1 de setembro de 2000

Pobreza e globalização

A globalização económica tornou-se numa guerra contra a natureza e contra os pobres.

Por Vandana Shiva

[Resurgence] Recentemente estava de visita a Bhatinda, na província do Punjab, devido a uma epidemia de suicídios de agricultores. O Punjab costumava ser a região agrícola mais próspera da Índia. Hoje todos os agricultores estão endividados e em desespero. Vastas áreas de terra ficaram desertos alagados. E, como referiu um velho agricultor, até as árvores deixaram de dar frutos porque o uso intensivo de pesticidas matou os  polinizadores – as abelhas e as borboletas.

E o Punjab não é a única região a experimentar esta catástrofe ecológica e social. No ano passado estive na cidade de Warangal, no estado de Andhra Pradesh, onde os agricultores também se estavam a suicidar. Agricultores que tradicionalmente cultivavam sementes e milho-miúdo e arroz foram seduzidos por empresas que vendem sementes, que os convenceram a comprar sementes de algodão híbrido, chamado de “ouro branco”; o que, supostamente, os tornaria milionários. Em vez disso, ficaram arruinados.

As suas sementes nativas foram substituídas por novas sementes híbridas que não podem ser guardadas, tendo que ser compradas todos os anos por um preço elevado. As sementes híbridas são também muito vulneráveis a pragas. Em Warangal os gastos com pesticidas aumentaram 2000 %, de 2,5 milhões de dólares nos anos 80 para 50 milhões de libras em 1997. Actualmente, os agricultores consomem os mesmos pesticidas para se suicidarem, de forma a poderem escapar definitivamente a uma dívida impossível de pagar.

As empresas estão agora a tentar introduzir sementes geneticamente modificadas, o que aumentará ainda mais os custos e os riscos ecológicos. É por esta razão que agricultores como Malla Reddy, do Sindicato dos Agricultores de Andhra Pradesh, arrancaram pela raiz o algodão da Monsanto “Bollgard”, geneticamente modificado, em Warangal.

No dia 27 de Março, Betavati Ratan, de vinte e cinco anos, suicidou-se porque não conseguia pagar a dívida que contraiu para perfurar um poço profundo no seu terreno de 8,000 m2. O poço agora está seco, assim como os poços de Gujarat e Rajasthan, onde mais de 50 milhões de pessoas enfrentam uma seca.

Esta seca não é um “desastre natural”. Tem “mão humana”. É o resultado da captação de água subterrânea pouco abundante em regiões áridas para regar culturas para fins comerciais (cash crops) que precisam de muita água e destinadas à exportação, em vez de culturas alimentares que consomem pouca água e destinadas às necessidades locais.

São experiências deste género que me dizem que fazemos muito mal em nos orgulharmos da nova economia global. É tempo de parar e pensar sobre o impacto da globalização nas vidas das pessoas comuns. Isto é de importância vital se queremos alcançar a sustentabilidade.

Os protestos de Seattle e junto à Organização Mundial do Comércio, no ano passado, obrigaram as pessoas a pensar duas vezes. Para mim chegou a altura de reavaliar radicalmente as nossas acções. Porque o que estamos a fazer aos pobres em nome da globalização é brutal e imperdoável. Isto é especialmente evidente na Índia, onde assistimos aos sucessivos desastres da globalização, especialmente em relação aos produtos alimentares e à agricultura.

QUEM ALIMENTA O MUNDO? A minha resposta é muito diferente daquela que é dada pela maior parte das pessoas.

São as mulheres e os pequenos agricultores que trabalham com a biodiversidade os principais fornecedores de comida no Terceiro Mundo e, ao contrário da opinião dominante, os seus pequenos sistemas agrícolas baseados na biodiversidade são mais produtivos do que as monoculturas industriais.

Os sistemas de produção de alimentos sustentáveis e ricos em diversidade têm sido destruídos em nome do aumento da produção de alimentos. Contudo, com a destruição da diversidade, as fontes de nutrição ricas desaparecem. Quando avaliado em termos de nutrição por hectare, e do ponto de vista da biodiversidade, o suposto “alto rendimento” da agricultura industrial não significa mais produção de alimentos e nutrição.

O rendimento (yield) refere-se normalmente à produção por unidade de área de uma única cultura. A produção (output) refere-se à produção total de diversas colheitas e produtos. Plantar apenas uma colheita em todo o campo, tipo monocultura, aumentará, é claro, o seu rendimento individual. Plantar muitas colheitas misturadas terá como resultado baixos rendimentos de colheitas individuais, mas uma produção total de alimentos elevada. A definição de rendimentos tem sido feita de tal forma, de modo a levar ao desaparecimento da produção de alimentos em pequenas áreas, pelos pequenos agricultores.

