31 de outubro de 2018

Bruxas e luta de classes

Na Europa do século XVI, a caça às bruxas era uma guerra de classes imposta pela elite.

Silvia Federici


A Cozinha das Bruxas por Frans Francken, o Jovem, 1606. Museu Hermitage / Wikimedia

Excerto de Caliban and the Witch (2004).

Tradução / A caça às bruxas aparece raramente na história do proletariado. Até hoje, continua sendo um dos fenômenos menos estudados na história da Europa ou, talvez, da história mundial, se consideramos que a acusação de adoração ao demônio foi levada ao Novo Mundo pelos missionários e conquistadores como uma ferramenta para a subjugação das populações locais.

O fato de que a maior parte das vítimas na Europa tenham sido mulheres camponesas talvez possa explicar o motivo da indiferença dos historiadores com relação a tal genocídio; uma indiferença que beira a cumplicidade, já que a eliminação das bruxas das páginas da história contribuiu para banalizar sua eliminação física na fogueira, sugerindo que foi um fenômeno com um significado menor, quando não uma questão de folclore.

Inclusive, os estudiosos da caça às bruxas (no passado eram quase exclusivamente homens) foram frequentemente dignos herdeiros dos demonólogos do século XVI. Ainda que deplorassem o extermínio das bruxas, muitos insistiram em retratá-las como tolas miseráveis que sofriam com alucinações. Desta maneira, sua perseguição poderia ser explicada como um processo de “terapia social” que serviu para reforçar a coesão amistosa, ou poderia ser descrita em termos médicos como um “pânico”, uma “loucura”, uma “epidemia”, todas caracterizações que tiram a culpa dos caçadores das bruxas e despolitizam seus crimes.

As feministas reconheceram rapidamente que centenas de milhares de mulheres não poderiam ter sido massacradas e submetidas às torturas mais cruéis se não tivessem proposto um desafio à estrutura de poder. Também se deram conta de que essa guerra contra as mulheres, que se manteve durante um período de pelo menos dois séculos, constituiu um ponto decisivo na história das mulheres na Europa, o “pecado original” no processo de degradação social que as mulheres sofreram com a chegada do capitalismo, o que o conforma, portanto, como um fenômeno ao qual devemos retornar de forma reiterada se quisermos compreender a misoginia que ainda caracteriza a prática institucional e as relações entre homens e mulheres.

Ao contrário das feministas, os historiadores marxistas, salvo raras exceções — inclusive quando se dedicaram ao estudo da “transição ao capitalismo” —, relegaram a caça às bruxas ao esquecimento, como se carecesse de relevância para a história da luta de classes. As dimensões do massacre deveriam, entretanto, ter levantado algumas suspeitas: em menos de dois séculos, centenas de milhares de mulheres foram queimadas, enforcadas e torturadas.

Deveria parecer significativo o fato de a caça às bruxas ter sido contemporânea ao processo de colonização e extermínio das populações do Novo Mundo, aos cercamentos ingleses, ao começo do tráfico de escravos, à promulgação das Leis Sangrentas contra vagabundos e mendigos, e de ter chegado a seu ponto culminante no interregno entre o fim do feudalismo e a “guinada” capitalista, quando os camponeses na Europa alcançaram o ponto máximo do seu poder, ao mesmo tempo que sofreram a maior derrota da sua história. Até agora, no entanto, este aspecto da acumulação primitiva tem permanecido como um verdadeiro mistério.

A época de queima de bruxas e a iniciativa estatal


O que ainda não foi reconhecido é que a caça às bruxas constituiu um dos acontecimentos mais importantes do desenvolvimento da sociedade capitalista e da formação do proletariado moderno. Isso porque o desencadeamento de uma campanha de terror contra as mulheres, não igualada por nenhuma outra perseguição, debilitou a capacidade de resistência do campesinato europeu frente ao ataque lançado pela aristocracia latifundiária e pelo Estado, em uma época na qual a comunidade camponesa já começava a se desintegrar sob o impacto combinado da privatização da terra, do aumento dos impostos e da extensão do controle estatal sobre todos os aspectos da vida social.

Foi depois de meados do século XVI, nas mesmas décadas em que os conquistadores espanhóis subjugaram as populações americanas, que começou a aumentar a quantidade de mulheres julgadas como bruxas. Além disso, a iniciativa da perseguição passou da Inquisição às cortes seculares. A caça às bruxas alcançou seu ápice entre 1580 e 1630, ou seja, numa época em que as relações feudais já estavam dando lugar às instituições econômicas e políticas típicas do capitalismo mercantil. Foi neste longo Século de Ferro que, praticamente por meio de um acordo tácito entre países que a princípio estavam em guerra, se multiplicaram as fogueiras, ao passo que o Estado começou a denunciar a existência de bruxas e a tomar a iniciativa de persegui-las.

Antes que os vizinhos se acusassem entre si ou que comunidades inteiras fossem presas do “pânico”, teve lugar um firme doutrinamento, no qual as autoridades expressaram publicamente sua preocupação com a propagação das bruxas e viajaram de aldeia em aldeia para ensinar as pessoas a reconhecê-las, em alguns casos levando consigo listas de mulheres suspeitas de serem bruxas e ameaçando castigar aqueles que as dessem asilo ou lhes oferecessem ajuda.

Mas foram os juristas, os magistrados e os demonólogos, frequentemente encarnados na mesma pessoa, os que mais contribuíram na perseguição: eles sistematizaram os argumentos, responderam aos críticos e aperfeiçoaram a maquinaria legal que, por volta do final do século XVI, deu um formato padronizado, quase burocrático, aos julgamentos, o que explica as semelhanças entre as confissões para além das fronteiras nacionais. No seu trabalho, os homens da lei contaram com a cooperação dos intelectuais de maior prestígio da época, incluindo filósofos e cientistas que ainda hoje são elogiados como os pais do racionalismo moderno.

Não pode haver dúvida, então, de que a caça às bruxas foi uma iniciativa política de grande importância. A natureza política da caça às bruxas também fica demonstrada pelo fato de que tanto as nações católicas quanto as protestantes, em guerra entre si quanto a todas as outras temáticas, se uniram e compartilharam argumentos para perseguir as bruxas. Assim, não é um exagero dizer que a caça às bruxas foi o primeiro terreno de unidade na política dos novos Estados-nação europeus, o primeiro exemplo de unificação europeia depois do cisma provocado pela Reforma.

Crenças diabólicas e mudanças no modo de produção


Uma primeira ideia sobre o significado da caça às bruxas na Europa pode ser encontrada na tese proposta por Michael Taussig em seu clássico trabalho O demônio e o fetichismo da mercadoria na América do Sul (1980). Neste livro, o autor sustenta que as crenças diabólicas surgem em períodos históricos em que um modo de produção é substituído por outro. Em tais períodos, não somente as condições materiais de vida são transformadas radicalmente, mas também o são os fundamentos metafísicos da ordem social — por exemplo, a concepção de como se cria o valor, do que gera vida e crescimento, do que é “natural” e do que é antagônico aos costumes estabelecidos e às relações sociais.

Taussig desenvolveu sua teoria a partir do estudo das crenças de trabalhadores rurais colombianos e mineiros de estanho bolivianos numa época em que, em ambos os países, estavam surgindo certas relações monetárias que, aos olhos do povo, se associavam com a morte e inclusive com o diabólico, ainda mais se comparadas com as formas de produção mais antigas, que ainda persistiam, orientadas à subsistência. Desse modo, nos casos analisados por Taussig, eram os pobres que suspeitavam da adoração ao demônio por parte dos mais ricos. Ainda assim, sua associação entre o diabo e a forma- mercadoria nos faz lembrar também que, por detrás da caça às bruxas, esteve a expansão do capitalismo rural, que incluiu a abolição de direitos consuetudinários e a primeira onda de inflação na Europa moderna.

Estes fenômenos não somente levaram ao crescimento da pobreza, da fome e do deslocamento social, mas também transferiram o poder para as mãos de uma nova classe de “modernizadores” que viram com medo e repulsa as formas de vida comunais que haviam sido típicas da Europa pré-capitalista. Foi graças à iniciativa desta classe protocapitalista que a caça às bruxas alçou voo, como uma arma com a qual se podia derrotar a resistência à reestruturação social e econômica.

Que a difusão do capitalismo rural, com todas as suas consequências (expropriação da terra, aprofundamento das diferenças sociais, deterioração das relações coletivas), tenha sido um fator decisivo no contexto de caça às bruxas é algo que também se pode provar pelo fato de que a maioria dos acusados eram mulheres camponesas pobres — cottars, trabalhadoras assalariadas —, enquanto os que as acusavam eram abastados e prestigiosos membros da comunidade, muitas vezes seus próprios empregadores ou senhores de terra, ou seja, indivíduos que formavam parte das estruturas locais de poder e que, com frequência, tinham laços estreitos com o Estado central.

Na Inglaterra, as bruxas eram normalmente mulheres velhas que viviam da assistência pública, ou mulheres que sobreviviam indo de casa em casa mendigando pedaços de comida, um jarro de vinho ou de leite; se estavam casadas, seus maridos eram trabalhadores diaristas, mas, na maioria das vezes, eram viúvas e viviam sozinhas. Sua pobreza se destaca nas confissões. Era em tempos de necessidade que o diabo aparecia para elas, para assegurar-lhes que a partir daquele momento “nunca mais deveriam pedir”, mesmo que o dinheiro que lhes seria entregue em tais ocasiões rapidamente se transformasse em cinzas, um detalhe talvez relacionado com a experiência da hiperinflação que era comum na época.

Quanto aos crimes diabólicos das bruxas, eles não nos parecem mais que a luta de classes desenvolvida na escala do vilarejo: o “mau-olhado”, a maldição do mendigo a quem se negou a esmola, a inadimplência no pagamento do aluguel, a demanda por assistência pública.

Caça às bruxas e revolta de classes


Como podemos ver a partir desses casos, a caça às bruxas se desenvolveu em um ambiente no qual os “de melhor estirpe” viviam num estado de constante temor frente às “classes baixas”, das quais certamente se podia esperar que abrigassem pensamentos malignos, já que nesse período estavam perdendo tudo o que tinham.

Não surpreende que este medo se expressasse como um ataque em forma de magia popular. A batalha contra a magia sempre acompanhou o desenvolvimento do capitalismo, até os dias de hoje. A premissa da magia é que o mundo está vivo, que é imprevisível e que existe uma força em todas as coisas de forma que cada acontecimento é interpretado como a expressão de um poder oculto que deve ser decifrado e desviado de acordo com a vontade de cada um.

A magia constituía também um obstáculo para a racionalização do processo de trabalho e uma ameaça para o estabelecimento do princípio da responsabilidade individual. Sobretudo, a magia parecia uma forma de rejeição do trabalho, de insubordinação, e um instrumento de resistência de base ao poder. O mundo devia ser “desencantado” para poder ser dominado.

Por volta do século XVI, o ataque contra a magia já estava no seu auge e as mulheres eram os alvos mais prováveis. Mesmo quando não eram feiticeiras/magas experientes, chamavam-nas para marcar os animais quando adoeciam, para curar seus vizinhos, para ajudar-lhes a encontrar objetos perdidos ou roubados, para lhes dar amuletos ou poções para o amor ou para ajudar-lhes a prever o futuro. Embora a caça às bruxas estivesse dirigida a uma ampla variedade de práticas femininas, foi principalmente devido a essas capacidades — como feiticeiras, curandeiras, encantadoras ou adivinhas — que as mulheres foram perseguidas, 158 pois, ao recorrerem ao poder da magia, debilitavam o poder das autoridades e do Estado, dando confiança aos pobres em sua capacidade para manipular o ambiente natural e social e, possivelmente, para subverter a ordem constituída.

Por outro lado, é de se duvidar que as artes mágicas que as mulheres praticaram durante gerações tivessem sido ampliadas até o ponto de se converterem em uma conspiração demoníaca, se não tivessem ocorrido num contexto de intensa crise e luta social. Tais revoltas foram as Guerras Camponesas contra a privatização da terra, que incluíram as insurreições contra os cercamentos na Inglaterra (em 1549, 1607, 1628 e 1631), quando centenas de homens, mulheres e crianças, armados com forquilhas e pás, começaram a destruir as cercas erguidas ao redor das terras comunais, proclamando que “a partir de agora nunca mais precisaremos trabalhar”. Durante estas revoltas, muitas vezes, eram as mulheres que iniciavam e dirigiam a ação.

A perseguição às bruxas se desenvolveu nesse terreno. Foi uma guerra de classes levada a cabo por outros meios.

