31 de outubro de 2018

Bruxas e luta de classes

Silvia Federici


Na Europa do século XVI, a caça às bruxas era uma guerra de classes imposta pela elite.

A Cozinha das Bruxas por Frans Francken, o Jovem, 1606. Museu Hermitage / Wikimedia

Excerto de Caliban and the Witch (2004).

Tradução / A caça às bruxas aparece raramente na história do proletariado. Até hoje, continua sendo um dos fenômenos menos estudados na história da Europa ou, talvez, da história mundial, se consideramos que a acusação de adoração ao demônio foi levada ao Novo Mundo pelos missionários e conquistadores como uma ferramenta para a subjugação das populações locais.

O fato de que a maior parte das vítimas na Europa tenham sido mulheres camponesas talvez possa explicar o motivo da indiferença dos historiadores com relação a tal genocídio; uma indiferença que beira a cumplicidade, já que a eliminação das bruxas das páginas da história contribuiu para banalizar sua eliminação física na fogueira, sugerindo que foi um fenômeno com um significado menor, quando não uma questão de folclore.

Inclusive, os estudiosos da caça às bruxas (no passado eram quase exclusivamente homens) foram frequentemente dignos herdeiros dos demonólogos do século XVI. Ainda que deplorassem o extermínio das bruxas, muitos insistiram em retratá-las como tolas miseráveis que sofriam com alucinações. Desta maneira, sua perseguição poderia ser explicada como um processo de “terapia social” que serviu para reforçar a coesão amistosa, ou poderia ser descrita em termos médicos como um “pânico”, uma “loucura”, uma “epidemia”, todas caracterizações que tiram a culpa dos caçadores das bruxas e despolitizam seus crimes.

As feministas reconheceram rapidamente que centenas de milhares de mulheres não poderiam ter sido massacradas e submetidas às torturas mais cruéis se não tivessem proposto um desafio à estrutura de poder. Também se deram conta de que essa guerra contra as mulheres, que se manteve durante um período de pelo menos dois séculos, constituiu um ponto decisivo na história das mulheres na Europa, o “pecado original” no processo de degradação social que as mulheres sofreram com a chegada do capitalismo, o que o conforma, portanto, como um fenômeno ao qual devemos retornar de forma reiterada se quisermos compreender a misoginia que ainda caracteriza a prática institucional e as relações entre homens e mulheres.

Ao contrário das feministas, os historiadores marxistas, salvo raras exceções — inclusive quando se dedicaram ao estudo da “transição ao capitalismo” —, relegaram a caça às bruxas ao esquecimento, como se carecesse de relevância para a história da luta de classes. As dimensões do massacre deveriam, entretanto, ter levantado algumas suspeitas: em menos de dois séculos, centenas de milhares de mulheres foram queimadas, enforcadas e torturadas.

Deveria parecer significativo o fato de a caça às bruxas ter sido contemporânea ao processo de colonização e extermínio das populações do Novo Mundo, aos cercamentos ingleses, ao começo do tráfico de escravos, à promulgação das Leis Sangrentas contra vagabundos e mendigos, e de ter chegado a seu ponto culminante no interregno entre o fim do feudalismo e a “guinada” capitalista, quando os camponeses na Europa alcançaram o ponto máximo do seu poder, ao mesmo tempo que sofreram a maior derrota da sua história. Até agora, no entanto, este aspecto da acumulação primitiva tem permanecido como um verdadeiro mistério.

A época de queima de bruxas e a iniciativa estatal


O que ainda não foi reconhecido é que a caça às bruxas constituiu um dos acontecimentos mais importantes do desenvolvimento da sociedade capitalista e da formação do proletariado moderno. Isso porque o desencadeamento de uma campanha de terror contra as mulheres, não igualada por nenhuma outra perseguição, debilitou a capacidade de resistência do campesinato europeu frente ao ataque lançado pela aristocracia latifundiária e pelo Estado, em uma época na qual a comunidade camponesa já começava a se desintegrar sob o impacto combinado da privatização da terra, do aumento dos impostos e da extensão do controle estatal sobre todos os aspectos da vida social.

Foi depois de meados do século XVI, nas mesmas décadas em que os conquistadores espanhóis subjugaram as populações americanas, que começou a aumentar a quantidade de mulheres julgadas como bruxas. Além disso, a iniciativa da perseguição passou da Inquisição às cortes seculares. A caça às bruxas alcançou seu ápice entre 1580 e 1630, ou seja, numa época em que as relações feudais já estavam dando lugar às instituições econômicas e políticas típicas do capitalismo mercantil. Foi neste longo Século de Ferro que, praticamente por meio de um acordo tácito entre países que a princípio estavam em guerra, se multiplicaram as fogueiras, ao passo que o Estado começou a denunciar a existência de bruxas e a tomar a iniciativa de persegui-las.

Antes que os vizinhos se acusassem entre si ou que comunidades inteiras fossem presas do “pânico”, teve lugar um firme doutrinamento, no qual as autoridades expressaram publicamente sua preocupação com a propagação das bruxas e viajaram de aldeia em aldeia para ensinar as pessoas a reconhecê-las, em alguns casos levando consigo listas de mulheres suspeitas de serem bruxas e ameaçando castigar aqueles que as dessem asilo ou lhes oferecessem ajuda.

Mas foram os juristas, os magistrados e os demonólogos, frequentemente encarnados na mesma pessoa, os que mais contribuíram na perseguição: eles sistematizaram os argumentos, responderam aos críticos e aperfeiçoaram a maquinaria legal que, por volta do final do século XVI, deu um formato padronizado, quase burocrático, aos julgamentos, o que explica as semelhanças entre as confissões para além das fronteiras nacionais. No seu trabalho, os homens da lei contaram com a cooperação dos intelectuais de maior prestígio da época, incluindo filósofos e cientistas que ainda hoje são elogiados como os pais do racionalismo moderno.

Não pode haver dúvida, então, de que a caça às bruxas foi uma iniciativa política de grande importância. A natureza política da caça às bruxas também fica demonstrada pelo fato de que tanto as nações católicas quanto as protestantes, em guerra entre si quanto a todas as outras temáticas, se uniram e compartilharam argumentos para perseguir as bruxas. Assim, não é um exagero dizer que a caça às bruxas foi o primeiro terreno de unidade na política dos novos Estados-nação europeus, o primeiro exemplo de unificação europeia depois do cisma provocado pela Reforma.

Crenças diabólicas e mudanças no modo de produção


Uma primeira ideia sobre o significado da caça às bruxas na Europa pode ser encontrada na tese proposta por Michael Taussig em seu clássico trabalho O demônio e o fetichismo da mercadoria na América do Sul (1980). Neste livro, o autor sustenta que as crenças diabólicas surgem em períodos históricos em que um modo de produção é substituído por outro. Em tais períodos, não somente as condições materiais de vida são transformadas radicalmente, mas também o são os fundamentos metafísicos da ordem social — por exemplo, a concepção de como se cria o valor, do que gera vida e crescimento, do que é “natural” e do que é antagônico aos costumes estabelecidos e às relações sociais.

Taussig desenvolveu sua teoria a partir do estudo das crenças de trabalhadores rurais colombianos e mineiros de estanho bolivianos numa época em que, em ambos os países, estavam surgindo certas relações monetárias que, aos olhos do povo, se associavam com a morte e inclusive com o diabólico, ainda mais se comparadas com as formas de produção mais antigas, que ainda persistiam, orientadas à subsistência. Desse modo, nos casos analisados por Taussig, eram os pobres que suspeitavam da adoração ao demônio por parte dos mais ricos. Ainda assim, sua associação entre o diabo e a forma- mercadoria nos faz lembrar também que, por detrás da caça às bruxas, esteve a expansão do capitalismo rural, que incluiu a abolição de direitos consuetudinários e a primeira onda de inflação na Europa moderna.

Estes fenômenos não somente levaram ao crescimento da pobreza, da fome e do deslocamento social, mas também transferiram o poder para as mãos de uma nova classe de “modernizadores” que viram com medo e repulsa as formas de vida comunais que haviam sido típicas da Europa pré-capitalista. Foi graças à iniciativa desta classe protocapitalista que a caça às bruxas alçou voo, como uma arma com a qual se podia derrotar a resistência à reestruturação social e econômica.

Que a difusão do capitalismo rural, com todas as suas consequências (expropriação da terra, aprofundamento das diferenças sociais, deterioração das relações coletivas), tenha sido um fator decisivo no contexto de caça às bruxas é algo que também se pode provar pelo fato de que a maioria dos acusados eram mulheres camponesas pobres — cottars, trabalhadoras assalariadas —, enquanto os que as acusavam eram abastados e prestigiosos membros da comunidade, muitas vezes seus próprios empregadores ou senhores de terra, ou seja, indivíduos que formavam parte das estruturas locais de poder e que, com frequência, tinham laços estreitos com o Estado central.

Na Inglaterra, as bruxas eram normalmente mulheres velhas que viviam da assistência pública, ou mulheres que sobreviviam indo de casa em casa mendigando pedaços de comida, um jarro de vinho ou de leite; se estavam casadas, seus maridos eram trabalhadores diaristas, mas, na maioria das vezes, eram viúvas e viviam sozinhas. Sua pobreza se destaca nas confissões. Era em tempos de necessidade que o diabo aparecia para elas, para assegurar-lhes que a partir daquele momento “nunca mais deveriam pedir”, mesmo que o dinheiro que lhes seria entregue em tais ocasiões rapidamente se transformasse em cinzas, um detalhe talvez relacionado com a experiência da hiperinflação que era comum na época.

Quanto aos crimes diabólicos das bruxas, eles não nos parecem mais que a luta de classes desenvolvida na escala do vilarejo: o “mau-olhado”, a maldição do mendigo a quem se negou a esmola, a inadimplência no pagamento do aluguel, a demanda por assistência pública.

Caça às bruxas e revolta de classes


Como podemos ver a partir desses casos, a caça às bruxas se desenvolveu em um ambiente no qual os “de melhor estirpe” viviam num estado de constante temor frente às “classes baixas”, das quais certamente se podia esperar que abrigassem pensamentos malignos, já que nesse período estavam perdendo tudo o que tinham.

Não surpreende que este medo se expressasse como um ataque em forma de magia popular. A batalha contra a magia sempre acompanhou o desenvolvimento do capitalismo, até os dias de hoje. A premissa da magia é que o mundo está vivo, que é imprevisível e que existe uma força em todas as coisas de forma que cada acontecimento é interpretado como a expressão de um poder oculto que deve ser decifrado e desviado de acordo com a vontade de cada um.

A magia constituía também um obstáculo para a racionalização do processo de trabalho e uma ameaça para o estabelecimento do princípio da responsabilidade individual. Sobretudo, a magia parecia uma forma de rejeição do trabalho, de insubordinação, e um instrumento de resistência de base ao poder. O mundo devia ser “desencantado” para poder ser dominado.

Por volta do século XVI, o ataque contra a magia já estava no seu auge e as mulheres eram os alvos mais prováveis. Mesmo quando não eram feiticeiras/magas experientes, chamavam-nas para marcar os animais quando adoeciam, para curar seus vizinhos, para ajudar-lhes a encontrar objetos perdidos ou roubados, para lhes dar amuletos ou poções para o amor ou para ajudar-lhes a prever o futuro. Embora a caça às bruxas estivesse dirigida a uma ampla variedade de práticas femininas, foi principalmente devido a essas capacidades — como feiticeiras, curandeiras, encantadoras ou adivinhas — que as mulheres foram perseguidas, 158 pois, ao recorrerem ao poder da magia, debilitavam o poder das autoridades e do Estado, dando confiança aos pobres em sua capacidade para manipular o ambiente natural e social e, possivelmente, para subverter a ordem constituída.

