UMA ENTREVISTA COM
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| Still de Palestine 36. (Watermelon Pictures) |
UMA ENTREVISTA DE
Ed Rampell
A escritora e diretora Annemarie Jacir, nascida em Belém, está na vanguarda de uma nova geração de cineastas da Palestina que conquistam o público ocidental e além com filmes inegavelmente impactantes. Seu filme de 2008, O sal desse mar, recebeu duas indicações no Festival de Cannes, enquanto seu drama sobre refugiados palestinos de 2012, Quando vi você, co-estrelado por Saleh Bakri, ganhou um prêmio no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Agora, seu mais recente longa-metragem, Palestina 36 — que também conta com Bakri e o vencedor do Oscar Jeremy Irons no elenco — está recebendo o lançamento nacional que a obra-prima de Jacir merece.
Como o título sugere, Palestina 36 — que foi a escolha oficial da Palestina para Melhor Filme Internacional no Oscar e vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Tóquio — ficcionaliza um período crucial na luta pela libertação da Palestina. De acordo com o livro The hundred years’ war on Palestine [A guerra centenária contra a Palestina], de Rashid Khalidi , em 1939, o exército britânico enviou “cem mil soldados para a Palestina, um para cada quatro homens palestinos adultos. [...] Foi preciso toda a força do Império Britânico, que só pôde ser liberada quando mais tropas ficaram disponíveis após o Acordo de Munique em 1938 [...] para extinguir a revolta palestina.”
Em uma franca conversa, Jacir expõe o contexto histórico e a estrutura dentro dos quais dramatiza a revolta popular que começou quando Yasser Arafat tinha apenas sete anos — uma revolta que abalou o exército mais poderoso da Europa. Jacir foi entrevistada para a revista Jacobin pelo historiador e crítico de cinema Ed Rampell.
ED RAMPELL
Conte-nos sobre sua trajetória pessoal e como você entrou para o mundo do cinema?
ANNEMARIE JACIR
Meus pais são palestinos de Belém. Meu pai está completando noventa anos; ele nasceu em 1936, o primeiro ano da revolta. Minha mãe nasceu no último ano da revolta, em 1939.
ED RAMPELL
Sua família é cristã?
ANNEMARIE JACIR
Eu sou atéia.
ED RAMPELL
Mas você nasceu em uma família cristã?
ANNEMARIE JACIR
Sim. Depois da ocupação da Palestina, a Cisjordânia foi ocupada em 1967, ficaram lá por alguns anos, e então decidiram procurar trabalho no exterior, pois não queriam criar uma família sob ocupação. Eu cresci na Arábia Saudita e vivi lá durante os primeiros dezesseis anos da minha vida. Depois disso, vim para os Estados Unidos e fiz minha graduação em Ciências Políticas e Literatura no Claremont Colleges, na Califórnia, em Pitzer.
Me formei em Pitzer com dupla graduação. No último ano, me interessei por cinema e pensei em mudar de curso. Mas meu pai disse: “Você acabou de fazer dupla graduação. Saia da faculdade e pronto.” Então, me mudei para Los Angeles, onde morei por alguns anos tentando aprender a fazer filmes. Eu entrava em contato com todo mundo procurando emprego como assistente de produção, ou qualquer outra coisa. Foram anos muito difíceis e descobri que Los Angeles não era bem a minha cidade. Eu não tinha contatos, não conseguia entrar na indústria cinematográfica, então acabei em trabalhos ruins que não me ensinavam nada sobre cinema.
Acabei numa agência literária que representava roteiristas e comecei a ler muitos roteiros. Mesmo assim, não sentia que toda a máquina de Hollywood fosse o tipo de cinema que eu queria fazer. Então, fui para a pós-graduação em Nova York, na Universidade Columbia, e estudei cinema. Depois disso, fui para a Palestina e moro lá desde então.
ED RAMPELL
O documentário Palestina 36 dramatiza brilhantemente a história, especialmente eventos que poucos ocidentais conhecem. Os estadunidenses tendem a pensar que, entre as duas guerras mundiais, a Grã-Bretanha estava em paz, até entrar em guerra com os nazistas em 1939. Seu filme mostra o contrário. Então, o que aconteceu em 1936 na Palestina?
ANNEMARIE JACIR
Em 1936, os britânicos já estavam na Palestina havia quase vinte anos. Já havia muito descontentamento. Nos primeiros anos do controle britânico [como um Mandato da Liga das Nações], provavelmente havia uma certa expectativa de que as coisas iriam melhorar. Mas não melhoraram. Era um projeto para controlar os recursos e a população.