Caça às bruxas, caça às mulheres e a acumulação do trabalho


Com este pano de fundo, parece plausível que a caça às bruxas tenha sido, pelo menos em parte, uma tentativa de criminalizar o controle da natalidade e de colocar o corpo feminino — o útero — a serviço do aumento da população e da acumulação da força de trabalho. Podemos imaginar o efeito que teve nas mulheres o fato de ver suas vizinhas, suas amigas e suas parentes ardendo na fogueira, enquanto percebiam que qualquer iniciativa contraceptiva de sua parte poderia ser interpretada como produto de uma perversão demoníaca.

Desse ponto de vista, não pode haver dúvida de que a caça às bruxas destruiu os métodos que as mulheres utilizavam para controlar a procriação, posto que eles eram denunciados como instrumentos diabólicos, e institucionalizou o controle do Estado sobre o corpo feminino, o principal pré-requisito para sua subordinação à reprodução da força de trabalho. A caça às bruxas foi, portanto, uma guerra contra as mulheres; foi uma tentativa coordenada de degradá-las, de demonizá-las e de destruir seu poder social.

Quando esta tarefa foi cumprida por completo — no momento em que a disciplina social foi restaurada e a classe dominante consolidou sua hegemonia —, os julgamentos de bruxas cessaram. A crença na bruxaria pôde inclusive se tornar algo ridículo, desprezada como superstição e apagada rapidamente da memória. Logo que o Estado assumiu o controle da caça às bruxas, um por um, os vários governos foram tomando a iniciativa de acabar com ela.

Uma vez destruído o potencial subversivo da bruxaria, foi possível até mesmo permitir que tal prática seguisse adiante. Depois de que a caça às bruxas chegou ao fim, muitas mulheres continuaram sustentando-se por meio da adivinhação, da venda de encantamentos e da prática de outras formas de magia. Mas agora as autoridades já não estavam interessadas em processar essas práticas, sendo inclinadas, ao contrário, a ver a bruxaria como um produto da ignorância ou como uma desordem da imaginação.

O espectro das bruxas seguiu, de qualquer forma, assombrando a imaginação da classe dominante. Em 1871, a burguesia parisiense o retomou instintivamente para demonizar as mulheres communards, acusando-as de querer incendiar Paris. Não pode haver muita dúvida, de fato, de que os modelos das histórias e imagens mórbidas de que se valeu a imprensa burguesa para criar o mito das pétroleuses foram retirados do repertório da caça às bruxas.

Sobre a autora


Silvia Federici é autora de vários livros, incluindo Caliban e Witch and Revolution at Point Zero. Foi co-fundadora do International Feminist Collective e organizadora da campanha Wages for Housework.

27 de outubro de 2018

A guinada à direita da América Latina

A extrema direita está em ascensão não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina - impulsionada pela classe média que os governos de esquerda ajudaram a criar.

Pablo Vivanco

Jacobin

Uma manifestação de março de 2016 reivindicando o impeachment da então presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Agência Brasil Fotografias / Flickr.

Tradução / A perspectiva de Jair Bolsonaro como presidente do maior país da América Latina colocou o Brasil sob um holofote global.

Um ex-capitão do exército, Bolsonaro elogiou o uso de tortura e assassinato sob a ditadura militar brasileira e fez declarações públicas terríveis sobre gays e mulheres. No entanto, apesar disso – ou talvez por causa disso – ele obteve 55%, ou mais de 57 milhões de votos, no segundo turno da votação.

Muitos analistas têm atribuído sua forte ascensão aos escândalos de corrupção envolvendo a petroleira estatal Petrobras e a construtora Odebrecht. Os brasileiros inundaram as ruas conforme surgiam informações sobre a profundidade e o escopo do desastre, que envolvia todos os principais partidos do país, incluindo o próprio Partido Social Liberal de Bolsonaro.

Entretanto, com a ajuda de uma campanha midiática organizada, grande parte da culpa pelo escândalo foi atribuída à esquerda política do país, especialmente o Partido dos Trabalhadores (PT). As enormes manifestações “anticorrupção” (altamente seletivas) que se seguiram fortaleceram a campanha da direita para remover a então presidenta Dilma Rousseff e manchar a imagem do PT.

O Brasil não é o único país da América Latina a se deslocar para a direita nos últimos anos. “Não sei se a categoria do fascismo é a mais adequada para se compreender esse fenômeno”, diz o Dr. Atilio A. Boron, sociólogo e professor de História Latino-Americana da Universidade de Avellaneda, na Argentina. Boron tem estudado a história da extrema direita na América Latina, incluindo as brutais ditaduras militares que governaram grande parte da região durante as décadas de 1970 e 1980 e os grupos paramilitares de extrema direita na Colômbia e na América Central.

Embora esses regimes e grupos compartilhassem certas características com o fascismo da Alemanha, Itália e Espanha, Boron afirma que havia outras diferenças significativas, incluindo a ausência de um movimento de massa. Para Boron, essas discrepâncias também se aplicam aos movimentos atuais de direita na América Latina, incluindo o de Bolsonaro.

“Acredito que eles são personagens claramente reacionários, mas o fascismo é uma forma muito específica de reação. Implica, por exemplo, um processo de organização e de mobilização dos estratos médios, o que não é o caso de Bolsonaro, do (presidente argentino Mauricio) Macri ou de (Ivan) Duque da Colômbia ”, diz Boron.

“Penso que Bolsonaro é um personagem miserável que infelizmente [encarna] os piores aspectos da política da América Latina em tempos recentes, por isso é conveniente usar o termo fascista neste caso, mas é preciso entender que o termo vai além [de suas declarações].

Sabrina Fernandes, socióloga e pesquisadora da Universidade de Brasília, considera que o campo de Bolsonaro já atingiu essa camada média. Fernandes, produtora do canal de esquerda Tese Onze no YouTube, diz que a direita conseguiu realizar incursões significativas entre as classes populares na esteira da operação Lava Jato.

“O movimento de extrema direita no Brasil mobilizou a classe média mais do que qualquer outra, especialmente em torno do impeachment de Dilma Rousseff”, afirma Fernandes. O processo de impeachment, disse ela, mobilizou “predominantemente as classes média e alta brancas”, mas também foi capaz de mobilizar setores da classe trabalhadora e baixa. O tamanho das manifestações contra a corrupção no país, assim como seu pesado tom anti-esquerda e anti-PT, atestam isso.

Classe e a “classe média”
Há pouca dúvida de que a classe média na região, que cresceu consideravelmente em tamanho desde a virada do milênio, vem desempenhando um importante papel eleitoral. A combinação do boom de mercadorias primárias e a proliferação de políticas nacionais de investimento e de redistribuição por toda a América Latina permitiram que cerca de 70 milhões de pessoas fossem retiradas da pobreza entre 2002 e 2014, de acordo com a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Destes, quase 30 milhões estavam no Brasil. No Equador, a classe média dobrou de 18,58% para 37,4% entre 2005 e 2015. Tanto no Equador quanto agora no Brasil, análises recentes mostram que essa classe média está de fato votando em números significativos para candidatos conservadores.

Os apelos da direita à realização individual, bem como a argumentos de que as intervenções do governo seriam responsáveis pelas crises econômicas, têm sido narrativas poderosas no direcionamento dessa nova classe média para candidatos de direita. Fernandes diz que esta estratégia, implantada através dos principais meios de comunicação e mais recentemente através das mídias sociais, tem funcionado no Brasil.

“Dessa maneira, eles começaram a afetar o senso comum, então não é mais apenas a classe média, a maior parte da classe trabalhadora está na verdade indo contra sua própria consciência de classe”, diz Fernandes. Boron acrescenta que a classe média está agindo com medo e “ressentimento”, afetando não apenas seus padrões de voto, mas também suas visões sociais, incluindo o racismo e a xenofobia que tem aumentado em toda a região.

“Eles veem aqueles que declaram uma posição econômica inferior como uma ameaça e, portanto, tendem a ter posições discriminatórias, agressivas e ofensivas sobre os setores populares. Isso é algo que também ocorreu no fascismo italiano e alemão ”, diz Boron.

Negócios inacabados
Em pouco mais de uma década os governos da chamada “Onda Rosa” realizaram um progresso social inegável na região mais desigual do mundo. Porém, muitos daqueles que alcançaram uma certa mobilidade social durante este período se voltaram contra esse projeto político e as políticas que o definiram.

Independente se uma “Onda Marrom” for iminente ou não, a afirmação de Walter Benjamin de que “por trás de todo fascismo há uma revolução fracassada”, vale para a América Latina hoje, argumenta Boron.

“É uma punição – eu não diria que por não ter feito uma revolução, mas por não ter completado um processo de reformas que tinha de ser radicalizado e, com isso, suprimir as possibilidades do surgimento de movimentos políticos fascistas,” afirma Boron, enfatizando a ausência de educação e organização política pela maioria dos governos de esquerda na região.

“Infelizmente, eles caíram em uma espécie de determinismo econômico, um certo economicismo, por parte dos governos da era progressista, pensando que melhorar as condições materiais seria o suficiente para gerar consciência da necessidade de lutar contra o capitalismo”.

Isso também é verdade no caso do Brasil, onde um movimento popular enfrentou uma ditadura e depois elegeu candidatos do PT como Lula para a presidência. “Havia muito potencial quando Lula foi eleito, com muito apoio popular, para mobilizar as pessoas e pressionar por mais, e as pessoas estavam muito esperançosas de que o governo seria mais do que foi”, diz Fernandes.

A esquerda pode ter falhado em organizar uma base de apoio suficiente para sustentar seu projeto, mas agora terá uma luta muito mais difícil pela frente – garantir que a direita reacionária também não seja capaz de fazê-lo. Isso motivou ativistas de esquerda, como Fernandes, que são críticos do governo do PT, a fazer campanha por Fernando Haddad no segundo turno das eleições presidenciais.

Jeito fascista

Um diálogo com Stefan Zweig sobre Jair Bolsonaro

André Singer


Apoiador do candidato Jair Bolsonaro (PSL) usa camiseta durante manifestação em Copacabana, Rio de Janeiro. Carl de Souza/AFP

O escritor Stefan Zweig (1881-1942) me ligou ontem de manhã (ele não usa WhatsApp).

— Bom dia, Stefan, como vai?

— Estou preocupado com a eleição de domingo aí no Brasil.

— Eu também.

— Mas acho que você ainda não percebeu direito o que está acontecendo. Leia “Autobiografia: O Mundo de Ontem”, que escrevi antes de me suicidar em Petrópolis (RJ).

— Deixa passar o pleito.

— O método da extrema direita brasileira é o mesmo do nacional-socialismo: uma dose de cada vez, e, depois de cada dose, uma pequena pausa. Sempre só um comprimido e depois esperar um pouco para verificar se não era forte demais, se a consciência do mundo tolerava essa dose.

— Do que está falando?

— Veja, por exemplo, a reação de Jair Bolsonaro (PSL), esta semana, diante da má repercussão do vídeo em que o seu filho, Eduardo, ameaçava fechar o Supremo Tribunal Federal com “um soldado e um cabo”.

— Sim, o que há com essa reação?

— O candidato, com ar compungido na TV, pediu “desculpas ao Poder Judiciário”, dizendo não ter sido a intenção de Eduardo atacar “quem quer que seja”. A técnica é ir experimentando devagar, para descobrir até onde se pode ir a cada momento.

— Não serão apenas bravatas?

— Nós na Alemanha e na Áustria não acreditávamos nem um centésimo ou milésimo ser possível o que poucas semanas mais tarde haveria de eclodir. Monstruosidades como queimas de livros, que poucos meses depois seriam um fato, ainda estavam longe de qualquer compreensibilidade mesmo para pessoas de larga visão.

— O pessoal aqui pensa que as instituições estão funcionando e que elas impedirão o arbítrio.

— Engano. O clima de ameaça à liberdade de expressão tomou conta de parte das instituições. Repare nas ações policiais que ocorreram em 12 universidades nos últimos dias. Durante três décadas de democracia o território universitário foi inviolável e, de repente, aulas sobre fascismo são interrompidas à força. Isso se chama Estado policial.

— Você exagera, Stefan, eles possuíam mandados judiciais.

— Você fica lendo em casa e não ouviu o que Bolsonaro disse para os seus apoiadores na Paulista domingo passado. Ele afirmou que os “marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”. A sociedade já foi intimidada. Temendo as “brigadas conservadoras”, Fernanda Torres suspendeu a encenação de uma peça prevista para novembro.

Desliguei apreensivo. Talvez Zweig estivesse apavorado. Por via das dúvidas, saí para virar mais uns votos. Não vale a pena pagar para ver se ele tem razão.

PS - Grato a Elio Gaspari pela inspiração. O texto utiliza trechos, em adaptação livre, do livro citado.

