27 de dezembro de 2009

Do capitalismo como um "sistema parasita"

Zygmunt Bauman

Ñ

Tradução / Tal como o recente "tsunami financeiro" demonstrou a milhões de pessoas que acreditavam nos mercados capitalistas e na banca capitalista como métodos evidentes para a resolução exitosa de problemas, o capitalismo se especializa na criação de problemas, não em sua resolução.

Assim como os sistemas dos números naturais do famoso teorema de Kurt Gödel, o capitalismo não pode ser ao mesmo tempo coerente e completo. Se é coerente com seus próprios princípios, surgem problemas que não pode abordar; e se trata de resolvê-los, não pode fazê-lo sem cair na falta de coerência com suas próprias premissas. Muito antes que Gödel escrevesse seu teorema, Rosa Luxemburgo publicou seu estudo sobre a "acumulação capitalista" em que sugeria que o capitalismo não pode sobreviver sem economias "não capitalistas"; pode proceder de acordo com os seus princípios sempre que tiver "territórios virgens" abertos à expansão e à exploração. Mesmo quando os conquista com finalidades de exploração, o capitalismo os priva de sua virgindade pré-capitalista e dessa forma esgota as reservas que o nutrem. Em boa medida, é como uma serpente que devora o seu próprio rabo: num primeiro momento os alimentos são abundantes, mas logo se torna cada vez mais difícil comê-los, e pouco depois não resta mais nada para comer nem quem os coma...

O capitalismo é, na essência, um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante algum tempo uma vez que encontra o organismo ainda não explorado do qual pode se alimentar, mas não pode fazê-lo sem prejudicar o hospedeiro nem sem destruir cedo ou tarde as condições de sua prosperidade ou até de sua própria sobrevivência.

Rosa Luxemburgo, que escreveu em uma era de imperialismo ascendente e conquista territorial, não foi capaz de prever que as terras pré-modernas de continentes exóticos não eram os únicos possíveis "hospedeiros" dos quais o capitalismo poderia se alimentar para prolongar a sua vida e iniciar sucessivos ciclos de prosperidade. O capitalismo revelou desde então seu incrível talento para buscar e encontrar novas espécies de hospedeiro cada vez que a espécie explorada anteriormente diminuía em número. Uma vez que anexou todas as terras virgens "pré-capitalistas", o capitalismo inventou a "virgindade secundária". Milhões de homens e mulheres que se dedicavam a economizar em vez de viver do crédito foram transformados com astúcia em um desses territórios virgens ainda não explorados.

A introdução dos cartões de crédito foi o indício do que se avizinhava. Os cartões de crédito apareceram no mercado com uma consigna eloquente e sedutora: "Elimine a espera para concretizar o desejo". Deseja algo, mas não economizou o suficiente para comprá-lo? Bom, nos velhos tempos, que felizmente já ficaram para trás, era preciso postergar as satisfações (esse adiamento, segundo Max Weber, um dos pais da sociologia moderna, era o princípio que tornou possível o advento do capitalismo moderno): apertar o cinto, negar outros prazeres, gastar de maneira prudente e frugal e economizar o dinheiro que se podia separar com a esperança de que com o devido cuidado e paciência se reuniria o suficiente para concretizar os sonhos.

Graças a Deus e à benevolência dos bancos, já não é mais assim. Com um cartão de crédito, essa ordem pode ser invertida: desfrute agora, pague depois! O cartão de crédito nos dá a liberdade de manipular as próprias satisfações, de obter as coisas quando as queremos, não quando as ganhamos e podemos pagar.

Com a finalidade de evitar reduzir o efeito dos cartões de crédito e do crédito fácil a só um lucro extraordinário para aqueles que emprestam, a dívida teria que (e o fez com grande rapidez!) transformar-se em um atrativo permanente de geração de lucros. Não consegue pagar a dívida? Não se preocupe: ao contrário dos antigos emprestadores, ansiosos para recuperar o que haviam emprestado no prazo fixado de antemão, nós, os modernos emprestadores amistosos, não pedimos o reembolso de nosso dinheiro, mas lhe oferecemos ainda mais crédito para devolver a dívida anterior e ficar com algum dinheiro adicional (quer dizer, dívida) para pagar novos prazeres. Somos os bancos de quem gosta de dizer "sim". Os bancos amistosos. Os bancos sorridentes, como afirmava um dos comerciais mais criativos.

A armadilha do crédito

O que nenhum dos comerciais declarava abertamente era que na realidade os bancos não queriam que seus devedores quitassem os empréstimos. Se os devedores devolvessem pontualmente os empréstimos, já não estariam endividados. É sua dívida (o juro mensal que se paga sobre a mesma) que os emprestadores modernos amistosos (e de uma notável sagacidade) decidiram e conseguiram reformular como a fonte principal de seu lucro ininterrupto. Os clientes que devolvem com rapidez o dinheiro que pegaram emprestado são o pesadelo dos emprestadores. As pessoas que se negam a gastar o dinheiro que não ganharam e se abstêm de pedi-lo emprestado não são úteis aos emprestadores, assim como também as pessoas que (motivadas pela prudência ou por um sentido antiquado de honra) se apressam a pagar suas dívidas a tempo. Para benefício seu e de seus acionistas, os bancos e provedores de cartões de crédito dependem agora de um "serviço" ininterrupto de dívidas e não do rápido reembolso das mesmas. Pelo que a eles concerne, um "devedor ideal" é que aquele que nunca paga completamente o crédito. Pagam-se multas se se quer quitar a totalidade de um crédito hipotecário antes do prazo estabelecido... Até a recente "crise do crédito", os bancos e emissores de cartões de crédito se mostravam mais que dispostos a oferecer novos empréstimos a devedores insolventes para cobrir os juros não pagos de créditos anteriores. Uma das principais companhias de cartões de crédito da Grã-Bretanha se negou, há pouco tempo, a renovar os cartões dos clientes que pagavam a totalidade de sua dívida cada mês e, portanto, não incorriam em juro punitivo algum.

Para resumir, a "crise do crédito" não foi resultado do fracasso dos bancos. Pelo contrário, foi um resultado completamente previsível, se bem que inesperado, o fruto de seu notável sucesso: sucesso no relativo a transformar a enorme maioria dos homens e mulheres, velhos e jovens, em um exército de devedores. Obtiveram o que queriam conseguir: um exército de devedores eternos, a autoperpetuação da situação de "endividamento", ao passo que se buscam mais dívidas como única instância realista de economia a partir das dívidas em que já se incorreu.

Ingressar nessa situação ficou mais fácil do que nunca na história da humanidade, ao passo que sair da mesma nunca foi tão difícil. Já se tentou, seduziu e endividou todos aqueles que podiam se converter em devedores, assim como a milhões de outros aos quais não se podia nem devia incitar a pedir empréstimos.

Como em todas as mutações anteriores do capitalismo, também desta vez o Estado assistiu ao estabelecimento de novos terrenos férteis para a exploração capitalista: foi por iniciativa do presidente Clinton que se introduziram nos Estados Unidos as hipotecas subprime patrocinadas pelo governo para oferecer crédito para a compra de casas a pessoas que não tinham meios para reembolsar esses empréstimos, e para transformar assim em devedores setores da população que até o momento haviam sido inacessíveis à exploração mediante o crédito...

Contudo, assim como o desaparecimento das pessoas descalças significa problemas para a indústria do calçado, o desaparecimento das pessoas não endividadas anuncia um desastre para o setor do crédito. A famosa profecia de Rosa Luxemburgo se cumpriu uma vez mais: outra vez o capitalismo esteve perigosamente próximo do suicídio ao conseguir esgotar a reserva de novos territórios virgens para a exploração...

Até agora, a reação à "crise do crédito", por mais impressionante e até revolucionária que possa parecer, uma vez processada nas manchetes dos meios de comunicação e nas declarações dos políticos, foi "mais do mesmo", com a vã esperança de que as possibilidades revigoradas de lucro e consumo dessa etapa ainda não se tenham esgotado por completo: uma tentativa de recapitalizar os emprestadores de dinheiro e de fazer que seus devedores voltem a ser dignos de crédito, de modo tal que o negócio de emprestar e tomar emprestado, de se endividar e permanecer nesse estado, possa retornar ao "habitual".

O Estado de Bem-estar social para os ricos (que, ao contrário de seu homônimo para os pobres, nunca viu questionada a sua racionalidade, e muito menos interrompidas as suas operações) voltou aos salões de exposição após abandonar as dependências de serviço para onde seus escritórios haviam sido transferidos de forma temporária para evitar comparações invejosas.

O que os bancos não podiam obter – por meio de suas habituais táticas de tentação e sedução –, o fez o Estado mediante a aplicação de sua capacidade coercitiva, ao obrigar a população a incorrer de forma coletiva em dívidas de proporções sem precedentes: hipotecando o nível de vida de gerações que ainda não haviam nascido...

Os músculos do Estado, que fazia muito tempo que não eram usados com essas finalidades, voltaram a se flexionar em público, desta vez em prol da continuação do jogo cujos participantes fazem com que esta flexão seja considerada indigna, mas inevitável; um jogo que, curiosamente, não pode suportar que o Estado exercite seus músculos, mas não pode sobreviver sem ele.

Agora, centenas de anos depois que Rosa Luxemburgo tornou pública a sua intuição, sabemos que a força do capitalismo reside em seu incrível talento de buscar e encontrar novas espécies de hospedeiros toda vez que as espécies exploradas anteriormente diminuem de número ou se extinguem e no oportunismo e na velocidade, semelhante aos de um vírus, com as quais se adapta às idiossincrasias das suas novas pastagens. No número de novembro de 2008 do The New York Review of Books (no artigo "A crise e o que fazer a respeito"), o brilhante analista e mestre da arte do marketing George Soros apresentou o itinerário das empresas capitalistas como uma sucessão de "bolhas" que se expandiam para além de sua própria capacidade e estouravam com rapidez uma vez que atingiam o limite de sua resistência.

A "crise do crédito" não marca o fim do capitalismo; apenas o esgotamento de uma de suas sucessivas pastagens... A busca de uma nova relva começará logo, alimentada, assim como no passado, pelo Estado capitalista mediante a mobilização compulsiva de recursos públicos (usando os impostos em vez do poder de sedução, deficitário e temporariamente não operativo, do mercado). Buscar-se-ão novas "terras virgens" e se tentará, de um modo ou de outro, abri-las à exploração até que suas possibilidades de aumentar os lucros de acionistas e as bonificações dos dirigentes fique por sua vez esgotada.