Além disso, houve, e me surpreende como poucas pessoas sabem disso, a emigração judaica. Mas foi antes do Holocausto. Sim, porque havia antissemitismo, pogroms e fascismo, e os judeus estavam fugindo da Europa muito antes do Holocausto. Todo mundo pensa que isso acontece depois, quando a Palestina é inundada por refugiados. Os judeus estavam emigrando — claro, existe uma população judaica nativa na Palestina, embora muito pequena. A sociedade palestina é judaica, muçulmana, cristã, muito mista.
Então, você observa os números da [emigração judaica] e vê esse fluxo migratório. Todos esses fatores estavam convergindo e criando uma atmosfera tensa. Houve o início da primeira revolta em massa contra o colonialismo britânico em 1936. Ela incluiu uma greve nacional que, até então, foi a greve mais longa da história, com duração de seis meses.
A revolta teve, na verdade, duas fases. Começou em 1936, quando os britânicos perderam o controle, pois era uma revolta liderada por camponeses. Eles não conseguiram conter a situação e começaram a perder o controle. Depois, houve a Comissão Peel, que tentou encontrar uma solução diplomática. E ficou claro que não haveria resolução.
Depois, há a segunda fase da revolta, que começa após a Comissão Peel, em 1937. Foi quando os britânicos trouxeram milhares e milhares de soldados, armas, tanques e aviões — eles estavam bombardeando o interior. O objetivo era esmagar a revolta o mais rápido possível. Muitos historiadores acreditam que isso foi feito apressadamente porque a Segunda Guerra Mundial estava no horizonte, então eles precisavam esmagar essa revolta e sair dali, basicamente.
ED RAMPELL
Esse é o contexto histórico para os eventos reais que você dramatiza em Palestina 36, principalmente focando em pelo menos duas famílias palestinas. Amir e Khuloud são, respectivamente, intelectuais urbanos em Jerusalém e moradores da vila rural de Al Basma. As duas famílias estão ligadas por Yusuf. Conte-nos sobre esses personagens e o quanto eles são baseados em fatos reais.
ANNEMARIE JACIR
O coração do filme são os aldeões palestinos. Yusuf e sua família, Rabab [Yafa Bakri] e sua filha Afra [Wardi Eilabouni, com Hiam Abbass, nascida em Nazaré e indicada ao Emmy pela série Succession da HBO, interpretando a avó Hanan], e o pequeno Kareem [Ward Helou] e seu pai, o padre [Jalal Altawil interpreta o padre Boulos]. Esses são os nossos aldeões.
Na cidade estão Khuloud [Yasmine Al Massri, nascida no Líbano e co-estrela da série Quantico, da ABC-TV, sobre o FBI] e Amir [Dhafer L’Abidine, nascido na Tunísia]. E também Khalid [Saleh Bakri, colaborador frequente de Jacir e estrela de Tudo que resta de você, de Cherien Dabis], um estivador.
Ed Rampell
A escritora e diretora Annemarie Jacir, nascida em Belém, está na vanguarda de uma nova geração de cineastas da Palestina que conquistam o público ocidental e além com filmes inegavelmente impactantes. Seu filme de 2008, O sal desse mar, recebeu duas indicações no Festival de Cannes, enquanto seu drama sobre refugiados palestinos de 2012, Quando vi você, co-estrelado por Saleh Bakri, ganhou um prêmio no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Agora, seu mais recente longa-metragem, Palestina 36 — que também conta com Bakri e o vencedor do Oscar Jeremy Irons no elenco — está recebendo o lançamento nacional que a obra-prima de Jacir merece.
Como o título sugere, Palestina 36 — que foi a escolha oficial da Palestina para Melhor Filme Internacional no Oscar e vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Tóquio — ficcionaliza um período crucial na luta pela libertação da Palestina. De acordo com o livro The hundred years’ war on Palestine [A guerra centenária contra a Palestina], de Rashid Khalidi , em 1939, o exército britânico enviou “cem mil soldados para a Palestina, um para cada quatro homens palestinos adultos. [...] Foi preciso toda a força do Império Britânico, que só pôde ser liberada quando mais tropas ficaram disponíveis após o Acordo de Munique em 1938 [...] para extinguir a revolta palestina.”