Sobre o autor


Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

26 de outubro de 2018

Por que voto no Professor

Fico sempre do lado da democracia e contra o ódio, mas Haddad também é melhor em outras áreas

Nelson Barbosa


O candidato Fernando Haddad (PT). Créditos: Nelson Almeida/AFP Photo

Neste domingo (28), escolheremos entre Haddad e Bolsonaro para presidente.

De um lado, temos a defesa da social-democracia e do diálogo por um Professor Universitário. Do outro, o louvor ao autoritarismo e à repressão por um Ex-Capitão do Exército.

Fico sempre do lado da democracia e contra quem incita o ódio, mas Haddad também é muito melhor em outras áreas, vejamos algumas.

Na tributação, os dois candidatos prometem (equivocadamente) zerar o Imposto de Renda de quem ganha até cinco salários mínimos. Trata-se de um exagero, mas cada lado tem diferenças importantes.

O Professor diz que compensará essa desoneração aumentando a tributação sobre os mais ricos, de modo que no final possa ocorrer até alta de receita. Em contraste, o Ex-Capitão quer desonerar mais os super-ricos, adotando uma alíquota única de 20%, um grande erro.

Ainda nos impostos, o Professor se compromete a simplificar tributos indiretos e rever benefícios tributários, consenso entre a maioria dos economistas.

Do outro lado não há clareza, pois assessores do Ex-Capitão sinalizaram e recuaram sobre a criação de uma super-CPMF, em conjunto com uma megadesoneração da folha que pode quebrar a Previdência.

Como no Brasil foram governos de direita que aumentaram a carga tributária de modo permanente, podemos esperar um tarifaço sobre os mais pobres em caso de vitória do Ex-Capitão, outro erro.

Passando ao gasto público, o Professor já disse que continuará alinhando as regras de aposentadoria entre os setores público e privado, como fizeram os governos do PT.

Em contraste, o Ex-Capitão indicou que preservará os privilégios adquiridos pelo núcleo militar-judicial-policial do Estado. As demais categorias, especialmente na educação e saúde, provavelmente ficarão à míngua em um eventual governo PSL.

Nos salários e emprego, o Professor se compromete a rever a reforma trabalhista, dando mais poder aos sindicatos, e continuar aumentando o salário mínimo.

O Ex-Capitão foi na direção contrária, prometendo flexibilizar ainda mais a legislação trabalhista e sendo ambíguo no salário mínimo.

Dado que o candidato do PSL já disse que o Brasil deveria voltar à situação dos anos 1970, só posso concluir que sua proposta trabalhista é arrocho salarial permanente, como aconteceu na ditadura militar.

No desenvolvimento sustentável, o Professor já deu exemplos de preocupação ambiental quando prefeito de São Paulo. Podemos esperar mais medidas de desenvolvimento verde no seu governo.

O Ex-Capitão está no polo oposto, pois deseja acabar com o Ministério do Meio Ambiente, e seus assessores já sinalizaram que o Ibama só “enche o saco” e que pode haver mais desmatamento na Amazônia (uma equipe de exterminadores do futuro).

E, na transparência, o Professor se comprometeu com a independência dos órgãos de controle e o combate à corrupção, como fizeram os governos do PT.

O Ex-Capitão não falou muito sobre isso, ou sobre qualquer coisa, mas novamente seus generais assessores já indicaram que desejam agilizar e simplificar processos em um “balcão único”, como era, adivinhe, nos anos 1970!

Nesse quadro é fácil escolher, sobretudo porque o Professor defende a restauração do Estado democrático de Direito, mais investimento em educação e saúde, retomada do crescimento econômico com sustentabilidade ambiental e redução de desigualdades sociais (só crescimento não basta).

Por isso e pelo respeito aos direitos civis, mesmo de quem discorda da minha opinião, votarei novamente Haddad Presidente.

Sobre o autor


Professor da FGV-SP, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

21 de outubro de 2018

Fora dos trilhos

Modernizar não é comprar trem. O fundamental é reduzir a frequência. Há muito poderíamos contar com 290 km a mais de metrô

Eduardo Fagnani

Folha de S.Paulo

O debate sobre os transportes públicos é desalentador. Ao lado da esgotada opção pelo ônibus (na forma de corredores), emergem "soluções" elitistas (bicicletas) e utópicas (restrição ao uso do automóvel, pedágio, carona, rodízio etc.). Bicicleta é bom para quem mora em Higienópolis (centro) e trabalha no Pacaembu (zona oeste). Não serve para a minha empregada, que mora no Capão Redondo (zona sul) e trabalha no Butantã (zona oeste). Usar automóvel não é ato de vontade, mas falta de opção.
O problema remonta à década de 1950. A acelerada urbanização não foi acompanhada de ação pública. O setor nunca foi prioridade, e usuários sempre foram tratados como gado.
Em metrópoles europeias, o transporte coletivo prepondera ante o individual. No universo dos meios coletivos, metrô e trem respondem pela maioria das viagens; o ônibus tem papel suplementar.
Caracas e Cidade do México seguem esses parâmetros. Aqui, ocorre o inverso. Entre 1967 e 2007, a participação dos meios coletivos declinou (de 68% para 55%) em favor do automóvel.
No âmbito exclusivo das viagens coletivas, em 2007, o ônibus respondia por 78% dos deslocamentos, ante 16% do metrô e 6% do trem.
Iniciamos tarde o investimento em transporte público e não recuperamos o tempo perdido. Desde 1968, construímos, em média, 1,7 km de metrô ao ano. Na Cidade do México e em Santiago, o ritmo é superior -4,4 km e 2,6 km, respectivamente. Xangai constrói 21 km/ ano desde 90. Aqui, as obras da linha amarela (de 12 km) já levam 16 anos.
O indicador "população por km de linha" evidencia a reduzida oferta.
Em 2009, figurávamos entre as dez piores situações globais (278 mil pessoas/km), distantes da Cidade do México (94 mil) e de Santiago (55 mil) e da maioria das aglomerações(entre 10 e 30 mil).
Nosso metrô é um dos mais superlotados do mundo (27mil passageiros por km de linha), taxa superior às da Cidade do México, de Buenos Aires, de Santiago (entre 15 e 19mil) e da maior parte das metrópoles mundiais (inferior a 10 mil).
Com a privatização, o metrô tem de dar lucro. Nos últimos 20 anos, a tarifa subiu quase o dobro da inflação. Em 2009, nossa tarifa (€ 0,99) era semelhante à de Lisboa (€ 1,05). Todavia, o lisboeta trabalhava 14 minutos para comprar um Big Mac; o paulistano, 40. Cidades latinas possuíam tarifas inferiores: Santiago (€ 0,72); Bogotá (€ 0,57); Buenos Aires (€ 0,31) e México (€ 0,18).
Não priorizamos a modernização dos 290 km da CPTM, que demanda investimentos muito menores (pois evita desapropriações e subterrâneos). Em 2007, o metrô (60 km) transportou 2,2 milhões de pessoas/ dia, enquanto a CPTM (290 km) se restringia a 800 mil. Essa disparidade é explicada pela rápida frequência do metrô. Modernizar não é comprar trem. O fundamental é reduzir a frequência. Há muito poderíamos contar com 290 km adicionais de metrô.
O governo estadual é o principal responsável pela crise, seguido pelo município, que não investe no sistema. A União também foi omissa: em 1990, o tema saiu da agenda, só retornando em 2007(via PAC).
Precisamos elaborar uma política nacional assentada na responsabilidade compartilhada entre os entes federativos e ancorada em fontes de financiamento sustentadas.
O Brasil pode resolver essa questão no curto prazo. Estima-se que meio ponto a mais na taxa de juros tenha um custo de R$ 15 bilhões -o suficiente para construir mais da metade da rede de metrô paulistana.
Transporte público em metrópoles do porte das capitais brasileiras requer sistemas de alta capacidade.
Isso é o que separa a civilização da barbárie. Transporte é um direito do cidadão, e não apenas do torcedor da Copa do Mundo.

Sobre o autor
EDUARDO FAGNANI é professor doutor do Instituto de Economia da Unicamp

20 de outubro de 2018

O Karl Marx da música

O compositor Hanns Eisler foi comunista ao longo da vida e se descreveu como jacobino. Sua música forneceu a trilha sonora das tragédias e triunfos do antifascismo alemão.

Alex Brown

Jacobin

Bertolt Brecht e Hanns Eisler, data desconhecida. Cidade de Liebzig, Alemanha.

Hanns Eisler foi um dos maiores compositores da era moderna. No entanto, sua biografia se parece mais com um thriller de espionagem do que com as carreiras acadêmicas de muitos de seus contemporâneos musicais. Nascido em 1898 em uma família pequeno-burguesa em dificuldades, sua vida levou-o a alguns dos momentos decisivos do século XX, das linhas de frente da Primeira Guerra Mundial a Berlim durante a ascensão do nazismo, Guerra Civil Espanhola, América McCarthysta, e Alemanha da era da Guerra Fria.

Um talentoso compositor de trilhas sonoras de filmes, Eisler, o indicado ao Oscar, é talvez mais conhecido por escrever o hino nacional da RDA (República Democrática Alemã), o estado fundado na porção oriental da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial. A mensagem otimista de Auferstanden aus Ruinen (Arisen from Ruins) refletia a promessa de superar os crimes e a devastação da era nazista.

O futuro socialista não foi realizado: o novo estado nasceu em circunstâncias adversas e acabou por desmoronar. Mas Eisler, que morreu em 1962, também representou uma geração que sentiu o fascismo em seu próprio couro e procurou criar uma nova Alemanha. Por décadas um colaborador de Brecht, Eisler é um protagonista indevidamente esquecido de um ambiente cultural galvanizado por um humanismo socialista compartilhado.

"Politicamente não-confiável"


Embora nascido em Leipzig, na Alemanha, filho de pai judeu-austríaco e mãe alemã, Eisler cresceu na Viena natal do pai, junto com sua irmã Elfriede e seu irmão Gerhart. Isso permaneceria perceptível no forte sotaque vienense que ele sempre mantinha quando falava alemão. Eisler com frequência comentava sobre sua herança de classe dual: sua mãe, uma criada pobre, trouxe histórias da realidade da classe trabalhadora no final do século XIX, enquanto seu pai filósofo vinha da Bildungsbürgertum (pequena burguesia educada) e assegurava que houvesse uma rigorosa filosofia humanista dentro da casa da família.

Durante sua juventude, a família passou por períodos de extrema pobreza. Eles apoiaram o Partido Social Democrata e, aos quatorze anos, Eisler juntou-se a um grupo de jovens socialistas. Ele mostrou talento musical desde muito jovem, completando sua primeira composição aos dez anos de idade. Como o pai de Eisler não podia mais pagar pelo aluguel de seu piano, isso foi feito sem a ajuda de um instrumento musical real.

Pouco depois de se formar na escola secundária em 1916, Eisler foi convocado para o exército austro-húngaro, na época lutando por sua sobrevivência na tempestade da Primeira Guerra Mundial. Oficiais classificaram Eisler como "politicamente não-confiável" devido a filiações em várias organizações socialistas e o fato de que seu irmão havia publicado uma revista anti-guerra ilegal. Após um breve período em uma escola de treinamento de oficiais de reserva onde ele foi repetidamente punido por desobedecer ordens, Eisler foi designado para um regimento de infantaria húngaro na frente oriental. Seus superiores esperavam que a barreira da língua o impedisse de mais agitação política. Eisler voltou-se para a composição de músicas em seus momentos de folga a fim de lidar com o horror e o tédio da guerra. Sua composição Gegen den Krieg (Contra a Guerra) desgraçadamente acabou se perdendo para as futuras gerações. No entanto, Eisler escreveu mais tarde sobre o impacto que a Revolução de Outubro de 1917 teve sobre os soldados, celebrando notícias que eles esperavam que parassem com o derramamento de sangue que se tornara sua realidade diária.

Após a rendição final das Potências Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria, Império Otomano e Bulgária) em 1918, Eisler voltou para Viena. Graças à sua promessa óbvia, tornou-se um estudante pessoal do famoso compositor expressionista Arnold Schönberg, inventor da técnica dos doze tons. No entanto, apesar da inovação radical dos grupos musicais pelos quais ele estava se movendo, Eisler se encontrava inquieto dentro dos limites políticos da Viena pequeno-burguesa e incapaz de ganhar a vida. Em 1925 mudou-se para Berlim, um foco de sedição cultural e política na época. Apoiando-se ao trabalhar como professor de piano, Eisler envolveu-se em agitação política escrevendo canções para coros operários e grupos de agitação, incluindo o mais famoso conjunto comunista da República de Weimar - Das rote Sprachrohr (O Megafone Vermelho).

