19 de novembro de 2004

O esmagamento de Faluja

Um diário de Nova Iorque

James Petras

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Estou a ler o Diário de Berlim de William Shirer, uma descrição jornalística da propaganda política nazista durante a década de 1930, enquanto assisto às "notícias" americanas do violento assalto a Faluja. Os "relatos" dos mass media americano, o seu estilo, conteúdo e especialmente a linguagem refletem os seus antecessores nazistas de 70 anos atrás num grau sinistro. Coincidência? Naturalmente! Em ambos os casos temos exércitos imperialistas a conquistarem países, arrasarem cidades e massacrarem civis -- e os mass media, privados na forma, apêndices do Estado na prática, disseminam as mais ultrajantes mentiras, na defesa e glorificação das "tropas de assalto", chamem-se elas SS ou Marines. Tanto na Alemanha nazista como nos EUA contemporâneos dizem-nos os mass media que os exércitos invasores estão a "libertar o país" de "combatentes estrangeiros", "terroristas armados", os quais estão a impedir "o povo" de ir à sua vida diária. Mas sabemos que dos 1000 prisioneiros há apenas 4 estrangeiros (3 iranianos e 1 árabe); os hospitais iraquianos relatam menos de 10% de combatentes estrangeiros. Por outras palavras: mais de 90% dos combatentes são iraquianos -- a maior parte dos quais nasceram, educaram-se e criaram-se em famílias das cidades nas quais estão a combater.

Tal como a mídia nazista, as principais redes americanas de rádio e TV relatam apenas aquilo a que chamam "baixas militares" -- deixando de informar acerca dos civis mortos desde que a guerra principiou e dos milhares de mulheres e crianças mortas e feridas desde o começo do assalto a Faluja. Tal como na Alemanha nazista, os mass media americanos publicam relatos não confirmados dos militares dos EUA acerca de assassinatos sangrentos, decapitações e sequestros "por terroristas estrangeiros". O apoio incondicional dos mass media nazistas/americanos aos campos de massacre é mais bem detectado nos seus relatos do bombardeamento maciço de distritos urbanos densamente povoados. Na rede NBC americana, o lançamento de bombas de 500 libras na cidade de Faluja é descrito como destinado à "rede de túneis dos insurrectos na cidade". E as casas, mercados, lojas -- as mães e crianças acima daqueles túneis -- vaporizam-se numa "névoa rosa". A sua existência nunca é reconhecida pelos repórteres e emissoras principais.

Quase toda a população não curda do Iraque opõe-se aos militares americanos e ao seu regime fantoche -- mas a mídia refere-se aos patriotas que defendem o seu país dos invasores imperiais como "insurrectos", minimizando o significado de um vasto movimento patriótico de libertação nacional. Um dos eufemismos mais surrealistas é a referência constante às "forças da coligação" para designar os conquistadores coloniais americanos e os mercenários e sátrapas que eles dirigem e controlam.

O bombardeamento terrorista de lares, hospitais e edifícios religiosos por centenas de aviões e helicópteros armados é descrito pela mídia como sendo para "garantir eleições livres na cidade".

"Libertar a cidade de insurrectos" inclui o assassínio sistemático de amigos, vizinhos e parentes de todos os iraquianos que vivem na cidade de Faluja.

"Cercar os insurrectos" significa cortar a água, a eletricidade e a assistência médica a 200 mil civis na cidade e colocar as dezenas de milhares que fugiram sob a ameaça de uma epidemia de tipo. "Pacificar a cidade" inclui torná-la uma desolação absoluta de entulho envenenado.

Por que Washington e os mass media recorrem descaradamente à mentira sistemática e aos eufemismos? Basicamente para reforçar o apoio de massas interno ao assassínio em massa no Iraque. Os mass media fabricam uma teia de mentiras para assegurar um verniz de legitimidade para métodos totalitários a fim de que as forças armadas americanas continuem a destruir cidades com impunidade. A técnica aperfeiçoada por Goebbels na Alemanha e praticada nos EUA é repetir mentiras e eufemismos até que se tornem "verdades" aceitas, e incorporadas na linguagem diária. Os mass media ao efetivamente tornarem rotina uma linguagem comum envolvem a sua audiência. As preocupações tácticas dos generais, dos comandantes a dirigirem a carnificina (pacificação) e dos soldados a assassinarem civis são explicadas (e consumidas pelos milhões que os ouvem e assistem) por autoridades sem contestação através de jornalistas submissos e dos famosos "âncoras" do noticiário. A unidade de objetivo entre os agentes do massacre em massa e os público americano de todos os dias é estabelecida através de "relatos de notícias". Os soldados "pintam os nomes" das suas esposas e namoradas sobre os tanques e veículos blindados os quais destroem famílias iraquianas e transformam Faluja em ruínas. Soldados que retornam do Iraque são "entrevistados" perguntando-se-lhes se querem retornar para "estar com o seu pelotão" e "exterminar os terroristas". Nas forças de combate americanas nem todos experimentam as alegrias de disparar sobre civis. Estudos médicos relatam que um em cada cinco soldados que retorna sofre de severo trauma psicológico, sem dúvida por testemunhar ou participar no assassínio em massa de civis. A família de um soldado regressado, que recentemente cometeu o suicídio, relatou que ele referia-se constantemente às mortes de crianças desarmadas nas ruas do Iraque de que fora responsável -- chamando-se a si próprio de "assassino". Além destas notáveis exceções, a propaganda dos mass media pratica várias técnicas, as quais aliviam a "consciência" dos soldados americanos e dos civis. Uma técnica é a "reversão de papéis" ao atribuir os crimes da força invasora às vítimas. Não são os soldados que causam destruição de cidades e matam, mas as famílias iraquianas que "protegem os terroristas" e "trazem sobre si próprias o bombardeamento selvagem". A segunda técnica é relatar apenas baixas americanas provocadas pelas "bombas terroristas" -- omitir qualquer menção aos milhares de civis iraquianos mortos pelas bombas e artilharia americana. Tanto a propaganda nazista como a americana glorificam o "heroísmo", o "êxito" das suas forças de elite (as SS e os Marines) no massacre de "terroristas" ou "insurrectos" -- todo civil morto é contado como um "suspeito de simpatizante do terrorismo". 

Os militares americanos e alemães declararam todo edifício civil um "armazém" ou "esconderijo" para "terroristas" -- portanto desrespeito absolutamente total a todas as leis da guerra de Genebra. A prática americana e nazista da "guerra total" é que todas as comunidades, vizinhos e cidades inteiras são coletivamente culpadas por encobrir "terroristas procurados" -- o que é, como seria de esperar, o procedimento militar operacional padrão do governo israelense.

Os EUA publicitam a cruel e rara punição de "suspeitos" iraquianos (qualquer varão entre 14 e 60 anos) capturados: aparecem fotos na Time e na Newsweek de jovens descalços, vendados e atados afastados dos seus lares e jogados em caminhões para serem levados a "centros de exploração" para interrogatório. Para grande parte do público americano estas fotos são parte da estória de êxito -- é-lhes dito que estes são os "terroristas" que explodiriam os lares americanos. Para a maioria que votou por Bush, a propaganda dos mass media ensinou-os a acreditar que o extermínio de muitos milhares de cidadãos iraquianos é do seu melhor interesse: eles podem dormir tranquilamente, enquanto os "nossos rapazes" matam-nos "lá".




Acima de tudo, a propaganda dos mass media tem feito todo o possível para negar a consciência nacional iraquiana. Diariamente por todos os meios as referências são a lealdades religiosas, étnicas, identidades, etiquetas políticas passadas, clãs 'tribais' e familiares. O objectivo é dividir e conquistar, e apresentar ao mundo um Iraque 'caótico' no qual a única força coerente e estável é o regime colonial americano. A finalidade dos selvagens assaltos coloniais e da classificação política é destruir a ideia da nação iraquiana — e substituí-la por uma série de mini-entidades dirigidas por sátrapas imperiais obedientes a Washington.




Manhã de domingo, 14 de Novembro. Hoje Faluja está a ser violada e arrasada, capturada. Prisioneiros feridos são alvejados nas mesquitas. Em Nova York os mega centros comerciais estão apinhados de compradores.




Tarde de domingo: os Marines bloquearam a entrada de comida, água e remédios em Faluja. Por todo os EUA milhões de homens sentam-se em frente ao televisor a ver futebol.




Shirer contava que enquanto os nazis invadiam e destruíam a Bélgica e bombardeavam Rotterdam, em Berlim os cafés estavam cheios, a orquestra sinfónica actuava e as pessoas passeavam os seus cães no parque na tarde ensolarada de domingo.




Noite de domingo, 14 de Novembro de 2004: Ligo a televisão no 60 Minutes e vejo um replay das 'entrevistas' de Mike Wallace a Yasser Arafat. Tal como todos os 'estrelas' dos mass media americanos, ele ignora a invasão israelense do Líbano e o assassínio de milhares de palestinos por Sharon, a ocupação militar da Palestina e a desumana destruição de Jenin e da Cidade de Gaza. Wallace acusa Arafat de ser um mentiroso, um terrorista, um ser corrupto e tortuoso. Trinta milhões de famílias americanas observam este espectáculo feio de um farisaico apologista do sionismo a fazer alarde dos 'ideais ocidentais', os quais são úteis para arrasar cidades, bombardear hospitais e exterminar uma nação.




Sim, há diferenças entre o relato de Shirer da propaganda nazi em defesa da conquistas da Europa e a apologia dos media americanos da invasão do Iraque e da carnificina dos palestinos: Um é cometido em nome do Fuehrer e da Mãe Pátria, o outro em nome de Deus e da Democracia. Vão dizer isso aos cadáveres inchados roídos pelos cães nas ruínas de Faluja.

13 de novembro de 2004

Historiografia marxista hoje

Neste discurso, Hobsbawn passa em revista as grandes linhas teórico-metodológicas da historiografia contemporânea, com especificidade para a marxista, e discute os grandes desafios para o entendimento da sociedade e do humano na história. Independentemente de se concordar ou não com as suas posições, erige um belo libelo à renovação da história, como desafio da razão.

Eric Hobsbawm

"Até agora os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo; se trata agora de mudá-lo". Os dois enunciados da famosa Thèse Feuerbach, de Karl Marx, inspiraram os historiadores marxistas. A maioria dos intelectuais que abraçaram o marxismo a partir dos anos 1880 - dentre os quais, os historiadores marxistas - o fez porque queria mudar o mundo em colaboração com os movimentos operário e socialista; movimentos que iriam tornar-se, em grande parte sob influência do marxismo, forças políticas de massa. De modo muito natural, essa cooperação orientou os historiadores que queriam mudar o mundo para certos campos de estudo - em particular para a história do povo ou da população operária - os quais, se atraíam naturalmente as pessoas de esquerda, não tinham, na origem, nenhuma relação especial com uma interpretação marxista. Inversamente, quando, a partir dos anos 1890, deixaram de ser revolucionários sociais, com freqüência esses intelectuais deixaram também de ser marxistas.

A Revolução Soviética de outubro de 1917 reavivou esse engajamento. Lembremo-nos de que o marxismo só foi formalmente abandonado pelos principais partidos social-democratas da Europa continental na década de 1950 ou mesmo mais tarde. Ela engendrou, igualmente, o que se poderia chamar de uma historiografia marxista obrigatória na URSS e nos Estados colocados, em seguida, sob regime comunista. A motivação militante fortaleceu-se durante o período do antifascismo. A partir da década de 50, ela se embotou nos países desenvolvidos - mas não no Terceiro Mundo -, embora o considerável desenvolvimento do ensino universitário e a agitação estudantil tenham dado origem na década de 60, no interior da universidade, a um novo e importante contingente de pessoas decididas a mudar o mundo. Entretanto, se eram radicais, muitos deles não eram mais francamente marxistas e alguns, absolutamente, não eram mais marxistas.

Esse ressurgimento culminou na década de 70, pouco antes de começar uma reação em massa contra o marxismo - ainda uma vez, por razões essencialmente políticas. Essa reação teve por efeito principal aniquilar, exceto entre os liberais que ainda aderem a ela, a ideia de que se possa predizer, com o apoio da análise histórica, o êxito de um modo particular de organizar a sociedade humana. A história se dissociou da teleologia [1].

Dadas as perspectivas incertas que se oferecem aos movimentos social-democratas e revolucionários sociais, é improvável que se assista a uma nova corrida politicamente motivada rumo ao marxismo. Mas evitemos um centrismo ocidental excessivo. A julgar pela demanda de que são objeto minhas próprias obras de história, constato que esta se desenvolveu na Coréia do Sul e em Taiwan desde a década de 80, na Turquia desde a década de 90, e há indícios de que, no momento atual, está progredindo no mundo de língua árabe.