Em uma franca conversa, Jacir expõe o contexto histórico e a estrutura dentro dos quais dramatiza a revolta popular que começou quando Yasser Arafat tinha apenas sete anos — uma revolta que abalou o exército mais poderoso da Europa. Jacir foi entrevistada para a revista Jacobin pelo historiador e crítico de cinema Ed Rampell.
ED RAMPELL
Conte-nos sobre sua trajetória pessoal e como você entrou para o mundo do cinema?
ANNEMARIE JACIR
Meus pais são palestinos de Belém. Meu pai está completando noventa anos; ele nasceu em 1936, o primeiro ano da revolta. Minha mãe nasceu no último ano da revolta, em 1939.
ED RAMPELL
Sua família é cristã?
ANNEMARIE JACIR
Eu sou atéia.
ED RAMPELL
Mas você nasceu em uma família cristã?
ANNEMARIE JACIR
Sim. Depois da ocupação da Palestina, a Cisjordânia foi ocupada em 1967, ficaram lá por alguns anos, e então decidiram procurar trabalho no exterior, pois não queriam criar uma família sob ocupação. Eu cresci na Arábia Saudita e vivi lá durante os primeiros dezesseis anos da minha vida. Depois disso, vim para os Estados Unidos e fiz minha graduação em Ciências Políticas e Literatura no Claremont Colleges, na Califórnia, em Pitzer.
Me formei em Pitzer com dupla graduação. No último ano, me interessei por cinema e pensei em mudar de curso. Mas meu pai disse: “Você acabou de fazer dupla graduação. Saia da faculdade e pronto.” Então, me mudei para Los Angeles, onde morei por alguns anos tentando aprender a fazer filmes. Eu entrava em contato com todo mundo procurando emprego como assistente de produção, ou qualquer outra coisa. Foram anos muito difíceis e descobri que Los Angeles não era bem a minha cidade. Eu não tinha contatos, não conseguia entrar na indústria cinematográfica, então acabei em trabalhos ruins que não me ensinavam nada sobre cinema.
Acabei numa agência literária que representava roteiristas e comecei a ler muitos roteiros. Mesmo assim, não sentia que toda a máquina de Hollywood fosse o tipo de cinema que eu queria fazer. Então, fui para a pós-graduação em Nova York, na Universidade Columbia, e estudei cinema. Depois disso, fui para a Palestina e moro lá desde então.
ED RAMPELL
O documentário Palestina 36 dramatiza brilhantemente a história, especialmente eventos que poucos ocidentais conhecem. Os estadunidenses tendem a pensar que, entre as duas guerras mundiais, a Grã-Bretanha estava em paz, até entrar em guerra com os nazistas em 1939. Seu filme mostra o contrário. Então, o que aconteceu em 1936 na Palestina?
ANNEMARIE JACIR
Em 1936, os britânicos já estavam na Palestina havia quase vinte anos. Já havia muito descontentamento. Nos primeiros anos do controle britânico [como um Mandato da Liga das Nações], provavelmente havia uma certa expectativa de que as coisas iriam melhorar. Mas não melhoraram. Era um projeto para controlar os recursos e a população.
Além disso, houve, e me surpreende como poucas pessoas sabem disso, a emigração judaica. Mas foi antes do Holocausto. Sim, porque havia antissemitismo, pogroms e fascismo, e os judeus estavam fugindo da Europa muito antes do Holocausto. Todo mundo pensa que isso acontece depois, quando a Palestina é inundada por refugiados. Os judeus estavam emigrando — claro, existe uma população judaica nativa na Palestina, embora muito pequena. A sociedade palestina é judaica, muçulmana, cristã, muito mista.
Então, você observa os números da [emigração judaica] e vê esse fluxo migratório. Todos esses fatores estavam convergindo e criando uma atmosfera tensa. Houve o início da primeira revolta em massa contra o colonialismo britânico em 1936. Ela incluiu uma greve nacional que, até então, foi a greve mais longa da história, com duração de seis meses.
A revolta teve, na verdade, duas fases. Começou em 1936, quando os britânicos perderam o controle, pois era uma revolta liderada por camponeses. Eles não conseguiram conter a situação e começaram a perder o controle. Depois, houve a Comissão Peel, que tentou encontrar uma solução diplomática. E ficou claro que não haveria resolução.
Depois, há a segunda fase da revolta, que começa após a Comissão Peel, em 1937. Foi quando os britânicos trouxeram milhares e milhares de soldados, armas, tanques e aviões — eles estavam bombardeando o interior. O objetivo era esmagar a revolta o mais rápido possível. Muitos historiadores acreditam que isso foi feito apressadamente porque a Segunda Guerra Mundial estava no horizonte, então eles precisavam esmagar essa revolta e sair dali, basicamente.