Como sempre (como também aprendemos no século XX a partir de uma longa série de descobrimentos matemáticos desde Henri Poincaré até Edward Lorenz) um mínimo passo em falso pode levar a um precipício e terminar em uma catástrofe. Até minúsculos passos em frente podem desencadear inundações e terminar em dilúvio...

Os anúncios de outro "descobrimento" de uma ilha desconhecida atraem multidões de aventureiros que ultrapassam em muito as dimensões do território virgem, multidões que num abrir e fechar de olhos teriam que voltar correndo às suas embarcações para fugir do iminente desastre, esperando contra toda esperança que as embarcações sigam aí, intactas, protegidas...

A grande questão é em que momento a lista de terras disponíveis para uma "virginização secundária" se esgotará, e as explorações, por mais frenéticas e engenhosas que sejam, deixarão de gerar respiros temporários. Os mercados, que estão dominados pela "mentalidade caçadora" líquida moderna que substituiu a atitude de guarda-florestal pré-moderna e a clássica postura moderna de jardineiro, seguramente não vão se incomodar em colocar essa pergunta, dado que vivem de uma alegre escapada de caça a outra como outra oportunidade para adiar o momento da verdade, não importa se por um momento breve nem a que preço.

Ainda não começamos a pensar com seriedade na sustentabilidade da nossa sociedade movida a crédito e consumo. "A volta à normalidade" prognostica uma volta a vias sempre mais perigosas. A intenção de fazê-lo é alarmante: indica que nem os dirigentes das instituições financeiras, nem os nossos governos, chegaram ao fundo do problema com seus diagnósticos, e muito menos com seus atos.

Parafraseando Héctor Sants, diretor da Autoridade de Serviços Financeiros, que há pouco confessou a existência de "modelos empresariais mal equipados para sobreviver ao estresse (...), algo que lamentamos", Simon Jenkins, um analista do The Guardian de extraordinária perspicácia, observou que "foi como se um piloto protestasse porque seu avião funciona bem com exceção dos motores".

7 de dezembro de 2009

Camponeses, Mao e insatisfação na China: do Grande Salto Adiante ao presente

Dongping Han

Monthly Review

Tradução / Existem concepções erradas muito difundidas sobre vários aspectos da Revolução Chinesa. Entre eles, estão uma interpretação equivocada do Grande Salto Adiante, da Revolução Cultural, das “reformas” da era pós-Mao e da reação da imensa maior parte dos camponeses a esses movimentos. Ainda que os programas/movimentos revolucionários tenham resultado em dificuldades significativas – para a população rural (o Grande Salto Adiante, 1958-61) ou os intelectuais (a Revolução Cultural, 1966-76) – ambos produziram conquistas concretas no campo e levaram a ganhos impressionantes na produção agrícola e na vida das pessoas. Em contrapartida, as “reformas” da era pós-Mao resultaram até aqui em um grande crescimento da desigualdade na China, com a população rural sofrendo muito com a destruição do apoio público à saúde e à educação. Além disso, oficiais locais e regionais venderam terras agriculturáveis com fins de desenvolvimento, normalmente enchendo seus próprios bolsos e com compensação inadequada aos camponeses. Isso levou às atuais agitações massivas nas zonas rurais, envolvendo literalmente centenas de milhares de incidentes com protestos de camponeses.

O Grande Salto Adiante

O Grande Salto Adiante, segundo plano quinquenal da Revolução Chinesa, foi uma tentativa de desenvolver rapidamente tanto a indústria quanto a agricultura. Esse foi o período no qual as comunas foram formadas e por volta de 600.000 forjas “de fundo de quintal”, de pequena escala, foram construídas para abastecer as necessidades locais por todo o país. Essa foi também a era de grandes projetos de irrigação – de alcance local, regional e nacional – que resultariam em aumentos impressionantes nas colheitas nos próximos anos. No entanto, o trabalho extra que ele exigia aumentou o consumo de alimentos pela população, o que não foi acompanhado por uma ingestão de calorias suficiente.

A atual ampla insatisfação rural, assim como urbana, na China contrasta bastante com a relativa ausência de problemas durante o Grande Salto Adiante, em que a falta de grãos levou a fome severa em algumas partes da China rural, como o resultado de condições climáticas mais duras e de erros administrativos em vários níveis governamentais. Há discordâncias consideráveis quanto a se uma fome massiva aconteceu ou não e, se tiver acontecido, quantas pessoas morreram. No entanto, está claro que dificuldades consideráveis foram criadas pela falta de grãos e que ela foi induzida, pelo menos parcialmente, pelas políticas do Grande Salto Adiante. No entanto, durante minha pesquisa na China rural nos últimos vinte e cinco anos – incluindo entrevistas extensas com camponeses no município de Jimo, na província de Shandong – não encontrei um único camponês que acreditasse que Mao tenha perdido popularidade por causa do Grande Salto Adiante. Nem encontrei nenhum camponês que tivesse considerado se levantar contra o governo durante o Grande Salto Adiante, ou qualquer literatura mencionando que tivesse havido protestos reais de camponeses durante esse período (no entanto, um número significativo de camponeses, especialmente os mais jovens, expressa o seu desejo de se junta a uma rebelião agora, se houver uma contra o governo[1]). E, por mais difíceis que as coisas tenham sido durante o Grande Salto Adiante, os camponeses aparentemente não estavam nem muito debilitados, nem muito fracos para construir um grande número de projetos de irrigação nacionais, provinciais e locais.
O Partido Comunista e o povo

O partido comparava a sua relação com o povo chinês como a do peixe com a água. Os comunistas afirmavam que a água (o povo) pode viver sem o peixe (os membros do Partido Comunista). Mas o peixe não pode viver sem a água, apontando assim a importância do apoio popular para o sucesso da revolução. Essa relação especial entre os comunistas chineses e o povo chinês foi construída em um longo processo de tentativa e erro, que não foi sempre sem erros. E houve muitos erros durante o Grande Salto Adiante, o que levou a tentativas de retificação com a Campanha de Educação Socialista, em 1964, e a Revolução Cultural, em 1966.

O argumento de que as pessoas podem não ter tido outro recurso a não ser se envolver em tipos de resistência (ou de maneiras de lidar com a situação) individuais e cotidianas no contexto do Grande Salto Adiante parece convincente. Os camponeses chineses, como todas as outras pessoas, não assumiriam tranquilamente a tarefa de tentar derrubar o governo. Mas entre a escolha de passar fome até morrer e a revolta, escolher não deveria ser uma coisa difícil. Se o número de milhões de mortos afirmado pelos críticos do Grande Salto Adiante fosse real, então porque os camponeses chineses teriam se submetido à morte por uma fome lenta em vez de se rebelar e conquistar alguma esperança de sobrevivência?

Ainda que a sociedade civil estivesse desarmada durante a maior parte da história da China, isso não impediu os camponeses chineses de se rebelarem ocasionalmente com o que quer que tivessem nas mãos. O termo chinês jiegan erqi (se revoltar com varas de bambu) foi criado para descrever a rebelião camponesa durante a dinastia Qin, em particular, e outras rebeliões em geral nas quais camponeses, sob o peso da injustiça social, se revoltavam usando tudo que tivessem ao alcance das mãos. E no entanto, durante o Grande Salto Adiante a população chinesa estava mais armada do que nunca. Foi nessa época que Mao convocou uma organização em grande escala de unidades de milícias locais (daban minbingshi). Jovens camponeses nas equipes de produção foram organizados em pelotões de milícias. Em cada brigada de produção havia uma companhia de milícia. No nível da comuna, haviam batalhões de milícia. O departamento de assuntos militares no governo municipal tinha a tarefa de armar e treinar as milícias. Os camponeses chineses trabalhavam nos campos com seus rifles guardados bem perto durante os anos do Grande Salto Adiante[2]. Teria sido muito difícil para um camponês pegar um rifle, atirar no seu ou na sua líder e começar uma rebelião se ele assim desejasse?

Realizações passadas e metas futuras

Existem outros fatores que levaram à aceitação e à participação ampla e ativa dos camponeses nos projetos do Grande Salto Adiante. Um dos principais foi que os camponeses sabiam que os projetos beneficiariam a eles e a suas comunidades no futuro. Além disso, muitos camponeses receberam terras e outros recursos durante a reforma agrária e se sentiam responsáveis em relação ao governo. A maioria dos camponeses chineses se beneficiaram da reforma agrária da revolução. Por exemplo, no município de Jimo, os senhores de terras e os camponeses ricos, que eram 4% da população, perderam mais de 11.000 hectares de terra, 33.524 casas, 2.441 cavalos e outros animais de criação, 4.377 peças de implementos agrícolas e 6.891.715 quilos de grãos por causa da reforma agrária. Mas ao mesmo tempo, as unidades domésticas de camponeses pobres, que eram 60% da população total, conseguiram terras, animais de criação e casas como resultado da reforma agrária.
Escassez de alimentos

O Grande Salto Adiante ganhou seu nome em parte por causa da escala sem precedentes de seus projetos de irrigação. Esses projetos, que foram elaborados para aumentar a colheita de grãos, contribuíram, ironicamente, para a escassez de grãs a curto prazo durante o Grande Salto Adiante.

A maior parte das sociedades agrárias trabalha regulada pelo ciclo das estações. No norte da China, o ciclo das estações envolve o seguinte: uma temporada de plantação intensa no meio da primavera seguida por um fim de primavera menos intenso e uma temporada no início do verão, seguidos por um meio de verão intenso de colheita e plantação, seguido novamente por um final de verão e um começo de outono menos intensos, seguidos por uma temporada de colheita e plantação intensas no fim do outono e finalmente por um inverno ameno e uma temporada de início da primavera. Nessa região, menos de três meses são considerados temporadas intensas, e o resto do ano é considerado uma temporada “amena” ou “tranquila”.

Até recentemente, as unidades domésticas rurais na China contabilizavam seus estoques de grãos de acordo com o ciclo de seus trabalhos nos campos. Elas comiam mais e melhor quando tinham que trabalhar de maneira intensa nos campos, e comiam muito menor e em pior qualidade durante as temporadas amenas ou tranquilas. A maios parte dos camponeses no norte da China se levantava muito tarde no inverno e no início da primavera, e ia para a cama muito cedo para poupar energia. Comiam apenas duas refeições ao dia, e os alimentos que ingeriam eram na maior parte mingau e batatas-doces durante as temporadas amenas. Como resultado disso, o consumo de comida era mantido em um nível mínimo durante o inverno e o início da primavera. Durante as temporadas de muito trabalho, quando os camponeses tinham que realizar trabalhos manuais intensivos, eles comeriam tanto trigo e pão de milho quanto pudessem. Como resultado, o consumo de comida nessas estações intensas poderia ser três ou quatro vezes maior do que nas temporadas amenas.