O que aconteceu com a dimensão "interpretação do mundo" do marxismo? A história é um pouco diferente, mas também corre em paralelo. Ela diz respeito ao crescimento do que se pode chamar de reação anti-Ranke [2], da qual o marxismo constituiu um elemento importante sem, contudo, ter sido sempre reconhecido. Essencialmente, ocorreu um duplo movimento.

De um lado, esse movimento contestava a ideia positivista de que a estrutura objetiva da realidade era, por assim dizer, evidente: bastava aplicar a ela a metodologia da ciência, explicar porque as coisas aconteceram como aconteceram e descobrir "wie es eigentlich gewesen" [como isso é, realmente]? Para todos os historiadores, a historiografia continuou, e continua, ancorada numa realidade objetiva, a saber, a realidade do que se produziu no passado; entretanto, ela não parte de fatos mas de problemas e exige que se pesquise a fim de se compreender porque e como esses problemas - paradigmas e conceitos - são formulados como o são em tradições históricas e em ambientes sócio-culturais diferentes.

De outro lado, esse movimento tentava aproximar as ciências sociais da história e, por conseqüência, englobá-la numa disciplina geral capaz de explicar as transformações da sociedade humana. Segundo a fórmula de Lawrence Stone [3], o objeto da história deveria ser "colocar as grandes questões do "porquê?". Essa "virada social" não veio da historiografia mas das ciências sociais, algumas nascentes enquanto tais, que se afirmavam então como disciplinas evolucionistas, isto é, históricas.

À medida que Marx pode ser considerado o pai da sociologia do conhecimento, o marxismo, embora o tenham denunciado - erroneamente - em nome de uma suposta objetividade cega, certamente contribuiu para o primeiro aspecto desse movimento. Além disso, o impacto mais conhecido das ideias marxistas - a importância atribuída aos fatores econômicos e sociais - não era especificamente marxista, ainda que a análise marxista tenha influenciado fortemente essa orientação. Esta se inscrevia num movimento historiográfico geral, visível a partir dos anos 1890 e que culminou nas décadas de 50 e 60, em benefício de minha geração de historiadores que teve a chance de transformar a disciplina.

Essa corrente sócio-econômica superava o marxismo. A criação de revistas e de instituições de história econômico-social foi, às vezes, como na Alemanha, obra de socialdemocratas marxistas, como a revista Vierteljahrschrift em 1893. Não foi o que se deu na Grã-Bretanha, nem na França ou nos Estados Unidos. E mesmo na Alemanha, a escola de economia fortemente histórica nada tinha de marxiano. Somente no Terceiro Mundo do século XIX (a Rússia e os Bálcãs) e no do século XX é que a história econômica assumiu uma orientação antes de tudo social revolucionária, como toda "ciência social". E, por conseqüência, pôde ser fortemente atraída por Marx. Em todos os casos, o interesse histórico dos historiadores marxistas não se voltou tanto para a "base" (a infra-estrutura econômica) quanto para as relações entre a base e a supra-estrutura. Os historiadores claramente marxistas sempre foram relativamente pouco numerosos.

Marx influenciou a história principalmente por meio da interpretação de historiadores e pesquisadores em ciência social que retomaram as questões por ele colocadas - tenham ou não dado a elas outras respostas. Por sua vez, a historiografia marxista avançou muito em relação ao que era na época de Karl Kautsky e de Georgi Plekhanov [4], graças, em grande parte, à sua fertilização por outras disciplinas (em especial a antropologia social) e por pensadores influenciados por Marx e que vinham completá-lo, como Max Weber [5].

Se enfatizo o caráter geral dessa corrente historiográfica, não é por querer subestimar as divergências que ela recobre ou que existiam no seio de seus componentes. Os modernizadores da história se colocaram as mesmas questões e se consideraram engajados nas mesmas lutas intelectuais, quer buscassem inspiração na geografia humana, na sociologia durkheimiana [6] e nas estatísticas, como na França (ao mesmo tempo, a Escola dos Anais e Labrousse), ou na sociologia weberiana, como a Historische Sozialwissenschaft na Alemanha Federal, ou ainda no marxismo dos historiadores do Partido Comunista, que foram os vetores da modernização da história na Grã-Bretanha ou, pelo menos, fundaram sua principal revista.

Uns e outros consideravam-se aliados contra o conservadorismo em história, mesmo quando suas posições políticas ou ideológicas eram antagônicas, como Michael Postan [7] e seus alunos marxistas britânicos. Essa coalizão do progresso encontrou uma expressão exemplar na revista Past & Present, fundada em 1952 e que se impôs como referência no mundo dos historiadores. Essa revista deveu seu sucesso ao fato de que os jovens marxistas que a fundaram recusaram deliberadamente a exclusividade ideológica e de que os jovens modernizadores, vindos de outros horizontes ideológicos, estavam prestes a se juntar a eles porque sabiam que as diferenças ideológicas e políticas não eram um obstáculo para uma colaboração. Essa frente do progresso avançou de maneira espetacular entre o fim da II Guerra Mundial e a década de 70, naquilo que Lawrence Stone chama de "amplo conjunto de comoções na natureza do discurso histórico". E isso até a crise de 1985, que vive a passagem dos estudos quantitativos aos estudos qualitativos, da macro à micro-história, das análises estruturais aos textos, do social aos temas culturais... Desde então, a coalizão modernizadora está na defensiva, e é o caso mesmo de seus componentes não marxistas, como a história econômica e social.

Na década de 1970, a corrente dominante na história havia sofrido uma transformação tão grande, em particular, sob a influência das grandes questões colocadas à maneira de Marx, que escrevi essas linhas: "Com freqüência, é impossível saber se uma obra foi redigida por um marxista ou por um não-marxista, a menos que o autor anuncie sua posição ideológica... Espero com impaciência o dia em que ninguém perguntará se os autores são marxistas ou não". Mas, como eu também mostrava, estávamos longe de tal utopia. Depois, ao contrário, a insistência em salientar o que o marxismo pode aportar à historiografia se fez maior e é, hoje, mais forte que nunca. Ao mesmo tempo porque a história precisa ser defendida contra aqueles que negam sua capacidade de nos ajudar a compreender o mundo e porque novos desenvolvimentos nas ciências perturbaram o calendário historiográfico.

No plano metodológico, o fenômeno negativo mais importante foi a construção de um conjunto de barreiras entre o que se passou ou o que se passa em história e nossa capacidade para observar esses fatos e para compreendê-los. Tais bloqueios são devidos à recusa em admitir que existe uma realidade, objetiva, e não construída pelo observador para fins diferentes e cambiantes, ou ao fato de se afirmar que nunca podemos ir além dos limites da linguagem, isto é, dos conceitos que são a única maneira através da qual podemos falar sobre o mundo, inclusive sobre o passado.

Essa visão elimina a questão de saber se existem esquemas e regularidades no passado, a partir dos quais o historiador pode formular proposições significativas. Entretanto, razões menos teóricas levam igualmente a tal recusa: desse modo, se argumentará que o curso do passado é demasiado contingente, isto é, que as generalizações estão excluídas porque qualquer coisa, praticamente, poderia acontecer ou teria podido acontecer. Implicitamente, são argumentos que visam a todas as ciências. Deixemos de lado as tentativas mais fúteis de voltar a velhas concepções: atribuir o curso da história a tomadores de decisões políticas ou a militares de altas patentes, ou à onipotência das ideias ou "valores", reduzir a erudição histórica à busca, importante mas insuficiente em si, de uma empatia com o passado.

O primeiro perigo político imediato que ameaça a historiografia atual é o "antiuniversalismo" - "minha verdade é tão válida quanto a sua, quaisquer que sejam os fatos". Esse antiuniversalismo seduz naturalmente a história dos grupos identitários em suas diferentes formas, para quem o objeto essencial da história não é o que se passou mas, sim, em quê o que se passou diz respeito aos membros de um grupo particular. De modo geral, o que conta para esse tipo de história não é a explicação racional, mas a "significação"; não o que se produziu, mas como os membros de uma coletividade que se define contra os outros - em termos de religião, de etnia, de nação, de sexo, de modo de vida etc. - sentem o que se passou.

A atração do relativismo se exerce sobre a história dos grupos identitários. Por diferentes razões, a invenção de massa de contraverdades históricas e de mitos, que são tantas outras deformações ditadas pela emoção, conheceu uma verdadeira idade de ouro ao longo desses últimos trinta anos. Alguns desses mitos constituem um perigo público - em países como a Índia na época do governo hinduísta [8], nos Estados Unidos e na Itália de Silvio Berlusconi, para mencionar apenas alguns dos novos nacionalismos, sejam eles acompanhados ou não de uma pressão do integrismo religioso.

Contudo, se esse fenômeno gerou conversas fiadas e inépcias sem fim nas margens mais afastadas da história de grupos particulares - nacionalistas, feministas, homossexuais, negros e outros -, também deu origem a desenvolvimentos históricos inéditos e extremamente interessantes no domínio dos estudos culturais, como o "boom da memória nos estudos históricos contemporâneos", como o chama Jay Winter [9]. Os Lugares da memória [10] coordenado por Pierre Nora é um bom exemplo disso.

Diante de todas essas derivas, é hora de se restabelecer a coalizão dos que querem ver na história uma pesquisa racional sobre o curso das transformações humanas, ao mesmo tempo contra os que a deformam sistematicamente com fins políticos e, de modo geral, contra os relativistas e os pós-modernos que se recusam a admitir que a história oferece essa possibilidade. Como alguns se consideram de esquerda entre esses relativistas e outros pós-modernos, clivagens políticas inesperadas ameaçam dividir os historiadores. A abordagem marxista, como nas décadas de 50 e 60, revela-se, no entanto, um elemento necessário na reconstrução da frente da razão (Un siècle d'histoire marxiste). De fato, a contribuição marxista é provavelmente ainda mais pertinente hoje, considerando-se que os outros componentes da coalizão de então abdicaram, tal como a Escola dos Anais de depois de Fernand Braudel, e a "antropologia social estrutural-funcional" cuja influência entre os historiadores foi tão grande. Esta disciplina foi particularmente perturbada pela corrida rumo à subjetividade pós-moderna.

Entretanto, enquanto os pós-modernos negavam a possibilidade de uma compreensão histórica, os progressos nas ciências naturais novamente conferiam atualidade a uma história evolucionista da humanidade, sem que os historiadores realmente se dessem conta do fato. E isso de duas maneiras.

Em primeiro lugar, a análise do DNA estabeleceu uma cronologia mais sólida do desenvolvimento desde a aparição do homo sapiens enquanto espécie, em especial a cronologia da expansão, no resto do mundo, dessa espécie originária da África e dos desenvolvimentos que se seguiram antes do aparecimento de fontes escritas. Ao mesmo tempo, isso revelou a espantosa brevidade da história humana - segundo critérios geológicos e paleontológicos - e eliminou a solução reducionista da sociobiologia darwiniana [11]. As transformações da vida humana, coletiva e individual, no decorrer dos últimos dez mil anos, e singularmente ao longo das dez últimas gerações, são consideráveis demais para se explicarem por um mecanismo de evolução inteiramente darwiniano, pelos genes. Elas correspondem a uma aceleração da transmissão das características adquiridas por mecanismos culturais e não genéticos - seria possível dizer que se trata da revanche de Lamarck [12] contra Darwin pelo viés da história humana. E não adianta muito travestir o fenômeno sob metáforas biológicas falando de "mèmes [13]" ao invés de "genes". Os patrimônios cultural e biológico não funcionam da mesma forma.A

Para resumir, a revolução do DNA invoca um método particular, histórico, de estudo da evolução da espécie humana. Oferece, igualmente, diga-se de passagem, um quadro racional para uma história do mundo. Uma história que tome o planeta em toda a sua complexidade como unidade dos estudos históricos e não como um meio ambiente particular ou uma região dada. Em outros termos, a história é a continuação da evolução biológica do homo sapiens por outros meios.

Em segundo lugar, a nova biologia evolucionista elimina a distinção estrita entre história e ciências naturais, já em grande parte atenuada pela "historicização" sistemática dessas ciências nas últimas décadas. Luigi Luca Cavalli-Sforza, um dos pioneiros multidisciplinares da revolução DNA, fala do "prazer intelectual em encontrar tantas similaridades entre campos de estudo díspares, dos quais alguns pertencem, tradicionalmente, aos dois pólos opostos da cultura: a ciência e as humanidades". Em poucas palavras, essa nova biologia nos liberta do falso debate sobre a questão de saber se a história é ou não uma ciência.

Em terceiro lugar, ela nos traz inevitavelmente à abordagem de base da evolução humana adotada pelos arqueólogos e pelos pré-historiadores, a qual consiste em estudar os modos de interação entre nossa espécie e seu meio ambiente, assim como o controle crescente que ela exerce sobre ele. Isto significa colocar essencialmente as questões que se colocava Karl Marx. Os "modos de produção" (qualquer que seja o nome que se lhes dê) baseados em inovações maiores de tecnologia produtiva, de comunicações e de organização social - mas também de poder militar - estão no cerne da evolução humana. Essas inovações, e Marx tinha consciência disso, não se deram, e não se dão, por elas mesmas. As forças materiais e culturais e as relações de produção não são separáveis. Elas são as atividades de homens e de mulheres fazendo sua própria história, mas não no "vazio", não fora da vida material.