ED RAMPELL
Esse é o contexto histórico para os eventos reais que você dramatiza em Palestina 36, principalmente focando em pelo menos duas famílias palestinas. Amir e Khuloud são, respectivamente, intelectuais urbanos em Jerusalém e moradores da vila rural de Al Basma. As duas famílias estão ligadas por Yusuf. Conte-nos sobre esses personagens e o quanto eles são baseados em fatos reais.
ANNEMARIE JACIR
O coração do filme são os aldeões palestinos. Yusuf e sua família, Rabab [Yafa Bakri] e sua filha Afra [Wardi Eilabouni, com Hiam Abbass, nascida em Nazaré e indicada ao Emmy pela série Succession da HBO, interpretando a avó Hanan], e o pequeno Kareem [Ward Helou] e seu pai, o padre [Jalal Altawil interpreta o padre Boulos]. Esses são os nossos aldeões.
Na cidade estão Khuloud [Yasmine Al Massri, nascida no Líbano e co-estrela da série Quantico, da ABC-TV, sobre o FBI] e Amir [Dhafer L’Abidine, nascido na Tunísia]. E também Khalid [Saleh Bakri, colaborador frequente de Jacir e estrela de Tudo que resta de você, de Cherien Dabis], um estivador.
Tudo o que os britânicos fizeram na Palestina, os israelenses simplesmente copiaram.
Todos esses personagens estão interligados. Para mim, era importante não ter um herói — um único herói para contar essa história clássica; você acompanha essa pessoa desde o início e só existe um herói. Não há herói, são apenas pessoas comuns que estão vivendo esse momento muito intenso e tomam decisões. Todos eles tomam decisões, seja ela pequenas ou grandes, certas ou erradas. Todos eles se deparam com a história e fazem algo, tomam uma decisão sobre como seguir em frente.
Os personagens palestinos são todos fictícios e vêm de lugares diferentes. Khuloud, por exemplo, a jornalista, é uma mistura de jornalista da alta sociedade com uma socialite que vivia em Jerusalém na época e era muito conhecida por suas festas com os britânicos. A elite palestina se misturava bastante com os britânicos. E as mulheres que eram jornalistas na época e fundavam gráficas — não apenas na Palestina, mas também no Líbano e no Egito — escreviam sob pseudônimos masculinos por dois motivos. Sim, para serem levadas a sério em um mundo patriarcal, mas também porque esses lugares tinham governos coloniais e escrever sob um pseudônimo quando se fazia uma crítica era, na verdade, uma forma de proteção.
ED RAMPELL
E quando vemos Khuloud pela primeira vez, ela está vestida com roupas do sexo oposto. Por quê?
ANNEMARIE JACIR
Sim, exatamente. Por que não? [Risos]
ED RAMPELL
É surpreendente. Minha interpretação é que, como mulher em uma sociedade patriarcal, ela estava assumindo papéis masculinos que eram negados às mulheres.
ANNEMARIE JACIR
Sim. Ela está escrevendo sob um pseudônimo masculino. Ela está se divertindo com isso, pega o terno do Amir. Quem manda aqui? [Risos]
Os quatro personagens britânicos do filme são todos baseados em figuras históricas reais. Wingate [um oficial britânico e sionista cristão interpretado por Robert Aramayo] foi uma pessoa real, um homem realmente violento e desequilibrado. Acabaram de divulgar alguns documentos com novas informações sobre ele; ele era muito mais insano do que o meu filme mostra. Para mim, o cabelo comprido dele foi uma licença poética, mas não é historicamente preciso.
Ele estava sempre sujo, o uniforme dele estava sempre sujo, ele nunca tomava banho. Era conhecido por ser assim. Mais tarde, ele deixou o cabelo crescer, depois de ser dispensado do Exército Britânico, na verdade, ele foi dispensado da Palestina. Para mim, eu queria indicar que ele estava fora do sistema, fazendo as coisas do jeito dele no campo de batalha. O cabelo desgrenhado era uma forma de sinalizar isso — uma vez que não há como sentir o cheiro dele na tela.
