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13 de julho de 2026

Massa, uma arma contra o fascismo

Quando Benito Mussolini foi deposto em 1943, uma família de agricultores chamada Cervi celebrou servindo porções gratuitas de massa na praça do vilarejo. É um ritual que ainda se repete todo mês de julho, mantendo vivo o espírito comunitário que está na essência do antifascismo italiano.

Marzia Maccaferri

Alcide Cervi com sua família, incluindo seus sete filhos que foram mortos por fascistas italianos. (Alcide Cervi)

Em 25 de julho de 1943, após vinte e um anos de ditadura, Benito Mussolini foi destituído e preso. Em meio à situação cada vez mais crítica da Itália na Segunda Guerra Mundial, o Grande Conselho Fascista voltou-se contra Mussolini durante a noite, e o marechal Pietro Badoglio foi nomeado chefe de governo. Por toda a Itália, a notícia se espalhou de forma desigual e lenta, transmitida boca a boca, entre boatos e descrença. Muitos pensavam não apenas que o fascismo havia caído, mas que a própria guerra poderia finalmente ter chegado ao fim.

Na zona rural ao redor de Reggio Emilia, na região da Emília-Romanha, no norte da Itália, a família Cervi soube da notícia ao retornar do trabalho nos campos. Alcide Cervi, sua esposa Genoeffa, seus sete filhos e duas filhas eram camponeses de Gattatico, perto de Campegine. Eram uma família de agricultores católicos que, durante a década de 1930, desenvolveu novas técnicas agrícolas e conseguiu se libertar do regime de parceria agrícola.

Mas eles também haviam desenvolvido uma consciência antifascista. Suas convicções políticas surgiram das tradições democráticas e socialistas da Emília-Romanha, próximas ao socialismo humanista e reformista associado a Camillo Prampolini. Em Campegine, ajudaram a organizar atividades clandestinas, incluindo uma pequena biblioteca circulante com Didimo Ferrari, mais tarde conhecido na Resistência como Comissário Eros.

A consciência política de alguns dos irmãos aprofundou-se durante o serviço militar. Aldo Cervi, em particular, entrou em contato com círculos comunistas por meio de Lucia Sarzi, uma atriz de teatro antifascista. No verão de 1943, ela trabalhou com o futuro líder comunista Giorgio Amendola em uma gráfica clandestina na zona rural próxima a Correggio, reimprimindo edições do jornal do partido, l’Unità. Os irmãos Cervi envolveram-se posteriormente no movimento partigiano durante a ocupação alemã.

No entanto, o gesto pelo qual a família Cervi é mais lembrada foi uma refeição.

Os Cervi decidiram celebrar a queda de Mussolini cozinhando massa com manteiga e queijo e distribuindo-a gratuitamente ao povo de Campegine. A massa foi cozida em Gattatico e transportada para a praça do vilarejo. Quando chegou, em 27 de julho, já estava bastante passada do ponto. A quantidade exata distribuída não importa muito. O que importa é que foi preparada em abundância e oferecida a todos, sem distinção.

Foi um gesto simples, mas não neutro. Tratava-se de uma refeição coletiva contra a ditadura, a fome, a guerra e o medo. Foi uma celebração da comunidade contra aquilo que Alcide Cervi — o pai que sobreviveu ao extermínio de todos os seus sete filhos — chamaria mais tarde de "câncer fascista". Era o antifascismo vindo da base, concretizado por meio da solidariedade e da comida.

O ideal fascista do "novo italiano" era disciplinado, rural, viril e militarizado. A massa era criticada por ser pesada, por causar moleza e sonolência; um alimento antimoderno que, supostamente, enfraquecia o espírito nacional.

A esperança não durou. Em 28 de julho, soldados abriram fogo contra trabalhadores da fábrica Officine Meccaniche Reggiane, em Reggio Emilia, matando nove pessoas. O governo de Badoglio também não trouxe a paz. Após concordar com um armistício com os Aliados no início de setembro de 1943, a Alemanha nazista ocupou o centro-norte da Itália. Os irmãos Cervi formaram o primeiro grupo de partisans da região. Eles se refugiaram nas montanhas para evitar a captura e, mais tarde, retornaram para atuar nas planícies do Vale do Pó, escondendo e ajudando ex-prisioneiros que haviam escapado de campos de detenção próximos.

Após a criação da República Social Italiana — um Estado fantoche dos nazistas que, nominalmente, devolveu o poder a Mussolini em 23 de setembro de 1943 —, a repressão logo se intensificou. Em 28 de dezembro, os sete irmãos Cervi — Gelindo, Antenore, Aldo, Ferdinando, Agostino, Ovidio e Ettore — foram fuzilados pelos fascistas, juntamente com o partisan Quarto Camurri.

É por isso que a pastasciutta é importante. Não se trata de uma anedota sentimental sobre "bons italianos" em tempos sombrios. É um lembrete de que o antifascismo foi construído por camponeses, trabalhadores, mulheres, contrabandistas de livros e pão, leitores clandestinos e pessoas comuns que transformaram atos cotidianos em gestos políticos.

Fascistas contra a massa

Há também uma razão mais específica pela qual a massa era importante. Hoje, a massa é tratada como o símbolo mais evidente da identidade italiana. Mas nem sempre foi assim. Antes da industrialização da produção de alimentos, ocorrida após a Segunda Guerra Mundial, a massa não era consumida da mesma maneira em toda a Itália. Em grande parte do Norte, a polenta continuava a ser central; no Sul, o pão era, muitas vezes, mais importante.

O fascismo mantinha uma relação ambivalente — e frequentemente hostil — com a massa. No contexto da autarquia, o regime queria reduzir a dependência de trigo importado. O ideal fascista do "novo italiano" era disciplinado, rural, viril e militarizado. A massa, especialmente na retórica futurista, era criticada por ser pesada, por causar moleza e sonolência; um alimento antimoderno que, supostamente, enfraquecia o espírito nacional. A polêmica de Filippo Tommaso Marinetti contra a massa expressava algo real sobre o desejo do fascismo de regular corpos, gostos, hábitos e a vida cotidiana.

Nesse contexto, uma distribuição pública de massa representava, mais do que uma refeição, um desafio à disciplina fascista. Era uma ação da sociedade civil contra a tentativa do Estado de controlar o cotidiano. Tratava-se de uma dádiva política, uma forma de dizer: ainda estamos aqui; ainda podemos nos reunir; ainda podemos compartilhar; ainda podemos imaginar a vida após o fascismo.

Na Emília-Romanha, a massa carregava um significado diferente, discretamente subversivo. Em muitas famílias socialistas, o cappelletti in brodo — tradicionalmente consumido em 1º de maio — tornou-se um símbolo de comunidade e de pertencimento político. O cappelletti nunca foi proibido. O que o regime fascista aboliu, na verdade, em 1923, foi o Dia do Trabalho, apagando o feriado operário e suprimindo seus rituais. No entanto, a tradição sobreviveu a portas fechadas: preparar e compartilhar cappelletti no dia 1º de maio tornou-se um ato sutil de resistência, uma maneira de manter viva uma memória que o regime tentava extinguir. Na minha família, em Carpi (província de Modena), continuamos a comer cappelletti in brodo em todo 1º de maio desde então.

Após a guerra, na recém-fundada República Italiana, a memória da família Cervi não permaneceu politicamente neutra. O Partido Comunista Italiano (PCI) transformou os sete irmãos em um dos grandes mitos populares da Resistência. Se Antonio Gramsci se tornou, de certa forma, a principal lenda intelectual do antifascismo italiano e mundial, os Cervi tornaram-se um de seus mitos populares: camponeses, mártires, irmãos, filhos do povo.

Se Antonio Gramsci se tornou, de certa forma, a maior lenda intelectual do antifascismo italiano e global, os Cervi tornaram-se um de seus mitos populares: camponeses, mártires, irmãos, filhos do povo.

Por muitos anos, a pastasciutta (o prato de massa) dos Cervi permaneceu uma memória essencialmente local, restrita a Reggio Emilia. Foi somente após a Guerra Fria que ela começou a ser resgatada como uma celebração antifascista mais ampla. Em 1988, voluntários do Museo Casa Cervi em Gattatico — museu existente desde 1974 — organizaram uma nova Pastasciutta Antifascista, servindo pratos de massa em 25 de julho. A partir de meados da década de 1990, o evento tornou-se regular.

Hoje, a celebração ocorre em muitas cidades da Itália e do exterior. Ela se faz presente onde quer que a memória antifascista italiana viaje com migrantes, associações, estudantes, trabalhadores, comunidades políticas e até mesmo professores universitários como eu — que, em Londres, organizo um prato de massa e uma taça de Lambrusco para conversar um pouco sobre história e memória. Nesse sentido, a *pastasciutta* tornou-se um ritual antifascista transnacional.

Mais do que lembrar o passado

Mas o que significa celebrar a massa antifascista hoje?

A memória é importante e faz parte da vida cívica. Mas a história é algo mais. Pensar historicamente significa indagar sobre causas, transformações, instituições, relações de classe, linguagens políticas, hierarquias culturais e formas de dominação. Se a memória pode preservar, a história também deve inquietar. A memória diz: não se esqueça. A história pergunta: como isso foi possível? Por que aconteceu? O que mudou e o que não mudou?

Essa distinção é importante porque a questão do fascismo é, hoje, frequentemente mal colocada. Se a memória se desvincula da história, o antifascismo pode tornar-se mero ritual. Hoje, o antifascismo pode parecer "descolado" novamente. Os símbolos circulam com facilidade: canções, slogans, camisetas, cartazes, postagens em redes sociais, lenços vermelhos, grafismos vintage, a estética partisan. Isso não é algo ruim. Culturas políticas precisam de seus rituais e de seu pathos. Mas existe também o risco de utilizar símbolos antifascistas como uma decoração moral, esvaziados de seu contexto e de sua substância política. Existe o risco de o antifascismo se tornar uma mera marca, reduzido a um estilo de vida ou a um gesto de distinção cultural, em vez de algo realmente praticado.

Uma das definições mais perspicazes de fascismo foi dada por Vittorio Foa, um partigiano socialista que se tornou parlamentar na república italiana do pós-guerra. Respondendo a um senador eleito pelo partido pós-fascista Movimento Sociale Italiano, Foa disse: "Se vocês tivessem vencido, eu estaria na prisão. Como nós vencemos, você é senador". Ele sugeriu que o antifascismo não é a supressão da discordância, mas a condição que torna possível a discordância democrática.

Há, naturalmente, ainda um fascismo nostálgico, especialmente na Itália: peregrinações a Predappio — cidade natal de Mussolini —, saudações romanas, objetos e recordações fascistas e o culto grotesco ao Duce.

No entanto, o perigo mais grave reside no esvaziamento da democracia, na erosão de direitos, na normalização da violência política e no retorno de discursos políticos que transformam problemas sociais em inimigos a serem expulsos. Isso nem sempre se parece com o fascismo; pode operar dentro dos limites formais da democracia liberal. Pode valer-se da linguagem da segurança, da tradição, da nação, da religião, da família natural ou do senso comum. Pode não se apresentar como uma ditadura; pode apresentar-se como "o povo" contra seus inimigos — sejam eles migrantes, artistas, feministas, trabalhadores, intelectuais, juízes, o movimento LGBTQ ou jornalistas.

A verdadeira ameaça não é o retorno do fascismo. O perigo atual é, antes, a desistoricização do fascismo, transformando-o em apenas mais uma opinião entre outras, um lado de uma fratura supostamente eterna na narrativa nacional. Com demasiada frequência, o fascismo é apresentado não como um regime com suas causas, instituições, violência, alianças de classe, guerras coloniais e leis raciais, mas como uma expressão temperamental da "cultura italiana". O fascismo torna-se apenas mais uma história no álbum de fotos nacional, mais uma suposta identidade disponível para a performance política.

A Pastasciutta Antifascista resiste a isso. Ela nos convida a tornar a história pública novamente, a reunir as pessoas não apenas para celebrar, mas também para discutir, debater, compreender e organizar. O objetivo não é a nostalgia da Resistência da Segunda Guerra Mundial, mas sim recuperar a dimensão popular, material e coletiva do antifascismo.

Obviamente, um prato de massa cozida demais não derrotou o fascismo. Mas anunciou, pública e coletivamente, que o fascismo poderia ser derrotado. Transformou o fim de um regime — ou o que as pessoas esperavam que fosse o fim — em um ato compartilhado de libertação.