O Grande Salto Adiante transformou temporadas amenas e tranquilas na china rural em temporadas e trabalho intenso. Durante o inverno e a primavera de 1958, 1959 e 1960, a população rural trabalhou para construir reservatórios, cavar poços, dragas o fundo de rios e construir canais de irrigação. Haviam projetos nacionais, provinciais, regionais e locais sendo construídos ao mesmo tempo. Alguns dos exemplos mais conhecidos de projetos desse tipo eram: o Reservatório Shisanling (Reservatório das Tumbas Ming); o Projeto do Rio Hai, que conectava cinco grandes rios no norte da China; o Projeto Sanmenxia do Rio Amarelo em Henan e na província Shanxi e o Projeto Liu Jaxia do Rio Amarelo. O mundialmente famoso Canal de Irrigação Bandeira Vermelha no município de Lin, Henan, foi iniciado durante o Grande Salto Adiante e só foi terminado dez anos depois[3].

No município de Jimo, província de Shandong, os camponeses passaram por vários milhões de dias de trabalho para construir quatro reservatórios médios e vários outros projetos de irrigação: o Reservatório Shipeng na parte sul do município de Jimo, o Reservatório Wangquan na parte central, o Reservatório Songhuaquan na parte centro-oeste, o Reservatório Yecheng no oeste e o Projeto de Irrigação Chahe no norte.

Além desses grandes projetos, houveram também vários projetos menores lançados por comunas e aldeias no município de Jimo. Entre eles estavam o Reservatório Xiazhang na comuna Wangcun, o Reservatório Fangjia na comuna Woli, o Reservatório Yushitou na comuna Duncun. Em 1959, o município de Jimo também cavou, pela primeira vez, trinta e três grandes e fundos poços de irrigação elétricos.

Houve, sem dúvidas, problemas de administração graves durante o Grande Salto Adiante. Se pedia que as pessoas participassem em projetos fisicamente exaustivos, mas não haviam porções extras de alimentos oferecidas de maneira suficiente. Sem esses projetos de irrigação gigantescos, provavelmente não teria havido fome em Jimo, e a escassez de grãos teria sido bem menos severa. Foi, no mínimo, exaltado desenvolver um investimento gigantesco de trabalho desse tipo em um tempo tão curto sem porções de alimento suficientes. Claramente, os líderes do governo no município de Jimo foram culpados de erros de cálculo e má administração de recursos humanos e financeiros durante o Grande Salto Adiante.

Retrospectivamente, os líderes poderiam responsabilizar o ambiente social de entusiasmo criado pelo governo central ou a pressão recebida por resultados maiores e mais rápidos de seus superiores nos governos de província e centrais. A palavra de ordem do momento era “duo kuai hao sheng de jianshe shehuizhuyi” (“construir o socialismo de uma maneira mais rápida, melhor e mais econômica”). Mas nos níveis de base, se supunha que os líderes conheciam suas condições locais melhor do que os níveis superiores do governo e que eram, ao fim, responsáveis pelas vidas da população local.

Se podemos criticar a administração dos líderes provinciais, não podemos criticar suas intenções. Havia um consenso entre os líderes do governo, líderes das comunidades locais e os camponeses comuns de que uma irrigação melhorada era necessária para aumentar a colheita de grãos. Assim, a maior parte dos camponeses via a ligação entre esses projetos de irrigação e uma vida melhor para eles mesmos em um futuro próximo. Ainda que eles tenham passado por muitas dificuldades na construção desses projetos na época, os camponeses disseram que não podiam negar o fato de que o objetivo era tornar as suas vidas melhores no futuro. Isso contrasta bastante com a atitude dos camponeses em relação aos projetos massivos de outras épocas, como quando eram mobilizados para construir palácios para a elite.

As táticas dos camponeses

Como sabemos que muitos camponeses praticaram atos individuais de sobrevivência durante o Grande Salto Adiante, como “moyanggong” (fingir trabalhar, sem fazer isso de fato) e chiqing (comer safras verdes antes que tenham amadurecido”. Como alguém que trabalhou em uma plantação coletiva durante muitos anos moyanggong e chiqing me parecem ser uma parte necessária de lidar com a vida diária durante o Grande Salto Adiante, mais do que formas de resistência individuais contra as políticas do governo e os oficiais. O que mais as pessoas poderiam fazer, quando estavam exaustas pelo trabalho mas não pensavam que era certo parar de trabalhar completamente enquanto outras pessoas trabalhavam? Era apropriado se envolver em moyanggong como uma forma de descansar enquanto outros camponeses continuavam o trabalho.

Chiqing era outra prática aceita e difundida durante o Grande Salto Adiante, tornada necessária pelas longas horas de trabalho e os estoques de comida escassos. Os camponeses comiam o que pudessem encontrar para satisfazer sua fome, não para demonstrar sua raiva ou resistir às políticas e funcionários do governo. Quanto trabalhei em uma plantação coletiva depois do Grande Salto Adiante, era um prática aceitável comer uma pequena quantidade de trigo, milho, batatas doces, amendoins, nabos e repolhos verdes. Às vezes cozinhávamos milho verde, soja e até mesmo batatas no campo. Camponeses em Shandong chamavam isso de shao pohuo (fazer uma pequena fogueira no campo). Depois começávamos um jogo de chi yao mohui (tentar sujar a o rosto do outro com nossas mãos cheias de cinza). Os garotos tentavam fazer isso com as garotas, e as garotas tentavam fazer isso com os garotos. Os líderes das equipes de produção participavam da brincadeira assim como os camponeses comuns. Sem entender o contexto social dessas práticas, é fácil vê-las como resistência cotidiana.

Apoio social aos camponeses

O clima social do momento também ajudava os camponeses a fazer a ligação entre esses projetos de irrigação e um futuro melhor. O governo deu grande atenção às zonas rurais durante o Grande Salto Adiante – se disse para toda a nação e para os membros do partido que deveriam ajudar a agricultura, as zonas rurais e os camponeses. Era uma prática comum que o governo local, trabalhadores das fábricas e da administração, unidades do exército e estudantes do ensino médio e do ensino superior viessem ajudar os camponeses durante as temporadas intensas.

Um velho camponês que entrevistei em Henan me contou com grande carinho como ele e seus companheiros camponeses ficaram empolgados em ver artistas nacionalmente famosos vir tocar para eles nos locais de irrigação durante o Grande Salto Adiante. Ele disse que suas horas de trabalho eram muitas e que a comida que comiam não era especialmente boa, mas os camponeses persistiam porque o Presidente Mao e o governo se preocupavam com os camponeses. “Esses artistas”, ele disse, “nos foram mandados pelo Presidente Mao”. Ele ouviu essas palavras dos artistas na época. Quarenta anos depois, ele usou essas palavras como se fossem as suas. Apenas na China de Mao artistas nacionalmente famosos iam tocar para os camponeses nas zonas de irrigação

As publicações pós-Mao taxaram essas iniciativas do governo de mandar artistas e intelectuais trabalharem com camponeses e operários como parte da perseguição maoista dos intelectuais. Mas essas iniciativas do governo serviram para aumentar a solidariedade o ânimo nacionais. Os camponeses que estavam na base da sociedade chinesa ganharam um sentido de sua importância e de empoderamento quanto funcionários do governo, professores e estudantes universitários estavam trabalhando lado a lado com eles. Mao e outros líderes nacionais trabalharam no Reservatório Shisanling em 25 de maio de 1958, mobilizando ondas de funcionários do governo para participar em atividades desse tipo[4]. Em 11 de outubro de 1959, 12.000 estudantes universitários e do ensino médio e professores da cidade de Qingdao vieram para o município de Jimo ajudar com as colheitas de outono e a plantação. Em setembro de 1960, 28.000 estudantes e professores de Qingdao vieram para Jimo para ajudar com as plantações.

Outro fator que ajuda a explicar o comportamento do camponeses chineses e sua atitude diante do Grande Salto Adiante foi o comportamento pessoal dos líderes. Por suas memórias, recentemente publicadas, sabemos que uma vez que o Presidente do Partido Comunista, Mao Zedong, percebeu a situação difícil da China rural durante o Grande Salto Adiante, ele abandonou o consumo de carne. Ele também se recusou a ouvir a sugestão das pessoas a sua volta de que deveriam deixar que suas filhas consumisse um pouco mais de comida. Alguns podem dizer que não era um grande sacrifício para Mao deixar de comer carne de porco enquanto centenas de milhares de camponeses estavam sofrendo por causa de suas políticas questionáveis e erros de administração. Mas a maior parte dos camponeses na época não poderia possivelmente saber o que Mao fazia ou deixava de fazer. O que os camponeses sabiam no momento era o comportamento dos líderes municipais, regionais e das comunas.

A liderança dos oficiais locais

Camponeses em Jimo acreditavam que a qualidade dos líderes nacionais era definida pela qualidade dos líderes nas bases ( guojia lingdai ren de pingde cong difang guanyuan de pingde zhong biaoxian chulai). Durante o Grande Salto Adiante, os líderes do município de Jimo, incluindo os líderes principais, o Secretário Municipal do Partido Xu Hua e o Chefe do Governo Regional, Li Anshi, e outros líderes regionais, estavam viajando pela região para trabalhar com o povo nos projetos de irrigação locais. Cada líder regional ou de comuna assumia a responsabilidade por pelo menos uma localidade. Os líderes visitavam e trabalhavam na localidade “de base” regularmente; os moradores os conheciam e eles conheciam bem os moradores. Mais importante, eles comam a mesma comida que os camponeses comuns em suas casas, e sempre pagavam o preço regular por sua comida, o que era normalmente maior do que o preço real da comida. Na hora do almoço, eles comiam na casa dos camponeses, escolhidos de maneira aleatória. Na época, os camponeses comiam na maior parte do tempo batatas doces, e Wang Shuchun comia a mesma comida que eles. Depois das refeições ele deixava trinta centavos e um cupom de grãos de tês liangs por sua refeição.