Thomas, o secretário [do alto comissário], é baseado em uma pessoa real que realmente se demitiu e se tornou marxista. É uma história incrível. Ele foi para lá pensando que havia boas intenções, que estavam fazendo algo pela população nativa e que seria útil, mas aos poucos, em seus diários, ele percebe que é um projeto fracassado com uma agenda oculta, e que não quer fazer parte disso. Ele acaba se demitindo e se tornando um marxista e ativista anticolonial pelo resto da vida. No meu filme, ele é Hopkins [interpretado por Billy Howle], mas seu nome verdadeiro era Hodgkin.
ED RAMPELL
O vencedor do Oscar Jeremy Irons interpreta Sir Arthur Grenfell Wauchope, o alto comissário britânico para o Mandato Britânico da Palestina. Como vocês conseguiram escalar uma estrela de cinema tão renomada?
ANNEMARIE JACIR
Porque ele tem uma esposa irlandesa, e nós éramos jurados juntos no Festival de Cinema de Berlim. Irons era o presidente do júri. Então, passamos muito tempo juntos e nos tornamos amigos.
Eu estava escrevendo esse projeto na época e contei para ele um dia durante o café da manhã, e [a esposa dele] disse: “Isso é incrível! Jeremy, você precisa estar nesse filme!” Ele perguntou: “Tem algum papel para mim?” Eu respondi: “ Sim, tem um papel para você!” E ele disse: “Deixe-me ler o roteiro. E se for possível, eu gostaria de participar.” Era um papel maravilhoso.
ED RAMPELL
Liam Cunningham, coestrela do drama de Ken Loach de 2007 sobre a Guerra da Independência da Irlanda, Ventos da liberdade, e da série da HBO Game of Thrones, interpreta [Charles] Tegart, o especialista em contrainsurgência da vida real que explica ao alto comissário e a outros oficiais britânicos em seu filme a necessidade de táticas antiterroristas extremamente brutais para suprimir a Revolta Árabe.
Essa cena seria uma referência direta às cenas do especialista em pacificação no filme de Gillo Pontecorvo de 1966, A Batalha de Argel?
ANNEMARIE JACIR
As pessoas têm mencionado muito a Batalha de Argel em relação a este filme. Mas você é a primeira pessoa a fazer essa conexão. Sim, você é a primeira pessoa a apontar isso.
Este filme é um verdadeiro testemunho da criatividade palestina e do que os palestinos são capazes de fazer, mesmo nas piores condições. Quase morremos durante as filmagens. Agora, compartilhamos com o mundo.
Charles Tegart era irlandês. Eles fazem referência à Irlanda no diálogo. É por isso que Liam se divertiu tanto interpretando aquela cena. Esse especialista estava na Índia e depois o levaram para a Palestina. Ele construiu toda a sua carreira em cima disso. Ele foi o primeiro a idealizar o conceito de um muro, não os israelenses — eles fizeram isso depois. Tudo o que os britânicos fizeram, os israelenses simplesmente copiaram o projeto. E existem fortes militares por todo o país, para criar esse sistema de controle, chamados de “fortes de Tegar”. Eles ainda existem.
ED RAMPELL
Isso é semelhante ao Programa de Aldeias Estratégicas do Vietnã do Sul?
ANNEMARIE JACIR
Sim. Com certeza.
ED RAMPELL
Os trechos de época são imagens de arquivo reais?
ANNEMARIE JACIR
Sim. Sempre que você vê a [proporção de tela original], trata-se de imagens de arquivo reais — não foram manipuladas. Nós as restauramos e eu as colorizei; eu não queria em preto e branco.
ED RAMPELL
Seu filme parece sugerir que dois povos foram vitimados pelo Holocausto. Obviamente, o povo judeu; mas também os palestinos foram impactados pela imigração de cada vez mais judeus que fugiam do nazismo. Muitos vieram para a Palestina. Especialmente porque outros países ao redor do mundo, incluindo os EUA, em grande parte...
ANNEMARIE JACIR
Fecharam as portas. Sem dúvida.
ED RAMPELL
Mas, é claro, não foram os palestinos que perpetraram o Holocausto.
ANNEMARIE JACIR
Os arianos europeus fizeram isso. Fizeram a coisa mais vil: o Holocausto. E depois não quiseram assumir a responsabilidade. Em vez de lidarem com o próprio racismo, jogaram a culpa nos palestinos, que não têm histórico de antissemitismo. Nós também somos semitas [risos]. Essa foi a maneira [dos ocidentais] de lidar com a situação: fazer com que nós tivéssemos que com ela. Fecharam as portas, os EUA fecharam as portas e pensaram: “Ok, a maneira de lidarmos com o nosso racismo é mandar essas pessoas para outro lugar”. O que é simplesmente ridículo.
