4 de outubro de 2018

O efeito Bolsonaro

O que significa um simpatizante fascista de extrema direita ser um dos principais candidatos às eleições presidenciais no Brasil neste domingo?

Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco

Jacobin

Um vendedor ambulante vendendo bugigangas anti-Lula em um comício para Jair Bolsonaro em 30 de setembro de 2018. Jacobin / Flickr

Jair Bolsonaro é um nome inevitável na política brasileira hoje em dia. De fato, tem sido por alguns anos. Poucos dias antes do dia das eleições, em 7 de outubro, as pesquisas mais recentes indicam que Bolsonaro é agora o principal candidato na corrida presidencial, seguido por Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT).

A linguagem política de Bolsonaro é o ódio. Ele freqüentemente pede a aniquilação da esquerda. Poucos dias depois de falar em matar os partidários do PT com uma metralhadora em um comício de campanha, um homem o esfaqueou no estômago. À medida que a situação no Brasil aumenta, e a possibilidade de Bolsonaro se tornar presidente aumenta, é importante entender mais sobre o candidato da extrema-direita.

O "voto de protesto"

Jair Bolsonaro é um ex-oficial militar do pequeno Partido Social Liberal (PSL) e agora serve como deputado federal. Ele é um político de extrema direita que combina posições econômicas liberais com declarações inflamadas contra os direitos humanos. Ele é anticomunista e apologista do uso da tortura pela ditadura. Seu lema de segurança pública é “bandido bom é bandido morto”. Quando se trata de economia, ele se dirige ao economista neoliberal Paulo Guedes, a quem escolheu para comandar  a política econômica em um governo de Bolsonaro.

Embora o estereotipado eleitor de Bolsonaro seja sexista, racista e alinhado com a política de extrema-direita, nem sempre é esse o caso. Para muitos, votar em Bolsonaro significa uma renovação da esperança e da energia política. Alguns até chamam isso de "revolucionário" ou "voto de protesto". Nossa pesquisa mostra uma surpreendente diversidade de pessoas e ideologia entre sua base de eleitores.

Recentemente, estávamos discutindo política com um grupo de jovens em um restaurante na periferia empobrecida de Porto Alegre, no sul do Brasil. Dois garçons interromperam a conversa para declarar espontaneamente seu voto a Bolsonaro. Dois outros homens da mesa ao lado pularam na conversa para gritar com orgulho “eu também!” Em questão de segundos, outros estavam entrando na conversa, dizendo com entusiasmo que pela primeira vez poderiam apoiar a campanha de um candidato baseada na “fé”, “amor” e “esperança”, em vez de em troca de dinheiro ou empregos - uma prática padrão na política clientelista ainda predominante em muitas partes do Brasil.

Os eleitores americanos estão familiarizados com as razões que fazem os políticos como Bolsonaro um fenômeno. Como Donald Trump, ele emprega o ódio como mobilizador político e até mesmo incita a violência diretamente contra seus concorrentes políticos. Ele também, como Trump, é hábil em fingir ser um outsider anti-establishment.

No entanto, Bolsonaro não é de modo algum novo no cenário político. Ele é um congressista desde 1991, junto com seu irmão e filhos. Passou a maior parte de sua carreira política no Partido Progressista (PP), do qual o ex-governador de São Paulo Paulo Maluf é uma figura chave. Maluf é o arquétipo do político brasileiro corrupto, incorporando o famoso slogan “rouba mas faz”.

Apesar de sua história e associações, Bolsonaro tem sido amplamente visto como uma novidade nesta eleição, um candidato sinônimo de renovação e honestidade. Embora ele tenha acumulado privilégios políticos e tenha se aproveitado deles, ainda não há escândalos significativos de corrupção pairando sobre ele. Sua formação militar e a promessa de disciplina e ordem são atraentes em meio ao clima político caótico. E depois do golpe suave que tirou do poder a presidente do PT, Dilma Rousseff, seus pedidos de intervenção militar não são mais tabus.

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) costumava desfrutar da hegemonia da direita como a principal oposição do Partido dos Trabalhadores. O PSDB tentou retardar a ascensão de Bolsonaro afirmando ser o verdadeiro garantidor da eficiência e do bem-estar da classe empresarial. No entanto, seu candidato, Geraldo Alckmin, continua atrás de seu colega de extrema-direita.