Em 1926, Eisler conheceu o jovem dramaturgo Bertolt Brecht, de quem ele se tornou um grande amigo. O destino de Eisler logo se entrelaçou com o do célebre dramaturgo, com quem ele colaboraria estreitamente para o resto de sua vida. Nesse mesmo ano, Eisler entrou para o Partido Comunista da Alemanha (KPD) e começou a trabalhar como crítico de música para o jornal do partido, Die rote Fahne (A bandeira vermelha). Durante esse período, suas canções se tornaram parte da trilha sonora da revolução social que parecia borbulhar sob a superfície de Berlim ao longo dos anos 1920 e início dos anos 1930. Isso foi em grande parte graças à sua colaboração com Ernst Busch, um cantor da classe trabalhadora que se tornou uma das vozes mais famosas da falecida República de Weimar. Eisler compôs muitas canções para ele cantar, geralmente usando letras tiradas da poesia ou das peças de Brecht e Erich Weinert (outro autor comunista amplamente conhecido). Busch tocou com Eisler ao piano em todos os clubes e pubs dos trabalhadores de Berlim e além. Uma das canções mais influentes deste período foi Roter Wedding (Red Wedding). Esta marcha inspiradora fala de Wedding, um famoso bairro comunista em Berlim, e conclama os ouvintes à ação:

“Red Wedding” greets you comrades,
Hold your fists at the ready!
Keep the red ranks closed,
As our day is fast approaching!

Com a ascensão meteórica do Partido Nazista após o crash financeiro de 1929, a atenção de Eisler, como muitos de seus camaradas comunistas, foi cada vez mais direcionada para a atividade antifascista. Uma colaboração com Brecht e Ernst Busch, Das Lied vom SA-Mann (A Canção do Homem da SA) conta a história de como uma camisa marrom nazista, inicialmente entusiasta, vê o erro de seus modos ao receber ordens para atirar em colegas de trabalho. O Gegen den Faschismus (Canção de Batalha Contra o Fascismo) em 1932 era um popular single de vinil de goma-laca que destacava o fato de que muitos capitalistas estavam apoiando a suposta agenda "nacional socialista" de Hitler. Igualmente, pedia a todos os ouvintes que se esquecessem das antigas divisões e se unissem à frente única sob a bandeira vermelha. Embora produzir material especificamente antifascista fosse naturalmente uma preocupação fundamental de Eisler nesse período, ele, como Brecht, também reconheceu que ser contra algo não era suficiente e que os socialistas tinham de oferecer uma alternativa positiva inspiradora à demagogia divisiva da extrema direita.

Projetos como o famoso filme Kuhle Wampe (Who Owns the World), financiado pelo KPD, para o qual Eisler compôs a partitura, tinham como objetivo comunicar de maneira convincente por que o sistema capitalista era responsável pelo desemprego, fome e destituição em massa que afetavam milhões de alemães. O filme termina com uma versão animada da famosa Solidaritätslied de Eisler e Brecht, que clama pela unidade da classe trabalhadora entre nações e raças para construir um mundo melhor para todos, pedindo poderosamente em seu refrão final: “Wessen Welt ist die Welt? ”(“ De quem é o mundo?”) Durante as filmagens, os membros do KPD tiveram que se proteger fisicamente dos conjuntos de camisas marrons da SA e o filme foi banido após a liberação pelo governo, demonstrando os interesses cada vez mais alinhados do estado alemão e do partido nazista.

Apesar dos muitos desafios que enfrentaram, Eisler, Brecht e Busch et al. desempenharam um papel significativo na construção de redes culturais em prol da massa da classe trabalhadora em Berlim, estabelecendo uma “hegemonia vermelha”. É importante ressaltar não apenas a oposição ao fascismo e capitalismo, mas também uma alternativa inspiradora e concebível: o futuro socialista da humanidade. Sua abordagem para construir uma alternativa cultural dependia de músicas cativantes, teatro e filmes voltados para o "homem comum", seguros em sua convicção de que apenas a classe trabalhadora poderia deter o fascismo e construir uma sociedade democrática digna desse nome. Embora esses esforços não pudessem deter o gigante nazista em nível nacional, deve-se notar que Berlim permaneceu “vermelha”; nas eleições democráticas finais, em 1932, os dois partidos obtiveram 62% dos votos (KPD, 38%; SPD, 24%) contra 22% dos nazistas.

Os anos de Hollywood


Depois que os nazistas alcançaram o poder do Estado em 1933, tanto a herança judaica de Eisler quanto as convicções comunistas o forçaram a fugir. O primeiro estágio de seu exílio foi passado em Paris. Para pagar as contas, ele escreveu partituras para filmes baratos, um dos quais ele descreveu como um "pedaço de merda".

Em fevereiro de 1934, Eisler viu em primeira mão o que descreveu como uma tentativa de golpe pelos fascistas franceses. Como um comunista comprometido, ele se apressou para as contra-manifestações organizadas pelos sindicatos franceses. Na chegada, ele encontrou a multidão reunida cantando a versão francesa do Roter Wedding (Casamento Vermelho), que se tornou um clássico do movimento internacional dos trabalhadores. Um operário, não reconhecendo o compositor e olhando para a sua calvície, abordou Eisler com suspeita, gritando: "Ei burguês, você deve cantar com a gente!" Eisler tentou o seu melhor, mas não conseguia lembrar a letra francesa de sua música e foi forçado a recuar, tendo sido confundido com um membro da burguesia fora do lugar que se deparou com a manifestação por acidente. O humor muitas vezes auto-depreciativo de Eisler foi demonstrado em seu prazer em regalar as pessoas com essa anedota.

Nos anos seguintes, Eisler se mudaria de lugar em lugar seguindo as encomendas de partituras dos filmes. Ele também procurou apoiar a luta comunista e antifascista internacional da melhor forma possível, dando concertos e gravando música. O Einheitsfrontlied (Canção da Frente Unida) que Brecht e Eisler compuseram a mando do Comintern (a aliança internacional dos partidos comunistas) em 1934 foi um marco dessas performances. A canção procurou sublinhar a nova política do Comintern, que buscava uma frente unida formal na luta contra o fascismo europeu e para cobrir as velhas divisões entre social-democratas e comunistas que haviam ajudado a dividir o movimento dos trabalhadores e contribuído para a ascensão do fascismo. Ainda é uma canção popular entre socialistas e antifascistas até hoje, tendo sido traduzida para muitas línguas e gravada por vários artistas.

No início de 1937, Eisler foi convidado para a Espanha pelas Brigadas Internacionais, formadas por voluntários internacionais que defendiam a República Espanhola dos clero-fascistas sob Franco. Chegando em Madri, foi rapidamente levado para a linha de frente em Múrcia, onde passou algumas semanas com a XI Brigada, famosa por estar envolvida em algumas das batalhas mais sangrentas do conflito, particularmente a defesa de Madri em 1936.

No dia de sua chegada, ele ficou tão inspirado pelos voluntários que escreveu quatro novas músicas naquele mesmo dia, que foram devidamente cantadas por voluntários de todas as nações em um concerto improvisado naquela noite. Muitos deles estavam gravemente feridos e exaustos, levando Eisler a recordar: "Eles não cantavam lindamente; suas vozes estavam roucas devido ao frio terrível das linhas de batalha. Mas eles cantaram com muita paixão. É assim que os camponeses devem ter cantado durante a Grande Revolta dos Camponeses, os taborites [um movimento milenar do século XV], é assim que a Marselhesia deve ter soado pela primeira vez. "Talvez a canção mais notável que veio da época de Eisler na Espanha é No Pasarán!, a interpretação musical de um poema da republicana espanhola Herrera Patere, que pôde ser ouvida em toda a Madri logo após sua gravação inicial e se tornou uma das mais icônicas canções e slogans da Guerra Civil Espanhola. No Pasarán! ainda é um grito de batalha comum para os antifascistas hoje.

Em 1938, Eisler emigrou para a América com um visto temporário com sua segunda esposa, Louise. Em Nova York, ele novamente se viu compelido a voltar sua atenção para compor partituras para sustentar sua família, incluindo um desenho animado financiado por magnatas do petróleo. Ele nunca poderia imaginar que as circunstâncias o deixariam trabalhando para o grande capital americano. Ao mesmo tempo, no entanto, ele estava envolvido nas atividades do Partido Comunista da América, ajudando a organizar um grande evento memorial para Lenin como parte das comemorações do aniversário da Revolução de Outubro. Como qualquer atividade comunista era motivo para revogar seu visto, ele adotou o pseudônimo de “John Garden”. Ele até ajudou a escrever o hino não oficial do Partido Comunista da América, Sweet Liberty Land.

Após uma série de complicações com vistos - Eisler era um comunista indesejável, no que diz respeito às autoridades americanas - havia uma ordem para sua prisão e deportação em 1940. Se ele tivesse sido mandado de volta para a Europa, é muito provável que Eisler tivesse viajado para a sua morte devido à sua herança judaica e fidelidade comunista bem conhecida. Felizmente para Eisler, ele foi capaz de buscar refúgio no México, naquela época governado pelo esquerdista Lázaro Cárdenas. Graças a um “funcionário consular adormecido” (como o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara o chamaria posteriormente), Eisler logo conseguiu obter um visto ilimitado em pessoa na fronteira entre o México e a Califórnia. O oficial claramente não sabia que estava lidando com um conhecido comunista. Após breves temporadas em Nova York e na URSS, Eisler decidiu se juntar ao seu amigo Brecht em Los Angeles.

Após o assassinato do renomado nazista e principal arquiteto do Holocausto, Reinhard Heydrich, por partisans da Tchecoslováquia em 1942, Brecht e Eisler trabalharam juntos em um filme vagamente baseado nos eventos intitulado: Hangmen Also Die! Eisler conseguiu inserir-se na melodia do Comintern Song nos créditos finais, sob o título No Surrender. Por seu trabalho no filme, dirigido por Fritz Lang, Eisler seria nomeado para um Oscar, como o foi novamente por None but the Lonely Heart de Clifford Odets, em que Cary Grant fez o papel principal. Com a sua reputação como compositor de trilhas sonoras de Hollywood agora assegurada, Eisler achava ofertas de trabalho de forma rápida e grande quantidade. Em comparação com grande parte de sua experiência anterior com o exílio, Eisler agora podia viver confortavelmente. Ele e sua esposa compraram uma casa vizinha a exilados antifascistas, como o célebre romancista Thomas Mann e o filósofo da Escola de Frankfurt Theodor Adorno. A partir de 1943, o FBI manteria Eisler e esse círculo de antifascistas sob vigilância quase total, como atesta seu arquivo do FBI com mais de seiscentas páginas.

Em 1946, o infame House Un-American Activities Committee (HUAC) do Senator Joseph McCarthy reconvocou sua caça anticomunista. A aliança dos tempos de guerra com a URSS chegara ao fim e também a tolerância de curta duração com os emigrados comunistas. Hanns Eisler e seu irmão Gerhart, um funcionário do KPD, que estava na América desde 1941, foram alvo de uma furiosa campanha da imprensa. Eisler foi chamado perante o Comitê para descobrir que ele havia sido denunciado por ninguém menos que sua própria irmã Elfriede, agora usando o nome de Ruth Fischer.

Fischer foi o líder do KPD durante uma breve fase de ultra-esquerda em meados da década de 1920 caracterizada por atitudes sectárias em relação à cooperação com o SPD; nesse período, os membros do KPD foram proibidos de apertar a mão de membros do SPD e representantes parlamentares foram instruídos a usar luvas vermelhas. Após sua exclusão do paritdo em 1926, Ruth Fischer e seu marido Arkadi Maslow foram colaboradores próximos de várias figuras oposicionistas soviéticas, primeiro Grigory Zinoviev e depois de perto com Leon Trotsky até que eles se desentenderam com ele em 1936.

Em 1941, o casal que também fora forçado ao exílio antifascista, encontrava-se em Havana quando Maslow sofreu um ataque cardíaco, que Ruth Fischer sempre acreditou ser um assassinato direcionado por agentes soviéticos. Deste ponto em diante, ela se tornou um renegado comunista incansável, publicando uma revista anticomunista The Network, ministrando palestras anti-soviéticas na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e até se tornando uma figura chave nas atividades anticomunistas do precursor da CIA The Pond. Fischer parecia estar decidido a derrubar o comunismo mundial sozinho e seus irmãos foram seu primeiro alvo, apesar do fato de que ela permaneceu amiga de Hanns durante os anos de guerra, recebendo apoio financeiro dele e até mesmo permanecendo com ele em Los Angeles em várias ocasiões. As cartas que ela enviou ao HUAC mostram como ela se tornou paranoica. Ela também começou a publicar anúncios de página inteira em jornais em todo o país, acusando seu irmão Gerhart de ter assassinado o político soviético Nikolai Bukharin e de ser um espião nuclear da União Soviética.