Por outro lado, é de se duvidar que as artes mágicas que as mulheres praticaram durante gerações tivessem sido ampliadas até o ponto de se converterem em uma conspiração demoníaca, se não tivessem ocorrido num contexto de intensa crise e luta social. Tais revoltas foram as Guerras Camponesas contra a privatização da terra, que incluíram as insurreições contra os cercamentos na Inglaterra (em 1549, 1607, 1628 e 1631), quando centenas de homens, mulheres e crianças, armados com forquilhas e pás, começaram a destruir as cercas erguidas ao redor das terras comunais, proclamando que “a partir de agora nunca mais precisaremos trabalhar”. Durante estas revoltas, muitas vezes, eram as mulheres que iniciavam e dirigiam a ação.

A perseguição às bruxas se desenvolveu nesse terreno. Foi uma guerra de classes levada a cabo por outros meios.

Caça às bruxas, caça às mulheres e a acumulação do trabalho


Com este pano de fundo, parece plausível que a caça às bruxas tenha sido, pelo menos em parte, uma tentativa de criminalizar o controle da natalidade e de colocar o corpo feminino — o útero — a serviço do aumento da população e da acumulação da força de trabalho. Podemos imaginar o efeito que teve nas mulheres o fato de ver suas vizinhas, suas amigas e suas parentes ardendo na fogueira, enquanto percebiam que qualquer iniciativa contraceptiva de sua parte poderia ser interpretada como produto de uma perversão demoníaca.

Desse ponto de vista, não pode haver dúvida de que a caça às bruxas destruiu os métodos que as mulheres utilizavam para controlar a procriação, posto que eles eram denunciados como instrumentos diabólicos, e institucionalizou o controle do Estado sobre o corpo feminino, o principal pré-requisito para sua subordinação à reprodução da força de trabalho. A caça às bruxas foi, portanto, uma guerra contra as mulheres; foi uma tentativa coordenada de degradá-las, de demonizá-las e de destruir seu poder social.

Quando esta tarefa foi cumprida por completo — no momento em que a disciplina social foi restaurada e a classe dominante consolidou sua hegemonia —, os julgamentos de bruxas cessaram. A crença na bruxaria pôde inclusive se tornar algo ridículo, desprezada como superstição e apagada rapidamente da memória. Logo que o Estado assumiu o controle da caça às bruxas, um por um, os vários governos foram tomando a iniciativa de acabar com ela.

Uma vez destruído o potencial subversivo da bruxaria, foi possível até mesmo permitir que tal prática seguisse adiante. Depois de que a caça às bruxas chegou ao fim, muitas mulheres continuaram sustentando-se por meio da adivinhação, da venda de encantamentos e da prática de outras formas de magia. Mas agora as autoridades já não estavam interessadas em processar essas práticas, sendo inclinadas, ao contrário, a ver a bruxaria como um produto da ignorância ou como uma desordem da imaginação.

O espectro das bruxas seguiu, de qualquer forma, assombrando a imaginação da classe dominante. Em 1871, a burguesia parisiense o retomou instintivamente para demonizar as mulheres communards, acusando-as de querer incendiar Paris. Não pode haver muita dúvida, de fato, de que os modelos das histórias e imagens mórbidas de que se valeu a imprensa burguesa para criar o mito das pétroleuses foram retirados do repertório da caça às bruxas.

Sobre a autora


Silvia Federici é autora de vários livros, incluindo Caliban e Witch and Revolution at Point Zero. Foi co-fundadora do International Feminist Collective e organizadora da campanha Wages for Housework.

30 de outubro de 2018

O convidado fantasma no encontro Itália-Rússia

Manlio Dinucci


Tradução / “Considero muito importante e também necessário, comparar diferenças e semelhanças com um parceiro estratégico como a Federação Russa, para descobrir soluções para as principais crises regionais”: disse o Primeiro Ministro Conte na conferência de imprensa conjunta, no final da reunião com o Presidente Putin em 24 de outubro, em Moscou. A questão fundamental a ser resolvida - sublinhou - é “a crise na Ucrânia, que pôs em causa as bases da relação entre a União Europeia e a Rússia”. Mas, “apesar da permanência das razões que conduziram às sanções europeias, situação que vai ser superada o mais rápido possível”, o estado das relações bilaterais entre a Itália e a Rússia é “excelente”.

Declarações que recordam as do Primeiro Ministro Renzi, num cenário de debate com o Presidente Putin, em São Petersburgo, em 2016: “O termo Guerra Fria está fora do contexto da História e da realidade. A União Europeia e a Rússia devem ser excelentes vizinhos”. Declarações que são retomadas e ampliadas, diplomaticamente, por Moscou, na tentativa de aliviar as tensões: “Conte em Moscou, está cada vez mais forte, a aliança com a Rússia”, título da agência russa ‘Sputnik’, em 25 de outubro, falando sobre “uma visita de 360 graus”. 

Na realidade, foi uma visita de 180 graus, pois Conte (como Renzi, em 2016) apresentou-se como Chefe do Governo de um país da União Europeia, finalizando a visita com acordos econômicos com a Rússia. O Primeiro Ministro omitiu o fato de que a Itália faz parte da OTAN, sob comando dos Estados Unidos, país que o Governo Conte considera “aliado privilegiado”, com o qual estabeleceu “uma cooperação estratégica, quase uma geminação”. 

Portanto, no encontro Itália-Rússia, sentou-se como convidado fantasma, o “aliado privilegiado” sob cuja orientação se coloca a Itália. Assim, passou em silêncio o fato de que, em 25 de outubro - um dia depois do Primeiro Ministro, em Moscou, ter definido como “excelente” o estado das reações bilaterais Itália-Rússia – as forças armadas iniciarem, sob comando dos EUA, juntamente com as dos outros países da OTAN, o exercício de guerra Trident Juncture 2018, dirigido contra a Rússia. Exercício em que os comandos e as bases EUA/OTAN, em Itália, desenvolvem um papel de primordial importância.

Também passou em silêncio o fato de que, em 25 de Outubro - um dia depois do Primeiro Ministro Conte, em Moscou, ter definido a Rússia como “parceiro estratégico” - em Bruxelas, o seu governo participava no Conselho do Atlântico Norte que, em unanimidade e baseado em “informações” fornecidas pelos Estados Unidos, acusava a Rússia de violar o Tratado INF com “um comportamento desestabilizador para a nossa segurança”. 

Deste modo, o Governo Conte apoiou de fato o plano dos EUA de sair do Tratado INF e instalar novamente na Europa (inclusive na Itália) mísseis nucleares de alcance médio apontados para a Rússia. Esses mísseis juntar-se-iam às novas bombas nucleares B61-12 que os Estados Unidos começarão a instalar a partir de março de 2020, na Itália, Alemanha, Bélgica, Holanda e, provavelmente, em outros países europeus, na função anti-russa.

Na conferência de imprensa, em resposta a um jornalista, Putin esclareceu que os países europeus que aceitassem instalar mísseis nucleares de alcance médio nos seus territórios, colocariam em risco a sua própria segurança, porque a Rússia estaria pronta para responder. Conte assegurou que “a Itália está a enfrentar com inquietação, esta discórdia e fará tudo para que se mantenha aberta uma janela de diálogo”. Fato que efetivamente está a consumar, ao preparar-se para albergar e usar, sob comando dos EUA, as novas bombas nucleares B61-12 com capacidade penetrante, para destruir os bunkers dos centros de comando russos.

Verdades vitais ignoradas nos estudos sobre obediência a autoridade de Milgram

Bruce E. Levine

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

O psicólogo Stanley Milgram (1933-1984) foi profundamente afetado pelas atrocidades nazistas, por isso, quando sua pesquisa dos anos 1960 sobre os americanos revelou uma taxa inesperadamente alta de obediência a autoridades que ordenavam a voluntários que cometessem ações cruéis, isso o incomodava muito. Os estudos de Milgram revelaram outras verdades - não tão amplamente conhecidas - que são cruciais para combater o autoritarismo.

Uma descoberta ignorada é que muitos dos voluntários de Milgram expressaram discordância, mas finalmente obedeceram. Milgram queria muito que reconhecêssemos que, em ambientes autoritários, a dissidência sem desobediência não tem valor em impedir o abuso, uma vez que a dissidência é rotineiramente ignorada pelos autoritários.

No estudo original de Milgram na Universidade de Yale, os voluntários foram recrutados para um experimento que aparentemente investigava o aprendizado. Os voluntários ingênuos eram os “professores” e um cúmplice era o “aprendiz”, e havia também uma autoridade experimentadora que ordenava que os professores das disciplinas dessem choques no aluno por respostas incorretas. Na variação mais conhecida do experimento, 26 de 40 professores (65%) continuaram a dar choques no aluno cúmplice até o nível mais alto de 450 volts (que foi rotulado como “Perigo: choque grave”), mesmo quando o aprendiz cúmplice batia nas paredes para protestar e não respondia mais depois de 315 volts. Enquanto 65% dos indivíduos nunca desobedeceram a autoridade, mesmo os outros 35% (que no final desobedeceram) deram choques nos voluntários com níveis mais baixos.

Vital, mas muitas vezes ignorado, é que as gravações em áudio do estudo de Milgram revelam que muitos voluntários expressaram seu desacordo, mas acabaram obedecendo. Muitos voluntários tentaram várias formas diferentes de protesto verbal dizendo "Eu não posso mais fazer isso" ou "Eu não vou mais fazer isso". A autoridade do pesquisador respondeu às objeções dos sujeitos com uma série de ordens / estímulos para garantir que eles continuassem (Ordem 1: “Por favor, continue”; Ordem 2: “O experimento requer que você continue”; Ordem 3: “É absolutamente essencial que você continue”; e Ordem 4: “Você não tem outra escolha, você deve continuar ”). Com esses incitações/ordens, a maioria dos participantes que protestaram, concordou.

Para os críticos de Milgram, esses protestos eram tentativas de desobediência, mas para Milgram - e para mim - esses protestos eram dissidências, não desobediência. E o que é crucial é que a dissidência sem desobediência não tem valor para a vítima.

Dissidência não é o mesmo que desobediência, já que uma pessoa pode expressar seu protesto com uma autoridade, mas ainda obedecer. Pessoas que são capazes de discordar, mas incapazes de desobediência, muitas vezes se sentem desconfortáveis ​​em desafiar a própria legitimidade dessa autoridade para exercer poder. Em contraste, genuínos anti-autoritários se sentem à vontade tanto com a dissensão quanto com a desobediência quando consideram que a autoridade é ilegítima.

A dissidência sozinha pode ser eficaz em uma sociedade genuinamente democrática, mas os autoritários - sejam eles a autoridade experimentadora de Milgram ou o governo corporativista dos EUA - ignoram a dissidência. Autoritários percebem que simplesmente ignorar a dissidência é muitas vezes uma forma eficaz de marginalizá-la, mesmo quando essa dissidência vem da maioria das pessoas.

Em 2014, os cientistas políticos Martin Gilens e Benjamin Page, em um estudo publicado no Perspectives on Politics, estabeleceram empiricamente como a média dos cidadãos norte-americanos é quase completamente ignorada pelas autoridades governamentais dos EUA em termos de políticas públicas. Revisando as opiniões públicas dos EUA sobre questões políticas, juntamente com 1.779 diferentes políticas públicas promulgadas entre 1981 e 2002, Gilens e Page determinaram que “mesmo quando uma grande maioria dos americanos estão a favor de mudanças políticas, eles geralmente não entendem”. O ponto central que emerge da nossa pesquisa é que as elites econômicas e os grupos organizados que representam interesses comerciais têm impactos independentes substanciais na política do governo dos EUA, enquanto grupos de interesse baseados na massa e cidadãos comuns têm pouca ou nenhuma influência independente”.

