31 de agosto de 2014

Questões sobre os Yazidis nas montanhas do Iraque

Será possível que nos estejam a vender uma história emocionalmente convincente a fim de justificar uma intervenção militar dos EUA no Iraque?

Peter Van Buren

Brussells Tribunal

Ninguém quer ver sofrer seja quem, sejam Yazidis ou quaisquer outros. O que queremos é saber a verdade acerca do que se passa no Iraque, numa altura em que Obama prossegue os ataques aéreos e se prepara para enviar mais 130 soldados estadunidenses.

Representantes dos Estados Unidos declararam acreditar que a presença de um certo efetivo no terreno seria necessária para assegurar a passagem dos membros do grupo de Yazidis que se encontram bloqueados. Os militares preparam os planos que serão submetidos à aprovação do Presidente Obama e que poderiam incluir o envio de tropas para o terreno.

Aqui chegados, podemos de alguma forma colocar algumas interrogações.

Muito antes dos ataques aéreos estadunidenses, o indefeso povo Yazidi subiu a esta montanha para aí procurar refúgio contra os ataques do ISIS que queria, ao que nos dizem, massacrá-lo. Porque não terá ISIS simplesmente subido também lá acima para os massacrar? Sabemos que ISIS possui morteiros e uma autêntica artilharia, uma vez que os EUA se viram posteriormente na necessidade de os bombardear. Porque é que então o ISIS não utilizou essas armas para massacrar à distância os Yazidis?

Mais ainda: após um ou dois ataques aéreos o ISIS tornou-se tão fácil de bater militarmente que os Curdos possibilitaram que 24.000 Yazidis abandonassem a montanha a pé, caminhassem até à Síria e fizessem depois meia-volta para reentrar com toda a segurança no Iraque. Isto leva a que nos interroguemos se a montanha se encontrava na verdade seriamente cercada por combatentes do ISIS cheios de determinação. É necessário muito tempo para 24.000 pessoas fazerem seja o que for, e ter-lhes-ia sido necessário deslocar-se num longo trajeto, ao longo do qual estariam vulneráveis perante o ISIS. Como é que o ISIS passou de uma ameaça de tal envergadura que era necessário utilizar a força aérea contra ela a uma tropa que os Curdos simplesmente arredaram do caminho, eles que habitualmente eram em todo o lado incapazes de fazer frente ao ISIS?

Depois disto, e de mais novos ataques aéreos, porque é que continua ainda a haver gente nessa montanha, sem água nem comida? Como é que 24.000 pessoas conseguiram fugir, mas que não tenham fugido todas? Os ataques aéreos prosseguem e os mesmos Curdos que abriram o caminho ainda ali se encontram.

O governo iraquiano afirma que ISIS matou pelo menos 500 Yazidis, que enterrou vivos alguns deles, e que capturou centenas de mulheres para fazer delas escravas. O governo iraquiano afirmou que "centenas de vítimas, entre as quais mulheres e crianças, foram enterradas vivas em valas comuns dispersas em Sinjar e nos seus arredores". Isto foi referido pelos meios de comunicação ocidentais, um dos quais foi suficientemente escrupuloso para acrescentar que "não estava disponível qualquer confirmação de fonte independente". Valas comuns recentes, numa zona desértica, não deve ser coisa que passe despercebida. Não seria esta uma informação que poderia ser confirmada, em vez de ser simplesmente reproduzida? Que esforços foram feitos para a verificar?

Se cada lugar num helicóptero permite salvar a vida de uma criança Yazidi, evacuando-a, porque estão então os lugares ocupados pelas equipes dos repórteres de imagem da CNN e por outros jornalistas? Quais são as verdadeiras prioridades assumidas?

Que deve pensar-se de um grupo que os EUA durante muito tempo designaram como organização terrorista e que desempenha um papel ativo no salvamento dos Yazidis, sob a cobertura aérea dos EUA? Não deveriam os Estados Unidos bombardear as organizações terroristas conhecidas em vez de trabalhar em conjunto com elas? Não constitui o objetivo da guerra contra o terrorismo matar os terroristas onde quer que eles se encontrem?

Talvez existam respostas convincentes para estas interrogações; seja como for, será possível que nos estejam de novo a vender uma história edificante a fim de justificar uma intervenção militar estadunidense no Iraque? Será que a montanha onde se encontram os Yazidis apresenta uma encosta demasiado escorregadia para os americanos?

Constituirá ela, de novo, uma arma de destruição massiva?

29 de agosto de 2014

Keynes está morto; Viva Marx

Ismael Hossein-Zadeh


Muitos economistas liberais viram uma nova aurora para o keynesianismo no desastre financeiro de 2008. Quase seis anos depois, já é claro que as muito aguardadas prescrições keynesianas foram e são completamente ignoradas. Por quê? Resposta dos economistas keynesianos: "ideologia neoliberal", que remontam ao presidente Ronald Reagan.

Este estudo argumenta, ao contrário, que a transição da economia keynesiana para a economia neoliberal tem raízes muito mais profundas que a pura ideologia; que a transição começou muito antes de Ronald Reagan ser eleito presidente; que a confiança que os keynesianos têm nos governos serem capazes de re-regular e reviver a economia mediante polícias de gestão de demanda repousa sobre uma percepção esperançosa de que o estado possa controlar o capitalismo; mas que, ao contrário dessas percepções esperançosas, políticas públicas são mais que questões de escolha administrativa ou técnica; e que, mais importante que isso, são políticas de classe.

O estudo também argumenta que a teoria marxista do desemprego, baseada na teoria de Marx, do exército de reserva de mão de obra, oferece uma explicação muito mais robusta para os prolongados altos níveis de desemprego, que o que dizem os keynesianos, que atribuem a praga do desemprego “às más políticas do neoliberalismo”. Assim também, a teoria marxista da persistência de salários sempre próximos à linha da miséria dá conta, com muito mais consistência, de como ou de por quê esses salários de miséria, e a predominância em geral da miséria, podem acompanhar e de fato acompanham altos níveis de lucros e de riqueza concentrada, muito mais do que os keynesianos percebem, quando pregam altos níveis de empregos e de salários como condições necessárias para um ciclo econômico de expansão. [1]

Mais profundo do que "ideologia neoliberal"

O questionamento e o abandono gradual das estratégias keynesianas de gestão da demanda aconteceram não simplesmente por causa de proclividades puramente ideológicas de Republicanos “de direita” ou de preferências pessoais de Ronald Reagan, como muitos economistas liberais e radicais argumentam, mas por causa de mudanças estruturais reais nas condições econômicas ou de mercado, no plano nacional e internacional. As políticas do New Deal/Social-Democratas foram implantadas depois da Grande Depressão, enquanto trabalhadores e outros movimentos de base recém acordados em termos políticos, e as condições econômicas favoráveis do momento, tornaram efetivas aquelas políticas. Essas condições favoráveis ​​incluíram a necessidade de investir e reconstruir economias devastadas do pós-guerra por todo o mundo, a demanda quase ilimitada por manufaturas americanas, tanto em casa como no exterior, e a nenhuma concorrência contra o capital e o trabalho americanos.

Essas condições propícias, assim como a pressão de baixo, permitiu aos trabalhadores americanos demandarem salários e benefícios respeitáveis, ao mesmo tempo em que dispunham de taxas mais altas de emprego. Os altos salários e a forte demanda então serviu como um estímulo que precipitou o longo ciclo expansionista do período do imediato pós-guerra, na modalidade de um ciclo virtuoso.

Mas no final da década de 1960 e início da década de 1970, contudo, ambos, o capital e o trabalho americanos não eram mais dominantes nos mercados globais. Mais do que isso, durante o longo ciclo da expansão no imediato pós-guerra as manufaturas americanas haviam investido tanto em capital fixo, ou construção de capacidade [capacity building], que ao final da década de 1960 as taxas de lucro começavam a declinar, quando quantidades enormes dos chamados “custos irrecuperáveis” [“sunk costs”], principalmente sob a forma de fábricas e equipamentos, tornaram-se altos demais. [2]

Mais do que tudo, foram essas importantes mudanças nas reais condições de produção, e o concomitante realinhamento dos mercados globais, que ocasionou as reservas contra e, afinal, o abandono da economia keynesiana. Ao contrário do que muito repetem os liberais e partidários do keynesianismo, não foram as ideias ou os esquemas de Ronald Reagan que levaram aos planos para desmantelar as reformas do New Deal; em vez disso, foi a globalização, primeiro do capital e, depois, do trabalho, que tornaram as economias de tipo keynesiano pouco atraentes para a lucratividade capitalista, e geraram a economia de Ronald Reagan e a austeridade neoliberal. [3]

Deve-se ressaltar que as políticas keynesianas de estabilização não foram abandonadas por razões puramente ideológicas; i.e., por que, como insistem muitos críticos do neoliberalismo, espalhou-se a partir de Chicago um animus de laisser-faire, que teria infectado políticos de todos os partidos e os teria persuadido das grandes vantagens e benefícios dos livres mercados. ... Sistema keynesianos de regulação financeira (controle de capitais e taxas de juro gerenciadas) não conseguiriam suportar os crescentes pools de créditos internacionais não regulados, os euromercados, que vieram para dominar a finança internacional. [4]

Quando as regulações financeiras, controles de capital e um novo sistema monetário internacional foram estabelecidos na Conferência de Bretton Woods logo depois da II Guerra Mundial, os mercados financeiros ou de crédito, internacionais, eram efetivamente inexistentes. O dólar americano (e em menor extensão o ouro) foi, de longe, amplamente, o único meio internacional de comércio e de crédito. Nessas circunstâncias, o crédito internacional aconteceu amplamente entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os bancos centrais dos países emprestadores/tomadores – daí a possibilidade, a viabilidade, de aplicarem-se os controles.

Esse quadro dos mercados internacionais de crédito/financeiros, contudo, mudou gradualmente; e ao final da década de 1960 e início da década de 1970, aqueles mercados já alcançavam centenas de bilhões de dólares, permitindo portanto transações internacionais de crédito por fora do canal FMI-bancos centrais. Os dois maiores fatores que contribuíram significativamente para a drástica inflação dos mercados financeiros internacionais foram o crédito internacional gerado por computador; e a imensa proliferação de eurodólares, isto é, dólares americanos depositados em bancos do outro lado do Atlântico. A finança/crédito global completamente “solta” havia crescido tanto durante as últimas várias décadas que tornaram quaisquer controles ou regulações domésticas ou nacionais já virtualmente inefetivos:

Críticos da finança internacional fizeram várias propostas para estabilizar o sistema e torná-lo mais propício para os objetivos do desenvolvimento econômico e social. A sugestão mais comum foi um retorno aos controles transfronteiriços de capital que existiam nas décadas de 1940 e 1950. Esses controles, em muitos casos, não foram eliminados até a década de 1990. Mas depósitos bancários internacionais e ativos financeiros mantidos no exterior são hoje tão grandes, que seria difícil implantar tais controles. De fato, a principal razão para livrar-se de tais regulações foi, exatamente, que não havia como aplicá-las. [5]

É óbvio, portanto, que o enfraquecimento ou o depauperamento dos controles ou das salvaguardas regulatórias foi provocado não tanto por tendências puramente ideológicas de alguns eleitos ou estrategistas políticos, mas, mais, pelos desenvolvimentos reais nos mercados financeiros internacionais.

Tudo começou muito antes de Reagan

O argumento de que o abandono de políticas keynesianas em favor de políticas neoliberais começou com a chegada de Ronald Reagan à Casa Branca nos anos 1980 é factualmente falso. Provas incontornáveis mostram que o prazo de validade das receitas keynesianas haviam expirado pelo menos uma dúzia de anos antes. As políticas keynesianas de expansão econômica mediante gerenciamento da demanda haviam perdido o gás (vale dizer: haviam chegado ao seu limite sistêmico) ao final da década de 1960 e início de 1970; não aconteceram de repente, do nada, no momento em que Reagan assumiu o timão.

