27 de agosto de 2011

Sete pontos acerca da Líbia

Domenico Losurdo


Tradução / Doravante mesmo os cegos podem ver e compreender o que está a acontecer na Líbia:

1. O que se passa é uma guerra promovida e desencadeada pela OTAN. Esta verdade acaba por se revelar até mesmo nos órgãos de “informação” burgueses. No La Stampa de 25 de agosto, Lucia Annunziata escreve: é uma guerra “inteiramente externa, ou seja, feita pelas forças da OTAN”; foi “o sistema ocidental que promoveu a guerra contra Kadafi”. Uma peça do International Herald Tribune de 24 de agosto mostra-nos “rebeldes” que se regozijam, mas eles estão comodamente instalados num avião que traz o emblema da OTAN.

2. Trata-se de uma guerra preparada desde há muito tempo. O Sunday Mirror de 20 de março revelou que “três semanas” antes da resolução da ONU já estavam em ação na Líbia “centenas” de soldados britânicos, enquadrados num dos corpos militares mais refinados e mais temidos do mundo (SAS). Revelações ou admissões análogas podem ser lidas no International Herald Tribune de 31 de março, a propósito da presença de “pequenos grupos da CIA” e de uma “ampla força ocidental a atuar na sombra”, sempre “antes do desencadeamento das hostilidades a 19 de março”.

3. Esta guerra nada tem a ver com a proteção dos direitos humanos. No artigo já citado, Lucia Annunziata observa com angústia: “A OTAN que alcançou a vitória não é a mesma entidade que lançou a guerra”. Nesse intervalo de tempo, o Ocidente enfraqueceu-se gravemente com a crise econômica; conseguirá ele manter o controle de um continente que, cada vez mais frequentemente, percebe o apelo das “nações não ocidentais” e em particular da China? Igualmente, este mesmo diário que apresenta o artigo de Annunziata, La Stampa,em 26 de agosto publica uma manchete a toda a largura da página: “Nova Líbia, desafio Itália-França”. Para aqueles que ainda não tivessem compreendido de que tipo de desafio se trata, o editorial de Paolo Paroni (Duelo finalmente de negócios) esclarece: depois do início da operação bélica, caracterizada pelo frenético ativismo de Sarkozy, “compreendeu-se subitamente que a guerra contra o coronel ia transformar-se num conflito de outro tipo: guerra econômica, com um novo adversário: a Itália obviamente”.

4. Desejada por motivos abjectos, a guerra é conduzida de modo criminoso. Limito-me apenas a alguns pormenores tomados de um diário acima de qualquer suspeita. O International Herald Tribune de 26 de Agosto, num artigo de K. Fahim e R. Gladstone, relata: “Num acampamento no centro de Tripoli foram encontrados os corpos crivados de balas de mais de 30 combatente pró Kadafi. Pelo menos dois deles estavam atados com algemas de plástico e isto permite pensar que sofreram uma execução. Dentre estes mortos, cinco foram encontrados num hospital de campo; um estava numa ambulância, estendido numa maca e amarrado por um cinturão e tendo ainda uma transfusão intravenosa no braço”.

5. Bárbara como todas as guerras coloniais, a guerra actual contra a Líbia demonstra como o imperialismo se torna cada vez mais bárbaro. No passado, foram inumeráveis as tentativas da CIA de assassinar Fidel Castro, mas estas tentativas eram efectuadas em segredo, com um sentimento de que se não é por vergonha é pelo menos de temer possíveis reacções da opinião pública internacional. Hoje, em contrapartida, assassinar Kadafi ou outros chefes de Estado não apreciados no Ocidente é um direito abertamente proclamado. O Corriere della Sera de 26 de Agosto de 2011 titula triunfalmente: “Caça a Kadafi e seus filhos, casa por casa”. Enquanto escrevo, os Tornado britânicos, aproveitando também a colaboração e informações fornecidas pela França, são utilizados para bombardear Syrte e exterminar toda a família de Kadafi.

6. Não menos bárbara que a guerra foi a campanha de desinformação. Sem o menor sentimento de pudor, a OTAN martelou sistematicamente a mentira segundo a qual suas operações guerreiras não visavam senão a protecção dos civis! E a imprensa, a “livre” imprensa ocidental? Ela, em certo momento, publicou com ostentação a “notícia” segundo a qual Kadafi enchia seus soldados de viagra de modo a que eles pudessem mais facilmente cometer violações em massa. Como esta “notícia” caiu rapidamente no ridículo, surge então uma outra “nova” segundo a qual os soldados líbios atiram sobre as crianças. Nenhuma prova é fornecida, não se encontra nenhuma referência a datas e lugares determinados, nenhuma remessa a tal ou tal fonte: o importante é criminalizar o inimigo a liquidar.

7. Mussolini no seu tempo apresentava a agressão fascista contra a Etiópia como uma campanha para libertar este país da chaga da escravidão; hoje a OTAN apresenta a sua agressão contra a Líbia como uma campanha para a difusão da democracia. No seu tempo Mussolini não cessava de trovejar contra o imperador etíope Hailé Sélassié chamando-o “Negus dos negreiros”; hoje a OTAN exprime seu desprezo por Kadafi chamando-o “ditador”. Assim como a natureza belicista do imperialismo não muda, também as suas técnicas de manipulação revelam elementos significativos de continuidade. Para clarificar quem hoje realmente exerce a ditadura a nível planetário, ao invés de citar Marx ou Lénine quero citar Emmanuel Kant. Num texto de 1798 (O conflito das faculdades), ele escreve: “O que é um monarca absoluto? Aquele que, quando comanda: ‘a guerra deve fazer-se’, a guerra seguia-se efectivamente”. Argumentando deste modo, Kant tomava como alvo em particular a Inglaterra do seu tempo, sem se deixar enganar pela forma “liberal” daquele país. É uma lição de que devemos tirar proveito: os “monarcas absolutos” da nossa época, os tiranos e ditadores planetários da nossa época têm assento em Washington, em Bruxelas e nas mais importantes capitais ocidentais.