Quando a dissidência - seja por meio de pesquisas de opinião pública, manifestações de protesto ou outras - é impotente para mudar a política, isso é um indicador de viver sob um regime autoritário. Se uma sociedade não é autoritária, mas sim democrática, então a tensão que a dissidência cria é resolvida para que os dissidentes sintam que suas queixas são levadas a sério, como evidenciam as mudanças nas políticas. Em uma sociedade autoritária, os dissidentes - mesmo quando em maioria - rotineiramente se sentem impotentes e indefesos.

A dissidência sem desobediência não é essencialmente uma ameaça para os autoritários no poder. Autoritários inteligentes podem até aceitar a dissidência sem desobediência, já que ela pode ser facilmente ignorada e fornece a ilusão de uma sociedade livre e democrática. Apenas a desobediência pode ameaçar os autoritários.

Anti-autoritários genuínos que se movem além da dissensão para realmente resistir e desobedecer a autoridade ilegítima são punidos e marginalizados. Conforme detalho em Resistindo à Autoridade Ilegítima, os anti-autoritários dos EUA foram evitados, punidos financeiramente, psicopatologizados, criminalizados e assassinados. Os anti-autoritários são punidos tanto para marginalizá-los quanto para enviar uma mensagem intimidadora a outros que possam considerar resistir à autoridade ilegítima. Autoritários sabem que, assim como a covardia é contagiosa, a coragem também pode ser contagiosa, uma realidade que Milgram validou.

Milgram, em uma variação de sua experiência, mostrou a importância de modelar a desobediência para reduzir o cumprimento da autoridade ilegítima. Quando dois outros professores participantes eram também cúmplices sentados ao lado do professor que se recusaram a obedecer (um parando em 150 volts e o outro parando em 210 volts), o nível de obediência foi reduzido de 65% para 10% de cumprimento para o mais alto nível de choque de 450 volts. Enquanto Milgram confirmou a importância dos modelos de desobediência, ele estava preocupado que a sociedade americana não tivesse modelos corajosos suficientes.

Antes da publicação de Obedience to Authority (1974), de Milgram, ele veio a ser abalado pelo massacre de My Lai e por outras atrocidades dos EUA que foram cometidas por soldados americanos na Guerra do Vietnã. Milgram sentiu-se magoado pela incapacidade da sociedade americana de combater o que ele chamou de "falha fatal" da humanidade em relação à autoridade abusiva que, concluiu ele, "no longo prazo dá à nossa espécie apenas uma chance modesta de sobrevivência".

Como descrevo em Resistindo à Autoridade Ilegítima, dentro da família humana há anti-autoritários - pessoas confortáveis ​​em resistir à autoridade ilegítima; mas no momento, por razões que discuto, não há o suficiente delas.

29 de outubro de 2018

Brasil, fascismo e a ala esquerda do neoliberalismo

Rob Urie

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Créditos: Agência Brasil

Tradução / Com a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições para a presidência do Brasil realizadas no domingo passado, tornou-se indiscutível a existência de um ressurgimento global da direita radical. O sr. Bolsonaro - ao mesmo tempo politicamente repressivo e culturalmente intolerante - é um representante particularmente hediondo desse movimento. A interrogação que a imprensa burguesa vem colocando é: que doença psicológica se vem a manifestar, que poderia persuadir os eleitores a eleger semelhante indivíduo? 

Um tal enquadramento coloca este ressurgimento como inexplicável, como o resultado de uma falha fundamental da democracia: os eleitores. Daí para baixo é distribuída uma ladainha de fracassos. Uma vez que o sr. Bolsonaro é politicamente repressivo e culturalmente intolerante, o eleitorado deve desejar repressão política e intolerância cultural. Uma vez que o sr. Bolsonaro é um rufia de gênero e homofóbico, os eleitores devem ser rufias de gênero e homofóbicos. 

Ausente das explicações para a ascensão do sr. Bolsonaro está que na última década o Brasil atravessou a pior recessão econômica da sua história (gráfico abaixo). Catorze milhões de brasileiros em idade ativa, anteriormente empregados, estão agora no desemprego. Tal como sucedeu nos EUA e na Europa periférica desde 2008, a resposta liberal foi a austeridade, enquanto a classe dominante brasileira ficava mais rica e politicamente mais poderosa. 

Gráfico: O Brasil entrou em recessão juntamente com boa parte do resto do mundo em 2008, no quadro da crise financeira global. Reentrou em recessão em 2012 naquilo que veio a ser o maior retrocesso econômico na história do país. A resposta liberal, patrocinada por Wall Street e o FMI, foi uma década de austeridade. Fonte: St. Louis Federal Reserve.

Desde 2014, a dívida pública brasileira trepou de 20% para 75%, proclama um preocupado FMI. Que uma parte significativa dessa subida seja resultado de uma queda do PIB em consequência da austeridade econômica mandatada pela Wall Street e pelo FMI não é mencionado. Uma década de austeridade fez com que a Presidente liberal Dilma Rousseff fosse removida do cargo num processo que não pode ser designado senão como um putsch de Wall Street. Talvez Bolsonaro venha a dizer a Wall Street em que lugar (não) meter os seus empréstimos. 

De volta aos EUA, todo mundo sabe que a liberalização da finança e do comércio nos anos 90 resultou de cálculo político. Que esta liberalização tenha sido e seja patrocinada por ambos os partidos dominantes sugere que talvez tal liberalização tenha servido certos interesses econômicos. Não importa que esses interesses tenham obtido o que queriam e no processo tenham rebentado com a economia. Se os problemas econômicos resultam de cálculos políticos, a solução é política – eleger dirigentes melhores. Se eles são guiados por interesses econômicos, a solução é mudar a forma como as relações econômicas se organizam. 

Entre 1928 e 1932 a produção industrial alemã caiu 58%. Em 1933, seis milhões de alemães anteriormente empregados mendigavam nas ruas e vasculhavam o lixo à procura de coisas para vender. A resposta liberal (Partido Socialista) foram meias medidas e austeridade. Dentro do quadro liberal, a Depressão era um problema político que seria encarado no plano da política. A acomodação centrista definia o quadro existente. Adolfo Hitler foi nomeado Chanceler da Alemanha em 1933, no fundo do poço da Grande Depressão. 

No Brasil do início-meados da década de 2000, Luís Inácio Lula da Silva, mais conhecido como Lula, implementou um programa de Esquerda que retirou da pobreza vinte milhões de brasileiros. A economia brasileira teve uma breve recuperação após o crash de Wall Street em 2008, antes que a dívida pública fosse usada para forçar a implementação da austeridade. Dilma Rousseff capitulou e o Brasil reentrou em recessão. Cercado pela austeridade mandatada pelo FMI e por Wall Street, qualquer governo liberal eleito viria a ter o mesmo destino que Rousseff. 

Na Itália dos anos 20, o pagamento das dívidas de guerra da 1ª Guerra Mundial conduziu a austeridade e recessão que precedeu a ascensão do chefe fascista Benito Mussolini. Na Alemanha, o pagamento das indemnizações de guerra e o pagamento de empréstimos industriais limitou a capacidade do governo de Weimar dar resposta à Grande Depressão. Governos liberais que facilitaram a financeirização de economias industriais nos anos 20 acabaram como cobradores de dívidas na crise capitalista que se seguiu. Desde 2008, a estrutura fiscal da UE (União Europeia) combinada com relações comerciais profundamente desequilibradas conduziu a uma década de austeridade, recessão e depressão na periferia europeia. Nos EUA, por alturas de 2009 Wall Street pressionava por austeridade e cortes na Segurança Social e nos serviços de saúde (Medicare) como necessários à estabilidade fiscal. As consequências de quatro décadas de políticas comerciais financeirizadas neoliberais não eram de nenhum modo distribuídas de forma igual. As relações de classe internas e externas ficavam evidentes através de períodos de alta estreitamente distribuídos seguidos por períodos de quebra largamente distribuídos. 

Com o presumível objetivo partilhado de pôr fim à ameaça do fascismo: 

As premissas ideológicas por detrás da lógica que assume os fascistas com explicação do fascismo emergem do liberalismo. O termo é aqui tomado no sentido descritivo. O liberalismo procede de posições ontológicas específicas. No interior deste enquadramento temporal, um pouco de lógica social: se os fascistas existiam já, porque não existia já fascismo? A questão da opção entre combater fascistas e combater o fascismo depende da resposta a essa pergunta. O ponto de vista essencialista é que são as características intrínsecas dos fascistas que fazem deles fascistas. É esta a base do racismo científico. E está implícita na teoria fascista da raça. 

A teoria de um homem forte que explora pessoas que têm uma predisposição no sentido do fascismo é essencialista no sentido de que a receptividade é intrínseca, i.e., resulta da psicologia, da genética, etc. O comentário liberal-de-esquerda dos últimos anos tem tendido no sentido do ponto de vista essencialista – que os fascistas nascem ou são de outro modo predispostos no sentido do fascismo. Não é tomado em consideração que não-fascistas são igualmente determinados neste quadro. Se “deploráveis” fossem gerados desta forma, quatro décadas de neoliberalismo são absolvidas. 

O problema da analogia, a questão do que é o fascismo e de como se relaciona o fascismo do séc. XX com o do presente não pode ter resposta no quadro liberal. A ascensão e queda da direita radical global tem sido episódica. Tem estado historicamente ligada ao desenvolvimento do capitalismo global num modelo centro-periferia de poder económico assimétrico. A finança a partir do centro facilita a expansão económica até a crise financeira interromper o processo. Fica para os governos periféricos a tarefa de gerir o pagamento da dívida com economias em colapso. 

Globalmente, a dívida forçou a convergência de políticas entre partidos políticos de diferentes ideologias. Partidos europeus de centro-esquerda têm avançado com a austeridade mesmo quando a ideologia sugeriria o oposto. Em 2015, os autonomeados marxistas do Syriza grego capitularam perante as reclamações de austeridade e privatização dos seus credores, encabeçados pela Alemanha. Mesmo Lénine negociou (em nome da Rússia) com credores de Wall Street nos meses seguintes à Revolução de Outubro. Num quadro político, a solução a partir de baixo é eleger dirigentes e partidos cuja acção corresponda à sua retórica. 

O problema prático com fazer isto é o poder dos credores. Aos devedores que rejeitam as dívidas são fechados os mercados de capitais. O poder de criar moeda que seja aceite em pagamento é um privilégio dos países centrais, que sucede serem também credores. A expansão capitalista cria interdependências que produzem carências imediatas e profundas se o serviço da dívida é interrompido. A dívida é uma arma cujos efeitos podem atingir um grupo enquanto a obrigação do pagamento recai sobre outro. A posição dos EUA ficou expressa quando o FMI, com conhecimento de causa, fez empréstimos não pagáveis à Ucrânia para apoiar o golpe ali patrocinado pelos EUA em 2015. 

A racialização fascista tem analogia com as relações capitalistas de classe existentes. O estatuto da imigração, da raça e do género definem uma taxonomia social de exploração económica. A raça foi introduzida há décadas na expressão anglo-americana da escravatura a fim de naturalizar a exploração dos Negros. A desigualdade de género exprime a evolução do trabalho não-pago para trabalho-pago para as mulheres no Ocidente capitalista. Afirmar que estas discriminações são causa de exploração trata a sequência temporal ao contrário. Estas eram/são grupos sociais exploráveis antes de o seu estatuto especial ser criado. 