Como o professor Alan Nasser do Evergreen State College anota, argumentos de que “políticas de igualdade econômica representam redução em termos de eficiência” já se faziam ouvir, produzidos por conselheiros econômicos de governos Democratas muito antes de a “Reaganomics” dar solenidade àqueles argumentos. Arthur Okun e Charles Schultze, ambos, serviram como presidente do Grupo de Aconselhamento Econômico de presidentes Democráticos. Em seu Equality and Efficiency: The Big Tradeoff, Okun (1975) já dizia que “o objetivo intervencionista de maior igualdade teve custos em ineficiência, que muito feriram a economia privada”. Schultze (1977) também dizia que “políticas de governo que impactam os mercados em nome da justiça e da igualdade são necessariamente ineficientes” – e essas políticas “geram desvantagens para o mesmo povo que os políticos pensam estar protegendo, e desestabilizam a economia privada no processo”. [6]

Jerome Kalur diz também que “esforços de Mesas Redondas de Câmaras do Comércio e Associações de Empresários para conseguir controlar o sistema governamental de tomadas de decisões regulatórias começaram pelo menos nove anos antes” de Ronald Reagan ser eleito, “quando o advogado de corporações Lewis Powell apresentou à Câmara de Comércio seu hoje bem-conhecido “Ataque contra o sistema da livre empresa nos EUA”. [7] Em concerto com a ofensiva “advocatícia” de Powel contra o trabalho e padrões regulatórios, o big business movimentou-se firmemente para “impedir a organização sindical” e para “eliminar quaisquer controles regulatórios mediante fluxos gigantes de propaganda produzida por think-tanks do tipo do The American Enterprise Institute (1972), The Heritage Foundation (1973) e o Cato Institute (1977)”. [8] Kalur escreve ainda:

Quando Powell entregou seu memorando à Câmara, o big business americano já tinha registradas 175 empresas de lobby a seu serviço. Em 1982, o número de “torcedores-de-braços” pagos por empresas tinha subido para 2.500. O número desses “assessores” mantidos por empresas já tinham chegado a 400 no início da década de 1970, e a 1.200, em 1980. Em resumo, o big business já estava provocando um declínio no número de empregados sindicalizados; já influenciava fortemente legisladores e agências federais; e controlava o quadro muito antes de começar o governo Reagan. Com Powell nomeado afinal para a Suprema Corte, o big business americano já marchava, em 1978, na direção da sua meta de acabar com toda e qualquer restrição às contribuições para campanhas eleitorais através de veículos clandestinos. [9]
Se a virada teórica da economia do New Deal-keynesiana dentro da cabeça dos luminares do Partido Democrata aconteceu antes do governo Carter, a implementação daquelas teorias começou já sob governo do presidente Carter. E Reagan pegou a cópia da agenda gradual de neoliberalismo dos Democratas e a fez correr mais depressa; substituiu a retórica do capitalismo-com-face-humana, pela retórica imperiosa, arrogante, do mais feroz individualismo, com a cobiça, a ganância e o auto-interesse como principais virtudes a serem promovidas. Tampouco o presidente Clinton cuidou de aliviar as políticas econômicas dos anos Reagan. E Obama, como se sabe, não hesitou em fazer a mesma coisa.

O papel do Estado

A ideia keynesiana de que o governo poder fazer a sintonia econômica fina mediante políticas fiscais e monetárias, para manter crescimento contínuo, baseia-se na ideia de que o capitalismo pode ser controlado ou manipulado pelo estado e gerido por economistas profissionais de departamentos governamentais com vistas a preservar o interesse de todos. A efetividade do modelo keynesiano portanto depende, em vasta medida, de uma esperança, ou de uma ilusão; porque, na realidade, a relação de poder entre o estado e o mercado/capitalismo é, quase sempre, exatamente o contrário disso. Ao contrário da percepção keynesiana, fazer política econômica é mais do que simplesmente questão administrativa ou de tomadas de decisões técnicas; muito mais importante que isso, fazer política econômica é questão profundamente sociopolítica, organicamente entrelaçada com a natureza de classe do governo e do aparelho de produzir políticas.

A ilusão keynesiana foi alimentada, ou mascarada, por dois grandes mitos. O primeiro mito brota da percepção que atribui a implementação do New Deal e das reformas Social-Democratas que se seguiram à Grande Depressão e à IIª Guerra Mundial, ao gênio de Keynes. Provas mostram contudo que a implementação daquelas reformas e, portanto, a ascensão de Keynes ao “estrelato” foram, mais, produto de ferozes lutas de classes e das fortíssimas pressões dos movimentos de base, que “recompensa” pelo “brilho” dos neurônios de especialistas como Keynes. De fato, fora dos estreitos círculos acadêmicos, Keynes não era absolutamente conhecido nos EUA, quando as principais reformas do New Deal foram postas em prática.

O segundo mito brota da visão que atribuiu a longa expansão econômica do período 1948-68 nos EUA à eficácia ou ao sucesso das políticas keynesianas de gestão da demanda. Embora seja com certeza certo que as políticas de governo expansionistas do tempo tiveram grande papel nos fantásticos desenvolvimentos econômicos daquele período, outras condições ou fatores favoráveis também contribuíram para o sucesso daquela expansão. Dentre essas, a necessidade de investir e reconstruir as economias devastadas do pós-guerra em todo o mundo; a necessidade de suprir a vasta demanda global dos consumidores; por bens de capital; e a falta de concorrentes para os produtos e capitais norte-americanos nos mercados globais – em resumo, o fato de que havia espaço gigantesco para crescimento e expansão no período imediatamente depois da guerra.

Acolhendo esses mitos e ilusões, os economistas keynesianos anteviram para eles mesmos a moldura de ouro ideal, na quebradeira e no período que se seguiu à Grande Recessão: uma oportunidade para uma nova alvorada de economia keynesiana. Quase seis anos depois, é muito claro que as prescrições de políticas keynesianas estão caindo em ouvidos surdos.

Ignoradas e deixadas de lado, as esperanças e ilusões keynesiana converteram-se em amargura, desapontamento e ira. Por exemplo, servindo-se de sua coluna no New York Times o professor Paul Krugman frequentemente ataca o governo Obama por ignorar políticas keynesianas de expansão econômica e geração de empregos:

A verdade é que criar empregos em economia em depressão é coisa que o governo pode e deve fazer (...) Pensem bem: onde estão os grandes projetos de obras públicas? Onde estão os exércitos de trabalhadores do estado? Há hoje de fato meio milhão de empregados do governo a menos, do que quando o Sr. Obama assumiu a Casa Branca. [10]

No coração da frustração ou do desapontamento dos economistas keynesianos está a percepção não realista de que políticas econômicas seriam produtos intelectuais, e que construir políticas seria, antes de tudo, questão de expertise técnica e de preferência pessoal. O que esses economistas não veem é que construir políticas econômicas não é simples questão de escolha, quer dizer, de política “boa” versus política “má”. Muito mais importante: construir políticas é fazer política de classes.

Não basta ter coração ou alma compassiva; também é preciso não perder de vista o modo como se faz política pública sob o capitalismo. Não basta espancar repetidamente Ronald Reagan como o rei mau, e elogiar Franklin Delano Roosevelt como rei bom. A tarefa realmente importante é explicar por que a classe dominante expulsou o rei bom, nos EUA, e pôs no trono o rei mau.

Como diz o professor Peter Gowan da London Metropolitan University, “keynesianos fazem uma discussão essencialmente falsa a favor da re-regulação, quando absolutamente não veem que o Estado e Wall Street são uma e a mesma entidade”. [11]

Crescimento e emprego: Keynes versus Marx

Não foi só o modo como economistas liberais veem os desenvolvimentos reais, que levaram ao abandono do keynesianismo e ao aparecimentos dos vícios neoliberais; também o modo como explicam os problemas correntes de desemprego e de estagnação econômica. Ao persistentemente culpar o “capitalismo neoliberal” – em vez de culpar o próprio e total capitalismo – pelas altas taxas de desemprego, os propositores de economias keynesianas tendem a perder de vista as causas estruturais ou sistêmicas do desemprego: a tendência secular e/ou sistêmica da produção capitalista para constantemente substituir o trabalho humano por máquinas, e, assim, criar massa considerável de desempregados, um “exército de reserva de mão de obra”, nas palavras de Karl Marx.

As leis fundamentais da oferta e demanda de mão de obra no capitalismo são pesadamente influenciadas, ensina Marx, pela capacidade do mercado para produzir regularmente um exército de reserva do mão de obra, um “superávit populacional”. Esse exército de reserva de mão de obra é portanto tão importante para a produção capitalista quanto o exército ativo (realmente já empregado) de mão de obra. Assim como um ajuste regular e na hora devida, do nível do corpo de água de uma represa usada para irrigação é crucial para o aproveitamento estável da água, assim também o tamanho “adequado” de um corpo de desempregados é criticamente importante para a rentabilidade da produção capitalista:

O exército industrial de reserva, durante os períodos de estagnação e prosperidade média, derruba todo o exército de trabalho ativo; durante os períodos de superprodução e paroxismo, mantém em xeque suas pretensões. Populações em relativo superávit são, pois, o pivô sobre o qual opera a lei de oferta e demanda de trabalho. Assim se limita o campo de ação dessa lei, dentro dos limites absolutamente convenientes para a atividade de exploração e para a dominação pelo capital. [12]

Na era da globalização da produção e do emprego, o exército de reserva de mão de obra foi drasticamente expandido para fora das fronteiras nacionais. Segundo pesquisa recente da Organização Mundial do Trabalho (OMT), entre 1980 e 2007 a força de trabalho global cresceu cerca de 63%. O relatório também mostra que, dada a urbanização em todo o planeta e/ou a saída dos camponeses dos campos, a razão entre exército ativo de exército de reserva de trabalho é hoje de menos que 50%, quer dizer, mais da metade da mão de obra global está hoje desempregada. [13]

Esse vasto e rapidamente acessível bolsão de desempregados, além da facilidade relativa para mudar a produção para qualquer ponto do mundo – e não alguma “intenção malévola de Republicanos direitistas ou de neoliberais safados” – é que obrigaram a classe trabalhadora, principalmente nos países capitalistas centrais, a baixar a cabeça: e a submeter-se aos brutais esquemas de austeridade nos salários e cortes de benefícios, às demissões, ao esvaziamento dos sindicatos, aos empregos de meio período, ao trabalho precário e a tudo mais que se vê.

Isso também explica por que repetidas convocações, feitas pelos keynesianos, para que se embarque em pacotes de estímulo de tipo keynesiano, para ajudar a pôr fim à recessão e aliviar o desemprego, continuam a soar como propostas ocas. Sob as novas condições de produção, que deixaram o nível nacional e ganharam níveis globais, e na ausência de fortes pressões políticas que os trabalhadores e movimentos de base em geral possam exercer, simplesmente não há refills para as receitas do Dr. Keynes – as quais foram pensadas para condições socioeconômicas radicalmente diferentes das que há hoje, e para circunstâncias nacionais, não globais.

Teoricamente, a estratégia keynesiana de um “ciclo virtuoso” de altas taxas de crescimento e emprego é ao mesmo tempo simples e racional: gastos governamentais massivos em períodos de sério revés econômico fazem aumentar empregos e salários, injetam poder de compra na economia, o que, por sua vez, empurra os produtores a produzir e contratar, o que, por sua vez, faz subir emprego, salários, demanda, oferta... ad infinitum. Mas, por mais que a estratégia soe relativamente simples e satisfatoriamente racional, ela está cheia de falhas.