O futuro presidente, Richard Nixon, sentou-se no HUAC e observou em seus preparativos que o caso contra Eisler poderia ser "o mais importante" a ser levado diante deles. Em retrospecto, os historiadores acreditam que o caso de Hanns Eisler foi concebido como a salva de abertura das audiências de Hollywood, em que dezenas de atores, artistas e outros profissionais do cinema foram submetidos a períodos prolongados de pressão e escrutínio, a fim de farejar qualquer cheiro de comunismo.

Eisler anotou suas impressões do HUAC em seu diário: “Essa audiência é sinistra e risível ao mesmo tempo. O Comitê não está realmente interessado em meu testemunho, tem apenas dois propósitos: apresentar-me como um monstro publicamente e me jogar na cadeia por perjúrio.” A ameaça da prisão era muito real; o irmão de Hanns, Gerhart, foi condenado a três anos de prisão, embora tenha finalmente conseguido fugir para a Europa em 1948, contrabandeando a bordo de um navio enquanto estava sob fiança.

Eisler procurou defender-se das maquinações dos McCarthystas respondendo à pergunta infame: "Você é ou foi a qualquer momento membro do Partido Comunista?", declarando em seu inglês altamente germanizado que ele havia "feito uma inscrição", mas não tomou “mais cuidado com isso” devido a suas “atividades artísticas”, ao mesmo tempo em que notou que, assim como membros de qualquer ordem, se você não pagasse suas dívidas, “desistiria”. Essa semântica equilibrada era necessária para tentar manter-se fora da cadeia. No entanto, isso não o impediu de ocasionalmente provocar o Comitê e fazer alguns golpes. Quando foi perguntado ao investigador-chefe, Robert Stripling, sobre qual era o propósito de ler tantas citações das canções, entrevistas e artigos de Eisler, ele retrucou arrogantemente: “O objetivo é mostrar que Eisler é o Karl Marx do comunismo na área da música.” Eisler respondeu laconicamente: “Isso me lisonjiaria!”


Enfrentando o futuro


Ao chegar em Viena, Eisler logo percebeu que não era a mesma cidade de sua juventude ou mesmo de suas visitas durante o exílio. Ele encontrou um boicote cultural e pessoal de quase qualquer coisa associada ao comunismo. O Partido Comunista da Áustria conseguiu um apartamento para ele, mas as perspectivas de sua carreira musical pareciam sombrias. Em junho de 1949, Eisler emigrou para Berlim. A promessa de trabalho da companhia estatal de filmes GDR, DEFA, o fato de que seu velho amigo Brecht estava estabelecendo um grupo de teatro Berliner Ensemble, e a possibilidade mais ampla de contribuir para o primeiro estado socialista em solo alemão parecem ter sido decisivos para o compositor agora com cinquenta e um anos de idade.

Eisler se jogou com entusiasmo no Aufbau (construção) do socialismo. Em 1951, ele escreveria: “Desde minha juventude, tenho me esforçado para escrever música em benefício do socialismo. Esta tarefa tem sido difícil e muitas vezes cheia de contradição. Mas essa parece ser a única tarefa digna para os artistas de nossa época.” A primeira contribuição de Eisler foi compor o hino nacional da RDA, Auferstanden aus Ruinen (Arisen from Ruins), com letras do poeta Johannes R. Becher. A canção capturou o clima dos tempos, a esperança e a determinação de construir uma sociedade socialista a partir das ruínas do fascismo e da guerra alemães.

No entanto, os primeiros anos de Eisler na RDA não se passaram sem controvérsia. Em 1953, ele foi acusado de degradar a lenda nacional do Fausto de Goethe com sua peça, que ele pretendia transformar em uma ópera, Johann Faustus. Os detalhes dessa disputa em grande parte acadêmica talvez sejam difíceis de apreciar cerca de sessenta e cinco anos depois. Mas mais interessante é a tentativa perceptível em alguns setores de destacar episódios como este, a fim de dissociar o célebre intelectual Eisler de seu país escolhido, a RDA, como se fossem evidência de sua postura "dissidente" ou "oposicionista".

Narrativas semelhantes podem ser encontradas com relação a Bertolt Brecht e Ernst Busch, entre muitos outros intelectuais e artistas comunistas. Disputas relativamente menores são desproporcionalmente enfatizadas a fim de reivindicar esses comunistas convencidos para um cânone liberal ocidental de "intelectuais críticos". Seu marxismo-leninismo é visto como uma anomalia estranha devido aos tempos em que viviam e operavam. Comentaristas como Friederike Wißmann ou Andrea e Philip Bohlmann retratam Eisler como um intelectual “cosmopolita” cuja relação com o comunismo pode ser descrita em termos de “dissidência”. Os bohlmanns sugerem que o senso de justiça e o espírito de luta de Eisler foram derivados não de suas convicções marxistas, mas de sua identificação com o judaísmo, apesar de seu firme ateísmo convicto.

Essa tendência parece ter sido parte de uma mudança discursiva mais ampla, resultante do suposto "fim da ideologia" (como alegou Francis Fukuyama) e da deslegitimação da esquerda socialista na década de 1990. Marx e especialmente Lênin não podiam mais ser discutidos. No entanto, quase trinta anos depois, em um mundo pós-colisão no qual o autoritarismo de direita e a insegurança econômica estão em ascensão, podemos ver que essa proclamação da “vitória final” do capitalismo e da democracia liberal era em si uma mera expressão de viés ideológico.

Isso exige que reconsideremos a história e a tradição que intelectuais comunistas como Eisler realmente representam. Suas próprias palavras finais sobre o debate de Fausto dizem: "Eu só posso imaginar o meu lugar como artista naquela parte da Alemanha, onde as bases para o socialismo estão sendo construídas de novo."

A questão da liberdade artística era uma das quais Eisler gostava de filosofar. Ele rejeitou qualquer noção liberal de absoluta liberdade artística, considerando que os artistas devem se esforçar para servir a um propósito mais elevado: “Eu não acredito em liberdade artística que simplesmente existe para seu próprio prazer. A esse respeito, posso afirmar claramente que sou um jacobino”.

Sol sobre a Alemanha

Eisler evidenced this unity of artistic purpose and meaning with aesthetic quality throughout his time in the GDR. This was particularly poignantly expressed with the music he composed for French director Alain Resnais’s Nuit et brouillard (Night and Fog). The groundbreaking 1956 documentary was one of the first to bring the horrors of the Holocaust to a wider Western European audience. Eisler’s haunting melodies overlap with images of Auschwitz-Birkenau, testimony from survivors, and the final montage of camp guards repeating the same words, “I am not responsible.” Eisler’s music, like the film itself, avoided sentimentality, which is perhaps why it remains a potent classic to this day.

The Jewish-heritage communist Eisler had always considered it his duty to educate the world about the horrors of fascism, and not least to teach that fascism was a form of capitalism. As the opening lines of one of his 1930s songs had plainly put it: “Who pays the money for Hitler and his company? It is the big profitlers [sic] of the weapons industry!” This duty came to fruition in his magnum opus the Deutsche Sinfonie (German Symphony). Eisler began work on the symphony during his exile period, the first two movements were scheduled to be performed in 1937 as part of the Paris World Exhibition. However, the Nazis persuaded the French government to cancel the performance. A slightly more developed version was scheduled to be performed in England in 1940, however, this was halted, somewhat ironically, due to anti-German sentiment among the English musical establishment. It would not be fully completed until 1958, shortly before its premiere.

Using lyric poetry from Brecht, Eisler created a sweeping cacophony of intermittent tales. They tell of the concentration camps — the original title was Concentration Camp Symphony — of the bloody hands of German soldiers raised in the Hitler salute, but also of the suffocating atmosphere of enforced conformity and denunciation which characterized life under fascism for ordinary Germans. In many respects, the symphony represents a socialist artist’s comment on the “German question” in the Nazi era but also, significantly, thereafter. Eisler gives a resounding answer that this question is, at its core, a question of class struggle. The penultimate and longest section entitled Worker’s Cantata is a stirring reworking of Brecht’s Lied vom Klassenfeind (The Class Enemy Song). It tells a moving story of a worker grappling with the class system around them from childhood onwards, through war, hunger, and poverty. The repeated motif of rain falling from above to below serves to illustrate the upper class’s inherent need to exploit the classes below, for example:

Rain can’t suddenly fall up
because it is benevolently inclined,
but what it can do is: it can stop
once the sun comes out and shines.

The metaphorical sun is an end to the capitalist class system; that is, socialism.

With this emphasis on the class nature of any nation, and therefore the disparities of power, of influence, and of the ability to forge the ideology of that nation, Eisler sought to point an accusing finger at the German capitalist class which had handed power to Hitler in order to brutally crush the latent social revolution. This is again highlighted in the epilogue of the symphony, which repeats:

Look at our children, stunned and besmeared in blood!
Freed from a frozen Panzer they come:
Even the Wolf who licks his lips needs
a place to hide! Warm them, they are numb.

Eisler did not wish to excuse the crimes committed by German soldiers in the name of the German nation — far from it. But as a consistent Marxist he wanted his audience to understand that these crimes had ultimately stemmed from a dialectic of material events and relations that emanated from capitalist class society — a lesson many writers on the subject of fascism appear to have forgotten. Eisler’s magnum opus is ultimately a powerful call for recognition of Germans’ culpability but also their resistance; a call for the rehabilitation of those led astray and for an end to the socioeconomic structures that ingrain division, competition, and ultimately war.

Two events in 1956 had a profound effect on Eisler. Firstly, in February, Khruschev’s so-called “Secret Speech” attacked the deceased Soviet leader Joseph Stalin. It shattered the positive image of Stalin and thus of the entire Soviet-influenced socialist project. The repercussions of the speech are still felt in debates surrounding communism today. Secondly, in August his best friend and collaborator Brecht died aged fifty-eight. Following this, Eisler fell into a deep depression and began to drink heavily. However, this blue funk was short-lived. He dedicated himself to continuing the work of his dear departed friend, setting numerous of Brecht’s words to music, notably Kriegsfibel (War Primer) and Schwejk im zweiten Weltkrieg (Schweik in World War II), a powerful reworking of Czechoslavakian author Jaroslav Hašek’s celebrated World War I novel The Good Soldier Švejk. In 1958 he received the National Prize of the GDR for his combined efforts.

Eisler would never have been happy with superficial simplifications such as the concept of “Stalinism” or “anti-Stalinism.” He instead sought to get to grips with the fluid development of socialism; to understand it dialectically and contextualize the birth pangs of a revolution surrounded by hostile enemies and to do so without moralizing judgements. He sought to envisage the trajectory of a socialist society truly unencumbered by imperialist encirclement, hot or cold war; a society that had traversed the vestigial class divisions and resentments that were clearly still present in the early postwar socialist states. This can be seen from his final major work Ernste Gesänge (Serious Songs) in which he comes to terms with the history of socialism, warts and all, but communicates the importance of learning from the tradition and past of socialism in order to build the “scarcely imagined joy: life without fear.”

Hanns Eisler would not live to see his hopes fulfilled. He died on September 6, 1962. He was given a full state funeral by the GDR, which set up an award to honor his legacy: the Hanns Eisler Music Prize has been awarded since 1968 for outstanding compositions. The Hanns Eisler College of Music in Berlin still bears his name today. There are a great many things we can learn from a life like Eisler’s but perhaps the most poignant is captured in the words of Brecht, which Eisler himself set to music, “Change the world, it needs it!”

Sobre o autor


Alex Brown é um pesquisador de doutorado na Universidade de Birmingham (Reino Unido), especializado na história da oposição na RDA.

O que está em jogo no próximo dia 28

Candidatura de Bolsonaro não faz parte da rotineira alternância que caracteriza a democracia

André Singer


O candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) usa chapéu de cangaceiro durante coletiva de imprensa no Rio de Janeiro Mauro Pimentel. AFP

De modo geral, procuro utilizar o espaço que me foi facultado pela Folha para analisar o quadro político de maneira objetiva. Tenho posições, que não escondo, porém entendo ser meu papel mais o de procurar compreender e explicar.

Hoje, porém, dada a excepcionalidade das circunstâncias, peço licença para mudar de tom e tomar uma posição clara e incontornável.

O levantamento do Datafolha publicado nesta sexta (19) aponta para a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno.

A fulgurante onda que, em cerca de uma semana antes do primeiro escrutínio, deu ao candidato da extrema direita a inesperada condição de chegar ao poder, parece ter, por ora, se estabilizado.

Note-se, contudo, que bastaria, levando-se em conta o total de votos, mudar o sufrágio daqueles que decidiram digitar 17 na última hora, isto é, no dia da eleição, para reverter o resultado.