O projeto sionista considerou muitos outros lugares além da Palestina: Argentina, Uganda, Palestina. Havia muitas propostas. Acho que teria sido a mesma coisa em Uganda, se o projeto sionista fosse sobre desapropriar a população nativa. A Palestina acabou sendo a escolhida.
A Palestina nunca esteve fechada aos judeus. Peregrinos judeus vêm à Palestina há séculos — eu disse que existe uma população nativa. Há também judeus que vêm à Palestina há centenas de anos, assim como muçulmanos e cristãos. Bósnios fugiram da perseguição e vieram para a Palestina. Circassianos fugiram da perseguição e vieram para a Palestina — estou falando do século XIX. Armênios fugiram da perseguição, vieram para a Palestina, viveram entre os palestinos e se integraram ao cotidiano da população.
E se os judeus tivessem feito isso — fugido, não tivessem para onde ir, precisassem de proteção e imigrado como tantas outras comunidades — estaríamos em uma situação muito diferente hoje. O projeto sionista não se tratava disso. Tratava-se de controle e desapropriação.
ED RAMPELL
Houve uma facilitação por parte dos britânicos para atender aos seus próprios interesses imperiais?
ANNEMARIE JACIR
Claro. Eles jogavam dos dois lados.
ED RAMPELL
Anteriormente, você mencionou a Comissão Peel. Uma das cenas mais dramáticas e cruciais de todo o seu filme é um jantar em Jerusalém, na casa dos intelectuais Amir e Khuloud, onde os resultados da Comissão Peel são anunciados pelo rádio.
Palestina 36 demonstra claramente que os britânicos, sob o mandato de colonizadores, deram tratamento preferencial aos sionistas para atender aos próprios interesses coloniais de Londres. Em retrospectiva, considerando o enorme sofrimento dos palestinos com os eventos da década de 1930 retratados em seu filme, passando pela Nakba e, mais recentemente, pelo genocídio em Gaza e pela perseguição contínua na Cisjordânia, você acha que, mesmo tendo sido um mau negócio, os palestinos teriam se saído melhor se tivessem aceitado a partilha oferecida? Como diz o locutor de rádio britânico ao transmitir os resultados da Comissão Peel: “Meio pão é melhor do que nada”.
ANNEMARIE JACIR
Acho que teria levado exatamente ao mesmo resultado. Não sei por que alguém concordaria que uma potência colonial ou externa decidisse isso. Os britânicos e franceses dividiram todo o mundo árabe e toda a África. Eles não tinham o direito de fazer isso. Então, por que alguém aceitaria isso? Nunca vai acontecer. Agora, você está perguntando se estaríamos em uma situação melhor hoje se eles tivessem aceitado isso? A Comissão Peel e o anúncio que está sendo transmitido pelo rádio são as conclusões da Comissão Peel, palavra por palavra, não são invenção minha.
Este filme é realmente um testemunho da criatividade palestina e do que os palestinos são capazes de fazer, mesmo nas piores condições.
Fecharam as portas. Sem dúvida.
ED RAMPELL
Mas, é claro, não foram os palestinos que perpetraram o Holocausto.
ANNEMARIE JACIR
Os arianos europeus fizeram isso. Fizeram a coisa mais vil: o Holocausto. E depois não quiseram assumir a responsabilidade. Em vez de lidarem com o próprio racismo, jogaram a culpa nos palestinos, que não têm histórico de antissemitismo. Nós também somos semitas [risos]. Essa foi a maneira [dos ocidentais] de lidar com a situação: fazer com que nós tivéssemos que com ela. Fecharam as portas, os EUA fecharam as portas e pensaram: “Ok, a maneira de lidarmos com o nosso racismo é mandar essas pessoas para outro lugar”. O que é simplesmente ridículo.
O projeto sionista considerou muitos outros lugares além da Palestina: Argentina, Uganda, Palestina. Havia muitas propostas. Acho que teria sido a mesma coisa em Uganda, se o projeto sionista fosse sobre desapropriar a população nativa. A Palestina acabou sendo a escolhida.
A Palestina nunca esteve fechada aos judeus. Peregrinos judeus vêm à Palestina há séculos — eu disse que existe uma população nativa. Há também judeus que vêm à Palestina há centenas de anos, assim como muçulmanos e cristãos. Bósnios fugiram da perseguição e vieram para a Palestina. Circassianos fugiram da perseguição e vieram para a Palestina — estou falando do século XIX. Armênios fugiram da perseguição, vieram para a Palestina, viveram entre os palestinos e se integraram ao cotidiano da população.
