22 de outubro de 2018

O retorno do partido

Por que os partidos de massa estão de volta? Porque ainda são a melhor forma de organizar os impotentes para enfrentar os poderosos.

Paolo Gerbaudo


O ex-líder do Partido Trabalhista Jeremy Corbyn reconhece os delegados após seu discurso no quarto dia da conferência do partido em 26 de setembro de 2018 em Liverpool, Inglaterra. Christopher Furlong / Getty

Tradução / É lugar comum observar que a era pós crise é definida pelo surgimento de movimentos populistas à direita e à esquerda, em meio a uma tendência de crescente polarização política. Todavia, menos comentado é o retorno do partido como ator central na arena política.

Por todo o Ocidente e na Europa em particular estamos testemunhando a ressurgência do partido político. Tanto partidos antigos, como o Labour no Reino Unido, quanto os novos, como o Podemos na Espanha e a França Insubmissa, experimentaram crescimento espetacular em anos recentes, ao mesmo tempo em que passaram por importantes inovações organizacionais. 

O retorno do formato-partido é formidável, considerando que, por muitos anos, sociólogos e cientistas políticos, de forma quase unânime, previram que o partido político estava perdendo sua primazia em uma sociedade digital globalizada e altamente diversificada.

De fato, a atual ressurgência da esquerda vem desmentindo tais previsões. Afinal, a tecnologia digital não suplantou os partidos; ao invés disso, ativistas têm usado os avanços da tecnologia para desenvolver mecanismos inovadores para atrair os cidadãos, mesmo afirmando a forma-partido como o principal instrumento da luta política.

Previsões fracassadas

Que os partidos políticos estão passando por uma revitalização é evidente, antes de mais nada, pelo número crescente de membros filiados, uma clara mudança em relação à longa queda no número de filiações que muitos partidos europeus históricos experimentaram no começo da década de 1980.

Na Grã-Bretanha, o Partido Trabalhista está no caminho de atingir 600.000 membros, o que acontece após chegar no fundo do poço com apenas 176.891 membros em 2007, ao final da liderança de Tony Blair. Na França, o movimento França Insubmissa, sob liderança de Jean-Luc Melenchon, contabiliza 580.000 apoiadores, o que o torna o maior partido da França um ano e meio após sua fundação. Na Espanha, o Podemos, fundado em 2014, gira em torno de 500.000 membros, mais do que o dobro do que o Partido Socialista. Mesmo nos EUA, um país que pela maior parte de sua história não teve partidos de massa no sentido europeu do termo, podemos ver um movimento de alguma maneira similar, tendo a maior formação socialista do país, o Socialistas Democráticos da América (DSA), crescido para 50.000 membros no decorrer da candidatura de Bernie Sanders para a nomeação do Partido Democrata em 2016.

Esse crescimento espetacular nas fileiras de membros dos partidos de esquerda - muitos dos quais recentemente formados - contrasta fortemente com as previsões que vinham sendo feitas até pouco tempo atrás por muitos cientistas políticos. Entre os anos 1990 e o período imediatamente anterior à crise financeira de 2008, acadêmicos concorreram na predição da queda definitiva do partido político. Em meio a uma crescente apatia dos eleitores e declínio de filiações, o partido político pareceu a muitos um tipo de organização antiquada - uma teimosa relíquia de um tempo que passou.

Em 2000, os famosos cientistas políticos Russell Dalton e Martin Wattenberg argumentaram que, “atualmente, extensa evidência aponta para o declínio do papel dos partidos políticos na formatação da política das democracias industriais avançadas. Muitos partidos políticos estabelecidos tem visto sua filiação esvanecer e o público contemporâneo parece cada vez mais cético sobre política partidária”. O acadêmico escocês Peter Mair afirmou que estamos testemunhando a passagem da “era da democracia partidária”, argumentando que uma série de fenômenos, tais como a volatilidade do eleitorado e o aumento do espalhado “sentimento antipolítico”, apontaram para o declínio dos partidos políticos.

Para além de ser um comentário sobre o declínio da filiação de históricos partidos de massa, tal diagnóstico foi frequentemente informado por teorias pós modernas sobre “o fim da história”, uma profecia que para muitos também significa que o partido - o ator histórico decisivo para parte significativa da teoria marxista tradicional - encontrou seu final.