De fato, a maior parte dos líderes locais durante o Grande Salto Adiante eram ativamente presentes na vida cotidiana do povo. Eles trabalhavam nos locais de obras com os camponeses na maior parte do tempo, e comiam a mesma comida que os camponeses comuns.

O Secretário do Partido do distrito de Maqiao, Wu Changxing, trabalhou com os camponeses nos locais de irrigação dia e noite durante o Grande Salto Adiante. Ele se recusou a comer mais do que qualquer outra pessoa, e no fim morreu com uma combinação de exaustão e desnutrição – a única pessoa a morrer no local de construção do distrito de Maqiao. Outras pessoas, movidas pela fome, começaram a comer plantas verdes, mas ele sentia que, como um membro do Partido Comunista Chinês (PCCh) e o secretário partidário do distrito, ele não poderia se rebaixar a esse nível. Outras pessoas poderiam trapacear um pouco, tomando pausas maiores para o banheiro, mas ele sentia que, como um líder, ele deveria ser um modelo para os outros. Wu Changxing deixou dois filhos, e os camponeses de Maqiao cuidaram muito bem de seus filhos, por seu respeito em relação a seu líder honesto e trabalhador.

Em setembro de 1960, com estudantes, professores e outros, 2.100 funcionários provinciais e da cidade também vieram trabalhar com os camponeses em Jimo. A maior parte dos camponeses que entrevistei em Jimo ficaram contentes em ver funcionários do governo trabalhando lado a lado com eles. “Estávamos muito felizes de ver os oficiais do governo do povo e os intelectuais urbanos comerem a mesma comida e fazer o mesmo trabalho que nós. Sentíamos uma ligação muito próxima com eles naquela época.” Esse aspecto frequentemente ignorado da sociedade e da política chinesas é um fator importante por trás da elevada moral popular durante o Grande Salto Adiante.

Durante esse período, a maior parte das pessoas estava magra, e os líderes regionais e de comunas eram tão magros quanto todos os outros. Se baseando em seu tamanho corporal, era quase impossível distinguir esses líderes dos camponeses comuns. “O Secretário Regional do Partido Xu”, disse Zhang Yingfa, um camponês de Rio do Sul, “era tão alto quanto eu, mas definitivamente era mais magro do que eu quando veio trabalhar conosco na aldeia”. Isso, novamente, contrastava muito com a imagem tradicional dos oficiais de governo chineses. Os camponeses diziam que era muito difícil perceber esses oficiais comunistas como opressores e pessoas ruins. Eles simplesmente não causavam raiva entre os camponeses. Isso não quer dizer que não houvessem muitos oficiais ruins e corruptos na época. Mas aos olhos de muitos dos habitantes rurais de hoje, os oficiais de Mao eram drasticamente diferentes do tipo “jovem e mais escolarizado” de oficiais do governo chinês da época das “reformas” posteriores, que vinham aos povoados apenas em carros e que comiam grandes banquetes às custas dos camponeses. Um importante fator para evitar rebeliões camponesas durante um período d graves dificuldades era o estilo de liderança e a integridade pessoal dos oficiais comunistas.

Haviam muito poucas diferenças de renda ou de origem entre os líderes locais e o povo liderado. Os líderes dos povoados nos anos 1950 entendiam os camponeses pobres muito melhor do que seus antecessores e sucessores na história chinesa. Esse entendimento era a força do Partido Comunista, e teve um papel importante para evitar a decomposição do governo durante o Grande Salto Adiante. Os camponeses tendiam a seguir os líderes locais que vinham das mesmas origens socioeconômica que a imensa maioria deles e demonstrava preocupação em relação a suas necessidades. Mao se tornou o grande líder do povo chinês exatamente porque conseguia ver o potencial revolucionário dos líderes camponeses. Foram esses camponeses e líderes camponeses que realizaram os objetivos fundamentais da Revolução Chinesa e rejuvenesceram a sociedade chinesa.

Durante a Campanha de Educação Socialista de 1964, logo depois do Grande Salto Adiante, muitos líderes locais municipais foram acusados de corrupção comum e delitos leves, como comer mais do que sua cota de comida, roubar pequenas quantidades de dinheiro dos fundos coletivos e dividir pequenos números de grãos entre eles durante o Grande Salto Adiante. Aos olhos do Partido Comunista, que exigia que seus membros passassem pelas dificuldades primeiro e aproveitassem os benefícios depois (chi ku zai qian, xiangshou zai hou), esse tipo de desvio de comportamento não podia ser permitido. Mas julgando pelos padrões de hoje, ou pelo padrões da China tradicional, a corrupção dos líderes locais era pequena. É natural que, no meio de uma escassez de grão, as pessoas mais próximas da comida comessem um pouco mais para sobreviver.

Da Revolução Cultural às “reformas” agrárias

À luz da pequena corrupção difusa entre os líderes locais durante o Grande Salto Adiante, um dos mais importantes objetivos da Revolução Cultural era dar poder aos camponeses comuns para que participassem da política local[5]. A autoridade dos líderes locais foi bastante diminuída como resultado do desenvolvimento do poder dos camponeses comuns nesse período, e o governo local se tornou mais legítimo aos olhos do povo do que durante o Grande Salto Adiante. Os governos central, provincial, regional, distrital e da comuna deram muita atenção à agricultura, às zonas rurais e aos camponeses. Muitos camponeses foram selecionados para participar em todos os níveis de governo. Oficiais eram incentivados a trabalhar com os camponeses e a população urbana era incentivada a apoiar a população rural. Dezessete milhões de jovens urbanos, escolarizados, foram mandados para viver e trabalhar nas zonas rurais durante os anos da Revolução Cultural. Consequentemente, aos olhos dos camponeses o governo se preocupava com eles[6].

Distúrbios sociais atuais

A mídia chinesa está repleta de histórias de sucesso relativas à reforma agrária desde que o governo de Deng Xiaoping começou as “reformas” no início dos anos 1980. Os estudiosos chineses e ocidentais basicamente repetiram as declarações do governo sobre os sucessos dessas reformas rurais. De acordo com a versão oficial, as colheitas aumentaram dramaticamente e o luvro dos camponeses aumentou de maneira significativa (as colheitas de fatoaumentaram, em parte por causa dos projetos de irrigação, seleção de plantas e fábricas locais de fertilizante construídas durante o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural). As pessoas que estudavam a China ruram levantaram a hipótese de que o aumento da colheita de grãos se devia à mudança da produção coletiva à produção privada. Também é verdade que a China não pasou por desastres naturais graves nos últimos vinte e cinco anos e que tenham tido efeitos grandes sobre a produção agrícola, e os camponeses têm à sua disposição mais grãos do que antes. Nos povoados que visitei nas províncias de Henan e Shandong, a maior parte das famílias rurais tem por volta de 1 a 1.5 toneladas métricas (dois ou três mil jin) de grãos estocados em suas casas, o que seria normalmente o suficiente para dois anos de consumo.

De acordo com a visão padrão, as revoltas rurais que estão acotnecendo na China hoje são difíceis de explicar. Em 2001, Politics in Yue Village de Yu Jianrong foi publicado, documentando os protestos rurais contemporâneos na província de Hunan. Em 2004, dois grandes protestos na província de Sichuan envolvendo centenas de milhares de camponeses chocaram o mundo. Em um incidente, mais de cem mil camponeses cercaram os prédios do governo local por três dias; mais de uma dúzia de carros de polícia foram incendiados, e o governo mandou cem mil policiais armados conterem a multidão. Em outro incidente, uma multidão irada fez o governador da província de refém por alguns dias. Desde então, ninguém mais duvida que o governo chinês enfrenta uma crise séria nas zonas rurais.

Houve uma grande mudança nas percepções dos camponeses a respeito do PCCh desde época do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural. Como discutimos acima, os camponeses viam, então, o PCCh e os oficiais locais, regionais e nacionais como trabalhando nos seus melhores interesses. Mas quando entrevistei pela primeira vez os camponeses em Jimo sobre a sua reação à reorganização rural em 1982, a resposta mais comum era que gongchandang bu guan women la (“o Partido Comunista não se importa mais conosco”). “Women jiuyao cheng moniangde haozila” (“vamos ficar órfãos”), um velho camponês me disse na época. Essa resposta simples estão carregada de muitas implicações. Ela quer dizer que alguns camponeses consideravam a política de produção rural coletiva do governo como uma indicação de que o Partido Comunista se preocupava com as suas condições de vida. Mas como resultado das “reformas” agrária, o governo não podia mais ser visto como estando do seu lado – ele poderia, na melhor das hipóteses, ser visto como neutro. Essa mudança na percepção das políticas e ações do PCCh pelos camponeses, junto com a mudança nos estilos de liderança dos oficiais comunistas nos vários níveis de governo, tem tido um grande impacto na maneira como os camponeses percebem e interagem com o Estado.

Privatização, corrupção, desigualdade e crime

No processo da reorganização rural, alguns meios de produção de propriedade coletiva acabaram nas mãos dos antigos líderes locais. No município de Jimo, a maior parte das empresas industriais de propriedade coletiva foram primeiro concedidas a seus administradores e depois vendidas a eles. A fábrica do povoado que administrei antes de ir para a universidade em 1978 foi vendida para o seu administrador seguinte, Liu Dunxiao. Em menos de vinte anos, Liu e sua família lucraram mais de 200 milhões de yuans (mais ou menos 30 milhões de dólares). O irmão mais novo de Liu, com a sua ajuda, controla o sistema de transporte público no distrito, e tem também um patrimônio de bilhões de yuans. O mesmo processo transferiu muitas empresas de propriedade estatal e coletiva para a propriedade privada em um sistema de fisiologismo. O povo chiês agora se refere a esse processo como o pecado original da classe capitalista chinesa, classe que ascendeu desde o meado dos anos 1980. Essa aquisição de recursos de propriedade coletiva ou estatal era inconstitucional e ilegal. Ela também violava o sentido de justiça social amplamente aceito pelos camponeses chineses. Um capitalista já me disse, em entrevista, que a maior parte da classe capitalista chinesa tinha uma origem criminosa, o que é como ter uma espada pendurada sobre as suas cabeças. Muitos camponeses agora colocam em questão a legitimidade política do governo que encorajou essa aquisição criminosa de propriedades coletivas e meios de produção estatais.