E se os judeus tivessem feito isso — fugido, não tivessem para onde ir, precisassem de proteção e imigrado como tantas outras comunidades — estaríamos em uma situação muito diferente hoje. O projeto sionista não se tratava disso. Tratava-se de controle e desapropriação.
ED RAMPELL
Houve uma facilitação por parte dos britânicos para atender aos seus próprios interesses imperiais?
ANNEMARIE JACIR
Claro. Eles jogavam dos dois lados.
ED RAMPELL
Anteriormente, você mencionou a Comissão Peel. Uma das cenas mais dramáticas e cruciais de todo o seu filme é um jantar em Jerusalém, na casa dos intelectuais Amir e Khuloud, onde os resultados da Comissão Peel são anunciados pelo rádio.
Palestina 36 demonstra claramente que os britânicos, sob o mandato de colonizadores, deram tratamento preferencial aos sionistas para atender aos próprios interesses coloniais de Londres. Em retrospectiva, considerando o enorme sofrimento dos palestinos com os eventos da década de 1930 retratados em seu filme, passando pela Nakba e, mais recentemente, pelo genocídio em Gaza e pela perseguição contínua na Cisjordânia, você acha que, mesmo tendo sido um mau negócio, os palestinos teriam se saído melhor se tivessem aceitado a partilha oferecida? Como diz o locutor de rádio britânico ao transmitir os resultados da Comissão Peel: “Meio pão é melhor do que nada”.
ANNEMARIE JACIR
Acho que teria levado exatamente ao mesmo resultado. Não sei por que alguém concordaria que uma potência colonial ou externa decidisse isso. Os britânicos e franceses dividiram todo o mundo árabe e toda a África. Eles não tinham o direito de fazer isso. Então, por que alguém aceitaria isso? Nunca vai acontecer. Agora, você está perguntando se estaríamos em uma situação melhor hoje se eles tivessem aceitado isso? A Comissão Peel e o anúncio que está sendo transmitido pelo rádio são as conclusões da Comissão Peel, palavra por palavra, não são invenção minha.
Este filme é realmente um testemunho da criatividade palestina e do que os palestinos são capazes de fazer, mesmo nas piores condições.
A Comissão Peel não estava concedendo independência aos palestinos. Não se tratava apenas da partilha, mas também de que os palestinos não seriam governados por palestinos.
ED RAMPELL
E eles seriam removidos à força.
ANNEMARIE JACIR
Sim, mas seriam governados pela Transjordânia. Mesmo que dividissem a parte palestina, ela não seria administrada por palestinos — seria administrada pelo governo transjordaniano, uma criação pró-britânica. Nem seria independência nesse sentido. Isso é muito importante. Os árabes não são um bloco homogêneo, os vinte e dois países não são todos iguais. Não é um grupo monolítico.
ED RAMPELL
Onde você filmou Palestina 36?
ANNEMARIE JACIR
Filmamos na Jordânia, Palestina, Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Jaffa e Belém. O filme foi feito em condições extremamente difíceis. Tivemos que interromper as filmagens quatro vezes. Foi terrível. E continuamos. O que deveria durar três meses acabou se tornando quase dois anos de luta para concluir o filme, pois o fizemos durante o genocídio. Este filme é realmente um testemunho da criatividade palestina e do que os palestinos são capazes de fazer, mesmo nas piores condições.
Quase morremos durante as filmagens. Agora, compartilhamos com o mundo. Esperamos que as pessoas nos conheçam; fazemos filmes para nos conectar. Tudo se resume à conexão. Essa conexão não pode ser rompida. Precisamos lutar por ela.
ED RAMPELL
Mais filmes de cineastas palestinos e árabes, como A voz de Hind Rajab, estão sendo lançados no Ocidente . Por que você acha que isso está acontecendo agora?
ANNEMARIE JACIR
[Risos] Não acho que esteja acontecendo agora. Já vem acontecendo há muito tempo. Há uma nova onda de diretores palestinos, muitos filmes foram feitos ao longo dos anos. Acho que agora há menos. No entanto, isso se deve à Watermelon [Pictures] que distribui os filmes — esse sempre foi o obstáculo nos Estados Unidos, sempre foi difícil para nossos filmes serem vistos, exibidos nos EUA.