Conseqüentemente, as novas perspectivas para a história devem também nos trazer a esse objetivo essencial dos que estudam o passado - ainda que ele nunca seja inteiramente realizável: "a história total", não "a história de tudo", mas a história como tela indivisível na qual todas as atividades humanas são interconectadas. Os marxistas não são os únicos que tiveram esse objetivo - Fernand Braudel também o fez - mas foram os que, com mais tenacidade, procuraram atingi-lo, como esclarecia um deles, Pierre Vilar [14].

Entre as questões importantes suscitadas por essas novas perspectivas, a que nos traz à evolução histórica do homem é a essencial. Trata-se do conflito entre, de um lado, as forças responsáveis pela transformação do homo sapiens, da humanidade neolítica à humanidade nuclear, e, de outro, as forças que mantêm imutáveis a reprodução e a estabilidade das coletividades humanas ou dos ambientes sociais e que, na maior parte da história, as neutralizaram eficazmente. Essa questão teórica é central. O equilíbrio das forças pende de maneira decisiva para uma direção. E esse desequilíbrio, que talvez supere a capacidade de compreensão dos humanos, supera certamente a capacidade de controle das instituições sociais e políticas humanas. Os historiadores marxistas, que não compreenderam as conseqüências involuntárias e indesejáveis dos projetos coletivos humanos do século XX, talvez possam agora, com base em sua experiência prática, ajudar a compreender como chegamos até aqui.

Notas:

1. Teleologia: doutrina que se baseia na ideia de finalidade.
2. Reação contra Leopold von Ranke (1795-1886), considerado o pai da escola dominante da historiografia universitária, antes de 1914. Autor de várias obras, destacando-se Histoire des peuples romans et germains de 1494 à 1535 (1824) e de Histoire du monde (Weltgeschichte), (1881-1888 -inacabada).
3. Lawrence Stone (1920-1999), uma das personalidades mais eminentes e mais influentes da história social. Autor de várias obras, dentre as quais se destacam: The Causes of the English Revolution, 1529-1642 (1972), The Family, Sex and Marriage in England 1500-1800 (1977).
4. Respectivamente, dirigente da social-democracia alemã e dirigente da social-democracia russa no início do século XIX.
5. Max Weber (1864-1920), sociólogo alemão.
6. De Emile Durkheim (1858-1917), que fundou Les règles de la méthode sociologique (1895) e que é considerado, portanto, um dos pais da sociologia moderna. Dentre suas obras, destacam-se: De la division du travail social (1893) e Le suicide (1897).
7. Michael Postan é titular da cadeira de História Econômica na Universidade de Cambridge desde 1937. Com Fernand Braudel, inspirou a Associação Internacional de História Econômica.
8. O Partido Bharatiya Janata (BJP) dirigiu o governo indiano de 1999 a maio de 2004.
9. Professor na Universidade Columbia (Nova York). Um dos grandes especialistas de história das guerras do século XX e, principalmente, dos lugares de memória.
10. Les lieux de mémoire, Gallimard, 3 volumes.
11. De Charles Darwin (1809-1882), naturalista inglês que teorizou umaevolução da espécie baseada na seleção natural.
12. Jean-Baptiste Lamark (1744-1829), naturalista francês, foi o primeiro aromper com a idéia de permanência da espécie.
13. Os mèmes, segundo Richard Dawkins, um dos líderes do neodarwinismo,são unidades de base da memória, tidas como vetores da transmissão e dasobrevivência culturais, como os genes são os vetores da sobrevivência dascaracterísticas genéticas dos indivíduos.
14. Ler, especialmente, Une histoire en construction: approche marxiste etproblématique conjoncturelle, Gallimard - Seuil, Paris, 1982.

Eric Hobsbawm é historiador e autor de, entre outros livros, A era dos extremos: o breve século XX (São Paulo, Cia das Letras, 1995).

Discurso de encerramento ao Colóquio sobre Historiografia Marxista promovido pela Academia Britânica em 11 de novembro de 2004.

6 de novembro de 2004

O imperialismo americano, a Europa e o Oriente Médio

Samir Amin

Monthly Review

Tradução / A análise que aqui se propõe sobre o papel da Europa e do Oriente Médio na estratégia imperialista global dos Estados Unidos baseia-se numa visão histórica geral da expansão capitalista que já desenvolvi noutro local. [1] Dentro dessa perspectiva, considera-se que a natureza do capitalismo tem sido sempre, desde o seu início, um sistema polarizador, ou seja, imperialista. Esta polarização – uma estrutura concorrente de centros dominantes e de periferias dominadas, e a sua multiplicação que se aprofunda de estágio para estágio – é própria do processo de acumulação do capital operando a uma escala global.

De acordo com esta teoria da expansão global do capitalismo, as mudanças qualitativas nos sistemas de acumulação, duma fase da sua história para outra, configuram as sucessivas formas de polarização assimétrica centros/periferias, quer dizer, as formas do verdadeiro imperialismo. O sistema mundial contemporâneo manter-se-á assim imperialista (polarizador) durante o próximo futuro, enquanto a sua lógica fundamental se mantiver dominada pelas relações de produção capitalista. Esta teoria associa o imperialismo ao processo de acumulação de capital a uma escala mundial, o que eu considero constituir uma realidade única na qual as diversas dimensões de facto não podem ser separadas. Diverge pois quer da versão popularizada da teoria leninista “o imperialismo, a fase mais alta do capitalismo” (como se as fases iniciais da expansão global do capitalismo não fossem polarizadoras), quer das teorias pós-modernas contemporâneas que descrevem a nova globalização como sendo “pós-imperialista”.

1. O conflito permanente entre os imperialismo e o imperialismo coletivo 
Na sua evolução globalizada, o imperialismo foi sempre conjugado no plural, desde o seu início (no século XVI) até 1945. O conflito permanente e frequentemente violento dos imperialismos ocupou um espaço decisivo na transformação do mundo enquanto luta de classes, através da qual se exprimem as contradições fundamentais do capitalismo. Para além disso, as disputas e conflitos sociais no seio dos imperialismos estão intimamente interligadas, e é esta interligação que determina o verdadeiro curso do capitalismo existente. A análise que proponho quanto a esta tese é muitíssimo diferente da da “sucessão de hegemonias.” [2]

A Segunda Guerra Mundial terminou com uma importante transformação nas formas do imperialismo, substituindo a multiplicidade de imperialismos em permanente conflito por um imperialismo colectivo. Este imperialismo colectivo representa o conjunto dos centros do sistema capitalista mundial ou, para ser mais simples, uma tríade: os Estados Unidos e a sua província externa canadiana, a Europa ocidental e central, e o Japão. Esta nova forma de expansão imperialista passou por várias fases de desenvolvimento, mas esteve sempre presente desde 1945. O papel hegemónico dos Estados Unidos tem que ser situado dentro desta perspectiva, e cada fase desta hegemonia tem que ser especificada nas suas relações com o novo imperialismo colectivo. Estas questões levantam problemas, que são exactamente aqueles que eu queria aqui destacar.

Os Estados Unidos beneficiaram imenso com a Segunda Guerra Mundial, que arruinou os seus principais contendores – a Europa, a União Soviética, a China e o Japão. Ficaram assim em condições de exercer a sua hegemonia económica, tanto mais que metade da produção industrial global estava concentrada nos Estados Unidos, em especial as tecnologias que iriam dar forma ao desenvolvimento da segunda metade do século. Para além disso, só eles possuíam armas nucleares – a nova arma total.

Esta dupla vantagem contudo foi-se desvanecendo num período relativamente curto (duas décadas) face a duas recuperações, uma económica na Europa e no Japão capitalistas e outra militar na União Soviética. Não podemos esquecer que este recuo relativo do poder americano provocou uma viva especulação sobre o declínio americano, que chegou mesmo a pôr a hipótese do aparecimento de possíveis hegemonias alternativas (incluindo a Europa, o Japão e, posteriormente, a China).

Foi nesta época que surgiu o gaullismo. Charles de Gaulle considerava que, a partir de 1945, o objectivo dos Estados Unidos era controlar todo o Velho Mundo (a Eurásia). Washington tinha-se colocado numa posição estratégica para dividir a Europa – a qual, na perspectiva de de Gaulle, se estendia desde o Atlântico até aos Urais incluindo a “Rússia soviética” – agitando o espectro da agressão de Moscovo, um espectro em que de Gaulle nunca acreditou. Esta análise era realista, mas de Gaulle encontrou-se praticamente sozinho. Contra o atlantismo promovido por Washington ele previa uma estratégia contrária baseada na reconciliação franco-germânica e na construção de uma Europa não americana, excluindo cautelosamente a Inglaterra que ele considerava, com toda a razão, ser o cavalo de Tróia do atlantismo. A Europa poderia depois abrir caminho à reconciliação com a “Rússia soviética”. A reconciliação e coligação dos três maiores povos europeus – franceses, alemães e russos – poria um fim definitivo ao projecto americano de dominação do mundo. Podemos então resumir em duas alternativas o conflito interno específico para o projecto europeu: uma Europa atlântica, na qual a Europa é um apêndice do projecto americano, ou uma Europa não atlântica (que integra a Rússia). Este conflito ainda não está resolvido. Mas os desenvolvimentos posteriores – o fim do gaulismo, a entrada da Inglaterra para a União Europeia, a expansão da Europa para leste, o colapso soviético – combinaram-se para invalidar o projecto europeu dada a sua dupla diluição numa globalização económica neo-liberal e num alinhamento político-militar com Washington. Mais ainda, esta evolução reforça a intensidade do carácter colectivo do imperialismo da tríade.

2- O PROJECTO DA CLASSE DOMINANTE DOS ESTADOS UNIDOS: GLOBALIZAR A DOUTRINA MONROE

O actual projecto americano, arrogante, demente e mesmo criminoso nas suas implicações, não saltou da cabeça de George W. Bush para ser levado à prática por um grupo de extrema direita que se apoderou do poder através de eleições duvidosas. É um projecto que a classe dominante americana alimentou sem cessar desde 1945, mesmo apesar de a sua implementação ter passado por altos e baixos e nem sempre ter podido ser conseguida com a consistência e a violência demonstradas desde a desintegração da União Soviética.

O projecto atribuiu sempre um papel fundamental à sua dimensão militar. Os Estados Unidos cedo planearam uma estratégia militar global, dividindo o planeta em regiões e atribuindo a responsabilidade do controlo de cada uma delas a um Comando Militar americano. O objectivo era não só cercar a União Soviética (e a China), mas também assegurar a posição de Washington como administrador de última instância em todo o mundo. Por outras palavras, alargava a doutrina Monroe a todo o planeta, o que deu de facto aos Estados Unidos o direito exclusivo de gerir todo o globo de acordo com os seus interesses nacionais, conforme definido.

Este projecto implica que a soberania dos interesses nacionais dos Estados Unidos deve ser colocada acima de todos os outros princípios que controlam o legítimo comportamento político, e gera uma desconfiança sistemática para com todos os direitos supranacionais. É certo que os imperialismos do passado não se comportaram de modo diferente, e aqueles que se esforçam por minimizar e desculpar as responsabilidades – e o comportamento criminoso – dos actuais governantes dos Estados Unidos bem podem utilizar este argumento e encontram facilmente antecedentes históricos.

Mas era isso precisamente o que gostaríamos de ter visto alterar-se na história que começa após 1945. Foi por causa dos horrores da Segunda Guerra Mundial provocados pelo conflito dos imperialismos e pelo desprezo das potências fascistas pela lei internacional, que foram fundadas as Nações Unidas baseadas num princípio novo que proclamava o carácter ilegítimo do direito soberano de desencadear a guerra, até aí estabelecido. Os Estados Unidos, há que dizê-lo, não só se identificaram com este novo princípio, como estiveram entre as primeiras potências a adoptá-lo.

Esta boa iniciativa – apoiada na altura pelos povos de todo o mundo – representava de facto um salto qualitativo e abria caminho ao progresso da civilização, mas nunca convenceu a classe dominante dos Estados Unidos. As autoridades de Washington nunca se sentiram à vontade com o conceito da Nações Unidas, e hoje proclamam de forma brutal aquilo que foram forçados a esconder até agora: que nem sequer aceitam o conceito de uma lei internacional acima do que eles consideram ser as exigências da defesa do seu próprio interesse nacional. Não podemos aceitar desculpas para este regresso a uma concepção desenvolvida pelos nazis, que levou à destruição da Liga das Nações. A defesa da lei internacional, advogada com talento e elegância pelo ministro dos Estrangeiros francês Dominique de Villepin no Conselho de Segurança, não é uma olhadela nostálgica para o passado mas, pelo contrário, é um aviso para o que pode vir a ser o futuro. Nessa ocasião foram os Estados Unidos que defenderam um passado considerado definitivamente obsoleto por toda a opinião decente. A implementação do projecto americano passou necessariamente por diversas fases, modelado pelas específicas relações de poder que as definiam.

Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial a liderança americana foi aceite e até mesmo solicitada pela burguesia da Europa e do Japão. Pois, se bem que a ameaça de uma invasão soviética apenas pudesse convencer os fracos de espírito, a sua mera invocação prestava bons serviços tanto aos da direita como aos sociais democratas acossados pelos seus primos adversários comunistas. Poder-se-ia então pensar que o carácter colectivo do novo imperialismo era devido apenas a este factor político e que, quando o seu atraso em relação aos Estados Unidos fosse ultrapassado, a Europa e o Japão procurariam ver-se livres da supervisão incómoda e doravante supérflua de Washington. Isso não aconteceu. Porquê?

A minha explicação baseia-se no recrudescimento dos movimentos de libertação nacional na Ásia e em África – durante as duas décadas que se seguiram à Conferência de Bandung de 1955 que deu origem ao movimento das nações não alinhadas – e ao apoio que tiveram da União Soviética e da China (cada um deles à sua maneira). O imperialismo foi então forçado a conformar-se, não apenas aceitando a coexistência pacífica com uma enorme área que escapava muito ao seu controlo (o mundo socialista) mas também negociando as condições de participação dos países asiáticos e africanos no sistema imperialista mundial. O alinhamento colectivo da tríade sob a liderança americana parecia útil para gerir as relações Norte-Sul da época. Foi assim que as nações não alinhadas se confrontaram com um bloco ocidental praticamente indivisível.

O colapso da União Soviética e a sufocação dos regimes nacionalistas populistas nascidos dos movimentos nacionais de libertação permitiram que o projecto imperial dos Estados Unidos se desenvolvesse com extremo vigor no Médio Oriente, na África e na América Latina. Na verdade, o projecto mantém-se ao serviço do imperialismo colectivo, pelo menos até um certo ponto (que tentarei explicitar mais tarde). A expressão desse projecto acabou por ser o governo económico do mundo na base dos princípios do neoliberalismo, implementado pelo Grupo dos 7 e pelas instituições ao seu serviço (a OMC, o Banco Mundial e o FMI), e os planos de reajustamento estrutural passaram a vigorar no terceiro mundo asfixiado. Mesmo a nível político, é evidente que inicialmente os europeus e os japoneses alinharam com o projecto americano. Aceitaram a marginalização das Nações Unidas em benefício da NATO na época da Guerra do Golfo em 1991 e nas guerras na Jugoslávia e na Ásia Central em 2002. Esta fase ainda não terminou, embora a guerra em 2003 no Iraque tenha revelado algumas fendas na muralha.

A classe dominante dos Estados Unidos proclama abertamente que não tolerará a reconstituição de qualquer poder económico ou militar capaz de pôr em causa o seu monopólio de domínio sobre o planeta e, para atingir este objectivo, arroga-se o direito de desencadear guerras preventivas. Neste contexto estão debaixo de mira três principais possíveis adversários.

Em primeiro lugar está a Rússia, cujo desmembramento, a seguir ao da União Soviética, constitui de agora em diante um objectivo estratégico principal para os Estados Unidos. A classe dominante russa parece que ainda não percebeu bem isto. Parece convencida de que, depois de ter perdido a guerra, poderia ganhar a paz, como aconteceu com a Alemanha e o Japão. Esquece-se que Washington necessitava da recuperação destes dois anteriores adversários precisamente para enfrentar a ameaça soviética. A situação é agora diferente: os Estados Unidos já não têm um competidor perigoso. A sua primeira opção é portanto destruir o moribundo adversário russo duma forma permanente e total. Será que Putin percebe isto e irá iniciar o processo de tirar as ilusões à classe dominante russa? Em segundo lugar está a China, cujo crescimento e sucesso económico preocupa os Estados Unidos. O objectivo estratégico americano é desmembrar este enorme país.

A Europa vem em terceiro lugar nesta perspectiva global dos novos senhores do mundo. Mas aqui os governantes norte americanos não parecem tão inquietos, pelo menos até agora. O incondicional atlantismo de alguns (da Inglaterra, assim como dos novos poderes servis de leste), o lodaçal do projecto europeu (um assunto a que voltarei), e os interesses convergentes do capital dominante do imperialismo colectivo da tríade, tudo contribui para enfraquecer o projecto europeu. Os atlantistas constituem a ala europeia do projecto americano depois que a diplomacia de Washington conseguiu manter a Alemanha submissa. Esta aliança parece que foi mesmo reforçada com a reunificação e conquista da Europa de Leste. A Alemanha foi encorajada a repensar a sua tradição de expansão para leste e, em resultado disso, assistimos ao papel desempenhado por Berlim no desmembramento da Jugoslávia, ao apressadamente reconhecer a independência dos eslovenos e dos croatas. Em troca, a Alemanha aceitou navegar na senda de Washington. Há algumas mudanças em curso? A classe política alemã mostra-se hesitante e pode estar dividida quanto às suas escolhas estratégicas. A alternativa ao alinhamento atlantista é um reforço do antigo eixo Paris-Berlim-Moscovo, o qual se tornaria assim o mais sólido pilar dum sistema europeu independente de Washington.

Podemos agora reconsiderar a nossa principal questão, isto é, a natureza e a força potencial do imperialismo colectivo da tríade, e as contradições e fraquezas da liderança dos Estados Unidos.

3- O IMPERIALISMO COLECTIVO DA TRÍADE E A HEGEMONIA DOS ESTADOS UNIDOS: SUA ARTICULAÇÃO E CONTRADIÇÕES

O mundo dos nossos dias é unipolar do ponto de vista militar. No entanto, parece terem surgido algumas fissuras entre os Estados Unidos e alguns dos países Europeus que se identificam, pelo menos em teoria, com a gestão política de um sistema global unificado pelos princípios do liberalismo. Serão estas fissuras apenas temporárias e limitadas, ou prenunciam algumas mudanças duradouras? Será necessário analisar em toda a sua complexidade a lógica da nova fase do imperialismo colectivo (as relações Norte-Sul em linguagem corrente) e os objectivos específicos do projecto americano. Dentro deste espírito irei abordar sucinta e sucessivamente cinco conjuntos de questões:

Sobre a evolução do novo imperialismo colectivo

A formação do novo imperialismo colectivo tem a sua origem na transformação das condições de concorrência. Há apenas algumas décadas atrás, as grandes empresas travavam as suas batalhas competitivas essencialmente nos mercados nacionais, quer no dos Estados Unidos (o maior mercado nacional do mundo) quer nos dos estados europeus (apesar do seu tamanho reduzido que os inferiorizava em relação ao dos Estados Unidos). Os vencedores das competições nacionais adquiriam condições para ter êxito no mercado mundial. Nos nossos dias, para se atingir a supremacia no mercado, numa primeira fase da competição, é necessário um mercado com uma dimensão de 500 a 600 milhões de potenciais compradores. Portanto, a batalha tem que ser travada directamente no mercado global e tem que ser ganha neste terreno. E aqueles que dominarem este mercado poderão depois afirmar o seu poder nos respectivos terrenos nacionais. É através da internacionalização que as grandes firmas estabelecem a base mais importante da sua actividade. Por outras palavras, no duo nacional/global, os termos de causalidade estão invertidos: anteriormente o poder nacional comandava a presença global e hoje passa-se o contrário. Por isso, as firmas multinacionais, qualquer que seja a sua nacionalidade, têm interesses comuns na gestão do mercado mundial. Estes interesses sobrepõem-se aos diversos conflitos comerciais, que definem todas as formas da competição própria do capitalismo, independentemente de quais elas sejam.

A solidariedade dos segmentos dominantes do capital multinacional de todos os parceiros na tríade é real, e está expressa na sua adesão ao neoliberalismo globalizado. Nesta perspectiva, os Estados Unidos são vistos como os defensores (se necessário pelas armas) destes interesses comuns. Apesar disso, Washington não faz tenção de partilhar equitativamente os benefícios da sua liderança. Os Estados Unidos procuram, pelo contrário, reduzir a vassalos os seus aliados e por isso apenas dispostos a fazer concessões menores aos seus menores aliados na tríade. Será que este conflito de interesses no seio do capital dominante levará à ruptura da aliança atlântica? Não é impossível, mas é improvável.

Sobre a posição dos Estados Unidos na economia mundial

É senso comum que o poder militar americano constitui apenas a ponta do icebergue, e que a superioridade do país se estende também a todas as áreas, em especial à económica, mas também à política e à cultural. Daí que seja impossível evitar a submissão à hegemonia que pretendem.

Eu afirmo, pelo contrário, que, dentro do sistema do imperialismo colectivo, os Estados Unidos não têm uma superioridade económica decisiva. O sistema de produção americano está longe de ser o mais eficiente do mundo. Na verdade, muito poucos dos seus sectores teriam a certeza de bater a concorrência num mercado verdadeiramente livre como o sonhado pelos economistas liberais. O défice comercial americano, que aumenta de ano para ano, passou de 100 biliões de dólares em 1989 para 500 biliões em 2002. Mais ainda, este défice atingiu praticamente todas as áreas de produção. Mesmo os excedentes de que os Estados Unidos beneficiavam outrora na área dos artigos de alta tecnologia, os quais atingiam os 35 biliões em 1990, transformaram-se agora em défice. A competição entre os mísseis Ariane e os da NASA, entre os Airbus e os Boeings, comprova a vulnerabilidade da superioridade americana. Os Estados Unidos enfrentam a concorrência europeia e japonesa nos produtos de alta tecnologia, a chinesa, a coreana e a de outros países industrializados da Ásia e da América Latina nos produtos de fabrico comum, e a europeia e a do sul da América Latina na agricultura. Os Estados Unidos provavelmente não seriam capazes de ganhar se não fosse o seu recurso a meios extra-económicos, com a violação dos princípios do liberalismo imposto aos seus concorrentes!

O que é verdade, é que os Estados Unidos beneficiam apenas de uma superioridade comparativa no sector do armamento, precisamente porque este sector opera largamente fora das regras do mercado e beneficia de apoio estatal. Esta superioridade arrasta provavelmente alguns benefícios para a esfera civil (o exemplo mais conhecido é a Internet), mas também provoca graves distorções que prejudicam muitos sectores de produção.

A economia norte americana vive duma forma parasita em detrimento dos seus parceiros no sistema mundial. “Os Estados Unidos dependem em 10 por cento do consumo industrial de bens cujos custos de importação não estão cobertos pelas exportações dos seus próprios produtos”, como lembra Emmanuel Todd. [3] O mundo produz e os Estados Unidos (que praticamente não fazem poupança nacional) consomem. A superioridade dos Estados Unidos é a de um predador cujo défice é coberto por empréstimos dos outros, quer sejam consentidos quer sejam obtidos à força. Washington tem vindo a utilizar três formas principais de compensar esta deficiência: violações unilaterais repetidas dos princípios liberais; exportação de armamento; e procura de maiores lucros a partir do petróleo (o que pressupõe um controlo sistemático sobre os produtores – uma das verdadeiras razões para as guerras na Ásia Central e no Iraque). O que é facto é que parte essencial do défice americano é coberto pelas contribuições de capital da Europa, Japão e do Sul (dos países produtores de petróleo e das classes compradoras de todos os países do terceiro mundo, incluindo os mais pobres), às quais se juntam as somas adicionais que entram por conta da dívida que foi imposta em quase todos os países na periferia do sistema mundial.

O crescimento nos anos Clinton, apregoado como resultado de um liberalismo a que a Europa em vão tentava resistir, foi na verdade uma enorme mistificação e, de qualquer modo, não pode ser generalizado, porquanto estava dependente das transferências de capital que levavam à estagnação das economias parceiras. Em todos os sectores do verdadeiro sistema de produção, o crescimento americano não foi melhor do que o da Europa. O milagre americano foi alimentado exclusivamente por um crescimento na despesa produzido pelas crescentes desigualdades sociais (serviços financeiros e privados, legiões de advogados, e forças policiais privadas). Analisando os factos, torna-se claro que o liberalismo de Clinton preparou as condições para a onda reaccionária e posteriormente para a vitória de Bush Filho

As causas do enfraquecimento do sistema de produção americano são complexas. O que é certo é que não são conjunturais, e não podem ser corrigidas pela adopção de, por exemplo, uma taxa de câmbio correcta ou a instauração de um equilíbrio mais positivo entre salários e produtividade. Elas são estruturais. A mediocridade dos sistemas gerais de educação e de formação, e um preconceito profundamente enraizado sistematicamente em prol dos serviços privados em detrimento dos públicos, estão entre as principais razões da profunda crise por que a sociedade americana está a passar.