Desde as reformas agrárias, os diferentes níceis do governo não organizam mais projetos de irrigação de grande escala na China e a presença do governo na vida dos camponeses se tornou mínima. Os governos municipais agora só fazem duas coisas: coletar os impostos sobre os grãos e reforçar as políticas de planejamento familiar. Os camponeses acreditam que os governos municipais só querem o seu dinheiro (impostos) e as suas vidas (planejamento familiar) (yao qian he yao ming).

O recuo do governo nacional nas zonas rurais é considerado um progresso pela mentalidade econômica liberal dos livres mercados. Parece que o Estado está dando à sociedade em geral e à população rural em particular o poder para assumir o controle de sua própria vida. Os camponeses deveriam ter recebido bem essa reorganização rural. Mas a realidade é mais complicada.

Durante a era coletivista, os líderes das comunas viviam nas zonas rurais em que trabalhavam. Eles ia para os povoados de bicicleta. Hoje, os líderes dos governos municipais são mas escolarizados e não querem viver nas zonas rurais. Eles construíram casas luxuosas no estilo ocidental nas capitais distritais. Portanto, o governo municipal tem que comprar um carro para cada um dos quatro oficias maiores do governo: o secretário municipal do partido, o secretário distrital do partido, o líder do governo municipal e o líder do governo distrital. Eles também precisam de motoristas para levá-los para o trabalho todos os dias. Como não têm muito o que fazer, estão sempre entediados. E assim, visitam restaurantes e pontos de lazer. “Os restaurantes rurais nas áreas do entorno”, disse um camponês, “começaram a oferecer serviços de xiaojie (prostitutas) porque os líderes do governo local querem”.

Enquanto os gastos do governo local aumentam, as maneiras de extrair dinheiro dos camponeses se multiplicam, agora que o imposto agrário foi eliminado. Muitos governos locais usam o planejamento familiar como uma maneira de tirar mais dinheiro dos camponeses. Para conseguir uma permissão para ter um filho, os camponeses têm que subornar os oficiais de governo do município e do povoado. Alguns lideres municipais e dos povoados vendem permissões de parto para camponeses que têm dinheiro. Em alguns lugares, os oficiais locais chegam até a encorajar os camponeses ricos a terem mais filhos para que possam ganhar com as “multas” por eles. Em contexto social desses, os camponeses questionam a legitimidade política do governo central, assim como dos funcionários regionais e locais. Outra maneira de fazer dinheiro é o confisco de terras pelos funcionários regionais e locais, que então vendem a terra para fins de “desenvolvimento”, sem compensar os camponeses por isso – aumentando, assim, muito a tensão nas zonas rurais.

A mudança na percepção dos camponeses em relação à legitimidade do governo e ao comportamento dos oficiais transformou a interação dos camponeses com o Estado. O entrevistados no povoado Rio do Sul, no município de Jimo, me relataram que os camponeses se recusaram a saquear os reservatórios de grãos desprotegidos perto de seu povoado durante a falta de grãos no Grande Salto Adiante. Mas agora, eles começaram a se envolver em todos os tipos de atividades ilegais e ilícitas. Muitos camponeses foram presos por roubar em mercados e de outros camponeses. Eles lutam contra os fiscais do governo. Em um incidente, dois irmãos agrediram um coletor de impostos e acabaram na prisão por dois anos.

Alguns indivíduos mais ousados organizaram uma gangue de ladrões, roubando em grande escala. Eles construíram uma rede de colaboradores nas cidades grandes, que identificam os alvos: na maior parte das vezes, casas de oficiais corruptos e empresários ricos. Eles vêm à cidade grande, cometem seus crimes com precisão e então retornam para suas cidades e dividem os ganhos com seus colaboradores urbanos. Dessa maneira, conseguem viver uma “boa vida” e reduzir o risco de serem pegos. A maior parte das pessoas, até mesmo a polícia local, sabem como essas pessoas ganham a vida.

Outro grupo de camponeses organizou uma sociedade secreta que se envolve em contrabando e oferece assassinos de aluguel. Eles matam ou ferem pessoas pelo preço certo. Alguns desses camponeses, que eram tímidos e obedientes durante o Grande Salto Adiante, trabalhadores mas agressivamente ativos politicamente durante a Revolução Cultural, se tornaram bandidos, ladrões e agressores durante o período das reformas.

A sociedade chinesa durante o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural era relativamente pobre. As pessoas mal tinham o que comer e vestir. Mas muitos camponeses se lembram desses tempos com afeto. Havia uma igualdade geral das condições de vida, muito pouca corrupção, muitos poucos crimes, não haviam drogas nem prostituição.

Hoje, a maior parte das pessoas na China rural se tornaram mais ricas. No município de Jimo, a área principal de minha pesquisa, algumas pessoas têm bastante dinheiro. Alguns lares dizer ter milhões. Mas, ao mesmo tempo, a vida das pessoas está repleta de crime, corrupção, prostituição e abuso de drogas – e existe um grande abismo entre ricos e pobres.

A resposta do governo às condições rural e aos distúrbios

O governo chinês começou a admitir, pela primeira vez desde a reforma agrária dos anos 1980, que ele encaram uma séria tripla crise, quanto à agricultura, as zonas rurais e os camponeses (san nong wenti). Estudiosos e oficiais do governo começaram a discutir a crise abertamente. O livro Yucun Politics (Yuecun Zhengzhi) de Yu Jianrong descreve um incicente em Hunan e, que mais de dez mil camponeses invadiram o prédio do governo municipal. Um camponês de sessenta e dois anos quebrou seis placas do governo no prédio do governo municipal, citando as palavras de Mao Zedong: “rebelar-se é justo”. Cheng Guili e Chun Tao, em seu Zhongguo Nongmin Diacha (Investigando os camponeses chineses), registra vários casos de opressão oficial contra os camponeses.

A diretiva número um do governo central em 2004 tinha o objetivo de aumentar a renda da população rural. Para isso, o governo chinês, no verão de 2006, eliminou completamente os impostos agrícolas para a população rural.

No entanto, a crise que o governo chinês encara na China rural não simplesmente uma crise para o aumento da renda dos camponeses. É uma questão muito complexa, envolvendo a legitimidade do governo, a conduta dos oficiais e muitas outras questões. Enquanto muitas pessoas aplaudem a eliminação dos impostos agrícolas pelo governo chinês, essa ação é mais sensacional do que efetiva, e pode ser até perigosa. A eliminação dos impostos agrícolas enfraquece ainda mais a presença do governo nas zonas rurais. Mas a China rural, hoje, precisa de uma presença governamental mais forte, e não mais fraca. As zonas rurais precisam quem o governo ofereça educação gratuita e cuidados de saúde. Os camponeses precisam que o governo os proteja dos capitalistas ambiciosos – apoiados pelos oficiais locais – que tomam terras camponesas. A China rural precisa de impostos progressivos – impostos sobre os ricos para proteger os fracos e os pobres. Simplesmente eliminar todos os impostos leva a mais corrupção, porque os oficiais locais inventam outras maneiras de ganhar dinheiro.

O governo central chinês culpou os oficiais locais pelos problemas na China rural. De maneira semelhante, a mídia chinesa fez dos oficiais de governo municipais os bodes expiatórios para a tensão crescente entre o governo e os camponeses na China. Um dos oficiais de governo municipal que entrevistei me disse que sentia que era ao mesmo tempo fácil e arriscado usas os oficiais municipais como bodes expiatórios: eles eram o sintoma, e não a causa do problema, que é sistêmico e muito mais profundo do que o governo central imagina. Culpas os oficiais municipais é apenas esconder o problema real e levar a mais distúrbios sociais. E, uma vez que a população rural se levantar, eles não irão pensar cuidadosamente contra quem vão se levantar. Essa é a natureza dos levantes populares.

Olhando novamente para Mao

Depois que o III Encontro Plenário do Décimo Primeiro Comitê Central PCCh (Dezembro de 1978) passou a resolução de criticar os erros de Mao durante o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural, a mídia chinesa, controlada pelas elites anti-maoistas, não hesitou em publicar livros denunciando tanto o Grande Salto Adiante quanto a Revolução Cultural. Pelos últimos trinta anos, os sentimentos anti-Mao, anti-Grande Salto Adiante e anti-Revolução Cultural dominaram o discurso intelectual chinês. No entanto, muitas pessoas escreveram suas próprias memórias em um esforço para reunir memórias culturais e históricas do Grande Salto Adiante. Em essência, esses autores – cujos ensaios contradizem diretamente as denuncias oficiais – protestaram contra a “reescrita da história” pelos oponentes de Mao.

Em dezembro de 2006, Deng Pufang respondeu a um repórter da Reuters, dizendo que a Revolução Cultural foi desastrosa não apenas para ele e sua família, mas também para a nação chinesa. No entanto, essa caracterização quase rotineira da época disparou uma avalanche de comentários do povo chinês, gerando, em pouco mais de um mês, mais de 35.000 objeções na internet. A imensa maioria desses comentários aplaudia a contribuição de Mao para o povo chinês e criticava as graves consequências causadas pelas reformas rurais que Deng Xiaoping introduziu. Algumas pessoas comentaram que a nova elite deveria “parar de mentir sobre o Presidente Mao. As pessoas estão acordando, e não se pode mais enganar o povo com mentiras sobre o Presidente Mao”. Muitos disseram que a “história é escrita pelo povo, e não pelas elites”. Para muitos chineses, “o Presidente Mao trabalhou pelo povo chinês toda a sua vida e continua a viver no coração do povo”. Parece que os esforços do governo e das elites para desacreditar os legados de Mao saíram pela culatra, com implicações importantes para a política chinesa no futuro.

Como é possível explicar a grande estima que muitos no povo chinês têm por Mao – muito depois de sua morte – apesar do massacre oficial e semioficial a seu legado e sua imagem? As elites chinesas e os inimigos de Mao produziram várias publicações para desacreditar Mao. Mas se os sofrimentos e brutalidades supostamente impostos aos camponeses chineses pelo governo de Mao são verdadeiros, os camponeses teriam sido os primeiros a saber deles. Por que, então, muitos camponeses ainda penduram uma fotografia de Mao em suas casas, guardam suas memórias com carinho e, em alguns lugares, constroem templos para louvá-lo?

Esses camponeses me lembram de meus colegas e estudantes nos EUA, que vieram para a China comigo para os cursos de estágio mundiais de minha universidade. As longas filas fora do mausoléu de Mao na Praça Tiananmen sempre os surpreenderam. Os operários e camponeses, que perderam os benefícios que tinham conquistado com as políticas socialistas de Mao, vinham mostrar seu respeito ao seu líder, muitas vezes com lágrimas nos olhos. Essa é mais uma indicação da contínua popularidade de Mao entre a classe trabalhadora chinesa.