Por essa razão, a Pastasciutta Antifascista continua relevante. Precisamos de ocasiões para pensar historicamente em conjunto. Lembrar da família Cervi não significa apenas dizer que eles foram mortos por fascistas. Significa perguntar que tipo de mundo tornou o fascismo possível, que formas de solidariedade tornaram a resistência possível e que formas de indiferença poderiam tornar o autoritarismo possível novamente.

O antifascismo, afinal, não é apenas a memória daqueles que morreram. É algo praticado por aqueles que vivem.

Colaborador

Marzia Maccaferri leciona teoria política e história na Queen Mary University of London. Ela é uma das organizadoras da Pastasciutta Antifascista em Londres.

8 de dezembro de 2025

O gigantesco movimento dos trabalhadores rurais sem-terra do Brasil aponta o caminho

Após 40 anos de luta, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra do Brasil (MTS) conta agora com quase dois milhões de membros e ocupa um lugar central na luta pela democracia e igualdade. E conseguiu isso hasteando a bandeira militante mais improvável de todas: a comida orgânica.

Entrevista com
João Paulo Rodrigues


Ostentando a improvável bandeira dos alimentos orgânicos, o MST conseguiu reformular a reforma agrária como uma missão para fornecer produtos nutritivos, de origem sustentável e acessíveis às massas brasileiras. (Mauro Pimentel / AFP via Getty Images)

Entrevista por
Nicolas Allen

Se você visitou o Brasil nos últimos anos, certamente o viu: “o outro boné vermelho”. Agora um acessório da moda nas praias do Rio de Janeiro, o boné de beisebol decididamente anti-MAGA representa não a extrema-direita, mas o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Com quase dois milhões de membros, o MST é provavelmente o maior movimento social do mundo, calejado pela luta após quatro décadas, exigindo reforma agrária. Ainda mais impressionante é o fato de o MST ter prosperado em condições adversas, principalmente sob o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro. O objetivo do MST é cumprir as promessas não realizadas da transição democrática brasileira e romper com as relações coloniais que ainda prevalecem no campo.

A última década, porém, viu essa missão histórica ganhar novo impulso. A crescente visibilidade do MST foi, na verdade, parte de uma astuta “repaginação” — uma postura defensiva adotada quando o governo Bolsonaro declarou guerra aberta às ocupações de terras do movimento. Em resposta, o movimento buscou aproximação com a classe média urbana progressista.

Abraçando a improvável bandeira dos alimentos orgânicos, o MST conseguiu reformular a reforma agrária — e suas controversas desapropriações de terras — como uma missão para fornecer produtos nutritivos, de origem sustentável e acessíveis às massas brasileiras. Ao fazer isso, a opinião pública passou a enxergar o movimento menos como um “mero” movimento camponês e mais como um projeto de transformação nacional. Embora aliado ao governo de esquerda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o movimento mantém uma relação complexa com o Estado brasileiro.

Para a Jacobin, Nicolas Allen conversou com o líder nacional do MST, João Paulo Rodrigues, sobre a visão estratégica do movimento para o futuro e como ele planeja lutar para colocar a política da classe trabalhadora na agenda nacional.

Nicolas Allen

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foi tema de uma recente matéria de capa da revista The Nation. Vincent Bevins, autor do artigo, explica como o movimento se adaptou às mudanças ao longo de seus quarenta anos de existência e como se fortaleceu ainda mais sob o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro. Como você explica o crescimento do MST na última década?

João Paulo Rodrigues

O MST tem sido uma importante força política desde a restauração da democracia brasileira no final dos anos 80 — são quase quarenta e cinco anos em que o MST esteve ativo, com diferentes graus de força, em todas as lutas.

É verdade que o MST se tornou um importante ator político. Mas é igualmente importante reconhecer que os últimos dez anos foram muito difíceis para a esquerda brasileira. Antes do golpe contra Dilma Rousseff em 2013, houve uma grande revolta que viu uma nova geração de brasileiros cair sob a influência da direita conservadora. Essa força conservadora buscava expulsar qualquer movimento de esquerda das ruas: o MST, a CUT [Central Unificada dos Trabalhadores], o PT [Partido dos Trabalhadores], todos perderam terreno para a direita.

O MST sobreviveu a esse momento, mas as coisas só pioraram depois de 2013. Em seguida, vieram o impeachment de Dilma, a prisão de Lula, o governo Temer, a eleição de Bolsonaro e, então, a pandemia. Durante os últimos dez anos, a esquerda brasileira, incluindo o MST, sofreu muitos reveses.

Nesse período, o MST se manteve uma força política ao se reinventar. Em vez de se concentrar exclusivamente em suas reivindicações tradicionais — a expropriação de terras ociosas e improdutivas, a luta contra os grandes latifundiários e assim por diante — o MST colocou uma nova questão na agenda política: a alimentação.

A agenda alimentar — a produção de alimentos baratos, saudáveis ​​e orgânicos — transformou a bandeira da reforma agrária em algo mais tangível para o brasileiro médio. Quer fossem membros da classe média interessados ​​em alimentos orgânicos, quer dos setores mais pobres que desejavam preços acessíveis, a bandeira da nutrição tornou a causa da reforma agrária mais compreensível. Essa mudança em direção à produção de alimentos também alterou a opinião dos chamados setores desenvolvimentistas, que não podiam mais menosprezar o MST como um mero “movimento de protesto”. Agora, são obrigados a reconhecer que o movimento oferece alternativas econômicas, políticas e sociais.

Isso não significa, é claro, que só porque o movimento ergueu a bandeira da alimentação, tenha abandonado a luta contra os grandes latifundiários, o imperialismo e o capitalismo. Significa apenas que o MST também oferece uma visão alternativa de sociedade.

Nicolas Allen

Como funciona o sistema alimentar do MST em termos de produção e distribuição?

João Paulo Rodrigues

Existem cerca de 1.900 associações produtivas, 185 cooperativas e 120 agroindústrias espalhadas pelos assentamentos e áreas de acampamento do MST. Elas estão envolvidas na produção, processamento e comercialização dos alimentos da Reforma Agrária Popular. Existem pelo menos quinze cadeias produtivas principais, com mais de 1.700 tipos diferentes de produtos circulando pelas linhas de distribuição do MST. A maior parte consiste em alimentos básicos como arroz, feijão, milho, trigo, café, leite, mel, mandioca e diversas outras frutas e verduras.

A produção de arroz, por si só, chega a mais de 42.000 toneladas, das quais 16.000 toneladas são orgânicas. O MST é reconhecido há mais de uma década como o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. O MST também produz cerca de 30.000 toneladas de café por safra. Somos também um dos maiores produtores de cacau do Brasil, com mais de 1,2 milhão de toneladas.

Em resumo, nosso objetivo é nos tornarmos um dos maiores produtores mundiais de alimentos orgânicos e de origem ecológica. Do norte ao sul do Brasil, nossas cadeias produtivas são organizadas em torno dos princípios de conservação do solo, manejo adequado, métodos industriais responsáveis ​​e utilização de nossos próprios canais de distribuição para levar alimentos às mesas dos brasileiros. Quanto à distribuição, contamos com nossos Armazéns do Campo, lojas associadas ao MST especializadas na venda de produtos da reforma agrária. Atualmente, existem vinte e quatro lojas desse tipo, presentes nas principais capitais e em cidades do interior do Brasil. Também realizamos feiras regionais onde grande parte da produção dos acampamentos e assentamentos é distribuída localmente.

No entanto, a principal forma de comercialização da produção pelas nossas famílias camponesas é por meio de vendas para atender às diretrizes públicas de nutrição, como o PAA e o PNAE. Existe uma lei no Brasil que exige que qualquer programa PNAE adquira pelo menos 30% de seus recursos alimentares de pequenos agricultores familiares. E embora essa legislação nem sempre seja cumprida, ela garante a distribuição de alimentos produzidos pelo MST em um mercado direto e institucionalmente respaldado. Pode-se preferir um modelo menos burocrático e em maior escala, mas o PNAE é extremamente importante para promover a produção camponesa e garantir que escolas e outras instituições públicas tenham acesso a alimentos saudáveis ​​e variados.

Nicolas Allen

Antes, quando você falou sobre a fragilidade da esquerda brasileira, estava se referindo à política eleitoral, ao movimento sindical, aos movimentos sociais ou a tudo isso?

João Paulo Rodrigues

O Brasil moderno sempre foi um país politicamente dividido. Tradicionalmente, 30% da população vota na esquerda, e a direita geralmente conquista uma porcentagem semelhante de votos — em torno de 30%. O centro político, por sua vez, tende a votar na direita. Essa foi a principal novidade histórica de Lula: desde sua vitória presidencial em 2002, Lula conseguiu atrair o centro político e fortalecer o PT, que se tornou um grande bloco de centro-esquerda. Nesse processo, porém, o próprio governo Lula tornou-se mais centrista do que esquerdista.

Isso acabou diminuindo a força dos partidos de centro-direita, que nos últimos anos foram absorvidos pelos governos Lula e Dilma. Os partidos de centro-direita perderam sua importância no Brasil porque o governo Lula, um governo de esquerda, rompeu a longa parceria entre políticos de centro-direita e o setor capitalista. Não havia espaço para um partido de centro-direita no Brasil — ele já estava incorporado à base do governo.

Em vez de se concentrar exclusivamente em suas pautas tradicionais, o MST colocou uma nova questão na agenda política: a alimentação.

O governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, no entanto, abalou esse cenário. A estratégia de governo de Lula baseia-se na formação de alianças — uma estratégia incapaz de lidar com a ameaça bolsistarista. A extrema-direita, por sua vez, formou sua própria aliança com o centro. Inicialmente, tratava-se de uma aliança tática, no que dizia respeito ao centro-direita, mas o bloco de extrema-direita agora absorveu grande parte do centro-direita. Como resultado, o apoio do centro-direita no Brasil está dividido entre o governo Lula e a extrema-direita.

Em outras palavras, a hegemonia no Brasil está atualmente em disputa entre o governo Lula e o campo de extrema-direita de Bolsonaro. Esses são os dois polos que constituem o cenário político brasileiro. Na minha opinião, até o final deste ano, conforme essas tensões se desenrolarem, veremos emergir um campo à esquerda do governo Lula ou um situado mais ao centro — embora seja muito difícil imaginar como o centro conseguiria formar seu próprio governo. Em última análise, o centro político brasileiro se tornará um tributário da extrema direita ou da esquerda.

No que diz respeito ao MST, devemos nos preparar para o que quer que aconteça nos próximos cinco anos — um futuro definido não apenas pela saída de Bolsonaro da cena política, imposta judicialmente, mas também pela inevitável saída de Lula. Esse período testemunhará uma reorganização do cenário político brasileiro, que será dominado por novas lideranças partidárias, pela forte presença da tecnologia e, o que nos preocupa especialmente, pelo declínio da influência do poder da classe trabalhadora. Em outras palavras, veremos uma esquerda “mais fraca”, mais distante do mundo da produção e muito mais ligada a questões identitárias.

Nicolas Allen

Será que esse enfraquecimento do poder da classe trabalhadora influenciou a mudança estratégica do MST?

João Paulo Rodrigues

É preciso entender: o Brasil tem uma das maiores taxas de desigualdade fundiária do mundo. A luta pela reforma agrária é uma necessidade histórica e determinará o futuro da democracia brasileira — é impossível aceitar que 46% das terras do Brasil permaneçam nas mãos de 1% dos latifundiários. A luta pela terra foi e continua sendo a base da existência do MST. Mas, uma vez que essa luta avança e a terra é adquirida, as famílias precisam de assistência para produzir; precisam de infraestrutura pública como escolas, postos de saúde, eletricidade, saneamento básico e estradas. Em resumo, é preciso continuar a mobilização mesmo depois que uma família conquista um lote de terra.

Durante os quase quarenta e dois anos do movimento, abraçamos esse desafio político maior, aliando-nos aos trabalhadores urbanos com base no entendimento de que não basta que os trabalhadores rurais lutem apenas pela reforma agrária — deve ser uma luta de todos para que a reforma agrária seja alcançada. Além disso, muitos problemas enfrentados pela classe trabalhadora urbana estão diretamente ligados à falta de reforma agrária no campo. A expansão urbana descontrolada, a fome, a falta de alimentos saudáveis ​​a preços justos, são questões urbanas que ampliaram os horizontes de nossas lutas.