Devíamos, então, ficar surpreendidos pelo facto de os europeus, longe de tirarem as conclusões que se impõem da observação das deficiências das forças económicas americanas, estarem a imitá-los activamente. Também aqui o vírus liberal não explica tudo, mesmo quando desempenha algumas funções úteis ao sistema tal como a de paralisar a esquerda. A privatização desenfreada e o desmantelamento dos serviços públicos apenas terão como resultado a redução da superioridade comparativa de que goza ainda “A Velha Europa” (como Bush lhe chama). No entanto, quaisquer que sejam os danos que estas medidas venham a causar a longo prazo, elas proporcionam ao capital dominante, que vive a curto prazo, a possibilidade de obter lucros adicionais.

Sobre os objectivos específicos do projecto americano

A estratégia de hegemonia dos Estados Unidos insere-se no quadro do novo imperialismo colectivo.

Os economistas convencionais não têm as ferramentas analíticas necessárias para entender a importância suprema destes objectivos. Ouvimo-los repetir até à exaustão que na nova economia as matérias-primas vindas do terceiro mundo estão condenadas a perder a sua importância e por isso o terceiro mundo está a tornar-se cada vez mais marginal no sistema mundial. Em contradição com este discurso ingénuo e oco temos o Mein Kampfda administração Bush, [4] e temos que reconhecer que os Estados Unidos têm lutado esforçadamente pelo direito de se apropriarem de todos os recursos naturais do planeta a fim de satisfazer as suas exigências de consumo. A corrida pelas matérias-primas (primeiro que tudo o petróleo, mas também outras – principalmente a água) já se iniciou em toda a sua virulência. Tanto mais que estes recursos estão em vias de se tornarem escassos não só por causa do desperdício nocivo inerente ao consumismo ocidental, mas também por causa do desenvolvimento da nova industrialização das periferias.

Acresce que um grande número de países do Sul estão em vias de se tornar produtores industriais de importância crescente tanto a nível dos seus mercados internos como quanto ao seu papel no mercado mundial. Enquanto importadores de tecnologias, de capital, e também enquanto concorrentes na exportação, estão em vias de perturbar o equilíbrio económico global com um peso cada vez maior. E não se trata apenas de alguns países da Ásia Ocidental (como a Coreia), mas da imensa China e, futuramente, da Índia e dos grandes países da América Latina. No entanto, longe de ser um factor de estabilização, a aceleração da expansão capitalista no Sul apenas pode vir a provocar violentos conflitos – internos e internacionais. E a razão é que esta expansão não consegue absorver, nas actuais condições, a enorme reserva de força de trabalho que está concentrada na periferia. De facto, as periferias do sistema continuam a ser uma zona de tempestades. Os centros do sistema capitalista precisam pois de exercer o seu domínio sobre as periferias e submeter a população do mundo à disciplina impiedosa que a satisfação das suas prioridades requer.

Dentro desta perspectiva, a elite governante americana percebeu perfeitamente que, para alcançar a sua hegemonia, tem três vantagens absolutas sobre os competidores europeus e japoneses: o controlo sobre os recursos naturais do globo, o monopólio militar e o peso da cultura anglo-saxónica através da qual se exprime melhor o domínio ideológico do capitalismo. A manipulação sistemática destas três vantagens revela muitos aspectos da política americana: os esforços sistemáticos que Washington exerce pelo controlo militar do Médio Oriente produtor de petróleo; a sua estratégia ofensiva no que diz respeito à China e à Coreia – tirando partido da “crise financeira” desta última; e o seu jogo subtil com vista a divisões sem fim na Europa – mobilizando o seu incondicional aliado inglês ao mesmo tempo que evita qualquer aproximação séria entre a União Europeia e a Rússia. A nível do controlo global sobre os recursos do planeta, os Estados Unidos têm uma superioridade absoluta sobre a Europa e o Japão. Não só porque os Estados Unidos são a única potência militar internacional e, por isso, nenhuma intervenção forte no terceiro mundo pode ser levada a efeito sem eles, mas principalmente porque a Europa (com exclusão da ex-URSS) e o Japão estão por seu lado extremamente dependentes dos recursos essenciais para as suas economias. Por exemplo, a sua dependência no sector da energia, em especial a sua dependência do petróleo em relação ao Golfo Pérsico, irá durar um considerável período de tempo, mesmo que venha a diminuir em termos relativos. Ao assegurarem o controlo desta região, pela força das armas, através da guerra do Iraque, os governantes dos Estados Unidos demonstraram que estavam perfeitamente conscientes da utilidade deste tipo de pressão, que utilizam para refrear os seus competidores (aliados). Não há muito tempo, a União Soviética também já se tinha apercebido desta vulnerabilidade da Europa e do Japão, e algumas intervenções soviéticas no terceiro mundo tiveram o objectivo de demonstrar isso mesmo, a fim de os obrigar a negociar noutras regiões. Tornou-se evidente que as deficiências da Europa e do Japão podiam ser compensadas na sequência duma aproximação séria entre a Europa e a Rússia (a casa comum” de Gorbachev). Esta é a verdadeira razão para que o perigo da construção da Eurásia continue a ser o pesadelo de Washington.

Sobre os conflitos entre os Estados Unidos e os seus parceiros na tríade

Se bem que os parceiros na tríade partilhem interesses comuns na gestão global do imperialismo colectivo implícito no seu relacionamento com o Sul, eles mantêm no entanto um relacionamento muito grave, potencialmente conflituoso.

A superpotência americana mantém-se de pé graças ao fluxo de capital que alimenta o parasitismo da sua economia e da sua sociedade. Esta vulnerabilidade dos Estados Unidos constitui, assim, uma séria ameaça ao projecto de Washington.

A Europa em particular e o resto do mundo em geral terão que escolher uma das duas seguintes opções estratégicas: ou investem o excedente do seu capital (isto é, economias) por forma a garantir o financiamento continuado do défice americano (consumo, investimentos e despesas militares) ou conservam e investem estas economias internamente.

Os economistas convencionais mantêm-se alheados a este problema, e levantam a hipótese absurda de que, como a globalização supostamente aboliu o estado-nação, os factores básicos económicos (poupança e investimento) deixaram de poder ser geridos a nível nacional. Mas embora ridícula, a noção de identidade de poupança e investimento a nível mundial é na verdade útil para justificar e favorecer o financiamento do défice americano por terceiros. Tal absurdo é um excelente exemplo do raciocínio tautológico, em que as conclusões a que se pretende chegar estão implicadas na própria premissa.

Então porque é que se aceita um disparate destes? Sem dúvida porque as equipas de doutos economistas que enquadram quer as classes políticas europeias da direita (assim como as russas e as chinesas) quer as da esquerda eleitoral são elas próprias vítimas da sua alienação económica, a que chamo o vírus liberal. Mais ainda, o raciocínio político do grande capital multinacional exprime-se através desta opção. Este raciocínio é de que as vantagens decorrentes da gestão do sistema globalizado pelos Estados Unidos por conta do imperialismo colectivo são mais importantes do que os seus inconvenientes – é um tributo que tem que ser pago a Washington para garantir a estabilidade. O que está em jogo, afinal de contas, é um tributo e não um investimento com garantia de um bom retorno. Há alguns países classificados de países pobres endividados que estão sempre constrangidos a pagar a sua dívida a qualquer preço. Mas há também um país fortemente endividado que tem os meios para desvalorizar a sua dívida se isso for considerado necessário.

A outra opção para a Europa (e para o resto do mundo) consistiria assim em pôr fim a esta transfusão a favor dos Estados Unidos. As poupanças poderiam então ser utilizadas localmente (na Europa), e a economia poderia ser revitalizada. A transfusão exige que os europeus se submetam, na linguagem equívoca da economia convencional, a “políticas deflacionárias” a que chamo de estagnação – que provoquem um excedente de poupança para exportação. Faz com que a recuperação na Europa – sempre medíocre – fique dependente do apoio artificial dos Estados Unidos. A mobilização deste excedente para emprego local na Europa permitiria uma revitalização não só do consumo (reformulando a dimensão social da gestão económica destruída pelo vírus liberal), como do investimento (em especial nas novas tecnologias e pesquisa), e até mesmo das despesas militares (pondo fim à superioridade dos Estados Unidos nesta área). A escolha desta resposta implicaria um reequilíbrio das relações sociais em prol das classes trabalhadoras. Na Europa esta opção mantém-se possível para o capital. No fundo, o contraste entre os Estados Unidos e a Europa não resulta de interesses opostos dos segmentos dominantes dos seus respectivos capitais. Resulta sobretudo da diferença de culturas políticas.

Sobre aspectos da teoria levantada pelas reflexões anteriores

A cumplicidade e a competição entre os parceiros no imperialismo colectivo pelo controlo do Sul – a pilhagem dos recursos naturais e a sujeição dos seus povos – podem ser analisadas sob diversos pontos de vista. Quanto a isto, farei três observações que me parecem as mais importantes.

Primeira, o sistema mundial contemporâneo que designo por imperialismo colectivo não é menos imperialista que os seus antecessores. Não é um “Império” de natureza “pós-capitalista”.

Segunda, propus uma leitura da história do capitalismo, globalizado logo desde a origem, centrada na distinção entre as diversas fases do imperialismo (de relações centro/periferia).

Terceira, a internacionalização não é sinónimo de unificação do sistema económico através da abertura selvagem dos mercados. Esta última – nas suas formas históricas sucessivas (liberdade de comércio ontem, liberdade das empresas hoje) – constituiu sempre o projecto do capital dominante da época. Na realidade este projecto foi quase sempre forçado a ajustar-se a condições que não eram do interesse da sua lógica interna exclusiva e específica. Portanto, nunca pôde ser implementado a não ser durante alguns breves momentos da história. A “livre troca” proclamada pela principal potência industrial do tempo, a Inglaterra, só funcionou durante duas décadas (1860-1880) e foi seguida por um século (1880-1980) caracterizado pelo conflito entre os países imperialistas e pelo afastamento vincado dos países socialistas e o afastamento mais moderado dos países nacionalistas populistas (na era de Bandung desde 1955 a 1975). O actual momento de reunificação do mercado mundial, instaurado pelo neoliberalismo desde 1980, e alargado a todo o planeta com o colapso soviético, não terá provavelmente um destino melhor. O caos que tem gerado comprova o seu carácter de “permanente utopia do capital”, frase com que tenho descrito este sistema desde 1990.

4. O MÉDIO ORIENTE NO SISTEMA IMPERIALISTA

O domínio americano da região depois da queda da União Soviética

O Médio Oriente, considerado daqui em diante em conjunto com as áreas fronteiriças do Cáucaso e da Ásia Central ex-soviética, ocupa uma posição de especial importância na geoestratégia e geopolítica do imperialismo e, em especial, do projecto de hegemonia americano. Deve esta posição a três factores: à sua riqueza em petróleo; à sua posição geográfica no coração do Velho Mundo; e ao facto de que constitui o ponto vulnerável do sistema mundial.

O acesso ao petróleo a um preço relativamente barato é vital para a economia da tríade dominante, e os melhores meios de assegurar este acesso garantido consiste em assegurar o controle político da área.

Mas a região também tem importância devido igualmente à sua posição geográfica, estando junto ao centro do Velho Mundo, a igual distância de Paris, Pequim, Singapura e Johannesburg. Nos velhos tempos o controle sobre esta inevitável encruzilhada deu ao Califado o privilégio de retirar os principais benefícios do comércio a longa distância daquela época. Após a Segunda Guerra Mundial a região, localizada ao sul da União Soviética, era crucial para a estratégia militar de sitiar o poder soviético. E a região não perdeu a sua importância com o colapso do adversário soviético. A dominância americana na região reduz a Europa, dependente do Médio Oriente para o seu abastecimento de energia, à vassalagem. Uma vez subjugada a Rússia, a China e a Índia estavam também sujeitas à chantagem energética permanente. O controle sobre o Médio Oriente permitiria portanto uma extensão da Doutrina Monroe ao Velho Mundo, o objectivo do projecto hegemonista dos Estados Unidos. Mas os contínuos e constantes esforços efectuados por Washington desde 1945 para assegurar o controle sobre a região, excluindo os britânicos e franceses ao mesmo tempo, não foram coroados pelo êxito. Pode-se recordar o fracasso da tentativa de anexar a região à NATO através do Pacto de Bagdad, e a queda de um dos seus mais fieis aliados, o Xá do Irão.

A razão é muito simplesmente porque o projecto do populismo nacionalista árabe (e iraniano) entrou logo em conflito com os objectivos do hegemonismo americano. Este projecto árabe tinha esperança de forçar as Grandes Potências a reconhecer a independência do mundo árabe. O movimento não-alinhado formado em 1955 em Bandung pelo conjunto dos movimentos de libertação dos povos asiáticos e africanos era a corrente mais forte naquele tempo. Os soviéticos entenderam isto rapidamente, dando o seu apoio a este projecto eles podiam conter os planos agressivos de Washington.