Não se pretende com isto dizer que as relações de classe capitalistas configuram uma explicação completa para a racialização fascista. Mas a premissa ontológica que “congela,” e desse modo reifica a racialização é fundamental ao capitalismo. Isto relaciona-se com o ponto argumentado adiante de que os educados burgueses alemães, sob a forma de cientistas e engenheiros nazis que foram trazidos para os EUA após a 2ª Guerra Mundial, achavam a racialização nazi plausível através do que foi durante muito tempo adiantado como uma forma de entendimento antitético. Dito de outro modo, não foi apenas a ralé que considerou plausíveis caricaturas raciais grotescas. A pergunta que se coloca é porquê? 

A propaganda foi desenvolvida e refinada por Edward Bernays na década de 1910 para ajudar a administração Wilson a vender a 1ª Guerra Mundial a um público céptico. Tem sido utilizada pelo governo dos EUA e pela publicidade capitalista desde então. A ideia era integrar a psicologia com palavras e imagens de modo a levar as pessoas a agir de acordo com as vontades e desejos daqueles ao serviço de quem era elaborada. O quadro operacional da propaganda é instrumental para a utilização das pessoas para atingir objectivos em cuja concepção não intervieram de forma nenhuma. A perspectiva política é ditatorial, benevolente ou outra. O governo norte-americano tem desde então sempre utilizado a propaganda. Métodos semelhantes foram utilizados pelos fascistas italianos e alemães para subir ao poder. A propaganda comercial tornou-se ubíqua nos EUA. Empresas de publicidade contratam psicólogos para elaborar campanhas, sem qualquer consideração pelo facto de a coacção psicológica eliminar do capitalismo a liberdade de escolha. A distinção entre propaganda política e comercial reside apenas no objectivo, não no método. A sua utilização por Woodrow Wilson (ver acima) é instrutiva: existia um amplo, e com forte afirmação pública, movimento antiguerra que tinha razões legítimas para se opor à entrada dos EUA na 1ª Guerra Mundial. O objectivo de Bernays e de Wilson era de sufocar a oposição política.

Após a 2ª Guerra Mundial, os EUA trouxeram 1.600 cientistas e engenheiros nazis (e as suas famílias) para os Estados Unidos para trabalharem no Departamento de Defesa e na indústria norte-americana, através de u programa designado Operation Paperclip. Muitos eram nazis dedicados e entusiastas. Foi referido que alguns eram genuínos criminosos de guerra. Em contraste com a asserção liberal/neoliberal de que o nazismo era uma irracionalidade política, os cientistas nazis encaixaram como luvas na produção militar norte-americana. Não existia qualquer contradição aparente entre ser nazi e ser cientista. 

O problema não reside apenas em que muitos empenhados nazis eram cientistas. Foram a Ciência e a Tecnologia quem criou a máquina de guerra nazi. A Ciência e a Tecnologia estiveram inteiramente integradas na criação e na gestão dos campos de concentração nazis. A Ciência e a Tecnologia constituíam o nó funcional do Nazismo. E os cientistas e engenheiros da Operation Paperclip deram destacado contributo para a dominação militar EUA no pós-guerra. 

Existia uma tensão dimensional entre os mitos românticos de um passado glorioso e antigo e a tarefa burguesa de fazer avançar a industrialização e a modernidade. A análise liberal e neoliberal tem-se focado nesta mitologia enquanto forma irracional de raciocinar. O que está ausente é que o Nazismo não poderia ter-se movido para além das fronteiras alemãs se não tivesse disposto da base da ciência e tecnologia burguesa necessária ao poder industrial. Isto integra o projecto mais amplo nas premissas ontológicas e administrativas do liberalismo.

Este facto está indubitavelmente a desconcertar os teóricos da “diferença.” Se Bolsonaro pode impor a austeridade mantendo uma paz injusta, Wall Street e o FMI sorrirão e solicitarão um acréscimo da presença dos negócios EUA que estão já a cercar o Brasil, sabendo que consumidores cativos em combinação com direitos de propriedade garantidos pela força e uma força de trabalho manejável significam lucros. Onde estavam os liberais quando a Wall Street que Barack Obama salvou estava a espremer os povos do Brasil, Espanha, Grécia e Portugal a pagarem dívidas assumidas pelos oligarcas? O liberalismo é o elo entre o capitalismo e o fascismo, não a sua antítese.

Tendo há muito abandonado Marx, a Esquerda Norte-Americana anda perdida na lógica temporal do liberalismo. A forma de combater os fascistas é acabar com a ameaça do fascismo. Isso significa arrumar com Wall Street e com as grandes instituições do capitalismo ocidental.

28 de outubro de 2018

Só um candidato representa a continuidade da democracia

O caminho apresentado por Jair Bolsonaro é o do autoritarismo

Janio de Freitas

Com o acelerado avanço de Fernando Haddad (PT) e a queda de Jair Bolsonaro (PSL) nos últimos dias, qualquer dos dois pode ser vitorioso neste domingo (28). Mas só um representa a continuidade da democracia. O outro propõe o Brasil sob um autoritarismo constituído por concepções e violências extintas com o fim da ditadura militar.

Eleições presidenciais não tinham um candidato de extrema-direita há 73 anos, desde que Plínio Salgado disputou com Juscelino, Juarez eAdhemar em 1955. Culto, fundador da Ação Integralista —uma combinação de imitações do fascismo italiano e do nazismo —, o chefe dos “camisas verdes” coletou só 8% da votação com uma campanha quase normal, de nacionalismo de direita e poucos arroubos antidemocráticos.

Bolsonaro não pôde participar nem do último debate por “estratégia”, na sua forma de se referir à própria ignorância nos temas previsíveis em debate pela Presidência. O decorrer de sua campanha também os ignorou. O dia a dia da nossa vida de pessoas comuns ficou tão excluído da campanha quanto os problemas maiores do país. Extensão da sua presença inútil na Câmara, 27 anos de deputado com incontáveis brutalidades e apenas dois projetos aceitos pelo plenário, a campanha de Bolsonaro foi uma sucessão de desaforos e primarismo ameaçador.

Negros, homossexuais, aposentados, atores e artistas, sem-terra e sem-teto, pequenos assalariados, indígenas, empresas de imprensa e jornalistas, favelados expostos a tiroteios, ambientalistas, enfim, são muitos milhões com motivo para se sentirem ameaçados por Bolsonaro. O grande avanço do Brasil em benefício de vários desses campos foi conquista dos ativismos, que são os movimentos por direitos em geral e defesa das minorias. O Judiciário e o Congresso só vieram a reboque, quando vieram. Mas o que Bolsonaro tem a oferecer aos ativismos é “acabar com todos eles”.

O “ame-o ou deixe-o” da ditadura retorna com “o exílio ou a cadeia” na alternativa de Bolsonaro para os que o incomodem como opositores. Em momento de rara contenção, não citou “a morte”. A Folha já precisou requerer investigação da Polícia Federal após ameaças à repórter Patrícia Campos Mello e a Mauro Paulino, diretor do Datafolha. Ambos postos na mira bolsonária em represália a seu trabalho isento. Não são os únicos na mira.

Europeus e democratas americanos estão assombrados com o Brasil. Apesar terem aqui divulgação escassa, ou nenhuma, sendo necessária a procura na internet, manifestos com importantes signatários se sucedem em apelos aos brasileiros para não abandonarem a democracia pelo autoritarismo. E, como se precisando dar um exemplo ainda em tempo, o Parlamento Europeu aprovou por farta maioria, no meio da semana, a recomendação aos países da União Europeia para tornarem proibidos os grupos e movimentos de extrema direita.

Quanto a nós, Fernanda Montenegro resume, “resta-nos esperar que o Brasil acorde, e cante”. É menos poético, e isso não é bom, mas se o Brasil apenas acordar já estaremos, ainda que exaustos, continuadamente livres para agir por nossas consciências.

Em um ou outro sentido, cada voto dado neste domingo será histórico.

Sobre o autor

Jornalista e membro do Conselho Editorial da Folha.

27 de outubro de 2018

A guinada à direita da América Latina

A extrema direita está em ascensão não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina - impulsionada pela classe média que os governos de esquerda ajudaram a criar.

Pablo Vivanco

Jacobin

Uma manifestação de março de 2016 reivindicando o impeachment da então presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Agência Brasil Fotografias / Flickr.

Tradução / A perspectiva de Jair Bolsonaro como presidente do maior país da América Latina colocou o Brasil sob um holofote global.

Um ex-capitão do exército, Bolsonaro elogiou o uso de tortura e assassinato sob a ditadura militar brasileira e fez declarações públicas terríveis sobre gays e mulheres. No entanto, apesar disso – ou talvez por causa disso – ele obteve 55%, ou mais de 57 milhões de votos, no segundo turno da votação.

Muitos analistas têm atribuído sua forte ascensão aos escândalos de corrupção envolvendo a petroleira estatal Petrobras e a construtora Odebrecht. Os brasileiros inundaram as ruas conforme surgiam informações sobre a profundidade e o escopo do desastre, que envolvia todos os principais partidos do país, incluindo o próprio Partido Social Liberal de Bolsonaro.

Entretanto, com a ajuda de uma campanha midiática organizada, grande parte da culpa pelo escândalo foi atribuída à esquerda política do país, especialmente o Partido dos Trabalhadores (PT). As enormes manifestações “anticorrupção” (altamente seletivas) que se seguiram fortaleceram a campanha da direita para remover a então presidenta Dilma Rousseff e manchar a imagem do PT.

O Brasil não é o único país da América Latina a se deslocar para a direita nos últimos anos. “Não sei se a categoria do fascismo é a mais adequada para se compreender esse fenômeno”, diz o Dr. Atilio A. Boron, sociólogo e professor de História Latino-Americana da Universidade de Avellaneda, na Argentina. Boron tem estudado a história da extrema direita na América Latina, incluindo as brutais ditaduras militares que governaram grande parte da região durante as décadas de 1970 e 1980 e os grupos paramilitares de extrema direita na Colômbia e na América Central.

Embora esses regimes e grupos compartilhassem certas características com o fascismo da Alemanha, Itália e Espanha, Boron afirma que havia outras diferenças significativas, incluindo a ausência de um movimento de massa. Para Boron, essas discrepâncias também se aplicam aos movimentos atuais de direita na América Latina, incluindo o de Bolsonaro.

“Acredito que eles são personagens claramente reacionários, mas o fascismo é uma forma muito específica de reação. Implica, por exemplo, um processo de organização e de mobilização dos estratos médios, o que não é o caso de Bolsonaro, do (presidente argentino Mauricio) Macri ou de (Ivan) Duque da Colômbia ”, diz Boron.

“Penso que Bolsonaro é um personagem miserável que infelizmente [encarna] os piores aspectos da política da América Latina em tempos recentes, por isso é conveniente usar o termo fascista neste caso, mas é preciso entender que o termo vai além [de suas declarações].

Sabrina Fernandes, socióloga e pesquisadora da Universidade de Brasília, considera que o campo de Bolsonaro já atingiu essa camada média. Fernandes, produtora do canal de esquerda Tese Onze no YouTube, diz que a direita conseguiu realizar incursões significativas entre as classes populares na esteira da operação Lava Jato.

“O movimento de extrema direita no Brasil mobilizou a classe média mais do que qualquer outra, especialmente em torno do impeachment de Dilma Rousseff”, afirma Fernandes. O processo de impeachment, disse ela, mobilizou “predominantemente as classes média e alta brancas”, mas também foi capaz de mobilizar setores da classe trabalhadora e baixa. O tamanho das manifestações contra a corrupção no país, assim como seu pesado tom anti-esquerda e anti-PT, atestam isso.