22 de agosto de 2011

Começa a disputa pelo acesso à riqueza do petróleo da Líbia

Clifford Krauss


Foto: Bob Strong / Reuters.

A luta ainda não acabou em Trípoli, mas a disputa para assegurar acesso à riqueza do petróleo da Líbia já começou.

Antes da rebelião começar, em fevereiro, a Líbia exportava 1,3 milhão de barris de petróleo por dia. Embora isso represente menos de 2% das necessidades globais, apenas um pequeno número de países pode fornecer o equivalente do mesmo tipo de petróleo do qual muitas refinarias do mundo dependem. O retorno da produção líbia ajudaria a derrubar os preços do petróleo na Europa e, indiretamente, os preços da gasolina na costa Leste dos Estados Unidos.

Nações ocidentais — especialmente os países da OTAN, que deram apoio aéreo crucial aos rebeldes — querem ter certeza de que suas companhias ficarão em posição destacada para bombear o petróleo líbio.

O ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, disse na TV estatal segunda-feira que a companhia petrolífera italiana Eni “terá o papel número um no futuro” no país norte-africano. O sr. Frattini chegou a afirmar que técnicos da Eni já estavam a caminho do leste da Líbia para reiniciar a produção. (A Eni rapidamente desmentiu que tinha mandado pessoal para a região ainda em disputa, que é a maior fonte do petróleo importado pela Itália).

A produção líbia foi praticamente suspensa durante o longo conflito entre as forças rebeldes e as tropas leais ao líder da Líbia, coronel Muammar el-Qaddafi.

A Eni, com a britânica BP, a Total da França, a Repsol YPF da Espanha e a OMV da Áustria, foram todas grandes produtoras na Líbia antes da guerra civil, e estão em posição para ganhar mais assim que o conflito terminar. As companhias americanas Hess, ConocoPhillips e Marathon também fizeram acordos com o regime de Qaddafi, embora os Estados Unidos dependam em menos de 1% das importações da Líbia para seu consumo.

Mas permanece incerto se um governo rebelde honraria os contratos fechados pelo regime de Qaddafi ou que tipo de postura assumiria nas negociações para acordos de produção com as companhias dispostas a investir nos poços existentes ou na exploração de novos.

Mesmo antes de assumir, os rebeldes sugeriram que relembrarão seus amigos e inimigos e negociarão levando isso em conta.

“Não temos problemas com países ocidentais como os italianos, franceses e companhias britânicas”, disse o porta-voz da companhia de petróleo dos rebeldes, Agoco, Abdeljalil Mayouf, segundo a Reuters. “Mas teremos algumas questões políticas com a Rússia, China e Brasil”.

A Rússia, a China e o Brasil não deram apoio a fortes sanções contra o regime de Qaddafi, e em geral apoiaram uma solução negociada para por fim ao conflito. Todos os três países têm grandes companhias de petróleo que tentam negócios na África.

O preço básico do petróleo na Europa caiu moderadamente na segunda-feira, com a especulação de que a produção líbia de petróleo seria rapidamente retomada. Os preços do petróleo Brent inicialmente caíram mais de 3%, mas terminaram o dia basicamente com o mesmo valor em Nova York, U$ 108,42 o barril. O preço básico dos Estados Unidos, que é menos sensível a eventos no Oriente Médio, subiu U$ 2,01, para U$ 84,42.

O coronel Qaddafi provou ser um parceiro problemático para as companhias de petróleo internacionais, frequentemente aumentando impostos e taxas e fazendo outras exigências. Um novo governo com relações próximas com a OTAN poderia ser um parceiro mais fácil para as nações ocidentais. Alguns especialistas dizem que, com a mão mais livre, as companhias de petróleo poderiam encontrar consideravelmente mais petróleo na Líbia do que foram capazes sob as restrições impostas pelo governo Qaddafi.

Analistas de petróleo dizem que é provável que as companhias de petróleo, particularmente a Total e a Eni, compitam ferozmente por contratos para explorar as melhores propriedades, com os respectivos governos fazendo lobby em nome delas. Mas primeiro os rebeldes deverão consolidar seu controle sobre o país.

“Se você não tem um ambiente de segurança estável, quem vai colocar os trabalhadores de volta no país?”, disse Helima Croft, estrategista geopolítica da Barclays Capital.

A guerra civil forçou grandes companhias de petróleo a retirar seu pessoal da Líbia e a produção despencou nos últimos meses para minúsculos 60 mil barris por dia, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Isso seria suficiente para atender 20% das necessidades domésticas de petróleo da Líbia. Os rebeldes foram capazes de exportar pequenas quantidades de petróleo que estavam estocadas em portos e venderam o produto a dinheiro nos mercados internacionais através do Qatar.

Especialistas em petróleo alertam que a Líbia poderia levar mais de um ano para fazer os reparos e colocar seus poços em produção total, embora as exportações possam ser retomadas em alguns meses.

Como o petróleo é o recurso econômico mais importante da Líbia, qualquer novo governo seria obrigado a fazer da produção sua mais alta prioridade. Isso significa ter segurança nos maiores campos de petróleo, nos oleodutos, refinarias e portos. O governo também precisaria rapidamente estabelecer relações com as companhias de petróleo estrangeiras, algumas das quais consultaram tanto os rebeldes quanto o coronel Qaddafi durante o conflito, visando garantir suas apostas.

As companhias de petróleo envolvidas na Líbia evitaram comentários a respeito da situação no país ou disseram que pretendem avaliar a evolução da segurança antes de mandar seu pessoal de volta ao país.

“Claramente, estamos monitorando a situação como todos”, disse Jon Pepper, um vice-presidente da Hess. “Obviamente a situação precisa estabilizar antes que as pessoas comecem a pensar em retomar a produção”.