Para começar, ela implicitamente assume que empregadores e fazedores de políticas governamentais estejam genuinamente interessados em gerar pleno emprego, mas, apenas, ‘não sabem’ como alcançar essa boa meta comum. Mas produção de pleno emprego pode não ser necessariamente o nível ideal ou nível de máximos lucros, da produção capitalista; significa que pode não ser o objetivo real dos empresários, empregadores e ou políticos encarregados de conceber políticas públicas.

Como já anotamos aqui, um bolsão considerável de desempregados é essencial para manter a lucratividade capitalista, tanto quanto o número de empregados a ser realmente posto a trabalhar. Em sua ânsia para manter o custo do trabalho o mais baixo possível, mantendo a classe trabalhadora o mais dócil possível, o capitalismo tende sempre a preferir altas taxas de desemprego e salários baixos, a baixas taxas de desemprego e salários altos.

Isso também explica por que, por exemplo, o mercado de ações sempre tende a subir, quando há relatos de desemprego crescente, e vice-versa. Também explica por que, colhendo vantagens do longo (e ainda em andamento) ciclo de recessão, os empresários/políticos criadores de políticas públicas nos países capitalistas centrais, embarcaram em programa de austeridade sem precedentes, com cortes de gastos e redução do setor público, movimentos cujo objetivo é enfraquecer o trabalho e baixar os salários (“reduzir o custo do trabalho”).

Em segundo lugar, o argumento keynesiano, de que um “ciclo virtuoso” de alto emprego, altos salários e alto crescimento seria facilmente alcançável, não fossem as “más” políticas do neoliberalismo ou a oposição dos empresários empregadores, baseia-se no pressuposto de que empregadores/produtores estariam “deixando de lado” os seus próprios interesses. Se prestassem atenção aos benefícios proverbiais dos “salários fordistas” sobre as vendas, prossegue o argumento keynesiano, eles conseguiriam ajudar-se simultaneamente a eles próprios e aos trabalhadores... e teríamos crescimento econômico e prosperidade para todos.

A visão do conhecido professor liberal (e ex-secretário do Trabalho no governo Clinton) Robert Reich sobre esse tema é típica do que dizem e pensam os keynesianos:

Durante a maior parte do século passado, a barganha básica no coração da economia norte-americana foi que empregadores pagassem o suficiente aos seus empregados, de modo a que empregados pudessem comprar o que os empregadores estivessem vendendo (...) Essa barganha básica criou um ciclo virtuoso de alto padrão de vida, mais empregos e melhores salários (...) A barganha básica acabou-se (...) Os lucros das empresas estão no alto, em vasta medida porque o salário está no muito baixo e as empresas não estão contratando. Mas esse é jogo de perde-perde para as empresas, no longo prazo. Sem número suficiente de consumidores norte-americanos, seus dias de lucros estão contados. Afinal, há um limite para o máximo de lucros que podem obter cortando na folha de pagamento dos norte-americanos. [14]

Há duas grandes falhas nesse argumento. O primeiro problema é que o argumento assume (implicitamente) que os produtores norte-americanos dependem dos trabalhadores que vivam nos EUA, não só como mão de obra, mas também como consumidores – como aconteceria numa economia fechada. Na realidade porém, os empresários norte-americanos estão-se tornando cada dia menos e menos dependentes seja da mão-de-obra doméstica seja para vendas, dado que vão expandindo sempre a produção e as vendas para mercados externos:

Nas duas pontas, na oferta [de empregos] e na demanda, o trabalhador/ consumidor norte-americano já é visto como cada dia mais inessencial. [15]

O segundo problema com o argumento é que salários e benefícios são categorias micro (ou de nível empresarial) decididas por empregados individuais e/ou gerentes de corporações, não por algum tipo de planejador macro (ou estatal/nacional) de demanda agregada (numa economia centralmente planejada). Produtores individuais (pequenos ou grandes) veem salários e benefícios primeiro, e sobretudo, como altos custos de produção que sempre têm de ser minimizados o mais possível; e só em segundo lugar (quando acontece!) é que os veem como parte da demanda nacional agregada que pode (por vias complexas e não garantidas) contribuir para a venda de seus produtos.


Marx caracterizou a capacidade e a disposição do capitalismo para criar grandes bolsões de desempregados (para criar uma classe trabalhadora cada vez maior e mais pobre), como capacidade e disposição para “miserificar” [é a “miserificação”, orig. ing. “immiseration”] e para submeter a força de trabalho – um mecanismo inserido no capitalismo, essencial para a “lei geral” da acumulação capitalista:

Decorre daí portanto que na proporção em que o capital acumula, a parte do trabalhador, seu pagamento, alto ou baixo, vai piorando. Essa, afinal, é a lei que equilibra o superávit de população, ou o exército industrial de reserva, conforme a extensão e a energia da acumulação, a lei que solda o trabalhador ao capital, mais firmemente do que as correntes de Vulcano prenderam Prometeu àquela montanha. Ela estabelece a acumulação da miséria, correspondente à acumulação do capital. Acumulação de riqueza num polo; e, portanto, ao mesmo tempo, acumulação de miséria, agonia do trabalho sem fim, escravidão, ignorância, brutalidade, degradação mental, no polo oposto, quer dizer, no lado oposto da classe que produz seu próprio produto na forma de capital. [16]

Conclusão

A teoria marxiana do desemprego, baseada na teoria do exército industrial de mão de obra de reserva, oferece explicação muito mais potente para os altos e prolongados níveis de desemprego, que a ideia keynesiana que atribui a praga do desemprego a políticas “malévolas” ou “mal orientadas” do neoliberalismo. Assim também, a teoria marxiana da subsistência dos salários de miséria oferece explicação muito mais cogente de como ou por que esses níveis de salários de miséria, além de uma predominância generalizada ou nacional da miséria, podem sempre andar de mãos dadas com altos níveis de lucros de empresas e do mercado de ações, do que as ideias keynesianas; para essas, altos níveis salariais seriam condição necessária para ciclo econômico de expansão.

Talvez mais importante que isso, a visão marxiana de que programas duradouros, significativos de redes de segurança social só podem ser criados e mantidos se houver dedicada e grande pressão das massas – e só em escala global coordenada − garantindo solução mais lógica e mais promissora ao problema dos sofrimentos econômicos que sempre pesam sobre a maioria da população mundial. Muito mais lógica e mais promissora que os pacotes “limpos”, puramente acadêmicos e essencialmente despolitizados dos estímulos keynesianos em nível nacional.

Não importa por quanto tempo ou com quanto entusiasmo os keynesianos de bom coração supliquem por empregos e por outras reformas de tipo New Deal; as suas súplicas para implantação desses programas serão sistematicamente ignoradas por governos que são eleitos e controlados por poderosos interesses do dinheiro.

A falha fundamental nas prescrições keynesianas de demanda administrada é que não passa de um conjunto de propostas populistas que atropelam a política de classes, quer dizer, que ignoram as condições necessárias para pôr em execução aquelas propostas.

Só com mobilizações de massas de trabalhadores (e outros movimentos de base) e com luta, em vez de só suplicar, por fatia justa do que, de fato, é produto do trabalho da maioria que trabalha, essa maioria poderá alcançar segurança econômica e dignidade humana.

Notas:

[1] Esse artigo é uma versão reduzida do Capítulo 2 de meu livro Beyond Mainstream Explanations of the Financial Crisis: Parasitic Finance Capital (Routledge 2014).
[2] Anwar Shaikh, “The Falling Rate of Profit and the Economic Crisis in the US”, in The Imperiled Economy, Book I, New York, NY: Union for Radical Political Economy (1987).
[3] Harry Shutt, The Trouble with Capitalism: An Enquiry into the Causes of Global Economic Failure, London: Zed Books (1998).
[4] Jan Toporowski, Why the World Economy Needs a Financial Crash and Other Critical Essays on Finance and Financial Economics, London: Anthem Press, 2010, p. 18.
[5] Jan Toporowski, Why the World Economy Needs a Financial Crash and Other Critical Essays on Finance and Financial Economics, London: Anthem Press, 2010, p 25.
[6] Citado em Alan Nasser, New Deal Liberalism Writes Its Obituary.
[7] Jerome S Kalur, Review of Andrew Kliman's: The Failure of Capitalist Production.
[8] Ibid.
[9] Ibid.
[10] Paul Krugman, No, We Can't? Or Won't?.
[11] Peter Gowan, “The Crisis in the Heartland,” in M. Konings (ed.) The Great Credit Crash, London and New York: Verso, 2010.
[12] Karl Marx, Capital, vol. 1, New York: International Publishers, 1967, p 639.
[13] International Labor Organization (ILO), The Global Employment Challenge, Geneva, 2008; as cited in John Bellamy Foster, Robert W McChesney and R Jamil Jonna, The Global Reserve Army of Labor and the New Imperialism.
[14] Robert Reich, Restore the Basic Bargain.
[15] Alan Nasser, The Political Economy of Redistribution: Outsourcing Jobs, Offshoring Markets.
[16] Karl Marx, Capital, vol. 1, New York: International Publishers, 1967, p 645.

Mentirosos em pânico

Giulietto Chiesa

MegaChip

Tradução / Há qualquer coisa de inquietante nesta repetição frenética de mentiras tão ridículas como as que a "América" e a Europa derramam, histericamente, sobre a atordoada opinião pública Ocidental.

Pode-se facilmente desmenti-las uma a uma, mas como podemos ignorar o terrível poder da desinformação – preparatória para a guerra — assim produzida? É como estar na frente de um personagem perturbado, angustiado, em estado de choque: tem de se perceber o porquê. Eu creio que todas estas cortinas de fumaça anunciam algo muito grave.

Repararam que já não se fala mais do Boeing da Malaysia AirLines? Quase um mês e meio passado e o que temos é o grande silêncio. Se eles tivessem as provas de culpabilidade dos russos —como alegaram desde o início todos os grandes meios de comunicação ocidentais—, eles tê-las-iam mostrado, e teriam reclamado sanções. Mas não o fizeram. Mas, claro, vão ter que acabar dizendo alguma coisa. Por exemplo, que foi a Ucrânia que derrubou o avião, talvez, com o tal famoso avião de caça que voava à volta do Boeing. Ou, melhor, irão dizer que os dados da caixa preta, e das gravações entre os controladores ucranianos em terra e a tripulação, foram perdidos acidentalmente.

E, então, todos compreenderão o que isso significa (exceto, talvez, dos mentirosos, inveterados, envolvidos no caso).

O outro elemento igualmente perturbador, e agora evidente, é que Kiev está em vias de perder a guerra. Pior ainda é uma derrota clara, com a agravante à cabeça da morte de soldados e oficiais sobre os quais Poroshenko deverá prestar contas perante os seus concidadãos. Mas, um fracasso tão brutal da aventura Euro-Maidan deve, obviamente, ficar escondido da opinião pública mundial: é um fracasso para Obama, para Merkel, para a Polônia e para os Estados Bálticos. Um desastre político, militar, diplomático.

Então, o que que se faz? Multiplica-se as mentiras! Rússia invade a Ucrânia. Ainda? Mas ela já não o havia feito?

Estas mentiras são frágeis, e se não houvesse tantos diretores inescrupulosos como Mauro no La Repubblica ou De Bortoli no Corriere della Sera (para citar apenas dois exemplos entre muitos outros), todo mundo se teria apercebido disto. A truncagem de fotos é mal feita, as declarações de Poroshenko são mal traduzidas. A maior parte das afirmações são infundadas. E o tudo o que eles contam é de uma ingenuidade total.