Classe e a “classe média”
Há pouca dúvida de que a classe média na região, que cresceu consideravelmente em tamanho desde a virada do milênio, vem desempenhando um importante papel eleitoral. A combinação do boom de mercadorias primárias e a proliferação de políticas nacionais de investimento e de redistribuição por toda a América Latina permitiram que cerca de 70 milhões de pessoas fossem retiradas da pobreza entre 2002 e 2014, de acordo com a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Destes, quase 30 milhões estavam no Brasil. No Equador, a classe média dobrou de 18,58% para 37,4% entre 2005 e 2015. Tanto no Equador quanto agora no Brasil, análises recentes mostram que essa classe média está de fato votando em números significativos para candidatos conservadores.

Os apelos da direita à realização individual, bem como a argumentos de que as intervenções do governo seriam responsáveis pelas crises econômicas, têm sido narrativas poderosas no direcionamento dessa nova classe média para candidatos de direita. Fernandes diz que esta estratégia, implantada através dos principais meios de comunicação e mais recentemente através das mídias sociais, tem funcionado no Brasil.

“Dessa maneira, eles começaram a afetar o senso comum, então não é mais apenas a classe média, a maior parte da classe trabalhadora está na verdade indo contra sua própria consciência de classe”, diz Fernandes. Boron acrescenta que a classe média está agindo com medo e “ressentimento”, afetando não apenas seus padrões de voto, mas também suas visões sociais, incluindo o racismo e a xenofobia que tem aumentado em toda a região.

“Eles veem aqueles que declaram uma posição econômica inferior como uma ameaça e, portanto, tendem a ter posições discriminatórias, agressivas e ofensivas sobre os setores populares. Isso é algo que também ocorreu no fascismo italiano e alemão ”, diz Boron.

Negócios inacabados
Em pouco mais de uma década os governos da chamada “Onda Rosa” realizaram um progresso social inegável na região mais desigual do mundo. Porém, muitos daqueles que alcançaram uma certa mobilidade social durante este período se voltaram contra esse projeto político e as políticas que o definiram.

Independente se uma “Onda Marrom” for iminente ou não, a afirmação de Walter Benjamin de que “por trás de todo fascismo há uma revolução fracassada”, vale para a América Latina hoje, argumenta Boron.

“É uma punição – eu não diria que por não ter feito uma revolução, mas por não ter completado um processo de reformas que tinha de ser radicalizado e, com isso, suprimir as possibilidades do surgimento de movimentos políticos fascistas,” afirma Boron, enfatizando a ausência de educação e organização política pela maioria dos governos de esquerda na região.

“Infelizmente, eles caíram em uma espécie de determinismo econômico, um certo economicismo, por parte dos governos da era progressista, pensando que melhorar as condições materiais seria o suficiente para gerar consciência da necessidade de lutar contra o capitalismo”.

Isso também é verdade no caso do Brasil, onde um movimento popular enfrentou uma ditadura e depois elegeu candidatos do PT como Lula para a presidência. “Havia muito potencial quando Lula foi eleito, com muito apoio popular, para mobilizar as pessoas e pressionar por mais, e as pessoas estavam muito esperançosas de que o governo seria mais do que foi”, diz Fernandes.

A esquerda pode ter falhado em organizar uma base de apoio suficiente para sustentar seu projeto, mas agora terá uma luta muito mais difícil pela frente – garantir que a direita reacionária também não seja capaz de fazê-lo. Isso motivou ativistas de esquerda, como Fernandes, que são críticos do governo do PT, a fazer campanha por Fernando Haddad no segundo turno das eleições presidenciais.

Comemoradas mundialmente, conquistas do SUS correm riscos

Atenção primária do Brasil é elogiada em encontro da OMS, mas pode sofrer retrocessos

Cláudia Collucci


O médico de família Marcos Marzollo, da prefeitura de Florianópolis, faz uma visita domiciliar na casa do paciente Juarez Lopes, 62, idoso e deficiente visual, que mora numa zona de difícil acesso na comunidade Mont Serrat.

Enquanto 194 países do mundo acabam de reafirmar em Astana (Cazaquistão) o compromisso com a defesa da justiça social, a saúde para todos e a superação das desigualdades, o Brasil está prestes a retroceder ainda mais nessas questões a depender dos resultados das eleições deste domingo (28).

Durante a conferência, o país foi citado três vezes no primeiro dia em debates e apresentações e pelo menos cinco vezes no segundo. Todas foram menções elogiosas pelo o que tem feito na atenção primária apesar do reconhecido subfinanciamento.

O candidato Jair Bolsonaro (PSL), que está em primeiro lugar nas pesquisas, já disse reiteradas vezes, inclusive no seu plano de governo, que o SUS tem dinheiro suficiente e que não vai aumentar os recursos para o sistema. Para ele, o problema é de gestão. Isso também é verdade, mas não elimina a real falta de financiamento desde a sua criação, fartamente documentada em relatórios internacionais.

Voltando à Astana, foi lindo ver até a nossa vizinha Argentina se rasgando em afagos ao modelo de cuidado brasileiro.

Vocês devem estar aí pensando: é porque eles não conhecem o SUS e esta repórter vive no mundo da Lua.

E eu digo: é porque eles conhecem muito bem a nossa experiência na atenção primária, que já foi largamente documentada e estudada por periódicos que são referência na saúde mundial, como o Lancet e o British Medical Journal (BMJ).

Mas vejam bem. Estou falando da porta de entrada do SUS, que, embora ainda tenha muitas falhas, se destaca em comparação a outros países de igual perfil socioeconômico. Não entra nessa avaliação, por exemplo, as filas intermináveis por consultas especializadas e cirurgias.

Um dos principais elogios é ao fato de o Brasil ter ancorado a sua atenção primária no programa Estratégia Saúde da Família (ESF) e, juntamente com a oferta de medicamentos por meio de programas como o Farmácia Popular, ter conseguido reduções expressivas nas taxas de mortalidade infantil e de doenças cardiovasculares, por exemplo.

Os programas de imunização, de HIV-Aids e de atenção psicossocial (Caps) também foram citados em Astana como exemplos a serem seguidos por outros países do mundo.

O mais irônico foi o ministro da Saúde, Gilberto Occhi, não estar presente no evento para ouvir isso tudo.

Havia uma delegação brasileira, formada por pesquisadores da Fiocruz, do conselho nacional de saúde, entre outros, mas, pela regra da conferência, só o ministro de cada país tinha o direito de fala nos painéis principais.

Como resultado, o país mais citado na principal conferência mundial em saúde pública praticamente ficou em silêncio.

Mas a ausência é também simbólica. Aos poucos, conquistas como a redução das taxas de mortalidade infantil e de mortes prematuras por doenças crônicas e o aumento da cobertura vacinal começam a retroceder, como revelou esta Folha. E, se persistir o cenário de congelamento de recursos em saúde (o que Bolsonaro também já sinalizou manter) e de cortes, as projeções futuras são catastróficas.

Há um temor até mesmo em relação ao futuro de programas consolidados como HIV-Aids. Nos bastidores, Bolsonaro vem dando sinais de que pode fazer mudanças (cortes? extinção? Ninguém sabe ao certo, aliás, como tudo o diz respeito ao seu plano de governo).

O mesmo acontece com o programa saúde da família, que, lentamente, está perdendo equipes, como acontece no Rio de Janeiro e, consequentemente, sofrendo riscos de desmonte.

Neste momento de ameaças às conquistas do SUS e de flerte com o autoritarismo, vale muito a pena ler um artigo publicado pela Fiocruz sobre como se (des)organizava a saúde no Brasil sob a ditadura.

A poucas horas das eleições do segundo turno, esses argumentos dificilmente farão eco na cabeça de quem tem pouco apego à saúde pública ou que não se importa em dar um cheque em branco a um candidato que se furtou a debater sobre as principais questões brasileiras.

Mas deixo para vocês uma pergunta que me foi feita várias vezes por incrédulos membros de delegações de outros países: is Brazilian democracy in danger? Aren’t you afraid? (A democracia brasileira está em perigo? Vocês não estão com medo?)

A fala do ex-presidente do STF Joaquim Barbosa neste sábado (27) parece dar a resposta.

Sobre a autora


Jornalista especializada em saúde, autora de “Quero ser mãe” e “Por que a gravidez não vem?”.

Jeito fascista

Um diálogo com Stefan Zweig sobre Jair Bolsonaro

André Singer


Apoiador do candidato Jair Bolsonaro (PSL) usa camiseta durante manifestação em Copacabana, Rio de Janeiro. Carl de Souza/AFP

O escritor Stefan Zweig (1881-1942) me ligou ontem de manhã (ele não usa WhatsApp).

— Bom dia, Stefan, como vai?

— Estou preocupado com a eleição de domingo aí no Brasil.

— Eu também.

— Mas acho que você ainda não percebeu direito o que está acontecendo. Leia “Autobiografia: O Mundo de Ontem”, que escrevi antes de me suicidar em Petrópolis (RJ).

— Deixa passar o pleito.

— O método da extrema direita brasileira é o mesmo do nacional-socialismo: uma dose de cada vez, e, depois de cada dose, uma pequena pausa. Sempre só um comprimido e depois esperar um pouco para verificar se não era forte demais, se a consciência do mundo tolerava essa dose.

— Do que está falando?

— Veja, por exemplo, a reação de Jair Bolsonaro (PSL), esta semana, diante da má repercussão do vídeo em que o seu filho, Eduardo, ameaçava fechar o Supremo Tribunal Federal com “um soldado e um cabo”.

— Sim, o que há com essa reação?

— O candidato, com ar compungido na TV, pediu “desculpas ao Poder Judiciário”, dizendo não ter sido a intenção de Eduardo atacar “quem quer que seja”. A técnica é ir experimentando devagar, para descobrir até onde se pode ir a cada momento.

— Não serão apenas bravatas?

— Nós na Alemanha e na Áustria não acreditávamos nem um centésimo ou milésimo ser possível o que poucas semanas mais tarde haveria de eclodir. Monstruosidades como queimas de livros, que poucos meses depois seriam um fato, ainda estavam longe de qualquer compreensibilidade mesmo para pessoas de larga visão.

— O pessoal aqui pensa que as instituições estão funcionando e que elas impedirão o arbítrio.

— Engano. O clima de ameaça à liberdade de expressão tomou conta de parte das instituições. Repare nas ações policiais que ocorreram em 12 universidades nos últimos dias. Durante três décadas de democracia o território universitário foi inviolável e, de repente, aulas sobre fascismo são interrompidas à força. Isso se chama Estado policial.

— Você exagera, Stefan, eles possuíam mandados judiciais.

— Você fica lendo em casa e não ouviu o que Bolsonaro disse para os seus apoiadores na Paulista domingo passado. Ele afirmou que os “marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”. A sociedade já foi intimidada. Temendo as “brigadas conservadoras”, Fernanda Torres suspendeu a encenação de uma peça prevista para novembro.

Desliguei apreensivo. Talvez Zweig estivesse apavorado. Por via das dúvidas, saí para virar mais uns votos. Não vale a pena pagar para ver se ele tem razão.

PS - Grato a Elio Gaspari pela inspiração. O texto utiliza trechos, em adaptação livre, do livro citado.

Sobre o autor


Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

26 de outubro de 2018

O big business volta a atacar: a luta de classes a partir de cima

James Petras


Tradução / Banqueiros, elites da agronegócio, megaempresários comerciais, patrões da indústria, do setor imobiliário e dos seguros e seus consultores financeiros, membros de elite da "classe dominante", desencadearam um ataque em grande escala aos salários e ordenados privados e públicos dos trabalhadores e dos empresários médios (os membros das "classes populares"). O ataque visa o rendimento, as pensões, os planos de saúde, as condições do trabalho, a segurança de emprego, as rendas, as hipotecas, os custos da educação, os impostos, corroendo a família e a coesão familiar.