Isto esconde a produção de milhões de mulheres agricultoras no Terceiro Mundo – agricultoras como as dos Himalaias, minha terra natal, que lutaram contra o abate de árvores no movimento Chipko, que nos seus terrenos em socalcos cultivavam Jhangora (milho-miúdo), Marsha (amaranto), Tur (guandu), Urad e Gahat (variedades de grão-de-bico), rebentos de soja (glicine max), Bhat (glicine soja), Rayans (feijão), Swanta (feijão-frade), Koda (sorgo). Do ponto de vista da biodiversidade, a produtividade baseada na biodiversidade é maior do que a da monocultura. A esta cegueira em relação à elevada produtividade da diversidade eu chamo “Monocultura da Mente”, que gera as monoculturas nos nossos campos.

Os camponeses maias no Chiapas são caracterizados como não produtivos porque produzem apenas duas toneladas de milho por acre. Contudo, a produção total de alimentos é de vinte toneladas por acre, se tivermos em conta a diversidade das suas leguminosas e abóboras, dos seus vegetais e árvores de fruto.

Em Java, os pequenos agricultores cultivam 607 espécies nos seus quintais.

Na África subsariana, as mulheres cultivam até 120 plantas diferentes em espaços deixados livres ao longo dos grandes campos de culturas comerciais, e esta é a principal fonte de segurança quanto à alimentação doméstica.

Num simples quintal da Tailândia cultivam-se mais de 230 espécies, e os quintais africanos têm mais de sessenta espécies de árvores. As famílias rurais do Congo comem folhas de mais de cinquenta espécies de árvores diferentes.

Um estudo feito na Nigéria oriental revelou que os quintais, que ocupam apenas 2% das terras de cultivo caseiras, eram responsáveis por metade da produção total das quintas. De forma parecida, na Indonésia calcula-se que os quintais fornecem mais de 20% das receitas das famílias e 40% do fornecimento doméstico de alimentos.

Estudos feitos pela FAO revelaram que as quintas pequenas e biodiversas conseguem produzir milhares de vezes mais comida do que as grandes monoculturas industriais.

E a diversidade é a melhor estratégia para prevenir a seca e a desertificação. Aquilo de que o mundo precisa para alimentar a população em crescimento de forma sustentável é a intensificação da biodiversidade, não a intensificação química ou a engenharia genética. Enquanto as mulheres e os pequenos agricultores vão alimentando o mundo através da biodiversidade, há quem nos esteja sempre a dizer que sem a engenharia genética e a globalização da agricultura o mundo morrerá à fome. Apesar de todas as provas empíricas que demonstram que a engenharia genética não produz mais comida e que, na verdade, leva muitas vezes ao declínio da produtividade, é constantemente promovida como a única alternativa disponível para alimentar os famintos.

É POR ISSO QUE EU PERGUNTO, quem alimenta o mundo?

Esta cegueira deliberada em relação à diversidade, a cegueira em relação à produção da natureza, à produção por parte das mulheres, à produção dos agricultores do Terceiro Mundo, permite que a destruição e a apropriação sejam divulgadas como criação.

Veja-se o caso do muito elogiado “arroz dourado”, um arroz geneticamente modificado e com vitamina A, como cura para a cegueira. Presume-se que sem a engenharia genética não é possível eliminar a deficiência de vitamina A. No entanto, a natureza dá-nos fontes abundantes e diversas de vitamina A. Se o arroz não fosse refinado forneceria ele próprio a vitamina A. Se não se utilizassem herbicidas nos campos de trigo, teríamos como deliciosos e nutritivos legumes a quinoa, o amaranto e as folhas de mostarda.

Em Bengala, as mulheres usam mais de 150 plantas como legumes. Mas o mito da criação apresenta os biotecnólogos como os criadores da vitamina A, negando as diversas dádivas da natureza e o conhecimento das mulheres sobre o uso desta diversidade para alimentar as suas crianças e famílias.

A maneira mais eficaz de destruir a natureza, as economias locais e os pequenos produtores independentes é tornando invisível a sua produção.

As mulheres que produzem para as suas famílias e comunidades são tratadas como “não-produtivas” e “economicamente inactivas”. A desvalorização do trabalho das mulheres e do trabalho realizado nas economias sustentáveis é o resultado natural de um sistema construído pelo patriarcado capitalista. É assim que a globalização destrói as economias locais e a própria destruição é considerada como crescimento.