A Rússia "invade" a Ucrânia com 1.000 homens? Mas, vamos, está brincando? Como é que uma pessoa inteligente como Federico Rampini pode acreditar nisto? Eles não conseguiram aperceber-se que estes mesmos rebeldes, pela voz do primeiro-ministro do Donbass, disseram que entre eles estão 4.000 voluntários russos? Precisam desta história de 1.000 fantasmas enviados por Putin, que inclusive nem mesmo os observadores da OSCE viram passar?

É óbvio, porém, que Putin vem buscando, há vários meses, uma solução diplomática para um problema que ele não criou. É evidente que Putin não tem nenhuma intenção de "tomar Kiev". Muito menos o Donbass. Em Minsk, Putin deixou claro que ele não seria mediador ("é um problema interno da Ucrânia"). Se os líderes europeus não fossem estes estúpidos vassalos que se fazem saltar estalando os dedos, eles guardariam distância desta "América" que procura a guerra. Eles diriam a Obama que a batata quente era dele, já que foi ele quem a criou. Não era preciso chamá-lo mentiroso, bastava apenas deixá-lo sozinho. Mas eles continuam a comportar-se como lacaios.

É chegada a hora do povo italiano dizer basta. E, os únicos que o podem fazer são os do Movimento 5 estrelas, ou seja, Beppe Grillo. Que ele organize uma manifestação nacional para exigir uma mudança de rumo no nosso país. Que ele apele, assim, para todos, e não apenas para os seus, que ele ponha em prática um pacto de "salvação nacional", que ele dê a palavra a todos. É vital, trata-se de salvar a nossa pele, a de todos. Se esperarmos pelos "pacifistas", e pela esquerda, está tudo tramado.

A crise ucraniana acelera, não há tempo a perder. Muito poucos entendem que o perigo se aproxima a passos rápidos.

E a todos uma boa viagem ao redor do sol.

A "derrota catastrófica" de Obama na Ucrânia

“Pivô” de Washington atinge um muro de pedra

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Estamos assistindo um evento histórico e épico. O exército ucraniano regular e os batalhões punitivos estão sofrendo uma derrota catastrófica no sul de Donetsk. (...) Ainda não se sabe com clareza como a Junta planeja evitar a derrota total por aqui. (...) Ao desperdiçar as brigadas mais capazes, em termos de capacidades de combate, em operações sistemáticas de ofensiva, a Junta sofreu perdas enormes e, ao mesmo tempo, sofreu uma derrota puramente militar acachapante. O front sul entrou em colapso. 
The Southern Front Catastrophe – 27 de agosto de 2014, Colonel Cassad, Military Briefing, Novorossiya, Ucrânia

As notícias que chegam da Novorússia são incríveis (...) fontes noticiam que as forças da Novorússia já contornaram Mariupol vindas do norte e entraram na região de Zaporozhie! 
News from the Front, The Vineyard of the Saker

Barack Obama empurrou a Ucrânia para a beira de um colapso político, econômico e social. Agora quer culpar a Rússia pelo dano que causou. É absurdo. Moscou não é de modo algum responsável por a Ucrânia estar no rumo da anarquia. É Washington. Washington já fez o mesmo no Iraque, no Afeganistão, na Líbia e agora faz na Síria, sempre Washington. Quem queira o culpado, culpe Obama.

O problema da Ucrânia começou quando o Departamento de Estado dos EUA derrubou o presidente eleito em fevereiro e o substituiu-o por um idiota servil, que obedece o que Washington manda. O novo governo da “junta” imediatamente iniciou uma  guerra total contra os ucranianos de língua russa no leste, o que dividiu a população civil e levou o país à ruína. O plano para “pacificar” o leste do país foi concebido em Washington, não em Kiev, não, com certeza, em Moscou.

Moscou pediu repetidas vezes o fim da violência e o reinício de negociações, mas cada pedido foi descartado pelo fantoche de Obama em Kiev, o que levou, sempre, a novas rodadas de hostilidades. Washington não quer a paz. Washington quer a mesma solução que impôs no Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria, quer dizer: um estado caótico falido, no qual animosidades étnicas e sectárias são mantidas em ponto de ebulição, de modo que seja possível fazer avançar sem resistência a implantação de bases americanas operacionais, para que os países possam sem sangrados, seus recursos extraídos à vontade, e mais uma nação formalmente independente possa ser reduzida a “estado permanente de dependência colonial” (Chomsky). Esse é o plano de jogo básico, onde quer que Washington ponha a mão. Vale também para a Ucrânia. A única opção que resta às pessoas é se armarem e resistir. Foi o que fizeram.

Donetsk e Lugansk formaram milícias e devolveram a guerra aos inimigos. Enfrentaram o exército-por-procuração de Obama em combate e fizeram dele picadinho. Por isso Obama mandou seus propagandistas inventarem uma “invasão russa”. O governo precisa distrair as massas, porque as forças da Novorússia (também chamadas “separatistas pró-Rússia”) estão aplicando uma surra enorme nas legiões obamistas. Eis por que Washington e Kiev estão em modo de pânico total, porque não era para acontecer o que está acontecendo. Obama imaginou que o exército esmagaria a insurreição, atropelaria a resistência e o levaria um passo mais perto de conseguir implantar bases da OTAN e mísseis de defesa no flanco ocidental da Rússia.

Pois e não é que... Adivinhem! Nada está acontecendo desse modo e provavelmente nunca acontecerá desse modo. Os combatentes pró Novorússia são pessoas duras demais, espertas demais, motivadas demais para deixarem-se assustar pelos soldados frouxos de Obama (Assistam a esse vídeo de 15 minutos para conhecer o comando da Novorrússia. Vocês verão por que os rebeldes estão vencendo).

Vladimir Putin não mandou tanques nem artilharia para a Ucrânia. Não precisa mandar. As milícias são constituídas de veteranos que sabem combater e combatem muito bem. Perguntem a Poroshenko, cujo exército já entendeu, ao longo das semanas recentes. Leiam o que Itar Tass relatou quinta-feira:

Entre 16 e 23 de agosto, os insurgentes capturaram 14 T-64s (carros), 25 VCI (Veículos de Combate de Infantaria), 18 VTT (Veículos de Transporte de Tropas), um sistema “Uragan” de lançamento simultâneo de foguetes, 2C1 “Gvozdika”, 14 howitzers D-30, 4 morteiros de 82-mm, um sistema de defesa aérea 23-mm ZU-23-2 e 33 veículos. (East Ukraine militias seize large amount of Ukrainian armor, Itar Tass)

Estão vendo o quadro? O exército ucraniano está sendo batido como massa de bolo, o que implica dizer que a gloriosa “estratégia de pivô” de Obama atingiu diretamente um muro de pedra.

Resumo da história: a Rússia não invadiu a Ucrânia. Os propagandistas na imprensa só estão tentando ocultar o fato de que as Forças Armadas da Novorússia (FAN), que os “jornalistas” insistem em chamar de “separatistas pró-Rússia”, estão chutando traseiros, por lá, a valer. Isso é o que está realmente acontecendo. Por isso Obama e sua gangue de neoconservadores estão em fúria. Porque não sabem o que fazer na sequência; então, voltaram à posição-padrão em todos os casos: mentir até que consigam inventar algum plano.

Naturalmente, vão culpar Putin pela confusão em que se meteram. O que mais poderiam fazer? They’re getting their heads handed to them by a superior army.. Como é que explicam “lá em casa”? Observem o que escreve Michael Gordon, escritor de ficção do The New York Times (que, não surpreendentemente, assinou colunas ditas “jornalísticas” com a infame Judy Miller, que empurraram os EUA para a guerra do Iraque):

Determinada a proteger a revolta pró-Rússia no leste da Ucrânia, a Rússia ampliou o que funcionários ocidentais e ucranianos descreveram como invasão invisível na quarta-feira (27 de agosto de 2014), enviando tropas blindadas através da fronteira, expandindo o conflito para uma nova seção do território ucraniano. 
A mais recente incursão, que segundo militares ucranianos incluía cinco veículos blindados para transporte de pessoa, foi, no mínimo, o terceiro movimento de tropas e de armas da Rússia que cruzaram a parte sudeste da fronteira essa semana, comprometendo assim os ganhos que as forças ucranianas vinham obtendo na ação de enfraquecer os insurgentes em seus redutos de Donetsk e Lugansk bem mais ao norte. Evidência de que está acontecendo alguma coisa ali foi a retirada em pânico de soldados ucranianos na terça-feira (26 de agosto de 2014), ante um exército que, segundo eles, avançava da fronteira russa. (Ukraine Reports Russian Invasion on a New Front, The New York Times)

“Invasão invisível”? Em outras palavras, Gordon já inventou um substituto para as Armas de Destruição em Massa. Que surpresa.

E não é nem mesmo boa ficção: está mais para Contos de Fadas de Grimm. E onde estão as imagens? Se há imagens, publique, Gordon, queremos ver. Mas, por favor, cuide para fazer melhor do que da outra vez, com as fotos falsificadas que você publicou, de soldados russos que estariam “operando” na Ucrânia. Essa foi outra mentira, não foi? (Ver: Another NYT-Michael Gordon Special?, Robert Parry, Consortium News).

Ou, então, como o caso do avião malaio. Lembram como Kerry correu para parecer em cinco programas de TV logo no dia seguinte, para fazer as mais espúrias acusações sobre mísseis terra-ar e comboios fantasmas russos, sem nenhuma prova? E depois, logo no dia seguinte, especialistas militares russos sérios, falando com calma e precisão, mostraram várias provas concretas, de dados de radar e satélites, que esclareciam que, sim, um jato de combate ucraniano foi fotografado bem próximo ao MH17, momentos antes de o avião ser derrubado. (E a BBC entrevistou testemunhas oculares que viram o jato ucraniano SU 25 ao lado do avião de passageiros.)

Então, em quem você acredita: em Kerry ou nos fatos? E, dessa vez, vai acreditar em quem? Em Gordie do New York Times ou no monitor Andrey Kelin da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que disse ontem:

Temos dito que nenhum envolvimento russo foi avistado, não há soldados ou equipamentos presente. 
Acusações sobre comboios de carros blindados de transporte de tropas foram ouvidas na semana passada e na semana anterior. Todas essas acusações comprovaram-se falsas naquele momento e novamente se comprovaram falsas agora. (RT)

Repitam: nenhum envolvimento russo”. “Todas essas acusações comprovaram-se falsas”. “Falsas” significa falsas, falsificadas, mentirosas, inventadas, propaganda, conversa fiada, mentira, o que, aliás, parece ser a área de especialização de Gordon no New York Times.

Qualquer pessoa que esteja acompanhando o conflito sabe que a Junta apoiada por Washington em Kiev travou uma guerra contra o próprio povo no leste; e que bombardearam hospitais, escolas, bibliotecas, residências, prédios públicos, bairros residenciais, etc., tudo isso para arrastar Putin para uma guerra que sabotaria a integração econômica entre a União Europeia e Moscou e promoveria os “interesses” dos EUA na área. É tudo geopolítica. Lembram-se do pivô para a Ásia? Em tempo real, significa bombardeio contra civis na Ucrânia. Um monte de cadáveres, para que os rapazes do Big Money em Washington consigam continuar com as garras fincadas no poder global por mais um, dois séculos.

Bem, podem abandonar o delírio, principalmente porque um grupo de ex-militares escolados no leste da Ucrânia organizaram eles mesmos suas milícias efetivas e letais, que em pouco tempo puseram em fuga os golpistas. Se você acompanha os eventos em blogs que veiculam informação real, dia a dia, você sabe que o que aqui escrevo é a mais pura verdade. As gangues desorganizadas e desmoralizadas que alguns ainda chamam de Exército Ucraniano foram postas em fuga, em praticamente todos os encontros que tiveram com as milícias novorussas. Eis o que escreveu o blogueiro de Moon of Alabama, na quinta-feira:

A moral deles está péssima, o equipamento é velho, a munição é pouca e todo o objetivo da campanha deles é duvidoso. Agora, qualquer ameaça de resistência e contra-ataque já os põe em correria.