É verdade que, quando o MST foi fundado, acreditávamos que uma reforma agrária clássica resolveria os problemas do campo. Hoje, temos uma concepção diferente de reforma agrária. Queremos uma reforma agrária popular, que significa a democratização do acesso à terra, o uso generalizado de práticas agrícolas sustentáveis, educação libertadora e relações humanas livres de exploração. É impossível produzir alimentos “saudáveis” em uma terra tão explorada. Lutamos por uma reforma agrária que seja um projeto nacional popular, onde haja diversidade, justiça social e o colonialismo cultural e econômico que ainda prevalece no Brasil seja coisa do passado.

Nicolas Allen

Você falou sobre o futuro da esquerda brasileira na era pós-Lula. Onde você vê o MST nesse cenário futuro?

João Paulo Rodrigues

No futuro imediato, o MST planeja unir forças com a ala esquerda do campo Lula. Além disso, o movimento se unirá à esquerda de forma mais ampla, à medida que o Brasil entra no período pós-Lula. Mas o MST não é um partido e não se tornará um.

No entanto, pretendemos lutar em três frentes políticas nos próximos cinco anos. A primeira é a frente da luta pela terra. O MST precisa se consolidar, se fortalecer e se estabelecer como uma organização que luta pela terra. Para nós, a luta pela terra é central. Há cem milhões de hectares de terra em disputa no Brasil, e precisamos contestar essa agenda lado a lado com os povos indígenas e os quilombolas.

Quem controla a terra controla o futuro do Brasil. Que fique claro. No Brasil, terra é sinônimo de produção de alimentos, conservação ambiental e cuidado com a natureza. Para isso, acredito que o MST precisará se fortalecer e direcionar sua atenção para as regiões em conflito que ainda estão em disputa na chamada fronteira agrícola, na Amazônia, no Matopiba ou mesmo no Cerrado, onde temos menos presença.

Nosso objetivo é nos tornarmos um dos maiores produtores mundiais de alimentos orgânicos e de origem ecológica.

A segunda luta é nos tornarmos uma grande força econômica na produção de alimentos nutritivos. Num futuro não muito distante, o MST enfrentará o agronegócio industrial em sua luta pela hegemonia alimentar. Podemos ter apenas dez milhões de hectares, em comparação com os sessenta milhões controlados pelo agronegócio. Mas temos algo que eles não têm: mão de obra. Há mais de dois milhões de trabalhadores rurais vivendo e trabalhando em assentamentos do MST.

Nicolas Allen

Poderia falar mais sobre a relação entre o MST e o Estado? A causa principal do movimento, a reforma agrária, é promovida por meio de ocupações autônomas de terras. Mas a reforma agrária depende, em última análise, de políticas estatais favoráveis, não é?

João Paulo Rodrigues

A relação entre a reforma agrária e o Estado é e sempre foi tensa. Historicamente, o Estado brasileiro foi fundado com o intuito consciente de impedir a realização da reforma agrária. De fato, as melhorias na situação da concentração de terras só resultaram de conflitos violentos e massacres, como ocorreu durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Durante o governo Dilma, houve pouquíssimos assentamentos e os acordos políticos permaneceram precários. No governo Lula, houve muito pouco progresso concreto.

Dito isso, o Estado é o único que pode implementar a reforma agrária. Essa é a contradição que enfrentamos: não temos alternativa a não ser dialogar com o Estado.

Nicolas Allen

E quanto ao MST e os movimentos urbanos? Como o movimento se vê relacionado às lutas políticas urbanas?

João Paulo Rodrigues

Primeiramente, uma palavra sobre as cidades brasileiras. As áreas urbanas apresentam três desafios específicos para a esquerda como um todo. Primeiro, a cidade não é mais o centro da hegemonia política da classe trabalhadora, como era o caso na década de 1980. O movimento sindical brasileiro costumava ter uma presença muito forte nas grandes cidades e era altamente organizado no mundo do trabalho. Hoje, vemos tudo isso se desfazendo por meio de um processo contínuo de precariedade no mundo do trabalho, frequentemente através de aplicativos e outras formas de organização precária do trabalho.

Segundo, a população pobre do Brasil está concentrada, em sua grande maioria, na periferia urbana, uma área controlada por milícias e pelo narcotráfico organizado. Isso torna muito difícil estabelecer uma relação mais estrutural com a classe trabalhadora urbana. Traficantes e grupos paramilitares têm muito poder e dinheiro, e aplicam a violência de uma forma que a esquerda, em seu estado atual, não está preparada para enfrentar.

Podemos ter apenas 10 milhões de hectares, em comparação com os 60 milhões controlados pelo agronegócio. Mas temos algo que eles não têm: mão de obra.

Finalmente, as igrejas evangélicas estão realizando o tipo de trabalho social na periferia urbana que antes era feito pela ala esquerda da Igreja Católica brasileira. Portanto, existem três questões — a milícia, a precariedade e a igreja evangélica — que, juntas, dificultam o acesso de qualquer programa de esquerda à periferia.

O desafio para o MST é descobrir como traduzir nossa experiência com assentamentos e acampamentos em um programa urbano. Como podemos levar essa experiência para a cidade por meio de cooperativas e produção de alimentos?

Devemos realizar essa tarefa sem desenvolver uma relação paternalista ou assistencialista. Precisamos alcançar uma geração de jovens e trabalhadores que compartilhem genuinamente nossa crença de que o mundo do trabalho e da alimentação deve estar no centro de nossa política. Mas, novamente, só podemos fazer isso se a esquerda apresentar uma visão séria de reforma urbana. Enquanto a esquerda não enfrentar as questões clássicas — pobreza, desigualdade, moradia, segurança pública, saúde e assim por diante — nossas opções são limitadas.

É por isso que esperamos que nossa política de cooperativas, agroecologia e produção de alimentos se torne uma poderosa força econômica nos próximos anos. Dessa forma, a sociedade verá a esquerda como um modelo alternativo de desenvolvimento econômico e social. Nossa luta não é apenas ideológica para combater a fome — é um modo de vida alternativo e um modelo que pode abordar a organização das cidades e até mesmo a geração de empregos em nível nacional.

Na busca dessa missão, o MST pressionará por novas parcerias público-privadas, combinando o apoio do Estado com pequenos empreendedores que desejam se associar ao MST para formar agronegócios de médio porte. Devemos construir uma base econômica e mostrar a toda a sociedade brasileira que o MST não é apenas uma visão ideológica, mas um projeto nacional.

Por fim, o MST e outros partidos de esquerda disputarão a representação em todas as instituições políticas. Precisamos de mais vereadores, prefeitos, parlamentares, líderes estudantis de esquerda, mais pessoas em todos os espaços institucionais para que o Estado se torne democrático e mais sensível às necessidades da classe trabalhadora. Não podemos abrir mão de nenhum espaço de governança, porque há uma força de extrema direita à espreita, muito mais feroz do que qualquer um de nós pode imaginar.

Nicolas Allen

As mudanças que ocorrem no mundo do trabalho afetaram a visão estratégica do MST?

João Paulo Rodrigues

A classe trabalhadora está sempre se adaptando às mudanças no mundo do trabalho, desde os tempos em que os trabalhadores da era Ford se adaptavam ao chão de fábrica. O problema hoje é que a precariedade do trabalho só piora. A classe trabalhadora brasileira é extremamente precária e empobrecida.

Mais da metade da classe trabalhadora brasileira trabalha sem contrato formal e a maioria vive com menos de três salários mínimos [menos de US$ 900]. A classe trabalhadora brasileira é muito pobre e tem grande dificuldade em se organizar devido à precariedade do trabalho informal e sazonal. Ou seja, não vejo nas condições atuais da classe trabalhadora nenhum sinal de uma nova forma de organização emergindo no médio ou mesmo no longo prazo. Se a miséria desse origem a novas formas de organização trabalhista, a África como continente já teria passado por uma revolução. Em vez disso, vemos o oposto: a pobreza gerando mais pobreza.

Não conseguimos apresentar uma reforma trabalhista brasileira que simplesmente mantivesse as condições mínimas de vida. Aqui, tudo o que vemos são novas formas de exploração e desorganização no mundo do trabalho. Somos reféns de novas tecnologias e novas formas capitalistas de exploração que nos deixam lutando para acompanhar o ritmo.

Se a miséria desse origem a novas formas de organização trabalhista, a África, como continente, já teria passado por uma revolução. Em vez disso, vemos o oposto: a pobreza gerando mais pobreza.

O MST continuará a organizar os trabalhadores rurais diante desses desafios. No curto prazo, precisamos atrair uma nova geração de jovens que não sejam necessariamente camponeses ou agricultores, mas que queiram trabalhar em cooperativas e produzir alimentos orgânicos. Nosso desafio é criar um novo modelo de reforma agrária em que as pessoas possam dedicar parte do seu tempo ao trabalho no campo, mantendo outro tipo de emprego na cidade.

O Brasil, aliás, tem quase pleno emprego. Mas a pobreza não diminuiu e a vida das pessoas não melhorou. Pelo contrário, piorou. Por quê? Porque o emprego é muito precário e as pessoas não conseguem arcar com o custo de vida extremamente alto com os níveis salariais atuais. Muitos trabalhadores brasileiros não têm sequer condições de comprar alimentos básicos.

Nicolas Allen

O que o MST pode oferecer diante desses desafios?

João Paulo Rodrigues

Frequentemente ouvimos magnatas brasileiros dizerem que há escassez de mão de obra no mercado de trabalho por causa do Bolsa Família e de outras políticas federais de assistência social. A elite brasileira detesta Lula porque acredita que a assistência governamental torna as pessoas complacentes e desinteressadas pelo trabalho. O fato é que a classe trabalhadora, especialmente os jovens, não quer ser explorada com salários de fome. O setor de serviços reclama da falta de mão de obra, mas não percebe que o que os trabalhadores querem é um emprego e um salário digno. Os trabalhadores de hoje querem o fim da semana de trabalho de seis dias, querem direitos trabalhistas e uma renda compatível com o custo de vida.

Os trabalhadores rurais não querem mais ser explorados por grandes latifundiários e forçados a condições de trabalho análogas à escravidão. Enquanto houver muitas mãos sem terra e muita terra nas mãos de poucos, as ocupações do MST continuarão. A reforma agrária é um projeto de emancipação para a classe trabalhadora explorada, que vê a ocupação da terra como seu único caminho para uma vida digna, com um pedaço de terra para viver, cultivar e colher.

A esquerda só é uma força política viável na medida em que mantivermos o controle sobre o mundo do trabalho. E esse é um projeto político que exige a mobilização dos pobres, mas também a atenção às questões da classe média. Temos que estar à altura da situação e erguer a bandeira do trabalho, ou estaremos falhando em nossa missão como marxistas.

Outro desafio será intervir em questões ambientais. A esquerda não pode se entregar a posturas ambientalistas, dizendo coisas como "a natureza é um santuário" e fingindo que o mundo natural não deve servir ao bem da humanidade. Mas a esquerda também não pode cair na retórica preguiçosa do desenvolvimentismo, que diz que podemos destruir tudo a qualquer custo em nome do progresso. Felizmente, a esquerda já avançou nessa frente.

Mas as coisas não serão fáceis. Os movimentos populares e as organizações de esquerda brasileiras terão que resistir no curto prazo apenas para defender o governo Lula. No médio prazo, ao longo dos próximos cinco anos, precisarão começar a construir as bases para a transição que se aproxima — o que significará apresentar uma visão nacional capaz de derrotar a direita.

Colaboradores

João Paulo Rodrigues é um líder nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Nicolas Allen é editor de aquisições da revista Jacobin e doutorando em História da América Latina na Universidade Stony Brook (SUNY).

20 de março de 2025

Israel usa a fome como arma para destruir Gaza

Ao bloquear a ajuda e retomar a guerra em Gaza, Israel minou sistematicamente o cessar-fogo. Agora, usa a fome como uma ferramenta de coerção para forçar a capitulação palestina e avançar a limpeza étnica de Gaza.