Conforme procurei mostrar na última coluna, a julgar pelos dados de pesquisa, cerca de 6,5 milhões de eleitores optaram pelo capitão reformado no próprio momento de votar. Até o sábado (6), ele tinha 40% dos votos válidos. Na noite seguinte, apareceu com 46%.

A análise do que levou tantos brasileiros à estranha decisão de arriscar um radical de direita levará tempo.

Qual foi a influência dos ilegais pacotes de WhatsApp comprados por empresas para favorecer o deputado (18/10)? O quanto possíveis mudanças sociológicas profundas, como um eventual “aburguesamento de valores”, assinalado por Mauro Paulino e Alessandro Janoni (19/10), estariam em curso?

Perguntas difíceis, cujas respostas devem ser imbricadas e complementares, implicam longa elaboração. No curto prazo, deve-se esclarecer o eleitorado sobre o risco que corre.

É mister mostrar que a candidatura de Bolsonaro não faz parte da rotineira alternância que caracteriza a democracia moderna. Conforme Steven Levitsky, coautor do recente livro “Como as Democracias Morrem”, um postulante que elogia a ditadura, aprova a tortura, encoraja execuções extrajudiciais, nega a legitimidade dos seus oponentes e promete tratar movimentos sociais como terroristas é “autoritário” (31/8).

Em outras palavras, Levitsky, da Universidade Harvard e palestrante na Fundação Fernando Henrique Cardoso, diz que Bolsonaro ameaça a continuidade da democracia.

Não acredito que a maioria dos brasileiros seja a favor da ditadura. Segundo o Datafolha (5/10), apenas 12% concordam que uma ditadura seria, em certas circunstâncias, melhor do que a democracia. Trata-se, portanto, de uma obrigação de quem opina avisar os outros 88% sobre o que estará em jogo no domingo 28 de outubro de 2018.

Sobre o autor


Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

18 de outubro de 2018

Os apoiadores mais perigosos de Bolsonaro

Veículos do establishment como "The Economist" insistem em afirmar que as forças armadas brasileiras são uma influência moderadora no candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro. Mas é justamente o contrário

Aldo Cordeiro Sauda e Benjamin Fogel


O exército brasileiro em 2011. Exercito Brasileiro / Flickr

Tradução / O primeiro turno das eleições no Brasil terminou com o candidato neofascista Jair Bolsonaro a apenas quatro pontos da vitória. Entre Bolsonaro e a vitória, no entanto, está o candidato do Partido dos Trabalhadores Fernando Haddad. Ele tem menos de duas semanas para deter Bolsonaro, depois de ficar em segundo, com apenas 29% dos votos. Além disso, o PSL, partido de Bolsonaro, saiu da irrelevância política para se tornar o segundo maior partido do Brasil da noite para o dia. Não é exagero dizer que é a democracia brasileira que está em jogo.

Mesmo que Haddad vença, no clima polarizado da política brasileira ainda poderia haver um duro golpe militar para completar o golpe suave do Congresso que derrubou Dilma Rousseff em 2016. Bolsonaro tem o apoio de setores significativos das Forças Armadas, hostis ao PT.

Estes setores, junto com outros setores da direita brasileira, afirmam que o PT está tentando fazer uma “revolução silenciosa” com o objetivo de transformar o Brasil em uma ditadura comunista. Para entender tanto a ascensão de Bolsonaro quanto o perigo que ele representa para a democracia, é vital analisar a facção antipetista das forças armadas.

O companheiro de chapa de Bolsonaro, general Antônio Hamilton Mourão, foi um dos principais rostos da oposição das Forças Armadas à Comissão da Verdade, implementada por Dilma Rousseff com a missão de esclarecer os crimes cometidos pelos militares durante a ditadura de 1964-1985.

Comissão da Verdade


Embora as forças armadas tenham sido mais ou menos hostis ao PT desde sua fundação, a explosão de um sentimento anti-PT mais virulento e mobilizado pode ser identificado na criação da Comissão da Verdade do Brasil, em 2012. A comissão foi cuidadosamente construída pelo PT como um espaço claramente não partidário, liderado principalmente por figuras do poder judiciário e não da sociedade civil. A palavra "justiça" foi evitada, para não assustar os generais.

Foi apoiada por partidos da oposição - incluindo os ex-presidentes conservadores José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde apoiariam o impeachment de Dilma. No entanto, ainda há poucas análises da esquerda sobre as divisões políticas dentro das Forças Armadas, e suas influências na política brasileira. Veículos como o The Economist continuam a manter ilusões de que os militares não desejam tomar o poder e seriam uma força moderadora em um futuro governo de Bolsonaro.

Trata-se de um grave equívoco. As Forças Armadas brasileiras não representam apenas uma ameaça à democracia brasileira; elas são justamente a morada de uma das mais poderosas facções de extrema-direita por trás da ascensão de Bolsonaro ao poder.

O PT e as Forças Armadas


Há um persistente ódio a Lula e ao PT entre os altos escalões militares. Uma facção interna conspira abertamente para manter, por todos os meios possíveis, qualquer governo de esquerda longe do poder. Esta mesma facção teria um papel importante em um futuro governo de Bolsonaro. Essa oposição se ressente do governo de Lula embora este tenha aumentado fortemente os gastos militares e ampliado sua atuação no exterior.

A estratégia apaziguadora de Lula, que espelhava a postura do PT em relação à mídia plutocrática e ao grande capital no Brasil, fracassou. Oficiais tanto da ativa como da reserva - muitos dos quais hoje figuras de destaque na campanha de Bolsonaro - se posicionaram publicamente contra a comissão e negaram ter havido tortura sob o regime militar. Ao mesmo tempo, como a comissão não teve poder de punição, acabou fortalecendo e reunindo as redes antipetistas das Forças Armadas.

A ditadura militar brasileira, ao contrário da argentina, não deixou o poder após uma derrota política. Em vez disso, enfrentando uma crescente oposição política, escândalos de corrupção e uma crise econômica em meados da década de 1980, as forças da ditadura lideraram, elas próprias, uma cuidadosa transição para a democracia. Isso garantiu que seus aliados se mantivessem bem posicionados no novo sistema político e que a Constituição os poupasse de punições aos crimes brutais cometidos durante a ditadura.

Assim, até hoje, as Forças Armadas mantiveram certa reputação. Primeiro, como um ator independente que só intervém na política para proteger os interesses nacionais. Além disso, para parte da população, a ditadura é lembrada como uma era de ouro, sem crime e corrupção, em que os valores familiares eram respeitados e todos tinham empregos.

Vários oficiais militares de alto escalão, como o general Sérgio Etchegoyen ou o general Joaquim Luna e Silva, já ocupam cargos ministeriais no atual governo de Michel Temer. Os generais têm usado seu crescente espaço na mídia, especialmente no maior grupo de mídia do Brasil, a Globo, para expressar sentimentos preocupantemente antidemocráticos.

O general Luiz Rocha Paiva, por exemplo, clamou abertamente por um golpe na Globonews, para conter a “revolução silenciosa” do PT. Em uma perturbadora demonstração de paranoia, o general falou sobre os perigos de uma vitória eleitoral do PT, que transformaria o Brasil num país comunista.

Mourão - que foi destituído de seu posto de chefe do Comando Militar do Sul por confrontar Dilma Rousseff abertamente sobre o trabalho da Comissão da Verdade - participou de um episódio bizarro durante o impeachment de 2016, quando apareceu em um clipe do Youtube feito por uma Loja Maçônica em Brasília anunciando sua disposição de apoiar uma intervenção militar para “manter a estabilidade”.

Mas o grau de oposição ao PT dentro do Exército só se tornou claro este ano. Por exemplo, um dia antes de o Superior Tribunal Federal abrir caminho para a prisão de Lula, o chefe do Exército, general Villas Boas, usou o Twitter para pressionar publicamente o judiciário a prender o ex-presidente.

Após seus tuítes, quase todo o alto comando militar do Brasil usou as redes sociais para celebrar a derrota do PT. Foram criticados apenas timidamente por um juiz solitário do STF. Mas a questão voltou às manchetes durante a campanha eleitoral, com os três candidatos de esquerda - Fernando Haddad, Ciro Gomes do PDT e Guilherme Boulos do PSOL - denunciando as intromissões militares em assuntos civis.

A Lava Jato e as Forças Armadas


A extrema direita também parece ter relações mais próximas com a operação Lava Jato do que muitos imaginavam. Durante a campanha do primeiro turno das eleições, o juiz Sérgio Moro, o homem que mandou Lula para a prisão, divulgou um depoimento potencialmente prejudicial de um ex-aliado próximo de Lula, obtido há meses, um movimento claramente planejado para causar o máximo de danos à candidatura do PT.

Bolsonaro falou abertamente sobre nomear Moro ao STF e alguns dos principais juízes da Lava Jato, como Marcelo Bretas, chegaram a endossar Bolsonaro abertamente. Bolsonaro provavelmente fortalecerá a Lava Jato se eleito e usará a operação para criminalizar a esquerda.

Thompson Flores, chefe do Tribunal Federal de Recursos do Sul responsável pela supervisão da operação Lava-Jato, foi convidado pelo General Mourão para dar uma palestra no Clube Militar do Rio de Janeiro. O convite aconteceu logo depois de Flores ganhar manchetes por ignorar a lei e bloquear pessoalmente uma ordem - emitida por um juiz dissidente do tribunal comandado por Flores - para libertar Lula. Mourão e Flores afirmaram em uma coletiva de imprensa que o encontro não tinha nada a ver com a prisão de Lula, mas se devia a uma amizade de longa data.

Atualmente presidido por Mourão, o Clube Militar foi um dos centros da conspiração que golpeou a democracia brasileira em 1964. Em 2014, um dia depois de a Comissão da Verdade publicar seu relatório, o clube publicou um anúncio no principal jornal do Rio de Janeiro defendendo a ditadura militar.

Haiti


Mourão e o general Augusto Heleno eram os principais comandantes militares do Brasil na desastrosa intervenção no Haiti. Segundo observadores internacionais e organizações de direitos humanos, eles são responsáveis pelo massacre de dezenas de civis nas favelas de Porto Príncipe em 2006. Agora, estão próximos do mais alto cargo político do Brasil.

O Haiti foi lançado no caos pelos estados ocidentais em 2004, após os Estados Unidos, o Canadá e a França apoiarem a derrubada do governo levemente social-democrata de Jean Bertrand Aristide. Depois de perder o campo para uma rebelião organizada a partir da vizinha República Dominicana, Aristide foi forçado por fuzileiros navais americanos a embarcar em um avião em 29 de fevereiro. Eles tomaram o aeroporto internacional de Porto Príncipe e enviaram Aristide para a República Centro-Africana contra sua vontade. Mais tarde, ele se exilou na África do Sul.

Em vez de oferecer solidariedade ao líder deposto, o governo de esquerda do Brasil apoiou o golpe contra o governo popularmente eleito do Haiti. O governo do PT se ofereceu para ocupar o Haiti. Foram movidos, em parte, pela ilusão de que o envolvimento militar brasileiro em missões de manutenção da paz das Nações Unidas garantiria ao país um assento no Conselho de Segurança. Os resultados foram desastrosos para as democracias tanto do Haiti quanto do Brasil.

Heleno foi recebido com hostilidade imediata pelos haitianos após assumir o comando das operações militares na ilha, em meados de 2004. Apoiadores de Aristide, baseados nas periferias de Cité Soleil e Belair, entraram em confronto com os capacetes azuis da ONU na capital, Porto Príncipe. A maior favela do país, Cité Soleil, também era a principal base de Aristide e de seu partido, Fanmi Lavalas. Em uma tentativa de eliminar a oposição à intervenção, em 5 de julho Heleno ordenou a execução do líder da comunidade pró-Aristide da favela, Emmanuel “Dread” Wilme. Dezenas de pessoas, a maioria mulheres e crianças, foram mortas na operação.

Imagens do massacre, reunidas por observadores de direitos humanos do Conselho de Trabalho de San Francisco, que foram ao ar mais tarde no Democracy Now!, mostraram cenas horríveis de haitianos mortos sob o comando de Heleno. De acordo com Seth Donnelly, que esteve na Cité Soleil no dia seguinte e testemunhou o funeral de Dread Wilme, a comunidade, traumatizada, compareceu em massa.

“Vimos casas - e quando dizemos casas, estamos falando basicamente barracos de madeira e lata - em muitos casos, crivadas de marcas de balas de metralhadora, e marcas de explosões causadas por tanques", disse Donnelly. “Os buracos em muitas dessas casas eram grandes demais para serem balas. Pareciam cartuchos de tanque que penetraram nas casas. Vimos uma igreja e uma escola crivadas por marcas das metralhadoras ”.