E as próprias mulheres são desvalorizadas, porque para muitas mulheres das comunidades rurais e indígenas, o seu trabalho coopera com os processos da natureza e isso é, muitas vezes, contrário ao “desenvolvimento” dominante orientado para o mercado e às políticas comerciais, e porque o trabalho que satisfaz as necessidades e assegura o sustento é desvalorizado em geral. Cuida-se menos da vida e dos sistemas de apoio à vida.

A desvalorização e invisibilidade da produção regenerativa e sustentável é, acima de tudo, notória na área da alimentação. Se a divisão patriarcal do trabalho atribuiu às mulheres a função de alimentar as suas famílias e comunidades, a economia patriarcal e os pontos de vista patriacais sobre ciência e tecnologia fazem, magicamente, desaparecer, o trabalho de fornecimento de comida desenvolvido pelas mulheres.

“Alimentar o mundo” dissocia-se assim das mulheres que, na realidade, o fazem, e é projectado como sendo dependente do agro-negócio global e das corporações de biotecnologia.

A industrialização e a engenharia genética de alimentos e a globalização do comércio na agricultura são as receitas para criar a fome, não para alimentar os pobres.

Por toda a parte, a produção de alimentos está a tornar-se numa economia negativa, com os agricultores a gastar mais dinheiro na compra de materiais caros para a produção industrial do que aquilo que  preço que recebem pelo que produzem. A consequência é o aumento do endividamento e as epidemias de suicídios tanto nos países ricos como nos pobres.

A GLOBALIZAÇÃO ECONÓMICA está a levar a uma concentração da indústria de sementes, ao aumento do uso de pesticidas e, finalmente, ao aumento do endividamento. A agricultura de capital intensivo, controlada pelas grandes empresas internacionais, está propagando-se para regiões onde os agricultores são pobres mas que, até agora, tinham sido auto-suficientes em termos de alimentação. Nas regiões em que a agricultura industrial tem sido introduzida através da globalização, o aumento dos custos está a tornar virtualmente impossível a sobrevivência dos pequenos agricultores.

A globalização da agricultura industrial não-sustentável está evaporando os rendimentos dos agricultores do Terceiro Mundo através da combinação da desvalorização das moedas, do aumento dos custos de produção e do colapso dos preços dos bens de consumo.

Em todo o mundo, está-se a pagar aos agricultores uma fracção daquilo que eles recebiam pelo mesmo produto uma década atrás. Nos EUA, os preços do trigo desceram de $5.75 para $2.43, os preços dos grãos de soja desceram de $8.40 para $4.29, e os preços do milho desceram de $4.43 para $1.72 o alqueire. Na Índia, de 1999 a 2000, os preços do café desceram de Rs.60 para Rs.18 por kg e os preços das sementes oleaginosas desceram mais de 30%.

O Sindicato dos Agricultores do Canadá expôs o problema desta forma num relatório dirigido, este ano, ao senado:

“Enquanto os agricultores que cultivam cereais – trigo, aveia, milho – têm retornos negativos e são empurrados para a bancarrota, as empresas que produzem os cereais de pequeno-almoço arrecadam lucros enormes. Em 1998, as empresas de cereais Kellogg’s, Quaker Oats e General Mills gozaram rentabilidade de capitais próprios de 56%, 165% e 222% respectivamente. Enquanto um alqueire de milho custava menos de $4, um alqueire de flocos de cereais (corn flakes) vendia-se a $133. Em 1998, as empresas de cereais eram 186 a 740 vezes mais rentáveis do que os campos de cultivo. Talvez os agricultores estejam a ganhar muito pouco porque outros estão a ganhar demasiado.”

E um relatório do Banco Mundial admitiu que “por detrás da polarização dos preços junto do pequeno consumidor e dos preços a nível mundial está a presença de grandes empresas comerciais em mercados internacionais de bens de consumo.”