Poderia acrescentar à litania o fato de que são governados pelo mais perfeito idiota que algum dia foi presidente de alguma coisa, Petro Poroshenko, bufão rechonchudo que pensa que é um Heinz Guderian distribuindo suas divisões Panzers pelas florestas de Ardennes rumo a Paris. Que piada!

O New York Times até admite que o exército ucraniano está muito desmoralizado. Dê uma olhada nisso:

Alguns soldados ucranianos parecem desinteressados da luta. O comandante dessa unidade, parte da 9ª Brigada de Vinnytsia, no oeste da Ucrânia, ordenou o mais que pôde para os seus soldados, sem conseguir que ninguém se movesse. “Certo”, disse ele. “Os que se recusam a lutar sentem-se desse lado, separados dos demais”. 11 homens mudaram de lugar, e os demais voltaram à cidade. 
Há soldados em plena debandada: um ônibus urbano lotado deles foi visto na estrada em direção oeste, com cortinas vermelhas baixadas sobre as janelas com vidros quebrados por tiros. (New York Times).

Alguém algum dia ouviu falar de UM comandante que pergunta quem quer combater e quem não quer? É ridículo. Esse é UM exército derrotado, e qualquer um vê. Não é difícil compreender o estado de espírito do recrutado mediano. A maioria dos rapazes recrutados não tem nem vontade nem estômago para matar seus próprios conterrâneos. Só quer que a guerra acabe, para poder voltar para casa. Por isso são tão facilmente derrotados: porque o coração deles não está nessa luta. Por sua vez, os agricultores, donos de lojas e os mineiros que constituem as milícias de defesa do Donbass, esses, sim, estão altamente motivados. Para eles, a coisa não é só geopolítica. Muitos desses homens viveram toda a vida nessas cidades. E agora veem vizinhos assassinados nas ruas ou retiram cadáveres de amigos, conhecidos e parentes, dos escombros de prédios bombardeados. Para eles, a guerra é real. E é pessoal. Estão defendendo a cidade deles, a família deles, o modo como sempre viveram ali. Dessa matéria prima se faz a coragem e a decisão de não ceder. Aqui está mais do New York Times:

“The United States has photographs that show the Russian artillery moved into Ukraine, American officials say. One photo dated last Thursday, shown to a New York Times reporter, shows Russian military units moving self-propelled artillery into Ukraine. Another photo, dated Saturday, shows the artillery in firing positions in Ukraine. 
Advanced air defenses, including systems not known to be in the Ukrainian arsenal, have also been used to blunt the Ukrainian military’s air power, American officials say. In addition, they said, the Russian military routinely flies drones over Ukraine and shares the intelligence with the separatists.” (Ukraine Reports Russian Invasion on a New Front, New York Times)

Photos? What photos? Gordon doesn’t have any photos. Ah, but he has heard about a New York Times reporter who saw a photo.

This is ridiculous, but, then again, isn’t that what you’d expect from a journalist who helped craft the pretext for invading Iraq?

Eis como o ministro Sergei Lavrov, das Relações Exteriores da Rússia, respondeu aos boatos de que teria havido “invasão russa”:

Não é a primeira vez que ouvimos palpites desenfreados, e, até agora, não se viu jamais fato algum, ninguém apresentou qualquer fato, qualquer prova de alguma coisa  (...). 
Houve quem falasse de imagens de satélite que mostrariam movimentação de tropas russas. Foi-se ver, eram imagens de videogames. Novas acusações que apareceram foram desse mesmo tipo, dessa qualidade. 
Reagiremos, persistindo em nosso esforço para reduzir o derramamento de sangue e apoiar negociações sobre o futuro da Ucrânia, com a participação de todas as regiões e todas as forças políticas da Ucrânia, termos que já haviam ficado acertados em abril, em Genebra, mas que estão agora sendo deliberadamente desrespeitados por nossos parceiros ocidentais. (RT)

Aí está, portanto; não há qualquer invasão russa, assim como não havia Armas de Destruição em Massa, nem laboratórios móveis no Iraque, nem “tubos de alumínio”, nem gás Sarin na Síria, etc., etc., etc. É tudo mentira, distribuída por uma mídia servil que só faz promover a agenda de um establishment político belicista que quer escalar a conflagração no leste da Ucrânia a qualquer custo. Mesmo que leve a uma terceira guerra mundial.

27 de agosto de 2014

Não houve vitória de Israel, apesar de semanas de devastação

Os palestinos ganharam: eles ainda estão em Gaza, e o Hamas ainda está lá

Robert Fisk


Tradução / Não foi uma famosa vitória de Israel e isso é o que os palestinianos de Gaza estão a celebrar. Muitos, nos meios internacionais de comunicação, mostraram a sua desaprovação com o fogo de artifício em Gaza na noite da terça-feira. Mais de 2.100 mortos, 1.700 dos quais civis, e 100 mil feridos, o que têm para comemorar? O fim de uma matança? A paz?

Bom, de fato, Hamas, o horrível, sem escrúpulos e terrorista Hamas que nós (isto é o Ocidente, Tony Blair, Israel, Estados Unidos e todos os homens e mulheres honrados) não queremos nem sequer mencionar que saiu vitorioso.

Israel disse que o Hamas tem que ser desarmado. Não foi desarmado. Israel disse que devia ser esmagado, destruído e erradicado, e não foi nem esmagado nem destruído nem erradicado. Os túneis serão arrasados, proclamou Israel, mas não foi assim. Todos os mísseis serão confiscados, mas não foram. Morreram 65 soldados israelenses e para quê? Do subsolo, literalmente, trepou na terça-feira a liderança política do Hamas (e da Jihad Islâmica) cujos irmãos participaram nas conversas de paz no Cairo, muito contra a vontade de Israel, Estados Unidos e Egito.

Em Israel, significativamente, não houve celebrações. O governo de ultra-direita de Benjamin Netanyahu uma vez mais enfatizou as suas exigências em caso de vitória e terminou com outro cessar-fogo tão débil quanto a frágil trégua que se seguiu às guerras em Gaza de 2009 e 2012.

No estrito sentido físico, Israel ganhou; todas essas vidas destruídas, os edifícios arrasados e as infraestrutura rebentadas não sugerem que os palestinos “prevaleceram” (para usar um termo do Bushismo). Mas estrategicamente os palestinianos ganharam. Continuam em Gaza, o Hamas ainda está no território de Gaza e o governo de coligação entre a Autoridade Nacional Palestina e o Hamas ainda parece ser uma realidade.

Disse-se muitas vezes que os fundadores do Estado de Israel enfrentavam um problema: uma terra chamada Palestina. Eles lidaram com este problema de maneira fria, impiedosa e eficiente. Agora o problema é: os palestinos. A sua terra bem pôde ter sido apropriada por Israel, os territórios que lhes sobraram estão a encher-se de colonatos israelenses, mas esses miseráveis palestinos simplesmente não se vão embora. E matá-los em grande número – especialmente frente às câmaras de televisão – está a tornar-se excessivo, mesmo para aqueles que ainda tremem de medo quando alguém sussurra a calúnia “anti-semitismo”.

Os porta-vozes israelenses chegaram mesmo a comparar as suas ações com os sangrentos bombardeamentos da aviação britânica durante a Segunda Guerra Mundial, o que é uma ação de propaganda que é duvidoso que seja bem sucedida em pleno século XXI.

Mas o mundo poderá fazer reflexões infelizes sobre outras coisas. Os porta-vozes do Hamas, por exemplo, com as suas vociferadas declarações sobre a destruição de Israel e do sionismo; exageros que são tão absurdos como as desculpas de Israel. A maior vitória que o mundo já viu! Sim, claro! O Hezbollah afugentou todo o exército israelense do Líbano após uma guerra de guerrilhas de 18 anos, com muito mais baixas para ambos lados do que as que o Hamas pode imaginar.

E como esquecemos rapidamente os esquadrões assassinos do Hamas que executaram na semana passada pelo menos 21 espiões, dos quais duas mulheres, a sangue frio em plena rua contra as paredes de Gaza. Notei que estas pessoas não apareceram no saldo total de mortos palestinos e pergunto-me porquê. Será que não são considerados humanos?

Numa semana em que o EIIL ostentou as suas execuções, o Hamas demonstrou que o seu velho instinto assassino continua intato. Que esperávamos depois de três dos seus três principais líderes militares terem sido liquidados pelos israelenses? É interessante que nem um palestino protestou contra essas execuções sem tribunal nem júri, assim como ninguém protestou pela violação dos direitos humanos de 17 espiões palestinos que foram executados em Gaza na guerra de 2008 e 2009 (que pelo visto foi esquecido). Outros 6 espiões esquecidos foram executados em 2012.

E depois temos as vítimas militares. Destas umas 500 eram combatentes do Hamas, em 2008-2009 talvez tenham morrido 200. Mas nessa guerra anterior só seis israelenses morreram. Na mais recente ofensiva israelense este número foi multiplicado por 10. Por outras palavras, o Hamas, e suponho que a Jihad Islâmica, aprenderam a lutar. O Hezbollah, o exército guerrilheiro mais eficiente de todo o Oriente Médio certamente notou isso. Além disso, os foguetes de Gaza estenderam-se por milhares de quilômetros quadrados de Israel, apesar da sua “Cúpula de Ferro”. Antes ameaçavam apenas quem vivia em Sderot; agora foram cancelados voos no aeroporto de Ben Gurion.

Falta mencionar que Mahmoud Abbas se está a arrastar perante os egípcios e os americanos, agradecido pela trégua. Mas no novo governo palestino de unidade, o Hamas será quem diz a Abbas quantas concessões está autorizado a fazer.

Quanto ao presidente egípcio, o marechal al-Sisi, longe de isolar a Irmandade Muçulmana e pôr de lado o Hamas para fazer o seu acordo de paz feito no Cairo, viu-se obrigado a reconhecer o grupo político palestino como um participante árabe primordial na negociação da trégua.

Uma coisa estranha, no entanto. Agora, o Egito bombardeia os islâmicos na Líbia enquanto os Estados Unidos se preparam para bombardear os islâmicos da Síria, depois de acabarem de bombardear os islâmicos no Iraque. Mas em Gaza os islâmicos acabam de ganhar. Isto certamente não pode durar.

Nova rebelião laboral na China

A militância dos trabalhadores mostrou falhas quer no plano econômico da China quer nos sindicatos oficiais do Partido Comunista.

Eli Friedman

Jacobin

Tradução / Durante anos, uma forte aliança entre o capital e os mais baixos níveis do estado chinês significou que as greves eram tratadas ou com repressão policial ou com um sistema de mediação ad hoc entre o sindicato e os funcionários governamentais que se concentrava quase exclusivamente em retomar a produção sem ter em conta os resultados para os trabalhadores.

Mas por volta de 2010, o governo central chinês e as autoridades provinciais de Guangdong não só estavam prontos para procurar um novo modelo de acumulação no delta do Rio das Pérolas como estavam dispostos a (indiretamente) aliar-se aos trabalhadores revoltosos para realizar este objectivo.

Tal aliança, conquanto tenha sido condicional e efémera, surgiu no decurso da greve da Nanhai Honda que, por sua vez, permitiu aos grevistas alcançar ganhos econômicos e começar a desenvolver objetivos políticos. Em grande parte por causa desta pequena abertura política, o carácter do protesto na onda grevista de 2010 mostrou algumas tendências não habituais ( senão mesmo sem precedentes), com significado para o facto de que as exigências tinham uma natureza mais ofensiva do que defensiva.