O caráter de extrema-direita de Bolsonaro é mais evidente quando ele está agitando contra os direitos humanos básicos. Quando ele votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, ele o fez em homenagem à memória do general Carlos Brilhante Ustra. Ustra é conhecido como um dos torturadores mais cruéis da era da ditadura no Brasil. Ele ordenou a tortura de Dilma Rousseff quando ela foi presa como uma militante anti-ditadura em sua juventude, e ficou notório por inventar técnicas horripilantes de tortura, como inserir ratos nas vaginas das mulheres.

Tais controvérsias fazem parte da estratégia de Bolsonaro para permanecer no centro das atenções. Quando um jornalista o confrontou sobre suas opiniões inflamadas, ele simplesmente riu. "O ponto é esquecer esses pequenos deslizes do passado e focar no futuro", disse ele no conhecido programa de entrevistas Roda Viva. Em uma greve, ele pode atacar a grande mídia e dizer algo significativo para os brasileiros desesperados por uma mudança de curso.

Bolsonaro sabe aproveitar as mídias sociais e sua capacidade de disseminar informações falsas. Ele acumulou 6,6 milhões de seguidores no Facebook (um milhão apenas nas últimas três semanas), comparado aos 3,5 milhões de Lula e aos seiscentos mil e duzentos de Haddad. Ele é visto como "engraçado", "autêntico" e é admirado por "dizer o que pensa", encorajando outros a expressarem seus preconceitos também. Sua campanha on-line é uma máquina de notícias falsas, rumores e difamação. Uma análise recente fornecida pelo Monitor de Debates Políticos mostra que 80% de seu conteúdo on-line está focado em atacar a ala esquerda, o feminismo e o gigantesco conglomerado de TV Globo.

Tudo o que ele diz é transformado em memes virais. Bolsonaro não é apenas um fenômeno da Internet. De fato, sem Lula na disputa, ele ocupou o primeiro lugar em todas as pesquisas presidenciais, com 31% das intenções dos eleitores, de acordo com a última pesquisa do Ibope. Lula está preso e impossibilitado de disputar, com seu sucessor Fernando Haddad assumindo seu lugar como candidato do PT. Mais importante do que as pesquisas, no entanto, é a legião de fãs que Bolsonaro acumulou, que lotam aeroportos, cantam e choram quando ele chega a qualquer cidade.

A narrativa odiosa e misógina de Bolsonaro é mais bem sucedida em atrair homens, que compõem dois terços de seus eleitores em potencial. Essa estratégia, no entanto, levou à sua esmagadora rejeição entre as mulheres. Pesquisas recentes sugerem que cerca de 50% das mulheres "nunca votariam nele". É a mais feroz discrepância de gênero nos últimos vinte e quatro anos da democracia brasileira.

Nossa pesquisa também identificou uma forte afinidade por Bolsonaro entre os jovens eleitores. Figuras conservadoras e autoritárias são geralmente associadas à nostalgia de um passado perdido. Mas para muitos jovens brasileiros, Bolsonaro representa o oposto: uma mudança radical, uma saída para as crises atuais e a possibilidade de um futuro melhor. Muitos eleitores declararam que vêem o PT e o PSDB amigável aos negócios como mais do mesmo. Isso se deve tanto à fragmentação da direita quanto ao forte sentimento anti-PT, impulsionado pela percepção da associação do partido com a corrupção.

Da esperança ao ódio

Bolsonaro ganhou muita força ao discutir a violência urbana. Nos arredores das grandes cidades brasileiras, espaços coletivos onde as pessoas poderiam discutir problemas comunitários estão ausentes. As pessoas sabem que, independentemente de representarem a esquerda ou a direita do espectro, os políticos só aparecerão nas suas comunidades durante as eleições, oferecendo cerca de vinte dólares para as pessoas distribuírem panfletos.

Bolsonaro rapidamente ganhou popularidade em meio a esse vácuo democrático oferecendo soluções punitivas, abraçando descaradamente o ditado popular de que "bandido bom é bandido morto". Ele promete soluções simplistas para problemas complexos, como a adoção de políticas que permitam o armamento da população em geral, aumento das penas no código penal, e castração química de estupradores.

O bolsonarismo também faz parte de uma reação social mais ampla contra os direitos das mulheres. As manifestações em massa de junho de 2013 constituíram um marco na política brasileira, marcada pelo surgimento e proliferação de grupos feministas autônomos, queer e anti-racistas, especialmente entre os jovens. Em 2016, adolescentes de baixa renda ocuparam escolas secundárias públicas em todo o país. Meninas adolescentes foram as principais protagonistas deste movimento, dando origem ao agora famoso slogan lute como uma garota.