Enquanto os agricultores ganham menos, os consumidores, especialmente nos países pobres, pagam mais. Na Índia, os preços dos alimentos duplicaram entre 1999 e 2000, e o consumo de cereais diminuiu 12% nas áreas rurais, aumentando a escassez de alimentos daqueles que já estavam sub-nutridos e aumentando as taxas de mortalidade. O aumento do crescimento económico através do comércio global está baseado em pseudo excedentes. Comercializam-se mais alimentos mas os pobres consomem menos. Quando o crescimento aumenta a pobreza, quando a verdadeira produção se torna em economia negativa, e os especuladores são definidos como “criadores de riqueza”, alguma coisa de errado se passa com os conceitos e as categorias de riqueza e criação de riqueza. Empurrar a verdadeira produção feita pela natureza e pelas pessoas para uma economia negativa implica que a produção de bens e serviços reais está a diminuir, criando mais pobreza para os milhões de pessoas que não fazem parte da auto-estrada electrónica que leva à criação de riqueza instantânea.

AS MULHERES – COMO JÁ TINHA DITO – são os principais fornecedores e processadores de alimentos no mundo. Contudo, o seu trabalho na produção e no processamento tornou-se, agora, invisível.

De acordo com a empresa internacional McKinsey, “Os gigantes da indústria de alimentação dos EUA reconhecem que o agro-negócio na Índia tem muito espaço para crescer, especialmente quanto ao processamento de alimentos. A Índia processa apenas 1% dos alimentos que cultiva comparando com 70% para os EUA, Brasil e Filipinas.” Não é que nós, indianos, comamos a comida crua. Os consultores globais não vêem os 99% de processamento de alimentos feito pelas mulheres ao nível doméstico ou em pequenas indústrias familiares porque isto não é controlado pelo agro-negócio global. 99% do processamento de produtos agrícolas na Índia foram intencionalmente mantidos ao nível doméstico. Neste momento, sob a pressão da globalização, as coisas estão a mudar. Pseudo leis de higiene, que destroem a economia alimentar baseada num sistema de processamento local de pequena escala sob controlo comunitário, fazem parte do arsenal do agro-negócio global para estabelecer monopólios de mercado através da força e da coerção, não da competição.

Em Agosto de 1998, o processamento local de pequena escala de óleo comestível foi banido da Índia através de um “regulamento de empacotamento” que tornou ilegal a venda de óleo em recipientes abertos e exigiu que o óleo fosse acondicionado em embalagens de plástico ou alumínio. Isto levou ao encerramento de pequenos “ghanis” ou prensas frias.  Destruiu o mercado para as nossas várias sementes oleaginosas – mostarda, linho, sésamo, amendoim e coco.

A apropriação da indústria dos óleos comestíveis afectou 10 milhões de modos de vida. A apropriação da “atta”, ou farinha, pela farinha de marca embalada afectará 100 milhões de modos de vida. Estas milhões de pessoas estão a ser empurrados para uma nova pobreza.

A utilização forçada das embalagens aumentará o fardo ambiental de milhões de toneladas de plástico e alumínio. A globalização do sistema alimentar está a destruir a diversidade das culturas e economias alimentares locais. Está-se a impor uma monocultura global às pessoas definindo como perigoso para a saúde tudo o que é fresco, local e artesanal.

As mãos humanas estão a ser definidas como os piores contaminadores e está-se a proibir o trabalho feito pelas mãos humanas e a substitui-lo por máquinas e químicos comprados a grandes empresas globais. Isto não são receitas para alimentar o mundo mas para roubar os meios de subsistência aos pobres e criar mercados para os poderosos. As pessoas estão a ser consideradas como parasitas, a serem exterminadas em nome da “saúde” da economia global. Neste processo, novos perigos para a saúde e para o ambiente são impingidos às pessoas do Terceiro Mundo através do despejo de alimentos geneticamente modificados e outros produtos perigosos.

Recentemente, devido a um regulamento da OMC, a Índia foi forçada a eliminar as restrições a todas as importações. Entre elas estão a importação de carcaças e de restos de animais que são uma ameaça à nossa cultura e introduzem perigos para a saúde pública, como a doença das vacas locas.

O Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) em Atlanta, EUA, calculou que, anualmente, ocorrem neste país perto de 81 milhões de casos de doenças provocadas pela ingestão de alimentos. As mortes causadas por intoxicação alimentar aumentaram mais de quatro vezes devido à desregulação, aumentando de 2 000 casos em 1984 para 9.000 em 1994. A maior parte destas infecções é provocada pelo consumo de carne industrialmente produzida. Os EUA matam 93 milhões de porcos, 37 milhões de cabeças de gado, 2 milhões de vitelas, 6 milhões de cavalos, cabras e ovelhas e 8 mil milhões de galinhas e perus por ano. Agora, a gigantesca indústria de carne norte-americana quer despejar na Índia carne contaminada produzida através de métodos violentos e cruéis. 