No entanto, mesmo embora os trabalhadores da Honda tenham tido importantes ganhos econômicos, todos os níveis do estado e dos sindicatos permanecem vigilantes quanto ao desenvolvimento das bases autônomas do poder operário. Embora tenham ocorrido ganhos econômicos na onda grevista de 2010, persiste o desapontamento dos trabalhadores com os sindicatos de empresas ligadas ao estado.

A Explosão na Honda

A cadeia de produção da Honda na China consiste num complicado sistema de propriedade. A empresa mais importante é a Guangzhou Honda, uma aliança (joint venture) a 50% com a Guangzhou Automobile Group Corporation detida pelo estado, onde a maioria das unidades é produzida. Outras fábricas de montagem incluem a Honda Automobile (China) que produz para os mercados estrangeiros e a joint venture Dongfeng Honda localizada em Wuhan.

Estas fábricas são servidas por uma variedade de fabricantes de peças incluindo a Nanhai Honda, totalmente detida por japoneses. Arrancando com a produção em Março de 2007 com um investimento inicial de $98 milhões de dólares americanos, a companhia foi a quarta fábrica de produção de transmissões automáticas integradas da Honda, no mundo. Para além de produzir transmissões, a fábrica também faz eixos de transmissão e barras de ligação para os motores.

Em parte porque a Honda acreditava que era altamente improvável paragens no trabalho na autoritária China, a fábrica Nanhai foi estabelecida como o único fornecedor de diversas peças chave para o funcionamento de toda a China. Produzindo a partir da China em vez de do Japão ou do sudeste asiático, a Honda podia reduzir custos, poupando no transporte e na mão-de-obra.

Em parte por causa da posição chave que a produção automóvel detém na economia, o governo deu primazia a manter boas relações laborais neste sector. Em resultado disso, todas as fábricas de montagem e de produção de peças da Honda em Guangdong, estabeleceram sindicatos. O sindicato na Guangzhou Honda tinha recebido vários prémios oficiais pelo seu bom trabalho e frequentemente recebia a visita de delegações de sindicalistas estrangeiros.

Mas havia limites rígidos até onde mesmo este sindicato modelo podia apoiar os seus trabalhadores. Durante um almoço em Dezembro de 2008 entre o presidente da Guangzhou Honda e dirigentes sindicais dos EUA, a conversa virou-se para a cooperação internacional entre sindicatos do sector automóvel. O presidente do sindicato disse que tinha visitado o Japão antes para trocar opiniões com outros representantes dos sindicatos automóveis e que sentia que tinham muito em comum.

Aludindo às dificuldades que as fábricas automóveis americanas enfrentavam na altura, gracejava que tinha dito ao seu homólogo japonês, “Temos um sindicato forte, como vocês. Mas não queremos ser demasiado fortes; veja só todos os problemas que eles têm nos Estados Unidos!”

De facto, sucedeu que a verdadeira fraqueza do sindicato da fábrica fornecedora de Nanhai tornou impossível que as reivindicações dos trabalhadores fossem ouvidas sem o recurso à greve; não apenas a fábrica de Nanhai, mas, em consequênca, o funcionamento da Honda em toda a China.

Embora os trabalhadores em Nanhai há muito estivessem descontentes com os salários e tivessem discutido entrarem em greve, nenhum dos trabalhadores sabia que Tan Guocheng ia iniciar a greve. Uma semana antes da greve, Tan encontrou-se com quinze trabalhadores do departamento de montagem onde trabalhava; antes, “só tinham tido conversas ocasionais sobre o autocarro (shuttle bus) que estavam a produzir.”

Um trabalhador deste departamento disse que a ideia tinha sido discutida, mas que ninguém a queria liderar. Em entrevistas separadas, trabalhadores de outros departamentos confirmaram que não tinham ouvido nada sobre a greve até ela ter começado. Mas de acordo com Tan, mais de vinte pessoas, a maioria de Hunan, estavam dentro do plano na altura em que ele foi posto a andar.

Na manhã de 17 de Maio, logo que a produção começou à hora habitual, às 7:50, Tan acionou o botão de paragem de emergência e as duas linhas de produção no departamento de montagem foram paradas. Tan e o co-organizador Xiao gritaram para cada linha de montagem: “Os nossos salários são tão baixos, vamos parar o trabalho!”

Para a maioria dos cerca de dois mil trabalhadores da fábrica, esta foi a primeira vez que ouviram falar da greve. Mesmo um trabalhador que era do departamento de montagem e tinha ouvido falar da possibilidade da greve, foi apanhado desprevenido: “Não sabia que a greve ia acontecer… Não estava lá na altura [porque tinha ido à casa de banho] Quando saí da casa de banho vi que não havia ninguém. Fiquei parado a olhar: ‘Que é isto, não se trabalha?’ ”

À medida que os trabalhadores do departamento de montagem se deslocavam através das instalações, gritavam para os seus colegas pararem o trabalho e juntarem-se-lhes para lutarem por salários mais altos. Inicialmente, tiveram digamos que uma recepção fria nos outros sectores e finalmente iniciaram um sit-in em frente da fábrica com apenas cerca de cinquenta trabalhadores.

Mas dada a posição crítica do sector da montagem no processo de produção, os outros departamentos foram forçados a fechar numa questão de horas. Nessa tarde, a direcção tinha colocado caixas de sugestões e suplicado aos trabalhadores que retomassem o trabalho, prometendo-lhes que iriam considerar a sua reivindicação de melhores salários e dar uma resposta completa dentro de quatro dias. Talvez por causa do seu número relativamente pequeno, os grevistas acreditaram na palavra da direcção e a produção foi retomada nesse mesmo dia.

A 20 de Maio, a direcção, os funcionários governamentais, os funcionários sindicais e os representantes dos trabalhadores iniciaram as negociações. A exigência dos trabalhadores nesta altura era simplesmente aumentar todos os salários em 800 RMB. Entretanto, os grevistas voltaram ao trabalho, embora a produção tenha reduzido muito durante estes dias.

No dia seguinte, as negociações foram interrompidas e a greve continuou. No fim de semana, os organizadores continuaram a fazer contactos e o número de grevistas em frente da fábrica subiu para cima de 300. A 22 de Maio a direcção anunciou que Tan e Xiao, os líderes iniciais da greve, tinham sido despedidos.

Mas com esta tentativa de repressão apenas lhes saiu o tiro pela culatra, porque no dia seguinte a greve ficou mais forte. Agora, preocupados com o seu sustento, os trabalhadores cobriam os rostos com máscaras cirúrgicas, mas continuaram a resistir.

Ao longo deste processo, o sindicato da empresa alternou entre a passividade e a hostilidade. Os trabalhadores queixaram-se que durante a sessão de negociação, o representante do sindicato não disse nada e apenas se limitou a observar. Quando a greve começou, uma equipa de investigadores do departamento laboral do distrito e o sindicato foram enviados para a fábrica.

Não deixando dúvidas quanto ao lado em que estavam da luta, os funcionários anunciaram: “De acordo com as normas relevantes, não encontrámos nada que configure que a fábrica esteja a violar quaisquer leis.”

Um trabalhador que foi seleccionado como representante estava muito desapontado com o comportamento do presidente do sindicato da empresa, Wu Youhe, na primeira ronda de negociações:

[O presidente do sindicato da empresa] convidou um advogado [para a primeira ronda de negociações]. O advogado disse que a nossa greve é ilegal. Ele [O presidente do sindicato] não tinha opiniões próprias e não tomava decisões. Perguntava sempre ao director geral o que havia de fazer. No fundo, ele é presidente e não é controlado pela companhia; tem o seu poder. Mas para ele, tudo tinha de passar pelo director geral e ajudava o director geral a refutar aquilo que nós dizíamos.

A 24 de Maio, os representantes dos trabalhadores foram convencidos a voltar à mesa das negociações numa sessão presidida pelo presidente do sindicato de empresa. Continuando a tentar servir como intermediário, o presidente do sindicato tentou persuadir os trabalhadores a aceitar a oferta da direcção de um aumento de 55 RMB no subsídio de alimentação – muito longe dos 800 RMB que eles reivindicavam.

Esta ineficácia não estava perdida nos trabalhadores, comentando um grevista: “O sindicato disse que defendia os nossos interesses. Disseram que nós, empregados, podíamos entregar-lhes quaisquer reivindicações, que eles as transmitiriam à direcção e que resolveriam as nossas questões. Mas não fizeram nada disso. “

Os grevistas recusaram a oferta da direcção a 24 de Maio e a situação subiu de tom. A 25 de Maio as coisas ficaram muito mais tensas quando todas as quatro fábricas de montagem da Honda na China estavam completamente paradas por causa da falta de peças.

Contando originalmente com uma força de trabalho disciplinada, a Honda só tinha um fornecedor de transmissões no país e todas as quatro fábricas de montagem na China estavam altamente dependentes da Nanhai. Calcula-se que as perdas diárias combinadas das cinco fábricas foram de 240 milhões RMB.

A direcção cedeu, produzindo uma segunda oferta de aumentos salariais a 26 de Maio. Esta proposta apontava para o aumento dos salários dos trabalhadores habituais em cerca de 200 RMB por mês e 155 em subsídios para despesas e um aumento do salário de 477 para contratados que estivessem na fábrica há mais de três meses. Mas os trabalhadores também rejeitaram esta oferta e a greve continuou.

Neste ponto, os trabalhadores formalizaram as suas reivindicações. A acrescentar à primeira exigência de aumento de salários para todos os trabalhadores em 800 RMB, reivindicavam também que os trabalhadores despedidos fossem readmitidos, que não houvesse castigos contra os grevistas e que o sindicato da empresa fosse “reorganizado” (chongzheng). De acordo com alguns grevistas, a exigência de reorganização do sindicato provinha do que tinham visto do falhanço do sindicato em representar activamente os trabalhadores nas anteriores reuniões de negociação.

Com as perdas a subirem, a direcção ficou desesperada e fez o máximo para tentar quebrar a luta e a unidade dos grevistas. O ataque mais directo foi a 28 de Maio quando os directores tentaram forçar os trabalhadores a assinar um compromisso de que “nunca mais iriam dirigir, organizar ou participar em diminuição da produção, paragens no trabalho ou greves.”

Mas esta táctica produziu o efeito contrário na medida em que praticamente ninguém concordou em assiná-lo. Um trabalhador disse: “logo que o vi [o acordo] deitei-o fora. Não vamos assiná-lo.” Um grupo de trabalhadoras disse que “ninguém mexeu uma mão.” Quando lhe perguntaram se tinham medo de recusar a exigência da direcção, uma trabalhadora insistiu: “Ninguém estava com medo! Quem havia de estar? Se eles quiserem despedir-nos, então vão ter que despedir-nos a todas!”

A greve estava a entrar numa fase decisiva. Provavelmente já a greve mais longa alguma vez feita por trabalhadores imigrantes na era da reforma, a situação tinha-se tornado uma crise política para o estado local. Apesar dos crescentes custos económicos e políticos, os acontecimentos de 31 de Maio apanharam toda a gente de surpresa.

O Sindicato como fura greves

Quando os trabalhadores chegaram à fábrica nessa manhã, foram informados que cada secção teria reuniões para discutir a resolução da greve. Quando os trabalhadores esperavam em várias salas do principal edifício da administração, apareceu um grande contingente de carrinhas e autocarros.

Os veículos tinham dúzias de homens, todos eles com chapéus amarelos e com emblemas onde se lia “Federação de Sindicatos de Shishan”, que é a organização sindical imediatamente subordinada do ramo do sindicato da empresa.

