas in the past, it pains me to write this about him. For further reflections, see ‘After Habermas’, lrb Blog, 25 March 2026.
9 These points were made in the rebuttal of the ‘Principles of Solidarity’ statement, published in the Guardian a week later. See Adam Tooze, Samuel Moyn, Amia Srinivasan, Nancy Fraser et al., ‘The Principle of Human Dignity Must Apply to All Peoples’, Guardian, 22 November 2023.
10 For example, over 130 German and international scholars signed a statement of solidarity protesting the University of Cologne’s action. See ‘Statement on the Withdrawal of Nancy Fraser’s Appointment to the Albertus Magnus Professorship at the University of Cologne’, 5 April 2024, available on the Critical Theory in Berlin website. See also Hanno Hauenstein, ‘Nancy Fraser über Ausladung von Uni Köln’, Frankfurter Rundschau, 11 April 2024; Elisabeth von Thadden, ‘Ich bin kein Staat! Ich bin ein freier Mensch!’, Die Zeit, 9 April 2024.
11 K. Healan Gaston, Imagining Judeo-Christian America: Religion, Secularism and the Redefinition of Democracy, Chicago 2019.
12 It was a Jewish-American judge, Irving R. Kaufman, who sentenced Ethel and Julius Rosenberg to death by electrocution.
13 Thanks to Eli Zaretsky for suggesting this point.
14 Ali Abbasi’s 2024 film The Apprentice is an evocative dramatization of the Cohn-Trump relationship.
15 Alan Blinder, ‘How Universities Are Responding to Trump’, nyt, 5 February 2026; Alan Blinder and Michael Bender, ‘The Billionaire Behind Trump’s Deal for Universities’, nyt, 3 October 2025. Two Ivy League universities spared were Dartmouth College and Yale, which had responded by pre-emptively cracking down on pro-Palestine students: Asher Boiskin and Isobel McClure, ‘Yale Spared for Now from Trump’s Punitive Ivy Funding Cuts’, Yale Daily News, 17 May 2025; ‘How One Ivy League University Avoided the President’s Wrath’, Economist, 1 May 2025.
16 Michael Bender and Alan Binder, ‘Trump Administration Targets Harvard with Two New Investigations’, nyt, 23 March 2026.
17 Like Germany’s antisemitism commissars, Trump presumes to pronounce on who is and who is not a real Jew. Trump hasn’t hesitated to decree which Jews are ‘stupid’—namely, those who voted for Zohran Mamdani in New York’s 2025 mayoral election. The latter’s victory tellingly exposed the popular limits of philosemitic McCarthyism in a city that is a mecca for immigrants as well as a home to around a million Jews, the largest such community outside Israel. Very few batted an eye, moreover, when the new mayor was sworn in on a Qur’an.
18 Greg Jaffe and Elizabeth Dias, ‘Hegseth Invokes Divine Purpose to Justify Military Might’, nyt, 20 March 2026.
19 Thanks to Ashley Bohrer for insisting on this point. For a survey of models, see Ben Lorber, ‘Jewish Alternatives to Zionism: A Partial History’, Jewish Voice for Peace, 12 January 2019. For a new history of the Jewish Labour Bund, see Molly Crabapple, Here Where We Live Is Our Country: The Story of the Jewish Bund, London 2026, and Sam Adler-Bell’s review ‘“For Leftist Jews, the Bund Is a Model”: The Radical History behind one of Europe’s Biggest Socialist Movements’, Guardian, 7 April 2026. For a thoughtful account of dilemmas built into any effort to answer the ‘Jewish Question’, see Joseph Dana, ‘The Long Shadow of the “Jewish Question”’, The Nation, 16 February 2026.
20 Isaac Deutscher, ‘The Non-Jewish Jew’ (1958), in The Non-Jewish Jew and Other Essays, London and New York 2017.
21 Quoted in David Halbfinger, ‘Israelis Don’t Feel Much Like Victors in War with Iran’, nyt, 13 April 2026.
22 Paul Breines, Tough Jews: Political Fantasies and the Moral Dilemma of American Jewry, New York 1990.
23 On the layout of Yad Vashem, see Idith Zertal, ‘The Bearers and the Burdens: Holocaust Survivors in Zionist Discourse’, Constellations, vol. 5, no. 2, 1998. For the view that the working-class Jews of the East went quiescently to their deaths in the camps, see Hannah Arendt, Eichmann in Jerusalem, London 1963. For a spirited rebuttal, arguing that this population on average had stronger left-wing militant ties and were more inclined to resist than the ‘respectable’ German Jews with whom Arendt identified, see Gertrude Ezorsky, ‘Hannah Arendt against the Facts’, New Politics, vol. 2, no. 4, 1963.
24 ‘To write poetry after Auschwitz is barbaric’. Theodor Adorno, ‘Cultural Criticism and Society’ (1949), in Prisms, trans. Samuel and Sherry Weber, Cambridge ma 1981, p. 34.
25 In October 2025, a Washington Post poll of American Jews found that 61 per cent thought Israel had been committing war crimes in Gaza, while 39 per cent thought it had been committing genocide.