Fadi Kafeety

Jacobin


Após mais de um mês empregando todos os meios à disposição para sabotar e derrubar o acordo de cessar-fogo com as forças de resistência palestinas lideradas pelo Hamas, Israel — sob o governo de Benjamin Netanyahu — mais uma vez se recusou a prosseguir com a próxima etapa das negociações acordadas, ameaçando retomar sua guerra em Gaza, a menos que esta ceda a novas demandas que não faziam parte do acordo original.

Sob o acordo inicial de cessar-fogo de três fases, que todas as partes assinaram, o primeiro estágio começou em 19 de janeiro de 2025 e foi definido para durar quarenta e dois dias. As negociações para a próxima fase foram programadas para começar no dia 16 de março, abrindo caminho para a libertação de todos os prisioneiros israelenses e a retirada das forças de ocupação da Faixa de Gaza.

Em vez disso, Israel violou repetidamente o acordo de cessar-fogo — mais de duzentas vezes — recusou-se a negociar até o quadragésimo primeiro e penúltimo dia da fase um, e então introduziu demandas de última hora para estender a primeira fase já expirada até o Ramadã e a Páscoa. Adotando uma posição delineada pelo enviado especial dos EUA para o Oriente Médio Steve Witkoff, Netanyahu alegou em uma reunião de gabinete que “era necessário mais tempo para as negociações chegarem a um possível acordo”, insistindo que não havia “nenhuma possibilidade de unir as duas posições… [com] o Hamas em relação à fase dois”.

Fome armamentista

Para forçar a aprovação do mais recente plano EUA-Israel na Palestina ocupada, o governo israelense deliberadamente adiantou o relógio antes de anunciar um bloqueio total em Gaza, poucos minutos após o término da primeira fase do cessar-fogo em 2 de março. Isso deu ao Hamas um apertado prazo até o dia 12 de março para aceitar os novos termos de Israel ou enfrentar uma nova guerra em Gaza.

Na mesma reunião, Netanyahu declarou que não haveria “refeições gratuitas” em Gaza, admitindo efetivamente usar a fome coletiva como uma ferramenta coercitiva. Essa política impacta deliberadamente quase dois milhões dos 2,3 milhões de palestinos em Gaza, que já suportaram uma guerra genocida que durou mais de quinze meses e uma fome deliberadamente fabricada — que terá consequências duradouras por gerações.

Para vender a fome induzida pelo bloqueio dos palestinos em Gaza para a comunidade internacional, um porta-voz do gabinete de Netanyahu lançou mão do escárnio, alegando que “os suprimentos estão lá, mas o Hamas não compartilha” — enquanto falsamente comentava que há “comida suficiente [em Gaza] para criar uma epidemia de obesidade”. Na realidade, as projeções mostram que os suprimentos de comida em Gaza estão para acabar em menos de duas semanas, desencadeando pânico, aumentos massivos de preços e esforços desesperados do governo em Gaza para combatê-los.

Proibida pela lei internacional, a mais recente campanha explícita de fome de Israel foi descrita pela ONG internacional Oxfam como um “ato imprudente de punição coletiva” que usa ajuda humanitária vital como “moeda de troca” para um povo que está urgentemente “precisando de tudo”.

Bloqueio, bombas e promessas quebradas

Desde a Nakba de 1948, Israel tem usado uma estratégia de paralisação e atraso nas negociações para manter o controle territorial. Das Resoluções 181 e 242 da ONU aos Acordos de Oslo e sua atual recusa em manter os cessar-fogo em Gaza e no Líbano, Israel tem se envolvido em ações de cortina de fumaça para expandir seus assentamentos e controle militar. Essas táticas maximizam os ganhos territoriais enquanto tornam a vida cada vez mais insuportável para os palestinos nos territórios ocupados, bem como para aqueles no Líbano e na Síria que permanecem sob a sombra da ocupação militar israelense.

A fome em Gaza ocorre no contexto do presidente dos EUA, Donald Trump, pedindo que seu país “tome conta de Gaza” e desloque seus habitantes à força. Trump até compartilhou um vídeo gerado por IA retratando a faixa sitiada transformada em uma cidade resort com tema de riviera chamada “Trump Gaza”.

Agora, os últimos bloqueios de Netanyahu sobre alimentos e ajuda humanitária parecem afirmar que o objetivo da política dos EUA e de Israel em Gaza não é simplesmente a libertação de prisioneiros israelenses, mas a remoção forçada da população palestina de Gaza. Isso é ainda mais evidenciado pelas repetidas ofertas do Hamas de um acordo de libertação de todos os prisioneiros em troca do fim permanente da guerra, que, sem surpresa, ficaram sem resposta.

Israel violou sistematicamente o cessar-fogo desde o momento em que entrou em vigor: bombardeando Gaza por três horas além do horário de início acordado em 19 de janeiro, continuando a matar palestinos e até mesmo bloqueando mais de meio milhão de palestinos deslocados de retornar ao norte de Gaza, citando o cativeiro contínuo de um único prisioneiro israelense como justificativa. Somente nas três primeiras semanas do cessar-fogo, mais de cem palestinos foram mortos em Gaza, enquanto na Cisjordânia ocupada, Israel lançou seu maior ataque militar e apropriação de terras desde a Segunda Intifada. Essas escaladas refletem uma estratégia deliberada para tornar a vida palestina insustentável, aprofundando ainda mais as condições de ocupação.

Sem comida, sem casas

A instrumentalização da ajuda vital e da entrada de alimentos na Faixa de Gaza sitiada e devastada acontece apenas dois dias após o Ramadã utilizada como arma por Israel, marca o segundo ano consecutivo em que os palestinos em Gaza enfrentam fome coletiva durante o mês sagrado. Em uma nova escalada, Israel também abandonou sua política de longa data de não destruir lares palestinos durante o mês do Ramadã.

Encorajado pelo apoio incondicional dos EUA e da UE, suas ocupações contínuas de territórios sírios e libaneses, a incapacidade dos regimes árabes regionais de impedir o genocídio e a erosão da legitimidade moral da ordem internacional global, Israel tem operado com total impunidade enquanto intensifica seus ataques à Cisjordânia e se prepara para retomar a destruição de Gaza.Na esteira da implacável obstrução israelense e da escalada deliberada, tanto Gaza quanto a Cisjordânia estão aprofundando catástrofes humanitárias. Utilizando estrategicamente a fome em Gaza enquanto conduz sua maior campanha de limpeza étnica na Cisjordânia desde 1967, o completo desrespeito de Israel pelo direito internacional ressalta a necessidade urgente de prevenir uma segunda Nakba na Palestina.

Colaborador

Fadi Kafeety é doutorando em história árabe moderna na Universidade de Houston.

25 de fevereiro de 2025

Os bares de leite da Polônia continuam vivos depois do comunismo

Na Polônia, o regime comunista do pós-guerra tem poucos defensores. Mas restaurantes subsidiados pelo estado, conhecidos como milk bars, projetados sob o socialismo de estado para libertar as pessoas da "escravidão da cozinha", continuam a prosperar hoje.

Owen Hatherley

Jacobin

Um bar de leite em Cracóvia, Polônia, fotografado em 24 de maio de 2022. (Jakub Porzycki / NurPhoto via Getty Images)

No centro da capital polonesa, Varsóvia, há uma rua chamada Nowy Swiat — Rua do Novo Mundo. Construída no século XVIII e início do século XIX em um estilo neoclássico e reconstruída muito meticulosamente para ficar parecida com sua aparência original após a destruição quase total de Varsóvia pela Alemanha nazista em 1944, é o coração da Polônia burguesa, o lugar onde aqueles que venceram na “transição” para o capitalismo depois de 1989 podem ir e beber em bares caros, comprar produtos superfaturados de vários tipos e, geralmente, passear por suas calçadas largas em direção à armadilha turística da Cidade Velha. Se você estivesse andando por ela pela primeira vez, notaria a riqueza, mas quase certamente deixaria passar um pequeno lugar chamado Bar Familjny —Bar Familiar — uma loja despretensiosa ao lado de um café “de estilo francês” chamado Croque Madame e em frente ao Thai Bali Spa. Entre nele e você será transportado para um lugar completamente diferente da paisagem urbana intercambiável do eurocapitalismo contemporâneo.

Bar Familjny é um exemplo típico, ainda que excepcionalmente central, do que é chamado na Polônia de bar mleczny, um bar de leite. Este termo tem sido usado ocasionalmente em inglês, geralmente nos anos do pós-guerra, para se referir a bares que não vendem álcool voltados para menores de idade como uma forma de encorajá-los a não desenvolverem gosto por bebidas alcoólicas. Um bar mleczny polonês é um pouco diferente; em sua maneira silenciosa, é, como instituição, o maior sobrevivente do frequentemente ridicularizado, mas estranhamente duradouro legado do planejamento estatal socialista para a alimentação proletária.

A primeira coisa que você notará — talvez ajudado por um aplicativo de tradução, já que turistas e falantes monolíngues de inglês não estão entre a clientela habitual do Familjny — é que a comida é absurdamente barata. Depois de decidir os pratos que quer, você entra na fila para um pequeno balcão. Você faz o pedido e recebe um pedaço de papel que leva até um balcão maior, de onde é possível ver a cozinha, e o entrega a um funcionário uniformizado, normalmente de meia-idade ou mais velho. Eles colocam as partes específicas de sua refeição no prato. Então você se senta, come, e quando termina, coloca o prato e os talheres em um suporte — não há nada tão servil quanto garçons. Existem algumas desvantagens neste sistema, com certeza. Eu só estive uma ou duas vezes em um bar de leite que tinha banheiro, e como na hora do almoço especialmente há sempre muitas pessoas na fila, você não é encorajado a ficar. Após a refeição você vai para casa ou volta para o trabalho — mas terá conseguido fazer uma refeição com três pratos: sopa, prato principal e uma fatia de bolo pelo equivalente a, no máximo, £ 5, em um país onde o custo de vida é quase comparável ao da Grã-Bretanha.

O menu no bar de leite médio é rotativo e alterado regularmente dependendo da oferta e do momento, mas repousa sobre especialidades polonesas tradicionais — digamos, uma sopa de borscht (barscz, nesta região) ou centeio fermentado (zurek). (Laticínios podem ser evitados em um bar de leite se você for cuidadoso, mas os veganos devem notar que provavelmente haverá um ovo cozido na maioria das sopas.) Seguidos por bolinhos (pierogi) com vários recheios possíveis, com um acompanhamento de salada de cenoura, kasza de trigo sarraceno e/ou batatas, e na sequência uma fatia de torta. Para beber, um copo de kompot, uma bebida de frutas esmagadas que geralmente tem pedaços frescos flutuando nela. A comida será fresca, de origem local e, embora não deva esperar que seu paladar fique surpreso, será boa: você se sentirá melhor depois de comê-la, especialmente no inverno (embora no verão você descubra que o borscht frio chłodnik é escandalosamente bom).

Apetite pela revolução

A ideia de como esses espaços funcionam está bem estabelecida — uma cultura de antisserviço, onde o servilismo é evitado, gorjetas inexistentes e as línguas são afiadas — mas o conceito remonta aos primeiros dias do socialismo, tanto de cima quanto de baixo, no início do século XIX. Você pode enraizá-lo igualmente nas cooperativas de trabalhadores no norte da Inglaterra e nos vastos refeitórios comunitários utopicamente imaginados por Charles Fourier e parcialmente realizados em New Lanark por Robert Owen. Na Polônia, as origens da ideia do bar de leite foi datada por alguns como o final do século XIX, quando a maior parte do país, incluindo Varsóvia, estava sob ocupação russa czarista. Os bares de leite ofereceriam alimentos produzidos localmente para beneficiar os fazendeiros poloneses, e não haveria álcool para turvar as mentes dos trabalhadores, e também, o que é importante, pouca carne, o que tornaria a comida mais barata e saudável. Mas quase todos os bares de leite da Polônia foram abertos entre 1945 e 1989, tornando-se o exemplo local de um subgênero de instalações de alimentação comunitárias baratas construídas e incentivadas por governos socialistas estatais; o que os distingue hoje é o fato de que ainda perduram, por razões complicadas e surpreendentes.