Em anos recentes, a Itália depende da Líbia para mais de 20% de suas importações de petróleo. A França, a Suíça, a Irlanda e a Áustria todas dependiam da Líbia para mais de 15% de suas importações antes do início da guerra civil.

A importância da Líbia para a França foi sublinhada na segunda-feira, quando o presidente Nicolas Sarkozy convidou o chefe do conselho de transição nacional, Mustafa Abdel-Jalil, para consultas em Paris.

Apesar de os Estados Unidos dependerem muito pouco da Líbia, a redução da quantidade de petróleo de alta qualidade nos mercados mundiais empurrou para cima os preços do petróleo e da gasolina também para os americanos.

Analistas da indústria dizem que a maior parte das empresas de serviço do setor continuou a pagar salários a suas equipes líbias durante a guerra, indicando que houve danos relativamente pequenos à maioria das instalações. Isso sugere que a produção poderia ser retomada em questão de semanas.

Mas as exportações dependem em grande escala da rapidez dos reparos a serem feitos nos terminas de exportação de Ras Lanuf, Melitah e Es Sider e do quanto o novo governo será capaz de dar segurança aos campos e oleodutos que ficam em áreas que tradicionalmente apoiavam o antigo regime.

O fechamento às pressas de poços quando a guerra se espraiou, em fevereiro, além da falta de manutenção nos últimos meses, podem significar que os consertos necessários vão levar meses, particularmente nos campos mais antigos.

As experiências de outros países da região oferecem razões para cautela. Analistas dizem que disputas políticas no Irã reduziram a produção do país por décadas e foram necessários oito anos para a produção do Iraque se recuperar depois da invasão liderada pelos Estados Unidos para derrubar Saddam Hussein.

O presidente da Eni, Giuseppe Recchi, disse recentemente a analistas que provavelmente levaria um ano para a Líbia voltar aos níveis normais de exportação. Na segunda-feira, ele negou que sua companhia fosse enviar imediatamente pessoal para a Líbia, mas disse a repórteres que espera que o novo governo líbio respeite os contratos fechados previamente pela companhia.

Elisabetta Povoledo contribuiu com a reportagem de Roma.

15 de agosto de 2011

Os distúrbios no Reino Unido e a vindoura guerra de classes

John Kotkin

Forbes

Tradução / Os distúrbios que atingiram Londres e outras cidades inglesas na semana passada têm potencial para ir além das Ilhas Britânicas. A fúria de classes não é exclusiva da Inglaterra; na verdade, representa parcela de um crescente abismo mundial entre classes que ameaça enfraquecer o próprio capitalismo.

O enrijecimento das divisões de classe vem ocorrendo há uma geração, inicialmente no Ocidente mas cada vez mais em países onde o desenvolvimento está acelerado, como a China. O aumento do fosso entre as classes radica-se na globalização, que tem tirado empregos do proletariado e agora também da classe média; na tecnologia, que permite aos indivíduos e companhias mais ligeiros e ricos mudar de operações em grande velocidade para qualquer local; e a secularização da sociedade, que minou os valores tradicionais sobre trabalho e família que serviram de fundamento ao capitalismo de base desde os seus primórdios.

Todos estes fatores podem ser observados nos motins da Grã-Bretanha. Raça e relações policiais tiveram seu papel nos episódios, mas entre os motineiros havia muito mais do que minorias ou gângsters. Como apontou o historiador britânico James Heartfield, os participantes dos distúrbios espelham uma falha mais ampla no “sistema social” do país, especialmente no “sistema de trabalho e recompensa”.

Nas primeiras décadas do século 20, jovens das classes menos favorecidas poderiam aspirar a empregos na vibrante economia industrial do Reino Unido e, mais tarde, no crescente setor público, financiado, em grande medida, tanto pelos lucros da City quanto pelo crédito. Hoje, o setor industrial é uma sombra do que foi. A crise financeira global enfraqueceu o crédito e a capacidade do governo de bancar o Estado de Bem-Estar Social.

Com menos oportunidade de trabalho que tenha sentido e valha a pena — particularmente no setor privado — as perspectivas de sucesso das classes trabalhadoras foram reduzidas a carreiras essencialmente fantásticas no entretenimento, no esporte ou, com demasiada frequência, no crime. Entrementes, os partidários do Primeiro-Ministro David Cameron localizados na City podem ter se aproveitado de pacotes de resgate vindos do Banco da Inglaterra, ao passo que desapareceram as oportunidades de ascensão social, ainda que modesta, para a maioria das demais pessoas.

A grande noção britânica da ideia de trabalhar duro e ser bem sucedido com base na determinação pura — ideia que está inculcada nas antigas colônias do Reino Unido, como os EUA — foi, em larga medida, desvalorizada. Dick Hobbs, especialista da Escola de Economia de Londres, diz que esta desmoralização atingiu de forma mais específica os londrinos brancos. Muitos imigrantes prosperaram trabalhando com engenharia e construção civil e também na prestação de serviços às elites endinheiradas da capital.

Hobbs, um nativo da East London, sustenta que o ambiente industrial tinha grandes vantagens, a despeito de suas deficiências. Ele tinha foco principal na produção e recompensava a acumulação de competências. Por outro lado, de acordo com algumas estimativas, a “indústria do ‘pub and club’” tem sido a maior fonte de geração de empregos no setor privado da Londres pós-industrial, um fenômeno ainda mais presente em regiões menos prósperas. “Há regiões de Londres onde os pubs são a única atividade econômica”, observa.

Hobbs afirma que a atual cultura “pub and club”, com seu “potencial violento e ênfase deliberada no aspecto físico da existência”, não faz mais que celebrar o consumo até, não raro, ao ponto do excesso. Talvez não seja surpresa que os saques tenham impelido o caos.