Por outro lado, os rapazes que procuram Bolsonaro o chamam de “mito” ou “lenda”. Ele se tornou um símbolo da autoridade masculina.

Este cenário levou muitos, incluindo a esquerda, a identificar todos os partidários de Bolsonaro como homens ultraconservadores. No entanto, com base em nossa pesquisa, além do fato de que a maioria de seus apoiadores serem de fato homens, ainda precisamos identificar qualquer outro padrão discernível. Há jovens e idosos, trabalhadores formais e informais, cantores de funk, protestantes, católicos e assim por diante. Em suma, eles não são os "fascistas" que os retratos da mídia social fizeram deles.

É claro que o esteriótipo do homem racista, misógino, homofóbico e raivoso aparece entre as fileiras de Bolsonaro. Mas ele não é de modo algum a regra. Muitos partidários acham Bolsonaro excessivamente extremo ou muito misógino, mas estão convencidos de que não há outra alternativa. Já encontramos pessoas que votariam em Lula se ele estivesse livre, mas recorrem a Bolsonaro como seu plano B. Em ambos os casos, esses eleitores não estão necessariamente julgando os candidatos pelo quão de direita ou de esquerda são. Em vez disso, eles estão procurando por um salvador nacional.

Muitos apoiadores de Bolsonaro são inegavelmente conduzidos por preconceitos de gênero, sexual e racial. Mas não podemos descartar o peso pesado da estabilidade econômica como um fator que impulsiona sua popularidade. O crescimento econômico brasileiro despencou de 7,5% em 2010 para -3,77% em 2015, exacerbando uma crise política e institucional que culminou com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

A administração de Michel Temer estabeleceu uma intensa agenda de austeridade neoliberal, priorizando cortes na educação e saúde públicas. Esse cenário cria uma mistura complexa, embora ainda pouco clara, de fatores econômicos, políticos e sociais que impulsionam o efeito Bolsonaro.

Nos últimos dez anos, o Brasil passou por um ciclo que chamamos “da esperança ao ódio”. 2010 foi o auge do lulismo, marcado pelo crescimento econômico amplamente baseado no consumo interno e na inclusão financeira. As políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, estimularam o consumo e um senso de autoestima individual entre os mais pobres.

Enquanto o lulismo trouxe melhorias sociais dramáticas, ele também sistematicamente desmobilizou sua base para sustentar as contradições políticas do seu período no governo. O PT pagou um alto preço por isso. A partir de 2014, a economia piorou e a população se tornou cada vez mais endividada à medida que o desemprego cresce e os bens e serviços públicos são atacados. Sob os cortes de Temer na rede de segurança social, a qualidade de vida diminuiu drasticamente.

Os protestos de junho de 2013 inauguraram um período de instabilidade política, que, combinado à crise econômica, abriu a janela para a ofensiva da direita contra o PT. Esse processo acabou no impeachment de Dilma alguns anos depois. Desde então, os sistemas políticos e judiciários tornaram-se desonestos e a vida cotidiana das pessoas se deteriorou.

A reação do senso comum, graças à profunda desconfiança em relação aos políticos, tem sido culpar a corrupção, e não da economia neoliberal ou da economia subdesenvolvida do Brasil. Bolsonaro e sua narrativa autoritária ganharam espaço precisamente em meio a esse limbo nacional e à sensação de caos. Pesquisas mostram que desde o impeachment e o escândalo de corrupção que afetou o ex-candidato do PSDB, Aécio Neves, em maio de 2017, as intenções de voto de Bolsonaro saltaram de 8% para 31%. Ele ganhou terreno com algumas pessoas que se decepcionaram com o PT. Mas principalmente o aumento foi encontrado entre os eleitores de direita que mudaram suas lealdades partidárias. O efeito Bolsonaro é a reorganização e radicalização dos polos ideológicos na sociedade brasileira.

Por empregar freqüentemente a expressão “isso é uma pouca vergonha”, Bolsonaro se apresenta como um homem honesto que está ansioso para resolver, através da disciplina militar, todas essas questões estruturais nacionais complexas. Essa linha de raciocínio impulsionou os protestos contra Dilma Rousseff em 2015-16, ajudando a polarizar os que se enfureceram com os escândalos de corrupção em apoio a Bolsonaro e contra a esquerda.