A alimentação comunitária foi considerada de importância crucial pelos pensadores bolcheviques desde o início. Em parte, isso foi consequência de seu feminismo pioneiro. Tanto para Vladimir Lênin quanto para pensadores explicitamente liberacionistas como Alexandra Kollontai, uma das tarefas centrais do governo revolucionário que tomou o poder em outubro de 1917 era libertar as mulheres da classe trabalhadora da “escravidão na cozinha”, como exemplificado na indústria têxtil de São Petersburgo, que via as mulheres trabalharem em fábricas o dia todo e depois irem para casa cozinhar (e limpar) para seus homens. Os planos iniciais eram altamente ambiciosos e estavam integrados à arquitetura de vanguarda e ao design urbano; alguns resquícios desse programa sobrevivem nas grandes cidades da Rússia, e da Ucrânia em particular. Ao pesquisar sobre arquitetura soviética na década de 2010, fui procurar alguns livros, e os resultados eram muitas vezes tristes de se ver. Em São Petersburgo — então Leningrado — no final da década de 1920, uma equipe de arquitetos, alguns dos quais trabalharam com Vladimir Tatlin em sua famosa torre retorcida não construída em homenagem à Terceira Internacional, foram encarregados de projetar cozinhas comunitárias nos distritos fabris da cidade. Todos os três sobreviveram, mas foram transformados em boates duvidosas, shoppings baratos ou pior: o melhor deles, um edifício fabuloso, dinâmico e futurista, no distrito de Narvskaya Zastava, foi subdividido em pequenas unidades por, entre outros, um McDonalds. Em Moscou, enquanto isso, enormes padarias construtivistas foram construídas ao redor da cidade. Uma das maiores delas, a Fábrica de Pães Nº 5, foi transformada em um museu do construtivismo em 2022; o ano, isto é, da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, um massacre nacionalista vaidoso que teria horrorizado os modernistas socialistas por trás desses edifícios.

Na década de 1920, as moradias eram às vezes construídas de forma a encorajar seus habitantes a comerem coletivamente. Na experimental Casa Comunal Narkomfin de Moscou, apartamentos duplex eram conectados por uma passarela a um restaurante, uma biblioteca, uma creche e uma academia, com um jardim no topo; dentro dos apartamentos, as cozinhas eram minúsculas ou, nos apartamentos “totalmente coletivizados”, simplesmente ausentes, com a suposição de que você sempre poderia comer ou pegar sua comida no restaurante comunitário. Para seu arquiteto construtivista Moisei Ginzburg, isso libertaria as mulheres residentes inteiramente da suposição — inevitável no início do século XX — de que elas deveriam cozinhar o jantar. Mas na era Stalin, a cultura alimentar soviética se tornou muito mais hierárquica. Esses sonhos de vastos refeitórios de vanguarda atendidos por processos simplificados e automatizados e administrados por trabalhadores felizes e conscientes da mesma classe foram substituídos por, no topo, uma série de restaurantes de luxo para a nomenklatura; na base, cantinas de fábrica; e, no meio, a stolovaya — uma rede de refeitórios públicos espalhados pelo país, expandida especialmente na era mais igualitária de Khrushchev, período em que cafés modernistas com balcões de vidro também surgiram nos grandes centros urbanos, como um retorno aos sonhos de luxo comunitário automatizado da década de 1920.

Muitas stolovayas ainda existem, e qualquer um que tenha passado um tempo em um bar de leite as achará muito familiares, e não apenas porque as comidas russa, ucraniana e polonesa são semelhantes entre si (assim como as comidas búlgara, grega e turca, ou irlandesa, escocesa e inglesa). A nostalgia faz parte do apelo em ambas, e muitas stolovayas — que sobrevivem razoavelmente bem nas partes mais pobres das grandes cidades e, especialmente, nas cidades pós-industriais — raramente foram muito reformadas ou atualizadas desde o início dos anos 1990. Elas não têm status legal e não são subsidiadas pelo Estado. O que aconteceu, em vez disso, foi a abertura de stolovayas retrô, que oferecem um simulacro hiper-real da cultura alimentar soviética moderna de meados do século para uma clientela nascida no final ou depois da era soviética. A maior delas, a Stolovaya 57, fica na GUM, a galeria comercial czarista de ferro e vidro que fica de frente para o Kremlin. É barato para a área, mas tem um toque kitsch, estilo Maria Antonieta — um lugar onde você pode brincar de ser um cidadão soviético nos anos 60, com a certeza de que a loja Prada fica a um minuto de caminhada.

Os bares de leite da Polônia raramente são tão espetaculares quanto os remanescentes da década de 1920 soviética — embora os fãs da arquitetura moderna apreciem, por exemplo, os pavilhões de vidro de meados do século do Bar Sady ou do Bar Rusałka, ambos em Varsóvia e construídos como parte de conjuntos habitacionais. Mas os bares de leite são comuns. Eles existem em grande número, geralmente estão lotados e são veementemente defendidos por seus usuários. São uma parte real e viva da paisagem urbana na Polônia, e cada cidade tem vários, muitas vezes, como no caso do Bar Familjny, no centro da cidade, cercado pela parafernália do capitalismo contemporâneo. Isso não é por causa de algum tipo de superioridade do bar de leite perante a stolovaya. Os estereótipos que acompanham qualquer discussão sobre a cultura alimentar socialista estatal eram muito parecidos na Polônia ou na União Soviética. Foi afirmado frequentemente nos romances, filmes e séries de TV das décadas de 1980 e 1990 que esses lugares tinham um atendimento ao cliente brusco, muitas vezes rude (o que era e é verdade — essas pessoas estão aqui para trabalhar, não para desejar que você tenha um bom dia); que eram desconfortáveis, homogêneos e estéreis (uma objeção um tanto datada — nenhum deles chegaria perto de um Pret a Manger ou Costa Coffee na questão da alienação) e que a comida era ruim (o que, pelo menos a julgar pelos bares de leite contemporâneos, era simplesmente falso). Depois de 1989, presumiu-se que todos os bares de leite desapareceriam, pois as pessoas votaram com os pés no McDonalds (para as massas) ou em restaurantes chiques (onde os funcionários fingiam aproveitar a companhia de seus clientes) para a nova classe dominante. Isso não aconteceu.

Sabores residuais do socialismo

Os bares de leite têm um status legal peculiar na Polônia. Eles não eram — ao contrário de algumas preguiçosas suposições anticomunistas — simplesmente administrados pelo Estado. O bar de leite médio era, e é, administrado por uma cooperativa de consumidores ou produtores, e às vezes por uma empresa privada, e com a condição de que os preços sejam mantidos baixos, para que aposentados, estudantes e trabalhadores mais pobres — a principal clientela do bar de leite — possam continuar comendo lá. De forma um tanto miraculosa, essas regras ainda estão em vigor, e os bares de leite continuam a ser subsidiados pelo Estado polonês, independentemente do entusiasmo pela economia de “livre mercado” comum aos seus blocos eleitorais centristas e de extrema direita. Em 2011, o governo liberal-conservador do primeiro-ministro Donald Tusk propôs planos para cessar o subsídio estatal aos bares de leite, mas um clamor público fez com que a medida fosse abandonada: o subsídio estatal foi mantido tanto sob os governos nacionalistas não liberais de Jaroslaw Kaczynski quanto pela atual coalizão liberal liderada por Tusk.

O apoio público contínuo também deve algo aos lugares onde os bares de leite foram instalados. Eles nunca foram apenas cantinas de fábrica voltadas para os trabalhadores, com uma comida melhor servida aos patrões — mas foram abertos em todas as regiões onde havia locais de trabalho, o que significa que alguns dos melhores deles, como o Bar Bambino, de Varsóvia, foram abertos em distritos de escritórios. Sempre tiveram clientes razoavelmente ricos, bem como os muito jovens e muito velhos que são mais identificados com os bares de leite. Como resultado, acabam sendo uma pequena lição sobre as virtudes do universalismo. Embora haja, é claro, algumas pessoas, especialmente os ricos, que nunca comeriam em um bar de leite, na maioria das vezes comer comida local extraordinariamente barata em uma cantina subsidiada da era socialista é algo que quase todo mundo faz, independentemente de visão política, o que é uma raridade em um país fortemente polarizado por idade e classe. Para usar a frase do antropólogo anglo-polonês Michał Murawski, o bar de leite é “ainda socialista”, um exemplo de formas igualitárias, assistencialistas e comunitárias que ainda conseguem perdurar — e ser populares — em um contexto capitalista.

O que acontece, no entanto, é que, como a maioria dos exemplos do Estado de bem-estar social da Europa do pós-guerra, seja no Leste ou no Oeste, os bares de leite são bastante residuais: o que já existe pode sobreviver e prosperar, mas é muito raro que um novo bar de leite abra. Dez anos atrás, houve um alvoroço na imprensa quando o Bar Prasowy, um bar de leite de Varsóvia à beira do fechamento, foi salvo por uma campanha pública e então assumido e administrado por um proprietário “hipster. Os valores de design do bar foram intensificados, com adições comunistas chiques como um novo letreiro de neon vermelho; uma creche foi adicionada; e o máximo dos luxos, um banheiro, foi aberto para os clientes. Parte da reação foi a habitual crítica chata aos hipsters, dado que os preços permaneceram subsidiados e, como o nome e a localização do lugar (“Bar Imprensa”, em uma área antes dominada por escritórios de jornais) indicavam, dificilmente era uma cantina de trabalhadores pobres em primeiro lugar. Para ser generoso, o que o furor em torno do bar de leite hipster despertou foi o medo de que uma verdadeira peça de infraestrutura social pudesse se transformar em nostalgia kitsch, como evidenciado pelo Stolovaya 57 de Moscou. Hoje, o Prasowy ainda perdura como um agradável bar de leite, embora com um grupo de clientes um pouco mais jovem do que a maioria.

A política da Polônia frequentemente depende de questões de guerra cultural — compreensivelmente dada a força de uma direita religiosa fanática e intolerante — mas em quase todas as ruas principais há um exemplo de um espaço socialista que praticamente todo mundo usa e gosta. Se alguém no governo ou nas empresas tentar tirá-lo, as pessoas que frequentam quase certamente protestarão. Em um lugar onde questões “verdes” são consideradas pela imprensa de direita como uma distração metropolitana, bares de leite oferecem comida cujo impacto no planeta é mínimo e que, em um país com uma profunda hostilidade urbano-rural, é frequentemente cultivada por fazendeiros locais. Consequentemente, bares de leite são pequenos modelos de sustentabilidade em um país que às vezes pode parecer um monólito de concreto poluído e voltado aos carros. Os poloneses têm suas razões para desconfiar do socialismo — a experiência local do pós-guerra estava inextricavelmente ligada ao autoritarismo e ao imperialismo russo — mas o bar de leite mostra que, de certa forma, o socialismo é bem-vindo por uma gama notável de pessoas, desde aposentados devotamente católicos com boinas de mohair até jovens feministas interseccionais de vinte e poucos anos. Enquanto fazemos fila para nosso borscht e bolinhos frescos e deliciosos, somos todos iguais.

Colaborador

Owen Hatherley é o editor de cultura da Tribune. Seu último livro, "Red Metropolis: Socialism and the Government of London", saiu pela Repeater Books.

17 de dezembro de 2024

Como as gigantes de fast-food se escondem atrás de suas franquias

À medida que grandes corporações de fast-food como McDonald's e Taco Bell se transformaram em operações quase totalmente franqueadas, as redes criaram um sistema que as protege da responsabilidade por questões trabalhistas, ao mesmo tempo em que mantém um controle rigoroso sobre as condições de trabalho.

Alex Park

Jacobin

As franquias de fast-food criaram um escudo conveniente para os proprietários corporativos, permitindo que eles mantenham um controle rigoroso sobre as condições de trabalho enquanto se distanciam da responsabilidade legal por violações trabalhistas — essencialmente dando a eles o melhor dos dois mundos às custas dos trabalhadores. (Creative Touch Imaging Ltd. / NurPhoto via Getty Images)

Você provavelmente sabe que o negócio de fast-food nos Estados Unidos opera em um modelo de franquia. Funciona assim: um empreendedor, chamado de “franqueado”, paga uma grande corporação com uma marca reconhecida como a McDonald’s Corp. pelo direito de usar seu nome e imagem. Em troca, o franqueado geralmente obtém direitos exclusivos para fazer negócios sob o nome do franqueador em uma determinada área.