O massacre estava perfeitamente alinhado ao discurso político brasileiro de lei e ordem. Perguntado sobre o ataque, o General Heleno, conta Donnelly, “inicialmente desafiou a nossa delegação, perguntando por que estávamos preocupados com os direitos dos 'fora-da-lei', termo usado por ele, e não com a 'força legal'. Queria esvaziar os testemunhos da comunidade, tratando-os como mero reflexo da hostilidade local, como se as críticas fossem parte dos 'ataques de gangues' contra as forças da ONU”.

As estimativas apontam que pelo menos 27 haitianos foram mortos no ataque, a maioria mulheres jovens. A resposta de Heleno reflete a visão da direita brasileira, que defende massacres nas periferias como uma política de segurança legítima, em que “bandido bom é bandido morto”.

Sob pressão do movimento de solidariedade ao Haiti nos Estados Unidos, uma mudança na liderança da MINUSTAH no final do mesmo mês levou à saída do General Heleno. Após uma sinistra sucessão de eventos, seu sucessor, o General Urano Bacelar, foi encontrado morto três meses depois de substituir o atual conselheiro de Bolsonaro em Porto Príncipe. Embora o exército brasileiro tenha descrito a morte como “suicídio” e evitado uma investigação oficial, o Wikileaks revelou a existência de ceticismo em relação a esta hipótese, ligando a morte a possíveis conflitos envolvendo a ONU.

A presença do Brasil na ilha também foi parcialmente responsável por espalhar uma epidemia de cólera que matou 30 mil pessoas. Além disso, houve mais de duas mil acusações de estupro contra soldados brasileiros. Racista na essência, a operação foi aplaudida na mídia como uma oportunidade para o exército brasileiro praticar futuras ocupações nas favelas do Rio, com haitianos negros servindo de cobaias. De todos os erros do PT que fortaleceram traços antidemocráticos na sociedade brasileira, o Haiti foi um dos mais desastrosos.

O que está em jogo


É a democracia no Brasil que está em risco. A candidatura de Bolsonaro, se vitoriosa, resultará provavelmente em derramamento de sangue, violência generalizada contra a esquerda e destruição do que resta dos direitos dos trabalhadores.

Bolsonaro e seus aliados nas Forças Armadas são abertamente hostis à democracia. Esta nefasta coalizão concluiu que é impossível governar o Brasil democraticamente e só uma solução autoritária, com base em uma nova Constituição, será capaz de devolver o país à estabilidade.

Bolsonaro manipula a raiva popular contra o sistema político do Brasil e uma classe política corrupta e a canaliza contra a própria democracia. Esse sentimento antidemocrático se cristalizou como oposição ao PT, embora um dos grande erros do PT no governo tenha sido justamente sua incapacidade de conter o poder dos militares.

A resposta de Bolsonaro à crise social e de segurança no Brasil é a violência. Como Duterte, nas Filipinas, ou Sisi, no Egito, ele promove uma política que pode ser resumida no enfrentamento da crise a tiros. Em um país onde massacre causado pela polícia já é corriqueiro, Bolsonaro, se eleito, e seus amigos nas Forças Armadas podem desencadear um massacre histórico, cujas vítimas não serão apenas jovens negros pobres nos favelas. Incluirá também aqueles que lutam pela terra, sindicatos, socialistas e a comunidade LGBT. O assassinato de Marielle Franco serve de exemplo deste futuro digno dos piores pesadelos.

Sobre os autores


Aldo Cordeiro Sauda é jornalista e ativista do PSOL, cobriu a Primavera Árabe para os jornais O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, e é hoje mestrando em Ciência Política na Universidade de Campinas (UNICAMP)

Benjamin Fogel faz doutorado em História na New York University e é editor colaborador da Jacobin Magazine e do site de notícias Africa is a Country.

17 de outubro de 2018

A revolução conservadora de Bolsonaro

O principal apoio de Jair Bolsonaro está nos brasileiros ricos. Mas a figura da extrema direita não teria chegado tão longe se ele também não tivesse estabelecido uma base formidável entre os pobres.

Matthew Aaron Richmond

Jacobin

Apoiadores de Jair Bolsonaro em 30 de setembro de 2018 em Porto Alegre, Brasil. Jacobin / Flickr

Tradução / É Dia de Eleição na periferia de Santo André, um município da região industrial do ABC, na Grande São Paulo. Um homem com seus cinquenta anos vende caldo de cana, de sua van. Enquanto ele empurra a cana através do triturador, dois homens aproximadamente da mesma idade, sentados em cadeiras brancas de plástico, conversam com entusiasmo. O tópico é o mesmo que está na boca de todos neste dia.

“Eu não gosto do Bolsonaro, mas pelo menos ele vai dar uma surra nos bandidos”, diz um dos homens. “E dar um fim ao Bolsa Família”, lança o outro, referindo-se ao famoso programa de transferência monetária condicionada do Brasil. “Eles não querem trabalhar, e se você tira o dinheiro eles apenas saem e roubam”. O primeiro homem aponta seus dedos como se segurasse um par de revólveres, um gesto popularizado pelo presidenciável favorito da extrema-direita, Jair Bolsonaro, cuja plataforma extrema de lei e ordem pode ser descrita com precisão como exterminadora. Seu amigo imita o ato. Todos os três homens riem. Ainda gargalhando, o vendedor de bebidas entrega meu caldo de cana e o troco: “Obrigado, tenha um bom dia!”

Naquela noite, enquanto chegavam os resultados, ficava claro que o Partido Social Liberal (PSL), de Bolsonaro, havia sido o grande vencedor. O próprio Bolsonaro conquistou 46% dos votos, comparado a 29% para o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad. Foi uma vitória esmagadora, mas não com a maioria absoluta que ele precisava a fim de evitar um segundo turno, que ocorrerá em 28 de outubro.

Enquanto isso, seu partido—no qual ele se filiou há seis meses e que previamente tinha apenas uma cadeira no Congresso—cresceu a ponto de se tornar o segundo maior partido, com 52 representantes na Câmara dos Deputados, apenas atrás dos 56 do PT. Com ganhos para uma safra de outros partidos conservadores simpáticos à agenda de Bolsonaro, ele parece estar bem colocado o suficiente para conseguir passar a maior parte de seu programa legislativo. Candidatos da direita alinhados, ou pelo menos flertando com Bolsonaro, aparentemente serão eleitos para governadores em diversos estados, incluindo os três mais populosos do país—São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Apesar de machucado, o PT sobreviveu, com seus votos permanecendo especialmente entre os mais pobres das regiões Norte e Nordeste. Juntamente com outros partidos de esquerda e centro-esquerda, eles reunirão cerca de um quinto das cadeiras no Congresso. De fato, o PT de alguma forma melhorou em relação a performance desastrosa nas eleições municipais de 2016, que se seguiram pouco depois do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Em contraste, os tradicionais partidos de direita, o Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), foram dizimados, reduzidos ao segundo escalão de partidos medianos. Estes foram os dois partidos mais instrumentais no impeachment de Rousseff, mas posteriormente se envolveram em seus próprios escândalos de corrupção e foram contaminados pela imensa impopularidade do governo sucessor de Michel Temer.

Para resumir, a esquerda está atrás e a direita tradicional colapsou, sendo substituída por um novo, antidemocrático, polo da extrema-direita que orbita ao redor de Bolsonaro. A política brasileira foi virada do avesso.

Uma nova coalizão que atravessa classes
As razões para essa onda reacionária são diversas. Como foi possível notar em outros lugares, desde a vitória estreita do PT contra o PSDB em 2014 tem havido uma radicalização predominantemente entre as classes média a alta em direção a soluções autoritárias. Esta era a parte da população que dominava os protestos nas ruas clamando pelo impeachment de Dilma em 2016, mas que se desiludiu com a direita tradicional. Nem todos têm preferências autoritárias, obviamente, e muitos prefeririam que o PSDB continuasse a representar uma opção viável. Muitos não gostam de Bolsonaro, mas seu antipetismo virulento os leva em direção a enxergarem o candidato como um mal menor.

Mesmo que o apoio deste grupo a Bolsonaro seja primariamente ideológico ou tático, essa população gravita ao redor de um conjunto de atitudes que caem amplamente sob a bandeira da “Nova Direita“— uma corrente que emergiu no Brasil em meados dos anos 2000 em reação ao PT. O discurso da direita se alternava desde posições tradicionalmente elitistas e autoritárias a uma ênfase à “meritocracia”.

A oposição a programas de bem-estar como o Bolsa Família e ações afirmativas em universidades públicas se tornaram gritos de guerra chave. Apesar da retórica, contudo, essas atitudes, em seu âmago, foram motivadas por sentimentos profundamente antidemocráticos—um desejo de bloquear o acesso dos pobres ascendentes, frequentemente “não brancos”, aos espaços da elite. (Um exemplo infame disso foi a reclamação da colunista Danuza Leão de que não tinha mais graça viajar para o exterior, agora que ela poderia esbarrar com seu porteiro em Nova York).

A divisão demográfica das intenções de voto no primeiro turno, reveladas pelas pesquisas do Datafolha alguns dias antes das eleições, mostrava que 51% dos eleitores que recebem entre cinco e dez salários mínimos (R$4.685 e R$9.370 por mês) e 44% daqueles que recebem mais de dez salários mínimos (R$9.370) planejavam votar em Bolsonaro, comparado a 12% e 15%, respectivamente, em Haddad. Enquanto isso, 42% daqueles que se autodefinem como brancos planejavam votar em Bolsonaro, comparado a 15% em Haddad. (Dito isto, a relação entre raça e classe no Brasil é complexa e deve ser tratada com cuidado. Enquanto as classes média e alta são predominantemente brancas, os brancos não são, em sua maioria, bem de vida. Além disso, a autoclassificação por raça varia de maneira significante de acordo com o nível de salário e com a região do país.)

Contudo, a crescente radicalização e o autoritarismo das tradicionais classes média e alta do Brasil são insuficientes para explicar a “onda Bolsonaro”. Afinal, como o PSDB descobriu depois de quatro perdas eleitorais para o PT entre 2002 e 2014, esse grupo perfaz um pouco mais de um quarto da população e é insuficiente para garantir a vitória da presidência.

Na verdade, a vitória de Bolsonaro representa a construção de uma nova coalizão eleitoral que apresenta mais apelo entre diversas classes do que o PSDB conseguiu atingir desde o fim dos anos 1990. Os mesmos dados de pesquisa revelaram que, entre eleitores que recebem de dois a cinco salários mínimos (R$1.874-R$4.685), 39% planejavam votar em Bolsonaro, comparado a 18% em Haddad. Mesmo entre aqueles que recebem menos de dois salários mínimos (R$1.874), 21% favoreceram Bolsonaro em comparação a 28% que prefere Haddad. Os dados sobre raça contam uma história similar. Entre aqueles que se autodefinem como “pardos”, 30% preferiram Bolsonaro, comparados a 23% referente a Haddad, enquanto entre “pretos” (negros), os números foram de 18% contra 23%.

O motivo pelo qual brasileiros ricos e brancos se deslocaram da direita tradicional para a extrema é relativamente claro. Uma questão mais interessante, e importante, é a de por que um número significativo de brasileiros com rendas mais baixas e não brancos estão agora expressando apoio a Bolsonaro. Como Bolsonaro conseguiu reunir as elites desejantes do bloqueio à mobilidade social das classes populares, e uma proporção significativa justamente daqueles que essa elite tenta bloquear, na mesma coalizão eleitoral? E por quanto tempo isso pode durar?

Entendendo o “bolsonarismo popular”
Como ocorre com qualquer tendência envolvendo grandes números de pessoas, não ha uma explicação única para o “bolsonarismo popular”—ou seja, o apelo de Bolsonaro para pessoas de baixa renda. Alguns, graças aos ataques implacáveis da mídia contra o PT, desenvolveram atitudes antipetistas similares àquelas das elites, reclamando sobre tudo, da corrupção do PT aos altos impostos, até a injustiça das cotas raciais em universidades. Contudo, pela minha experiência, estas atitudes são relativamente raras.

Eu não vejo uma grande onda de “liberalismo popular” [“liberal”, no contexto brasileiro, referindo-se a uma atitude mais conservadora e amigável em relação ao mercado] nas periferias, ao contrário das reivindicações de um controverso relatório publicado após a derrota do PT nas eleições municipais de 2016. A propaganda boca-a-boca que muitas pessoas de baixa renda podem fazer para a meritocracia e a autossuficiência é ultrapassada pelo desejo por melhores serviços públicos e pela indignação em relação aos privilégios da elite. Se você passar da superfície, verá que a maioria deseja mais igualdade e que os ricos paguem mais para que isso aconteça.