Qual é a lição a se extrair disto? Os ideólogos não parecem ter as respostas. A repressão aos criminosos — resposta preferida pela direita britânica — é necessária mas não aborda os problemas fundamentais do desemprego e da desvalorização do trabalho. De modo similar, a panaceia favorita da esquerda, a ressurreição do Estado de Bem-Estar Social, deixa de atacar a questão central da redução das oportunidades de progressão na escala social. Há agora pelo menos 1 milhão de jovens desempregados no Reino Unido, mais do que em que qualquer outro momento em uma geração, e a pobreza infantil na Londres interior, mesmo durante o regime do ex-prefeito Kenneth Livingstone, o “Ken Vermelho”, na década passada, permaneceu nos 50% e pode muito bem estar pior do que isto agora.

Esta questão fundamental de classe não está presente apenas na Grã-Bretanha. Tem havido várias irrupções de violência urbana, inclusive na França e na Grécia. Pode-se esperar mais ocorrências em países como Itália, Espanha e Portugal, que agora terão de impor a mesma espécie de medidas de austeridade adotadas em Londres pelo governo Cameron.

E quanto aos Estados Unidos? Muitas das mesmas forças estão em ação aqui. O desemprego juvenil atualmente passa de 20%; na capital do país, está acima dos 50%. Entre as cidades particularmente vulneráveis estão Los Angeles e Nova Iorque, as quais estão cada vez mais divididas entre ricos e pobres. Cortes em programas sociais, embora necessários, podem tornar as coisas piores, tanto para as minorias de classe média que conduzem estes programas quanto para os pobres pelos quais são responsáveis.

Um possível prenúncio desta desordem, nota o autor Walter Russell Mead, pode ser o recente aumento da criminalidade ocasional, não raro de matiz racial, em cidades como Chicago, Milwaukee e Filadé

De qualquer modo, com mais de 14 milhões de desempregados no país, as perspectivas não são exatamente promissoras para as classes baixa e média dos EUA. Esta dor é sentida em toda parte, sobretudo por trabalhadores mais jovens. Segundo uma pesquisa da Pew Research, cerca de 2 em cada 5 americanos estão desempregados ou fora da força de trabalho, a maior proporção em três décadas.

Perspectivas limitadas — aquilo que muitos especialistas saúdam como o “novo normal” — agora defrontam ampla parcela da população. Um indício: a expectativa de ganhar mais dinheiro no ano que vem caiu para o menor nível em 25 anos. Os salários vem caindo não apenas para os trabalhadores com ensino médio, mas também para aqueles com ensino superior. Mais de 43% dos brancos sem educação universitária se queixam de que estão descendo na escala social.

Diante disto, é difícil ver outra tendência no ressentimento de classe nos EUA que não seja a de crescer ao longo dos anos. O presidente do banco central, Ben Bernanke, afirmou ainda em 2007 que ele estava preocupado com o aumento da desigualdade no país, mas as suas políticas simpáticas a Wall Street e às corporações não lograram melhoram a economia cotidiana.

As probabilidades de um maior conflito de classes são grandes mesmo na China, onde a desigualdade social está entre as mais graves do mundo. Não chega a surpreender o resultado de uma pesquisa realizada pela Academia de Ciências Sociais de Zhejiang: 96% dos entrevistados “tem ressentimento contra os ricos”. Enquanto nos EUA membros do Tea Party e esquerdistas deploram o capitalismo de conspiração do regime Bush-Obama-Bernanke, o proletariado e a classe média chineses enfrentam uma classe dominante hegemônica composta de funcionários públicos e capitalistas ricos. O fato de que isto se dê sob o pálio de um regime supostamente marxista-leninista é tão irônico quanto obsceno.

Esta guerra de classes em crescimento gera conflitos políticos mais intensos. À direita, o Tea Party — assim como pequenos partidos de protesto europeus ora em ascensão em paragens tão improváveis quanto a Finlândia, a Suécia e a Holanda — cresce sobre a convicção de que a estrutura de poder, as corporações e o governo trabalham juntas para prejudicar a grande classe média. A militância de esquerda tem também um viés de classe, uma vez que os progressistas vão sendo alienados pelas políticas aristocráticas da administração Obama

Vários são os conservadores — nos EUA como no resto do mundo — que rejeitam o imenso papel das classes. Para eles, riqueza e pobreza ainda refletem níveis de virtude, e as barreiras à ascensão social são apenas um inibidor leve. Contudo, a sociedade moderna não pode se conduzir de acordo com o credo individualista de Ayn Rand; para serem críveis e socialmente sustentáveis, sistemas econômicos precisam dar resultados para a ampla maioria dos cidadãos. Se o capitalismo não puder fazer isso, é de se esperar mais episódios de violência e maior alienação política — não só na Grã-Bretanha mas em todos os principais países do globo, inclusive os EUA.

13 de agosto de 2011

Nouriel "Dr. Catástrofe" Roubini: "Karl Marx estava certo"

Joseph Lazzaro


Créditos: Mike Segar/ Reuters.

Tradução / Há um velho axioma que diz que “sábia é a pessoa que aprecia a sinceridade quase tanto como as boas notícias”, e com ele como guia, situa decididamente o futuro na categoria da sinceridade.

O professor de economia da Universidade de Nova York, doutor Nouriel “Dr. Catástrofe” Roubini disse que, a não ser que haja outra etapa de massivo incentivo fiscal ou uma reestruturação da dívida universal, o capitalismo continuará a experimentar uma crise, dado o seu defeito sistêmico identificado primeiramente pelo economista Karl Marx há mais de um século.

Roubini, que há quatro anos previu acuradamente a crise financeira global disse que uma das críticas ao capitalismo feitas por Marx está se provando verdadeira na atual crise financeira global.

Dentre outras teorias, Marx argumentou que o capitalismo tinha uma contradição interna que, ciclicamente, levaria a crises e isso, no mínimo, faria pressão sobre o sistema econômico. As corporações, disse Roubini, motivam-se pelos custos mínimos, para economizar e fazer caixa, mas isso implica menos dinheiro nas mãos dos empregados, o que significa que eles terão menos dinheiro para gastar, o que repercute na diminuição da receita das companhias.