Para as duas maiores empresas de fast-food do mundo, McDonald’s e Yum! Brands (a empresa que controla Taco Bell, KFC e Pizza Hut desde 1997), a franquia é o meio preferido de expansão. Em 2023, 86% dos restaurantes McDonald’s e 98% dos restaurantes Yum eram operados por franqueados. O Subway, a segunda maior rede de restaurantes do mundo em número de estabelecimentos depois do McDonald’s, é 100% franqueada há anos. Depois de ficar sob o guarda-chuva de um fundo de private equity brasileiro há dez anos, o Burger King rapidamente adotou um “modelo quase totalmente franqueado”. Em 2010, 13% dos Burger Kings eram operados pela empresa, mas em 2023, ela administrava diretamente apenas 2% das lojas que levavam seu nome.

Proprietários independentes nem sempre controlaram uma parcela tão grande de estabelecimentos de fast-food. Em 1994, cerca de um quinto de todos os McDonald’s e metade de todos os Taco Bells, KFCs e Pizza Huts eram operados pela empresa. Embora a mudança possa soar como um problema para contadores, ela também tem grandes implicações para os trabalhadores. Essa virada drástica para franquias criou um escudo conveniente para proprietários corporativos, permitindo que eles mantivessem um controle rigoroso sobre as condições de trabalho enquanto se distanciavam da responsabilidade legal por violações trabalhistas — essencialmente dando a eles o melhor dos dois mundos às custas dos trabalhadores.

Transformando grandes negócios em pequenos negócios

O franchising há muito tempo faz parte do entendimento popular da indústria. Foi um tema central no filme de 2016 sobre o início da história do McDonald’s, The Founder, e Franchise foi o título do livro vencedor do Prêmio Pulitzer de Marcia Chatelain sobre o lugar do McDonald’s na história da população negra. A ideia de que milhares de restaurantes com uma identidade corporativa uniforme eram, na verdade, propriedade de empreendedores individuais com raízes em suas próprias comunidades também foi central para a identidade professada pela indústria. Na década de 1980, o McDonald’s se autoproclamava como “a maior pequena empresa do mundo” para os investidores.

Embora a participação das franquias tenha disparado nos últimos anos, elas sempre fizeram parte do negócio de fast-food, especialmente no começo. À primeira vista, isso faz pouco sentido, já que deixar a gestão do restaurante para proprietários independentes nunca foi a maneira mais lucrativa de operar uma empresa de fast-food. Como franqueadoras, as empresas de fast-food normalmente reivindicam apenas 4 a 6 por cento da receita bruta de um restaurante. O resto vai para o franqueado. Dada a desvantagem inerente do lucro, as empresas de fast-food poderiam ter escolhido não franquear em seus primeiros anos se o controle total fosse uma opção. (Na verdade, os recém-chegados mais recentes, como Chipotle e Shake Shack, são totalmente de propriedade de suas empresas.)

Mas na década de 1950 e no início dos anos 60, a franquia não era apenas uma maneira de crescer — mas a única. Setenta anos atrás, as redes nacionais de restaurantes ainda eram um conceito novo, e os bancos de Wall Street não estavam convencidos de que as poucas que existiam representavam uma tendência genuína. Sem o apoio de investidores institucionais, os líderes da indústria de fast-food em ascensão, como McDonald’s e KFC, recorreram à franquia para levantar dinheiro sem eles.

Para aspirantes a empreendedores, era uma venda fácil: uma maneira de manter a independência e, ao mesmo tempo, aproveitar as vantagens de uma grande empresa com posição nacional. À medida que grandes corporações assumiam uma posição dominante na economia do pós-guerra, a franquia oferecia um dos poucos meios ainda disponíveis para lançar um negócio próprio. Era um negócio para a qual valia a pena hipotecar uma casa e usar as economias de uma vida, e muitos franqueados fizeram exatamente isso para abrir seu primeiro restaurante fast-food.

Tanto para o franqueador quanto para o franqueado, era uma situação ganha-ganha: um aspirante a empreendedor conseguiu um negócio próprio, e a corporação de fast-food obteve uma infusão de capital muito necessária. Ainda mais significativo, a corporação ganhou um gerente compromissado e disposto a se arriscar, totalmente comprometido com ela e disposto a seguir instruções precisas sobre tudo, desde como fazer a contabilidade até como descascar batatas.

A vantagem da plena concorrência

À medida que as empresas de fast-food acumulavam dinheiro suficiente para abrir seus próprios restaurantes e ganharam a confiança de Wall Street, as principais redes de fast-food tiveram que decidir se continuariam com o modelo de franquia. No final, elas escolheram se engajar.

Em 1965, ano em que estreou na Bolsa de Valores de Nova York, o McDonald’s era uma empresa nacional com quase seiscentos estabelecimentos. A franquia tornou a empresa um sucesso, mas, como suas divulgações aos investidores deixaram claro, vender o nome para proprietários independentes era muito menos lucrativo do que possuir restaurantes diretamente. Embora os franqueados possuíssem 78% de seus restaurantes, as receitas deles chegavam a menos da metade das receitas que o McDonald’s fazia na minoria de restaurantes que possuía e operava. Buscando uma rota mais lucrativa, o McDonald’s começou a despejar dinheiro em seus próprios restaurantes, comprando franqueados e abrindo novos estabelecimentos do zero. Em 1973, a empresa possuía um terço de todos os restaurantes que levavam seu nome e, por um tempo, as franquias pareciam ser um modelo do passado.

Mas logo depois, a empresa reverteu o curso e dobrou a aposta em franquias. Um dos motivos foi a necessidade de parceiros experientes. Como Chatelain explica em Franchise: The Golden Arches and Black America [Franquia: Os Arcos Dourados e a América Negra], ao confiar em empreendedores locais para levar o McDonald’s a áreas como bairros do centro da cidade em Chicago e Washington, DC, os executivos predominantemente brancos da empresa aprenderam a valorizar os franqueados que entendiam intimamente os territórios que atendiam. Na época em que o McDonald’s e o KFC fizeram da expansão internacional uma grande prioridade, na década de 1970, indo além de países altamente desenvolvidos como Canadá e Reino Unido para territórios em desenvolvimento e países como Hong Kong e Indonésia, os executivos corporativos estavam mais do que dispostos a confiar em parceiros locais.

Mesmo nos subúrbios estadunidenses, onde ainda realizavam a maior parte de seus negócios, as empresas de fast-food tinham outro motivo para retornar às franquias com zelo renovado: o modelo as isolava dos custos trabalhistas, incluindo penalidades cobradas por abuso.

Entre no "ambiente de trabalho fissurado"

Para os clientes, a questão de quem é o dono de um determinado estabelecimento de fast-food não é central. Mas a franquia importa muito para os trabalhadores, pois os coloca em uma área nebulosa da economia trabalhista. É um conceito que o economista David Weil chama de “ambiente de trabalho fissurado”. Enquanto as corporações de fast-food definem as regras e padrões de como um restaurante deve operar, cabe aos franqueados aplicá-los. Quando os franqueados contornam a lei para atender às demandas da empresa, eles podem ser responsabilizados, mas as corporações de fast-food provavelmente não serão.

Eu mesmo senti um gostinho do “ambiente de trabalho fissurado” quando passei algumas semanas trabalhando em um McDonald’s da Califórnia há dois anos (uma experiência que detalhei na Jacobin no início deste ano). Embora soubesse que trabalhava para um franqueado, era óbvio que as regras e padrões que definiam o trabalho não vinham deles, mas da McDonald’s Corp.

Mais de um ano depois de deixar o emprego, descobri que tinha direito a um pequeno pagamento decorrente de uma ação coletiva sobre salários roubados e más condições de trabalho. Embora o processo tenha identificado o franqueado e não a McDonald’s Corp como réu, ele deixou claro que o franqueado apenas seguiu as regras da corporação. As “pesadas cargas de trabalho e a pressão para atingir uma meta de 60 segundos de retorno para clientes do drive-thru resultaram em falta crônica de pessoal” e levaram os gerentes a negar aos trabalhadores intervalos para refeições, disse. No dia a dia, “havia poucos funcionários de plantão para lidar com a carga de trabalho e atender aos clientes”. (O franqueado acabou resolvendo o caso fora do tribunal, mas não admitiu nenhuma irregularidade.)

Sob pressão para atingir certas “metas”, os gerentes pressionavam os trabalhadores a fazerem muito em muito pouco tempo e os forçavam a trabalhar sem pausas. Mas se perseguir uma meta irrealista era o problema fundamental, sua origem estava na McDonald’s Corp, não no franqueado.

Placas padronizadas posicionadas perto de caixas registradoras no McDonald’s em todo o país lembram os funcionários das metas de tempo para tarefas compostas, como receber um pedido e lidar com pagamentos. Para o gerente da loja, há outras metas e outros lembretes para atingi-las. E há metas e lembretes para o franqueado também — todos transmitidos pela McDonald’s Corp.

Embora a franqueada para a qual eu trabalhava (uma grande corporação, com cerca de quarenta restaurantes sob sua gestão) pudesse estar forçando os funcionários a atingir um padrão impossível, era uma padronização que vinha de cima.

Fragmentação da responsabilidade

O problema do ambiente de trabalho fissurado não está acima da regulamentação. A Califórnia chegou mais próximo de resolver o problema do que qualquer outra jurisdição quando lançou uma legislação que tornaria as corporações de fast-food e seus franqueados solidariamente responsáveis ​​por violações trabalhistas. Mas depois que a International Franchise Association (IFA), uma organização comercial de fast-food, adicionou uma proposta na votação estadual que poderia invalidar a lei, ela acabou negociando um acordo com o Service Employees International Union, que havia assumido a liderança na promoção do projeto de lei. A legislação resultante descartou a cláusula de responsabilidade solidária, mas aumentou o salário mínimo para trabalhadores de fast-food para US$ 20 por hora — o mais alto do país.

Para os grupos trabalhistas, o salário mínimo mais alto foi uma grande vitória. Mas o que muitos comemoraram como um passo à frente, na verdade, consolidou o poder das corporações de fast-food em detrimento dos trabalhadores. Salários mais altos podem sobrecarregar a indústria, mas, como praticamente todos os outros aspectos do emprego em fast-food, eles são um problema dos franqueados, não das empresas de fast-food. Para alcançar mudanças palpáveis nos direitos dos trabalhadores, o movimento trabalhista e as legislaturas terão que obrigar as empresas de fast-food a fazer o que os franqueados já fizeram há muito tempo: se comprometerem de verdade.

Colaborador

Alex Park é um escritor e pesquisador com interesse no comércio global e na agricultura na África.

26 de outubro de 2024

Cuba luta em meio a furacões, sanções e apagões

Em meio a dias de apagões e escassez, reportamos de Cuba, onde pessoas comuns estão pagando o preço por anos de sanções cada vez mais rigorosas dos EUA.

Ed Augustin


Cubanos conversam à noite em uma rua durante um apagão nacional em 18 de outubro de 2024, em Havana. (Adalberto Roque / AFP via Getty Images)

Dizer que Cuba teve uma semana difícil seria um eufemismo. Depois que uma falha na rede elétrica na sexta-feira passada causou quatro dias de apagões em todo o país e um furacão de categoria um atingiu a província oriental de Guantánamo na segunda-feira, matando sete, as luzes estão acesas na maior parte do tempo e as coisas se estabilizaram na ilha.

Nilza Valdés Núñez, 61 anos, de Guanabacoa, Havana Oriental, sente um pouco de alívio. Falei com ela na segunda-feira, um dia depois que sua mãe de 81 anos cozinhou toda a carne descongelada no freezer que seu irmão na Flórida havia comprado para eles.

"A falta de eletricidade, de gás e todos os outros problemas que temos aqui", disse, parando com lágrimas nos olhos, mas fúria na voz, "fazem você se sentir tão mal".

O freezer vazio de Nilza Valdés Núñez. (Ed Augustin/Jacobin)

Em um momento em que mais de um milhão de lares cubanos já estão sem água encanada, os cortes de energia agravaram o problema ao desativar as bombas. As pessoas carregavam água para suas casas em baldes de cisternas e poços próximos.

Antes dos apagões, o preço de rua de um saco de dez pãezinhos em seu bairro era de cerca de 50 centavos (150 pesos). Depois disso, ele disparou para quase um dólar (280 pesos).

Uma vez praticamente vencida, a fome retornou a Cuba nos últimos anos, pois as rações alimentares garantidas pelo Estado foram cortadas. Com a escassez de alimentos estragados e os preços subindo na última semana, alguns que dependem de salários ou pensões do Estado e não têm parentes para ajudá-los do exterior agora estão sentindo o aperto tanto quanto as pessoas estavam no Período Especial após o colapso da União Soviética.