Conclusão

Como se explica a mudança na interação entre o Estado e a sociedade do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural à época das reformas? Mencius uma vez disse Yi shi dao shi min, sui ku er bu yuan, yi sheng dao sha ren, sui si er bu yuan (o povo não irá reclamar se o governante emprega o povo com boas intenções, e o povo não irá reclamar se o governante leva o povo a morrer com a intenção de garantir a sua sobrevivência). Isso quer dizer que, quando um governo é considerado legítimo e a conduta oficial se alinha com essa legitimidade, o povo irá seguir as políticas do governo e suportar as dificuldades. Assim, o governo irá sobreviver através dos desafios e das dificuldades. No entanto, quanto a legitimidade do governo está em questão ou a conduta oficial é repulsiva, o povo estará menos disposto a seguir as políticas do governo e, quando a crise chegar, estará mais disposto a se rebelar. A grande quantidade de distúrbios camponeses na China de hoje é o resultado de uma perda da legitimidade do governo. Para inverter essa tendência, o governo precisa fazer mais do que simplesmente aumentar a renda dos camponeses.

O governo chinês pode conter a corrupção oficial nas zonas rurais de duas maneiras. Ele pode ressuscitar os mecanismos de auto-crítica e disciplina do Partido Comunista dos velhos tempos, em que os líderes e os membros da base do partido mantém encontros regulares para examinar seu próprio comportamento e acordo com as políticas e regulações do partido. Ao mesmo tempo, o governo pode dar poder aos camponeses comuns encorajando-os a criticar os oficiais do governo e suas políticas de diferentes maneiras, incluindo os grandes cartazes que foram amplamente usados durante o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural, e se mostraram efetivos para conter a corrupção oficial. Mais importante, o governo precisa selecionar mais camponeses para posições de governo e encorajar os oficias locais a viver e trabalhar com os camponeses sempre que possível.

O abismo entre ricos e pobres se tornou um grande problema na China, especialmente nas zonas rurais, e causou muitos problemas sociais sérios, como o aumento do crime. Uma distância muito grande entre ricos e pobres irá desintegrar a sociedade chinesa e ameaçar a estabilidade da China. Práticas mais igualitárias melhorariam a coerência interna da China e tornariam possível que o país lidasse mais diretamente com seus desafios.

Notas:

[1] O alcance dos protestos rurais na China raramente é noticiado de maneira coerente pela mídia ocidental. Mas de acordo com a reportagem publicada pela agência de notícias chinesa Xinhua publicada no Diário do Povo (“China grapples with thorny issue of rural land rights”, disponível emhttp://www.gov.cn/english/2006-09/01/content_375653.htm), houveram 87.000 protestos, revoltas e outros “incidentes de massa” relacionados a perda da terra em 2005, 6% a mais do que em 2004 e 50% a mais do que em 2003. Assim, só nesses três anos aconteceram bem mais de 100.000 ações desse tipo! O artigo aponta que “antes uma base de apoio do Partido Comunista da China, que conquistou amplo apoio no campo seis décadas atrás, muitos camponeses chineses agora se sentem alienados de suas próprias terras, antes frutos da revolução”. Nos sete anos antes da notícia de janeiro de 2006 ser escrita, mais ou menos 6.7 milhões de hectares agriculturáveis (5% do território agriculturável chinês) foram convertidos para outros usos – estradas, fábricas, etc. As pessoas também protestam contra a poluição industrial do ar, da água e do solo. Em 2007, o último ano em que o governo chinês liberou dados sobre os “incidentes de massa”, protestos envolvendo mais de cem pessoas, houveram 80.000 acontecimentos do tipo.

[2] New China News Agency: “National Militia Work Conference was held in Beijing on February 8, to Discuss and Study the Experiences and Accomplishments of Large Scale Organization of Militia Divisions since 1958.” Zhonghua renmin gongheguo dashiji, The Chronology of People’s Republic of China, (Beijing: Xinhua Press, 1982), 282.

[3] The Chronology of People’s Republic of China, 209, vol. 1 (Beijing: Xinhua Press, 1982), 210-14.

[4] The Chronology of People’s Republic of China, 209, vol. 1, p. 208.

[5] Para uma discussão detalhada da mudança e do progresso nas zonas rurais durante a Revolução Cultural, ver Dongping Han, The Unknown Cultural Revolution: Life and Change in a Chinese Village (Nova York: Monthly Review Press, 2008).

[6] Ver Dongping Han, “Hukou System and China’s Rural Development,” Journal of Developing Areas, primavera de 1999, e “Impact of the Cultural Revolution on Rural Education and Economic Development,” Modern China 27, no. 1, janeiro de 2001.

Sobre o autor

Dongping Han é professor de História e Ciência Política no Warren Wilson College, Carolina do Norte. Publicou inúmeros artigos em jornais e The Unknown Cultural Revolution (Monthly Review, 2008). Vem de uma origem rural na China. A maior parte das pesquisas para esse artigo foram feitas por meio de entrevistas nas zonas rurais discutidas.

3 de dezembro de 2009

O legado de 1989 em dois hemisférios

Noam Chomsky

In These Times

Novembro marcou o aniversário de grandes eventos em 1989: "o maior ano na história mundial desde 1945", como descreve o historiador britânico Timothy Garton Ash.

Aquele ano "mudou tudo", escreve Garton Ash. As reformas de Mikhail Gorbachov dentro da Rússia e sua "renúncia ao uso da força, de tirar o fôlego," levaram à queda do Muro de Berlim em 9 de novembro e à libertação do Leste Europeu da tirania russa.

Os louvores são merecidos; os eventos, memoráveis. Mas as perspectivas alternativas podem ser reveladoras. A chanceler alemã, Angela Merkel, forneceu essa perspectiva - de forma não intencional - quando ela pediu a todos nós para usarmos "este presente inestimável de liberdade... para superarmos os muros de nosso tempo".

Uma forma de seguir seu bom conselho seria desmontar o enorme muro, encolher o muro de Berlim em escala e comprimento, que agora serpenteia pelo território palestino em violação à lei internacional.

O "muro da anexação", como deveria ser chamado, é justificado em termos de "segurança" - a racionalização padrão para tantas ações do Estado. Se segurança fosse a preocupação, o muro seria construído ao longo da fronteira e seria impenetrável.

O propósito desta monstruosidade, construída com apoio americano e cumplicidade europeia, é permitir a Israel tomar terras palestinas valiosas e os principais recursos de água da região, negando assim qualquer existência nacional viável para a população natal da antiga Palestina.

Outra perspectiva sobre 1989 vem de Thomas Carothers, um acadêmico que serviu em programas de "ampliação da democracia" no governo do ex-presidente Ronald Reagan.

Após rever o histórico, Carothers conclui que todos os líderes americanos foram "esquizofrênicos" - apoiando a democracia se ela atende aos objetivos estratégicos e econômicos americanos, como nos satélites soviéticos, mas não nos Estados clientes dos Estados Unidos.

Esta perspectiva é dramaticamente confirmada pela recente comemoração dos eventos de novembro de 1989. A queda do muro de Berlim foi acertadamente celebrada, mas pouco foi dito sobre o que aconteceu uma semana depois: em 16 de novembro, em El Salvador, o assassinato de seis importantes intelectuais latino-americanos, padres jesuítas, juntamente com a cozinheira deles e a filha dela, por um batalhão Atlacatl de elite, armado pelos Estados Unidos, recém-saído de treinamento na Escola LFK de Guerra Especial no Forte Bragg, Carolina do Norte.

O batalhão e seus comparsas já tinham reunido um histórico sangrento ao longo de uma década medonha em El Salvador, que teve início em 1980 com o assassinato, praticamente pelas mesmas mãos, do arcebispo Oscar Romero, conhecido como a "voz dos sem voz".

Durante a década da "guerra ao terror" declarada pelo governo Reagan, o horror foi semelhante por toda a América Central. O reino da tortura, assassinato e destruição na região deixou centenas de milhares de mortos. 

O contraste entre a libertação dos satélites soviéticos e o esmagar da esperança nos Estados clientes dos Estados Unidos é notável e instrutivo - ainda mais quando ampliamos a perspectiva.

O assassinato dos intelectuais jesuítas colocou um fim virtual à "teologia da libertação", o revival do cristianismo que teve suas raízes modernas nas iniciativas do papa João 23 e do Concílio Vaticano 2º, que ele abriu em 1962.

O Vaticano 2º "promoveu uma nova era na história da Igreja Católica", escreveu o teólogo Hans Kung. Os bispos latino-americanos adotaram "a opção preferencial pelos pobres".

Assim, os bispos renovaram o pacifismo radical dos Evangelhos, que foi abandonado quando o imperador Constantino estabeleceu o cristianismo como a religião do Império Romano - "uma revolução" que em menos de um século converteu "a Igreja perseguida" em uma "Igreja perseguidora", segundo Kung.

No revival pós-Vaticano 2º, os padres, freiras e leigos latino-americanos levaram a mensagem dos Evangelhos aos pobres e perseguidos, os uniram em comunidades e os encorajaram a tomar as rédeas de seu destino.

A reação a esta heresia foi uma repressão violenta. Ao longo do terror e massacre, os praticantes da teologia da libertação eram os principais alvos. Entre eles estão os seis mártires da Igreja, cuja execução há 20 anos agora é comemorada com grande silêncio.

No mês passado em Berlim, os três presidentes mais envolvidos na queda do Muro - George H. W. Bush, Mikhail Gorbachov e Helmut Kohl - discutiam quem merecia o crédito.

"Agora eu sei como os céus nos ajudaram", disse Kohl. George H.W. Bush elogiou os alemães-orientais, que "por tempo demais foram privados de seus direitos dados por Deus". Gorbachov sugeriu que os Estados Unidos precisam de sua própria perestroika.

Não existem dúvidas a respeito da responsabilidade pela demolição da tentativa de reviver a igreja dos Evangelhos na América Latina durante os anos 80. A Escola das Américas (de lá para cá rebatizada de Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança) no Forte Benning, Geórgia, que treina oficiais latino-americanos, anuncia orgulhosamente que o Exército americano ajudou a "derrotar a teologia da libertação" - assistido, certamente, pelo Vaticano, usando a mão mais gentil da expulsão e supressão.