Agora, na atual crise financeira, os consumidores, além de terem menos dinheiro para gastar devido ao que foi dito acima, também estão motivados a diminuírem os custos, a economizarem e a fazerem caixa, ampliando o efeito de menos dinheiro em circulação, que assim não retornam às companhias.

“Karl Marx tinha clareza disso”, disse Roubini numa entrevista ao The Wall Street Journal: "Em certa altura o capitalismo pode destruir a si mesmo. Isso porque não se pode perseverar desviando a renda do trabalho para o capital sem haver um excesso de capacidade [de trabalho] e uma falta de demanda agregada. Nós pensamos que o mercado funciona. Ele não está funcionando. O que é racional individualmente... é um processo autodestrutivo”.

Roubini acrescentou que uma ausência forte, orgânica, de crescimento do PIB – coisa que pode aumentar salários e o gasto dos consumidores – requer um estímulo fiscal amplo, concordando com outro economista de primeira linha, o prêmio Nobel de economia Paul Krugman, em que, no caso dos Estados Unidos, o estímulo fiscal de 786 bilhões de dólares aprovado pelo Congresso em 2009 era pequeno demais para criar uma demanda agregada necessária para alavancar a recuperação da economia ao nível de uma auto expansão sustentável.

Na falta de um estímulo fiscal adicional, ou sem esperar um forte crescimento do PIB, a única solução é uma reestruturação universal da dívida dos bancos, das famílias (essencialmente das economias familiares), e dos governos, disse Roubini. No entanto, não ocorreu tal reestruturação, comentou.

Sem estímulo fiscal adicional, essa falta de reestruturação levou a “economias domésticas zumbis, bancos zumbis e governos zumbis”, disse ele.

Fora o estímulo fiscal ou a reestruturação da dívida, não há boas escolhas

Os Estados Unidos, disse Roubini, pode, em tese: a) crescer ele mesmo por fora do atual problema (mas a economia está crescendo devagar demais, daí a necessidade de mais estímulo fiscal); ou b) retrair-se economicamente, a despeito do mundo (mas se muitas companhias e cidadãos o fizerem junto, o problema identificado por Marx é ampliado); ou c) inflacionar-se (mas isso gera um extenso dano colateral, disse ele).

No entanto, Roubini disse que não pensa que os EUA ou o mundo estão atualmente num ponto em que o capitalismo esteja em autodestruição. “Ainda não chegamos lá”, disse Roubini, mas ele acrescentou que a tendência atual, caso continue, “corre o risco de repetir a segunda etapa da Grande Depressão”—o erro de ‘1937’.

Em 1937, o presidente Franklin D. Roosevelt, apesar do fato de os primeiros quatro anos de massivo incentivo fiscal do New Deal ter reduzido o desemprego nos EUA, de um cambaleante 20,6% na administração Hoover no começo da Grande Depressão, a 9,1%, foi pressionado pelos republicanos congressistas – como o atual presidente Barack Obama fez com o Tea Party, que pautou a bancada republicana no congresso em 2011 – , rendeu-se aos conservadores e cortou gastos do governo em 1937. O resultado? O desemprego estadunidense começou o ano de 1938 subindo de novo, e bateu a casa dos 12,5%.

Cortar os gastos do governo prematuramente feriu a economia dos EUA em 1937, ao reduzir a demanda, e Roubini vê o mesmo padrão ocorrendo hoje, ao se seguir as medidas de austeridade implementadas pelo acordo da dívida.

Roubini também argumenta que os levantes sociais no Egito e em outros países árabes, na Grécia e agora no Reino Unido têm origem econômica (principalmente no desemprego, mas também, no caso do Egito, no aumento do custo de vida). Em seguida, argumenta que, ao passo que não se deve esperar um colapso iminente do capitalismo, ou mesmo um colapso da sua versão estadunidense, o capitalismo corporativo – capitalismo e mercados livres são rápidos demais e capazes de se adaptarem - dizer que a ordem econômica atual não está experimentando uma crise não é correto.

5 de agosto de 2011

América em declínio

Noam Chosmky


Tradução / "É um tema comum" que os Estados Unidos, que "há apenas alguns anos era visto como um colosso que percorreria o mundo com um poder sem paralelo e um atrativo sem igual (...) estão em decadência, enfrentando atualmente a perspectiva de uma deterioração definitiva", assinala Giacomo Chiozza, no número atual de Political Science Quaterly.

A crença neste tema, efetivamente, está muito difundida. E com certa razão, se bem que seja o caso de fazer algumas precisões. Para começar, o declínio tem sido constante desde o ponto culminante do poderio dos EUA, logo após a Segunda Guerra Mundial, e o notável triunfalismo dos anos 90, depois da Guerra do Golfo, foi basicamente um auto-ilusão.

Outro temam comum, ao menos entre aqueles que não ficaram cegos deliberadamente, é que o declínio dos EUA, em grande medida, é auto-inflingido. A ópera bufa que vimos este verão em Washington, que desgostou o país e deixou o mundo perplexo, pode não ter comparação nos anais da democracia parlamentar. O espetáculo inclusive está chegando a assustar aos patrocinadores desta paródia. Agora, preocupa ao poder corporativo que os extremistas que ajudou a por no Congresso de fato derrubem o edifício do qual depende sua própria riqueza e seus privilégios, o poderoso estado-babá que atende a seus interesses.

A supremacia do poder corporativo sobre a política e a sociedade – basicamente financeira – chegou ao grau de que as formações políticas, que nesta etapa apenas se parecem com os partidos tradicionais, estão muito mais à direita da população nos principais temas em debate.

Para o povo, a principal preocupação interna é o desemprego. Nas circunstâncias atuais, esta crise pode ser superada só mediante um significativo estímulo do governo, muito mais além do que foi o mais recente, que apenas fez coincidir a deterioração no gasto estatal e local, ainda que essa iniciativa tão limitada provavelmente tenha salvado milhões de empregos.