Ao mesmo tempo, a resiliência do país é impressionante. Grandes cortes de energia como esse aterrorizariam as pessoas em outros países, mas muitos que conheci os encaravam com calma e até mesmo com indiferença.

Brincando em seu telefone na velha Havana, ao lado de um prédio de três andares em ruínas com uma árvore crescendo em seu telhado, Anyeli Imbert me disse: “Não é assustador para nós quando as luzes se apagam porque estamos acostumados. Não é grande coisa.”

Anyeli Imbert em Havana. (Ed Augustin / Jacobin)

A resiliência de outras pessoas se manifestou no humor. "Essas coisas acontecem", disse Yosvani Valdés, no mesmo quarteirão. "As luzes se apagam no Japão quando há tufões. As luzes se apagam em Houston algumas semanas atrás quando houve um ciclone lá. As pessoas exageram nessas coisas, mas nós, cubanos, enfrentamos a adversidade com risadas e sempre encontramos uma maneira de superar."

Uma crise de legitimidade

Enquanto isso, o Partido Comunista de Cuba enfrenta sua maior crise política de todos os tempos. Quatro tentativas fracassadas de colocar a rede elétrica nacional de volta online ressaltaram uma sensação crescente de que o governo está sobrecarregado pela magnitude das múltiplas crises, muitas das quais estão enraizadas em sanções abrangentes dos EUA. Economicamente, está falido. Ideologicamente, não promulgou totalmente seu próprio programa de reforma, formalmente acordado no Sexto Congresso do Partido Comunista, em 2011.

Em muitos sentidos, a economia de mercado expandida está mantendo o show na estrada: mais alimentos são importados agora pelo setor privado do que pelo estado murcho. Mas a desigualdade crescente que isso trouxe também minou a sensação de que todos estão enfrentando a crise juntos — uma grande diferença entre o Período Especial de trinta anos atrás e hoje. Pessoas que não tomam café da manhã agora veem autoridades acima do peso na televisão exortando-as a apertar ainda mais os cintos. A justiça social foi corroída e, com ela, grande parte da legitimidade do governo.

Falando sobre as interrupções em Washington, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, disse na segunda-feira que os Estados Unidos estão "preocupados com os potenciais impactos humanitários no povo cubano". Rindo como se a alegação fosse absurda, ela acrescentou: "Só quero deixar claro que os EUA não são os culpados pelos apagões na ilha".

Na verdade, as sanções dos EUA são um dos principais impulsionadores da crise energética da ilha. É preciso uma audácia impressionante para negar isso.

Washington mira especificamente em petroleiros que entregam o combustível de que a ilha precisa para manter as luzes acesas. Ao congelar ativos de navios que entregam petróleo, o Departamento do Tesouro deixa Cuba com menos fornecedores, aumentando os custos de energia da ilha. As sanções dos EUA são um dos principais impulsionadores da crise energética da ilha. É preciso uma audácia impressionante para negar isso.

De forma mais ampla, na última década, as sanções a Cuba foram aumentadas para níveis sem precedentes. O governo Joe Biden deixou em vigor as sanções mais potentes promulgadas pelo governo Donald Trump, incluindo o poderoso Título III de Helms-Burton, que congela o investimento na ilha, e a falsa acusação de que Cuba patrocina o terrorismo, o que o exclui de grande parte do sistema bancário mundial. Economistas calculam que essas novas sanções custam ao estado bilhões de dólares por ano — deixando menos dinheiro para importar petróleo, consertar infraestrutura obsoleta e importar painéis solares.

“Estamos fazendo tudo o que podemos para tornar o mais difícil possível para Cuba manter as luzes acesas”, disse Fulton Armstrong, que anteriormente atuou como o principal oficial de inteligência dos EUA para a América Latina e agora é um membro sênior do Centro de Estudos Latino-Americanos e Latinos da American University.

Ele acrescentou que “as pessoas no Departamento de Estado ficaram alarmadas com a eficiência de suas ameaças” ao setor privado. A meticulosidade da aplicação de sanções pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) no Departamento do Tesouro criou uma cultura de “excesso de conformidade” no setor privado, disse ele, onde as empresas evitam negociar com Cuba porque as regulamentações ambíguas e a severidade das penalidades fazem com que não valha a pena. “Antigamente, o OFAC tinha vinte ou vinte e cinco pessoas dedicadas a Cuba”, disse ele. “Mas na era digital, você tem essas grandes burocracias para caçar pessoas que podem estar violando nosso embargo e para assediar o setor privado nos EUA, Europa e América Latina.”

Durante a administração Biden, houve uma estranha desconexão entre a realidade das sanções e a maneira como elas são abordadas. Enquanto a administração Trump se gabava de como suas sanções de “pressão máxima” prejudicariam a ilha, a administração Biden manteve o cerne do regime de sanções em vigor, mas nega categoricamente que tenha algo a ver com as crises de Cuba.

Medidas de fachada ajudam nesse esforço. Joy Gordon, especialista em sanções da Loyola University Chicago, apelidou isso de “teatralidade da preocupação humanitária” em um artigo do ano passado. No que ela descreve como um comunicado de imprensa “efusivamente autocongratulatório”, o OFAC anunciou “licenças gerais” para bens humanitários em países sancionados pelos Estados Unidos. “O fornecimento de apoio humanitário para aliviar o sofrimento de populações vulneráveis ​​é central para nossos valores americanos”, disse o OFAC. Mas a severidade do regime geral de sanções significa que as licenças gerais não permitem realmente que mais bens humanitários entrem. Para a maioria dos dez milhões de habitantes da ilha, o momento é perigoso.

Após as quedas de energia e o último furacão, houve uma onda de organização por pessoas nos Estados Unidos que exigem um relacionamento diferente com Cuba. Centenas de ativistas participaram de uma reunião de emergência online esta semana organizada pela Massachusetts Peace Action. Especialistas em Cuba com décadas de experiência assinaram uma carta aberta ao presidente Biden pedindo que ele aliviasse as sanções e fornecesse ajuda americana ao povo cubano durante suas últimas semanas no cargo.

Mas a crise energética da ilha não vai acabar tão cedo. Muitas das usinas de energia da era soviética estão se aproximando de meio século. O país mal consegue comprar peças de reposição e não consegue importar petróleo suficiente para manter as luzes acesas. Colocar a rede elétrica de volta online e voltar ao "normal" significa que milhões de pessoas, especialmente aquelas fora de Havana, suportarão longas quedas de energia todos os dias.

E os eventos desta semana deram início a um ciclo vicioso que será difícil de quebrar. Após as quedas de energia nacionais, o Canadá, de onde mais turistas visitam Cuba a cada ano do que qualquer outro lugar, atualizou seu aviso de viagem para a ilha. A redução da receita do turismo tornaria ainda mais difícil para o governo sair da crise energética.

No final das contas, analistas dizem que a modernização da rede elétrica de Cuba exigirá assistência externa. Não há muito no horizonte. A pressão dos EUA impede Cuba de recorrer ao Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional ou Banco Interamericano de Desenvolvimento para obter apoio. As entregas de petróleo venezuelano, enviadas a Cuba em troca de médicos, enfermeiros e professores que trabalham na Venezuela desde 2000, caíram significativamente nos últimos anos. O México ofereceu assistência técnica para manter a rede funcionando. Mas a Rússia e a China, grandes participantes que certamente foram consultados esta semana, não mostraram sinais de intervir decisivamente.

Para a maioria dos dez milhões de habitantes da ilha, o momento é perigoso.

Colaborador

Ed Augustin é um jornalista britânico baseado em Cuba.

17 de março de 2024

Del Monte está transformando o Quênia em uma república dos abacaxis

A impunidade da Del Monte no Quênia vai além do suposto assassinato de ladrões de abacaxi. A influência da corporação dos EUA sobre o estado, permitiu-os engolir a terra e o trabalho dos quenianos por inteiro em sua busca pelo lucro.

Tyler Antonio Lynch


Um vendedor exibe abacaxis enquanto espera por clientes em um mercado informal na estrada em frente às plantações de abacaxi de Del Monte em Kabati, no Quênia, em 18 de janeiro de 2024. (Simon Maina/AFP via Getty Images)

Tradução / Na fértil região de Thika, no Quênia, ao norte de Nairóbi, roubar abacaxis é considerado um crime capital de fato. Pelo menos nove homens foram supostamente mortos por guardas de segurança empregados pela Del Monte, o maior produtor mundial de abacaxis.

Essa série de assassinatos ganhou destaque internacional pela primeira vez em junho de 2023, quando o The Guardian expôs uma lista de mortes e agressões violentas pelo aparato de segurança privada que a Del Monte emprega para proteger sua safra de ladrões. Os guardas de segurança da corporação foram acusados pelos moradores locais de matar nove homens com idades entre vinte e dois e cinquenta e dois anos desde 2013 — “além de cinco estupros, alegações de ferimentos graves, incluindo ferimentos na cabeça, ossos quebrados e cortes de lâminas que exigiram pontos.”

Os assassinatos em questão foram brutais, com a maioria das vítimas morrendo de traumas infligidos por cacetes, pedras e punhos. As tentativas de se livrar dos corpos mortos na propriedade da Del Monte foram igualmente grosseiras. O corpo de Stephen Thuo Nyoike, morto aos vinte e dois anos, foi encontrado estrangulado com arame ao lado de uma estrada pública. Saidi Ngotho Ndungu foi encontrado boiando em uma represa, enquanto os corpos de quatro homens foram recuperados de um rio no dia de Natal.

O fato da segurança privada de uma grande corporação estar envolvida nos assassinatos extrajudiciais de quase uma dúzia de homens acusados de roubar frutas, é suficientemente chocante. Some a isso, a natureza brutal dos assassinatos — muitos tão prolongados que testemunhas ouviram as vítimas implorando por suas vidas — e o descarte insensível dos corpos nas margens das estradas e represas.

Não é de se admirar, então, que a condenação dos ataques letais da Del Monte tenha sido rápida e generalizada. Após os relatos do Guardian, as principais redes de supermercados do Reino Unido, Tesco e Waitrose, rapidamente retiraram os abacaxis do Quênia da Del Monte de suas prateleiras.

Mas os crimes da Del Monte não se limitam às transgressões de alguns guardas de segurança violentos. Sua exploração da terra, do trabalho e da lei do Quênia é sistemática e grave, desde a polícia local até membros do parlamento.

Esta é a vida e a morte na República do Abacaxi.

"Sem lesões visíveis"

Como se pode assassinar nove homens por roubar frutas e sair impune? As supostas vítimas da Del Monte eram principalmente jovens pobres e desempregados, e, portanto, facilmente descartados como membros de gangues e ladrões.

No entanto, os depoimentos de familiares das vítimas apontam para um sistema mais amplo de encobrimentos e conluio entre a Del Monte e as autoridades policiais quenianas. Nos condados de Murang’a e Kiambu, através dos quais se estende a enorme plantação de Thika, a Del Monte parece estar acima da lei. Mesmo quando seus guardas são diretamente acusados de assassinato, como no caso do assassinato de Bernard Murigi em 2019, cinco anos se passaram sem sinal de julgamento.

Como se pode assassinar nove homens por roubar frutas e sair impune?

Com mais frequência, as mortes são classificadas como acidentes, apesar das evidências apontarem o contrário. Em pelo menos duas ocasiões, a Del Monte pagou pelas investigações forenses de suas próprias supostas vítimas, empregando um patologista disposto a concluir que os cadáveres espancados estavam desprovidos de lesões visíveis. Testemunhas relataram que Saidi Ndungu implorava por sua vida enquanto os guardas da Del Monte o espancava com cacetetes — mas seu atestado de óbito “apontou o afogamento como a causa”.

Quando quatro corpos foram encontrados em um rio no Natal de 2023, a Del Monte insistiu que esses supostos ladrões haviam simplesmente se afogado durante uma invasão mal sucedida. Testemunhas relataram guardas espancando os homens com barras de metal, jogando corpos no rio e atirando pedras naqueles que nadavam para longe.