Reorganizando a esquerda

O fenômeno do bolsonarismo vai além de um único candidato: representa o surgimento de um zeitgeist conservador em um tempo de profunda transformação social, política e econômica. Todas as análises de hoje prevêem que o segundo turno da corrida presidencial será altamente polarizada, com Bolsonaro e Haddad enfrentando altas taxas de rejeição. Independentemente do resultado, o Brasil passará por mais alguns anos de instabilidade política.

Os desafios para a esquerda são enormes. Em primeiro lugar, é preciso admitir os problemas do modelo de desenvolvimento lulista, que resultou na desmobilização da base popular do PT e deslocou a ênfase da esquerda dos direitos sociais coletivos para a inclusão financeira individual.

É também crucial reavaliar as alianças políticas que foram forjadas por Lula e Dilma Rousseff em nome da governabilidade. A popularidade de Lula reflete seu carisma individual e sua associação com os bons tempos econômicos, mais do que a lealdade generalizada ao PT ou à esquerda.

A esquerda, já fragmentada no Brasil, sofreu grandes perdas após o impeachment de Rousseff em junho de 2016. A maioria das organizações não conseguiu criar novos líderes credíveis, e o PT se concentrou quase exclusivamente em denunciar o golpe suave e o crescimento do fascismo. Essa postura antifascista é, obviamente, crucial. No entanto, a falta de um programa positivo pode criar um vácuo político. A esquerda precisa primeiro construir uma agenda política nova e radical que permita um diálogo com as pessoas e suas preocupações e, em segundo lugar, seja capaz de abordar e mobilizar a base popular.

Em relação à primeira questão, a ascensão do bolsonarismo tornou claro que a falta de segurança nas áreas urbanas e a corrupção são questões fundamentais a serem abordadas na agenda política. Isso requer linguagem simples, mas não simplista, que possa atingir os cidadãos comuns. Os grandes partidos de esquerda, paralisados pela polarização que define as redes sociais brasileiras, negligenciaram esses assuntos, permitindo que a direita se apropriasse cinicamente deles.

A segunda questão é um pouco mais complexa, pois exige o abandono de um modo hierárquico ultrapassado de fazer política, abraçando novos atores políticos, às vezes imprevisíveis. Esse é o caso dos novos movimentos juvenis que demandam políticas descentralizadas e diversidade social em épocas em que os encontros políticos de esquerda permanecem anacronicamente o domínio dos homens brancos.

Este é também o caso das novas mobilizações precárias, que funcionam de maneira ambígua, às vezes denunciando o sistema político, às vezes solicitando intervenção militar. Na recente greve dos caminhoneiros que paralisou o país, a reação do PT foi criticar o movimento como um bloqueio liderado por grupos autoritários. Em tempos de uberização e automatização, essa postura é altamente arriscada. Bolsonaro, por outro lado, visitou a greve e declarou seu apoio aos motoristas. Sua atitude forneceu uma lição básica à esquerda: os trabalhadores devem ser apoiados, uma vez que a consciência de classe exige investimento político.

Desde 2013, o que temos visto é uma esquerda paralisada que rejeita todos os grupos que ela não consegue entender nem lidar. Este é um erro estratégico. O bolsonarismo nos mostra como a frustração radical sobre o sistema pode ser aproveitada para ganhos políticos. Ativistas de esquerda devem entender e abraçar essa insatisfação, agindo através das lacunas das contradições do capitalismo, ao mesmo tempo em que oferece uma agenda radical alternativa que faz sentido para os cidadãos comuns.

Em meio a esse cenário pessimista, parece que a reorganização radical da esquerda pode emergir do movimento feminista. Foram os esforços de organização das mulheres que ajudaram a remover Eduardo Cunha, o presidente corrupto da Câmara dos Deputados que orquestrou o impeachment. Militantes feministas também são as líderes por trás do movimento # elenão, que pressiona por uma aliança nacional contra o Bolsonaro. Elas estão conseguindo fomentar uma frente antifascista no Brasil da maneira que os partidos de esquerda falaram, mas não conseguiram produzir. No último sábado, milhões de mulheres e outras minorias tomaram as ruas e marcharam contra o fascismo. Esse movimento de base sem precedentes e extraordinário, espalhado por todo o tecido social, on-line e off-line, transcende a fragmentação da esquerda e tem o potencial de reorganizar o campo nos turbulentos anos vindouros.

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