Mas, para as instituições financeiras, a principal preocupação é o déficit. Assim, só o déficit está em discussão. Uma grande maioria da população está a favor de abordar o problema do déficit taxando os muito ricos (72%, com 27% contra), segundo uma pesquisa do The Washington Post e da ABC News. Fazer cortes nos programas de atenção médica conta com a oposição de uma esmagadora maioria (69% no caso do Medicaid, 78% no caso do Medicare). O resultado provável, porém, é o oposto.

O Programa sobre Atitudes de Política Internacional (PIPA) investigou como a população eliminaria o déficit. Steven Kull, diretor do PIPA, afirma: É evidente que, tanto o governo como a Câmara (de Representantes) dirigida pelos republicanos, estão fora de sintonia com os valores e as prioridades da população no que diz respeito ao orçamento.

A pesquisa ilustra a profunda divisão: a maior diferença no gasto é que o povo apoia cortes profundos no gasto militar, enquanto que o governo e a Câmara de Representantes propõem aumentos modestos. O povo também defende aumentar o gasto na capacitação para o trabalho, na educação e no combate à poluição em maior medida que o governo ou a Câmara.

O acordo final – ou, mais precisamente, a capitulação ante à extrema direita – é o oposto em todos os sentidos, e quase com toda certeza provocará um crescimento mais lento e danos de longo prazo para todos, menos para os ricos e as corporações, que gozam de benefícios sem precedentes.

Nem sequer se discutiu que o déficit poderia ser eliminado se, como demonstrou o economista Dean Baker, se substituísse o sistema disfuncional de atenção médica privada dos EUA por um semelhante ao de outras sociedades industrializadas, que tem a metade do custo per capita e obtém resultados médicos equivalentes ou melhores.

As instituições financeiras e as grandes companhias farmacêuticas são demasiado poderosas para que sequer se analisem tais opções, ainda que a ideia dificilmente pareça utópica. Fora da agenda por razões similares também se encontram outras opções economicamente sensatas, como a do imposto às pequenas transações financeiras.

Entretanto, Wall Street recebe regularmente generosos presentes. O Comitê de Atribuições da Câmara de Representantes cortou o orçamento da Comissão de Títulos e Bolsa, a principal barreira contra a fraude financeira. E é pouco provável que sobreviva intacta a Agência de Proteção ao Consumidor.

O Congresso brande outras armas em sua batalha contra as gerações futuras. Apoiada pela oposição republicana à proteção ambiental, a importante companhia de eletricidade American Eletric Power arquivou o principal esforço do país para captar o dióxido de carbono de uma planta atualmente impulsionada por carvão, o que significou um forte golpe às campanhas para reduzir as emissões causadoras do aquecimento global, informou o The New York Times.

Esses golpes auto-aplicados, ainda que sejam cada vez mais potentes, não são uma inovação recente. Datam dos anos 70, quando a política econômica nacional sofreu importantes transformações, que puseram fim ao que se costuma chamar de “época de ouro” do capitalismo de Estado.

Dois importantes elementos desse processo foram a financeirização (o deslocamento das preferências de investimento, da produção industrial para as finanças, os seguros e os bens imobiliários) e a externalização da produção. O triunfo ideológico das doutrinas de livre mercado, muito seletivo como sempre, desferiu mais alguns golpes, que se traduziram em desregulação, regras de administração corporativa que condicionavam as enormes recompensas aos diretores gerais com os benefícios de curto prazo e outras decisões políticas similares.

A concentração resultante da riqueza produz maior poder político, acelerando um círculo vicioso que aportou uma riqueza extraordinária para 1% da população, basicamente diretores gerais de grandes corporações, gerentes de fundos de garantia e similares, enquanto que a maioria das receitas reais praticamente estancou.

Ao mesmo tempo, o custo das eleições disparou para as nuvens, fazendo com que os dois partidos tivessem que escavar mais fundo os bolsos das corporações. O que restava de democracia política foi solapado ainda mais quando ambos partidos recorreram ao leilão de postos diretivos no Congresso, como apontou o economista Thomas Ferguson, no The Financial Times.

Os principais partidos políticos adotaram uma prática das grandes empresas varejistas, como Walmart, Best Buy e Target, escreve Ferguson. Caso único nas legislaturas do mundo desenvolvido, os partidos estadunidenses no Congresso colocam preço em postos chave no processo legislativo. Os legisladores que conseguem mais fundos ao partido são os que indicam os nomes para esses postos.

O resultado, segundo Ferguson, é que os debates se baseiam fortemente na repetição interminável de um punhado de consignas, aprovadas pelos blocos de investidores e grupos de interesse nacionais, dos quais depende a obtenção de recursos. E o país que se dane.

Antes do crash de 2007, do qual foram responsáveis em grande medida, as instituições financeiras posteriores à época de ouro tinham obtido um surpreendente poder econômico, multiplicando por mais de três sua participação nos lucros corporativos. Depois do crack, numerosos economistas começaram a investigar sua função em termos puramente econômicos. Robert Solow, prêmio Nobel de Economia, concluiu que seu efeito poderia ser negativo. Seu êxito aporta muito pouco ou nada à eficiência da economia real, enquanto seus desastres transferem a riqueza dos contribuintes ricos para o setor financeiro.

Ao triturar os restos da democracia política, as instituições financeiras estão lançando as bases para fazer avançar ainda mais este processo letal... enquanto suas vítimas parecem dispostas a sofrer em silêncio.

2 de agosto de 2011

Na terra do capitalismo verdadeiro

Controvérsia sobre a Rússia pós soviética 

Com as eleições gerais em março de 2012, grandes manobras políticas começam a acontecer. Moribunda no início dos anos 90, uma década depois, a Rússia operou, num contexto de autoritarismo e corrupção, uma recuperação econômica e diplomática incrível. No balanço, entram em choque duas visões da transição pós-soviética.