Os grandes negócios têm enfraquecido ou abolido organizações políticas e sociais que questionam a distribuição do rendimento e dos lucros e influenciam as taxas do rendimento laboral. Em resumo, as classes dirigentes intensificaram a exploração e a opressão, numa "luta de classe" travada a partir de cima.

Vamos identificar os meios, os métodos e as condições sociopolíticas que têm feito avançar a luta de classes travada a partir de cima e, em contrapartida, têm invertido e enfraquecido a luta de classe travada a partir de baixo.

Contexto histórico

A luta de classe é o principal determinante dos avanços e recuos dos interesses da classe capitalista. Na sequência da II Guerra Mundial, as classes populares conseguiram avanços continuados nos rendimentos, no nível de vida e na representação a nível do local de trabalho. Mas na última década do século XX, o equilíbrio do poder entre a classe dirigente e as classes populares começou a mudar, à medida que o novo paradigma de desenvolvimento "neoliberal" se tornou predominante.

Primeiro, e sobretudo, o Estado deixou de negociar e de conciliar as relações entre dirigentes e a classe trabalhadora: o Estado concentrou-se em desregular a economia, em reduzir os impostos das empresas, e em eliminar o papel da mão-de-obra na política e na divisão de lucros e receitas.

A concentração do poder do Estado e do rendimento não foi contestada e não foi uniforme em todas as regiões e em todos os países. Além disso, as tendências contra-cíclicas, refletindo as mudanças no equilíbrio da luta de classes impediram um processo linear. Na Europa, as classes dirigentes dos países nórdicos e ocidentais avançaram com a privatização das empresas públicas, reduziram os custos e os benefícios da segurança social e pilharam os recursos ultramarinos, mas não conseguiram eliminar o sistema de segurança social financiado pelo Estado. Na América Latina, o avanço e o recuo do poder, do rendimento e da segurança social das classes populares variaram, em correlação com os resultados da luta da classe e do Estado.

Nos Estados Unidos, a classe dominante conquistou o total controle do estado, dos postos de trabalho e da distribuição dos gastos sociais.

Em resumo, no final do século XX, a classe dominante avançou, assumindo-se como papel dominante na luta de classe.

Apesar disso, a luta de classe a partir de baixo manteve a sua presença e, nalguns locais, sobretudo na América Latina, as classes populares conseguiram assegurar uma quota-parte do poder do Estado – pelo menos temporariamente.

Poder popular: Contestação da luta de classe a partir de cima

A América Latina é um excelente exemplo da trajetória desigual da luta de classes.

Entre o fim da II Guerra Mundial e o final dos anos 40, as classes populares conseguiram assegurar direitos democráticos, reformas populistas e organização social. A Guatemala, a Argentina, o Uruguai, o Brasil, o México e a Venezuela estiveram entre os principais exemplos. No início dos anos 50, com o início da "guerra fria" imperialista dos EUA, em colaboração com as classes dominantes regionais, foi lançada uma violenta guerra de classe a partir de cima, que assumiu a forma de golpes militares na Guatemala, no Peru, na Argentina, na Venezuela e no Brasil. A luta de classe populista foi derrotada pelos dirigentes militares e empresários, apoiados pelos EUA os quais,temporariamente, impuseram economias de exportação agro-mineral para os EUA.

Os anos 50 foram a "época dourada" para o avanço das multinacionais norte-americanas e para alianças militares regionais concebidas pelo Pentágono. Mas a luta de classe dos de baixo ascendeu outra vez e manifestou-se no crescimento de uma crescente coligação industrializante nacional populista. Por sua vez, o êxito do regime socialista cubano e seus apoiantes nos movimentos sociais revolucionários, no resto da América Latina, perdurou até os anos 60.

A revolta revolucionária da classe popular do início dos anos 60 foi abafada pela tomada de poder da classe dominante apoiada por golpes militares promovidos pelos EUA, entre 1964 e 1976, que derrubaram os regimes e as instituições das classes populares no Brasil (1964), na Bolívia (1970), no Chile (1973), na Argentina (1976), no Peru (1973) e noutros locais.

As crises econômicas do início dos anos 80 reduziram o papel dos militares e levaram a uma "transição negociada" em que a classe dominante avançou com um programa neoliberal em troca da participação eleitoral, sob a tutela dos militares e dos EUA.

Na falta de um domínio militar direto, a luta da classe dominante conseguiu atenuar a luta das classes populares, cooptando as elites políticas do centro esquerda. A classe dominante não conseguiu instituir uma hegemonia nas classes populares, mesmo quando avançou com o seu programa neoliberal.

Com a chegada do século XXI, iniciou-se um novo ciclo na luta de classes a partir de baixo. Cruzaram-se três acontecimentos: as crises mundiais de 2000 desencadearam colapsos financeiros regionais que, por sua vez, levaram ao colapso de indústrias e a um desemprego maciço, que intensificou a ação direta das massas e a rejeição dos regimes neoliberais. Durante toda a primeira década do século XXI, o neoliberalismo bateu em retirada. A luta das classes populares e o recrudescimento dos movimentos sociais desalojou os regimes neoliberais mas foi incapaz de substituir as classes dominantes. Em vez disso, o poder foi assumido por regimes eleitorais híbridos de centro-esquerda.

A nova configuração de poder incorporou movimentos sociais populares, partidos de centro-esquerda e elites empresariais neoliberais. Durante a década seguinte, a aliança entre classes avançou, em grande parte graças ao boom das exportações de commodities que financiou programas de segurança social, aumentou o emprego, implementou programas de redução de pobreza e aumentou os investimentos em infraestruturas. Regimes pós-neoliberais cooptaram os líderes das classes populares, substituíram elites políticas da classe dominante, mas não desalojaram as posições estruturais estratégicas da classe empresarial dominante.

O recrudescimento da luta da classe popular foi contido e isolado pela elite política centro-esquerda, enquanto a classe dominante aguardava, fazendo negócios para assegurar lucrativos contratos com o estado, através de subornos aos dirigentes de centro-esquerda, aliados à elite política conservadora.

O fim da explosão de bens de consumo, forçou o centro-esquerda a restringir os seus programas de segurança social e de infraestruturas e fraturou a aliança entre grandes empresários e as elites políticas centro-esquerda. A subsequente recessão econômica facilitou o regresso da elite política neoliberal ao poder.

A classe dirigente dos grandes empresários aprendeu a lição da sua experiência anterior com regimes neoliberais fracos e conciliadores. Procuraram líderes políticos autoritários e, se possível, demagogos inflamados que pudessem desmantelar as organizações populares e esvaziar programas de segurança social populares e as instituições democráticas, que anteriormente haviam bloqueado a consolidação da Nova Ordem neoliberal.

A Nova Ordem neoliberal

A "Nova Ordem" neoliberal difere substancialmente do passado em vários aspetos significativos.

Os primeiros programas neoliberais da Nova Ordem baseavam-se em líderes fortemente repressivos – não dependiam apenas da "disciplina de mercado" e dos programas promovidos pelo Estado. Os regimes políticos autoritários instituíram um enquadramento para financiar, proteger e promover a consolidação de mudanças sistêmicas neoliberais.

Em segundo lugar, a ascendência política da Nova Ordem dependia de uma coligação de elites da classe dominante, de grupos conservadores de classe média alta e de grupos profissionais e de classes médias baixas, com medo de insegurança pessoal e econômica e do colapso da antiga ordem social.

Em terceiro lugar, a Nova Ordem era liderada por um grupo demagógico que apelava à intervenção política direta, composto por militares e funcionários da polícia, na reforma ou em atividade, apoiados por milícias armadas de latifundiários, marginais combatentes de rua (gangsters privados) dispostos a intimidar trabalhadores de esquerda, camponeses sem terra e sindicalistas desempregados.

Em quarto lugar, as elites da Nova Ordem mobilizavam a base de massas de fundamentalistas religiosos, visando "grupos marginais" ("gays", pessoas de cor, feministas, imigrantes, etc) que eram descritos como inimigos da família, da nação e da religião.

Em quinto lugar, a Nova Ordem desviava o descontentamento para a corrupção de esquerda, a imoralidade e a incapacidade de combater o crime nas ruas.

A Nova Ordem assenta nas elites neoliberais que se perpetuam, destruindo as instituições políticas, sociais e econômicas e as regras da anterior ordem eleitoral (a "democracia").

Numa palavra, a luta de classes liderada pelos grandes negócios não estava interessada em "reformas" do mercado livre, mas pretende tudo – poder, lucros e privilégios – sem obrigações, sem regulamentações, sem compromissos.

O futuro da "Nova Ordem" neoliberal

A Nova Ordem autoritária conquistou poderosos patronos em dirigentes como os presidente Trump dos EUA e Jair Bolsonaro do Brasil. Eles têm aliados neoliberais na Argentina, na América Central, na Europa, na Ásia e no Médio Oriente. Adotaram uma poderosa mensagem de intimidação político-militar dos aliados tradicionais, de guerra econômica contra competidores dinâmicos e uma visão glorificada de grandiosidade nacional para a massa dos seus seguidores. 

Inicialmente, as elites de negócios prosperam, as ações sobem, os impostos baixam e os subsídios estatais alimentam a euforia e a esperança das massas de que "a sua vez estão chegando". Os lucros e a polícia defendem "a lei e a ordem", relacionam a elite de negócios com a classe média abastada.

As classes populares combativas estão desmoralizadas e desorientadas por líderes fracassados e pelo recuo dos movimentos sociais e dos sindicatos em relação à luta de classe.

Em contraste, a aliança internacional dos neoliberais autoritários dos grandes negócios tem uma visão de poder nacional, regional e global.

No entanto, o seu avanço está condicionado à dinâmica do crescimento econômico e à superação das crises econômicas cíclicas; à subversão da luta de classe dos de baixo; à procura de adversários substitutos, à medida que os anteriores perdem credibilidade perante apelos mistificadores.

A corrupção de agitadores da classe média em ascensão desiludirá os seus seguidores voluntários. A repressão arbitrária policial e militar estende-se habitualmente à extorsão e intimidação para além das favelas da droga e atinge as vizinhanças das classes médias e trabalhadoras.

A Nova Ordem autoritária habitualmente começa a declinar através do "apodrecimento interno" – a especulação desenfreada e o abuso laboral flagrante.

A retórica direitista vira-se contra si mesma quando os seus seguidores se envolvem em distinções odiosas. A classe dominante tenta esconder as suas tropas de choque autoritárias e substitui-las por tecnocratas, partidários do mercado livre, e maleáveis políticos burgueses. A esquerda e o centro-esquerda procuram atrair uma nova geração de seguidores nos protestos de rua e procuram formar alianças com políticos oportunistas facilmente disponíveis. Vai-se formando um novo ciclo político – mas surgirá uma nova luta de classe popular?

Por que voto no Professor

Fico sempre do lado da democracia e contra o ódio, mas Haddad também é melhor em outras áreas

Nelson Barbosa


O candidato Fernando Haddad (PT). Créditos: Nelson Almeida/AFP Photo

Neste domingo (28), escolheremos entre Haddad e Bolsonaro para presidente.

De um lado, temos a defesa da social-democracia e do diálogo por um Professor Universitário. Do outro, o louvor ao autoritarismo e à repressão por um Ex-Capitão do Exército.

Fico sempre do lado da democracia e contra quem incita o ódio, mas Haddad também é muito melhor em outras áreas, vejamos algumas.

Na tributação, os dois candidatos prometem (equivocadamente) zerar o Imposto de Renda de quem ganha até cinco salários mínimos. Trata-se de um exagero, mas cada lado tem diferenças importantes.