O desperdício dos ricos está a ser despejado nos pobres. Os bens dos pobres estão a ser apropriados violentamente através de novos métodos mais inteligentes como as patentes sobre a biodiversidade e sobre o conhecimento indígena.

AS PATENTES E OS DIREITOS de propriedade intelectual deveriam ser atribuídos a novas invenções. Mas as patentes estão a ser reclamadas para variedades de arroz como a basmati, pelo qual o Doon Valley – onde nasci – é famoso, ou pesticidas derivados da amargoseira, utilizada pelas nossas mães e avós. A Rice Tec, uma empresa sediada nos EUA, obteve a patente n.º 5 663 484 pelos grãos e variedades do arroz

Basmati, amargoseira, pimenta, melão-de-são-caetano, açafrão… qualquer aspecto da inovação inerente aos nossos alimentos e sistemas medicinais indígenas está a ser pirateado e patenteado. O conhecimento dos pobres está a ser convertido em propriedade de empresas globais, criando uma situação em que os pobres terão de pagar as sementes e os remédios que eles próprios desenvolveram e utilizaram para responder às suas necessidades de nutrição e saúde.

Estes falsos direitos de propriedade sobre a criação são, agora, a norma geral, com o Acordo sobre Propriedade Intelectual Relacionada ao Comércio [TRIPS] da OMC forçando os países a introduzir regimes que permitem a patenteação de formas de vida e do conhecimento indígena.     

Em vez de reconhecer que os interesses comerciais devem basear-se na natureza e no contributo de outras culturas, a lei global consagrou o mito patriarcal da criação para gerar novos direitos de propriedade sobre formas de vida, da mesma maneira que o colonialismo utilizou o mito da descoberta como base da apropriação das terras dos outros como colónias.

Os seres humanos não criam vida quando a manipulam. A pretensão da Rice Tec de que fez “uma invenção instantânea de uma nova variedade de arroz”, ou a do Roslin Institute de que Ian Wilmut “criou” a Dolly nega a criatividade da natureza, a capacidade auto-organizativa das formas de vida e a inovação prévia das comunidades do Terceiro Mundo.

As patentes e os direitos de propriedade intelectual supostamente previnem a pirataria. Em vez disso, estão a tornar-se instrumentos para piratear o conhecimento comum tradicional dos pobres do Terceiro Mundo e torná-lo “propriedade” exclusiva dos cientistas e das empresas globais do Ocidente.

Quando se concedem patentes sobre sementes e plantas, como no caso do arroz basmati, o roubo é definido como criação, e poupança e partilha de sementes é definida como roubo de propriedade intelectual. As empresas globais que têm largas patentes sobre colheitas como o algodão, a soja e a mostarda estão a processar os agricultores que armazenam as sementes e a contratar agências de detectives para descobrir se os agricultores armazenaram ou partilharam sementes com os vizinhos.

O anúncio recente de que a Monsanto está a distribuir gratuitamente o genoma do arroz é enganador: a Monsanto não se comprometeu a parar a patenteação das variedades do arroz ou doutras colheitas.

Partilhar e trocar, a base da nossa humanidade e da nossa sobrevivência ecológica, foram redefinidas como crime. Isto empobrece-nos a todos.

A natureza deu-nos abundância. O conhecimento indígena das mulheres sobre biodiversidade, agricultura e nutrição, construiu a partir dessa abundância, gerando mais do menos, gerando crescimento através da partilha. Os pobres são empurrados para uma pobreza mais extrema ao serem forçados a pagar pelos seus próprios recursos e conhecimentos. Até os ricos estão mais pobres porque os seus lucros baseiam-se no roubo e no uso da coerção e da violência. Isto não é criação de riqueza mas sim pilhagem.

A sustentabilidade requer a protecção de todas as espécies e de todos os povos e o reconhecimento de que as diferentes espécies e os diferentes povos desempenham um papel essencial na manutenção dos ecossistemas e dos processos ecológicos. Os polinizadores são fundamentais para a fertilização e geração de plantas. A biodiversidade, nos campos, fornece vegetais, forragem, medicamentos e protecção do solo contra a erosão da água e do vento. 

À medida que os seres humanos se adentram cada vez mais no caminho da não-sustentabilidade, tornam-se mais intolerantes em relação às outras espécies e cegos em relação ao seu papel vital na nossa sobrevivência.