Tradução / O vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim desencadeou uma onda de obras dedicadas ao desmoronamento do bloco de países do Leste Europeu.[1] Entretanto, poucos autores se dedicaram à experiência vivida pela Rússia desde o fim da URSS. O ensaio The Return (O retorno), de Daniel Treisman, se esforça para preencher essa lacuna, traçando o “percurso da Rússia, de Gorbatchev a Medvedev”.[2] Professor de Ciência Política da Universidade da Califórnia, Treisman ficou em especial conhecido pela coautoria de um artigo de sucesso em 2004. Esse texto, intitulado “Um país normal”,[3] refutava a ideia geralmente admitida, segundo a qual a Rússia pós-soviética seria vítima de um fardo histórico sem equivalente no mundo – a herança da autocracia, da burocracia etc. –, quando na realidade ela enfrenta(va) os mesmos problemas de desenvolvimento de inúmeros países médios: corrupção, fragilidade das instituições, vulnerabilidade econômica. Assim, a transição feita pelo país após a queda do comunismo teria unicamente sido um processo de ajuste aos esquemas já em curso em outros Estados da mesma categoria.

Não é difícil perceber o subentendido ideológico que impregna essa análise: as reformas liberais aplicadas por Moscou nos anos 1990 devem ser aplaudidas como sendo um sucesso, já que permitiram que a Rússia conquistasse um espaço relevante na hierarquia econômica internacional. Apesar disso, Triesman tem o mérito de analisar o tema com um recuo relativo, longe dos estereótipos da Guerra Fria, ou dos chavões turísticos sobre a “alma russa”. Em The Return, ele se mantém fiel a essa abordagem, procurando descrever a Rússia como ela é, e não como os formadores de opinião a enxergam. Ele oscila entre duas posições a priori pouco compatíveis, a dos ideólogos neoliberais, que explicam as dificuldades da Rússia por sua falta de vigor em abraçar as leis de mercado, e a que, ao contrário, atribui todos os males do país à brutalidade de suas reformas.[4] Gozando do respaldo da autoridade de observador imparcial – há quem defenda que sim, há quem diga que não, e a verdade deve estar em algum lugar intermediário –, o ponto de vista que resulta dessa indeterminação acaba por corroborar a análise dominante do campo ocidental.

Um olhar sobre a história recente

A primeira metade do livro coloca em perspectiva a história política recente do país, concentrando-se no perfil e na trajetória dos presidentes que se sucederam nos últimos vinte anos: Mikhail Gorbatchev, qualificado de “o erro mais bem-sucedido da história”; Boris Ieltsin, herói imperfeito que conseguiu orientar-se intuitivamente entre os obstáculos da política e da economia; Vladimir Putin, personagem duvidoso mais sortudo, que soube tirar vantagem de uma conjuntura econômica favorável; e, por fim, Dimitri Medvedev, rotulado de “clone do anterior”, cujo programa de governo e intenções continuam sendo misteriosos, dois anos depois de ele ter sido alçado ao poder. A segunda metade do livro cobre o mesmo período, mas dessa vez na forma de síntese dos grandes temas que marcaram nossa percepção da Rússia: as molas propulsoras da ruína soviética, as mudanças econômicas nos anos 90, as guerras na Chechênia e as relações de Moscou com os parceiros ocidentais.

As conclusões de Treisman nem sempre primam pela originalidade – por exemplo, um capítulo inteiro é dedicado à explicação sobre a popularidade de um presidente estar relacionada aos altos e baixos de um ciclo econômico –, mas elas também reservam algumas surpresas positivas, em especial quando o autor se mostra compreensivo com os protestos de Moscou relativamente à expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), ou à hipocrisia da política externa norte-americana.

Para Treisman, a desintegração da URSS não foi em absoluto fruto de uma fatalidade histórica, mas sim o produto de uma série de contingências. Como o comportamento arriscado das reformas econômicas nos anos 80 – somado à incapacidade de antigos dirigentes soviéticos, de conter o declínio da indústria – colocou o país à beira do abismo, bastaram alguns “incidentes” e “respostas erradas por eles recebidas”, para precipitar sua queda. Treisman não aceita a ideia segundo a qual a União Soviética teria implodido sob o peso da pressão interna de seus nacionalistas: porque o regime já estava moribundo, afirma ele, muitos cidadãos se voltaram para a perspectiva nacionalista.

Curiosamente, essa valorização das contingências esmaece assim que o livro aborda as reformas econômicas. O autor defende a tese de que Ieltsin, herdeiro de um “desastre mais grave do que a maior parte das pessoas imaginava”, salvou o país improvisando uma política decididamente favorável ao mercado. Fora do liberalismo, ponto de salvação, como parece acreditar o autor. Ele relativiza o balanço comumente aceito, das decisões tomadas na época: o Produto Interno Bruto (PIB) que diminuía incessantemente naquele período seria um indicador extremamente discutível; a qualidade de vida da população, medida no início das vendas de televisores e aparelhos eletrodomésticos, teria aumentado ao longo de toda a década. Mas o autor não diz uma única palavra sobre a piora dos serviços públicos, no setor da saúde ou da educação, a explosão do desemprego e a atrofia de qualquer forma de solidariedade social.[5]

Democracia vs. capitalismo

E afinal, ao elogiar as reformas de Ieltsin, Treisman recita uma história que já foi repetida mil vezes: Sísifo, um visionário heroico, empurrando o rochedo da democracia liberal ladeira acima – ladeira gelada da realidade russa. Como muitos analistas desde 1991, Treisman está convencido que a democracia liberal progrediu durante os anos Ieltsin, mesmo que timidamente, e que nos anos Putin, ao contrário, deu um passo atrás, na direção do autoritarismo de outrora. Essa visão binária não leva em consideração a evolução ideológica subjacente às reformas dos anos 90, que consolidaram não a democracia enquanto tal, mas o capitalismo. Os “reformadores” mostraram-se extremamente dispostos a administrar sua “terapia de choque” e a apoiar os ataques do Kremlin contra a Constituição – em particular quando Ieltsin bombardeou o Parlamento, em 1993 – sobretudo porque para isso não precisavam de um mandado eleitoral. Na realidade, cada vez que o regime se sentia ameaçado por um questionamento do princípio capitalista de propriedade, a democracia perdia terreno.