Pouco depois, o departamento de montagem, fundamental para reanimar a produção, encontrou-se com o director geral da fábrica e fez uma nova oferta para um aumento salarial. Embora ainda insatisfeitos com a nova oferta da direcção, os trabalhadores foram persuadidos a voltar às suas linhas de montagem. Começaram a surgir indicações de que a unidade dos grevistas se desmoronava, pois alguns departamentos começaram a ligar as suas linhas de montagem. Indivíduos do sindicato dispersaram-se por cada um dos departamentos e encorajaram os trabalhadores a retomar imediatamente a produção.

Quando alguns trabalhadores do departamento de montagem se deslocaram para regressar à área em frente da fábrica onde se tinham manifestado durante as duas últimas semanas, surgiu um confronto com o grupo do sindicato. Tal como foi confirmado de múltiplas fontes independentes, o pessoal do sindicato começou a filmar os trabalhadores e exigiu que regressassem à fábrica e parassem com a greve.

Rapidamente se criou uma situação de tensão que em breve deu azo a um confronto físico durante o qual vários trabalhadores foram agredidos por indivíduos do sindicato. Isto enfureceu os trabalhadores e uma greve que parecia estar a perder gás rapidamente ganhou força.

Trabalhadores de outros departamentos que tinham retomado a produção correram para o local logo que tiveram notícias da violência e rapidamente se juntou uma grande multidão. Ocorreu um novo confronto físico e, desta vez, o lado do sindicato foi ainda mais violento do que antes, com vários trabalhadores a sofrer ligeiros ferimentos. Os agressores regressaram rapidamente aos seus veículos e recusaram-se a sair.

Neste ponto, o governo decidiu que as coisas tinham ido longe demais e tomou medidas para resolver o conflito. A polícia anti-motim foi chamada, embora nunca se tenha envolvido com os trabalhadores. Além disso, as autoridades fizeram um cordão de protecção exterior à fábrica de modo a impedir a entrada a quem quer que fosse. Quaisquer que fossem as agências governamentais que tivessem apoiado a greve pacífica não estavam interessadas em mais confrontos violentos nem na possibilidade de que os grevistas pudessem deixar os campos da produção.

É certo que a maior parte dos que vinham substituir os grevistas não eram de facto funcionários sindicais. A primeira coisa referida por muitos trabalhadores foi que parecia absurdo que a federação ao nível municipal com apenas alguns membros pagos pudesse recrutar tantos funcionários de outras sucursais sindicais. Um trabalhador envolvido na contenda disse que alguns dos furagreves (todos homens) tinham brincos e tatuagens, coisas que os funcionários sindicais dificilmente exibiriam.

Mas se a maior parte dos capangas não eram de facto funcionários sindicais, não se pode, no entanto, negar que a federação sindical do distrito teve um papel na organização dos furagreves uma questão que se tornou óbvia numa carta que escreveu aos trabalhadores. Um trabalhador especializado do departamento de montagem foi frontal na sua apreciação: “Claro que foi ideia do sindicato. Quem mais podia ter tido tão estúpida ideia? Só os sindicatos chineses podiam ter pensado nisto.” Não é, contudo, claro até que ponto a federação sindical estava a agir a pedido da direcção ou se estava a executar uma acção independente.

Quando os trabalhadores receberam no dia seguinte uma carta aberta das Federações dos Sindicatos do Município de Shishan e do Distrito de Nanhai, os dirigentes sindicais locais deram uma desculpa morna e não denunciaram a violência que tinha ocorrido no dia anterior, nem tentaram negar que tinham organizado os furagreves:

Ontem, o sindicato participou em reuniões de mediação entre os trabalhadores e a direcção da Honda. Porque uma parte dos empregados da Honda recusou regressar ao trabalho, a produção da fábrica foi severamente reduzida. No processo de discussão com cerca de quarenta empregados, a certa altura ocorreram alguns malentendidos e desacordos verbais de ambas as partes. 
Devido ao estado emocional impulsivo de alguns dos empregados, ocorreu um conflito físico entre alguns empregados e representantes do sindicato. Este incidente deixou uma impressão negativa nos empregados. Uma parte destes empregados, depois de terem sabido do incidente, parece terem interpretado erradamente as acções do sindicato como estando ao lado da direcção. O incidente de ontem deixou-nos completamente chocados. Se as pessoas sentem que alguns dos métodos usados no incidente de ontem foram um pouco difíceis de aceitar, pedimos desculpas. 
O comportamento do acima mencionado grupo de perto de quarenta trabalhadores já prejudicou os interesses da maioria dos empregados. Além disso, tal comportamento prejudica a produção da fábrica. O facto de o sindicato se ter levantado e admoestado estes trabalhadores fá-lo totalmente pelo interesse da maioria dos empregados. É responsabilidade do sindicato! 
Seria insensato que os trabalhadores procedessem de modo a irem contra os seus próprios interesses e de outros, por actos impulsivos. Alguns empregados estão preocupados que os seus representantes, que querem defendê-los e participar em discussões com a direcção,venham a ter mais tarde represálias por parte da direcção. Trata-se de um malentendido.

A carta prosseguiu admoestando os trabalhadores por recusarem aceitar a oferta que a direcção tinha feito. Numa última tentativa para controlar os estragos, terminava dizendo, “Por favor, confiem no sindicato. Confiem em cada nível de funcionários do partido e do governo. Iremos sem dúvida alguma defender a justiça.”

A carta das federações dos sindicatos de Shishan e Nanhai não agradou aos grevistas. Como afirmou um trabalhador activista, “A carta de desculpas dos sindicatos não foi nenhuma carta de pedido de desculpas e por isso nós ficámos muito zangados.”

Uma carta aberta dos representantes dos trabalhadores que apareceu dois dias depois da carta de desculpas do sindicato foi desafiadora: “O sindicato deve proteger os direitos colectivos e os interesses dos trabalhadores e conduzi-los na greve. Mas até agora, têm andado à procura de desculpas para a violência do sindicato contra os trabalhadores em greve e nós condenamos isso violentamente.”

Ainda, a carta continuava exprimindo “extrema raiva” por o sindicato reclamar que tinha sido o grande trabalho do sindicato que tinha levado a direcção a aumentar a sua oferta de aumentos salariais, contestando que estes tinham “sido ganhos com o sangue e suor dos trabalhadores em greve enfrentando pressões extremas.” As relações entre os grevistas e o sindicato ao nível do município não podiam ter sido piores e certamente elevaram a tensão do drama a decorrer.

Resolução

Enquanto que a táctica do sindicato ao nível do município não conseguiu quebrar o impasse, os níveis mais altos do sindicato e do Partido foram muito mais compreensivos com os grevistas. Ouvi por parte da liderança do GZFTU que o secretário do Partido Guangdong Wang Yang apoiava a greve e as exigências salariais dos trabalhadores e mesmo que havia apoio no governo central.

O Departamento de Propaganda Central não emitiu uma nota de proibição senão a 29 de Maio, quase duas semanas após os confrontos, numa altura em que a onda grevista se tinha espalhado a outras fábricas. Mas isto era uma indicação que o governo central tinha vontade de que se desenvolvesse mais pressão sobre a direcção, na medida em que é raro que se faça a cobertura de greves durante tanto tempo. O presidente deputado do GDFTU, Kong Xianghong, desempenhou um papel activo nas negociações e apoiou as reivindicações salariais. Sobretudo depois do confronto entre o sindicato de Shishan e os trabalhadores, as autoridades a nível provincial estavam desejosas em resolver rapidamente o conflito.

De modo a encontrarem uma resolução ordeira, as várias agências governamentais que se tinham envolvido na greve exigiram que os trabalhadores escolhessem representantes. Embora tivesse sido seleccionado precipitadamente um conjunto de negociadores para a primeira ronda de negociações, os grevistas tinham ficado relutantes em arranjar representantes, sobretudo depois de os dois homens que tinham iniciado a greve terem sido despedidos.

Esta relutância em negociar era inaceitável para o estado o que levou a que Zeng Qinghong, delegado do Congresso Nacional do Povo e membro da Guangzhou Automotive CEO viesse falar com os trabalhadores. Através de amáveis e paternalistas métodos de persuasão, Zeng Qinghong convenceu os grevistas a escolher representantes e iniciar uma retoma condicional da produção.

Na sua carta aberta, os representantes dos trabalhadores disseram que se a direcção não respondesse às suas reivindicações dentro de três dias, a greve iria continuar. Além disso, a carta também afirmava que “os representantes negociais não aceitarão nada menos do que as exigências acima referidas sem a autorização de uma assembleia geral de trabalhadores.” Finalmente, as negociações começaram no terceiro dia.

A 4 de Junho, aos representantes dos trabalhadores juntou-se Chang Kai, um muito conhecido erudito especialista em trabalho, de Pequim, que serviu como seu advogado. As negociações estenderam-se pela noite dentro e finalmente foi firmado um acordo.

Os trabalhadores habituais iriam receber aumentos salariais de aproximadamente 500 RMB, pelo que os seus salários mensais iriam ficar acima dos 2,000 RMB. Os eventuais com baixos salários que trabalhavam ao lado dos trabalhadores habituais viram os seus salários aumentados em mais de 70% para mais de 600 RMB. Um aumento salarial tão grande em resposta a greves foi algo sem precedentes na China e pode deixar uma importante marca nas lutas que estão para vir.

25 de agosto de 2014

Por que passei a dizer Sim à Independência da Escócia

Tom Devine

The Conversation

O meu comprometimento com a campanha do Referendo sobre a Independência Escocesa tem sido até agora, restrito a entrevistas acadêmicas imparciais. E embora só tenha chegado a uma decisão pelo SIM durante a última quinzena, tive de fazer um longo percurso antes de chegar aí. A minha opção primeira tinha sido a Devolução Máxima [“Devo-Max”], mas isso não é viável. Além disso, mesmo que o SIM não seja vencedor, é imperativo que o voto SIM seja o mais alto possível de forma a tornar possível pressionar os partidos unionistas para se comprometerem também a garantir uma nova devolução, mais ampla, de poderes, o mais cedo possível logo após o referendo.

Nunca fui membro de nenhum partido e continuo a não ser, por isso a minha posição não significa apoiar o SNP, é simplesmente a favor da independência. O SNP é pura e simplesmente uma força importante na campanha. A campanha do SIM é agora um movimento muito alargado e acho isso encorajante.

O meu percurso com o nacionalismo escocês

Eu provenho de uma família Labour, que inclui o meu avô, a minha mãe e o meu pai e no início da campanha eu era muito anti-independência. O catalisador para a mudança foi em quão desgastada a união se tinha tornado desde o início dos anos 80 e ligada a isso, a transformação da Escócia. Eu nunca teria votado assim na Escócia de 1970s ou 1980s. É a Escócia que evoluiu nos anos 80 e 90 que está a alimentar o meu voto SIM. Atualmente parece-me que estão reunidas as condições para caminharmos para uma economia bem sucedida. Há uma quantidade de razões para isso.

Tem havido um Parlamento escocês que tem demonstrado uma governação competente, e o mesmo parlamento também deu sinais, através da resposta eleitoral, de que o povo escocês parece estar ligado a uma agenda social democrata e à espécie de valores políticos que informaram e foram incorporados na economia de bem-estar dos anos 1950. Pode-se, na verdade, argumentar que foram os escoceses que tentaram preservar a ideia de “identidade britânica” em termos de apoio e intervenção estatal, e que foi a Inglaterra que escolheu seguir um caminho separado desde os anos 1980.

Tem havido um enorme desenvolvimento no que toca à cultura nacional e ao orgulho na identidade escocesa, sentimentos esses sustentados por uma explosão de escritores e de artistas escoceses desde os 1980s, especialmente no que toca à minha própria área. Temos atualmente uma história moderna da Escócia digna desse nome, o que não tivemos até tão tarde como 1970 e 1980. Temos agora uma clara narrativa nacional, apoiada numa objetiva e rigorosa investigação acadêmica. Em 1964, um dos meus importante predecessores, o Professor Hargreaves, disse que a história moderna da Escócia era menos estudada do que a história do Yorkshire.