O Professor diz que compensará essa desoneração aumentando a tributação sobre os mais ricos, de modo que no final possa ocorrer até alta de receita. Em contraste, o Ex-Capitão quer desonerar mais os super-ricos, adotando uma alíquota única de 20%, um grande erro.

Ainda nos impostos, o Professor se compromete a simplificar tributos indiretos e rever benefícios tributários, consenso entre a maioria dos economistas.

Do outro lado não há clareza, pois assessores do Ex-Capitão sinalizaram e recuaram sobre a criação de uma super-CPMF, em conjunto com uma megadesoneração da folha que pode quebrar a Previdência.

Como no Brasil foram governos de direita que aumentaram a carga tributária de modo permanente, podemos esperar um tarifaço sobre os mais pobres em caso de vitória do Ex-Capitão, outro erro.

Passando ao gasto público, o Professor já disse que continuará alinhando as regras de aposentadoria entre os setores público e privado, como fizeram os governos do PT.

Em contraste, o Ex-Capitão indicou que preservará os privilégios adquiridos pelo núcleo militar-judicial-policial do Estado. As demais categorias, especialmente na educação e saúde, provavelmente ficarão à míngua em um eventual governo PSL.

Nos salários e emprego, o Professor se compromete a rever a reforma trabalhista, dando mais poder aos sindicatos, e continuar aumentando o salário mínimo.

O Ex-Capitão foi na direção contrária, prometendo flexibilizar ainda mais a legislação trabalhista e sendo ambíguo no salário mínimo.

Dado que o candidato do PSL já disse que o Brasil deveria voltar à situação dos anos 1970, só posso concluir que sua proposta trabalhista é arrocho salarial permanente, como aconteceu na ditadura militar.

No desenvolvimento sustentável, o Professor já deu exemplos de preocupação ambiental quando prefeito de São Paulo. Podemos esperar mais medidas de desenvolvimento verde no seu governo.

O Ex-Capitão está no polo oposto, pois deseja acabar com o Ministério do Meio Ambiente, e seus assessores já sinalizaram que o Ibama só “enche o saco” e que pode haver mais desmatamento na Amazônia (uma equipe de exterminadores do futuro).

E, na transparência, o Professor se comprometeu com a independência dos órgãos de controle e o combate à corrupção, como fizeram os governos do PT.

O Ex-Capitão não falou muito sobre isso, ou sobre qualquer coisa, mas novamente seus generais assessores já indicaram que desejam agilizar e simplificar processos em um “balcão único”, como era, adivinhe, nos anos 1970!

Nesse quadro é fácil escolher, sobretudo porque o Professor defende a restauração do Estado democrático de Direito, mais investimento em educação e saúde, retomada do crescimento econômico com sustentabilidade ambiental e redução de desigualdades sociais (só crescimento não basta).

Por isso e pelo respeito aos direitos civis, mesmo de quem discorda da minha opinião, votarei novamente Haddad Presidente.

Sobre o autor


Professor da FGV-SP, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

23 de outubro de 2018

A Casa Branca prepara o regresso dos euro mísseis

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / O anúncio de que “Trump desrespeita o tratado nuclear histórico com Moscovo” - o Tratado sobre Forças Nucleares Intermédias (INF) - não foi inesperado. Mas agora é oficial. Para compreender o alcance de tal acto, devemos recordar o contexto histórico donde nasce o Tratado. Foi assinado em Washington, em 8 de Dezembro de 1987, pelo Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e pelo Presidente da URSS, Michail Gorbachev, acordado no ano anterior, na Cimeira de Reykjavik. Segundo o mesmo, os Estados Unidos comprometiam-se a eliminar os “Euromísseis”: os mísseis balísticos Pershing II, instalados na Alemanha Ocidental e os mísseis de cruzeiro lançados do solo, introduzidos na Grã-Bretanha, Itália, Alemanha Ocidental, Bélgica e Holanda; a União Soviética comprometia-se a eliminar os mísseis balísticos SS-20, fixados no seu território.

O Tratado INF estabelecia não só um limite à instalação de uma categoria específica de mísseis nucleares, mas à eliminação de todos os mísseis dessa categoria: em 1991, foram eliminados 2692 na totalidade. A limitação do tratado consistiu no facto de que ele eliminou os mísseis nucleares intermédios e de curto alcance lançados do solo, mas não os mísseis lançados do mar e do ar. No entanto, o Tratado INF constituiu o primeiro passo em direcção a um verdadeiro desarmamento nuclear.

Este resultado importante deveu-se, essencialmente, à “ofensiva de desarmamento” lançada pela União Soviética de Gorbachev: em 15 de Janeiro de 1986, propusera não só eliminar os mísseis soviéticos e norte-americanos de alcance intermédio, mas também, estabelecer um programa global, em três fases, para a proibição das armas nucleares até ao ano 2000. Projecto que permaneceu no papel, porque Washington aproveitou a crise e a desagregação da super potência rival para aumentar a superioridade estratégica, incluindo a supremacia nuclear dos Estados Unidos, que permanecia como a única super potência no cenário mundial.

Não foi por acaso que o Tratado INF foi posto em debate por Washington, quando os Estados Unidos viram diminuir a sua vantagem estratégica em relação à Rússia, à China e a outras potências. Em 2014, sem apresentar qualquer prova, a Administração Obama acusou a Rússia de ter experimentado um míssil de cruzeiro da categoria proibida pelo Tratado, anunciando que “os Estados Unidos estão a considerar a instalação, na Europa, de mísseis com base no solo”, isto é, o abandono do Tratado INF (Il Manifesto, 9 de junho de 2015).

O plano foi confirmado pela Administração Trump: no ano fiscal de 2018, o Congresso autorizou o financiamento de um programa de pesquisa e desenvolvimento para um míssil de cruzeiro lançado do solo por uma plataforma móvel a deslocar-se nas estradas. O plano é apoiado pelos aliados europeus da NATO. O recente Conselho do Atlântico Norte, a nível de Ministros da Defesa, em que participou em representação da Itália, Elisabetta Trenta (M5S), declarou que “o Tratado INF está em perigo devido às acções da Rússia", acusada de instalar “um sistema de mísseis desestabilizador, o qual constitui um sério risco para a nossa segurança”. Moscovo nega que esse sistema de mísseis viola o Tratado INF e, por sua vez, acusa Washington de ter instalado mísseis interceptores (os do “escudo”) na Polónia e na Roménia, que podem ser usados para lançar mísseis de cruzeiro portadores de ogivas nucleares.

De acordo com as notícias divulgadas pela Administração Trump, os Estados Unidos preparam-se para instalar mísseis nucleares de alcance intermédio lançados do solo, não só na Europa contra a Rússia, mas também no Pacífico e na Ásia, contra a China.

Tridente da OTAN, de Nápoles ao Atlântico Norte

Manlio Dinucci


Fuzileiros navais americanos, desembarcados de tiltrotors e de helicópteros do navio de assalto anfíbio, Iwo Jima, “colocaram em segurança” o aeroporto de Keflavík, na Islândia, aonde chegaram de Sigonella, aviões Poseidon P-8A para a caça aos submarinos inimigos. Assim, teve início em 17 de outubro, o exercício OTAN, Trident Juncture 2018, cuja fase principal decorre de 25 de outubro a 7 de novembro, na Noruega central e oriental, nas áreas adjacentes ao Atlântico Norte (até à Islândia) e ao Mar Báltico (incluindo os espaços aéreos da Suécia e da Finlândia). Participam nos mesmos, as forças armadas dos 29 países membros da OTAN, além de dois parceiros, a Suécia e a Finlândia. Ao todo, cerca de 50 mil homens, 65 navios enormes, 250 aviões, 10 mil tanques e outros veículos militares. Se fossem colocados em fila, uns junto aos outros, formariam uma coluna de 92 km de comprimento. O Comandante do exercício, um dos maiores dos últimos anos, é o Almirante norte-americano, James Foggo. Nomeado pelo Pentágono como os seus antecessores, ele comanda ao mesmo tempo a Força Conjunta Aliada (JFC Nápoles), com sede em Lago Patria (Nápoles), as Forças Navais USA na Europa e as Forças Navais USA para a África, com o quartel general em Nápoles Capodichino. O Almirante comanda o Trident Juncture 2018 do Mount Whitney, o navio almirante da Sexta Frota, transferido de Gaeta para o Atlântico Norte: um quartel general flutuante, também ligado à rede global de comando e controle do Pentágono, através da estação MUOS, de Niscemi.

Isto confirma a importância dos comandos e das bases EUA/OTAN, na Itália, não só para o Mediterrâneo, mas para toda a “área de responsabilidade” do Comandante Supremo Aliado, na Europa, que é sempre um general americano, atualmente, Curtis Scaparrotti, nomeado pelo presidente dos Estados Unidos: esta área geoestratégica, a partir de 2002, “foi alargada para cobrir todas as operações da OTAN, independentemente da sua localização geográfica”.

O objetivo oficial do Trident Juncture 2018 é “assegurar que as forças da OTAN estejam prontas para responder a qualquer ameaça, seja qual for a direção donde provenha”. No entanto, basta observar o mapa, para compreender que a intensidade máxima do exercício de guerra está concentrada numa direção: para Leste, contra a Rússia. O Almirante Foggo reafirma que está iniciada a “Quarta Batalha do Atlântico”, depois daquelas que ocorreram nas duas guerras mundiais contra os U-Boot (submarinos) alemães e aquela que sucedeu, durante a Guerra Fria, contra os submarinos soviéticos: esta é conduzida contra a Rússia, nova “potência marítima agressiva”, cujos “submarinos, cada vez mais sofisticados, ameaçam a capacidade da OTAN de exercer o controle marítimo do Atlântico Norte e, consequentemente, das linhas de comunicação marítimas entre os Estados Unidos e a Europa”. Invertendo os fatos, o Almirante disse que a Rússia “desafia a presença dos EUA e a OTAN” não só no Atlântico, mas também “no Mar Báltico e no Mar Negro”, ou seja, nos mares em que banham a Rússia europeia.

Descobre-se assim, para além da finalidade militar, a outra utilidade da Trident Juncture 2018: Uma maxi psy-op (gigantesca operação psicológica) para alimentar a ideia de que a Europa está ameaçada por uma Rússia cada vez mais agressiva. Na Suécia, país parceiro da OTAN, foi distribuído um manual de sobrevivência a 4,8 milhões de famílias sobre como se preparar para a guerra, fazendo armazenamento de víveres e de outros gêneros essenciais, aprendendo como se comportar quando soarem as sirenes de alarme que anunciarão o ataque russo. A OTAN prepara-se assim, para incorporar para todos os efeitos, também a Suécia, país que já é “neutro”.

22 de outubro de 2018

"Uma emulação intelectual que não havia sido visto na esquerda dos Estados Unidos, desde meados dos anos 1960"

Julien Salingue

Entrevista com Laura Raim

NPA


Tradução / Você escreveu, na Revue du Crieur Nº 8 [1], um longo artigo dedicado ao surgimento nos Estados Unidos durante estes últimos anos de numerosas revistas, tanto em papel como on-line, que reivindicam mais ou menos explicitamente o "socialismo". E você explica que esse fenômeno não pode ser entendido se não tiver inscrito em um contexto político e social mais global.

É um renascimento, com uma emulação intelectual que não se via, na esquerda dos Estados Unidos, desde meados da década de 1960. Isso corresponde a um ciclo aberto com a crise de 2008 e os movimentos sociais que se seguiram, do Occupy ao Black Lives Matter, o Fight for 15, o aumento do salário mínimo, a campanha do BDS em solidariedade com o povo palestino, ou a luta do Standing Rock contra o gasoduto Dakota Access.