É mais fácil entender as metamorfoses da Rússia pós-comunista se considerarmos a parte essencial que elas devem aos interesses capitalistas, e a maneira pela qual as novas elites submeteram o país à luta de classes. Mas esse trabalho exige que se defina a natureza e a composição dessas elites. Quem manda na Rússia? Nos agitados anos 90, ela pertencia aos antigos membros da Nomenklatura do Partido Comunista e às forças emergentes da livre empresa. Durante cerca de dez anos, as fortunas amealhadas por esse acoplamento provinham principalmente das exportações de alto valor agregado – metais, minérios –, de operações financeiras mais do que duvidosas ou da pilhagem do antigo patrimônio industrial soviético. Em 1998, a crise do rublo modificou a estrutura dessa elite, enfraquecendo o setor bancário e financeiro, em benefício da “economia real” destinada ao mercado interno. Mas a principal mudança, tanto para as classes dominantes quanto para o conjunto do país, foi a relacionada aos altos preços do gás e do petróleo, desde 2000. Os lucros faraônicos do maná energético beneficiaram não só conglomerados estatais como Rosnet e Gazprom, mas também operadores privados, como a Surgutneftegaz e – até seu desmonte, em 2003 – a Iukos.

Esse caudal de dinheiro forjou uma nova elite, infinitamente mais rica do que a dos anos 90. Segundo a cientista política Lilia Shevtsova, que vive em Washington, “a velha oligarquia de Ieltsin mais parece um bando de debutantes, comparada à nova geração de oligarcas burocratas”.[6] A referência à burocracia não é desprovida de mérito, tratando-se de uma elite que reina tão bem sobre o setor público quanto sobre o privado, e que puxa tanto as cordas do mundo de negócios quanto as do governo. Todavia, ninguém descreveu melhor os novos donos da Rússia quanto a socióloga Olga Kryshtanovskaia, que analisou a composição da elite desde o início da década de 1990.[7] Seus trabalhos põem em evidência o crescente papel da indústria, desde os primórdios do século XXI, assim como a confusão sempre maior entre a esfera dos negócios e a esfera política.

O princípio único do lucro máximo

A imprensa ocidental não hesita em denunciar as intervenções autoritárias do Estado russo sobre a economia, vistas como um sintoma de uma renacionalização crescente – ou como uma contrapartida econômica à onipresença dos serviços de segurança no governo de Putin. Ora, o mais impressionante, a respeito da elite russa de hoje, não é o domínio do Estado sobre o capital, mas a interpenetração dos dois. O alto escalão público fornece recrutas ao patronato e vice-versa. O poder administrativo detém as melhores chaves para ter acesso aos bons negócios, enquanto as ações comerciais ditam a atribuição de cargos e de gastos do governo. Pode-se verificar esse fenômeno em todos os níveis, e mais ainda nas regiões nas quais os grandes grupos (sejam eles públicos ou privados) pesam proporcionalmente mais sobre a economia. Além disso, apesar de inúmeras empresas dos principais setores serem estatais, elas são administradas obedecendo-se ao princípio único de lucro máximo – não para garantir a redistribuição de riquezas nacionais, mas sim para enriquecer alguns setores da elite.

Por conta das eleições legislativas de dezembro próximo, e da espinhosa questão da sucessão presidencial, prevista para 2012, os recursos do país serão seguramente objeto de uma disputa feroz, entre os membros dessa elite anfíbia. Quanto à população, ela não pode fazer mais do que validar as modalidades do saque de suas riquezas – a menos que a Rússia sofra um levante popular comparável ao que sacode atualmente o mundo árabe. Não parece ser o caso, mas o histórico do regime soviético, tunisiano ou egípcio indica que não é bom fiar-se demasiado na ilusão de permanência.

Notas:

1. Por exemplo, Robert Service. Comrades! A History of World Communism. Cambridge: Harvard University Press, 2007; Archie Brown. The Rise and Fall of Communism. Nova York: Ecco, 2009; Stephen Kotkin. Uncivil Society: 1989 and the Implosion of the Communist Establishment. Nova York: Modern Library, 2009; e Victor Sebestyen. Revolution 1989: The Fall of the Soviet Empire. Nova York: Pantheon Books, 2009.

2. Daniel Treisman. The Return: Russia’s Journey from Gorbachev to Medvedev. Nova York: The Free Press, 2011.

3. Publicado com Andrei Shleifer na revista Foreign Affairs, Nova York, março-abril de 2004.

4. A corrente neoliberal transformou em bíblia a obra How Capitalism Was Built: The Transformation of Central and Eastern Europe, Russia, and Central Asia (Cambridge University Press, 2007), do economista sueco Anders Aslund, que foi conselheiro de Moscou na política de privatizações, no início dos anos 1990. Quanto aos adversários dessa corrente, eles se reconhecem no livro de Peter Reddaway e Dmitri Glinski. The Tragedy of Russia’s Reforms: Market Bolshevism against Democracy.Washington: United States Institute of Peace, 2001.

5. Ler “Un siècle russe”, Manière de voir, n.100, agosto-setembro de 2008.

6. Lilia Shevtsova. Russia: Lost in Transition. The Yeltsin and Putin legacies. Washington: Carnegie endowment for international peace, 2007.

7. Olga Kryshtanovskaia, Anatomiia rossiiskoi elity (Anatomia da elite russa). Moscou: Zakharov, 2004.

Tony Wood é redator-chefe adjunto da revista britânica New Left Review.