Este época chegou a um fim, em primeira instância porque o projecto populista-nacionalista do mundo árabe exauriu rapidamente o seu potencial para a transformação, e os poderes nacionalistas afundaram em ditaduras esvaziadas tanto de esperança como de planos para mudança. O vácuo criado por esta deriva abriu o caminho para o Islão político e as autocracias obscurantistas do Golfo Pérsico, os aliados preferidos de Washington. A região tornou-se uma das partes fracas (underbellies) do sistema global, vulnerável à intervenção externa (inclusive militar) que os regimes em vigor, por falta de legitimidade, são incapazes de conter ou desencorajar. A região constituiu, e continua a constituir, uma zona de alta prioridade (como a caribenha) dentro da divisão geomilitar americana do planeta — uma zona onde aos Estados Unidos é concedido o "direito" de intervenção militar. A partir de 1990 eles não se privaram de nada!

Os Estados Unidos operam no Médio Oriente em estreita cooperação com os seus dois fieis e incondicionais aliados — Turquia e Israel. A Europa é mantida longe da região, forçada a aceitar que os Estados Unidos estão a defender os interesses globais vitais da tríade, ou seja, o seu abastecimento de petróleo. Apesar dos sinais de óbvia irritação após a guerra do Iraque, nesta região os europeus de um modo geral continuam a seguir com entusiasmo o rastro de Washington.

O papel de Israel e da resistência palestina

O expansionismo colonial de Israel constitui um desafio real. Israel é o único país do mundo que se recusa a reconhecer as suas fronteiras como definidas (e por esta razão não tem o direito de ser membro das Nações Unidas). Tal como os Estados Unidos no século XIX, reivindica o direito de conquistar novas áreas para a expansão da sua colonização e de tratar o povo que ali tem vivido durante milhares de ano como "peles-vermelhas". Israel é o único país que se declara abertamente não vinculado às resoluções da ONU.

A guerra de 1967, planeada em 1965 em acordo com Washington, buscava vários objectivos: iniciar o colapso dos regimes populistas nacionalistas; romper a sua aliança com a União Soviética; forçá-los a reposicionarem-se nos termos americanos; e abrir novos territórios para a colonização sionista. Nos territórios conquistados em 1967 Israel montou um sistema de apartheid inspirado naquele da África do Sul.

É aqui que os interesses do capital dominante encontram-se com aqueles do sionismo. Um mundo árabe rico, poderoso e modernizado poria em causa o direito do Ocidente de pilhar os seus recursos petrolíferos, os quais são necessários para a continuação do desperdício associado com a acumulação capitalista. Portanto, o poderes políticos nos países da tríade — todos eles servidores fieis do capital transnacional dominante — não querem um mundo árabe modernizado e poderoso.

A aliança entre as potências ocidentais e Israel é funda-se portanto na base sólida dos seus interesses comuns. Esta aliança não é nem o produto dos sentimentos de culpa europeus pelo anti-semitismo e crimes nazis nem o da habilidade do "lobby judaico" em explorar tal sentimento. Se as Potências pensassem que o seu interesse eram prejudicado pelo expansionismo colonial sionista, elas rapidamente encontrariam o meios de ultrapassar o seu complexo de culpa de neutralizar este lobby. Não duvido disto, nem estou entre aqueles que ingenuamente acreditam que a opinião pública nos países democráticos, tal como ela é, imponha as suas visões a estas Potências. Sabemos que a opinião pública também é fabricada. Israel é incapaz de resistir por mais do que uns poucos dias mesmo da moderadas medidas de um bloqueio tal como as potências ocidentais infligem à Juguslávia, Iraque e Cuba. Não seria difícil portanto trazer Israel ao bom senso e criar as condições para uma paz verdadeira, se quisessem, o que não acontece.

Logo após a derrota na guerra de 1967, o presidente do Egipto Anwar Sadat declarou que os Estados Unidos detinham "90 por certo das cartas" (expressão sua) e portanto era necessário romper com a União Soviética e reintegrar o campo ocidental. Ele afirmou que ao fazer isso podia conseguir que Washington exercesse suficiente pressão sobre Israel para levá-lo ao bom senso. Além de tais ideias estratégicas peculiares a Sadat — cuja incoerência tem sido demonstrada pelos acontecimentos — a opinião pública árabe continuou em grande medida incapaz de compreender a dinâmica da expansão global do capitalismo, e menos ainda de identificar as suas verdadeiras contradições e fraquezas. Não se diz ainda que "Algum dia o ocidente entenderá que o seu interesse a longo prazo é manter boas relações com 200 milhões de árabes e preferirá não sacrificar estas relações para o apoio incondicional a Israel?" Implicitamente isto é o mesmo que pensar que o “Ocidente” em causa, que é o centro imperial do capital, prefere um mundo árabe moderno e desenvolvido em vez de querer manter o mundo árabe subjugado, para o que é manifestamente útil o apoio a Israel.

A escolha feita pelos governos árabes – à excepção da Síria e do Líbano – que os levaram nas negociações de Madrid e Oslo (1993) a subscrever o plano americano da então chamada paz definitiva, não podia produzir resultados diferentes daqueles que já produzira: encorajar Israel a consolidar o seu projecto expansionista. Ao rejeitar hoje abertamente as condições do contrato de Oslo, Ariel Sharon demonstra apenas o que já era claro na altura – que não se tratava de uma questão dum projecto para a paz definitiva, mas o começo duma nova fase na expansão colonial sionista.

Israel e os poderes ocidentais que apoiaram este projecto impuseram um estado de guerra permanente na região. Por seu lado, este estado de guerra permanente reforça os regimes autocráticos árabes. Este bloqueio de qualquer possível evolução democrática enfraquece as possibilidades duma revitalização do mundo árabe, e reforça assim a aliança do capital dominante com a estratégia hegemónica dos Estados Unidos. Fecha-se o círculo: a aliança israelo-americana serve perfeitamente os interesses dos dois parceiros.

Parecia inicialmente que o sistema de apartheid instaurado após 1967 seria capaz de atingir os seus objectivos – a gestão da vida quotidiana nos territórios ocupados pelas temíveis elites e pela burguesia comercial, com a aceitação aparente do povo palestino. Do seu longínquo exílio em Tunes, a OLP, afastada da região após a invasão do Líbano pelo exército israelense (1982), parecia já incapaz de questionar a anexação sionista.

A primeira Intifada explodiu em Dezembro de 1987. Expressou o repentino levantamento das classes populares e em especial dos seus segmentos mais pobres confinados aos campos de refugiados. A Intifada cortou o cordão com o poder israelense ao organizar uma desobediência civil sistemática. Israel reagiu com brutalidade, mas não conseguiu restaurar o poder da sua polícia nem voltar a dominar as temíveis classes médias palestinas. Pelo contrário, a Intifada exigia o regresso em massa das forças políticas exiladas, a constituição de novas formas locais de organização, e a adesão das classes médias a uma luta empenhada pela libertação. A Intifada foi desencadeada por adolescentes, chebab al Intifada, inicialmente não enquadrados nas organizações formais da OLP, mas nem por isso hostis a essas organizações. As quatro componentes da OLP (a Fatah, fiel ao seu chefe Yasser Arafat, a Frente Democrática para a Libertação da Palestina, a Frente Popular para a Libertação da Palestina e o Partido Comunista) empenharam-se na Intifada e conquistaram assim a simpatia da maior parte dos chebab. A Irmandade Muçulmana, com um papel secundário por causa da sua inactividade durante os anos precedentes, apesar de algumas acções levadas a efeito pelo Jihad Islâmico (que fez a sua aparição em 1980), refugiou-se numa nova expressão de luta – a Hamas, constituída em 1988.

Quando, ao fim de dois anos, a primeira Intifada deu sinais de esgotamento, e com uma repressão israelense cada vez mais violenta (que incluiu o uso de armas de fogo contra crianças e o fecho da linha verde para bloquear praticamente a única fonte de rendimento dos trabalhadores palestinos), o cenário para as “negociações” estava montado. A iniciativa foi tomada pelos Estados Unidos, conduzindo primeiro às conversações de Madrid (1991) e depois aos assim chamados Acordos de Paz de Oslo (1993). Estes acordos permitiram o regresso da OLP aos territórios ocupados e a sua transformação numa Autoridade palestina.

Os acordos de Oslo idealizaram a transformação dos territórios ocupados em um ou mais bantustões, integrados decisivamente na região israelense. Dentro desta estrutura, a Autoridade palestina era apenas um falso estado – tal como nos bantustões – e na realidade uma mera correia de transmissão da ordem sionista.

Ao voltar para a Palestina, a OLP – agora a Autoridade palestina – conseguiu estabelecer a sua lei, mas não sem algumas ambiguidades. A autoridade absorveu na sua nova estrutura a maior parte dos chebab, que tinham coordenado a Intifada. Alcançou a legitimidade na consulta eleitoral de 1996, na qual os palestinos participaram em massa (80 por cento); uma esmagadora maioria elegeu Arafat presidente da autoridade. A autoridade manteve-se contudo numa posição ambígua: aceitaria desempenhar as funções que Israel, os Estados Unidos e a Europa lhe tinham destinado – a de serem governo dum bantustão, ou alinharia com o povo palestino que recusava submeter-se?

Como o povo palestino rejeitou o projecto bantustão, Israel decidiu denunciar o acordo de Oslo, apesar de ter ditado o seu articulado, e substitui-lo pelo uso puro e simples da violência militar. A provocação aos lugares santos de Jerusalém engendrada pelo criminoso de guerra Sharon em 1998 (mas com a ajuda do governo trabalhista que forneceu os tanques), e a eleição triunfal desse mesmo criminoso para a chefia do governo israelense (com a colaboração do “inocente” Simon Peres com este governo), foram a causa da segunda Intifada que está em curso.

Terá esta sucesso na libertação do povo palestino do jugo ao apartheid sionista? É demasiado cedo para o dizer. De qualquer modo, o povo palestino tem neste momento um verdadeiro movimento de libertação nacional. Tem as suas especificidades próprias. Não segue o modelo do estilo de homogeneidade de partido único (embora a realidade dos estados de partido único seja sempre mais complexa). Tem componentes que conservam a sua própria personalidade, as suas perspectivas quanto ao futuro, incluindo as suas ideologias, os seus militantes e clientelas, mas que parecem saber como cooperar na liderança da luta.

O projecto americano para o Médio Oriente

O desgaste dos regimes do nacionalismo populista e o desaparecimento do apoio soviético deram aos Estados Unidos a oportunidade de implementar o seu projecto para a região.

O controlo do Médio Oriente é de facto uma pedra angular do projecto de Washington para a hegemonia global. Então como é que os Estados Unidos prevêem assegurar esse controlo? Já passou uma década desde que Washington tomou a iniciativa de avançar com o estranho projecto dum “Mercado Comum do Médio Oriente” no qual alguns países do Golfo Pérsico forneciam o capital enquanto outros países árabes forneciam mão de obra barata, ficando reservado a Israel o controlo tecnológico e as funções de intermediário privilegiado e agradecido. Aceite pelos países do Golfo e pelo Egipto, o projecto foi no entanto confrontado com a recusa da Síria, do Iraque e do Irão. Era pois necessário derrubar estes três regimes para que o projecto avançasse. O que já está a ser feito no Iraque.

A questão agora é qual o tipo de regime político que deve ser instaurado por forma a dar sustentação ao projecto. O discurso propagandístico de Washington fala de “democracias.” Na realidade, Washington apressa-se a simplesmente substituir as assim chamadas autocracias obscurantistas islâmicas pelas desgastadas autocracias do populismo fora de moda (mascarando a operação com baboseiras acerca do seu respeito pela especificidade cultural das comunidades). A aliança renovada com o assim chamado Islão politicamente moderado (um que seja capaz de controlar a situação com eficácia bastante para impedir os movimentos terroristas – definindo como “terroristas” as ameaças dirigidas contra, e somente contra, os Estados Unidos) constitui agora o eixo da opção política de Washington. É nesta perspectiva que deverá ser encontrada a reconciliação com a antiquada autocracia do sistema social do Médio Oriente.

Confrontados com o desenvolvimento do projecto americano, os europeus inventaram o seu próprio projecto, baptizado de “Parceria euro-mediterrânica.” Um projecto decisivamente cobarde – atafulhado de conversa incoerente que, claro, também propunha reconciliar os países árabes com Israel. A exclusão dos países do Golfo do diálogo euro-mediterrânico reconhecia que a gestão e o controlo destes últimos países era da exclusiva responsabilidade de Washington.