Em 1992, quando os agricultores indianos destruíram a fábrica de sementes da Cargill em Bellary, Karnataka, como protesto contra o fracasso das sementes, o director da Cargill declarou: “Nós trazemos aos agricultores indianos tecnologias inteligentes que impedem a usurpação do pólen por parte das abelhas.” Quando eu estava a participar nas Negociações sobre Biossegurança nas Nações Unidas, a Monsanto fez circular literatura que defendia as suas colheitas Roundup resistentes aos herbicidas, argumentando que elas impedem “as ervas daninhas de roubar a luz solar”. Mas aquilo que a Monsanto chama de ervas daninhas são áreas verdes que fornecem arroz rico em vitamina A e que previnem a cegueira nas crianças e a anemia nas mulheres.

Um ponto de vista que define a polinização como “roubo por parte das abelhas” e que declara que a biodiversidade “rouba” a luz solar é um ponto de vista que tem por objectivo roubar a produção da natureza, substituindo variedades polinizadas, abertas, por híbridos e sementes estéreis, e destruir a flora biodiversa por herbicidas como o Roudup da Monsanto. A ameaça à borboleta monarca por parte das colheitas geneticamente modificadas Bt é apenas um exemplo da pobreza ecológica criada pelas novas tecnologias. À medida que as borboletas e as abelhas desaparecem, a produção diminui. Com o desaparecimento da biodiversidade, desaparecem também as fontes de nutrição e alimentação.

Quando as grandes empresas vêem os pequenos camponeses e as abelhas como ladrões, e através de leis comerciais e das novas tecnologias procuram o direito a exterminá-los, a humanidade chega a um limiar perigoso. O imperativo de esmagar o mais pequeno insecto, a mais pequena planta, o mais pequeno camponês, deriva de um medo profundo – o medo de tudo o que está vivo e tudo o que é livre. E esta profunda insegurança e medo está a desencadear a violência contra todas as pessoas e todas as espécies.

A economia de comércio livre global tornou-se numa ameaça à sustentabilidade. A própria sobrevivência dos pobres e de outras espécies está em jogo não apenas como um efeito secundário ou uma excepção, mas de uma forma sistemática através de uma reestruturação da nossa visão do mundo ao nível mais fundamental. A sustentabilidade, a partilha e a sobrevivência estão a ser economicamente proscritas em nome da competitividade de mercado e da eficácia do mercado.

Precisamos urgentemente de trazer o planeta e as pessoas de volta ao esquema. O mundo só pode ser alimentado se alimentarmos todos os seres que fazem o mundo.

Ao alimentarmos os outros seres e espécies estamos a manter as condições para a nossa própria segurança alimentar. Ao alimentarmos os vermes da terra estamos a alimentarmo-nos a nós próprios. Ao alimentarmos as vacas, alimentamos o solo, e ao fornecermos alimento ao solo, fornecemos alimento para os seres humanos. Esta visão do mundo de abundância baseia-se na partilha e numa profunda consciência dos seres humanos como membros da família terrestre. Esta consciência de que ao empobrecer os outros seres estamos a empobrecermo-nos a nós próprios e de que ao nutrirmos os outros seres estamos a nutrir-nos a nós próprios é a base da sustentabilidade.

O desafio de sustentabilidade para o novo milénio é se o homem económico global consegue sair da visão do mundo baseada no medo e na escassez, nas monoculturas e monopólios, na apropriação e desapropriação, e mudar para uma visão baseada na abundância e na partilha, na diversidade e na descentralização, no respeito e dignidade para todos os seres.

A sustentabilidade exige que saiamos desta armadilha económica que não está a deixar espaço para as outras espécies e para a maior parte dos seres humanos. A globalização económica tornou-se numa guerra contra a natureza e contra os pobres. Mas as regras da globalização não são dadas por Deus. Podem ser alteradas. Devemos pôr fim a esta guerra.

Desde Seattle, uma frase muito utilizada tem sido a necessidade de um sistema baseado em regras. A globalização é a lei do comércio e elevou Wall Street como sendo a única fonte de valor e, como resultado, as coisas que deviam ter alto valor – a natureza, a cultura, o futuro – estão a ser desvalorizadas e destruídas. As regras da globalização estão a minar as regras da justiça e da sustentabilidade, da compaixão e da partilha. Temos de mudar do totalitarismo do mercado para uma democracia planetária.

Podemos sobreviver como espécie apenas se vivermos de acordo com as regras da biosfera. A biosfera tem o suficiente para as necessidades de todos, se a economia global respeitar os limites estabelecidos pela sustentabilidade e pela justiça.

Como Gandhi nos lembrou: “A Terra tem o suficiente para as necessidades de todos, mas não para a ganância de algumas pessoas.”