A campanha sombria para reverter a heresia provocada pelo Vaticano 2º recebeu uma expressão literária incomparável na parábola de Dostoiévski do Grande Inquisidor, em "Os Irmãos Karamazov".

Neste conto, situado na Sevilha dos "tempos mais terríveis da Inquisição", Jesus Cristo aparece repentinamente nas ruas, "suavemente, sem se fazer notar, e, coisa estranha, todos O reconhecem" e o povo era "atraído por uma força irresistível".

O Grande Inquisidor "aponta-o com o dedo e ordena aos guardas que o prendam". Lá ele acusa Cristo de vir "incomodar-nos" na grande obra de destruir as ideias subversivas de liberdade e comunidade. Nós não seguimos a Ti, o Inquisidor admoesta Jesus, mas sim Roma e "espada de César". Nós buscamos ser os únicos governantes na Terra para que possamos ensinar às multidões de "fracos e vis" que "havemos de persuadi-los de que não serão verdadeiramente livres senão abdicando da sua liberdade em nosso favor". Então eles serão tímidos, temerosos e felizes. Então amanhã, diz o Inquisidor, "queimar-Te-ei".

Finalmente, entretanto, o Inquisidor cede e o liberta "nas trevas da cidade. O Preso vai". Os pupilos da Escola das Américas, dirigida pelos americanos, não praticaram essa misericórdia.

2 de dezembro de 2009

Holodomor: o novo avatar do anticomunismo "europeu"

Annie Lacroix-Riz


Desde novembro de 1917 sucederam-se sem cessar campanhas antibolcheviques tão violentas quanto diversas, mas a da «fome na Ucrânia», lançada em 1933, tem prevalecido de há 20 anos para cá. Ela foi desencadeada quando os grandes imperialismos, com a Alemanha e Estados Unidos à cabeça, ávidos desde o século XIX por pilhar os imensos recursos da Ucrânia, se julgaram em condições do o conseguir. A conjuntura sorriu ao Reich em 1932-1933, quando o Sul da URSS (Ucrânia e outras «terras negras», Norte do Cáucaso e do Cazaquistão) foi atingido por uma considerável diminuição das colheitas e o conjunto da União por dificuldades de aprovisionamento acarretando o regresso a um racionamento estrito. Grave «penúria» sobretudo durante a «transição» (entre duas colheitas), não especificamente ucraniana, segundo a correspondência diplomática francesa; «fome» ucraniana segundo os relatórios de 1933-1934 dos cônsules alemães e italianos, explorados pelos Estados ou grupos apostados na secessão da Ucrânia: Alemanha, Polônia, centro principal de agitação em Lwow, e Vaticano.

Esta penúria ou esta fome resultou de fenômenos naturais e sociopolíticos; uma seca catastrófica multiplicou os efeitos da retenção crescente dos fornecimentos (abate de gado incluído), desde a passagem dos anos 20, pelos antigos kulaques (os camponeses mais ricos), hostis à coletivização. Esta fracção, em luta aberta contra o regime soviético, constituía, na Ucrânia, uma das bases de apoio ao «autonomismo», disfarce semântico da «secessão», em benefício do Reich, da região agrícola rainha das «terras negras», para além de principal bacia industrial do país. O apoio financeiro alemão, massivo antes de 1914, intensificou-se durante a I Guerra Mundial, quando a Alemanha transformou a Ucrânia, tal como os países bálticos, na base econômica, política e militar do desmantelamento do império russo. A República de Weimar, fiel ao programa de expansão do Kaiser, continuou a financiar «o autonomismo» ucraniano. Ao chegarem ao poder, os hitlerianos anunciaram o seu plano de anexação da Ucrânia soviética, e todo o autonomismo ucraniano (os meios policiais, diplomáticos e militares convergem) aderiu entre 1933 e 1935 ao Reich, então mais discreto acerca das suas intenções sobre o resto da Ucrânia.

Nessa altura, a URSS não controlava efetivamente senão a Ucrânia oriental (Kíev-Khárkov), que tinha voltado a ser soviética em 1920, depois da secessão operada durante a guerra civil/estrangeira: grandes pedaços da Ucrânia foram espoliados ou não atribuídos, apesar da pertença étnica da sua população, das promessas francesas, em 1914, de devolver os despojos do império austro-húngaro à Rússia tsarista aliada, e da fixação da «Linha Curzon» em 1919. O imperialismo francês, um dos dois artífices (com Londres) da guerra estrangeira feita aos soviéticos, depois também do «cordão sanitário» que se seguiu ao seu fracasso, ofereceu à Roménia, logo em 1918, a Bessarábia (Moldávia, capital Kichinov), antiga parte do império russo, e a Bucóvia; a Checoslováquia recebeu de uma assentada a Ruténia Subcarpátia; a Polónia de Pilsudski, com a ajuda do corpo expedicionário francês dirigido por Weygand1, obtém, entre 1920 e 1921, a Ucrânia ocidental ou Galícia oriental, que fora há muito austríaca – capital Lemberg (em alemão), Lvov (em russo), Lwow (em polaco), Lviv (em ucraniano). E isto na altura em que a «Linha Curzon» (nome do secretário dos Negócios Estrangeiros britânico), tinha considerado, em 1919, este território «etnicamente» russo, transladando a fronteira russo-polaca 150 km para Oeste da Ucrânia russa: a «Rússia» devia receber este território dos seus aliados quando eles próprios e os Brancos tivessem escorraçado os bolcheviques, o que não aconteceu.

Esta distinção geográfica é decisiva porque Lwow tornou-se – e Lviv permanece – um centro principal do clamor alemão, polaco e do vaticano sobre a «fome na Ucrânia», que começou no Verão de 1933, isto é, após uma excelente colheita soviética ter posto fim à crise dos aprovisionamentos. Se houve fome em 1932-1933, atingindo o seu máximo durante a «transição» (entre as duas colheitas), Julho de 1933 marcou o seu fim. A campanha difundiu-se por todo o campo anti-soviético, Estados Unidos incluídos, onde a imprensa germanófila do grupo Hearst a tomou a seu cargo. A fome não foi «genocida», o que é admitido por todos os historiadores anglo-saxônicos sérios, como R. W. Davies e S. Wheatcroft, não traduzidos em francês, ao contrário de Robert Conquest, agente dos serviços secretos britânicos tornado prestigiado «investigador» de Harvard, ídolo da «faminologia» francesa a partir de 1995.[1] A campanha original nem sequer tinha brandido o «genocídio»: Berlim, Varsóvia, o Vaticano, etc. condenaram Stálin, os Sovietes ou os judeus-bolcheviques, estigmatizaram a sua ferocidade ou a sua «organização» da fome e descreveram uma Ucrânia impelida pela fome ao canibalismo. Quanto aos franceses, imputavam aos planos secessionistas do trio este bulício lançado no momento em que o Reich prometia ao ditador polaco Pilsudski, se este restituísse Dantzig e o seu corredor, entregar-lhe de bandeja a Ucrânia soviética que juntos em breve conquistariam: François-Poncet, delegado do Comitê das Forjas e embaixador em Berlim, ria-se com sarcasmo dos lamentos quotidianos vertidos pela imprensa do Reich sobre o martírio ucraniano, grande ardil com intuitos externos (anexar a Ucrânia) e internos ("difamar os resultados do regime marxista"[2]).

A abundante correspondência militar e diplomática da época exclui a tese da ingenuidade dos «palermas» pró-soviéticos, tais como Édouard Herriot, cegos às mentiras e secretismos de Moscovo, durante a sua viagem em Setembro de 1933 à Ucrânia: ou seja, a tese defendida em 1994 pelo demógrafo Alain Blum, que introduziu em França o número dos «seis milhões de mortos». Esse símbolo concorrencial, tão caro aos anti-semitas ucranianos – era preciso fazer pelo menos tão bem como os judeus, antes de fazer muito mais, 7, 9, 10, 12, até 17 milhões, que eu tenha conhecimento, (isto para um efectivo total de cerca de 30 milhões de ucranianos soviéticos) –, foi adoptado no Livro Negro do Comunismo, em 1997, por Nicolas Werth. Na altura, este ainda refutava a tese «genocida», que passou a defender quando se comprometeu, em «2000, com um projecto de publicação de documentos sobre o Gulag (seis volumes sob a égide da Fundação Hoover e dos arquivos do Estado da Federação da Rússia)».[3] Número duplamente inaceitável: em primeiro lugar, Alain Blum dedu-lo de estimativas demográficas, já que a URSS não fez qualquer recenseamento entre 1926 e 1939: ora, entre estas datas, no quadro de um boom industrial orientado desde o início da grande crise capitalista para a defesa face à ameaça alemã, ocorreram gigantescos movimentos populacionais inter-regionais, que afetaram particularmente a Ucrânia agrícola coletivizada. O fraco crescimento da população ucraniana entre os dois recenseamentos não autoriza pois a equivalência: défice demográfico igual a mortos de fome; em segundo lugar, o modo de cálculo da estimativa é absurdo: Alain Blum alinhou-se com os estatísticos russos que, em 1990, agruparam as perdas presumíveis na década de 1930, atribuindo seis milhões – ao único ano de 1933[4].
O número fatídico foi retomado por «sovietólogos» franceses, como Stéphane Courtois, ligados ou não aos campeões da «Ucrânia independente» laranja. Absurdo supremo: na Ucrânia oriental teriam portanto morrido em alguns meses tantas vítimas – ou mesmo duas ou três vezes mais – como judeus exterminados a partir de 1939, sobretudo entre 1942 e 1944, num território que se estende da França aos Urais; e isto sem deixar nenhum dos traços visíveis, fotografias ou escritos, deixados pelo genocídio nazista.
É neste contexto que se movimentaram em França grupos «ucranianos», como a associação «Ucrânia 33», que foi alojada pelo arcebispado de Lyon, tendo como presidente honorário Monsenhor Decourtray.[7] Esta organização está subordinada ao Congresso Ucraniano Mundial, sediado em Washington e presidido por Askold S. Lozynskyj, que publicou no New York Times, em 18 de julho de 2002, a seguinte correspondência: "quando os Sovietes foram obrigados a retirar perante a invasão dos nazistas, em junho de 1941, massacraram os seus prisioneiros (...) da Ucrânia ocidental, detidos e internados às dezenas de milhares em 1939 (...). Isto foi efetuado com a ajuda dos comunistas locais, sobretudo dos etnicamente judeus. Este massacre não constituiu infelizmente uma aberração das ações soviéticas na Ucrânia. Em 1932-1933, na Ucrânia oriental, os Sovietes já tinham assassinado cerca de sete milhões de homens, mulheres e crianças ucranianas por meio de um genocídio estrategicamente planificado de fome artificial. O homem escolhido por Ióssif Stáline para perpetrar este crime era um judeu, Lazar Káganovitch.