Em meio à extrema diferenciação e individualização da sociedade em rede descrita pelo sociólogo Manuel Castells, com seu espaço crescente para a autonomia individual e flexibilidade, todas as organizações aproximariam a morfologia horizontal da rede, ao invés da estrutura vertical da pirâmide que dominou as organizações da era industrial. Esse não pareceu ser um bom prenúncio para o futuro do partido político que, por sua natureza, envolve a presença de uma estrutura de liderança centralizada, demandando disciplina e submissão da vontade individual ao objetivo coletivo.

Somou-se a isso a percepção de uma crise da identificação partidária. Identidades de classe não eram mais vistas como capazes de mobilizar os eleitores e partidos estavam se tornando organizações abrangentes, buscando votos de forma oportunista sempre que pudessem encontrar uma brecha no “mercado eleitoral”.

Essa sociologia de extrema complexidade, individualização e desintegração de classe foi acompanhada pelo argumento de que em um mundo globalizado, o partido perderia importância pela simples razão de que o estado-nação - o objeto tradicional de conquista do partido e sua referência operacional - estava perdendo poder em favor das instituições de governança global. Os auto-proclamados “marxianos” maîtres à penser Antonio Negri e Michael Hardt celebraram a mudança de um império de estados-nação para um global, não muito diferente da maneira como Thomas L. Friedman, colunista do New York Times, falou entusiasmadamente sobre a iminente vitória da globalização sobre as nações.

A condição global parecia favorecer outros tipos de organização coletiva, operando transnacionalmente e focando em “questões pontuais”: protestos em rede, movimentos sociais, caridades e ONGs. É significativo que o Fórum social Mundial, o evento principal do movimento anti-globalização, excluiu partidos explicitamente, como se eles fossem não apenas antiquados, mas também reprováveis moralmente.

Desconfiança anti-partido

Esse forte sentimento anti-partido que tem moldado a educação política das gerações passadas de ativistas de esquerda informou a distorção autoritária das formas ao longo do século XX.

O nazismo e o estalinismo demonstraram até que ponto o partido poderia ser transformado em uma máquina cruel, empenhada em manipular seus membros e comandar obediência inabalável. O cinema e a literatura produziram retratos vívidos do maligno efeito psicológico e político da obediência ao partido, tais como o abominável Partido Nazista de Hitler ou os julgamentos públicos e perseguições conduzidas pelos Partidos Comunistas no bloco soviético, tal como dramatizadas no livro Darkness at Noon, de Arthur Koestler. “Partidos de massa” social democratas mais benignos também produziram desapontamento generalizado.

Mas o que era problemático era o modo pelo qual esse criticismo justificado se aliou a um ressentimento liberal de longa data com o partido político, sustentado por um medo antidemocrático das massas organizadas e suas demandas de controle democrático e redistribuição econômica.

Esse discurso liberal tem uma história muito longa que remonta às origens da democracia moderna. Personalidades tão diferentes como James Madison, Moisey Ostrogorski, John Stuart Mill, Ralph Waldo Emerson e Simone Weil criticaram veementemente o partido político. Eles atacaram os partidos políticos por sujeitarem o indivíduo à obediência e à uniformidade e argumentaram que, em vez de servir aos interesses gerais da sociedade, os partidos acabavam defendendo os interesses estreitos de uma facção.

Emerson, por exemplo, afirmou que "uma seita ou partido é uma elegância incógnita, concebido para salvar um homem do tormento do pensamento", enquanto a anarquista cristã Simone Weil escreveu que os partidos políticos levaram a uma situação em que "em vez de pensar , apenas tomamos partido: a favor ou contra. Essa escolha substitui a atividade da mente.”

Nos tempos neoliberais, essa preocupação com a liberdade individual encontrou nova moeda na celebração freqüentemente ouvida do empreendedorismo e da espontaneidade das forças de mercado não regulamentadas, fazendo com que todas as formas de organização coletiva parecessem um impedimento ilegítimo. Em The Constitution of Liberty, Friedrich Hayek, o mais importante filósofo do “pensée único” (“pensamento único”) neoliberal expressou sua descrença na ordem organizada (táxis) e confiança na ordem espontânea (kosmos) da sociedade, modelada nas supostas “trocas livres” que ocorrem no mercado.