Tem havido também uma transformação silenciosa da economia escocesa. Até tão tarde como o início dos anos 80, ela não era sustentável devido ao continuado domínio do dinossauro que eram as indústrias pesadas. O problema consistia simplesmente em que os custos do trabalho não eram suportáveis numa economia global emergente, onde os bens e as máquinas podiam ser obtidos mais baratos noutros lugares. Claro que o processo podia ter sido conduzido de uma forma mais sensível e mais cuidadosa por um governo Labour, mas em vez disso foi a cirurgia radical do Tatcherismo e do Conservadorismo que foram usados. O que agora temos – e tem sido o caso desde o meio dos anos 90 e da desindustrialização – é uma economia diversificada na qual as indústrias pesadas, a manufatura ligeira, o setor eletrônico, o turismo e os serviços financeiros se juntaram. E o vibrante setor público é importante em termos de emprego. Temos agora um sistema econômico resiliente.

Temos também reservas consideráveis de uma das coisas mais importantes para um estado independente que é o poder; poder derivado dos ativos de petróleo e também da potencial energia eólica. A Escócia está desproporcionadamente dotada destas duas coisas, quando comparada com quase todos os outros países europeus. Assim, e por outras palavras, devido à sua transformação econômica, que levou sem dúvida à deslocação social de muitas comunidades – e não devemos esquecer isto – temos agora uma economia que pode sustentar-se de forma resiliente nos mercados mundiais.

A dimensão católica irlandesa

Uma das mais importantes manifestações disto, é a emancipação da classe operária irlandesa. Em 1901, os primos americanos deles conseguiram a paridade salarial, ocupacional e educacional. Em 2001 aconteceu a mesma coisa aqui. O que demonstra que uma mobilidade ascendente substancial se deu na Escócia, sobretudo entre o início dos anos 60 e o meio dos anos 80.

É importante dizer aqui que rejeito o ponto de vista, especialmente defendido por George Galloway e outros, de que os Católicos na Escócia ficariam mais vulneráveis num país mais pequeno. Não faz sentido. George é habitualmente um demagogo. Nenhuma destas afirmações se baseia em qualquer entendimento ou conhecimento académico. A população escocesa comum pura e simplesmente não partilha desta opinião. Os dados mais recentes do Scottish Social Attitudes Survey [inquérito sobre os comportamentos sociais] em 2012 demonstram sem margem para dúvidas que, entre os três mais importantes agrupamentos escoceses – Católicos, Protestantes e não-crentes –, as amostras de entre os Católicos indicam que 36% optavam pela independência; os não crentes eram cerca de 27% e os Kirk [ramo do Protestantismo escocês] 16%.

Isto demonstra ainda mais, penso, que as pessoas de etnia irlandesa católica, pela primeira vez se sentem confortáveis na sua pele de escoceses. O que também pode ser atribuído ao declínio da “identidade britânica”, numa experiência semelhante à da comunidade asiática. Penso que a comunidade irlandesa acha mais fácil identificar-se com a “identidade escocesa” do que com a “identidade britânica”, porque este último ainda ressoa ao antigo poder imperial.

Houve também uma transformação nos estudos universitários escoceses. Até aos anos 1950, estávamos num segundo escalão em termos de investigação, mas entretanto houve uma revolução neste campo. Quatro universidades escocesas estão agora nas 200 melhores do mundo. Na minha área, de Humanidades, a Universidade de Edimburgo aparece em 11º lugar. Em termos de índices de citação. a Escócia tem estado regularmente nas três mais altas e por vezes vem em número um.  Recebemos 16% do financiamento competitivo do Reino Unido apesar de termos só 10% em termos de população. O que significa que, desde que continuemos a conseguir aplicar a investigação à indústria e à economia, o futuro, que será concentrado numa indústria inteligente, brilhará para a Escócia, que já entra na corrida em vantagem. O que também ajudará à potencial resiliência da economia.

No entanto, o que precisamos ainda melhorar muito, muito é o desempenho das nossas escolas. Precisamos de envolver-nos num investimento a longo prazo do género do implementado pela Finlândia para levá-las até aos modelos dos países de elite no mundo, porque para mim não restam nenhumas dúvidas de que o futuro reside numa classe trabalhadora cultivada e empenhada, na qual se possa considerar a atividade uma mais-valia e não uma rotina.

Assim, tudo isto significa que a Escócia é uma nação muito mais resiliente e isto é comprovado pela nossa experiência desde a devolução. Podemos hoje dirigir um país eficazmente e o registo eleitoral do Parlamento escocês durante os últimos seis ou sete anos demonstra que o povo escocês quer um determinado tipo de governo. E também que procura um certo tipo de abordagem política, que é diferente das escolhas feitas pelo sul.

O problema da Devolução Máxima

Também cheguei à conclusão de que mesmo a Devolução Máxima só prolongaria um estado de coisas. Mesmo que aceitemos o lado positivo de a Devolução máxima garantir mais poderes, isso não tornaria mais infelizes muitos ingleses? Eles não estão contentes com a formula Barnett que acham que favorece a Escócia. Esta é uma das razões pelas quais eu acho que tem de haver soberania. Só através do poder soberano podemos realmente desenvolver uma verdadeira relação, amiga e igualitária, com o nosso grande vizinho do sul, em todos os campos possíveis.  O que deve incluir partilha económica, partilha dos custos de investigação e deve também incluir estreitas relações culturais. A última autoridade legislativa, para tornar segura esta amizade, deve residir efetivamente no norte.

Até ao início de 1980, as relações entre a Inglaterra e a Escócia foram estáveis, desde a rebelião Jacobita de 1745. Não houve praticamente nenhuma interferência rude por parte dos governos de Londres nas áreas que consideramos especificamente escocesas. E quando houve governos fortes depois da Segunda Grande Guerra, a Escócia provavelmente beneficiou com o nascimento do estado-providência. Também beneficiou com a intervenção estatal na nacionalização das grandes indústrias. E há também uma dualidade: a identidade escocesa ficou mais forte dentro da União, o que também é manifesto na convergência do padrão dos votos. Se a Inglaterra votasse Tory, a Escócia tendia a votar Tory. Se votássemos Labour, idem.

Por volta de 1979, começaram a surgir as fissuras. E aqui não penso que devamos culpar o Thatcherismo. As mudanças na nossa paisagem industrial eram quase uma inevitabilidade histórica, embora talvez pudessem ter sido um pouco mais benignas com um governo Labour. Sejam quais forem as razões, criou-se então um fosso estrutural no comportamento eleitoral entre a Escócia e a Inglaterra. Num estado altamente centralizado, como era o Reino Unido antes da Devolução, isso é uma receita para tensões.

Penso que também é importante dizer aqui que não é de forma nenhuma evidente  proclamar que a Escócia se tornou uma sociedade dividida, como é defendido por pessoas como o escritor Alexander McCall Smith no  Festival Internacional do Livro, em Edimburgo. O que eu vejo, nas famílias e nos pubs, e nos debates públicos a que fui é um sério comprometimento, por vezes feroz, por vezes muito forte. Mas simplesmente não vi nenhuma evidência de que a divisão política tivesse causado a forma de divisão social de que McCall Smith fala. Aonde vão pessoas como ele, ou como o George Galloway buscar essas informações? A minha profissão baseia-se em generalização e provas e no provocar de tensões entre as duas. E a menos que eles possam vir com dados que a suportem, a sua teoria não é mais do que assobiar para o vento.

Também acredito que, por causa de todas estas mudanças na natureza da união e no re-emergir social e económico da Escócia, nem o mais entusiástico unionista poderia hoje em dia sugerir seriamente que a nação escocêsa não pode prosseguir sozinha.

O pior dos mundos: uma pesada derrota do Sim

O que mais receio no referendo é a possibilidade do que possa acontecer no caso de uma pesada derrota da campanha do SIM. Não penso que isso seja uma boa coisa para a psicologia coletiva da nação.

Lembro-me do que aconteceu depois de 1979 (o primeiro voto sobre Devolução) entre alguns grupos sociais. Uma derrota pesada podia levar a que uma parte substancial da população se sentisse agravada, desapontada e, em alguns casos, angustiada. Acho que é diferente no campo do NÃO. No sentido de que a maioria deles não se comprometeu com a mesma intensidade e com o mesmo grau emocional do que os do campo do SIM.

Não estou a insinuar que esta decepção se manifeste com violência. Mas há uma real dinâmica política por todo o país sobre o referendo, que irá colapsar completamente, julgo, no caso de uma pesada derrota do SIM. Também tem havido um enorme interesse internacional no que vai acontecer aqui, e aos olhos deles podemos, mais uma vez, tornar-nos numa nação periférica.

Todavia, também tenho um grau de simpatia pela campanha do NÃO no que respeita ao seu assumido negativismo. É muito difícil manter uma negativa sem nenhum entusiasmo. Muita dessa gente são entusiásticos patriotas escoceses, mas também aceito que estão à vontade com a “identidade britânica” e vêem riscos maiores no colapso da União. No caso de um voto NÃO, e depois dos partidários do YES terem recuperado do trauma, estaremos de volta ao mesmo problema da desestabilização e tensões dentro da União.

A realidade da União

A União da Inglaterra e da Escócia não é um casamento de amor; é um casamento de conveniência. É pragmático. É por isso que não acredito que haja o mesmo grau de interesse em Inglaterra na possível dissolução da União. Para começar, a União era muito instável entre 1707 e 1750 e era um dos estímulos mais importantes para as rebeliões Jacobitas. De 1750 até aos anos 80 a relação foi estável. Agora, porém, os principais fundamentos da estabilidade foram-se todos, ou diluíram-se em massa: o Império; o Protestantismo como ideologia da União; a Igreja da Escócia, que perdeu dois terços dos seus membros desde o início dos anos 50.

Os mercados ingleses e imperiais foram outrora muito sedutores para a Escócia, mas agora a Europa é mais importante. No que respeita ao militarismo escocês, tínhamos 13 regimentos em 1957 e agora só temos um. E tem-se sentido um decrescer da influência da monarquia, e a ausência de uma força externa potencialmente hostil que em tempos teria induzido a solidariedade coletiva interna. Refiro-me ao final da Segunda Grande Guerra e ao colapso do antigo império Soviético. Claro que de momento não há outro.

Quando se juntam todos estes factos, podemos dizer que da União não sobra muito, a não ser sentimento, história e família. Algumas das razões pragmáticas para a subsistência da União, que emergiram nos séculos XVIII e XIX, desapareceram. E a longo prazo este enfraquecimento é paralelamente a emergência de uma mais poderosa e mais madura democracia e economia escocesa. É uma ideia, pode dizer-se, mas é uma ideia que se impôs.

Foram estes dois fatores, juntos, que causaram a desestabilização da União. E esta nunca acabará – Devolução Máxima só teria sido um ‘penso rápido’ – até conseguirem uma separação amigável e o estabelecimento de uma reação de igual para igual entre os dois países após a independência.

O grande historiador francês, Ernest Renan, nos longínquos anos de 1880 negou que uma nação se baseasse em etnia e língua ou em nacionalidade sangue-e-solo. O argumento dele era que uma nação consiste no povo que partilhou um sentimento coletivo e esse sentimento baseia-se em mito, história e numa série de símbolos e marcas de identidade. Há um referendo permanente no sentido de saber se esse sentimento ainda existe na União. O conceito de nação de Renan é que esta pode ser efémera; não dura para sempre, não é uma permanência pois varia de acordo com as circunstâncias. Há aqui um intrigante paralelo com o que está a acontecer no Reino Unido hoje em dia.