O agudo contraste entre a audácia destemida do projecto americano e a debilidade do projecto europeu é um bom indicador de que não há lugar para um verdadeiro atlantismo com igualdade de responsabilidade e de associação quanto às decisões que coloquem os Estados Unidos e a Europa em pé de igualdade. Tony Blair, que se instituiu a si próprio advogado da construção de um mundo unipolar, julga que pode justificar esta opção com o argumento de que o atlantismo seria fundado nessa suposta colaboração. A arrogância de Washington revela todos os dias que esta expectativa é ilusória, se é que não foi desde o início uma tentativa de má fé para enganar a opinião europeia. O realismo da declaração de Estaline de que os nazis “não sabiam quando é que deviam parar” aplica-se exactamente aos que controlam os Estados Unidos. Blair invoca expectativas que lembram as depositadas na suposta capacidade de Mussolini para deter Hitler.

Será possível outra opção europeia? Terá já começado a ganhar forma? Será que o discurso de Chirac opondo-se ao mundo “Atlântico unipolar” (que aparentemente ele considera ser de facto sinónimo de hegemonia unilateral dos Estados Unidos) anuncia a construção de um mundo multi-polar e o fim do atlantismo? Para que esta possibilidade se torne uma realidade, é necessário que a Europa se liberte primeiro do pântano em que se debate e se afunda.

5. O PROJECTO EUROPEU: ATOLADO NO PÂNTANO LIBERAL

Todos os governos dos estados europeus foram conquistados pelas teses do liberalismo. Esta arregimentação dos estados europeus traduz simplesmente o desaparecimento do projecto europeu por um duplo enfraquecimento, o económico (as vantagens da união económica europeia desfizeram-se com a globalização económica) e o político (a autonomia política e militar europeia desapareceu). Neste momento não existe qualquer projecto europeu. Foi substituído por um projecto Atlântico Norte (ou mesmo da tríade) sob o controlo americano.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa ocidental conseguiu compensar o seu atraso económico e tecnológico vis-à-vis os Estados Unidos. Depois de 1989, desapareceu a ameaça soviética tal como desapareceram as desgraças que marcaram a história da Europa durante os últimos cento e cinquenta anos: os três maiores países do continente – a França, a Alemanha e a Rússia – reconciliaram-se. Todos estes acontecimentos são, quanto a mim, positivos e ricos de ainda maior potencial. Claro que estão empilhados numa base económica reestruturada dentro dos princípios do liberalismo. No entanto este liberalismo foi moderado até à década de 80 pelo compromisso histórico social-democrata que forçou o capital a ajustar-se às exigências da justiça social expressas pelas classes trabalhadoras. Depois disso, o desenvolvimento continuou num novo quadro social inspirado pelo liberalismo anti-social, no estilo americano.

Esta última reviravolta mergulhou as sociedades europeias numa crise multidimensional. Essencialmente é uma crise económica que resulta, pura e simplesmente, da escolha liberal. A crise foi agravada pelos países europeus que alinharam com as exigências económicas da liderança americana: o consentimento da Europa em continuar a financiar o défice americano em detrimento dos seus próprios interesses. Depois há a crise social, que é acentuada pelo aumento das oposições e lutas das classes populares contra as consequências fatais da opção liberal. Finalmente, há o começo duma crise política – a recusa de alinhar, pelo menos incondicionalmente, com a exigência americana de uma guerra sem fim contra o Sul.

As guerras made-in-USA abalaram obviamente a opinião pública (a última guerra no Iraque teve esse efeito de uma forma global) e até mesmo alguns governos, inicialmente o da França e depois também os da Alemanha, da Rússia e da China. O que é verdade é que esses mesmos governos não puseram em dúvida o seu fiel alinhamento com as necessidades do liberalismo. Esta importante contradição terá que ser resolvida de uma forma ou de outra, seja pela submissão às exigências de Washington seja por uma verdadeira rotura que ponha fim ao atlantismo.

A principal conclusão política que tiro desta análise é que a Europa não pode ir além do atlantismo enquanto as alianças políticas que definem os blocos que detêm o poder se mantiverem centradas no capital multinacional dominante. Só se as lutas sociais e políticas conseguirem modificar o conteúdo destes blocos, e impor novos compromissos históricos entre o capital e o trabalho, é que a Europa conseguirá distanciar-se de Washington, permitindo uma possível revitalização dum projecto europeu. Nestas condições a Europa também poderia – deveria mesmo – envolver-se a nível internacional nas relações com o leste e o sul, seguindo um caminho diferente do que o traçado pelas exigências exclusivas do imperialismo colectivo. Um percurso assim seria o começo da sua participação na longa caminhada para lá do capitalismo. Por outras palavras, a Europa ou será de esquerda (a palavra esquerda deve ser levada a sério) ou não será nada.

Notas

[1] Samir Amin, Class and Nation (New York: NYU Press, 1981); Samir Amin, Eurocentrism, (New York: Monthly Review Press, 1989); Samir Amin, Obsolescent Capitalism (London: Zed Books, 2003); Samir Amin, The Liberal Virus (New York, Monthly Review Press, 2004).
[2] A leitura de “sucessão de hegemonias” é “ocidente-cêntrica” no sentido em que considera que as transformações que se desenrolam no coração do sistema comandam a evolução global do sistema dum modo decisivo e praticamente exclusivo. As reacções das populações das periferias ao desenvolvimento imperialista não deve ser subestimado. A independência das Américas, as grandes revoluções feitas em nome do socialismo (Rússia e China), e a reconquista da independência dos países asiáticos e africanos, constituíram provocações ao sistema feitas pelas periferias. E não acredito que se possa explicar a história do capitalismo mundial sem explicar os ajustamentos que essas transformações impuseram mesmo ao próprio capitalismo central. Também porque a história do imperialismo me parece ter sido modelada mais através do conflito de imperialismos do que pelo tipo de ordem que as sucessivas hegemonias impuseram. Os aparentes períodos de hegemonia foram sempre extremamente curtos e a dita hegemonia muito relativa.
[3] Emmanuel Todd, After the Empire: The Breakdown of the American Order (New York: Columbia University Press, 2003).
[4] Office of the White House, The National Security Strategy of the United States, Setembro 2002, http://www.whitehouse.gov/nsc/nss.html.

[*] Samir Amin é diretor do Fórum do Terceiro Mundo em Dakar, no Senegal. Entre os seus livros mais recentes encontram-se Contemporary Politics and Global Disorder (Zed Books, 2004) e The Liberal Virus: Permanent War and the Americanization of the World (Monthly Review Press, 2004). Este artigo é um resumo de “The U.S. Imperialism and the Middle East” de Pratyush Chandra, Anuradha Ghosh, and Ravi Kumar, eds., The Politics of Imperialism and Counterstrategies (Delhi, India: Aakar Books, 2004). U.S. Imperialism, Europe, and the Middle East.

1 de novembro de 2004

O grande negócio da guerra

A terceirização avançada do sistema de defesa americano traz conseqüências para o pós-guerra no Iraque, que recebe empresas de segurança privada que fazem, às vezes, de força de ocupação, disseminando caos e violência

Sami Makki

Le Monde Diplomatique

Tradução / Alguns meses depois da queda do regime de Saddam Hussein, contabilizavam-se no Iraque perto de 20 mil pessoas dependentes de segurança privada. A incapacidade das tropas americanas de manter a ordem e a demanda crescente dos agentes internacionais, assim como dos investidores americanos presentes no Iraque, explicam o fenômeno. Com a degradação das condições de segurança, esses grupos ocidentais - as companhias militares privadas (do francês Sociétés Militaires Privées - SMP) ou Private Military Companies - de fato proliferaram, passando a representar oficialmente um conjunto de mais de 25 SMPs, sobretudo americanas e britânicas, indicadas pelo Departamento de Estado americano no documento intitulado Security Companies Doing Business in Iraq, datado de maio de 2004. Essas empresas são apenas a parte comercial que emerge de um mundo mais sombrio.

Depois do fim da guerra fria, as práticas de terceirização rapidamente se desenvolveram no seio das forças armadas americanas, sob os efeitos conjuntos da globalização da indústria militar, da redução dos exércitos e das exigências de "racionalização" dos orçamentos de defesa. Forma avançada de subcontratação, pelos volumes financeiros importantes e que implica a divisão dos riscos entre o Estado e a iniciativa privada, a terceirização constitui inicialmente uma aplicação do new public management (nova forma de gestão do Estado), conforme as políticas liberais de privatização1.

Essas novas parcerias público-privadas supostamente responderiam às pressões orçamentárias e liberariam fundos para modernizar as forças armadas, desenvolver e obter novos sistemas de armas. O departamento de defesa afirmava, em 2002, que poderia economizar mais de 11 bilhões de dólares entre 1997 e 2005 graças à terceirização. Tratava-se sobretudo de um discurso de efeito, destinado a ocultar conseqüências da transformação da organização e da economia da defesa, pela redução do número de empregados federais, em benefício do setor privado.Abuso e superfaturamento

Os críticos foram duros quando o exército americano anunciou, em outubro de 2002, que mais de 200 mil empregos seriam "terceirizados" no decorrer da terceira fase de privatização. Para numerosos especialistas, a radicalidade dessa reforma não acarretará necessariamente uma maior eficácia2. Segundo o sindicalista Robert Harnage, presidente da Federação Americana dos Funcionários Federais, "[no início de 2003] o número de pessoas que estava trabalhando sob contrato com a defesa era quatro vezes maior do que o número de funcionários civis". Do seu ponto de vista, a terceirização "significa, portanto, uma supressão dos empregos e o desaparecimento de uma certa ética da responsabilidade [individual] 3".

No quadro de terceirização dos serviços dos exércitos em operação exteriores, mais de 3 mil contratos foram assinados entre sucessivos governos e as SMPs, entre 1994 e 2004, por mais de 300 bilhões de dólares. Essas firmas chamam-se DynCorp, Military Professional Ressources Inc. (MPRI) ou Kellogg Brown and Root (KBR). Sua entrada traduziu-se num aumento progressivo do número de pessoas do setor privado ao lado das forças armadas americanas (logística, manutenção, engenharia, engenharia de sistemas de armas) no campo de batalha. Por ocasião da primeira guerra do Golfo, em 1991, a proporção era de aproximadamente um agente privado para cem soldados; passou para um para dez em 2003. Na fase atual de desdobramento do conflito no Iraque, esses agente privados representam a segunda força de ocupação, o que equivale a 20% das forças americanas.

Do ponto de vista financeiro, e apesar das economias orçamentárias de 4,5 a 6 bilhões de dólares por ano previstas pelo conselho científico da defesa (Pentágono), a economia não atingiu o esperado. Para vários desses contratos, o tribunal de contas americano mostrou que o custo real ultrapassava em vários milhões de dólares as estimativas e que abusos tinham levado a um superfaturamento notável de certos serviços nos negócios de reconstrução no Iraque4. Dirigida até 2000 pelo atual vice-presidente Richard Cheney, a multinacional Halliburton obteve em 2003, por meio da sua filial KBR particularmente, um conjunto de contratos de um valor superior a 1 bilhão de dólares e esteve diretamente implicada nos escândalos relativos às condições privilegiadas dos contratos, provando o conluio de interesses entre a administração Bush e as multinacionais do complexo militar-industrial americano5.Flexibilidade para burlar as regras

Para além da "racionalização orçamentária" e da dimensão ideológica inicial da terceirização, uma reflexão estratégica foi lançada. Engajados pelo mundo em uma guerra de fraca intensidade, mas de longa duração, contra o "terrorismo", preparando suas forças armadas para grandes confrontações, os Estados Unidos não podem reduzir sua liderança com uma retirada total dos espaços de menor importância estratégica. Daí delegarem certas tarefas, a fim de desencarregar as forças armadas das missões menos vitais para a segurança nacional.

Uma parte crescente desses programas pretende igualmente desenvolver forças que otimizem a flexibilidade e a capacidade de reação rápidas, eliminando as etapas de controle administrativo e os procedimentos burocráticos. Além disso, oferecem uma solução suplementar a uma política externa sob controle do Congresso no que se refere ao envio de tropas por terra, objetivo político "morte zero" e a condução de ações clandestinas. Eles podem igualmente permitir operações em contradição com as escolhas estratégicas "oficiais": em nome da sua neutralidade e do compromisso com a manutenção da paz na Bósnia, por meio da Implementation Force (IFOR), o governo americano deixou a MPRI facilitar o tráfico de armas, violando o embargo da ONU e treinar o exército da federação croata-muçulmana que preparava a grande ofensiva de 1994 em Krajina6.