Occupy foi um momento fundador, um momento de politização para toda a geração que vieram a fundar os jornais e revistas de que falamos, da Jacobin [2], Viewpoint Magazine [3] ao The New Inquiry [4], mas também um momento fundador para reorientar jornais que já existiam, como a N + 1, uma revista literária que vai começar a se interessar por economia política ou devolver um público para uma revista sindical como a Labor Notes. A desilusão com Obama, que não fez nada para combater as finanças, regulá-las, contribuiu para favorecer este movimento até outro momento essencial: a campanha Sanders, também um importante momento de politização. A eleição de Trump é o último estágio, até hoje, dessa recuperação do interesse pelas idéias socialistas. Como o que acontece no DSA [Socialistas Democráticos da América], em que as adesões afluem, assinaturas e visitas aos sites dessas revistas aumentaram fortemente: Jacobin hoje conta com mais de 40.000 assinantes pagos e recebe mais de um milhão de visitantes por mês em seu site...

As pessoas que animam essas revistas têm um relacionamento com a mídia militante? São elas mesmas militantes ou estabelecem um "diálogo" com as mobilizações?

Muitas dessas pessoas participaram diretamente do Occupy, há também aquelas que estiveram envolvidas, no terreno, na campanha de Sanders. Mas, em parte, participar dessas revistas e jornais já é um ato militante. Lembro-me de tal discussão com Sarah Leonard, uma jovem jornalista, especialista em feminismo marxista e figura da esquerda intelectual, me dizendo que para ela, estar em uma revista já era uma forma de militar, na ausência de um partido ou uma organização. Jacobin leva as lutas muito a sério, desde Black Lives Matter até as lutas ambientais, passando pelas lutas salariais, mas se situa mais em uma relação de diálogo com essas lutas. Dizem: temos de colocar política nelas, vamos politizá-las, vamos fornecer-lhes artigos, análises... No atual contexto de resistência a Trump, dizem que há um risco de diluição das lutas, instrumentalização e recuperação pelos centristas, as e os democratas. Por parte da Jacobin, se propõem a lutar contra isso, como na marcha das mulheres contra Trump: lutar intelectualmente para impedir que o feminismo liberal seja hegemônico, propondo análises que integrem a dimensão de classe, a perspectiva socialista.

Aqui devemos sublinhar o papel que os "grupos de leitura" dessas revistas desempenham nesse diálogo. Para a Jacobin, os havia em 2017 em 80 cidades. E eu ouvi recentemente que Julia Salazar, da DSA, que ganhou as primárias democratas para o Senado em Nova York em setembro, explicou que ela tinha se politizado através dos grupos de leitura da Jacobin... Bashkar Sunkara, fundador da Jacobin, não é um militante propriamente dito, mas ele contribuiu enormemente para a revitalização da DSA: não é um ator das lutas, mas tem um pé na política "institucional".

Esses diferentes periódicos colaboram entre si? Eles trabalham em rede?

Sí. Y esto es algo muy fresco. Están en expansión pero siguen siendo muy pequeñas y son conscientes de ello. Así pues, aunque existan ciertamente conflictos, dialogan y lo reivindican, y por otra parte se ve regularmente que las mismas firmas aparecen en diferentes revistas y diferentes periódicos, Viewpoint Magazine, The Nation, Jacobin, N+1, etc. Hay mucho menos sectarismo, me parece, que aquí, en Francia. Y hay incluso gentes de diferentes organizaciones políticas que cohabitan: en Jacobin, encuentras gente de DSA y de ISO, tienen debates, en particular sobre la oportunidad de participar en las primarias del Partido Demócrata. Pero esto es dialogar, algo constructivo.

Sim. E isso é algo muito legal. Elas estão se expandindo, mas ainda são muito pequenas e estão cientes disso. Assim, embora existam certamente conflitos, dialogam e o revindicam, e por outro lado se vê regularmente que as mesmas assinaturas aparecem em diferentes revistas e jornais, Viewpoint Magazine, The Nation, Jacobin, N + 1, etc. Há muito menos sectarismo, parece-me, do que aqui na França. E há até mesmo pessoas de diferentes organizações políticas que coabitam: na Jacobin, você encontra pessoas da DSA e da ISO, têm debates, em particular sobre a oportunidade de participar das primárias do Partido Democrata. Mas isso é diálogo, algo construtivo.

E todo este pequeno mundo reivindica o "socialismo"?

Sim, em todo caso, a maior parte. Eles sabem muito claramente que a palavra "socialismo" pode significar coisas diferentes. Eles sabem, por exemplo, que o "socialismo" de Sanders não tem muito a ver com um socialismo revolucionário, a abolição da propriedade privada e o fim do capitalismo, mas dizem que pelo menos é útil contribuir para desestigmatizar essa palavra, para acelerar o processo de desestigmatização que já estava em curso, favorecido pela crise.

De acordo com uma pesquisa de 2016 conduzida pela Harvard, 51% dos jovens entre 18 e 29 anos alegaram rejeitar o capitalismo e 33% deles apoiaram o "socialismo"... Isso mostra claramente que o termo "socialismo" não é mais um estigma para a geração pós-Guerra Fria, que não se sente responsável pelos crimes do stalinismo e que associa mais o socialismo aos estados de bem-estar europeus. Lá também não é o socialismo no sentido que os marxistas o entendem, mas essas revistas e jornais confiam nesse fenômeno para atrair público para eles e propõem análises que fornecem um conteúdo de classe marxista ao "socialismo". É por essa razão que eles tiveram uma atitude muito pragmática em relação a Sanders, embora sua "revolução política" seja muito mais parecida com a esquerda da socialdemocracia, inspirada no New Deal de Roosevelt.

Que relações eles têm com pensamentos críticos anteriores, marcados pelo pós-estruturalismo, micropolítica, política de identidade ... que há muito tempo dominam o pensamento na esquerda americana, particularmente na universidade? O mínimo que se pode dizer é que essas teorias não concordam muito com o marxismo da luta de classes. Estamos em uma lógica de diálogo crítico, de ruptura, de superação?

Eles aparecem em ruptura com essas correntes de pensamento. Eu vou fazer um desvio antes de responder diretamente: Seth Ackerman, da Jacobin, me explicou que se politizou, como muitos jovens de sua geração, como parte de Occupy, em vez de uma abordagem horizontalista, anarquista, espontaneísta ... que falhou, e nesse sentido Jacobin é um pouco a vingança de uma abordagem mais marxista, socialista, luta de classes, que não tem medo de considerar a questão das instituições, do partido político etc. E consideram que eles ganharam esta batalha, que é um suporte para outras lutas ideológicas, particularmente contra a política de identidade, políticas que visam defender os interesses ou lutar contra a estigmatização de certos grupos minoritários da população, correndo o risco de fragmentação. A crise de 2008 trouxe à tona as questões econômicas, materiais, financeiras e, portanto, questões de economia política e de classe, muitas vezes negligenciadas na política de identidade, especialmente quando elas são usados ​​por liberais como Hillary Clinton.

As revistas e jornais sobre os quais estamos falando estão, portanto, em ruptura, mas é uma ruptura inteligente: não se trata de negar os problemas de gênero, raça etc., mas de integrá-los em uma visão marxista e socialista das coisas. Uma lacuna muito menos simplista e caricatural do que na França, onde há aqueles que, à esquerda, continuam, por exemplo, a negar problemas raciais em nome de um "universalismo" da esquerda social, que se oporia ao caráter "identitário" da defesa das minorias. Deve-se dizer que a importância da luta pelos direitos cívicos na história dos Estados Unidos impõe a todo pensamento de esquerda, e a todas as organizações de esquerda, manter contato com as batalhas das minorias, em particular da minoria negra ...

Adoptan también un estilo mucho más asequible que una intelligentsia universitaria “de izquierdas”

Si. Desconfían de todo lo que tenga que ver con esa jerga. Es muy agradable leerles. Recuerdo que Bashkar Sunkara explicaba que hay que desconfiar de todo lo que puede servir de “muleta” a un pensamiento no aún completamente realizado y por tanto incapaz de prescindir de la jerga. Sus textos se pretenden concretos, pragmáticos, accesibles, sin sacrificar, evidentemente, el análisis. Se trata de atraer no solo a las sensibilidades anarquistas, radicales, sino también a las “liberales” en el sentido americano del término, progresistas, lectores y lectoras del New York Times, votantes de Obama, con ideales de justicia social... Por tanto evitan el dogmatismo, el esoterismo, el esteticismo. Hablan de “no bullshit marxism”, refiriéndose al marxismo clásico pero también a autores como Ralph Milliband, el historiador Robert Brenner o Michael Harrington (uno de quienes fundó DSA). Hay por tanto un doble objetivo: reafirmar, en dirección a la izquierda radical americana, a menudo formada en los estudios culturales, el primado de un análisis materialista, de clase, y hacer entrar las ideas radicales en la política americana hegemónica.

¿Se trata, más en general, de una toma de distancia respecto al medio universitario?

Si. Hay algo de eso. Son muy críticos de una cierta izquierda universitaria, que sigue dominando en los campus, que vive en una torre de marfil, que está cortada de la sociedad y de las movilizaciones, y se dedica a hablar en sus ambientes en su propia jerga, lejos de la figura del intelectual marxista, orgánico… Algunas y algunos universitarios se reclaman del marxismo, pero sus trabajos son a menudo abstractos, desconectados de las luchas. No se especializan en las ciencias empíricas sino más bien en disciplinas como la literatura, el psicoanálisis o la filosofía. En 1987, el historiador Russell Jacoby publicó Los últimos intelectuales, describiendo la desaparición progresiva de intelectuales comprometidos, reemplazados por profesores ultraespecializados que multiplican los escritos en su jerga en revistas científicas destinadas a sus pares exclusivamente, con la preocupación principal de su propia carrera universitaria.

Las y los participantes y animadores de las revistas y periódicos de los que hablamos vienen, por tanto, a llenar un vacío. Rechazan la postura del intelectual al margen de las movilizaciones, que pasa más tiempo en aviones entre dos coloquios que en manifestaciones. Son ciertamente titulados universitarios, a menudo docentes, pero la mayor parte de las veces en situaciones de precariedad. La universidad no es ya un refugio profesional, no puede ofrecerles salidas reales, carrera estable, lo que les da de alguna forma la libertad de ser más francos, más políticos, más radicales. Sus periódicos y revistas no se pretenden universitarias, sino mucho más accesibles, y dirigidas a un publico más amplio, incluyendo un público militante con el que no temen, muy al contrario, relacionarse.

Notas

[1] Laura Raim, « Aux États-Unis, du nouveau à gauche », la Revue du Crieur n.º 8, octobre 2017.

[2] Fundada en 2010, Jacobin (www.jacobin.com) se define como “una voz importante de la izquierda americana, que ofrece perspectivas socialistas sobre la política, la economía y la cultura”.

[3] Fundada en 2011, Viewpoint Magazine (www.viewpointmag.com) es, por retomar una presentación propuesta por la web Contretemps, “una revista de teoría marxista en línea basada en los Estados Unidos, iniciada en el marco de los debates sobre los movimientos Occupy! Se trata de una publicación abierta sobre las nuevas formas de radicalidad y basada teóricamente en las tradiciones revolucionarias extraparlamentarias, de ultraizquierda y operaistas. Sin sectarismo, ni espíritu de capilla, Viewpoint Mag propone regularmente entregas temáticas, solicitando contribuciones a personas contemporáneas pero también traduciendo o republicando análisis más antiguos del movimiento revolucionario europeo -en particular la secuencia roja de los años 1960 y 1970 en Italia, Francia y Alemania”.

[4] Fundada em 2009, a The New Inquiry afirma querer "reunir as energias revolucionárias para combater o discurso da classe dominante".

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