O partido político, como o Estado, é assim representado como um Leviatã cinza e burocrático que mina a liberdade, a expressão autêntica, a tolerância e o diálogo. Desanimadoramente, esse pensamento único veio a ser inconscientemente absorvido por muitos movimentos antiautoritários que emergiram na sequência dos protestos estudantis de 1968, ecoando os neoliberais com sua denúncia da organização coletiva e sua burocracia, em nome da autonomia e da autoexpressão pessoal.

Ironicamente, muito do desgosto que as pessoas hoje em dia sentem em relação aos partidos políticos é, em si, produto da ideologia neoliberal e da maneira como nos anos 1990 e 2000 essa ideologia facilitou a transformação dos velhos partidos de massa da era industrial em novos “partidos líquidos” no estilo dos “partidos profissionais / eleitorais” americanos. Esses partidos, cujo cinismo foi capturado na imaginação do público por séries de TV como House of Cards e The Thick of It, substituíram os velhos apparatchiks por spin doctor, e os quadros partidários por pesquisadores [de opinião] e consultores de comunicação.

Assim, quando pessoas de diferentes convicções protestam contra os partidos políticos, elas podem muito bem ter diferentes tipos de partidos em mente. No entanto, eles parecem pensar que há algo inerentemente errado na forma do partido como tal.

Organizando as massas populares

Por que, então, o partido político está voltando, apesar de todas essas críticas?

Esse ressurgimento, observado nos últimos anos por vários autores como Jodi Dean, é um reflexo da necessidade política fundamental da forma partidária, particularmente em tempos de crise econômica e crescente desigualdade. O partido político é a estrutura organizacional através da qual as classes populares podem se unir e desafiar o poder concentrado dos super-ricos e dos oligopólios econômicos; ou seja, desafiar os mesmos atores que usaram a crise financeira para impor uma espetacular transferência de riqueza a seu favor.

Anos de neoliberalismo convenceram muitos de que suas necessidades materiais poderiam ser satisfeitas por meio de seu próprio esforço individual, empreendedorismo e competição individual, por meio da suposta meritocracia do sistema. Mas o fracasso do capitalismo financeiro em criar bem-estar econômico convenceu muitos de que a única maneira de promover seus interesses é se reunir novamente em uma associação política organizada.

Essa reação quase instintiva às dificuldades econômicas serve para demonstrar o papel contínuo do partido como o meio pelo qual uma unidade de classe pode alcançar uma vontade coletiva e se tornar uma força política. De fato, esse entendimento há muito é discutido na tradição marxista; da análise de Karl Marx e Friedrich Engels em O Manifesto Comunista, à discussão de Lenin sobre o partido de vanguarda, às observações de Antonio Gramsci sobre o “príncipe moderno” nos Cadernos da prisão e, de fato, a reflexão de Nicos Poulantzas em Poder Político e Classes Sociais. O partido de vanguarda leninista e o partido de massas social-democrata forneceram diferentes soluções para a prossecução desta missão. No entanto, ambos acabaram por erguer uma vasta burocracia para atender à tarefa do que Gramsci chamou de “centralizar, organizar e disciplinar” a massa de apoiadores.

Robert Michels, um dos pioneiros da teoria do partido moderno, atacou essa burocracia florescente como a raiz da “lei de ferro da oligarquia”. Mesmo assim, ele argumentou que seu surgimento refletia uma necessidade fundamental de organização de massa. “A organização, baseada no princípio do menor esforço, ou seja, na maior economia possível de energia, é a arma do fraco contra o forte.” O partido atua, assim, como um “agregado estrutural”, proporcionando aos membros uma forma de amalgamar suas forças e superar esse isolamento - que, como observou Nicos Poulantzas, define de outra forma a experiência dos trabalhadores, constantemente desorganizados pela política de “dividir para reinar” promovida pelo capital e pelo estado.

Embora a burguesia esteja dividida em muitas linhas (ou seja, as divisões entre capital comercial, industrial e financeiro), é muito mais fácil para ela se unir, dado seu número muito menor e sua posse de locais-chave de agregação social, como marinas, campos de golfe, lojas maçônicas e clubes rotários, sem falar de seus juramentos de sangue celebrados por meio de casamentos mistos. Diante dessa densa oposição, os partidos políticos são fundamentalmente “armas dos fracos”.