As empresas americanas (Vinnell Corp., MPRI, Cubic ou Logicon) formaram e treinaram as forças armadas de mais de quarenta países durante os anos 1990, no âmbito dos programas de cooperação militar7. Essas redes constituem excelentes meios para a difusão das normas militares americanas na América Latina, na África e no Oriente Médio, e para a construção de alianças ad hoc. No continente africano, as SMPs são encarregadas da logística militar americana e da gestão dos especialistas que apóiam as operações de urgência. Aliás, elas desenvolveram estratégias de expansão e de depredação dos novos mercados, na Europa ou nos países do Sul.Parceiros "confiáveis"

Portanto, as SMPs desempenham daqui para frente um papel vital no sistema de defesa americano e, notadamente, na sustentação de sua lógica expedicionária8. Várias delas efetuaram, por muitos anos, um importante trabalho de lobby para se apresentarem como parceiros confiáveis na gestão das operações de paz. Com o risco de aprofundar a confusão que já existe entre auxílio ao desenvolvimento, ajuda humanitária e operações militares.

Essa fase foi precedida de uma reestruturação da indústria de defesa americana em que numerosas fusões/aquisições ocorreram ao longo de cinco anos9. Graças às atividades de serviços, as multinacionais que propõem utilizar as novas tecnologias de informação e de comunicação (NTIC) para "dominar os futuros campos de batalha", penetram em um setor lucrativo. Como explicava o diretor da L-3 Communications, Frank Lanza, quando da aquisição da MPRI, em 2000: "A MPRI é uma companhia em plena expansão, com boas margens de lucro e vantagens competitivas que nenhuma outra empresa pode igualar no campo de treinamento de forças, e seus serviços são complementares aos nossos produtos. (...) A MPRI é também muito ativa no cenário internacional, tendo a mudança de clima político proporcionado um aumento da demanda de certos serviços... Além disso, esses programas têm a tendência a se espalhar e a nos conduzir a outras oportunidades10."

Como reverso da medalha, um relatório do Government Accountability Office (GAO) acentuou a falta de controle das SMPs, já que nenhum sistema centralizado é capaz de acompanhar os numerosos contratos de terceirização gerados pelas agências americanas11. Embora a regulamentação internacional permaneça totalmente inadequada à luta contra os derivados do mercenarismo empresarial, e apesar da existência de um controle da venda de serviços militares para os Estados Unidos, as práticas atuais visam contornar essas legislações, particularmente no domínio da informação e das operações especiais12.Direitos humanos no lixo

Para a administração republicana, a exploração desses vazios jurídicos constitui um elemento de resposta eficaz ao terrorismo. Mas essa desobrigação da política pela terceirização define os limites desse "mercenarismo" disfarçado. A fachada comercial e liberal dessa dinâmica pode acarretar graves desvios13. A utilização crescente dos recursos civis para sustentar as longas intervenções, mobilizando ao máximo as forças de reserva e os agente privados, chegou até a ameaçar o equilíbrio do exército profissional instaurado depois da guerra do Vietnã. Por outro lado, no início de 2004, os operadores que trabalhavam para as SMPs americanas Caci Inc. e Titan Corparation foram implicados no escândalo de maus tratos aos prisioneiros iraquianos.

Para Kenneth Roth, diretor executivo da Human Rights Watch, que falou à imprensa em 30 de abril de 2004, "se o Pentágono quer utilizar contratantes privados para as missões militares ou de informação, ele deve se assegurar de que eles estão sujeitos às restrições e controles legais, [pois permitir a esses operadores] agir num vazio jurídico é um convite ao abuso". Em 2000, um relatório da universidade nacional da defesa de Washington, entidade oficial, reconheceu: "A privatização é talvez menos custosa que uma intervenção militar, mas a qualidade do resultado e o respeito aos direitos humanos podem ficar comprometidos14".

Na terceirização, distinguem-se tradicionalmente os serviços de sustentação dos exércitos das funções operacionais no campo de batalha. Entretanto, as linhas divisórias tornaram-se tênues depois de 11 de setembro. De fato, na escolha político-estratégica no Iraque, terceirização e mercenarismo se fundem em novas doutrinas operacionais, e os agentes privados foram envolvidos várias vezes nos combates.Segurança sem controle

Após a derrota iraquiana, a segurança dos locais sensíveis foi rapidamente confiada a entidades privadas, sem que existissem meios reais para controlá-las. Em setembro de 2003, o governo americano anunciava que a empresa Erinys Iraq Ltd. seria encarregada de formar milhares de iraquianos para vigiar as instalações dos arredores do oleoduto Kirkouk-Ceyhan, sujeito a numerosos ataques. Para ocupar postos de direção e formar os recrutas que iriam trabalhar para a Erinys Iraq, os elementos da elite da polícia sul-africana se apresentaram aos bandos (ler, nesta edição, artigo de Phillippe Leymarie). Efeito bumerangue, essa dinâmica afeta gravemente as instituições de segurança e militares ocidentais: atraídos por remunerações até dez vezes superiores, os integrantes das forças especiais fogem para a iniciativa privada15. Em longo prazo, essa hemorragia de recursos humanos superqualificados pode se fazer acompanhar de uma perda de know how (manutenção dos sistemas de armas sofisticados, formação de pilotos) desenvolvido exclusivamente no âmbito privado.

A ausência de todas as formas de unidade de comando e de controle, como a inexistência de procedimentos básicos de recrutamento de pessoal das SMPs, incomoda um número crescente de oficiais americanos. A captura de reféns e assassinatos de "soldados privados" se multiplicaram, e os militares não estão em condições de proteger esses "civis". Os quatro homens queimados e pendurados pela multidão em Fallouja, no final de março de 2004, e cuja morte foi a origem de violentos combates, eram empregados da empresa americana Blackwater Security.

Apesar de o plano de desarmamento, de desmobilização e de reintegração (teórica) da vida civil dos antigos soldados iraquianos, mal concebido e implementado de maneira desastrosa, ter criado um "vazio de segurança", o Pentágono divulgou, no final de junho de 2003, a assinatura de um contrato de 48 milhões de dólares em benefício de Vinnell Corp. para criar e treinar o núcleo do novo exército iraquiano. Outras empresas como MPRI associaram-se a esse programa como subcontratadas. Ao mesmo tempo, a formação das forças de polícia iraquianas tinha sido confiada à DynCorp Aerospace Operations, desde abril de 2003, por determinação do departamento de Estado.Espiral de violência

Enfim, com o desenvolvimento das milícias locais e a intensificação do que os americanos descrevem como uma insurreição, o Iraque entrou em uma espiral de violência - na qual a intervenção do pessoal da segurança privada paradoxalmente levou a um aumento da instabilidade, ao ponto de fazer disso um mercado muito lucrativo, com remunerações que podem atingir até mil dólares por dia. Vários milhares de antigos militares trabalham no regime dos acordos de segurança a serviço das agências civis ocidentais. A Kroll e a Control Risks garantem, por exemplo, a segurança do pessoal da Agência americana de desenvolvimento internacional (Usaid) e das pessoas da diplomacia e da cooperação britânicas.

A crise iraquiana mostra bem que esses agentes privados, presentes durante as fases essenciais de conflito e pós-conflito, ocupam as funções indispensáveis ao exercício da força para a autoridade americana. A proliferação do mercenarismo empresarial ocidental nesse país é o resultado de uma política deliberada de experimentação de novas formas de intervenção. No entanto, essas escolhas políticas ignoram a gravidade das dificuldades atuais, como mostra a concessão, em maio de 2004, de um contrato de 293 milhões de dólares à Aegis Defense Service (uma SMP criada em 2003 e dirigida pelo coronel britânico Tim Spicer), destinada à coordenar mais de cinqüenta empresas privadas e fornecer uma proteção às empresas de reconstrução.

Entretanto, numerosos diplomatas anglo-saxões não parecem achar a privatização preocupante. Pelo contrário, em maio de 2004, um alto responsável civil da coalização afirmou em uma conferência em Paris, sob reserva de anonimato, que a proliferação das SMPs era "uma situação saudável", que poderia ser repetida se resultasse em sucesso no Iraque. A privatização das operações de paz se faz, portanto, de maneira progressiva "ultrapassando constantemente os limites" de terceirização de funções militares.Fonte de conflitos

Ao decidir não incluir o setor de segurança privada na nova legislação iraquiana, o antigo administrador civil americano do Iraque, Paul Bremer, impediu todo controle desse setor pelos iraquianos. Se, no caso dos Estados Unidos, a multiplicação dos agentes privados civis e militares serve aos interesses estratégicos nacionais (com a quantidade de contratos gerados pela administração federal obrigando as SMPs a serem leais ao poder), os últimos acontecimentos no Iraque mostram que ela é sobretudo fonte do caos e de perpetuação dos conflitos.

De fato, a privatização da violência coloca em perigo a futura soberania iraquiana. Ela acentua a incompatibilidade dos objetivos econômicos americanos com a realidade política local. Pelo fato de proporem soluções do tipo "com as chaves nas mãos", ou seja, do conselho à realização na prática (decorrentes da crescente concentração de especialistas e da natureza dual dos sistemas de armas informatizados que resultam das NTIC), as SMPs impõem uma leitura excessivamente técnica dos conflitos em detrimento de uma leitura política.

As SMPs subvertem os equilíbrios civil-militar e político tradicionais nas sociedades em crises, mas também no Ocidente. Misturando as categorias tradicionais, civis/militares e privadas/públicas, esses agentes híbridos funcionam muitas vezes em redes informais que favorecem a corrupção e a criminalidade. O sistema estratégico americano de intervenção global, tal qual se constrói, atribuindo a elas um lugar central, é gerador de instabilidade, até mesmo do caos. De maneira insidiosa, ele legitima o exercício unilateral do poder americano no mundo ou nas zonas "instáveis" do Sul em que a CIA, as forças especiais e as companhias militares privadas conduzem guerras de baixa intensidade.

Manifestação do surgimento de conflitos de um novo tipo e de um enfraquecimento dos Estados no cenário internacional, e apesar de inserido no quadro das políticas governamentais, o mercenarismo empresarial prefigura os conflitos que se multiplicarão nas fronteiras da globalização. A privatização da violência desempenhará um papel determinante nesse caso. Para os dirigentes da coalizão, a experiência iraquiana simplesmente terá permitido testar melhor os efeitos da terceirização antes de sistematizá-la.

Notas:

1. Frank Camm, Expanding Private Production to Defense Services, Rand Report MR734, Santa Monica, 1996.
2 - John Deal & James Ward, "Second Thoughts on Outsourcing for the Army", Army Magazine, Association of the United States Army, Arlington (VA), maio de 2001 (p. 54); e Michael O?Hanlon, "Breaking the Army", The Washington Post, 3 de julho de 2003.
3 - Citado por Maya Kulycky, "How Far Can a War be Outsourced?", MSNBC News (MSNBC.com), 14 de janeiro de 2003. Site: http://www.msnbc.msn.com/id/3072959/
4 - US GAO, Contingency Operations: Army Should Do More to Control Contract Cost in the Balkans, NSDIAD-00-225, outubro de 2000.
5 - Walter F. Roche Jr. e Ken Silverstein, "Iraq: Advocates of War Now Profit From Iraq?s Reconstruction", Los Angeles Times, 14 de julho de 2004.
6 - Ler Sami Makki, Sarah Meek et al, Private Military Companies and the Proliferation of Arms, "Biting the Bullet Briefing 11", International Alert, Londres, junho de 2001, p.10.
7 - Deborah Avant, "Privatizing Military Training", Foreign Policy in Focus, v. 7, n. 6, Institute for Policy Studies, Washington D.C., maio de 2002.
8 - Ler Stephen Perris et David Keithly "Outsourcing the Sinews of War: Contractor Logistics", Military Review, US Army Command and General Staff College, Fort Leavenworth (KS), outubro de 2001, pp. 72-83.
9 - Ler Murray Weidenbaum, "The Changing Structure of the US Defense Industry", Orbis (Foreign Policy Research Institute), Filadélfia, outono de 2003.
10 - "L-3 Com. Announces Acquisition of MPRI", Business Wire, 18 de julho de 2000, citado por Peter W. Singer, Corporate Warriors: the Rise of the Privatized Military Industry, Ithaca and London, Cornell University Press, 2003, p. 134.
11. US GAO, Military Operations: Contractors Provide Vital Services to Deployed Forces but Are Not Adequately Addressed in DoD Plans, Report GAO-03-695, Washington D.C., junho de 2003.
12. US GAO, Military Operations: Contractors Provide Vital Services to Deployed Forces but Are Not Adequately Addressed in DoD Plans, Report GAO-03-695, Washington D.C., junho de 2003
13. Ler Eugene Smith, "The New Condottieri and US Policy: The Privatization of Conflict and Its Implications", Parameters, US Army War College Quarterly, Carlisle (PA), inverno de 2002-2003
14. Thomas Adams, "The New Mercenaries and the Privatization of Conflict", Parameters, US Army War College Quarterly, Carlisle (PA), verão de 1999, p. 103
15. National Defense University, Strategic Assessment 1999, Washington D.C., 2000, p. 240
16. Ver dossiê do Courrier International, n. 710, 10-16 junho de 2004, pp.49-52