Outros optaram por Bolsonaro por motivos religiosos. Igrejas neopentecostais cresceram imensamente nos últimos anos, particularmente nas periferias urbanas pobres. Em eleições recentes, essas igrejas alavancaram sua influência entre os congregantes para alcançar números crescentes de deputados conservadores eleitos para o congresso, inchando a bancada evangélica e dando poder a sua agenda política altamente reacionária.

Até este momento, o movimento não havia exercido um impacto perceptível sobre a presidência, porque os votos presidenciais são menos sujeitos à influência clientelista e também porque um grande conservador assumidamente religioso não havia, até então, contestado a presidência. Nesse sentido, Bolsonaro—ele mesmo um evangélico que se opõe de forma virulenta aos direitos de mulheres e LGBTs—representa a “saída do armário” desse crescente e silencioso movimento. O fato de que muitos católicos apoiam Bolsonaro por razões semelhantes, enquanto isso, sugere que ele representa uma faixa mais ampla, em vez de uma estreita corrente sectária, de opiniões religiosas conservadoras.

É verdade que igrejas neopentecostais têm crescido precipitadamente entre os pobres e têm construído uma máquina clientelista poderosa. Também é verdade que a agenda de Bolsonaro serve a um conservadorismo popular mais amplo entre grupos de baixa renda. Como mostrado em uma pesquisa Datafolha no ano passado sobre atitudes sociais dos brasileiros, os mais pobres têm mais tendência a acreditar que aqueles que creem em Deus são pessoas melhores, que o aborto é um crime que deve ser punido, e que as drogas devem ser proibidas. Eles respondem bem à afirmação de Bolsonaro de estar resistindo à “desconstrução da heteronormatividade” e a propostas de internação forçada de viciados em drogas.

Contudo, isso não significa que o apoio a Bolsonaro represente um conservadorismo doutrinário religioso entre os pobres. Enquanto alguns auto-identificados como evangélicos absorvem inteiramente a doutrina, a maioria não o faz. De fato, essas igrejas lutam para controlar seus membros que se movimentam entre diferentes denominações e misturam diferentes crenças espirituais. Até enquanto as igrejas evangélicas crescem massivamente, o sincretismo brasileiro permanece vivo.

Além disso, uma atitude “viva e deixe viver” ainda tende a reinar entre os pobres em relação à maioria das questões. Enquanto muitos brasileiros de baixa renda pensam em termos de papéis de gênero tradicionais e estão desconfortáveis a ideia do casamento entre pessoas do mesmo gênero, a maioria acredita que a homossexualidade deve ser aceita pela sociedade e que as mulheres deveriam poder se vestir da maneira como quisessem sem ter de temer o estupro. Pelo menos podemos afirmar que uma campanha centrada em questões de gênero e sexualidade não iria, por si só, persuadir grandes números a votarem na extrema-direita.

Então o que iria? Eu colocaria duas razões principais. A primeira é um simples efeito de encargo em um momento de crise severa. O PT esteve no poder por treze anos e, assim, acertada ou erroneamente, foram os primeiros a serem culpados quando a economia e os escândalos de corrupção massiva detonaram simultaneamente. O MDB, com o suporte do PSDB, assumiu o poder por dois anos e as coisas não melhoraram, então ele também se tornou contaminado pelas crises.

Contudo, é preciso observar que, entre os pobres, a insatisfação com esses partidos principais tinha uma lógica bem diferente da raiva altamente partidária dos antipetistas ricos. A maioria dos eleitores mais pobres nunca acreditou que o PT fosse mais corrupto ou incompetente do que outros partidos e, apesar de não terem se oposto ativamente a ele, não ficaram especialmente entusiasmados pelo impeachment de Dilma. Seu cinismo foi logo justificado pelo desastre absoluto do governo de Temer.

Essas atitudes revelam a resignação difundida entre os pobres em relação a políticos em geral, de quem eles aprenderam a esperar pouco. No entanto, muitos também expressam um apoio residual ao PT e especialmente a Lula, que permaneceu como o presidente que tirou muitos da pobreza e colocou jovens nas universidades. Claro que também há um desapontamento amplo com o partido, não apenas por falhar em manter o progresso quando a crise chegou, mas também por sua falha a longo prazo em melhorar serviços públicos centrais, como saúde e educação.

Contudo, poucas pessoas pobres enxergaram a direita tradicional como oferecedora de uma alternativa significativa. Eu diria que sua raiva em relação à crise econômica e aos escândalos de corrupção são motivadas fundamentalmente por um desejo por maior redistribuição, enquanto a elite incorpora indignação acerca da pouca redistribuição que já ocorria sob o governo do PT. De qualquer forma, com os principais partidos todos implicados em crises, ambos os grupos se tornaram receptivos a qualquer candidato que fosse suficientemente distante dos governantes em questão para se parecer como alguém de fora e que tivesse tanta raiva quanto eles mesmos tinham.

Mas de todos os autointitulados “outsiders” que foram elogiados como possíveis salvadores da pátria nos últimos dos anos—incluindo empresários libertários, juízes em cruzadas, pastores fundamentalistas, celebridades e ex-jogadores de futebol—por que foi Bolsonaro quem foi capaz de capitalizar o título? Isso me leva ao segundo direcionador chave do Bolsonarismo popular, o qual acredito ser decisivo.

Diferentemente de candidatos que estão preocupados, em primeiro lugar, com questões que, para a maioria dos pobres, são preocupações secundárias (se não amplamente irrelevantes), como educação sexual, o livre mercado ou os pormenores de investigações sobre corrupção, a campanha de Bolsonaro é retoricamente centralizada em um problema que é uma prioridade genuína para aqueles que vivem nas favelas e nas periferias de cidades de grande e médio porte ao redor do país: a segurança.

Nacionalmente, os níveis de crimes violentos têm aumentado constantemente por anos a fio. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, a despeito de picos recentes, a tendência a longo prazo tem sido de queda na violência. No entanto, isso se deve, em grande parte, à consolidação do controle territorial por facções criminosas. Em muitas outras cidades, a violência explodiu. O Estado tem sido incapaz de tratar do problema.

A pacificação das favelas no Rio, inicialmente, foi popular e bem-sucedida em reduzir a violência na cidade, mas se provou muito cara para ser sustentável, principalmente quando o estado faliu. Uma política de encarceramento em massa em São Paulo apenas fortaleceu e expandiu o alcance da poderosa facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) a partir das prisões estaduais. Em outros lugares, a polícia parece ser incapaz de prevenir atividades criminosas de grupos armados, sendo com frequência exposta como cúmplice destes.

Enquanto isso, atores criminosos de baixo nível e aqueles confundidos com estes criminosos (adolescentes negros e pardos, em sua esmagadora maioria) morrem em números extraordinariamente altos. Com a polícia incapaz de prevenir a criminalidade cotidiana dentro dos limites legais, policiais fora de serviço e milícias vigilantes locais crescentemente buscam por vingança fora da lei.

A verdade desconfortável é que uma guerra paramilitar oculta e difusa contra criminosos proletários já é uma realidade no Brasil. O que é ainda mais desconfortável é que essa guerra é apoiada por um grande número de moradores de favelas e periferias. Enquanto partidos da esquerda e da direita tradicional condenam publicamente tais atos, Bolsonaro os defende. De fato, ao afrouxar meios de controle de armas de fogo e remover restrições legais à violência policial, ele deseja tornar essa guerra, que era secreta, agora em guerra oficial e intensificá-la. Muitos nas periferias de cidades como Santo André não gostam de Bolsonaro, mas acreditam que “pelo menos ele vai dar uma surra nos bandidos”.

Das cinzas
A onda Bolsonaro é um momento dramático na política brasileira, mas que vem se construindo a partir de diferentes direções por algum tempo. Tem havido uma radicalização das classes média e alta reacionárias, determinadas a destruir o PT e seu projeto de redistribuição moderada por quaisquer meios necessários. Tem havido o crescimento gradual e silencioso do conservadorismo religioso radical, amplificado pela influência desproporcional da bancada evangélica no Congresso quando comparada às suas raízes menos firmes na sociedade.

E há o crescimento do populismo penal, que se encontra difundido através de todo o espectro social, mas que constitui um elemento particularmente significativo do apelo de Bolsonaro entre as classes populares. Bolsonaro reúne essas tendências diferentes de um modo que a direita tradicional nunca foi capaz de fazer. Derrotar essa onda depende da identificação dos contornos dessa nova coalizão eleitoral e da exploração de suas contradições.

A mais óbvia delas é que os eleitores de Bolsonaro que são parte da elite querem voltar no tempo para a era pré-PT, quando não tinham de compartilhar universidades e aeroportos com aqueles que eles ainda acreditam ser seus inferiores. Eles desejam diminuição de impostos para eles mesmos e querem ver a previdência social e os serviços públicos (que eles não usam mesmo) estripados. Em todas essas frentes, os apoiadores de Bolsonaro de baixa renda querem justamente o oposto.

O provável ministro da fazenda em um eventual governo de Bolsonaro, Paulo Guedes, discípulo da Universidade de Chicago, irá pressionar para dar aos bolsonaristas da elite tudo aquilo que querem. É essencial que isso seja amplamente compreendido como o resultado pretendido de uma agenda econômica elitista. Até agora, Bolsonaro tem cultivado uma ambiguidade em relação a esse tema, dando margem à percepção de que ele pode ser um nacionalista amigo dos trabalhadores nos moldes de Getúlio Vargas. Em vez disso, ele precisa ser entendido mais como um antipopulista nos moldes de Augusto Pinochet.

Um segundo desafio, mais complicado, é encorajar a ruptura entre o fundamentalismo da bancada religiosa e dos líderes das igrejas, e a relativa moderação de seus membros. Isso será mais efetivo se partir de dentro das próprias igrejas. Essa atitude deveria ser enquadrada nos preceitos da tolerância e da não-violência—enfatizando o quanto Bolsonaro deixa de aderir aos princípios de sua própria fé.

Este é, claro, um difícil ato de equilíbrio para as forças de esquerda que querem aprofundar os direitos de mulheres e LGBTs. Não há um método mágico para resolver essas tensões, mas é essencial que as linhas do diálogo permaneçam abertas. Um ponto de partida seria simplesmente reconhecer que em favelas e periferias as igrejas evangélicas são eixos sociais, em que as pessoas fazem amizades e participam de atividades culturais, pelo menos tanto quanto são locais de adoração. Esse é o caso especialmente para mulheres negras e pardas pobres que, em geral, são privadas de espaços de socialização, muitas das quais podem também ser mães de jovens vitimados pela violência do tráfico e da polícia. Essas mulheres podem se tornar aliadas cruciais para resistir ao bolsonarismo, mas nós precisamos aceitar que elas o farão em seus próprios termos.

Um desafio final se relaciona à guerra aos crimes de baixo escalão que Bolsonaro pretende desencadear por todo o Brasil urbano. Conforme outros apontaram, é difícil acreditar que isso não irá produzir muita violência em um futuro próximo, direcionada de forma esmagadora contra homens pobres, de pele escura, das favelas e periferias. Isso não vai reduzir a criminalidade, obviamente, que é alimentada por lucrativos mercados ilegais coordenados por poderosas redes que operam através e além do território nacional.

Sabendo disso, a esquerda deveria continuar, sem remorsos, a focar em abordagens de redução da violência. No rastro da pacificação da favela e de outros experimentos malsucedidos com o “policiamento de proximidade”, não está claro nem mesmo com o que isso deva se parecer, e novas ideias precisam ser exploradas. Enquanto isso, a construção lenta em direção aos objetivos de longo prazo de desmilitarização da polícia, redução da desigualdade e investimento na educação e na juventude devem continuar.

Contudo, isso não irá satisfazer aqueles que desejam segurança agora. Talvez o melhor que a esquerda possa fazer no presente seja reconhecer que, para os pobres, isso representa mais do que uma mera sede de sangue. Preocupações quanto à insegurança são legítimas, mesmo que a crença em matar e aprisionar um número ainda maior de bandidos não seja. Será uma batalha penosa, que irá de encontro tanto ao senso comum quanto ao estado de espírito predominante vingativo. Mas os apoiadores de baixa renda de Bolsonaro precisam ser persuadidos de que as milícias policiais e os vigias, que eles acreditam poder oferecer maior “segurança”, apenas se tornarão, eles mesmos, bandidos.

Sobre o autor

Matthew Aaron Richmond é membro visitante do Latin America and Caribbean Centre da London School of Economics e pesquisador associado do Centro de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo. Ele escreve sobre desigualdade urbana, moradia, segurança e política, com foco nas favelas brasileiras e nas periferias urbanas.

Postagem em destaque

É este o começo do fim do racismo americano?

Donald Trump revelou as profundezas do preconceito do país - e inadvertidamente forçou um acerto de contas. Ibram X. Kendi The Atlantic...