Como escreveu o sociólogo americano Anson D. Morse, eles são os meios para “converter muitos em um”, unindo forças dispersas com o objetivo final de apresentar um desafio crível contra o poder econômico concentrado. É precisamente por isso que sempre foram vistos com desdém pelas elites liberais, mas também vistos com desconfiança pela pequena burguesia, que, como argumentou o sociólogo francês Maurice Duverger, tem medo do encadrement [ter uma estrutura imposta a ele] e de perder sua autonomia individual.

Hoje, enfrentamos uma economia digital que está dividindo e isolando trabalhadores por meio de terceirização, downsizing e supervisão algorítmica remota - visível, por exemplo, em empresas como Uber e Amazon. Nesse novo contexto, a necessidade de o partido atuar como um “agregado estrutural”, reunindo o poder de muitos indivíduos isolados, é mais importante do que nunca. Isso é especialmente verdade, dado que, embora os partidos estejam claramente em ascensão, como demonstrado por seu número crescente de membros, o mesmo dificilmente pode ser dito dos sindicatos e outras formas tradicionais de organização popular.

Na era pós-crash, é claro que os partidos políticos devem atender às tarefas de representação política, cuja necessidade mais uma vez se torna evidente. Mas parece que eles também precisam compensar o fracasso comparativo de outras formas de representação social, para expressar os interesses dos trabalhadores e exigir concessões dos empregadores.

Considerando tudo isso, não deveria ser surpresa que em tempos marcados por grotescas desigualdades sociais e individualização desenfreada, o partido político esteja voltando com força total. Claramente, o “príncipe hipermoderno” (para distingui-lo do “príncipe moderno” descrito por Gramsci) é muito diferente do partido burocrático da era industrial, apesar de sua tentativa semelhante de construir espaços de participação em massa. Como visto mais claramente em novas formações como Podemos e France Insoumise, as organizações políticas emergentes geralmente têm uma estrutura de direção central muito mínima e ágil, o que as torna semelhantes ao modelo operacional “enxuto” de empresas iniciantes na economia digital.

Essas formações podem preferir se autodenominar “movimentos”, devido às associações negativas que o partido político ainda evoca na esquerda. Mas os partidos políticos é o que eles são em última análise. Eles são melhor compreendidos como esforços para inovar a forma partidária e adaptá-la às circunstâncias atuais, nas quais a experiência social e os padrões de vida cotidiana são totalmente diferentes das condições da era industrial em que o partido de massas emergiu. Eles estão surgindo em um contexto no qual as seções locais, os quadros e o complexo sistema de delegação típico dos partidos socialistas e comunistas tradicionais se tornaram amplamente ineficazes.

Os ativistas estão tentando enfrentar esse desafio usando uma variedade de ferramentas digitais, incluindo plataformas participativas online, baseadas no sistema OMOV (one man one vote), no qual todos os membros registrados são chamados a participar das decisões tomadas em plataformas participativas online. Como descrevo em The Digital Party: Political Organization and Online Democracy, há um debate veemente dentro e fora dessas formações sobre se essa mudança de “democracia delegada” para democracia direta online é realmente uma melhoria. E, de fato, algumas dessas organizações estão se afastando da “lei de ferro da oligarquia” denunciada por Michels, apenas para colidir com um “plebiscitarismo” digital igualmente problemático, acompanhado de uma liderança carismática - uma espécie de “hiperliderança” no topo.

No entanto, em suma, esta transformação organizacional deve ser saudada como uma tentativa ousada de reviver a forma partidária. Isso é particularmente verdadeiro em uma época em que agregar as classes populares em um ator político comum é claramente necessário para abalar um equilíbrio de forças que é esmagadoramente empilhado em favor das elites econômicas. Abordar esse objetivo estratégico levantará questões espinhosas de poder e organização interna que por muito tempo os ativistas de esquerda se esquivaram.

Ao contrário do que alguns diziam na virada do milênio, não há como "mudar o mundo sem tomar o poder". E não há como tomar o poder e mudar o mundo sem reconstruir e transformar os partidos políticos.

Colaborador

Paolo Gerbaudo é professor de cultura digital e sociedade no King's College London e autor de The Mask and the Flag.

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