Em outros lugares, a polícia aparentemente colaborou com a Del Monte para falsificar testemunhos e destruir evidências. Em janeiro, após o incidente do rio, a Del Monte supostamente atraiu testemunhas potenciais para sua propriedade com a promessa de dinheiro e empregos, onde policiais tentaram pressioná-las a assinar declarações afirmando que as mortes de dezembro foram afogamentos acidentais. A apatia da polícia em relação às vítimas é igualmente ubíqua. “Eles não gostam de buscar justiça”, disse um homem aleijado pelos guardas da Del Monte. “Eles só te dão [um formulário para preencher] e isso é tudo.”

Guardas de segurança que matam com impunidade, policiais corruptos e patologistas forenses dispostos a falsificar evidências médicas — embora grotesco, é um pouco mais do que a base do edifício de exploração da Del Monte ergueu no Quênia costuma fazer. Entender o status privilegiado da Del Monte requer entender a economia da exportação de frutas tropicais em larga escala internacional.

"Motor econômico crítico"

A Del Monte trouxe a indústria do abacaxi para o Quênia em 1965, mas as corporações ocidentais, que se apropriam de terras no Sul Global para cultivar culturas comerciais para exportação, são um fenômeno muito antigo.

Esse modelo é a mola mestra das práticas abusivas da Del Monte — assim como motivou as atrocidades que a United Fruit infligiu à América Central na época da chamada República das Bananas. A produção de frutas tropicais é uma indústria multibilionária, não apenas porque as margens de lucro sejam particularmente altas, mas porque corporações como a Del Monte podem se beneficiar de grandes extensões de terra e mão de obra barata em países periféricos ansiosos por exportações de qualquer tipo. Terra acessível, mão de obra barata e políticos corruptos são as condições necessárias para o império global da Del Monte.

No entanto, as agro corporações que produzem culturas comerciais para exportação, dificilmente proporcionam ao estado um caminho seguro para a prosperidade econômica. Embora a Del Monte empregue diretamente cerca de sete mil quenianos, a maioria deles é relegada ao trabalho manual precário e mal remunerado.

Mesmo com margens de lucro relativamente baixas, a exploração da terra e da mão de obra africana ainda é um grande negócio. A Del Monte é a maior empregadora do setor privado no Quênia, com despesas anuais de receita superiores a US$100 milhões. Mais importante para um país envolto em dívida denominada em dólares, a Del Monte gera cerca de US$62 milhões em divisas estrangeiras. Tudo isso é suficiente para garantir à Del Monte a proteção servil do estado queniano, com a corporação sendo “considerada um motor econômico crítico tanto no Condado de Murang’a quanto nacionalmente”.

Desde 2021, o governo queniano prometeu apoio à Del Monte na forma de isenções fiscais, “incentivos políticos” nebulosos e levantamentos de terras gratuitos. Em troca, a Del Monte prometeu continuar pagando impostos e, nas palavras do governo, “implementar mais programas de Responsabilidade Social Corporativa transformacionais [sic]”. Assim, mesmo enquanto os cidadãos do Quênia enfrentam uma crise do custo de vida sob aumentos de impostos punitivos, com a maioria do país sofrendo com a crise alimentar, a Del Monte cultiva frutas exóticas para mercados estrangeiros. Essas grandes multinacionais desfrutam de uma carga tributária mais baixa, com a promessa de cumprir responsabilidades sociais abandonadas pelo próprio estado.

"Não sobrou mais terra para ser vendida"

Isenções fiscais e políticas favoráveis são úteis, mas nada ilustra melhor o controle da Del Monte sobre o estado queniano, do que o controle da corporação sobre a terra. Na verdade, ninguém — nem mesmo o governo queniano — sabe exatamente quantas terras a Del Monte possui no país.

A empresa afirmou possuir 22.500 acres; o governo estima suas propriedades em 32.240 acres. O Comitê Parlamentar de Terras afirma que a Del Monte tem um contrato de arrendamento para apenas 20.000 acres. E, de qualquer forma, a Del Monte usa apenas cerca de 14.000 acres para o cultivo e processamento de abacaxis.
 
Desnecessário dizer que a propriedade de mais de 20.000 acres de terras agrícolas produtivas por uma multinacional não passou despercebida. Em 2020, com o contrato de arrendamento da Del Monte para milhares de acres de terras férteis em Thika prestes a expirar, moradores locais e políticos federais clamavam pela liberação da terra de interesse público.

A memória dos moradores locais das desapropriações que antecederam a criação da plantação, continua forte. Um grupo de manifestantes e moradores de Kandara tem travado uma longa batalha legal para forçar a Del Monte a liberar cerca de 7.500 acres sob a alegação de que "são terras ancestrais que o processador ocupa 'à força'".

A Comissão Nacional de Terras reforçou essas demandas em 2020, ordenando que a Del Monte alienasse uma pequena parcela de terra para os municípios locais “para fins de reassentamento e utilidades públicas”. Em 2021, o Parlamento reafirmou que o contrato de arrendamento da Del Monte não deveria ser renovado até que os acres em questão fossem alocados para os moradores locais.

Dois anos depois, os moradores ainda não haviam visto um único pedaço daquela terra. Em um ato de pura farsa, o contrato de arrendamento da Del Monte havia sido de alguma forma renovado. Diante dessa flagrante desconsideração da decisão judicial, para muitos quenianos, a única explicação plausível é a associação direta entre a Del Monte e os políticos locais.

No cenário de disputas legais sobre a pequena quantidade de terra, a Del Monte vem silenciosamente transferindo propriedades para empresas de fachada e aliados ricos, em vez de vê-las serem direcionadas para os moradores locais. Às vezes, a corporação negocia em territórios que nem sequer pode legalmente possuir: uma ação judicial movida por moradores de Kandara alega que, desde 2010, a Del Monte vem transferindo terras públicas para empresas de holding para subdividir e vender. Nas proximidades, uma proeminente família do Condado de Kiambu foi beneficiária de impressionantes três mil acres da Del Monte — os quais “imediatamente arrendou de volta para o processador”.

A mera incerteza em torno das negociações secretas de terra da Del Monte tem sido um campo aberto para os fraudadores. Golpistas que afirmam vender lotes de terras da empresa embolsaram cerca de US$164.000 antes que a fraude se tornasse notícia nacional. Um funcionário de Murang’a criticou aqueles que foram tolos o suficiente para cair no golpe, declarando “as pessoas a perceberem que não sobrou mais terra para ser vendida em qualquer lugar deste país.”

Exceto, aparentemente, se você for rico.

"Talvez escravos"

Ao lado da terra, a mão de obra barata é o recurso mais valioso que a Del Monte extrai do Quênia. As corporações de frutas tropicais sempre dependeram de manter grandes contingentes de trabalhadores em precariedade perpétua. Com a demanda por trabalho variando amplamente entre a temporada de colheita e o resto do ano, processadoras de frutas como a Del Monte têm todo o incentivo para manter seus trabalhadores em contratos flexíveis, com poucas garantias de trabalho constante.

Assim, em outubro de 2023, em uma aparente tentativa de “diminuir os custos operacionais”, a Del Monte Kenya informou aos seus trabalhadores eventuais para esperar apenas treze dias de trabalho por mês. No entanto, mesmo esse número parece inflado. De acordo com o porta-voz dos trabalhadores, Stephen Makau, o número real de dias em que a maioria dos trabalhadores estava atuando a cada mês eram apenas três.

“Estamos sofrendo e estamos passando por um inferno”, afirmou Makau. “Nossos contra-cheques estão refletindo zero xelins como salário líquido. Não podemos economizar e não podemos mais ser descritos como trabalhadores… talvez escravos.”

Os funcionários da Del Monte não aceitaram passivamente sua exploração.

Na verdade, greves e resistência às violações trabalhistas remontam a quase quatro décadas. Um relatório de 2002 da Comissão de Direitos Humanos do Quênia detalhou uma série de abusos e condições perigosas sustentadas desde os anos 1980. Trabalhadores queimados por ácido sulfúrico, demitidos por atividade sindical e mortos de malária depois que as clínicas da empresa lhes recusaram tratamento — esses seriam apenas alguns dos casos.

Diante de uma exploração atroz, os funcionários da Del Monte continuam a se envolver em greves e negociações coletivas, com trabalhadores de Murang’a exigindo que a corporação implemente um mínimo mensal de dezoito dias úteis e use suas terras em descanso, para cultivar culturas como milho e mandioca. Para os trabalhadores das plantações, até a subsistência deve ser reivindicada — sendo que a empresa ainda insistiu em declarar que a greve de 2021, de seis mil funcionários, era completamente ilegal.

Diante dessas demandas, não apenas a Del Monte, mas um conjunto de instituições estatais ficam desesperadas para evitar qualquer interrupção. A Organização Central de Sindicatos admite livremente que a Del Monte é simplesmente grande demais para falhar. Como um membro do conselho deixa bem entendido “em uma economia que precisa desesperadamente de oportunidades de emprego, impostos e divisas estrangeiras, não temos escolha a não ser apoiar a Del Monte como um ativo nacional e um elo importante, bem como, nosso aliado amigável que é a América.”

Assim, para a liderança do sindicato dos trabalhadores agrícolas do Quênia, a prioridade não é garantir práticas trabalhistas justas, mas alertar ao governo de que “o país sofrerá muito se a Del Monte quebrar.” Uma admissão reveladora de que o modelo de negócios em questão depende de manter os trabalhadores em condições pouco diferentes da escravidão.

"Brutalizando nosso povo"

Uma quantidade crescente de processos civis, investigações governamentais e boicotes de varejo não augura nada de bom para a Del Monte Kenya. No entanto, a empresa mais ou menos se recusou a assumir qualquer responsabilidade pelas nove mortes e dezenas de agressões violentas atribuídas a ela, com porta-vozes corporativos lembrando alegremente ao público do “compromisso de longa data da Del Monte com os direitos humanos”.

De fato, a Del Monte não apenas rejeitou seu suposto mau tratamento aos quenianos, mas também o direito do Quênia de responsabilizá-la legalmente, de qualquer forma que seja. Enfrentando um processo civil de grupos de direitos humanos, a Fresh Del Monte — a empresa-mãe de sua subsidiária queniana homônima — argumentou que, como estava domiciliada nas Ilhas Cayman, nenhum tribunal queniano tinha jurisdição para julgá-la. Os advogados do processo civil não ficaram impressionados. “É muito irresponsável da Del Monte nos dizer que estão baseados nas Ilhas Cayman e que não podem ser processados”, afirmou Mwangi Macharia, “mas podem cultivar abacaxis na África.”

Essa esquiva de responsabilidade se alinha perfeitamente com a relação mais ampla entre a Del Monte e seu país anfitrião. Para a primeira, o Quênia é simplesmente mais um local para construir a mesma máquina agrícola comercial, orientada para a exportação que opera na Costa Rica e nas Filipinas. Sua produção de abacaxis pode envolver terra e mão de obra africanas, mas a Del Monte está determinada a não ser de forma alguma responsável pelas pessoas africanas.

Com um eco marcante das antigas Repúblicas das Bananas, a Del Monte criou um espaço de impunidade no sudoeste do Quênia. Em suas vastas propriedades, a Del Monte engole a terra e a mão de obra inteiras em sua busca por lucros com exportações, defendendo sua riqueza tropical — na medida em que os locais estão sendo prejudicados em diversas esferas tanto com ausência de seguridade de trabalho e de vida.

Esse regime exige a cumplicidade das autoridades locais e estatais do Quênia para proteger a Del Monte de reações populares e escrutínio legal — a fim de obter divisas cruciais e proteger o status do Quênia com as corporações dos EUA. Parentes dos homens supostamente mortos por conta de um saco de frutas no valor de $10, temos pouca ilusão sobre a hierarquia de valor que existe no país, por parte da Del Monte. “Eles não valorizam a vida,” disse o pai de Stephen Nyoike. “O que eles mais valorizam são os abacaxis.”

Não há dúvida de que as operações da Del Monte, apesar de seu óbvio impacto econômico, impuseram um custo terrível ao Quênia. “É importante que o mundo saiba,” afirma Macharia, “que esta empresa americana está brutalizando nosso povo, matando nossa população, estuprando nossas mulheres e destruindo o meio ambiente.” Nenhuma fruta é doce o suficiente para superar esse gosto amargo.

Colaborador

Tyler Antonio Lynch obteve seu mestrado em Política e Estudos Internacionais pela Universidade de Cambridge. Ele escreve no Crooked Places no Substack.

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