O célebre historiador britânico Norman Davies concluiu que nenhuma nação teve tantos mortos como a ucraniana. O que foi em larga medida o resultado das ações tanto dos comunistas como dos nazistas. Os russos e os alemães eram bárbaros. Mas os judeus eram os piores. Eles traíram os seus vizinhos e fizeram-no com muito zelo!"[5].

Estes anti-semitas frenéticos mostraram-se mais discretos em França, onde bajularam associações judaicas e a Liga dos Direitos do Homem em «colóquios internacionais» e debates sobre «os genocídios» (judeu, armênio, ucraniano).[6] Em 2005-2006, eles exigiram a minha exclusão da Universidade de Paris 7, primeiro ao seu presidente e depois ao Presidente da República, Jacques Chirac, acusando-me de «negacionismo» por ter enviado por Internet aos meus estudantes uma compilação crítica (citada mais à frente) de arquivos sobre as patranhas da campanha germano-vaticano-polaca de 1933-1935. Não me perdoaram sobretudo o facto de ter lembrado, em 1996, o papel que teve na Ucrânia ocupada pela Wehrmacht a Igreja Uniata[11] da Galícia oriental, submetida ao Vaticano e confiada ao bispo (de Lwow), Monsenhor Szepticky, que abençoou as matanças da divisão ucraniana SS Galícia, formada a partir dos agrupamentos do nazi uniato Stepáne Bandera.12 Acrescentemos a estes dossiers comprometedores para os arautos do «Holodomor» que eu ouso afirmar que a diabolização do comunismo e da URSS não resulta da análise histórica mas de campanhas ideológicas; que, não contente de ser marxista, sou também judia, e um dos meus avós foi morto em Auschwitz – facto que eu tornei público em 1999, frente a uma outra campanha[8], e que estes excitados conheciam[9]: a natureza de todos estes elementos mobilizá-los-ia.

Faltou concretizar-se o sonho de obter o apoio dos judeus de França a uma campanha contra uma «judia-bolchevique» travestida de «negacionista»! Este assédio, contra o qual se levantaram o Snesup e o PRCF,15 que lançou em julho de 2005 uma eficaz petição apoiada pela revista (a única) La Libré Pensée,[10] esmoreceu depois de os «ucranianos», sob a proteção da polícia do ministro do Interior, N. Sarkozy, terem homenageado, em 25 de Maio de 2006, no Arco do Triunfo, o grande pogromista Petliura. Emigrado em França, depois dos seus crimes de 1919-1920, foi abatido em 1926 pelo judeu russo emigrado Schwartzbard, tendo a defesa deste dado origem à Liga Contra o Anti-Semitismo (LICA), que se tornou LICRA17 em 1979. Foi esta última que – depois de vários avisos em vão da alegada «negacionista» Lacroix-Riz – denunciou aqueles anti-semitas de choque, em 25 de maio de 2006, através do seu presidente Patrick Gaubert. Irá o alarido dos grupelhos «ucranianos» recomeçar entre nós, estimulado pelo Parlamento Europeu?

A Ucrânia ocidental laranja, tutora (oficial) de toda a Ucrânia, ocupa de novo o centro de uma campanha que, desde a era Reagan – fase crucial do desmantelamento da Rússia iniciado a partir de 1945 pelos Estados Unidos – deve tudo ou quase tudo a Washington, da mesma forma que a precedente deveu tudo ao dinheiro alemão. Os seus campeões empilham milhões de mortos de uma Ucrânia oriental, cuja população nunca se juntou à matilha apesar de o assunto lhe dizer respeitos em primeiro lugar. Em contrapartida, a CIA foi o chefe de orquestra, apoiando-se, em primeiro lugar, nos «Ucranianos» anti-semitas e antibolcheviques, colaboracionistas eminentes sob a ocupação alemã, emigrados nos Estados Unidos, no Canadá ou na Alemanha ocidental a seguir à expulsão da Wehrmacht da Ucrânia ou depois de 1945; em segundo lugar, em certas prestigiadas universidades americanas, entre as quais Harvard e Stanford, seguidas por universidades «ocidentais» (Europa oriental incluída), as quais foram gratificadas através de financiamentos americanos (em plena miséria dos créditos públicos para a investigação) com uma profusão de colóquios e encomendas editoriais sobre «a fome genocida na Ucrânia».

O apoio financeiro e político americano engendrou a campanha "Holodomor" dos governos ucranianos – que em 2008 erigiram em herói nacional Stepáne Bandera, "chefe da organização terrorista ucraniana na Polônia"[11], pretensamente "independentista" (não do Reich), criminoso de guerra emigrado em 1945 em zona de ocupação americana, organizador, a partir da sua base de Munique, de assassinatos em massa até aos anos 50 na Ucrânia novamente soviética[12]. Sem um tal apoio, a gritaria terminaria ou perderia todo o eco internacional. O "Parlamento Europeu", ao reconhecer em 23 de Outubro de 2008 "o Holodomor (fome provocada artificialmente em 1932-1933 na Ucrânia) como 'um crime horrível perpetrado contra o povo ucraniano e contra a humanidade'", revelou a sua estrita dependência relativamente aos Estados Unidos, dos donos da Ucrânia "independente", em concorrência com a Alemanha, cuja grande imprensa manifesta um zelo pró-ucraniano igual ao da atual Polônia, herdeira dos "coronéis" Josef Beck e consortes.

Bibliografia sumária: conjuntura ucraniana germano-vaticano-polaco-americana, Annie Lacroix-Riz, Le Vatican (réf. N. 7); Le Choix de la défaite: les élites françaises dans les années 1930, Paris, Armand Colin, 2006, reed. 2007; De Munich à Vichy, l’assassinat de la 3.ª Republique, 1938-1940, mesmo editor, 2008;

e sobretudo a iminente versão final da síntese apresentada aos meus estudantes em 2004, «Ucrânia 1933, atualizada em 2008», («Sobre a “fome genocida stalinista” na Ucrânia em 1933»: uma campanha alemã, polaca e do Vaticano», www.historiographie.info), que desencadeou a fúria dos defensores do «Holodomor».

Reter da bibliografia Douglas Tottle, Fraud, Famine and Fascism. The Ukainian Genocie Myth from Hitler to Harvard, Toronto, Progress Book, 1987, esgotada mas disponível na Internet: este antigo fotógrafo mostrou que as fotos das campanhas ucranianas de 1933-1935, a partir da era reaganiana, (artigos, obras, filmes) provinham das colecções da fome de 1921-1922, resultante de sete anos de guerra, primeiro mundial depois a guerra estrangeira e civil, e desancou de forma muito bem argumentada as fontes escritas e fotográficas da principal obra de Conquest (capítulo 7, «Harvest of Deception», «A colheita de enganos», e sobretudo p. 86-90); Geoffrey Roberts, Stalin’s War: From Worl to Cold War, 1939-1953. New Haven & London: Yale University Press, 2006, que estima o balanço dos massacres perpetrados pelos banderistas em «35 mil quadros militares e do partido na Galícia oriental [soviética] entre 1945 e 1951», p. 325.

Notas:

1. Respectivamente The years of Hunger, Soviete Agriculture 1931-1933, New York, Palgrave Macmillan, 2004, e Harvest of Sorrow, New York, Oxford University Press, 1986, traduzido em 1995 (e a minha actualização na Internet, bibliografia sumária).
2. Despacho 727 para Paul-Boncour, Berlim, 5 de Julho 1933, Europa URSS 1918-1940, vol. 986, relações Alemanha-URSS, Junho 1933 – Maio 1934, arquivos do Quai d’Orsay (MAE).
3. http://www.ihtp.cnrs.fr/spip.php?article98 (site IHTP); sobre o papel anti-soviético oficial desta fundação, estreitamente ligada ao Departamento de Estado, referência da n.1.
4. Alain Blum, Naître, vivre et mourir en URSS, 1917-1991, Paris, Plon, 1994, p. 96-99 e n. 61, p. 243
5. http://zustrich.quebec-ukraine.com/new02_shmul.htm, tradução ALR. O polonófilo Davies, que obteve o seu doutoramento em Cracóvia, deve a notoriedade à sua minimização da destruição dos judeus da Polónia, que o opôs a vários historiadores americanos (Lucy S. Davidowicz, Abraham Brumberg e Theodore Rabb).
6. «Memórias partilhadas dos genocídios e crimes contra a humanidade», «colóquio internacional» do «Colectivo Reconhecimento», 28-29 de Abril 2006, ENS Lyon, etc. (documentação Internet inesgotável).
7. O Vaticano, a Europa e o Reich da I Guerra Mundial à Guerra fria (1914-1955), Paris, Armand Colin, 1996, reed. 2007, p. 414-417, e infra.
8. Quando contestaram o meu trabalho sobre a fabricação e entrega ao Reich do Zyklon B "francês" (da fábrica de Villers-Saint-Sépulcre) pela sociedade mista Ugine-Degesch, Industriais e Banqueiros Franceses sob a Ocupação: A Colaboração Econômica com o Reich e Vichy, Paris, Armand Colin, 1999, index.
9. O que foi referido regularmente nas suas prosas ao longo da sua campanha de 2005-2006.
10. Entre as organizações solicitadas não signatárias, o PCF, a Liga dos Direitos do Homem, o MRAP, diversas associações judaicas, o Comité de Vigilância dos Usos Públicos da História, a Associação dos Professores de História e Geografia (APHG), etc.
11. Despacho 30 de Léon Noël, embaixador em Varsóvia, 15 de Janeiro de 1936, SDN, vol. 2169, Polónia, dossier geral, Fevereiro-Julho de 1936, MAE.
12. Lacroix-Riz, Vatican, loc. Cit., Tottle, chap. 9-10; Mark Aarons e John Loftus, Nazis no Vaticano, Paris, O. Orban, 1992, índex Bandera; Christopher Simpson, Blowback. America’s recruitment of Nazis and its effects on the Cold War, New York, Weidenfeld & Nicolson, 1988, índex Bandera, etc.

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