Fomos excluídos da distribuição nos EUA. Estamos impedidos de alcançar nosso público e de exibir nossos filmes nos cinemas. Existem os guardiões — agora, graças à Watermelon, há distribuição para aqueles filmes que outros tiveram medo de chegar perto. Se é que pensaram em chegar — eu já tive distribuição com meus outros filmes, mas levá-los aos cinemas é uma batalha. É preciso ter um distribuidor pronto para enfrentar essa batalha. A Watermelon está empenhada em fazer isso.
ED RAMPELL
Na cerimônia do Oscar deste ano, o apresentador Javier Bardem disse: “Não à guerra. Palestina livre!” O que você achou disso?
ANNEMARIE JACIR
Eu adorei e achei que era muito necessário. Fiquei me perguntando por que, no geral, o Oscar foi tão silencioso e ninguém disse nada. E nem foi só sobre a Palestina. A situação do mundo está péssima. São tempos sombrios em todos os lugares. Graças a Deus por Javier, que disse algo. E me pergunto por que mais pessoas não disseram nada.
Colaboradores
Ed Rampell é um historiador / crítico de cinema de Los Angeles e autor de "Progressive Hollywood: A People’s Film History of the United States" e co-autor do The Hawaii Movie and Television Book.
Annemarie Jacir é uma cineasta, escritora e produtora de cinema palestina.
ED RAMPELL
E eles seriam removidos à força.
ANNEMARIE JACIR
Sim, mas seriam governados pela Transjordânia. Mesmo que dividissem a parte palestina, ela não seria administrada por palestinos — seria administrada pelo governo transjordaniano, uma criação pró-britânica. Nem seria independência nesse sentido. Isso é muito importante. Os árabes não são um bloco homogêneo, os vinte e dois países não são todos iguais. Não é um grupo monolítico.
ED RAMPELL
Onde você filmou Palestina 36?
ANNEMARIE JACIR
Filmamos na Jordânia, Palestina, Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Jaffa e Belém. O filme foi feito em condições extremamente difíceis. Tivemos que interromper as filmagens quatro vezes. Foi terrível. E continuamos. O que deveria durar três meses acabou se tornando quase dois anos de luta para concluir o filme, pois o fizemos durante o genocídio. Este filme é realmente um testemunho da criatividade palestina e do que os palestinos são capazes de fazer, mesmo nas piores condições.
Quase morremos durante as filmagens. Agora, compartilhamos com o mundo. Esperamos que as pessoas nos conheçam; fazemos filmes para nos conectar. Tudo se resume à conexão. Essa conexão não pode ser rompida. Precisamos lutar por ela.
ED RAMPELL
Mais filmes de cineastas palestinos e árabes, como A voz de Hind Rajab, estão sendo lançados no Ocidente . Por que você acha que isso está acontecendo agora?
ANNEMARIE JACIR
[Risos] Não acho que esteja acontecendo agora. Já vem acontecendo há muito tempo. Há uma nova onda de diretores palestinos, muitos filmes foram feitos ao longo dos anos. Acho que agora há menos. No entanto, isso se deve à Watermelon [Pictures] que distribui os filmes — esse sempre foi o obstáculo nos Estados Unidos, sempre foi difícil para nossos filmes serem vistos, exibidos nos EUA.
Fomos excluídos da distribuição nos EUA. Estamos impedidos de alcançar nosso público e de exibir nossos filmes nos cinemas. Existem os guardiões — agora, graças à Watermelon, há distribuição para aqueles filmes que outros tiveram medo de chegar perto. Se é que pensaram em chegar — eu já tive distribuição com meus outros filmes, mas levá-los aos cinemas é uma batalha. É preciso ter um distribuidor pronto para enfrentar essa batalha. A Watermelon está empenhada em fazer isso.
ED RAMPELL
Na cerimônia do Oscar deste ano, o apresentador Javier Bardem disse: “Não à guerra. Palestina livre!” O que você achou disso?
ANNEMARIE JACIR
Eu adorei e achei que era muito necessário. Fiquei me perguntando por que, no geral, o Oscar foi tão silencioso e ninguém disse nada. E nem foi só sobre a Palestina. A situação do mundo está péssima. São tempos sombrios em todos os lugares. Graças a Deus por Javier, que disse algo. E me pergunto por que mais pessoas não disseram nada.
Colaboradores
Ed Rampell é um historiador / crítico de cinema de Los Angeles e autor de "Progressive Hollywood: A People’s Film History of the United States" e co-autor do The Hawaii Movie and Television Book.
Annemarie Jacir é uma cineasta, escritora e produtora de cinema palestina.

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